terça-feira, 1 de novembro de 2016

“Então eu tô louco?”




Nos finais de tarde é tempo de tomar chimarrão com o pai, buscando conversas e lembranças do fundo da memória. É a hora em que ele faz perguntas sobre coisas que não consegue mais entender. Não como a criança, cheia de curiosidade. É um velho, por vezes sem memória,  cheio de perplexidades. Hoje, em meio a um gole e outro do mate, ele puxou um “recuerdo” lá dos anos 70. É assim. Do nada, se lembra de coisas muito antigas. Enquanto lhe explicava que amanhã é feriado pelo dia dos mortos, ele perguntou por um velho amigo dos tempos da Rádio Fronteira do Sul, onde trabalhou durante anos em São Borja. “E o Lauro, já morreu?” 

- Sim, pai, já morreu há muitos anos, muitos mesmo.

Ele terminou o mate, bem devagar. Depois, coçou a cabeça e disse: “Tantos amigos meus já morreram e eu não estava sabendo de nada”. Aí é a hora de explicar que ele sabia sim, só que esqueceu, por conta de a memória estar com algumas falhas. Uma longa e minuciosa explicação que ele escuta atento.

- Eu sabia, e esqueci?

- Sim, isso mesmo. Mas aí a gente vai conversando e tu vais lembrando.

Um silêncio. Mais silêncio. “Mas, então, eu tô louco? Como posso não lembrar?”

E lá vou eu de novo, explicando devagar. “Não pai, não estás louco, é que...”

A vida de quem vai ficando velho é assim. Como se fora uma Penélope de Ítaca. Tece o tapete durante o dia, amarra os fios da memória, busca lá dentro da cabeça alguma fagulha de passado. E quando vem a noite, algum duende trata de desfazer toda a trama. Quando chega a manhã ali está de novo o tapete, esperando ser tecido.

Então, quando vem a tarde, e estamos juntos, tudo se repete. As perguntas, as respostas. É triste e ao mesmo tempo um aprendizado. Hora de aprender a lentidão outra vez, numa vida que foi tão cheia de coisas para fazer. Tempo de também buscar memórias igualmente esquecidas ou obscurecidas. Puxando o novelo do passado vamos refazendo a tapeçaria, dele e minha. Por vezes me surpreendo com a capacidade que tenho de recuperar detalhes ínfimos de histórias velhas. Conto e reconto, dia após dia. E quando ele se lembra, dá uma gostosa risada. Rimos juntos.

Às vezes ele parece triste, outras vezes fica com raiva, por não conseguir lembrar. Mas, de repente, passa um cachorro, aninha a cabeça no seu colo e ele se perde na ternura do gesto de acarinha-lo lentamente. De novo recupera serenidade. Pega um cigarro, fuma lento, e sai devagarinho, arrastando os pés. Lembra que é hora de molhar as plantas. Um átimo e já esqueceu que esqueceu.

Assim, a vida segue. E a gente vai aprendendo. É duro, mas tem lá a sua beleza.



2 comentários:

Unknown disse...

Que lindo Elaine!!!!

Catarina Gewehr disse...

É... é bem assim... esse infindável construir e reconstruir, dando sentidos novos ao destroços é coisa que dá pra fazer na presentificação do afeto.
Obrigada por tuas palavras sempre e desafiadoramente afetuosas.
Catarina