quinta-feira, 3 de novembro de 2011

De PT, lutas e Lula...

Eu sou filha das CEBS, não posso negar. Foi com os padres vermelhos que adentrei nesse mundo da luta popular. Através deles conheci o PT. Era repórter em Caxias do Sul em 1983 e já ajudava na campanha da então candidata pelo partido naquela cidade, a Geci Prates, uma mulher valente como poucas. Naqueles dias ela era do Sindicato dos Gráficos e enfrentava a conservadora cidade criando o PT e a CUT. Era uma guerreira. Eu trabalhava na RBS e não perdia oportunidade de dar espaço para a Geci. Lembro com carinho do seu riso e da sua fortaleza. Aprendi muito com ela. Desde então, sempre estive nas campanhas petistas e acreditei que era possível construir uma proposta de poder para o país. Desde aí, que em 1989 estive de cabeça na campanha de Lula para presidente.

Naqueles dias eu já morava em Florianópolis e lembro que montávamos bazares na Esquina Democrática a vender botons e outros materiais de campanha. Era um frisson e éramos um grupo bonito de pessoas que sonhavam com um Brasil diferente.

Mas, o tempo foi passando e as coisas mudando. Inclusive o PT. Quando Lula finalmente chegou à presidência em 2003 já não era mais com aquele projeto pensado nos anos 80. Ainda assim, votei nele, embora já estivesse madura o suficiente para saber que seu governo não passaria de algumas reformas. Mas, o que veio foi “mais pior”, como diria minha avó. Poucos meses depois de assumir o governo Lula impôs uma reforma da Previdência, uma reforma que tirava direitos. Foi um furdunço, porque a gente reagiu na hora. Não aceitaríamos. Naqueles dias eu estava na direção do Sindicato dos trabalhadores da UFSC. E iniciamos nossa luta contra a reforma do Lula.

Foi coisa difícil de fazer porque todos os amigos ainda acreditavam que o governo iria fazer coisas boas. Nossos velhos companheiros nos viravam a cara, nos xingavam e acusavam de fazermos o “jogo da direita”. E a gente permaneceu firme na crítica. Recusávamos a ficar cegos diante das evidências. E a reforma da previdência passou, assim como a reforma sindical, as privatizações, os transgênicos, as políticas compensatórias, os fundos de pensão, a previdência privada e tantas outras coisas horrorosas, antes tão combatidas. O movimento sindical foi se domesticando, parte do movimento popular também. E parecia que já mais ninguém podia ver que o rei estava nu.

Eu, que nunca havia endeusado o Lula, tampouco sofri com a guinada que ele deu na direção da elite predadora deste país. “Nunca antes os bancos ganharam tanto como no meu governo”, ele disse, com orgulho. E é verdade. Apenas entendi que ali estava um político que, tendo todas as condições de avançar (com a aprovação popular que tinha) preferiu ajoelhar diante do capital. Isso tampouco é novidade. Raros são os que conseguem fugir da sedução da mosca azul.
Assim, tenho toda a convicção que a história - o implacável tempo que passa – haverá de mostrar com mais claridão o que significou o governo Lula para o movimento social e sindical desse país.

Tenho lido coisas horríveis sobre a doença dele. Como ouvi da do Hugo Chávez, quando admitiu que tinha câncer. Tampouco me surpreende. Sobrevive, forte, uma direita insaciável, sempre arreganhando os dentes, querendo mais do que já tem. E ninguém é poupado. Nada vou falar sobre isso, pois as dores humanas nos alcançam a todos. Lula agora vive as suas, como qualquer mortal. Aonde vai se tratar não é o ponto. Posso, e devo, falar do político Lula. E esse, na minha insignificante opinião, perdeu grande chance de mudar a história do Brasil.

Olho para mim no espelho e nunca me envergonho do passado, de filha das CEBs e da militante petista que fui. Aprendi muito na caminhada. E uma certeza me pulsa: quem mudou não fui eu! Caminhando sigo, à esquerda!

2 comentários:

juss disse...

Eu também,sou filha da utopia, de 1989 e, também sigo com a certeza que fiz tudo,como deveria ser feito. Não mudei em nada,apenas no fato de não ter mais "tanta ilusão,na política". Desejo ao ex-presidente Lula,muita saúde,muito anos de vida e, quem sabe "novos olhos",para (re)ver a política!

Paulo Rodrigues disse...

Comentário: Incrível como a minha História é idêntica a sua Elaine e sei que muitos também a viveram e continuam correndo atrás da utopia, que como disse Galeano, ela serve é pra isso mesmo.
Abraços,
Paulo