terça-feira, 30 de julho de 2013

Alma húngara

Eu era menina e vivia na cidade de São Borja. Estranha guria, amante da solidão. Envolta em livros e velhos discos. Nos dias de verão intenso, quando o mundo parecia derreter e todas as almas faziam a sesta no pós meio dia, eu pegava a vitrolinha e ia para a varanda ouvir os discos do meu pai. Antigas canções sertanejas, música caipira de raiz. Ângela Maria, Carlos Galhardo, Orlando Silva, Vicente Celestino, Silvio Caldas, Miguel Aceves Mejía. Não me cabiam nem o rock, nem o iê-iê-iê. Eu era uma guria velha.

Mas havia um disco em particular que me tirava do mundo. Na capa, uma cena de acampamento cigano. Uma fogueira, uma mulher morena, bonita, com véus coloridos e pandeiro na mão. Ela dançava e, à sua volta, os demais a miravam com fervor. Dentro da capa, o disco, já surradinho, trazia toda a sorte de canções húngaras. Violino, acordeão, uma coisa que parecia penetrar peito adentro, como uma flecha fervente. Havia uma delas em particular que me amolecia as pernas e me tomava inteira de paixão. Czardas. Nunca em toda vida uma música me emocionou tanto. Quando ela tocava, meu corpo magrinho assomava e, com os olhos fechados, eu ficava a dançar. Primeiro, piano, só o balançar dolente. Depois, aquela explosão de beleza.

Nada podia ser mais inverossímil. No interior do Rio Grande, de frente para a campanha infinita, uma guriazinha meio-charrua se fazia cigana, de alma e coração. E quando eles chegavam, os ciganos de verdade, eu os espiava cheia de vontade de ser roubada, para poder viajar pelo mundo dançando ao pé da fogueira. Até hoje, quando o violino começa a tocar, volto àqueles dias de infância. E minha alma voa para os não lugares da Hungria que nunca conheci, mas que sempre amei.

O espaço do sagrado




Sou um bicho raro. Minhas primeiras leituras foram os mitos gregos, depois vieram os hebraicos, os semitas, os dos povos originários, os celtas, os africanos. Encantava-me esse universo da fé. E, nesse entrecruzamento de deuses, deusas e expressões do sagrado, fui percebendo que a religiosidade nos toma por dois motivos básicos: a falta de uma explicação plausível para os mistérios do mundo e a nossa fragilidade humana. Nietzsche muito bem definiu isso quando disse que a religião servia aos fracos.

Pois ao longo desse mais de meio século de vida, tantas vezes me vi tão fraca, tão sem força, tão frágil diante da tormenta do viver que, nessas horas, sempre, sem qualquer pudor,  me apeguei aos deuses. Eles serviam como redes onde podia descansar meu corpo doído ou espaços de abrigo seguro para minha alma em escombros. Mas, com Mestre Eckart aprendi que também os momentos de sublime beleza estão repletos desse sentimento indizível do sagrado. Horas assim em que a sensação de felicidade é tão grande que a gente se sente mergulhada num oceano intraduzível. O mistério. O ômega.

Também, ao longo dessa caminhada de mulher militante, de lutadora social, nunca escondi que junto a mundanidade das lutas, fatalmente carreguei a atmosfera do sagrado. Nunca me envergonhei de amar os ensinamentos de Jesus, de Buda, dos pajés, dos xamãs. porque, todos eles apontam para a construção de um ser humano de beleza, de sensibilidade, de ternura, de cuidado com o outro. Mesmo quando tomada pelo ódio, assoma em mim a certeza de que o ódio nos move na luta contra os vilões do amor, e, por conta disso, é necessário. Nossa humana condição é essa mesmo, sombra e luz, yng e yang.  E assim vamos caminhando.

Minha mãe era muito igrejeira e desde pequena convivi com essa atmosfera de santos e cerimônias. Uma das coisas que ela me ensinou é que o sagrado não está nas coisas, nas imagens. O sagrado está em nós e na maneira como vemos as coisas e nos movemos no mundo. Ainda assim, me apego a coisas, porque elas, de alguma forma, concretizam determinados sentimentos que por vezes, me são necessários. Amo a figura de São Francisco, por exemplo, não por ser santo, mas por ser o homem que foi, e gosto de tê-lo em casa, numa imagem, porque ao mirá-lo, volta e meia me recordo do que preciso ser. Também tenho em casa uma chacana, símbolo da religiosidade andina, e sua sombra na parede me impele a compreender as profundezas do mistério.

Guardo bonequinhos do Sr. Spock, do Mulder, do Saci, seres de ficção que me encantam com sentimentos bons, de alguma forma, sagrados. Tenho retratos do Che na parede  e espalho pela casa bernunças e carrancas do São Francisco.  Porque, para mim, imagens significam. Chorei quando os talibãs quebraram as estátuas do Buda porque imagino o quanto aquilo podia significar para alguém. Luto pelas comunidades indígenas e me indigno quando os brancos destroem seus espaços simbólicos do sagrados.

Não importa se a gente é de direita ou de esquerda. As coisas significam. E elas podem nos paralisar, nos alienar, nos escravizar ou nos libertar. Tudo vai depender de uma série de outras variáveis que vamos construindo ao longo da vida. Confesso, vivo carregada de religiosidade, embora isso não me torne prisioneira de dogmas ou de pessoas. Busco o sagrado e não tenho vergonha de me deitar nas redes do que chamam "supertição" ou "ópio".  Respeito os deuses de todos e tenho a firme convicção de que o melhor dos mundos é aquele no qual não existem "povos eleitos", definidos por algum homem ou mulher que se arvore decifrar o sagrado. O sagrado é indizível, indefinível, é um momento único de encontro com a beleza suprema. Disso não podem nascer igrejas, apenas relações de amor.

Sonho com o dia em que poderemos viver  nossas fraquezas, amparada nos nossos mais variados deuses e deusas, sem que ninguém diga qual deles é melhor. Esse dia está longe, e até lá, ainda teremos de vivenciar muita intolerância. O que é uma pena.

Enquanto isso, canto!

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Levanta o povo Charrua

Charruas levados prisioneiros para a França

Era uma fria manhã de 1834 na bela Lyon. Enquanto a cidade amanhecia, com seus odores de pão fresco e gentes malcheirosas, um homem jovem andava ligeiro pela rua ainda vazia. Carregava nos braços um bebê. Vestia-se pobremente e volta e meia olhava para trás, esperando ver soldados. Os poucos transeuntes não sabiam, mas ali ia um valente cacique charrua, chamado Tacuabé. Carregava a filha da também charrua Guyunusa que, como ele, fora aprisionada na região da Banda Oriental (hoje Uruguai), e remetida a Paris, como um bicho raro. Eram quatro os índios levados para a França: Tacuabé, de 23 anos, Vaimava, um velho cacique, Senaqué, um conhecido pajé charrua e Guyunusa. Obrigados a se apresentarem em circos pelos arredores de Paris, sofrendo maus tratos e saudosos de sua terra, os charrua foram morrendo um a um. O primeiro foi Senaqué, que definhou de tristeza, depois o velho Vaimaca. Guyunusa, com pouco mais de 20 anos, tomada pela tuberculose, morreu em Lyon, deixando um bebê que se acredita fosse filha de Vaimaca. Obteve de Tacuabé a promessa de que a garota haveria de ser livre. E assim, tão logo ela fecha para sempre os olhos, o jovem charrua decida escapulir do circo, levando com ele a menina. Os historiadores nunca acharam o rastro do cacique e da menina charrua, mas, se sobreviveram é possível que hoje o sangue charrua também corra em alguma família aparentemente francesa. Porque se ser charrua é ser valente, não há dúvidas de que Tacuabé conseguiu garantir a vida, dele e da menina, naqueles longínquos e tristes dias. 

Quem eram os charrua

Corria o ano de 1513 quando Juan de Solis chegou ao Rio da Prata e isso marcaria para sempre a vida dos povos que ali viviam desde há séculos. O povo charrua era uma gente aguerrida que habitava as pradarias do que hoje é o Uruguai, a pampa argentina e parte do Rio Grande do Sul. Chamado de vale do rio Uruguai essa era uma região de coxilhas e muitas pradarias, espaço de ventos intensos tanto no verão como no inverno. Além da gente charrua e do povo minuano, dividiam o espaço as capivaras, ratos do banhado, pecaris, veados, jaguatiricas e o mítico ñandu (a ema). 

Já em 1526, o espanhol Diego Mogger relata em suas cartas sobre esses indígenas que eram vistos de longe, observando e sendo observados bem na entrada do Rio da Prata. Os espanhóis descreviam os charrua como uma gente moreno-oliva, de estatura média, pomo de adão saliente, dentes bons, rosto largo, boca grande e lábios grossos. Os homens usavam cabelo bem comprido, muito lisos, e tinham por costume amputar um dedo da mão. Já os minuano eram um pouco mais baixos, de fala baixa, melancólicos e igualmente acobreados. Durante todo o processo de ocupação do território do que hoje é o sul da América Latina eles se mantiveram à distância, porque seu espaço era o interior e tantos os espanhóis quanto os portugueses preferiam se radicar nas margens do mar ou dos grandes rios. Mesmo assim, desde a chegadas dos invasores muitas foram as escaramuças, principalmente com os charrua. Desde o ano de 1573 já é possível encontrar relatos de lutas com os espanhóis. 

Eles viviam como grupos seminômades, em acampamentos estáveis, ora aqui, ora ali, seguindo o ritmo das estações. Caçavam e plantavam coletivamente num território que, depois da invasão, ficou durante mais de dois séculos como fronteira não demarcada entre Espanha e Portugal. Era visto pelos invasores como “terra de ninguém”. Mas, ao contrário do que poderiam crer os que chegavam da Europa, aquele era um espaço já há centenas de anos ocupado não só pelos Charrua mas também pelos povos Minuano, Tapes, Chaná e até Guarani. Ainda assim, apesar das lutas esporádicas, os originários eram ignorados. "Sem alma", diziam os padres. Assim, para os europeus, Joãos e Marias ninguém.

Só que, na verdade, esses povos já tinham desenvolvido uma cultura. Tinham uma organização comunitária e eram regidos por um conselho da aldeia. As tarefas eram definidas, os homens caçavam e as mulheres cuidavam dos toldos que lhe serviam de abrigos. Desenvolveram tecnologias eficazes para a caça como é o caso da boleadeiras, instrumento usado para derrubar os ñandus e bichos maiores. Já cozinhavam a carne e produziam vasos de barro escuro, os quais serviam para uso doméstico. Reverenciavam as forças da natureza e acreditavam na ressureição, uma vez que seus mortos eram enterrados com todos os seus objetos pessoais, para uso na outra vida. No verão andavam nus, no inverno se ungiam com gordura de peixe e usavam peles de animais. As mulheres usavam uma espécie de fralda de algodão, hoje conhecida como xiripá, chamado por eles de cayapi. Os homens usavam uma vincha (faixa de pano) na testa. Toda a organização girava em torno do núcleo familiar. Um homem quando queria se casar fazia o pedido ao pai da moça e já montava sua tenda. A comunidade não tinha hierarquia, tampouco chefe, tudo era decidido no conselho. Presos de guerra não eram escravizados, viravam família e se integravam na vida da comunidade. Todo grupo tinha uma mulher velha que cuidava da saúde. O grupo tinha por costume se reunir no cair da noite para planejar o dia seguinte, mas nada era imposto. Era um povo livre e essa forme de viver iria, três séculos mais tarde, encantar o jovem Artigas, que seria um dos libertadores nas guerras de independência. 

A ocupação espanhola

A vida dos charrua começaria a mudar radicalmente a partir de 1607 quando os espanhóis introduzem o gado bovino e equino na região e, como as pradarias não tinham fim, os animais se espalhavam chegando a gerar imensos rebanhos selvagens chamados de “cimarrón”. Tão logo conheceram o cavalo, os charrua se encantaram com a beleza, a velocidade e a docilidade dos mesmos. Trataram de aprender a lidar com eles e em pouco tempo era exímios cavaleiros, imbatíveis no lombo nu dos velozes cimarrón. Nas batalhas, eles se agarravam às crinas e permaneciam deitados de um lado, praticamente invisíveis aos inimigos. Por algum motivo não sabido, charrua e cavalo passaram a ser quase como uma só criatura.

Por outro lado, foi justamente o crescimento exponencial do gado bovino o responsável pelo fim da mal arranjada paz no território charrua. Como a carne e o couro eram artigos disputados pelo comércio da época, a região que antes era dominada pelos indígenas passa a receber levas de faeneiros (a mando dos espanhóis) e changueadores (aventureiros) que buscavam arrebanhar o gado selvagem para a venda aos ingleses. Essa mistura com a gente europeia e criolla vai enfraquecendo o já frágil domínio que os charrua tinham sobre o território da campanha. Também é nessa época que ficam mais acirradas as relações com a gente branca que começava a adentrar para o interior, cercando terras e fazendo-as suas.

Em 1626 é a vez da chegada dos jesuítas que começam a criar missões para aldear os índios. O objetivo era domesticar e converter. Os guarani foram mais suscetíveis ao discurso e a ação dos jesuítas, mas os charrua não quiseram nem saber. Eram homens e mulheres livres, acostumados aos caminhos da pampa e não houve quem pudesse prendê-los, ainda que com discursos de salvação. Diz a história que chegou a existir uma pequena redução charrua, em torno de 500 almas, mas não durou mais que quatro anos. Os charrua prezavam a liberdade e, acossados pela invasão branca, acabavam por realizar operações de saque nos povoados, em busca do fumo e da erva-mate. Por conta disso a relação com os colonizadores se acirrava cada vez mais. Naqueles dias começavam a surgir as estâncias, e o gado deixava de ser solto nas pradarias, sendo recolhido em grandes currais. Assim, os animais livres escasseavam e os indígenas perdiam sua fonte de sobrevivência, passando a viver em estado de miséria. Sem terra, sem gado e sem comida, só restava o roubo.

Para os espanhóis e criollos que começaram a ocupar as terras da Banda Oriental, aquela "indiarada" começou a ser um problema e tanto. Era preciso exterminá-los. Foi nesse contexto que aconteceu a famosa "batalha de Yi" em 1702, quando os espanhóis decidiram encerrar a aliança que mantinham com os charrua e os minuano, e resolveram matar todo mundo. Para isso, de forma perversa, contaram com a ajuda dos guarani, os quais já mantinham aldeados há anos. E o resultado foi que mais de 200 charrua pereceram sob o exército de dois mil guarani. Outros quinhentos, levados como prisioneiros para as missões, foram assassinados pelos tapes, também orientados pelos jesuítas e chefes espanhóis. Era o que os espanhóis chamavam de "limpeza dos campos". Na metade do século muitos tinham sido passado pela faca e as mulheres e crianças mandadas a Buenos Aires e Montevidéu servindo como domésticas. Ainda assim, vários grupos resistiram e seguiram vagueando pelos campos, vivendo de contrabando de gado e roubo.

Artigas, os charrua e a independência

São esses valentes que o jovem José Artigas vai encontrar nas cercanias das terras onde vivia com os pais, na imensidão da campanha gaúcha. Desde bem guri ele fugia para as tolderias e aprendia com os charrua o valor da vida em liberdade. Aprendeu suas táticas de guerra, sua cultura, sua forma comunitária de viver. Quando então, finalmente, saiu de casa para não mais voltar, foi viver de aventuras como contrabandista de gado. Abdicando de ser um “filho de fazendeiro” era com os irmãos charrua que ele vagueava pelos campos na única rebelião possível naqueles dias: pegar os espanhóis pelo bolso. Em 1897, quando decide entrar para o batalhão de Blandengles, Artigas já tem muito claro os seus objetivos. Inspirado por tantas lutas que assomaram contra o domínio espanhol, Artigas decide que, junto com os negros e índios – os mais explorados entre os explorados – vai comandar a luta pela independência da Banda Oriental. 

E é assim que as coisas acontecem. O soldado Artigas não é um soldado qualquer. Ele pensa e propõe. Tem do seu lado uma leva de homens livres que o seguem de livre vontade. Não como um líder, mas como a um irmão. Acreditam nele e nos seus desejos de vida digna, de terra repartida, de vida comunitária. Esse legado, aprendido com os charrua, é o que vai comandar toda a proposta artiguista de libertação. E é na valentia indígena que acontece a primeira grande batalha de Artigas, na comunidade de Las Piedras, em 1810. Armados apenas de facas, os comandados de Artigas colocam para correr os soldados bem armados da coroa. Depois disso, são inúmeras as páginas da guerra, com Artigas e seu grupo de índios e negros, aos quais chamava de “povo de heróis”. Com eles, praticava a política da soberania popular e da autodeterminação, gestando uma consciência de classe, de pertencimento, que se manteve firme até o massacre final. Nos acampamentos comandados por Artigas todas as coisas eram discutidas abertamente, cada soldado, cada mulher, cada ser, tinha direito a voz e voto. Era essa gente que deliberava, Artigas apenas cumpria. No primeiro grande êxodo, quando o povo seguiu com ele pelo lado norte do rio Uruguai, Artigas chegou a criar uma entidade sociológica, a qual dizia obedecer. Era o “povo oriental em armas”. Nunca traiu os seus companheiros e com eles levou a Banda Oriental à liberdade. 

Mas, a história da libertação desta parte do sul do mundo tem também os seus traidores, que acabaram sendo os carrascos de Artigas e dos charrua. Logo depois da independência, os interesses da elite criolla foram se consolidando e “aquela gente suja” que andava com Artigas acabou virando uma pedra no sapato. Ninguém queria que as ideias de reforma agrária, democracia e autodeterminação vingassem por ali.  A revolução artigista representava uma transformação radical nos métodos e práticas de governo. A prioridade era a ação direta do povo. As comunidades elegiam seus representantes de forma livre e era nas assembleias que se discutiam os temas relevantes da nação. Este sistema foi cunhado como o “sistema dos povos livres”. Pela primeira vez, depois da conquista europeia, o território voltava a ser das gentes. E a proposta defendida por Artigas era tão avançada que ele conseguia manter unidos os povos originários e os descendentes espanhóis sob o mesmo desejo: criar uma pátria nova, livre, soberana, onde cada um tivesse o mesmo poder. Era coisa demais para as elites locais e para os que sonhavam em dominar a região, rica em carne e couro. 

Foi aí que começou a se gestar o processo de destruição de Artigas e de seu povo. Através de intrigas e difamações, o comandante é escorraçado do Uruguai, partindo para o exílio no Paraguai. Com ele seguem dezenas de famílias charrua, decididas a compartilhar sua derrota. Mas, outros tantos permanecem no território uruguaio e passam a ser vistos como um perigo em potencial. Eram homens livres e não haveriam de aceitar a perda das terras e de todo o ideário construído com Artigas. O presidente da nação recém-criada, Fructuoso Rivera decide então chamar os charrua para uma armadilha. 

Corre o ano de 1831, num cálido abril, quando Fructuoso envia convites a todas as tolderias charrua para um encontro em Salsipuedes. Pede a ajuda dos indígenas para defender as fronteiras contra os portugueses. Os charrua acorrem, solícitos, em defesa da pátria oriental, a qual aprenderam a amar como sua. Eles chegam, armam seus toldos e esperam pelo presidente. Ele nunca chegaria. Durante a noite, enquanto os indígenas dormem, o exército ataca. A ordem é matar todo mundo. Nenhum charrua deve sair vivo.  O que se vê na manhã seguinte é um banho de sangue. O povo charrua está exterminado. Os poucos que restam vivos são vendidos como escravos. A nova nação se vê livre do incômodo: o valente povo charrua que, na verdade, foi o protagonista da liberdade.  

Entre os “escravos” levados para Montevidéu seguem Vaimaca, Senaqué, Tacuabé e Guyunusa, que dois anos mais tarde são levados como “bichos de circo” para a França. Subsumidos como criados e perdidos de sua liberdade o povo charrua originário do Uruguai vai se apagando, até deles não restar mais vestígios. Alguns poucos homens que sobrevivem ao massacre de Salsipuedes, comandados pelo cacique Sepé atravessam o rio Uruguai pela cidade de Quaraí, e passam para o lado português, indo, mais tarde, se integrar às colunas do exército farrapo que iniciou a luta pela independência na região do Rio Grande do Sul. Misturados aos minuanos e tapes, eles irão escrever páginas gloriosas no chão brasileiro, mas, igualmente derrotados, também desaparecem na poeira da história. 

O fim?

Até o final do século XX era dado como certo que o povo charrua era uma gente extinta. Dela restava só a memória daqueles anos longínquos da independência. Mas, pouco a pouco, pessoas foram se deparando com suas raízes, descobrindo seus ancestrais. Descendentes da gente charrua que passou para o Paraguai com Artigas, do grupo que cruzou o rio Uruguai e veio para o Brasil, dos que sobreviveram como escravos ou empregados domésticos. A história charrua voltou a ser contada, palavras da língua original começaram a ser lembradas e a vida brotou. O povo charrua foi assomando nos descendentes e hoje já são milhares os que se autodenominam assim. Há uma organização do povo charrua no Uruguai e outra no Rio Grande do Sul. Não há um território específico sendo reivindicado ainda, mas já se sabe que no início de 1900 havia um pequeno grupo fixado na região de Tacuarembó, no Uruguai, bem como atualmente há um grupo vivendo em comunidade próximo à Porto Alegre. 

Para os descendentes o mais importante agora é recuperar a história. O povo do Uruguai precisa saber que só é livre porque um dia o povo charrua se levantou em armas, junto com Artigas, e defendeu as fronteiras ajudando a criar a nação. O povo do sul precisa saber que os charrua foram enganados, massacrados, mas ainda assim deixaram viva a sua marca. Não é sem razão que na entrada de Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, a estátua que representa a cidade é uma figura que é um misto de paisano e charrua. O famoso “laçador”, apesar de um semblante bem paisano, aparece com o xiripá, a vincha na testa e a boleadeira, elementos típicos da cultura charrua. 

E, hoje, já na metade da primeira década do século vinte e um, os charrua se levantam e se mostram. Tanto que no dia 9 de novembro de 2007, após uma luta que já durava 172 anos, a Câmara Municipal de Porto Alegre reconheceu a comunidade charrua como um povo indígena brasileiro. Considerado extinta pela Fundação Nacional do Índio (Funai), essa foi uma vitória fundamental. O evento foi organizado em conjunto pelas comissões de Direitos Humanos da Câmara Municipal, da Assembleia Legislativa e do Senado Federal.

Há informações de que existem mais de seis mil charrua nos países que compõem o Mercosul. Só no Rio Grande do Sul, são mais de quatrocentos índios presentes nas localidades de Santo Ângelo, São Miguel das Missões e Porto Alegre. A terrível sentença de Fructuoso Rivera não se cumpriu. O povo que dominava todo o território da Banda Oriental não foi exterminado. Ele vive e avança! 

quinta-feira, 25 de julho de 2013

Sindicato de Luta

Os trabalhadores da UFSC vão às urnas hoje. Em disputa um sindicato tipo associação, que faz festas e distribui prêmios (estilo Força Sindical e CUT) e outro que faz luta, garantindo direitos e conquistando melhorias para os trabalhadores. A decisão está na mão da categoria. 


quarta-feira, 24 de julho de 2013

Um novo modelo de medicina

protestos dos médicos não tocam nos pontos cruciais

Ontem passei algumas horas dentro do HU, o Hospital Universitário da UFSC. Desde bem cedinho já se pode ver muita gente por ali. Nas primeiras horas começam a chegar as ambulâncias do interior do estado. É gente demais. Descem com os olhos aflitos, semblante perdido. Estão muito longe de casa, doentes, frágeis, sozinhos.  Tudo o que querem é chegar e serem atendidos por alguém que lhes segure a mão e diga que as coisas vão ficar bem. Mas, nem sempre é assim.  Seguem-se horas e horas de espera nos corredores lotados de outros seres como eles: perdidos, sozinhos, frágeis na dor.

Cada corredor de cada especialidade é um mundo. Ali se acotovelam vidas, sofrimentos, angústias. Afinal, estar doente é estar submetido a nossa condição mortal, é ficar cara-a-cara com a ceifadora. Daí esse medo que nos toma. Na sala de espera do raio-x algumas pessoas choram. Devem sentir muita dor. Por um átimo, os olhos se encontram e tudo o que se percebe é um atormentado pedido de ajuda, sem eco. Não há nada a fazer. Há que esperar. Nos salas de quimioterapia, os que esperam evitam olhar nos olhos como se tivessem vergonha de estarem doentes. Ficam ali, fixados no nada, ruminando uma profunda solidão. 

A visão dos corredores do HU não é diferente de outros tantos hospitais públicos pelo Brasil afora. Gente demais, buscando algum alívio para essa dor de estar doente. No mais das vezes, não encontrando. Mas, a lotação dos hospitais decorre muito mais por conta do modelo de cuidado com a saúde que nossa sociedade escolheu. Não se faz prevenção de doenças. A política é tratar o que já se instalou, e de preferência com remédios bem caros para que as “pobres” empresas farmacêuticas possam lucrar muito. O modelo brasileiro de um Sistema Unificado de Saúde é muito bom, mas acaba entravando nessa lógica que muito mais serve às empresas da morte do que ao ser que precisa de ajuda. 

Para começo de conversa a melhor prevenção de doenças é uma vida saudável. Só que para isso a pessoa precisa ter condições de tê-la. Alimentação adequada, higiene, moradia digna, sossego emocional.  Num país dependente, onde as diferenças econômicas são abissais, como conseguir isso? Como pode uma pessoa que vive num lugar insalubre, sem comida, sem abrigo, colocada cotidianamente diante da violência, da miséria, da dor, pode prevenir enfermidades? A coisa deveria começar por aí. Mudar o modelo da organização da vida, destruir o sistema capitalista que exige a morte de um para que o outro viva. Uma pessoa que vive em condições dignas de vida tem menos chance de adoecer. 

De qualquer sorte, mesmo com todo o cuidado e prevenção, e ainda que fôssemos um país soberano, com outra forma de organizar a vida, haveriam de existir doenças e doentes. E aí, o que fazer? Uma solução encontrada por países como Cuba é o cuidado da pessoa na sua totalidade. Através dos médicos de família, cada pessoa é monitorada e acompanhada nas suas enfermidades, de maneira sistemática. O médico visita a pessoa, sabe seu nome, conhece seus problemas e, com base da história completa de cada um, consegue dar soluções para os problemas de saúde que aparecem. Remédios, só quando realmente necessário. Não há uma política medicamentosa do cuidado com a vida. A saúde é vista como condição básica de ser no mundo. 

Para qualquer um que já tenha precisado de atendimento médico em um hospital no Brasil, fica claro que há uma diferença gigantesca no modelo de medicina. O mesmo acontece nos Postos de Saúde. O modelo é o de atendimento por ficha. O médico, mesmo contratado para ficar no posto por quatro horas, atende apenas um número x de fichas. O que significa que se uma pessoa chegar depois da última ficha, não será atendida, mesmo que o horário do médico ainda não tenha terminado. Essa lógica da ficha obriga a pessoa doente, além de ter de se enfrentar com toda a angústia de estar enferma, a chegar aos postos na madrugada para garantir a tão esperada ficha. Pessoas há que dormem no relento da noite para garantir a senha do atendimento. É um paradoxo. O doente, que deveria ser cuidado, amparado, acolhido, precisa enfrentar toda essa outra carga de dor, para além da doença. Tudo isso torna o atendimento nos Postos de Saúde uma farsa. Ali, só são possíveis os agendamento de rotina, o trabalho de acompanhamento de doenças crônicas. Se o vivente estiver mesmo doente, a única saída é o hospital.

Mesmo os médicos mais experientes afirmam que essa foi a forma que os pobres encontraram de furar o bloqueio da falta de atendimento. Como o Posto de saúde funciona por ficha, e no geral são poucas, uma ou duas vezes na semana, as pessoas preferem buscar diretamente o hospital. Mesmo que demore. Pelo menos lá o atendimento pode ser possível. Daí o inchaço dos hospitais, recebendo desde casos gravíssimos até pessoas com gripe. A hospitalização acaba sendo uma espécie de técnica de sobrevivência dos empobrecidos, ainda que isso acabe gerando toda a superlotação que pode, inclusive, fazer com que alguém que realmente precise do atendimento de urgência fique sem ele. É uma roleta russa Um jogo de sorte. 

Mesmo a classe média, que pode pagar por planos de saúde, já está percebendo que os modelos de mercadologização da saúde avançam para o caos. Marcar uma consulta com um especialista através do plano de saúde pode demorar dois meses ou mais, tal qual no SUS. E o atendimento de emergência nas clínicas dos planos não se diferencia muito do que é dado nos postos de saúde, consultas de menos de cinco minutos e uma receita gigante de remédios caros. Não poderia ser diferente, o médico que atende no plano é também o que atende no posto. Ele tem aprendido assim na escola. É um modelo de ensino da medicina. Cada vez menos a atenção com a pessoa, cada vez mais atenção nos exames. N. T. (54 anos) conta que foi ao médico por estar com sintomas de pressão alta. Era nova na cidade, não conhecia ninguém. Marcou consulta numa clínica particular. O médico recebeu, perguntou o que ela sentia, ela respondeu. A conversa não durou dois minutos e ele já começou a preencher a receita. “O senhor não vai me examinar?”, perguntou, perplexa. Ele largou a caneta, olhou para ela pela primeira vez e perguntou: “A senhora quer que lhe toque?” A mulher saiu dali horrorizada, chorando, sem chão. Seguiu mais doente do que entrara. Médico particular, 250 reais.

Agora, vivemos no Brasil um momento de “levante” por parte de alguns médicos. Não aceitam a proposta do governo de obrigar os estudantes de medicina a passarem dois anos em atendimento nos Postos do SUS. Isso não é surpreendente. Nem a solução dada pelo governo, nem a reação dos profissionais da medicina. Qualquer das duas não resolve de imediato a situação daqueles que sofrem o sistema. A medida governamental é pirotécnica. Não é obrigando os alunos a se defrontarem com a pobreza que os fará melhores médicos. Alguns até poderão mudar sua forma de pensar, mas, esses, que o fazem, certamente o fariam em algum momento da vida. Estão sensibilizados para isso. Já os que estão contra a medida não poderiam atuar de forma diferente. Foram ensinados a ver a doença, não o ser humano. A esses tanto se lhes dá se o que está à frente é pobre ou rico. Eles veem papéis, números, exames, e estão treinados para receitarem as novidades da indústria farmacêutica. Talvez até acreditem mesmo que o que precisa é mais material, mais máquinas de exames e coisas assim.

A solução para toda essa pendenga tem de ser estrutural. Mudar o modelo de desenvolvimento, mudar o modelo de formação do profissional médico, investir cada vez mais na política de acesso às universidades, para que jovens da classe trabalhadora possam também ter a chance de formarem-se médicos, dentistas, psicólogos.  Há que reestruturar a lógica do sistema de atendimento nos postos de saúde. Coisas simples como a manutenção de um médico durante todo o dia, atendendo as pessoas que vão chegando. Nada de marcação de fichas. Chegou, tem médico, é atendido. Pronto! Não há que ceder a chantagens de pagar salários astronômicos para que um profissional vá trabalhar no interior ou em regiões inóspitas. Tendo bastante gente formada, gente inclusive oriunda da classe trabalhadora, que conhece o sofrimento do seu companheiro, as coisas vão se transformando naturalmente. 

E se para que esse modelo vingue for necessário, por enquanto, buscar profissionais fora do país, já que a formação de um médico é cara e demorada, que venham aqueles que sabem atuar dentro de uma política de saúde, não de morte. Que atuem no sentido de ver a pessoa como um todo e não como um pedaço doente. Aqueles que compreendem que uma criatura doente é um ser frágil, precisando de amparo e carinho. Aqueles que já vivenciam um modelo de saúde onde o cuidado com a dor do outro é a única medida. Se fora assim, que venham os cubanos, os africanos, os espanhóis, qualquer um que possa começara a mudar esse triste cenário. Mas esse médico tem de ser diferente, não pode estar contaminado com essa lógica da morte, do lucro, do estar ajoelhado diante das farmacêuticas. 

Todo aquele brasileiro que um dia precisou de ajuda, e foi num posto, e ouviu o indefectível: “não tem ficha”, sabe muito bem do que estou falando. Há que ter gente para cuidar da gente. Muitas vezes, a presença de um médico nos apertando a mão, olhando nos olhos e dizendo que tudo vai ficar bem é mais curativa que os sintéticos produzidos nos laboratórios. As pessoas precisam de pessoas que as vejam por inteiro. Logo, é o modelo de medicina ensinado nas escolas, aliado a uma política de acesso ao curso, que precisa ser transformado.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

O aborto como política de estado

Depois de um ano da lei que descriminalizou o aborto no Uruguai, não há sequer um registro de morte entre mulheres que optam pelo procedimento. Entrevista com a psicóloga Catarina Gewehr, realizada durante o programa Campo de Peixe. Rádio Campeche.

domingo, 21 de julho de 2013

Os ônibus lotados

Esse desabafo nos chegou por email no correio da Rádio Campeche. Reproduzo aqui porque é bem isso que acontece com a gente que usa o transporte coletivo em Florianópolis.



Por Catarina

O que está por trás de ônibus lotados? São dezenas e dezenas de minutos de espera todos os dias nos terminais e nos pontos (a maioria deles nem sequer são cobertos), falta de informação nos pontos sobre os horários e itinerários, sem contar que os belos telões animados dos terminais servem principalmente como vitrine para propagandas, igualzinhas àquelas da televisão. Esse descaso para com quem necessita do transporte público não acaba contribuindo para que aqueles que podem abrir mão dele, passem a usar diariamente seus carros particulares e a engrossem as longas filas de engarrafamentos? E não são os usuários dos ônibus, apesar de não estarem contribuindo com tais engarrafamentos, que acabam enfrentando da pior maneira esse ônus do transporte? Todos pagam o pato, alguém poderia dizer. Mas com a pequena diferença de que os do busão vão, em sua maioria, em pé, segurando peso, dividindo um espaço tão apertado que às vezes é desconcertante. 

Além disso, passado o ponto crítico do engarrafamento, o motorista com seu carro vai tranquilamente passar na padaria ou na farmácia, fazer uma visita a alguém e voltar para casa rapidinho. Quantos terminais o usuário do ônibus ainda vai enfrentar? Quantas filas? Será mesmo que cada um dos milhares de usuários pagando quase 3 reais para cada viagem (quantas viagens fazemos por dia?) não paga um transporte que deveria ser MUITO MELHOR do que esse que está aí? Será que é demais sonhar com uma cidade em que eu possa ir de ônibus à farmácia, à padaria, ao cinema, à praia e onde eu quiser sem gastar de 3 a 4 horas do dia me locomovendo? É demais sim, pois essas empresas só existem para terem altíssimos lucros. A elas não importa se um pai de família que ganha em torno de um salário mínimo não possa levar seus filhos para passear nos fins de semana porque, somando tudo, fica muito caro. Tampouco se importa se eu vou levar 2 horas e meia para chegar à praia numa bela manhã de sábado. Por que, então, elas tem tanto poder em decidir como será este transporte? Por que o poder público não está à frente disso, já que esse é um serviço essencial para a cidade? Quem está ganhando nisso tudo?

 As cidades foram uma grande invenção, alguém escreveu. Nelas as coisas aconteciam, as pessoas estavam em constante contato, tudo convergia. Por que as grandes e médias cidades brasileiras se tornaram uma aberração? As pessoas vão dizer... é muita gente... Outras vão dizer, é muita favela... Por que o brasileiro não se pergunta então: por que tanta gente nas mesmas cidades? Por que tantos pobres neste país? Alguma coisa está errada conosco e o primeiro passo é compreender as ligações entre as coisas, conhecer um pouco da nossa história, que não passa na novela, pode crer. Você acha mesmo que é normal haver tanta pobreza ou que se trata de mera culpa das pessoas que estão nestas condições? Então será que temos, como nação, algum problema genético que faz as pessoas nascerem incompetentes e preguiçosas? 

Mas pense bem, na ocasião da inauguração do sistema de transportes em Florianópolis há uns bons anos atrás, a Dona Ângela disse que o trabalhador de Florianópolis ia ter que se acostumar a acordar mais cedo... E ele teve que se acostumar né? Vê-se que o cidadão de Floripa nem é tão preguiçoso assim... Por isso, é possível que agora peçam para o trabalhador dormir um pouquinho mais tarde... Será que a Dona Ângela ou os atuais gestores dessa cidade já andaram de ônibus alguma vez em suas vidas? No Brasil, essa pergunta pode parecer esquisita, porque transporte público parece ser sinônimo de transporte de pobre. Em alguns outros países, prefeitos, empresários, médicos, professores e qualquer pessoa compartilham o transporte coletivo diariamente, inclusive é comum ver todo tipo de gente usando também a bicicleta. Existem lugares onde a tarifa de ônibus é baixíssima (centavos) e até cidades onde não se paga! Será que os gestores de Florianópolis convivem com alguém que usa ônibus diariamente? Às vezes, essa estranha pergunta surge na minha mente... Costuma ser dentro de um ônibus, atravessando a cidade que essas ideias me aparecem... Andar de transporte coletivo em Floripa é um incentivo a filosofar sobre certas coisas. Especialmente quando presencio as pessoas se digladiando para subir no ônibus ou porque alguém está atrapalhando a movimentação dentro da lata de sardinha com sua mochila nas costas. 

Inclusive, pregaram um aviso muito gentil nas janelas, pedindo que aqueles que usam mochila, tirem-na das costas ao andar de ônibus, para não atrapalhar os demais. Muito civil este lembrete, só faltou escrever: ...devido ao fato de que os ônibus estão sempre entupidos. Onde colocar a mochila? Será que a gente também pode colocar um bilhetinho nas janelas pedindo gentilmente para BAIXAREM AS TARIFAS, QUINTUPLICAREM OS HORÁRIOS DOS ÔNIBUS (acho que a frota não precisa, porque geralmente ficam estacionados dentro dos terminais), DISPONIBILIZAREM HORÁRIOS E ITINERÁRIOS EM CADA PONTO e, quem sabe, fazerem um compartimento para mochilas e bicicletas nos ônibus? Apesar de tudo isso, é no busão e nos terminais que a gente vê também a solidariedade e a civilidade dessa gente que deveria educar suas elites políticas. Isso aconteceria, certamente, se essa elite passasse a usar o transporte coletivo. Prefiro acreditar que o povo brasileiro é muito é guerreiro e não o culpado pelas mazelas sociais. É guerreiro, mas não é tolo.