segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

UFSC cumpre 57 anos de vida







Em 1960, a união das faculdades existentes em Florianópolis - Direito, Ciências Econômicas, Odontologia, Farmácia e Bioquímica, Medicina, Filosofia e Serviço Social, deu origem à Universidade Federal de Santa Catarina, cuja lei de criação foi sancionada por Jucelino Kubitschek, em 18 de dezembro. Pouco tempo depois começavam as obras do que viria a ser o campus da UFSC, já na Fazenda Assis Brasil, depois de muita disputa sobre onde deveria ser fincada a universidade, já que a fazenda era considerada muito distante do centro. Mas, apesar disso, venceu a ideia de David Ferreira Lima, e o campus foi crescendo na Trindade, ajudando a dar nova vida ao bairro.

Hoje, dia 18 de dezembro de 2017, a UFSC comemorou seu aniversário de maneira sóbria, ainda vivendo a perplexidade da morte do reitor Luiz Carlos Cancellier, decidida por ele depois de vivenciar profunda humilhação ao ser preso de maneira arbitrária e posteriormente impedido de entrar na UFSC. Acusado de obstruir a justiça numa investigação de desvio de recursos, ele viu seu nome jogado na lama, pela polícia, pelo judiciário, pela mídia e pela opinião pública. Todos julgando e condenando antes de qualquer evidência. Não suportou.

Nesse dia de aniversário a administração decidiu inaugurar o retrato de Cancellier na galeria dos reitores. Foi a maneira de juntar a celebração dos 57 anos com a lembrança, ainda doída, da tragédia vivida no último outubro. A Orquestra de Câmara e o Madrigal da UFSC trouxeram a beleza da música, e o retrato foi descortinado. 

O grupo “Floripa contra o Estado de Exceção” realizou seu protesto, com faixas e cartazes lembrando a forma abusiva com a qual a polícia, o judiciário e a mídia trataram do caso que levou o reitor ao suicídio. “Não vamos permitir o esquecimento”. Faixas com as fotografias daqueles que protagonizaram as denúncias e as prisões circularam pelo saguão da UFSC, cartazes com dizeres diversos lembrando o abuso, em defesa da universidade pública e gratuita também proliferaram. Ao final das homenagens o grito: Justiça! Justiça! Até hoje – desde o dia da prisão, que foi no começo de setembro – não há comprovação sobre qualquer crime que tenha cometido o reitor. 

Do lado de fora da reitoria a manhã corria cinzenta, com uma neblina fininha caindo. Pelo campus, o silêncio. Já não há mais aulas e os estudantes se foram. Em volta da música e da homenagem pelos 57 anos reuniram-se os trabalhadores, poucos. Alguns, mais próximos do reitor Cancellier, enxugavam lágrimas furtivas. Ficou a saudade do professor cumprido, que descia incontáveis vezes para o lado de fora da reitoria, para fumar e conversar com quem passasse. “Parecia que o gabinete era ali embaixo”, lembrou um jardineiro.

Outros, como eu, também se emocionavam com o aniversário em si. Afinal, apesar de saberem que essa que aí está ainda não é a universidade necessária, nutrem por ela um profundo amor. Um amor que está ancorado na potencialidade desse lugar, que tem como missão formar pessoas para o mundo do trabalho, para a criação do novo, da ciência, do conhecimento. Uma universidade que ainda não deu as mãos à maioria do povo, nem conseguiu apresentar soluções para os problemas locais e nacionais, mas que, apesar disso, tem em si a possibilidade. 

E é em busca dessa possibilidade que caminhamos, no cotidiano, fazendo coisas fora da ordem, lutando para que permaneça pública, gratuita, de qualidade e que se faça comprometida com a sociedade, com a maioria da população. 

A UFSC é um lindo lugar, espaço onde travamos nossas batalhas de classe. É abrigo, é casa, é madrasta e mãe. Depende sempre de cada um e do que se espera dela.

Eu, que aqui cheguei, primeiro como aluna, em 1987, depois como trabalhadora em 1994, a tenho como território de potência e de belezas. Gosto de andar por suas veredas, seus lugares lúgubres, suas alamedas verdes, seus corredores silenciosos. Gosto de suas gentes, amo os meses de aula com a balbúrdia dos estudantes, as lutas dos trabalhadores, o latir dos UFSCães, o trinar dos passarinhos, o coloridos dos ipês. Sinto-me em casa. Por isso, não me furto à luta para que ela saia de seu conservadorismo, seu atraso, sua intolerância. Dentro desse pequeno mundo, vamos fazendo o que podemos para tornar a UFSC a universidade sonhada, que ainda não vingou. Mas, vingará. 


Orquestra de Câmara e Madrigal da UFSC





2 comentários:

Beatriz dominoni lourenção disse...

Precioso texto, Elaine Tavares. Formada pela UFSC e sem sombra de dúvida uma das maiores jornalistas deste país.

Raquel Wandelli disse...

Palavras insurgentes que nos confortam e mobilizam, como sempre. Gratidão, querida companheira!