domingo, 23 de janeiro de 2011

O Sandro de Lanús



Viver o vertiginoso mundo bonairense de ruas cheias de gente e a opressiva força dos imensos prédios do velho centro leva o visitante a buscar algum respiro na surpreendente vida argentina. Uma boa pedida é pegar algum ônibus e visitar as pequenas cidades que gravitam em torno da capital. Nada mais do que caminhar pelo que eles chamam de “província”. Assim fizemos. Ao final da tarde partimos rumo a Lanús, que fica ao sul da capital Buenos Aires e já está inscrita na história da Argentina por ser a cidade natal do imortal Diego Maradona. Mas, afora isso (o que não é pouco) também é um importante pólo industrial de produtos químicos, armamentos, papel, couro, borracha, fios e frigoríficos.

Na verdade, Lanús não é uma cidade pequena, toda sua extensão abriga mais de 400 mil habitantes, mas, comparada ao fervo capitalino acaba sendo uma ilha de sossego, bem típica do interior argentino. Ruas largas, calçadas amplas, muitas árvores e casas baixas. Um lugar onde, ao final da tarde, as gentes ainda sentam nos alpendres para tomar um bom chimarrão. Foi ali que chegamos com a noite para um agradável jantar na casa de uma amiga.

Entre um mate e outro, com a mesa plena de “fartura”- um costume de acompanhar o chimarrão com uma série de pequenos pãezinhos doces - acabamos encontrando Ana, uma mulher adorável, exemplo único da vida daquele rico país. Professora desde há anos, ele também fora durante grande parte de sua vida a presidente do fã clube de Sandro, um ícone da canção popular argentina, comparado ao nosso Roberto Carlos.


E foi assim que aquela noite singular se fez cheia de memórias do fundador do rock argentino e o precursor deste ritmo em toda a América Latina. Tanto que era conhecido como “Sandro de América”. E, enquanto mastigávamos os doces, saltavam fotos e vídeos do cantor que, no ano de 1960, explodiu em toda a Argentina com a canção “Comendo rosquinhas quentes na Ponte Alsina”. Moreno, bonito, com um charmoso nariz adunco, Sandro iniciou sua carreira imitando Elvis Presley, inclusive com seu famoso remexer de quadris. Mas, com o passar do tempo foi adquirindo seu jeito próprio, latino.

Ana conta que desde os primeiros sucessos de Sandro ela se tomou de amores por ele e como era nativo dali mesmo, de Lanús, não foi difícil se aproximar e iniciar o fã clube. Durante toda a longa carreira do cantor, Ana esteve por perto e lembra com tristeza dos angustiosos dias em que ele lutou pela vida no hospital onde efetuara um complexo transplante de pulmão e coração. “Poucos dias antes ele havia ligado pra mim, dizendo que estava bem. A sua morte foi um choque. Sentimos como se tivesse sido alguém da nossa família”. Ela lembra que Sandro viveu em Lanús durante toda a sua vida e que no dia do seu aniversário, todos os anos, as fãs organizavam caminhadas até lá e ele as recebia com carinho e atenção. “Ele sempre foi muito querido com todas”.

Saímos de Lanús com o DVD do Sandro, um CD e toda aquela sorte de memórias que tornam alguém especial. Mais tarde, ouvindo as canções, notamos que algumas delas foram gravadas em português pelo nosso também “imorrível” Sidney Magal. Sandro foi um sucesso até o fim da vida, embora tenha vivido um certo período de ostracismo quando, nos anos 80, os “intelectuais” rotularam suas música de “brega”. Para a legião de fãs que sempre o acompanhou Sandro nada tinha de brega, ele apenas expressava as dores do amor nas suas canções românticas, que o tornaram ainda mais adorado. Mas, nos anos 90 os jovens do rock argentino promoveram uma recuperação da sua obra, convidando-o para shows conjuntos e reverenciando o cantor como a um mestre, precursor de um tempo muito rico na Argentina. Sandro voltava à vida, ainda que guardando sua habitual humildade. Conhecido como “o cigano”, por sua mirada “tanguera”, profunda e sensual, até os últimos dias de sua vida o cantor argentino recebeu o carinho das fãs que o acompanhavam religiosamente.

Quando encantou, seu corpo foi velado no parlamento nacional e o cortejo foi acompanhado por milhares de pessoas. Ao longo do percurso até o cemitério se postavam aquelas que Sandro chamava de “minhas meninas” com flores e canções. Foi um dia de profunda dor para o povo argentino.

Caminhando pelas ruas de Buenos Aires pode-se perceber que Sandro está mais vivo do que nunca. Qualquer banca de revistas apresenta várias publicações com a foto do “cigano” na capa. Suas músicas tocam no rádio, são conhecidas por todos e fazem parte da história da Argentina.

Assim, naquela noite quente, em Lanús, também nós ficamos mais próximos de um dos mais importantes ícones da música popular latino- americana, filho de uma periferia operária, que nunca cedeu passo à mosca azul da fama. “Ele era um homem simples e por isso será eterno nos nossos corações”, sentenciou Ana, enquanto, absorta, cantarolava sua canções, com os olhos cheios de amor grudados na tela da TV onde Sandro remexia seu corpo sedutor.

Agora, enquanto escrevo estas notas Sandro canta ao meu ouvido uma terna canção de amor... “Penas, y penas, y penas, hay dentro de mi… Y ya no se irán porque a mi lado tú no estás. Te recordaré, como algo que fue, solo un sueño hermoso y nada más”… E eu me sinto tão feliz por tê-lo conhecido, agora transformada em “sua menina” também! Gracias Ana, foi um presente!...

Um comentário:

Revista Pobres & Nojentas disse...

Sim, sonhos que se vão...

Mimi