domingo, 30 de abril de 2017

Belchior.. até logo!!!



Eu tinha 17 anos. Tinha acabado de chegar à pequena cidade de Pirapora, Minas Gerais, para onde fôramos meio que fugidos da ditadura militar. Não tinha amigos, não tinha nada além de um velho toca-discos dado pela minha tia Zaíra. Era uma mudança muito radical. Desde o Rio Grande, onde tínhamos uma vida boa, para Minas, passando todas as necessidades. Minha mãe tuberculosa, meu pai tentando sobreviver, e nós, os três filhos, perdidos num universo cultural tão diferente.

Foi ali que eu encontrei o Belchior. Seu disco “Alucinação” tinha sido comprado por mim quase ao acaso. Saída da fronteira com a Argentina, gaúcha, charrua e paysana, sua música “Apenas um rapaz latino-americano” me emocionava demais. Era eu mesma naquela canção. E eu a cantava entre lágrimas.

Cada uma de suas músicas atiçava meu coração e minha mente. Viver coisas novas, amar e mudar as coisas, não ser como nossos pais. Na velha casa da rua Argemiro Peixoto eu sonhava em sair pelo mundo, feito faca, cortando a carne daqueles que eram os vilões do amor. Naqueles dias, passávamos as tarde de sol no Xangô, um bar em frente às duchas do rio São Francisco. E lá também estava Belchior. Olhava aquele rio cheio de caixões e corredeiras e sabia que a vida era muito mais do que estar ali, vendo a água passar.

Um dia, então, peguei minha mochila e saí para o mundo. Nunca mais voltei. Tinha seguido aquela canção do garoto de Sobral. Sabia que era preciso mudar as coisas.

Belchior incendiou minha vida, minha mente, meu caminho. E entre as chamas eu segui, esquivando e esgrimindo as coisas ruins. Toda minha vida teve Belchior como trilha sonora, sempre... E quando ele andou sumido, fazendo coisas doidas, eu sorri. Ah, Belchior! Tu podias tudo, poeta, amigo, louco sonhador, mente inquieta, rebelde. Sentia tua falta, mas tu já eras eterno. Bastava um clique e ali estavas.., Com tua poesia cortante, nos empurrando para frente.

Hoje, quando enfim entendi que já não estavas mais nesse plano, chorei sem parar, horas e horas. Vinhas fazer parte de uma série de perdas que me estão corroendo a alma. Chiquinha, Bartolina e agora, contigo, minha juventude, parte de minha vida toda. O outono da vida me pegou, tantas dores, tantas perdas, inclusive a de mim mesma.

Mas é o mesmo Belchior que nos instiga: Não sou feliz, mas não sou mudo... Hoje eu canto muito mais. As coisas que nos dilaceram, nos corroem, nos paralisam, são parte dessa vida humana, demasiado humana. Mas, é preciso seguir...

Tu encantas Belchior... tua obra gigante fica... E a gente segue, até que chegue nossa hora. Porque a noite eu tenho um compromisso e não posso faltar... 



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