segunda-feira, 2 de março de 2015

Os cossacos




Desde bem menina eu lia livros antigos sobre os bravos cavaleiros que defendiam a fronteira sudeste da “mãe” Rússia contra os tártaros. Era os cossacos, com seus gorros de pele, casacos pesados, botas longas e cavalos ligeiros, que saltavam das páginas de Gogol, Puskin, Tolstoi. Meu pai dizia que eles eram parecidos com os gaúchos, os que povoavam os campos que víamos da janela. Homens livres, centauros, cruzando as estepes geladas. Eu os amava e sonhava com eles. No toca-discos, ouvíamos as canções cossacas e o mundo se enchia do tropel de cavalos. Eles chegaram a ser o grupo militar mais temido do mundo, tanto que Napoleão lhes rendeu loas, dizendo que, tendo-os, conquistaria o mundo.

Durante a revolução russa os cossacos se dividiram, uma parte lutou com os bolcheviques, outra abominou a proposta comunista. Parte desse grupo, mais tarde chegou a aliar-se ao nazismo. Foi um tempo difícil. Por conta desse divisão, as gentes cossacas foram perseguidas, se dispersaram e muito do mito do grande guerreiro cossaco desapareceu. Não em mim. Vez em quando, as velhas músicas e os livros na estante da casa dos meus pais, me remetiam outra vez às estepes e eles viviam outra vez.

Agora, com os conflitos na Ucrânia eles me vêm, já que foram praticamente os responsáveis pela criação do que hoje é esse país. De que lado estarão? Lendo um texto aqui, outro ali, na imprensa europeia, vejo muitos jovens reivindicando o passado cossaco, mas, aquele, quando os cossacos se aliaram a Hitler. Tristeza profunda.

Por outro lado o governo de Putin tem feito um trabalho de recuperação da identidade cossaca, inclusive formando escolas militares cossacas, buscando trazer os velhos ensinamentos dos guerreiros míticos das estepes. Há até uma força policial especial formada só por cossacos que patrulha as ruas de Moscou e de outras cidades russas.

Eu não tenho muita informação sobre como isso está funcionando, nem sobre as intenções políticas dessa etnia que ressurge com força. Mais de 650 mil pessoas se autodeclararam cossacas na Rússia atual. Se serão os guerreiros livres do passado longínquo, ou a extrema direita nazi, só o tempo dirá. Talvez as duas coisas, como na revolução russa.

Mas, em mim, ainda reverbera a canção que evoca os tempos mais antigos, os cavalos ligeiros, a liberdade da estepe. E ela está aí, na voz do grande Ivan Rebroff, que nem era cossaco, mas os amava, como eu.  


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