domingo, 22 de outubro de 2017

Das dores da gente, que são só nossas


Eu saí de casa bem jovem e foi na caminhada que aprendi a segurar “no osso do peito” as dores e os terrores. Não havia com quem dividir. Tinha de enfrentar. Isso vai moldando a gente e criando armaduras de proteção. Passei por grandes apertos, tive de tomar duras decisões, e sempre sozinha. Nenhuma mão para me apoiar. Nenhum ombro para amparar a cabeça. Certo ou errado tive de assumir e seguir.

Sempre entendi que as nossas horas de angústia, nossos momentos mais dolorosos, nós os passamos sozinhos. Ninguém pode ajudar. A “hora noa” (a angústia) é coisa que se vive na solidão. Mesmo que alguém queira ajudar, não adianta. Não pode. Não há conselhos, não há palavras, não há nada que o outro possa fazer. A gente tem de enfrentar o deserto sozinha.

Mas, ao longo da vida também aprendi que se a gente não pode mudar a decisão ou a dor do outro, há uma coisa que a gente pode fazer. Ficar do lado, em silêncio, apertar a mão, abraçar. Isso faz a diferença. É como saber que há um galho no abismo e que se a gente fraquejar, ele estará ali, e nos sustentará.

Esse turbilhão de sentimentos me veio à durante a Sepex, semana passada, na UFSC. Na abertura dessa mostra, que é uma atividade super importante na universidade, quando milhares de alunos de todo o estado vêm visitar a UFSC, ninguém falou do reitor, morto recentemente de maneira trágica. Pensei que haveria alguma homenagem, alguma palavra de afeto por aquele que até ontem dirigia a universidade de um jeito novo. Mas não. Entre seus companheiros, o silêncio. Dias antes, um colega esbravejara no hall da reitoria sobre ninguém se importar com o que acontecera com o Cancellier. Verdade. Ali eu via seu apagamento. E me aparece bizarro que quem o lembre sejam os que nem eram amigos, nem correligionários. Um paradoxo.

A morte dele me tocou profundo. Sei o que é estar sozinho, sem saída, no chão. Não importa se culpado ou inocente, o que aperta é essa profunda solidão na dor, capaz de levar a um ato extremo.  E me toca ainda esse silenciar sobre. Nesse ano em que Cancellier dirigiu a UFSC praticamente nove meses passamos em confronto. Lutávamos para reintegrar um colega, exonerado por vinganças política da administração passada. Foram muitas assembleias, reuniões, conversas, sempre no embate. Exasperava seu jeito conciliador. Mas, ao fim, não conseguia sentir raiva dele.

Ontem soube que a administração finalmente instaurou um processo administrativo contra o corregedor. As denúncias contra ele sobre assédio e destempero já eram bem conhecidas no âmbito dos técnicos. Deveriam ter sido levadas em conta antes. Não foram. Agora aparece quase como uma vingança. De novo a conciliação do Cancellier pretendia resolver sem quebrar os ovos. Não dá. Tem coisa que não concilia.   

O fato é que a Sepex acabou e a vida segue na UFSC. Isso me assombra. Fosse eu sua amiga, ou mesmo sua parceira política, não deixaria assim. Não permitiria o silêncio, nem o esquecimento. Parece que há um medo de que novas informações surjam, de que as acusações sejam verdadeiras e aí, viceja também o medo de se contaminar com o “crime”.  

Lembro-me da última vez que vi o Cancellier. Foi numa assembleia do caso Daniel, como sempre mal conduzida pelo sindicato. Quebrando as regras, agarrei o microfone e fui explicar para o Cau porque aquela era uma demissão política. Eu enfurecida, e ele com aquela cara de paisagem. Levou na maciota até o fim, e pouco tempo depois resolveu a questão de outra forma, encontrando um furo no processo. Era o seu jeito.

Para quem não vive o dia a dia da UFSC pode parecer estranho que os adversários políticos acabem nos sendo simpáticos. É que não dá para viver o cotidiano com sangue nos olhos. A gente convive no mesmo espaço e acaba encontrando as brechas humanas em cada um. Uma doença, uma tragédia pessoal, uma queda, e lá estamos, solidários. Porque somos colegas. Era assim. É assim. Quantas vezes não cruzei com o Amin nos corredores e lhe sorri? Pois é! Colega...

Por isso o triste fim do grandão do CCJ ainda me choca. E me entristeço com o silêncio da instituição sobre ele. Na porta da Sepex, olhando a UFSC plasmada na festa da pesquisa e da extensão, chorei. Porque, como sempre – desde as primeiras grandes dores  - entendi que as coisas que vivemos as vivemos sós. Sejam as belezas ou os terrores. E não haverá ninguém  para nos abraçar dizendo: não temas, eu estou aqui. 

É foda. Mas, é assim! Não temos acolhimento na dor e, depois, é o esquecimento. 

Acho que é por isso que escrevo. Para lembrar... 




2 comentários:

Dimaris Figueira disse...

Lindo o teu texto. Também acho que o "esqueceram" muito rapidamente. Torço para estar errada.

Vera Bazzo disse...

Bonito e muito sincero este seu texto. Aliás, tudo que vc escreve é muito assim. Te leio com prazer estético e político...Neste bateu forte a emoção, uma espécie de identidade de sentimentos...Calaram fundo em mim suas palavras sobre a solidão da dor. Fiquei com pena de não ter conseguido chegar mais perto do Cao, antes do caos. Conhecia ele desde os tempos da militância junto ao Wedekin, de quem eu e meus companheiros de "fazer política" também éramos bastante próximos. Até liguei duas vezes, mas o telefone tocou sem resposta...