domingo, 14 de dezembro de 2014

Libertador



Assisti ontem o filme “Libertador”, uma superprodução venezuelana que conta a história de Bolívar. Apesar de alguns erros históricos, normais, porque o cinema sempre busca algum elemento para ligar as histórias ou coisa assim, o filme é muito bom. Ressalto apenas a omissão da importante participação de Pettion, do Haiti, no processo de libertação. Sem a ida de Bolívar ao Haiti e a providencial ajuda do presidente daquele país, talvez a história fosse outra. Isso não aparece no filme. Uma pena. Mas, no demais, o filme é como um punhal na nossa carne. Fica muito clara a participação danosa de Santander e sua traição, bem como o erro estratégico de Simón (humano, demasiado humano) que não quis condená-lo a morte, permitindo que ele ficasse livre e seguisse tramando contra ele. Esse erro acaba levando o próprio Bolívar à morte, bem como o grande marechal Sucre.

A última cena do filme que pude ver foi o momento em que Sucre, então um jovem de 24 anos e já mariscal, provado na luta renhida, se despede de Bolívar para ir ao encontro da morte, assassinado que foi por sicários a mando de Santander. Seu rosto jovial, transparente de esperança, seu manto negro esvoaçando, e a visão dos matadores no seu encalço, foi o suficiente para mim. Não pude mais seguir, e ver o filme até o final porque ao que indicava a narrativa, mostraria a triste morte do Libertador. Fugindo dos inimigos da Pátria Grande, ele enfrenta temporais, atravessa rios e termina sozinho num catre sujo. Morre aos 46 anos, buscando desesperado pelo ar e certo de que tudo pelo qual lutou foi em vão.

O homem que travou mais de 100 batalhas, que percorreu duas vezes mais território que Alexandre, o Grande, que fez, no lombo do cavalo, mais de 120 mil quilômetros, que atravessou as montanhas geladas dos Andes duas vezes, acabou traído pelos generais que queriam cada um o seu país para comandar. Com ele, se foi o sonho de uma grande pátria, unida e forte, só renascido agora, com Chávez, outro que também já se foi.

Apesar de lindo e bem feito, o filme me colocou no chão. As cenas do Sucre indo embora e a de Bolívar, encharcado, tentando alcançar a margem, não me saem da mente. Passei a noite revirando, em lágrimas. Doendo a morte de uma das ideias mais generosas que tivemos em nossa Abya Yala. Bolívar e suas contradições, suas fraquezas, seus erros, seu liberalismo eivado de europeísmo. Mas, ao mesmo tempo, um homem capaz de querer um mundo diferente e, mais que isso, marchar - com erros e acertos  - para sua construção.

O filme Libertador foi um sucesso de bilheteria na Venezuela esse ano e está entre os indicados para o Oscar de filme estrangeiro – coisa estranha. Vale a pena ver, abstraindo os clichês. As cenas da batalha de Boyacá são absolutamente incríveis, com a tomada da ponte que servia de barreira para o avanço das tropas patriotas. Com a heroica atuação dos llaneros, os negros e a gente empobrecida da Venezuela, essa batalha foi decisiva para a chegada da independência.

Edgar Ramírez está perfeito como Bolívar.




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