sábado, 7 de dezembro de 2013

sexta-feira, 6 de dezembro de 2013

Só quando chegar a hora


Como num livro de Kafka, dias há em que se acorda outra coisa. Nem humano, nem bicho. Algo. Foi assim naquela manhã. Ela despertou e não estava mais. Havia como que um vazio de si. Talvez fosse a exaustão de tantas dores, derrotas, medos, prenúncios. Ainda assim, levantou, resoluta. Iria fazer como no lindo filme “A excêntrica família de Antônia”, no qual a personagem central, depois de uma vida inteira de embates com tudo ao seu redor, ajeita as coisas no seu cotidiano, festeja a vida,  deita-se tranquilamente e morre. Poderia tentar. Quem sabe. Feito Antônia, ela também era um “tanque de guerra”, puro “acero”, capaz de enfrentar qualquer peleia. Talvez por isso voejassem à sua volta tantos seres, se amparando.

Naquela manhã em que fraquejou não conseguia entender porque a ela não permitiam a fragilidade. Ou será que fora ela mesmo que nunca se deixara ficar, fraca e indefesa, a espera de um herói? Que mania tinha de, ao primeiro soar da batalha, se postar à frente, peito aberto, arma em punho.   Por que raios não pedia proteção? Por isso ninguém nunca acreditava em sua dor. E não havia outro remédio senão engoli-la e seguir, abrindo os caminhos à facão.

Lembrou do dia em que saiu de casa no rumo do sul, com apenas uma velha mochila militar. Tinha tanto medo, mas o olhar era firme, como se caminhasse para o paraíso. E tudo o que tinha era um senão, um grande talvez. Perdeu a conta das noites insones, da fome roendo, do corpo enregelado, da solidão. E ela nem rangia os dentes. Passou ventos, tormentas, temporais, olhou bem dentro do abismo, viu o que havia lá e não deixou escapar um pio. Carregou essa imagem sempre bem guardada, atrás do riso, colocado na cara como um reboco. Ninguém precisava saber.

E agora, essa exaustão, esse suspiro de angústia. De novo, lembrou o filme de Antônia. Lá, há um personagem que fala dessa dor, que não passa. É o Dedo Torto : "(...) É absurdo crer que a dor constate que nos aflige seja apenas momentânea . Pelo contrário: a desgraça é a regra e não a exceção. A quem culpar por nossa existência? A explosão solar que nos deus a vida? Eu me acuso, já que não creio em Deus ou reencarnação, se acreditasse poderia me iludir de que a vida nos promete uma divina sobremesa após uma indigesta refeição. Não quero mais pensar, acima de tudo não quero pensar". Dito isso, ele se entrega.

Mas, para a mulher, parece meio tolo desistir por vontade própria, antes do tempo. Afinal, de que valeria tudo o que já foi? Talvez seja preciso esperar, que chegue a hora, como Antônia. Firme, cheia de poder sobre si mesma. Então, ela trata de retomar as rédeas dos demônios que andam soltos. Que se aquietem. Que voltem para as sombras, para o fundo do abismo. A vida cobra a faina do dia-a-dia. Roupas para cerzir, passeatas para seguir, passeios para varrer, gatos para cuidar, textos para escrever, gentes para proteger, caminhos para trilhar.

No muro, uma coruja move lentamente a cabeça, desafiando a lógica. Um quero-quero se esganiça anunciando algum viandante. É noite escura. Não há estrelas, prenuncia mais um temporal. Ela recolhe a lágrima, apruma o corpo e ainda encontra tempo para lavar a louça que sobrou do café. Tudo está limpo. Hora de dormir. Talvez sonhar.


Ainda não é tempo de ir.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

A comunicação da UFSC

Breves notas sobre a comunicação da UFSC


Poucas vezes na história da UFSC a comunicação entre a universidade e a comunidade esteve tão ruim. A opinião pública é bombardeada com informações desde fora – quase sempre negativas - e, desde dentro a universidade não consegue estabelecer um diálogo real com a cidade. Há uma aposta nas mídias eletrônicas e sociais, sem eficácia. Perde a gestão, perde a comunidade universitária e perde a cidade, que fica com uma visão distorcida dos fatos que acontecem na UFSC. A universidade não consegue falar de si, passando uma visão amadora da administração e de todo o seu quadro de trabalhadores. A reitora parece estar orientada a não falar com os jornalistas e a não responder as críticas. Ela está blindada pela assessoria,  deixando de ser uma fonte acessível aos profissionais de imprensa, perdendo a oportunidade de se colocar como sujeito político não só no que diz respeito a vida da universidade, mas também com relação aos grandes temas locais, como é o caso do Plano Diretor.

Apesar de contar com uma agência de comunicação, que já foi modelo em nível nacional, a nova administração preferiu atuar desde o gabinete, destruindo, inclusive, a política pública que há décadas vinha sendo construída pelos trabalhadores e dirigindo a forma de comunicar na universidade. A primeira atitude, logo no início do mandato, foi rebaixar o status da agência. Foi retirado o cargo de direção e a agência virou uma coordenação, apenas com chefia, totalmente subordinada ao gabinete. Toda a produção passou a ser comandada a partir da administração central por uma professora do Curso de Jornalismo que não estabeleceu qualquer vivência cotidiana no espaço da agência, enquanto os jornalistas de carreira passaram à condição de cumpridores de ordens vindas de cima, sem participação no debate da nova linha de comunicação imposta. É bom que se lembre que a Agência de Comunicação da UFSC, historicamente, quase sempre foi dirigida por jornalistas do quadro. Essa foi uma batalha travada pelos Técnico-Administrativos em Educação (TAEs) durante muito tempo e vencida, marcando um espaço de respeito pelos profissionais que ali atuam e que, tal e qual um professor, tem capacidade técnica e política para atuar no cargo.  Apenas em duas situações - muito particulares - um professor do Curso de Jornalismo assumiu a condução dos trabalhos, e nessas duas oportunidades os problemas foram muitos.

O primeiro desses mandatos de docentes teve como protagonista o professor Bonifácio Bertoldo (originário da filosofia, mas atuando no jornalismo) e a reação dos trabalhadores foi imediata. A gestão foi conflituosa e durou poucos meses, com os TAEs garantindo o espaço e a atuação. O segundo professor do Curso de Jornalismo a assumir a Agecom foi Áureo Moraes, que também teve muita oposição, uma vez que assumiu o comando da agência num momento muito singular, em plena greve de TAEs e de professores na UFSC, pegando os trabalhadores da agência de surpresa. Na verdade, foi um golpe dado pelo então reitor Rodolfo Pinto da Luz, que queria uma comunicação chapa branca e aproveitou-se do momento em que boa parte dos trabalhadores estava em luta, fora do espaço de trabalho, para fazer a mudança, exonerando o então diretor, um TAE, sem qualquer conversa. A partir desse fato único, a gestão do professor do Jornalismo que se seguiu foi bastante polêmica, com casos de censura a jornalistas do quadro, impedimento do exercício profissional e de assédio moral. Quando, por fim, a agência voltou a ser dirigida por um técnico-administrativo, estava já bastante debilitada, uma vez que vários trabalhadores saíram do setor.

É fato que para os trabalhadores da época, grupo no qual eu, inclusive, me incluía, o grande debate nem era se o novo diretor era ou não professor. A polêmica se deu em função da forma como o reitor Rodolfo Pinto da Luz e seu vice- Lúcio Botelho, conduziram a questão, sem nenhum diálogo e de forma sub-reptícia, num momento de greve. Por outro lado, a luta dos TAES, que levou mais de 20 anos, para que a agência fosse reconhecida como um espaço de comunicação institucional, profissional, também estava em jogo. Afinal, ao trazer um professor do Curso de Jornalismo para dirigir a agência, o reitor buscava também tornar o espaço um local de ensino, com os estudantes do curso fazendo o trabalho de jornalistas profissionais. Coisa com a qual os trabalhadores não concordavam e queiram discutir. Mas, não houve diálogo. O próprio processo de trabalho mudou totalmente, com o novo diretor, dizendo na primeira reunião de equipe: "a democracia que havia aqui, acabou". E assim foi.   Com ele, a política pública de comunicação criada e desenvolvida pelos trabalhadores, ganhadora do Prêmio José Reis de Divulgação Científica e modelo para boa parte das agências que se criaram nas universidades brasileiras, foi negligenciada.

Com o retorno de Moacir Loth, trabalhador técnico-administrativo, jornalista de carreira, à direção da agência, pós-Áureo Moraes, o processo de política pública foi sendo retomado, mas andou bastante capenga, na medida em que divergia do projeto dos reitores Lúcio Botelho e Álvaro Prata que, de certa forma, eram uma continuidade do projeto rodolfista. Ainda assim, aos trancos e barrancos, foi mantido o Jornal Universitário (JU), histórico periódico da UFSC, de tiragem quinzenal, com algum espaço para a opinião crítica e reportagens sobre temas da UFSC e da política nacional. O JU sempre se caracterizou por ser, com seus limites, um dos espaços de comunicação mais importantes e democráticos da instituição. A vida da comunidade universitária e sua relação com a conjuntura nacional passava por ali. Grandes reportagens eram produzidas, o debate fluía. Mas, com o passar do tempo também o JU foi escasseando, aumentando o intervalo entre uma edição e outra, e a política de trabalho assumiu cores mais oficialistas. Ainda assim, um pequeno grupo resistia, fazendo o jornal, apostando na reportagem, garantindo a opinião divergente, além de começar o trabalho de entrada no mundo virtual das redes sociais e outras parafernálias tecnológicas.

Gestão Roselane/Lúcia

Agora, na gestão Roselane/Lúcia - que se elegeu no escopo de um projeto mais progressista -  já não há mais vestígios nem da antiga política pública de comunicação, nem do Jornal Universitário, que simplesmente sumiu do mapa. A comunicação tornou-se unicamente on-line, sem espaço para o debate público acerca dos problemas e desafios da UFSC, o que sempre aconteceu através das opiniões que eram publicadas no JU. Para avivar a memória é bom lembrar que a política pública de comunicação da UFSC foi elaborada em 1987 pelo grupo de jornalistas que atuava na agência, e tinha como objetivo fugir da lógica redutora do jornalismo chapa-branca (oficialista), buscando realizar uma comunicação capaz de articular as várias correntes de pensamento dentro da instituição, com prioridade para os fatos jornalísticos, comunicação crítica e bastante espaço para a opinião, gerando intenso debate dentro e fora da universidade. Numa instituição conservadora como a UFSC a proposta até que durou muito tempo, sempre defendida pelo grupo de jornalistas do quadro, e foi ponta de lança de um movimento que  se espalhou pelas agências de comunicação das universidades federais. Muitas delas foram organizadas aos moldes da Agecom da UFSC.

E o interessante é que nos fóruns realizados pela administração, antes de iniciar o mandato, o tema da comunicação foi bastante discutido. Todos os jornalistas foram ouvidos e, sem dúvida, a maioria deles destacou a política pública de comunicação como um avanço importantíssimo que não poderia sofrer revés, ao contrário, deveria ser retomada com toda a força, para se diferenciar da mediocridade com que as administrações anteriores haviam tratado o tema, optando pelo oficialismo e pela falta de espaço crítico. Mas, a demanda dos jornalistas não foi escutada e a política que a nova gestão decidiu implantar em nada se identifica com o processo iniciado em 1987.

Hoje, temas polêmicos como os que envolveram as panelas do Restaurante Universitário, a compra do prédio Santa Clara e o fechamento do campus, não encontram espaço de debate na comunicação institucional. Outros, como as 30 para os TAEs são escondidos ou desvirtuados. A administração se comunica através de notas explicativas, oficiais, que circulam apenas na internet, com textos insossos, sem contextualização, sem interpretação dos fatos e, por vezes, sem informação de qualidade. Ou seja, não se faz jornalismo. O que existe é uma comunicação aos moldes da comunicação empresarial, propagandística. Mas, não da universidade, e sim da gestão. Nesse sentido, a UFSC vai perdendo o debate na mídia. Na medida em que age como uma "empresa", perde credibilidade. Passa a impressão de que é dirigida por amadores, incapazes de se comunicar com a comunidade externa e interna.

E é importante ressaltar que isso não se dá por falta de competência do quadro de jornalistas. É simplesmente a escolha por uma nova política que não dá espaço para a autonomia e o espírito crítico dos trabalhadores.  Assim, em vez de a administração atuar potencializando o diálogo com a comunidade através dos instrumentos de comunicação, ela os subutiliza, desconstrói e prefere o modelo de respostas evasivas aos problemas que, primeiro, aparecem na imprensa comercial. É uma resposta reativa, que não expõe os problemas e evita a discussão em profundidade. Sabe-se que o grupo RBS abriu campanha contra a UFSC por conta do corte de verbas publicitárias, mas isso, por si só, não explica a desaparição da universidade dos meios de comunicação. Existe uma infinidade de jornais do interior, rádios, portais na internet que não são aproveitados com eficácia. O que aparece para quem está fora dos muros é a impotência da gestão em se pronunciar, o desprestígio para uma instituição tão importante como a UFSC e, fundamentalmente, a vitória de uma formação de opinião errônea sobre a universidade. Paradoxalmente, a UFSC, ao priorizar uma comunicação oficialista acaba indo contra a própria gestão. Ou seja, é um desastre.

Na política pública de comunicação desenvolvida durante anos pelos trabalhadores da comunicação a lógica era definitivamente outra. Havia o entendimento de que se havia um problema na instituição, a universidade deveria ser a primeira a divulgar, apontar e dialogar na busca de soluções. O contato era direto e rápido com o problema e com a sociedade. Não se atuava na defensiva, justificando-se depois que o assunto era levantado desde fora, a partir de denúncias, inclusive, pouco críveis.  O pensamento crítico, apesar de termos uma administração que foge da tradicional direita/negócio/maçonaria, não tem tido espaço por aqui.  Muito menos a eficácia no uso das velhas e novas tecnologias. Há um apagão completo na comunicação.

Novas mudanças, velhos métodos

Sem qualquer discussão com os trabalhadores da Agecom, a proposta da nova gestão foi criar uma estrutura separada de assessoria à gestão, atuando desde o gabinete, com a Agência de Comunicação desempenhando papel absolutamente secundário e sem conexão cotidiana com o trabalho feito na reitoria. A assessoria, comandada pela professora do Curso de Jornalismo, Tattiana Teixeira, acabou centralizando todo o trabalho e definindo, em mão única, uma nova linha de comunicação, com ênfase nas mídias sociais e na informação ligeira. Mas, pelo que se percebe, tampouco isso está funcionando. O facebook da UFSC, por exemplo, tem pouco mais de 10 mil seguidores, num universo de mais de 50 mil pessoas, e ali não há qualquer interação. A página da Agecom, na mesma rede social, tem 56 curtidores. Descrédito na informação?

Segundo Tattiana, a proposta de assessoria própria nasceu da equipe que realizou o trabalho de transição, da qual faziam parte ela, Paulo Liedke, Carlos Righi e Itamar Aguiar. O relações públicas Paulo Liedke, que assumiu a coordenação da Agecom por um curto espaço de tempo, confirma, mas problematiza. "A equipe sugeriu que a gestão tivesse uma assessoria, mas em nenhum momento se falou em perda de espaço para a Agecom. Pelo contrário, era para atuar integrada com a agência, jamais no modelo de subordinação como está atualmente". Seria como a experiência vivida no período do reitor Diomário de Queiróz, quando houve um trabalho sistemático de acompanhamento das ações da gestão, especificamente, mas tudo feito por profissionais da agência. Paulo chegou a apresentar, quando ainda na direção da Agecom, uma proposta ao Fórum de Planejamento de Gestão, na qual havia justamente a sugestão de aprofundar a política pública de comunicação com a criação de um conselho de comunicação e o fortalecimento da Agecom. Tudo foi ignorado e ele mesmo foi exonerado do cargo. Na gestão de Roselane, a agência perdeu toda a sua autonomia e, junto com ela, qualquer iniciativa de potencializar uma comunicação capaz de chegar à comunidade. Tudo vem de cima.

Agora, passado pouco mais de um ano de gestão, desde o dia 8 de novembro, a comunicação sofreu alterações, com a nova linha sendo ainda mais fortalecida, o que parece um contrassenso, visto que os resultados são ineficientes. Pois, a administração da UFSC criou um cargo específico, com status de direção, para coordenar não apenas a Agecom, mas  toda a comunicação da instituição. Para tanto, acabou tirando o cargo de outro trabalhador técnico, do Centro de Eventos, espaço que também perdeu força. O novo cargo, de Direção Geral de Comunicação, está ocupado pela professora Tattiana Teixeira, que já dirigia a assessoria do gabinete, bem como a própria política que agora é respaldada e premiada pela gestão. No cargo, ela deve concentrar o comando da assessoria do gabinete, a Agecom, a TV UFSC e a Coordenadoria de Design e Programação Visual. Sobre isso tampouco houve qualquer anúncio por parte da reitoria e nem sequer a divulgação do fato. Tudo aconteceu internamente, numa prática bastante questionável do ponto de vista da democracia institucional. Os trabalhadores foram pegos de surpresa e, ao que parece, tampouco poderão intervir na política que já vem pronta do gabinete. Preocupa também o fato de a TV UFSC, justamente agora que se abre para além do cabo, cair nas redes de uma comunicação do estilo chapa-branca. Será um grande retrocesso.

Em entrevista, a professora Tattiana afirma que a nova política vem para melhorar a comunicação, e reconhece que havia problemas. Mas, segundo ela, a separação entre a comunicação da gestão e a informação institucional dá mais agilidade ao processo e a Agecom pode seguir fazendo o trabalho de contato com a imprensa e os releases da instituição. Também alegou que se o Jornal Universitário não estava mais sendo feito era porque a própria equipe da Agecom havia decidido que não tinha mais como produzi-lo, uma vez que todos os terceirizados foram suprimidos do quadro. "Agora, com essa nova estrutura, vamos realizar um fórum e discutir com a comunidade sobre o que fazer com a comunicação", disse. Tattiana acredita que é hora de avançar para novas experiências e não tem dúvidas de que a comunicação vai ser mais eficaz. Mas, se considerarmos a política de "fóruns" da gestão, já se pode ver que não avançará um milímetro do que já está definido.

Como jornalista na UFSC e integrante do quadro da Agecom durante mais de uma década, apesar do otimismo da nova diretora, vejo com preocupação a forma como a comunicação da universidade vem sendo tratada e os rumos que toma. Numa instituição como a UFSC - e numa gestão diferenciada - os processos e decisões não deveriam ser tocados sem a participação de todos os profissionais. Tampouco pode ter uma comunicação oficialista, que retrate apenas a gestão. Há um universo de pensares, fazeres e gentes que precisam de espaço para se expressar. Esse espaço tem de ser o da comunicação pública. A Agecom já cumpriu esse papel de conter as opiniões divergentes e divulgar a vida que brota desde a instituição. Agora, o que se vê é o velho jornalismo chapa-branca se fortalecendo, atuando na defensiva, sem diálogo com os profissionais que atuam na comunicação, como se eles não fossem capazes de aportar ideias e propostas eficientes. Como se fossem apenas mão de obra para uma política que se formula desde fora, nos altos escalões, sem que a participação interna seja levada em conta. O nível dos profissionais que hoje estão na agência de comunicação da UFSC permite que eles sejam muito mais do que "fazedores de release". Também se observa muita restrição na divulgação de temas polêmicos, como foi o caso da 30 horas para os TAES e a desaparição da cobertura cotidiana da vida da UFSC na página da instituição na internet. 

Assim, não se trata de ser contra esse ou aquele colega que, por questões que lhe são particulares, decidiram trabalhar com essa concepção de comunicação, com a qual, obviamente, não concordamos. Há nesse texto não uma crítica pessoal, mas uma análise da gestão Roselane/Lúcia, que se pauta por uma quase in/comunicação com a comunidade externa e pela ausência do diálogo e do respeito com os trabalhadores, jornalistas ou não, da Agência de Comunicação. Se a gestão entende que um professor do Curso de Jornalismo é mais indicado para comandar os destinos da Comunicação, está bem. Mas, seria de muito bom-tom que os trabalhadores, que lutaram uma vida inteira para garantir o respeito ao seu fazer, fossem ouvidos, consultados, escutados nas suas demandas. Segundo a professora Tattiana, em reunião recente com a equipe da Agecom, não encontrou nenhum descontentamento. Pelo contrário, diz, as pessoas estão bem contentes com as mudanças.

Mas, nesse processo há que se problematizar. É bastante comum na UFSC a política do medo, principalmente quando há um controle acirrado da informação desde cima, como está sendo feito agora. Importante lembrar que alguns trabalhadores ligados à Agecom estão sofrendo processos administrativos ou sindicâncias e isso também leva a um certo receio de se expor. Nesse sentido, a "alegria" dos trabalhadores precisa ser relativizada.

Agora, resta ver o que vai acontecer. Se a Agecom repetirá a velha estratégia redutora de misturar comunicação institucional com espaço de ensino do Curso de Jornalismo,  se a Direção Geral de Comunicação permanecerá com uma política oficialista, ditada de cima para baixo, se continuará calando as opiniões críticas por não oferecer espaços de expressão. Se assim for, seguirá sendo uma postura antidemocrática, não esperada por quem se elegeu formulando um discurso que se contrapunha ao histórico autoritarismo vigente na UFSC. Um autoritarismo que, paradoxalmente, a não ser pelo período pontual de Rodolfo, sempre respeitou os trabalhadores da Agência de Comunicação, hoje reduzida a um espaço de produção de notinhas e releases ao estilo da comunicação empresarial.

O tempo das reportagens e da contextualização da vida política brasileira e universitária está sepultado. Há um equivocado foco nas mídias sociais, com a aposta na informação ligeira e incensatória, que tampouco funciona. Com isso aprofunda-se o fosso entre a universidade e a sociedade. Assim, um projeto comunicativo que não se comunica é a derrota, não só da gestão, mas também da UFSC, no campo da constituição da opinião pública. Falta pensamento crítico na comunicação da UFSC.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Pérola - trançando vida

Programa Pobres e Nojentas no Mercado 3 - Entrevista com a cabeleireira Pérola, personagem da vida de Florianópolis. Mulher, guerreira, que trança a vida nos cabelos e na valentia.


sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Honduras segue na luta contra a fraude



No jornal El Heraldo, de Honduras, a manchete de hoje não podia ser mais intrigante: "EUA felicita o TSE pela contagem profissional". Referia-se, é claro, a contagem dos votos que estão dando a vitória ao candidato oficialista Juan Orlando Hernández. Depois, a reportagem traz o conteúdo de uma nota emitida pela Embaixada dos EUA na qual saúda os hondurenhos e reafirmava a sua alegria pelo processo ter sido transparente. Diz ainda que reconhece a vantagem irreversível conquistada pelo candidato do partido Nacional. Não bastasse isso ainda apresenta as declarações da embaixadora Lisa Kubiske, que afirma ter recorrido os lugares de contagem de votos, podendo garantir que não existe possibilidade de fraude. 

Com esse destaque todo da "aprovação" dos Estados Unidos a mídia pretende deixar os hondurenhos seguros de que o país do norte segue sendo amigo, o que vai viabilizar o progresso do país. Nenhuma nota sobre manifestações e lutas das gentes que bradam contra a fraude. 

Já o La Prensa dá como manchete uma notícia que só reafirma o servilismo da imprensa local: "Não houve crime de lesa-humanidade em 2009". A matéria se refere ao golpe militar que depôs Manuel Zelaya e abriu um vertiginoso processo de perseguições, desaparições e assassinatos. Mas, o jornal se refere ao fato como uma "crise política". Bem a calhar esse tipo de informação num momento como esse. 

O partido Libre, de Xiomara Castro, segue não aceitando o resultado das eleições, de 34% para Hernàndez, e 28% para Xiomara. Insistem que houve fraude e exigem a recontagem dos votos. É bom que se saiba que até hoje ainda não foi finalizada a contagem oficial. Entre as irregularidades já levantadas pelo Partido Libre estão as pessoas que não puderam votar por terem sido consideradas mortas, a realocação de mesas de votação em lugares mais distantes, impedindo que as pessoas tivessem acesso, compra de votos comprovadas em vídeos e fotos, atas de votação nos lugares onde o partido de oposição é mais forte foram tiradas do processo e submetidas a auditoria, com os votos não sendo computados. Enfim, são dezenas de pequenas coisas que formam o grande mosaico da fraude. Tudo isso sendo negado pelo TSE, que é composto por gente que deu e apoiou o golpe de 2009. Sem falar na descarada intervenção da embaixada estadunidense.

Em meio a tudo isso, estudantes universitários iniciaram um processo de resistência, com atos massivos na capital, Tegucigalpa, e foram violentamente reprimidos pelas forças policiais. Mas, a luta não ficou só no âmbito estudantil, trabalhadores de várias categorias têm se somado ao movimento que pede a recontagem. 

O que se vê é que o virtual presidente de Honduras já começa a ser aceito pelos países vizinhos e o país deverá voltar a "normalidade". Bom frisar que a normalidade para aqueles que sonham com uma Honduras independente e livre do controle estadunidense significa mais mortes, desaparições e violências. Ou seja, a luta do povo de Honduras está bem longe de arrefecer. 

Veja o vídeo



quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Votação do Plano Diretor apontou uma verdade: a cidade tem dono


 Vereador se diverte em frente ao computador


população tenta passar sua mensagem

Fotos: Mateus Bandeira Vargas

Em menos de dois dias, a Câmara de Vereadores de Florianópolis votou um projeto de Plano Diretor, alterado por quase 700 emendas. Todos os ritos foram patrolados, nada impediu que, entre sorrisos de mofa, os vereadores fossem aprovando uma a uma, as emendas que continham os interesses dos grandes empresários. Alguns dos nobres edis davam claros sinais de que sequer sabiam do que se tratavam as emendas. É que não estava em questão o conteúdo e sim o princípio: fazer a vontade do capital.

Uma cidade como Florianópolis é como uma galinha de ovos de ouro para as empresas do ramo turístico. Quarenta e duas praias, clima agradável, um bom verão. Assim, se considerarmos que no sistema capitalista tudo é espaço de conquista de lucro, não haveria razão para se pensar que no espaço da cidade isso fosse ser diferente. Afinal, qual a razão de se aumentar o gabarito (numero de andares edificáveis) na região do Estreito, se ali já existem prédios de 15 andares? Ora, foi construída uma beira-mar continental, que hoje tem na sua margem uma série de imóveis velhos, de costas para o mar. Ali, agora, poderão se erguer espigões. Os donos dos prédios estão esfregando as mãos, suas propriedades dobraram de valor. E as construtoras que erguerem ali as torres habitáveis, também vão auferir lucros estratosféricos. Um apartamento a um milhão. Façam as contas.

E assim, cada alteração de zoneamento, cada alteração de gabarito, foi milimetricamente pensada para  gerar lucros. Seja para os que ora possuem as propriedades ou para os que as possuirão. É um azeitado jogo de interesses no qual os que saem perdendo são aqueles que querem um mundo diferente, que não seja esse, capitalista, baseado no lucro. O filósofo britânico, David Harvey, que esteve há pouco na cidade, deixou isso bem claro, quando falou da transformação das cidades em espaços especulados: " Para construir uma cidade diferente, é preciso ser anticapitalista". E nessa terra nossa, quem é?

Assim que a luta que se travou nos dias de votação da Câmara de Vereadores já tinha um vencedor bem antes de o plano entrar na casa. Todo o jogo de cena de que a população havia construído o plano por sete anos, divulgado pela mídia, que a discussão tinha acontecido, que as pessoas sabiam muito bem do que se tratava, era o manto da ilusão necessário para enganar a maioria. Numa cidade de quase quinhentos mil habitantes, com um movimento popular desarticulado e alquebrado, a opinião pública que se formou foi a de que o plano é bom e vai ajudar a cidade a progressar.

Quem viu o puxa-saquismo da RBS na entrevista com o prefeito nessa quinta-feira sabe bem do que estou falando. Quem, em sã consciência pode ficar imune aos discurso de que as praças públicas estão cheias de gente drogada, que os parques só servem para juntar marginais e que a falta de marinas e hotéis de luxo vai fazer faltar emprego? Para aqueles que sofrem a cidade diuturnamente, na falta de mobilidade, na insegurança, no desemprego, esses anúncios de vida melhor soam como cantos de sereia. Essas maiorias que passam 70% do seu dia tentando sobreviver, não tem tempo para estabelecer os nexos entre as promessas feitas na televisão e o seu completo descumprimento na vida real. Há que levar o leite para casa.

Para que a população pudesse desvelar as mentiras teria de existir um movimento popular e comunitário atuante e, principalmente, anticapitalista. Não tem. Temos vários grupos lutando na cidade por questões bem específicas. Passe livre, ciclovias, saneamento, mulheres, negros, homossexuais, sindicatos. E cadê que esses movimentos debatem junto com suas pautas específicas os destinos da cidade, como um projeto de espaço coletivo de vivência? Cadê que esses movimentos circulam pelas comunidades descortinando o véu do engano que a mídia comercial ajuda a disseminar? Cadê que eles articulam as variadas lutas num projeto anticapitalista de fato?

É que a luta pela cidade é a luta contra o capital. Não há espaço para meio-termo. O passe-livre sozinho não desescraviza o trabalhador. O saneamento sozinho não garante bem-viver, mover-se melhor na cidade não significa que se possa ir onde se quer. Tudo isso fica perdido se não for para libertar as pessoas da sociedade do consumo e do lucro. É só a tentativa de "humanização" do capital, obra inútil porque inalcançável. É da natureza do sistema a destruição do ambiente e do homem.

A batalha travada na Câmara pelo plano diretor já começou com um vencedor. Os lutadores que lá se fizeram presente, em torno de 100 almas, sabiam muito bem o que estavam enfrentando. Entre eles, ainda se podia observar um pequeno grupo de pessoas puras, que estavam realmente indignadas com toda a farsa promovida pelos vereadores e com a burla de todas as leis. Muitos acreditavam que a presença ali, em protesto e gritos de alerta pudesse mudar o resultado de um jogo já acertado no tapetão. Não podia.

Entre os militantes calejados, anticapitalistas por convicção, não existia ilusão. O sistema capitalista tudo aplasta e não está preocupado com nada além do lucro. Nesse processo, ainda estão os serviçais, que conseguem arrebanhar as migalhas do banquete. Qualquer lucro é bem vindo, porque essa é a essência. E foi o que se viu. Nos votos contra a entrega da cidade para a especulação, quatro vereadores resistiram. Os demais estavam de acordo, cada um por sua razão.

E enquanto a vida de todos era vendida por 30 dinheiros, a população seguia seu curso, na correria para pegar o ônibus, assistindo a um recital, participando de uma reunião qualquer para amenizar alguma dor, ou garantir algum pequeno avanço. Muitas pessoas assistiram a "confusão" causada pelos "de sempre", os "anti-progresso", na televisão e balançaram a cabeça em desaprovação.  No gabinetes, os donos do dinheiro celebraram com champanhe. Não estão preocupados com ambiente, vida boa, saúde, equilíbrio. Tudo o que querem é muitos zeros na conta bancária.

Daí que, para terminar, o que podemos dizer é que só há uma alternativa para os que lutam: reforçar a batalha contra o capital, contra o modo capitalista de organizar a vida. Ou isso, ou seguiremos afogados pelo desejo de consumo fomentado pelo sistema. Não dá para ser ingênuo acreditando que pequenas reformas nos levarão ao céu. O poder do capital dá o que quer dar. E nesses dias deixou bem claro: a cidade é dele e ponto final. Qualquer concessão que veio ao encontro dos desejos das comunidades está amarrada em um interesses econômico maior.



quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Câmara vota Plano Diretor de Florianópolis burlando todas as regras



Sem poder expressar sua voz, comunidade escreveu


Vereador Celso Sandrini tentando agredir uma moça

Fotos: Rubens Lopes

A Câmara de Vereadores de Florianópolis mostrou nesse dia 26 de novembro, a quem realmente representa na cidade. Burlando regimento interno, Estatuto da Cidade e até a Constituição, os vereadores iniciaram a votação de um Plano Diretor alterado por quase 700 novas emendas - que não passaram por avaliação do Instituto de Planejamento Urbano -  abrindo caminho para mais uma onda de especulação imobiliária, crescimento desenfreado, destruição e lucros exorbitantes para um determinado setor: o da construção civil.

Florianópolis é, basicamente, uma ilha (97% do seu território). Isso, por si só já delimita muita coisa. Tem um espaço que não pode se expandir, determinado pela capacidade de água, energia e mobilidade. Com um total de 436 quilômetros quadrados - entre ilha e continente - possui hoje quase 500 mil habitantes, embora pelo corredor metropolitano circulem mais de um milhão de pessoas. Assim como está, já enfrenta gargalos complicados, como é o caso da mobilidade urbana. Feita de ruas estreitas e  mal planejadas, vivencia todos os dias, engarrafamentos homéricos. Sair da ilha para o continente depois das cinco da tarde requer paciência de Jó. Passar de um bairro do sul para o leste ou norte, de ônibus, pode levar mais de três horas, embora as distâncias não sejam grandes. No verão, época de temporada de praia, a população triplica e podem ser contabilizadas mais de um milhão de pessoas só na ilha, aprofundando o caos. Falta de água e luz são constantes nessa época, mostrando a completa falta de estrutura para tanto adensamento populacional.

Por oferecer mais de 42 das mais belas praias do estado de Santa Catarina, a chamada "ilha da magia" é um dos destinos turísticos mais procurados por gaúchos, paulistas e visitantes de todo o mundo. Não é sem razão que o metro quadrado na ilha é o terceiro maior do país -  custa R $6.620,00 - ficando atrás apenas de Santos e São Paulo (dados da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas/ FIPE). E, por conta do crescimento que se deslocou para o sul, é no bairro do Campeche que os imóveis estão custando mais caro hoje em dia, rivalizando apenas com o centro da cidade. Um terreno simples de 360 metros quadrados, sem escritura pública, não sai por menos de 100 mil reais. O preço médio de um imóvel na ilha está em 700 mil reais.

Esses mínimos dados já conseguem iluminar o que está em disputa na batalha do Plano Diretor. Longe de preocuparem-se com o bem-viver ou a qualidade de vida da população, os vereadores - com raras exceções - estão a serviço das construtoras que veem na cidade um filão ainda bastante gordo de crescimento, por conta da proposta de verticalização que está dada no Plano que começou a ser votado nessa terça-feira. Assim, o que está em tela é um dos mais rentáveis balcões de negócio imobiliário do país. Vejam que não é pouca coisa. 

Conforme manda o Estatuto da Cidade, o processo de construção do Plano Diretor participativo começou durante a gestão de Dário Berguer, há sete anos. Mas, ao contrário do que dizem os vereadores da situação, não foi algo que teve fluxo contínuo. Todo o trabalho foi marcado por conflitos e interrompido diversas vezes, obrigando a população a se mobilizar e lutar de forma acirrada para fazer valer seus direitos. De qualquer forma, premido pelas gentes, o plano foi se fazendo até 2010, quando o então prefeito Berguer suspendeu tudo e encaminhou para um empresa fazer a versão final. Segundo ele, ela apenas sistematizaria o que foi construídos pela população, mas não foi isso que aconteceu. A empresa incluiu mudanças que beneficiavam a lógica do lucro da construção civil. 

Para que a população tenha uma ideia, o plano destinava áreas que tinham sido definidas como de lazer para construção de prédios, aumentava o gabarito dos prédios (número de andares possíveis de serem construídos), priorizava grandes empreendimentos e basicamente não respeitava a vontade da população. Grandes batalhas foram travadas e a população conseguiu barrar. Com a eleição do novo prefeito no ano passado, a discussão recomeçou. E, para surpresa de todos, o Núcleo Gestor Municipal - formado por representações populares dos três distritos de Florianópolis - foi destituído pelo novo prefeito. Assim, outra proposta de Plano Diretor, remexida pela nova administração foi apresentada à Câmara. Segundo a lei, qualquer alteração ao Plano teria que passar por novas audiências públicas nos distritos, mas isso não aconteceu. A prefeitura realizou apenas duas audiência, muito mal convocadas. Ainda assim, nas falas dos movimentos sociais e dos envolvidos na discussão desde 2006, ficou claro que havia muitas mudanças e elas precisavam ser melhor discutidas. Fazendo-se de surdo aos reclamos da população o prefeito César Souza entregou, no dia seguinte à audiência, o projeto prontinho para a Câmara. A casa legislativa aprovou o documento que tinha sido acrescido de quase setecentas emendas, em prazo recorde, sendo que três comissões votaram o plano em um único dia. Ora, é humanamente impossível analisar o conteúdo de 700 emendas em um dia.  

A farsa da votação 

Apesar dos reiterados pedidos dos vereadores Lino Peres (PT) e Afrânio Boppré (PSOL) para que o documento fosse melhor analisado, com mais tempo para o estudo das emendas, a maioria dos vereadores "patrolou" o processo que foi levado para a votação no dia 19 de novembro, às quatro horas da tarde, horário propício para o esvaziamento de povo. Afinal, as pessoas trabalham. Pois a Justiça expediu uma liminar suspendendo a votação, por entender que todo o rito estava comprometido. Se emendas novas foram feitas, novas audiências deveriam ser efetuadas e o plano re-analisado pelo IPUF (órgão de planejamento da cidade). Vitória da população que conseguiu mais tempo para discutir e conhecer o conteúdo das propostas. Mas, o sonho durou pouco. Dias depois, uma instância superior da Justiça cassou a limitar e o processo recomeçou, indo à votação nessa terça (26).

De novo, a Câmara chamou a sessão para o horário da tarde, juntando, à discussão do plano, uma homenagem à APAE, o que fez com que o plenário lotasse com os "homenageados", impedindo as pessoas de entrar. Com isso, armavam o circo de desinformação e desestruturação da organização das comunidades. Por duas horas, as pessoas ficaram no sol, esperando que a porta fosse liberada. A entrada só foi possível às cinco horas e até as sete da noite nada acontecia. No plenário, os vereadores esperavam pelo presidente da casa que, segundo informações dadas pelos vereadores Lino e Afrânio, estava em reunião com o prefeito. Mostrando completo desprezo pelas pessoas que ali estavam lutando pela cidade, os "nobres edis" se divertiam no facebook ou observando sites como o Voice Brasil. Nenhuma informação era passada. O que era a conversa do presidente da casa com o prefeito? Por que acontecia naquele momento? O que tramavam? Cabia ao povo supor que estava sendo articulado um acordo, possivelmente com a participação do empresariado da construção civil. Afinal, nas centenas de emendas estavam aquelas que aprovavam novos gabaritos (permitindo mais andares em vários bairros) e grandes empreendimentos. 

Quando faltavam poucos minutos para as sete, o presidente chegou e se fez o quorum. A sessão começou. Várias falas - do vereador Lino, Afrânio e Matheus (do PC do B, que estreava no plenário) pediam o adiamento da sessão para que fossem cumpridos os ritos legais desse tipo de processo. O presidente César Faria negava, e seguia patrolando.  O vereador Matheus (que é advogado) lembrou aos colegas que até a Constituição estava sendo rasgada e que todo aquele trabalho poderia ser barrado pela Justiça, como aconteceu na cidade de Itajaí, na qual o plano foi votado e depois suspenso por não ter seguido a lei. Mas, havia uma muralha constituída pela maioria que, inclusive, fazia depoimentos na tribuna, ofendendo e tripudiando das pessoas que ali estavam se manifestando. "Podem vaiar, vocês são uma meia dúzia", provocava o vereador Deglaber Goulart (PMDB).

Mas, o ato mais grave e escandaloso foi protagonizado pelo vereador Celso Sandrini, também do PMDB. Enquanto estava na tribuna, a população no plenário se manifestava chamando-o de vendido. Ele se irritou com uma moça que estava bem na frente, no vidro, e a ela se dirigiu, ameaçando: "Quero ver se tu me diz isso lá fora". Levou vaia. Ainda muito irritado ele saiu do plenário e veio para onde estava a moça, junto ao povo, em clara intimidação e pronto a agredi-la. Ela foi protegida pelas pessoas e alguns rapazes seguraram o vereador. Nessa hora, um segurança da casa, acompanhado de guardas municipais, chegou empurrando todo mundo, como se o agredido fosse o vereador. Tiraram-no da plateia e ele voltou ao plenário como se nada tivesse feito. Ou seja, ele quase agrediu fisicamente uma moça e ainda foi protegido pela guarda. Lá dentro, ninguém se pronunciou contra aquele flagrante ato de falta de decoro parlamentar. Podia cair uma bomba ali que nada pararia a sessão e a entrega da cidade aos abutres da construção.  

Assim, protegidos da população os vereadores foram votando as emendas em bloco, mostrando que estavam firmes na defesa da destruição da cidade. Na primeira emenda já derrubaram um dos bastiões da luta popular em Florianópolis: a Ponta do Coral, espaço pequeno de terra que tem na Beira-Mar (uma das principais avenidas). Ali, a população decidiu que quer um parque, mas os vereadores abriram uma mudança de zoneamento para permitir a construção de hotél, além de uma marina, para o atracamento de navios de cruzeiro. Era como um recado bem claro aos militantes sociais que ali estavam: "vocês perderam. Está tudo dominado". O envolvimento dos vereadores com o cartel da construção era tão flagrante que os relatores dos pareceres se recusaram a apresentá-los em plenário, levando à suspeita de que tinham completo desconhecimento do documento que, em última instância, eles deveriam ter escrito.

A sessão terminou minutos antes da meia-noite e hoje deve continuar. Alterações significativas na vida da cidade estão sendo feitas, sem que as pessoas sequer tenham tido tempo de saber. Bairros como o Estreito, Saco dos Limões e  Pântano do Sul, por exemplo, tiveram gabaritos aumentados, sofrerão vertiginosa verticalização. Áreas de lazer foram sacrificadas ao capital. Tudo está sendo preparado para mais uma onda de construções. A maioria dos vereadores se recusou a discutir questões como  a mobilidade, a capacidade energética. Em nome do discurso fácil do "progresso", os legisladores estão atendendo interesses que passam longe dos interesses das gentes que vivem na cidade. Todo o desenho do plano está calcado na construção de novos prédios e grandes projetos turísticos. Isso significa dinheiro demais, a considerar que um apartamento numa praia qualquer pode custar até um milhão de reais. 

Então, a briga que se trava na Câmara vai muito além do debate sobre qual o projeto de cidade que se pode querer. A única coisa que interessa ali é dinheiro. Business. Negócio. Plata. Boró.

Entre os militantes sociais que acompanharam a farsa, o sentimento era de revolta. Jeffrey Hoff, morador da Lagoa da Conceição e um histórico lutador nessa batalha pelo Plano Diretor Popular, estava desolado, mas ainda acredita que o processo possa ser revisto pela Justiça. "Há muitas irregularidades e ainda não foi julgado o mérito da ação que deu a liminar para suspender. Tenho esperanças que a gente ainda vá discutir esse plano como tem de ser". Gert Shinke e Raquel Macruz,  do Movimento Saneamento Alternativo, protestaram com o bom humor de sempre, distribuindo senhas às pessoas garantindo a elas uma "alteração de zoneamento, fazendo alusão à rifa que estava acontecendo dentro do Plenário. "São vendilhões e vão responder por isso".

E assim terminou essa primeira sessão, melancolicamente. A cidade loteada, entregue à especulação. Mas, entre as pessoas que caminhavam par ao terminal de ônibus, ia também a esperança, renitente, afinal, a luta não para. Muita água ainda vai rolar.