sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Trote que vitimou 12 alunos da Escola Naval tem nome: tortura


Por Pedro Pomar


Nada menos do que 12 alunos da Escola Naval do Rio de Janeiro estão internados, 11 deles no Hospital Naval Marcílio Dias e outro em hospital particular, em decorrência de problemas médicos e renais variados, inclusive insuficiência renal.

Fartos relatos de parentes indicam que os candidatos a aspirante foram submetidos pelos alunos veteranos a um violento trote. Teriam sido obrigados, por exemplo, a carregar pesadas mochilas sob sol forte e sem beber água (os colegas mais velhos furavam os copos dágua entregues aos calouros). O diretor da Escola, almirante Leonardo Puntel, declarou o seguinte ao portal G1: “Nós estamos apurando para ver o que efetivamente aconteceu. Não existe trote na escola naval de maneira nenhuma. Existe [sic], sim, atividades físicas, físico-militar, atividades profissionais. Tudo isso muito bem planejado”.

Claro. Tudo muito bem planejado, profissionalmente, a ponto de alguns dos alunos precisarem fazer diálise e um outro estar com o “pulmão encharcado”, segundo relato de uma prima à Rádio CBN.

O trote da Escola Naval tem nome: tortura. A prática da tortura foi a tal ponto institucionalizada durante a Ditadura Militar que ela se entranhou nos hábitos e rituais das próprias instituições militares (e contaminou a sociedade). Um policial militar alagoano da Força Nacional foi morto por afogamento por dois tenentes da PM do Mato Grosso, em meio a um treinamento para formar “homens especiais”. Em 2005, a televisão revelou as sessões de tortura sofridas pelos sargentos recém-formados no 20° Batalhão de Infantaria Blindada do Exército, em Curitiba.

As declarações do almirante Puntel sugerem que nada mudou na Marinha. Uma sindicância foi aberta, mas o diretor já antecipou seus resultados: não existe trote (isto é: tortura), as atividades foram bem planejadas, logo o problema está nos rapazes hospitalizados.

O episódio da Escola Naval reforça a necessidade de uma profunda reforma institucional nas Forças Armadas e nos colégios militares, de maneira que os valores democráticos e os princípios fundamentais de respeito aos direitos humanos sejam incorporados por eles. Se isso não ocorrer, o fio condutor da mentalidade militar continuará sendo a ideologia da segurança nacional e seus subprodutos espúrios, entre os quais a tortura.

10 comentários:

Bruno Coelho disse...

Antes do senhor postar essa matéria ofensiva a uma das instituições mais respeitadas saiba que ela prepara homens para a guerra e nesse cenário o combatente deve ser adaptato a sofrimentos que o senhor ,um civil, jamais passará. Esse sofrimento no qual eu passei e que em todas as academias de formação militar de todo o mundo(isso mesmo, de todo o mundo ,nao só aqui como o senhor afirmou ,tenho certeza que o senhor nunca visitou uma como eu já o fiz) fazem seus alunos passarem serve para melhor adapta-los a guerra.Procure saber nossas atividades antes de comentar sobre nós.Nosso pais merece uma força armada com homens combatentes muito bem adaptados a inúmeras fustigações . OS canditados devem saber o que passaram ,eles nao estao indo para uma faculdade paisana ou a uma colonia de ferias mas sim para uma academia militar.Nós que devemos nos adaptar a instituição e nao ela a nós .Tenho certeza que quando o senhor precisar das forcas armadas para lhe proteger o senhor vai querer alguem forte e adaptado do que alguem nao preparado .

"nada justifica que se abrandem os métodos de formação do combatante anfibio!"
Viva a Marinha

paulorodolpho disse...

Sou ex-aspirante da Escola Naval e não vejo mal nenhum em tudo que está acontecendo, passei por isso tudo e não encaro como trote, mentalidade legal a sua de: vamos formar burocratas, afinal uma guerra se resolve com diplomacia, né ?! ninguém precisa perder sono, carregar equipamento pesado no sol, correr a distância que for pra se se manter vivo. Direitos humanos pra cidadãos comuns. Nós somos militares, precisamos ter mais pujança e vigor do que o cidadão civil. Precisamos estar muito bem preparados para, se preciso for, ouvir um MUITO OBRIGADO de pessoas hipócritas como estas que atacam as instituições militares brasileiras. mas como já diziam : SOMOS OS INDESEJÁVEIS, GOVERNADOS POR INCOMPETENTES FAZENDO O IMPOSSÍVEL PARA OS INGRATOS !!!

p.s.: Ex aspirante da EN e atual Aluno Oficial PM !!!

Pedro disse...

Bruno,

Quero que a Marinha e as demais FFAA descartem, definitivamente, práticas como estas. Meu texto não é ofensivo: limitei-me a comentar um acontecimento que, ele sim, fere a credibilidade das instituições militares.

A propósito: você é que está ofendendo as famílias dos jovens hospitalizados, ao afirmar que eles "não estão indo para uma colônia de férias". Claro que este seu argumento não merece ser levado a sério.

Treinamento duro é uma coisa, tortura é outra muito diferente. Que preparação é essa que lesiona o rim dos futuros aspirantes?

Pedro Pomar

Pedro disse...

Paulo Rodolpho,

Infelizmente, seu discurso é típico da mentalidade que levou ao golpe militar de 1964: é a pretensão de uma parte da oficialidade (não toda, felizmente) de achar que as instituições militares são superiores às civis (supostamente incompetentes). O resultado foi uma Ditadura de duas décadas que infelicitou o nosso país e agravou muitos dos problemas nacionais.

Você considera normal a prática adotada na Escola Naval. Ao mesmo tempo, diz ser ex-aspirante da Marinha. Gostaria de entender por que razão você deixou de se tornar um oficial naval e preferiu ingressar na PM.

Considero preocupante que um futuro oficial da PM considere normais práticas de tortura. Direitos humanos não são para "cidadãos comuns". Direitos humanos, como o próprio nome indica, são para todas as pessoas, inclusive militares. E devem ser respeitados por todos. Inclusive por militares.

jota disse...

Ao remexermos a miséria e sofrimento alheio adquirimos projeção. A força das palavras deve ser medida, pois tem força e poder. antes de publicarmos ou simplesmente comentarmos algo de noticioso devemos investigar. Um dos principios básicos do Jornalismo. Todos que prestam serviço militar devem estar preparados fisicamente. Todos os exercicios tem acompanhamento médico e de enfermeiros. São normas de segurança e devem ser cumpridas. Tenho certeza absoluta que a escola Naval seguia essas normas de segurança. ao nos depararmos com casos como esses constantemente lembramos de palavras perigosas como "Tortura" e ouso dizer que é uma espécie de revanchismo por que ass forças armadas são formados por nós, cidadãos comuns que amam demais este País. Vamos escutar esses mesmos jovens daqui a uns dois anos e ver se tem este pensamento que a senhora, tão cheia de posse e direito exprimiu tão cheia de falsos moralismos. A preparação do militar deve ser completa ttanto física como psicologica. Nossas Forças Armadas tem boa projeção em Muitos paises pela forma humana como se comporta no haiti, por exemplo, como força de paz. estude o assunto e depois se pronuncie. É por sermos brandos demais que a sociedade esta tomando o rumo de desordem e caoos a que nossos governantes tentam maquiar com propaganda. Direitos Humanos devem existir para humanos direitos e não só para o pobre ladrão, assassinos e estupradores.

Bruno Coelho disse...

Pedro,
ninguém aqui disse em nenhum momento que gostamos de torturar e machucar alguém , estamos dizendo que o treinamento para se tornar um militar deve ser difícil e puxado , nossas atividades envolvem risco de vida , nossos erros sao pagos com vida.E nao ,nao ofendi nenhuma família como o senhor insinuou .Nao é demérito nenhum nao agüentar algum treinamento militar , apenas nao serve para o serviço . Eu ja passei por experiências muito difíceis na selva amazônica,cheguei a certos momentos a nao me senti muito bem ,mas foi otimo para conhecer meus limites e me preparar melhor para proteger o NOSSO pais. Por isso eu sei o que esse meninos passaram ,por que eu passei e em nenhum momento fui torturado,tive sim uma adaptação puxada e fui ao meu limite , logrei êxito e tive superação , nao nomeie isso como tortura.O senhor nao tem esse direito de tentar manchar uma instituição que o principal objetivo é melhor servi ao Brasil . Nos militares passamos por situações as vezes nem sempre prazerosas em nome do Brasil.Quanto ao seu comentário da lesão do rim posso afirmar para o senhor que nao houve por parte da Marinha tal despreocupação , na minha adaptação e das quais participei todos os candidatos eram avisados para em cada refeição beberem soro para evitar a desidratação . Ninguém tem esse objetivo,porem as atividades físicas sao feitas logicamente em áreas abertas e o sol naturalmente é mais forte nesse período de ano.Todos sabem que o treino é duro ,so por que alguns nao conseguem ja culpam a Marinha por tortura , ninguém obriga ao candidato a entra na marinha , ela deve passar nos teste intelectuais e superar o período de adaptação . Estamos selecionando os candidatos e preparando para os 4 anos de formação que também nao sao fáceis. Peço para que nao disturbem procedimentos na marinha colocando nomes como tortura e lembre-se: militares erraram no passado tanto como vários civis ,religiosos,nao precisa citar a ditadura que concordo com o senhor ,foi um erro dos militares daquela época ,hoje a marinha tem outras pessoas em seu serviço , pra difamar a Marinha,Alem disso nao somos melhores nem piores que os civis ,somos sim diferentes . Deixo aqui espaço para o senhor tirar qualquer duvida comigo sobre a Marinha ,nao quero que ninguém fique com idéias deturpadas sobre a minha instituição.
Grato pela atenção
Bruno . Tenente Fuzileiro Naval

Pedro disse...

Jota,

Você diz que é preciso investigar para saber o que aconteceu, mas jura que todos os exercícios "têm acompanhamento médico e de enfermeiros" e diz ter certeza de que a Escola Naval seguiu essas regras. Bem, então algo saiu muito errado!!!

Ou seja, o tal acompanhamento médico (que você supõe que tenha existido) não conseguiu impedir que DOZE aspirantes a oficial naval sofressem problemas renais com o treinamento.

Você fala em revanchismo. Talvez seja interessante conhecer melhor a história da Marinha. Há um século, em novembro de 1910, os marinheiros brasileiros revoltaram-se contra o castigo corporal que consistia na aplicação de chibatadas nas costas de quem cometia alguma suposta indisciplina.

Esta rebelião passou à história com o nome de Revolta da Chibata e foi vitoriosa. Depois dela, embora centenas de revoltosos tenham sido expulsos, mortos ou punidos das mais diferentes formas, não houve mais chibatadas em marinheiros em serviço. E o que era a chibata? Tortura, claro. Ou você prefere usar algum outro nome para esse tipo de castigo?

Como jornalista, limitei-me a endossar as informações dadas pelos parentes dos rapazes hospitalizados, relacionando-as com episódios anteriores. Em 2010, após um incidente semelhante, o Portal G1 (pertencente à Globo) noticiou que os próprios alunos criaram em um site de relacionamentos um tópico de discussões sobre "tortura no Colégio Naval".

Pedro disse...

Bruno,

Concordo que treinamento militar deve ser difícil e puxado. Mas não pode colocar em risco a integridade física e mental das pessoas. Foi isso que aconteceu. É claro que nada numa instituição militar ocorre à revelia do comando. Por isso o almirante apressou-se a esclarecer que não houve trote.

Por mais que você tenha passado por “experiências muito difíceis na selva amazônica”, e com isso tenha conhecido seus limites, você decididamente não sabe “o que esse meninos [da Escola Naval] passaram”, ao contrário do que você afirma. Você não conhece a experiência concreta deles. Você não foi torturado, ainda bem! É assim que deve ser. Mas considero que eles foram sim torturados, porque não havia necessidade de negar água a ponto de causar-lhes insuficiência renal.

Não pretendo “manchar” nenhuma instituição. Mas as instituições militares precisam, isso sim, rever determinadas práticas históricas que são negativas. Até 1910, por exemplo, a Marinha adotava a chibata para castigar os marujos. Somente após a Revolta da Chibata, de novembro daquele ano, é que os marinheiros deixaram de ser castigados com chibatadas – uma forma de tortura herdada do período da escravidão.

Logo depois, uma nova rebelião, dos fuzileiros navais, foi reprimida pelo comando da Marinha com a execução, na Ilha das Cobras, dos militares rebelados. Até hoje esses são assuntos “tabu” para a alta oficialidade da Marinha, que chegou a emitir nota pública de protesto (!!) quando o presidente da República inaugurou um monumento em homenagem a João Cândido, o marujo que liderou a Revolta da Chibata.

Após o golpe militar de 1964, a tortura foi utilizada pelas FFAA, inclusive pela Marinha, contra os opositores do regime. Você admite que “militares erraram no passado tanto como vários civis, religiosos”, concorda comigo que a Ditadura “foi um erro dos militares daquela época” e acrescenta que não preciso “citar a Ditadura para difamar a Marinha”. Ora, já disse e repito: não quero difamar a Marinha. O que eu disse, e reafirmo, é que a tortura precisa ser banida pelas instituições militares, de uma vez por todas. A tortura é uma patologia social. Ela precisa desaparecer para que tenhamos uma sociedade realmente democrática. Espero que você concorde comigo nesse ponto também.

Considero muito positivo que você afirme que os militares não são “melhores nem piores que os civis”, mas sim diferentes.

Saudações,

Pedro

Martim Pescador disse...

O senhor operador de mídia e formador de opinião, jornalista afirmado, demonstra muito pouca lucidez ao comparar trote com ditadura e trazer a Revolta da Chibata para o século XXI. Lamentável, pois os vínculos descabidos criados pelo senhor enevoam o debate sobre esse relevante tema social. E antes de continuar, saiba o senhor que quem vos fala já sofreu trotes, não concorda com a prática, nunca se sentou em um banco da Escola Naval, mas nutre um profundo respeito pelas instituições militares deste país, notadamente a mais antiga delas, a Marinha de Guerra, pois as entendo (todas e cada uma delas) como a última reserva moral desta Nação.
Primeiramente, ouso lembrá-lo de que trote não é fato típico brasileiro ou do meio militar; aliás, alguns estudantes de Medicina, Engenharia e (pasme o senhor) Jornalismo são humilhados e até mesmo mortos em instituições civis de ensino a conta do trote, "sem farda". Façamos uma busca pela Internet e comprovemos.
Ao revés, senhor, trote é um fenômeno mundial que atinge os desenvolvidos e os não desenvolvidos. O trote é um ritual de passagem que, como tantos outros, estão arraigados na humanidade, tenha ela pele clara ou escura, olhos castanhos ou azuis. Veja-se a iniciação maçônica, rituais indígenas, aborígenes, por exemplo. Pode ser algo violento ou brando, como escrever durante 2 horas o “Teorema do Vetor Curvo”, mas o trote é tão antigo quanto as próprias instituições de ensino. E ocorre na América Latina, na Europa, na Oceania e nos EUA; ocorre nas universidades brasileiras (como a que o senhor estudou e a Escola Naval, aliás a mais antiga do país), especialmente públicas, mas também ocorre em Yale, em Oxford, em Coimbra...
Por sua vez, parece-me totalmente descabida a transferência de fluídos seculares da Revolta de 1910 para o caso de 2011. Aliás, o senhor andou muito mal ao prejulgar o caso e, conseqüentemente, difamar açodadamente a instituição, senão vejamos: “Como jornalista, limitei-me a endossar as informações dadas pelos parentes dos rapazes hospitalizados... [...] “Mas considero que eles foram sim torturados, porque não havia necessidade de negar água a ponto de causar-lhes insuficiência renal.”
Sim, prejulgou e contribuiu para difamar, “ou o senhor prefere usar algum outro nome para esse tipo de postura?”
E como formador de opinião o senhor sabe que está cometendo um pecado crucial: foi parcial e julgou, antes mesmo do final das apurações. Why? E se não for bem isso? E se as paixões ditaram a verdade julgada? E se ocorreu algo diferente dos fatos que serviram ao seu convencimento? Como fica a sua credibilidade? Por outro lado, já que parece ser mais importante: como fica a imagem e a credibilidade da instituição ofendida? Lamentável, mais uma vez.
De qualquer forma, já que foi o senhor que insistiu com dois debatedores sobre a consangüinidade naval da “chibata”, aproveito a oportunidade para sugerir a leitura do texto encontrado no sítio http://www.naval.com.br/blog/2008/07/27/vice-almirante-da-sua-versao-sobre-a-revolta-da-chibata/, para que o senhor melhor possa informar seus leitores, apresentando a visão do historiador e pesquisador Armando de Senna Bittencourt, recentemente eleito, em Bruxelas, vice-presidente do ICOMAM, o comitê do Conselho Internacional de Museus, que reúne museus de história militar e de coleções de obras. É um contraponto muito interessante, que deveria ser levado em consideração sempre que se tratar da chamada Revolta da Chibata.
Boa sorte

Ramires Andrade - P@CO disse...
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