quinta-feira, 23 de maio de 2019

Por um sindicato de luta, outra vez!


Essa foto mostra um momento de grande alegria. Foi em 1997, na posse como diretora do Sintufsc. Nosso sindicato andava mal das pernas e o grupo do Movimento Alternativa Independente (MAI) se mobilizou para recuperá-lo. Foi um trabalho bonito de visitas nos setores, discussão e construção de propostas. Eu tinha chegado à UFSC em 1994, tinha apenas três anos de casa, mas logo já fui percebendo quem realmente queria lutar pelos trabalhadores, sem outros interesses por trás. E, já nas primeiras assembleias vi que o caminho era o MAI.

Fui acolhida com muito carinho pelo grupo que contava com figuras importantes no processo de construção do sindicato dos trabalhadores desde os anos 1980: Silva, Maneca, Helena, Ângela, Moisés, Valcionir, Parú, Silvana, Aldo, Sebastião, enfim, um grupo de gente guerreira, capaz de comandar as lutas que precisavam ser feitas naqueles tempos do privatista e neoliberal Fernando Henrique Cardoso. Tivemos uma eleição bem disputada, contra toda a máquina da reitoria, que sabe muito bem como “atrair” os eleitores. Vencemos.

Pegamos o sindicato com uma dívida de 500 mil reais e, em um ano, com muito trabalho e criatividade, zeramos a dívida, conduzindo o sindicato para o caminho da luta. Foram lindos anos. Lembro-me desses momentos sempre com muita ternura, porque ali, no Sintufsc, encontrei aqueles e aquelas que iriam tornar-se grandes amigos, amigos da vida, para sempre. E aprendi preciosas lições sobre solidariedade, humildade, justiça e capacidade de luta.

Depois de alguns anos, e já no governo petista, perdemos o sindicato. Foi um período muito turbulento, pois a esquerda dividiu-se entre os que apoiavam incondicionalmente o governo e os que acreditavam que precisavam seguir independentes e em luta. Nesse processo, nos dividimos. Foi ruim porque o grupo que assumiu o sindicato iria seguir o caminho da acomodação, como a maioria. E nesses anos todos, poucas lutas reais foram encaminhadas. Chegamos ao cúmulo de ver uma greve histórica, a greve interna das 30 horas, ser derrubada pelo próprio sindicato numa assembleia dramática, na qual os colegas aposentados foram recrutados e terminaram a greve por nós. Impossível esquecer isso.

Agora, estamos de novo com um bom grupo de trabalhadores querendo trabalhar e lutar. Gente nova misturada com gente mais experiente nas lutas. Todos querendo um sindicato de luta, outra vez. A sorte está lançada. Disputarão duas chapas: a Chapa 1, que é a nossa, chama-se TAEs Unidos – Juntos somos mais fortes. E a chapa 2, que é a que representa o continuísmo.

Os trabalhadores sabem muito bem que esse é um tempo de grandes batalhas. Tudo está ameaçado, inclusive a universidade. Por isso não é hora de vacilar. Peço a todos o voto na Chapa 1, a qual tenho a honra de integrar. Porque eu acredito nessa rapaziada, nessa gente cheia de vida e de vontade de construir um sindicato capaz de encaminhar as peleias que virão.

É hora de mudar. Chapa 1 – TAEs Unidos.







quarta-feira, 22 de maio de 2019

A cidade tem de ser para todos

Foto: Gabinete Vereador Lino Peres

Quem em sã consciência gosta de pobreza? Ninguém. Cada ser humano no mundo só tem uma proposição: viver a vida em alegria, sendo amado e saciado. Ademais, a pobreza não é uma coisa natural, que acontece na vida por obra de deus ou do destino. Não. A pobreza é coisa construída historicamente. Ela acontece quando algumas pessoas, pelo uso da força, da mentira ou da persuasão, se apropriam da vida do outro, relegando-o a uma existência sem fartura. No caso da pobreza do nosso tempo, ela é fruto da forma como se organiza a vida no modo capitalista de produção. 

Nesse modo há uma pequena fatia que se adona dos meios de produção e uma grande maioria que vende sua força de trabalho como única saída para sobre/viver. O trabalhador, em verdade, não vive. Ele apenas mantém a cabeça fora da lama da miséria. E os que, por algum motivo não conseguem ou não querem vender sua força de trabalho estão fadados ao abandono ou à morte. 

Quando o capitalismo começou com suas grandes fábricas moendo gente, era tanta família saindo do campo, expulsa pelos pretensos donos da terra, que não havia como as fábricas absorverem tantas pessoas com empregos. Então, o povo que conseguia trabalho, era obrigado a aceitar as condições absurdas de 18 ou mais horas de labuta, parcos salários e casebres imundos para viver. E os que não conseguiam emprego, vagavam pelas ruas, causando constrangimento aos abastados. Foi por isso que criaram leis contra a “vagabundagem”, e essas leis tornavam legal, inclusive, a escravidão. Se fossem pegas vagando pela rua, sem trabalho, as pessoas eram presas e vendidas, quando não mortas. A pobreza dos desgarrados da terra era vista como uma doença, que precisava ser escondida dos olhos das “pessoas de bem”. 

Então, não é novidade esse nojo e horror que os pobres causam aos abastados. Desde o começo do capitalismo foi assim. Basta ler os textos do velho Marx, lá no “Capital”. 

Hoje, em Florianópolis, vivemos esse momento doloroso, no qual as vítimas do capital são tidas como uma doença contagiosa. Vivendo um crescendo vertiginoso no número de moradores em situação de rua, a capital do estado de Santa Catarina, conhecida como Ilha da Magia, busca punir aqueles e aquelas que, na verdade, só precisariam de uma chance para colocar a cabeça acima da linha da miséria. 

Com as “pessoas de bem” reclamando muito dessa multidão de desgraçados dormindo nas ruas, a solução encontrada pela prefeitura foi colocar tapumes nos lugares onde o povo da rua busca abrigo para dormir. E isso é feito bem agora, quando o inverno está vindo. No nosso provinciano jogo dos tronos, os reis da cidade decidiram que o povo da rua é feio demais, fede demais, atrapalha demais e como não para de se multiplicar, a solução é simples: impedir que vivam. Já que não podem ser presos por “vagabundagem”, então que se tire tudo deles, os pequenos abrigos, a possibilidade da comunhão, a sociabilidade. 

O terror do nosso tempo é ter de vir escrever um texto no qual o que se tem a dizer é que tirem os tapumes, para que as pessoas possam dormir embaixo das marquises. Isso é, deveras, inaceitável. Pessoas há, é verdade, que vivem na rua por querer. São poucas. No geral, os que estão em situação de rua são pessoas quebradas psicologicamente, abandonadas, sem chances de trabalho, alguns dependentes químicos (que é uma condição de falta de saúde). E são consequência desse sistema que explora e mantém a pessoa no limite da vida. A rua é sua casa porque ainda que, desprovidos de tudo, eles querem viver. Querem desfrutar do jardim que deveria ser a vida. Querem a alegria e a felicidade. 

Impedidos de dormir nas marquises da Deodoro, os moradores em situação de rua se mobilizaram, porque afinal de contas também são pessoas com direito à cidade, e foram reivindicar junto à prefeitura. A ação dos moradores, juntamente com representantes de outros movimentos sociais e vereadores, exigiu da prefeitura um espaço digno para que as pessoas possam se abrigar. Hoje, os espaços que têm são poucos e cheios de regras que muito pouco podem ser cumpridas.

A batalha segue sendo travada. Os moradores da cidade, que têm casa para morar, olham os moradores de rua com intolerância. “Eles que vão trabalhar, deem duro como eu dou”, diz uma mulher no ônibus, enquanto vai apontando as dezenas de pessoas deitadas embaixo das árvores. Não há compaixão. E não há compaixão porque não há entendimento. Mergulhados na sua própria luta para não morrer, até mesmo os trabalhadores, que deveriam ser solidários, apoiam as ações higienistas. “Aquela rua lá (a Deodoro) é um fedor só. Tá certo”.

A Deodoro fede sim. Fede a gente que não conseguiu se inserir no “mercado”, fede a pobreza. Uma pobreza que é fruto da nossa própria incapacidade de construir uma sociedade justa. A saída é “limpar”, tirar o problema do caminho. Esconder. Deixar o centro saneado para os compradores de mercadorias. Não há espaço para a empatia. São os tempos do capital.
A triste notícia é que num modelo de sociedade que gera pobreza, é impossível escondê-la, domá-la, impedi-la. Enquanto a máquina do capital moi uma parte do povo, outra parte vive à margem. E luta. Porque também quer compartilhar do banquete. 

Em Florianópolis, o povo da rua não se cala, se junta e reivindica. A vida boa e bonita tem de ser para todos.



segunda-feira, 13 de maio de 2019

As eleições e a cidade

Lino, comprometido com a vida popular

Mais uma vez vamos definir os destinos da cidade de Florianópolis numa eleição. E, desde o mandato popular de Sergio Grando/Afrânio Boppré temos colecionado desastres. Um após o outro, prefeita e prefeitos governaram unicamente para os ricos. Nada para a maioria. Periferia abandonada, transporte público de péssima qualidade, mobilidade urbana zero, nada de saneamento, nada de moradia popular, segurança péssima e propostas faraônicas completamente fora da realidade de uma cidade que é também ilha. As vias são para os carros e nunca se pensou uma solução coletiva, para as gentes. Nada de vias exclusivas para ônibus, nada de transporte marítimo, nada de turismo comunitário. Só propostas predadoras, destruidoras da natureza e das pessoas. 

Agora, esse ano, lá vamos nós de novo. Os mesmos candidatos “produzidos” pelo sistema predador, facilitador da vida dos ricos. E, entre os partidos de esquerda, pelo menos para mim não apareceu nenhum nome que seja capaz de encarnar os bons desejos que temos para a cidade. 

Da minha parte, ainda que seu nome não tenha sido aventado, tenho um candidato. Nele, penso eu, estão amalgamados todos os anseios da maioria dos trabalhadores e trabalhadoras que amargam viver numa cidade linda, mas que não se apresenta para eles e elas como possibilidade de fruição. A cidade, para nós, é só um lugar onde circulamos da casa, na periferia, para o trabalho, em algum outro lugar bem distante. E, nesse transitar passamos de duas a três horas dentro dos ônibus ou dos terminais, apesar das distâncias serem pequenas. Uma cidade que não vivemos nem nos finais de semana, porque nesses dias os ônibus escasseiam e podem-se levar horas para chegar a algum lugar de apenas 20 quilômetros de lonjura. 

Meu candidato é Lino Peres, que atualmente é vereador na sua segunda legislatura. Lino é professor na Arquitetura e uma de suas aulas, desde há décadas, é andar pela cidade. Com os alunos ele vai circulando pelas ruas e ladeiras, ensinando como a cidade foi se construindo amparada na ganância da classe dominante. Ele conhece cada cantinho, cada problema estrutural, cada viela. Como vereador seu trajeto é feito nas periferias, nas ocupações, nas quebradas aonde ninguém vai. Ele não tem manhã, nem tarde, nem noite, nem fim de semana, o tempo todo caminhando, conhecendo e construindo coletivamente alternativas  possíveis dentro do horror que é ser governado por um mandatário e uma maioria de vereadores que só pensam em defender os interesses de pequenos grupos.  Nada para a maioria. Nada para os empobrecidos. Com o Lino é diferente. 

No mandato do Lino se expressam as vozes dos índios, dos negros, dos santeiros, dos comunicadores populares, dos motoristas, dos trabalhadores formais e informais. Não há barreiras no seu atarefado gabinete. A gente chega a qualquer hora e é atendido. A equipe é pequena, mas valente, desdobrando-se em mil.

Conheço o Lino desde muito antes de ele pensar em ser vereador, quando apenas vivia sua experiência de professor na UFSC. E o Lino é o mesmo de sempre. Sorridente, simples, quase ingênuo na sua vocação para o cuidado com a cidade e com as pessoas. Porque a bondade e o cuidado às vezes são vistos como fraqueza. Lino não é fraco, não. Ele é bom. E ele é bom nos dois sentidos, no sentido pessoal, da bondade humana, e no profissional, na qualidade técnica. Por isso o Lino é perfeito para ser o nosso candidato. Ele olha pra cidade com amor. Ele escuta as pessoas com amor. E ele sabe o que fazer com isso. Não é o amor sentimento, piegas. É o amor compromisso. Aquele que se envolve até a medula. E que tem consequência prática. 

Eu não sou do PT, nem me arvoro a dar conselhos aos seus membros, mas penso que esse partido deveria finalmente olhar para o Lino com o mesmo amor com o qual ele tem servido a essa proposta. Um homem que se entrega tão profundamente em tudo que faz. Um homem que faz a diferença. Espero firmemente que seu nome apareça. Que seja candidato a mudar essa cidade. 

Com o Lino e sua equipe de gigantes, eu vou. 


sexta-feira, 10 de maio de 2019

Os espaços da cidade



A cidade é coisa que se nos vão tomando. De repente, quase sem que percebamos, alguma parte dela nos é tirada para sempre. E ainda que exista, não cabe mais em nós, nem nas nossas memórias afetivas. Anos atrás era impensável ir ao centro e não sentar na ponta do mercado público, gritando por um chope ao Marcelo ou ao Neto, no Bar do Alvim. Hoje, aquela ponta amada já não me diz nada. E não consigo sentar ali, porque sei que não tem mais Alvim, que o Mosquito não vai sentar trazendo alguma notícia bomba e nem o Ubby vai passar com seus poemas. Não há mais. Não há nada a não ser um chope ruim e garçons desconhecidos. 

O próprio mercado se gourmetizou. Sua copa genérica, tomando todo o espaço com as cadeiras Coca-Cola e aquela infinidade de gente puxando a gente para um prato de comida de 40 reais. Tão fora da ordem. Não sei. Não gosto. Passo por ali, olho com olhos de ontem e choro, sempre choro. 

Ainda assim o centro é um espaço mágico, porque outros espaços vão se abrindo para nós. Gosto de seus caminhos intricados, das ruelinhas, do sobe e desce das calçadas mal havidas, das gentes que ainda insistem em viver ali e daquele universo tirar seu sustento. As trabalhadoras do sexo, os ambulantes, os cantores, os pintores. Com eles faço a via sacra, parando ali para comprar algum badulaque dos haitianos, dos africanos, dos equatorianos, dos lageanos. Paro para ouvir o canto doce de uma mulher que acompanha um violeiro na entrada do ARS, dou um trocado para as estátuas vivas, afio um canivete de unha no moleiro, pego um sapato no sapateiro. O centro me completa. 

Agora que perdi o mercado achei outro espaço para meu nada fazer. É um quiosque que fica bem na em frente da saída do terminal. Ali podemos beber um caldo de cana, uma água de coco ou uma cerveja. Depende do dia. A maioria tá na cerveja e passa do ponto. São os famosos “mamaus”. Mas não incomodam. Também têm os conquistadores passando a conversa nas senhoras solitárias e os desocupados, esperando que alguma coisa lhes caia na cabeça. Tem três mesinhas colocadas bem de frente para a profusão de gente que cruza a rua em direção ao terminal ou  na direção do mercado. É como um vulcão sempre em erupção. Gente, gente e gente. De todo tipo, cores, sorrisos, amores. Gente no vai e vem da cidade. 

Sentada ali me encanto com a alegria do jovem cantador que se se apresenta no vão do cruzamento. Ele tem uma pequena caixa de som, um microfone, e ali fica praticamente o dia todo cantando reggae e outras belezuras da música popular. No geral ele canta para si, poucos param, mas se diverte tanto, que deixa a gente enfeitiçada. Está sempre sem camisa e de chinelo de dedo, o corpo suado pela dança que acompanha o ritmo da canção. Ele canta e sorri para as pessoas.  Parece estar pleno de felicidade. Ele me emociona. Gosto de ficar ali, vendo ele cantar. Depois, discreta, passo e dou minha contribuição. Ele agradece, simpático.

Penso que ele, como eu, deve ser um desses que insiste em viver a cidade, seja do jeito que for. A rua, livre e coletiva, existe para nós, pessoas, gente que ama a cidade. Roubam-nos quase tudo, nos tiram os lugares tradicionais, derrubam prédios históricos. Mas, a gente cava no meio do cimento, com as unhas, com o riso, com a alegria. E ainda que ninguém queira, a gente faz nascer a flor. Aquele guri cantando e dançando no vão da rua é um grito de resistência, assim como eu, lentamente sorvendo meu caldo de cana com os “mamaus”. 

Eu amo essa cidade, e dela nunca vou sair. 

segunda-feira, 6 de maio de 2019

O governo e a educação



O candidato Jair Bolsonaro tinha como mantra na sua campanha a proposta de que não iria governar nem atuar a partir de ideologias. Para muitos, isso significava que ele seria um político do tipo imparcial, sem conexões político-partidárias, sem uma filosofia própria de trabalho e sem uma definição política clara. E esses votaram nele, acreditando nisso. Um governo neutro. 
Para outros essa ideia de “sem ideologia” significava simplesmente desfazer tudo aquilo que o Partido dos Trabalhadores tivesse colocado a mão. Isso porque, para esses, apenas o PT atuara na política com ideologia. 

Bom, passados mais de 100 dias de governo o que se se percebe é que o entendimento do segundo grupo é o que está vigente. Quando Bolsonaro diz “sem ideologia” está querendo dizer sem nada que lembre ações ou pensamentos de esquerda, ou melhor, do PT. Ou seja, é um governo ideológico. Mas, não fica só nisso. É bem mais profundo. Em alguns casos, trata-se inclusive de mera vingança, como o do Hospital do Piauí que teve 100% das verbas cortadas porque lá, segundo os bolsonaristas, os votos foram 100% PT. Ora, isso é agir levando em consideração apenas a bílis. Não há aí qualquer espírito público e muito menos aquele pretenso “nacionalismo” que aparece nas propagandas do governo. 

Não existe Brasil acima de tudo. Pelo contrário. O que aparece acima de todos é a proposta do capital, que quer destruir tudo o que é público para poder abocanhar lucros, e junto com ela alguns desejos da família Bolsonaro e seus mentores  relacionados às suas vinganças pessoais. 
A proposta de cortar verbas da educação está diretamente colada a essa duas vias. O empresariado desde há tempos vem buscando botar a mão na fatia graúda da educação. Assim, sufocar as universidades públicas abre espaço para as universidades privadas de fundo de quintal. Essas que oferecem cursos a 190 reais por mês. Não têm pesquisa, não têm extensão, não têm nada. Apenas um pretenso ensino de uma profissão. É uma ideia furada. Essas universidades não são capazes de formar bons profissionais porque qualquer profissão exige também a experimentação e a relação com o mundo externo à universidade. Os “colegiões” são apenas espaços caça-níqueis que vão enriquecer alguns e deixar milhões no limite da ignorância. 

Qualquer pessoa medianamente informada sabe que são as Universidades Públicas as que são capazes de realizar pesquisas demoradas, essas que realmente mudam a vida e geram patentes. Pesquisas que resolvem problemas práticos da população. E se hoje ainda estamos capengas não é por falta de qualidade nas universidades públicas, mas justamente por conta  do pouco investimento e da atenção demasiada na inovação, que não cria coisa alguma. 

Há quem argumente que o governo quer acabar com a educação por raiva. É fato que há uma pitada disso sim, afinal o governo do PT investiu bastante nas universidades e isso por si só gera um desejo de vingancinha. Mas, não se iludam, a questão não é moral, nem pessoal. O que está realmente em questão é o aprofundamento da dependência tecnológica e intelectual. Os países de periferia precisam produzir matérias primas. Que deixem a ciência para os “grandes”. Afinal, esses grandes precisam vender o conhecimento para a periferia. Como vão fazer se a periferia também pensar e criar novos conhecimentos?  

Por isso esse ataque às universidades públicas. Estrangular financeiramente. Fazer com que venham as greves, as paralisações, os fechamentos de curso. Tudo isso fornecerá lenha para insistir na propaganda de que só tem “balbúrdia” na universidade pública. Assim, uma imagem aleatória de uma apresentação teatral acontecida há milênios, na qual havia uma pessoa pelada, passa a ser difundida como se fosse o cotidiano das instituições. De novo, a questão moral aparecendo para encobrir o político, a ideologia. E enquanto a turba moralista se move para acabar com os “pelados” , o empresariado ri, preparando a casa para a mordida. Ora, se há pelados nas universidades são os pelados de recursos, que precisam comprar com o próprio dinheiro, os insumos para suas pesquisas, ou o giz para suas aulas. 

Quem já frequentou uma universidade pública sabe que ali se expressa a sociedade no microcosmo. Tem de tudo. Tem gente estudando, tem gente curtindo, gente namorando, gente pesquisando, gente alienada, gente descolada, gente fazendo a grande política, gente fazendo pequena política. É um espaço de vida, em todas as suas facetas. Mas, é inegável que é ali o lugar onde 90% das pesquisas são produzidas, porque as privadas não aportam recursos para isso. 

A universidade não é o lugar prefeito. E está longe de ser a casa do saber visto que atravessada pela ideologia dominante. Claramente não é um espaço da esquerda. Não é. Ali, domina o status quo. Então, a única coisa que se pode depreender desse ataque é única e exclusivamente a sede de lucros do empresariado do ensino. Como não estão nem aí para o Brasil, pouco importa o pouco que a universidade pública ainda consegue aportar. Há que acabar com elas também. Que as gentes paguem para estudar. Educação deixa de ser direito. 

Ora, educação é direito. Está na Constituição. Então, até que mudem a Carta Magna, teremos de lutar. Algumas universidades já se levantam. Pelotas saiu na frente, outras já estão se mobilizando. Os Institutos federais também. A vida começa a ferver nos espaços que estavam aquietados. Essa vida fervente é a universidade do pensamento crítico, a universidade necessária. Que cresça. Dia 15 de maio está sendo chamado um ato nacional. E as ruas serão tomadas pelos que querem educação.  Há muito para mudar na universidade, mas há que ser para melhor. 

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Fosfateira em Anitápolis, não!


Anitápolis, uma pequena cidade que fica a 85 quilômetros da capital, Florianópolis, vive agora o drama que muitas cidades mineiras já vivem há anos: o risco de ter em seu território uma fosfateira, inclusive com barragem de contenção de lama ácida, semelhante a essas que se romperam em Minas Gerais. E a Vale é uma das empresas que está envolvida no projeto. Uma fosfateira é uma mina de fósforo, esse mineral que é usado para fazer fertilizante.

Quando a proposta surgiu, lá pelo ano de 2006, a população recebeu uma chuva de propaganda anunciando os “benefícios”, tais como a geração de emprego, o que animou muita gente. Depois, com o passar do tempo e a chegada das informações mais precisas, o risco ambiental e o risco de vida para as pessoas apareceu com mais força. A mina vai desmatar, provocar erosão de solo, produzir lama ácida e uma série de outros problemas comuns a esse tipo de mineração.

Segundo os estudiosos do tema a extração do fósforo em Anitápolis não tem muito sentido visto que o nível de pureza é baixo e atualmente já existem outras técnicas para extração de fósforo, inclusive do esgoto, como acontece na Europa. Sendo assim, a população hoje acredita que a ideia de uma fosfateira na cidade, além dos altos riscos para a vida, é totalmente ultrapassada para o que se destina.

A área desapropriada para a extração do fósforo é uma das áreas mais férteis do município e sua venda para a empresa Bungue acabou ocasionando mais êxodo das famílias em direção à cidade.

O projeto da fosfateira está eivado de problemas, tal como a primeira licença ambiental prévia ter sido dada pela Fatma e não pelo Ibama. Atualmente há um forte movimento contra a fosfateira, pois a população não quer ser refém do risco de uma tragédia como as que aconteceram em Mariana e Brumadinho. 

Nesse dia 04 de maio, sábado, na Praça Central de Anitápolis, acontece um grande ato cultural e de protesto, visando impedir que se inicie a mineração na cidade. Anitápolis, que leva esse nome em honra da grande Anita Garibaldi, está em luta, e não quer a fosfateira. Os moradores convidam toda a gente da região da Grande Florianópolis para participar do ato que terá início as 10 horas da manhã. Participe. O impacto da mineração na nossa região atingirá a todos.

segunda-feira, 22 de abril de 2019

O pai e o entardecer



Sempre gostei do entardecer. Ainda que me dê melancolia. Quando a barra do dia vai sumindo assoma invariavelmente aquela triste sensação da finitude. Tudo acaba. Tudo acaba. Sempre. Mas, se tudo acaba é sinal de que estamos em movimento, construindo novas auroras. Então, quando entardece é bom. Assim que me encanta ficar no alpendre, ruminando pensares. O sol sumindo, a noite vindo. Tão bom!

Mas, agora, com a presença da doença do meu pai, o entardecer perdeu a cor. Já não é mais um momento de fruição. Sua chegada é a hora do desassossego e medo. Por conta de algo que ninguém ainda sabe muito bem, quando chega o pôr-do-sol as pessoas que têm Alzheimer ou demência senil se agitam de maneira desesperadora. E alguém que passara o dia tranquilo fica outra pessoa. Irritado, confuso, violento, desequilibrado. As palavras tropeçam e saem em convulsiva confusão. O olhar fica desesperado, como se estivesse diante de um grande perigo, e ele mira o portão, com seu mantra “quero ir para casa”.

Essa é a hora noa (da suprema angústia). Dele, e minha. Dele, porque sofre. E, minha, porque não sei o que fazer. É aquele momento aterrador no qual tu queres proteger o outro de toda a dor, mas não sabe como, não tens os instrumentos, as condições. No processo de compreensão da doença temos feito algumas tentativas medicamentosas. Mas, as coisas não se ajeitam. É um confuso turbilhão. Um remédio ajuda em uma coisa, e desarruma outra. É uma aventura assustadora, porque tudo parece inútil. Como se todo o conhecimento da medicina não servisse para nada. Uma insuperável impotência nos assalta.

No meu desarvoro faço o que posso. Mas, desabo com o seu olhar aterrorizado. E, nessa hora, nem um abraço pode ser alcançado, porque não há razão, só o desespero, um desejo de fugir talvez. Imagino que seja alguma coisa que acontece no cérebro, que desarranja tudo, onde o toque amoroso não tem morada. É triste demais.

Há dias que são mais calmos, outros mais tumultuados. Mas, indefectivelmente, o fim do dia para mim passou a ser portal do medo e da impotência. Meu pai sempre foi um homem de ação e decisão. Mata-me vê-lo assim. E nesse morrer, dele e meu, vamos caminhando, de mãos dadas, enfrentando o torvelinho com as poucas armas que temos. Lançando-nos no abismo, todos os dias. O amor vai segurando a onda. Mas, momentos há que nem o amor tem poder. É duro demais! Resta essa força atávica, que herdei dele. Que vai sustentando, sustentando, sustentando...