segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Waldick e sua condição de homem da direita


Esse final de semana postei no meu blog um vídeo da música “Tortura de amor”, do Waldick Soriano, a qual considero de rara beleza. Imediatamente recebi um comentário que criticava o fato de eu, uma pessoa de esquerda, postar a obra de um reacionário de direita como era Waldick, publicamente um defensor do regime militar. Fiquei a matutar, porque as críticas sempre têm esse efeito em mim. Ponho-me a pensar sistematicamente sobre o tema, para ver se estou de fato errada. Lembrei-me de uma discussão que tive certa feita com um amigo sobre a obra de Balzac, um monstro sagrado da literatura mundial. Ele, Balzac, tudo o que queria era ser um aristocrata e, acabou revelando na sua obra, toda a podridão dessa classe assim como da burguesia nascente. Paradoxos... Hoje, ao lermos Balzac fica difícil crer que ele quisesse ser aquilo que expõe tão cruamente, mas essa é a verdade. Honoré era um monarquista, conservador e totalmente contrário aos ideais democráticos. Ainda assim era o preferido de Engels, pois, afinal, suas descrições da vida francesa são de tirar o fôlego.

Claro que não estou comparando Waldick com Balzac, apenas levanto alguns pontos de reflexão sobre o quanto uma obra pode fugir do autor, justamente pelas contradições que são inerentes ao humano.

Li há bem pouco tempo um texto de autoria de Cláudio Antunes Boucinha, no qual ele faz uma análise sobre Wilson Simonal, justamente discutindo a alcunha de “artista da direita” que foi colada ao fabuloso intérprete da música nacional que, sim, cometeu erros. Cláudio mostra o quanto a condição de “homem de direita” de Simonal pode ser matizada pelo fato de ele ter sido um jovem pobre, portanto passível de se deixar envolver pelos encantos da fama e do dinheiro fácil. Vale a pena ler o artigo, bastante profundo e com muito material histórico,no enlace:
O texto do Cláudio me remeteu à crítica feita no blog sobre o Waldick. O “reacionário” nasceu no interior da Bahia, foi abandonado pela mãe e jogado no mundo de deus, trabalhando de manhã para comer à noite. Foi para São Paulo, ralou tudo o que tinha direito e só fez sucesso depois dos 50 anos, ainda etiquetado como brega. Por várias vezes contestou os seus críticos que o acusavam de parceiro do regime, como está relatado no livro do historiador Paulo César de Araújo, “Eu não sou cachorro, não”. Ali, Waldick lembra que chegou a ser censurado ele mesmo por sua música “tortura de amor”, essa mesma que postei. É que a ditadura não aceitava a palavra tortura nem num bolero.

Enfim, Waldick era um homem renegado, abandonado, execrado, que venceu na cidade grande. Com sua cara de cafajeste, seus óculos escuros e suas canções que passavam da mais pura poesia ao brega escrachado, ele marcou a música brasileira. O homem Waldick, suas posições de direita ou sua pretensa adesão ao regime agora fazem parte da história.

Não se trata de relativizar e “perdoar” toda e qualquer criatura que tenha enveredado pelo caminho da direita, seja por escolha consciente ou por circunstância da vida. Mas quando se trata de discutir a arte e as contradições humanas, talvez seja necessário um pouco de generosidade. Claudio Boucinha lembra em seu texto uma citação de Marx sobre o lumpesinato: «A proleta miserável, o lúmpen proletariado, essa podridão passiva dos estratos inferiores da sociedade, é aqui e além, arrastada para a ação por uma revolução proletária, e pela sua situação estará mais disposta a deixar-se enredar em manobras reacionárias». E aponta: “Na atualidade, alguns “marxistas” defendem a “necessidade da eliminação do lúmpen proletariado reacionário”. Isto confirma a total falta de autocrítica de alguns pensadores, no Brasil. Vá lá que Marx tivesse má vontade com os supostos inclassificáveis ou desclassificados de sua época, o que demonstrava certa debilidade de seus escritos; agora, outra coisa é, depois de décadas, alguém pensar que a solução para um mendigo é a eliminação pura e simples, só pode explodir qualquer ética”.

Não sei se é essa minha vertente cristã, mas como bem mostra Ariano Suassuna, no imortal “Auto da Compadecida”, eu tenho cá comigo que todos os seres nascem bons, e é a vida que os vai enfraquecendo ou empurrando para lá e para cá. Alguns são fortes e resistem, outros sucumbem. Mas, no final, todos acabam salvos. Resumindo, as canções de Waldick são soberbas. Tenha sido ele de direita ou não. Se com sua “direitice” o cantor baiano prejudicou alguém, que seja lembrado por isso. Mas, ao mesmo tempo não podemos esquecer a beleza que também conseguiu produzir. Isso só mostra o quanto somos humanos, demasiado humanos, cheios de contradição.

Um comentário:

claudio boucinha disse...

Parabéns! Brilhante, o seu escrito.