sábado, 6 de junho de 2009

Caminhando na beleza



Outono no Campeche. O pôr-do-sol é um acontecimento. O dia vai enfraquecendo devagar e a barra do céu se põe dourada. Aos poucos o dourado vai cedendo ao laranja e depois ao cor-de-rosa. Algo hipnotizante. O vento gelado que sopra do mar espanta as corujas que se aninham quietas sobre as cumeeiras. Os gatos ronronam e os cachorros descansam nas casinhas. Fica uma quietude quase sagrada. Nestas horas a noção de deus se impõe. Não é possível tanta beleza. Na praia os pescadores arrancham, olhando o mar encapelado. E quem arrisca um mate na beira-mar fica ali, mudo, reverente.

E é para defender essa beleza que a comunidade está em polvorosa diante das idéias de colocarem ali um emissário submarino para jogar no alto-mar o esgoto de quase toda a ilha. Ninguém acredita que isso pode ser bom. Dia desses escrevi sobre isso e recebi um chamado do presidente da Casan, Valmor de Luca. Disse ele que era uma irresponsabilidade eu falar mal do emissário, que isso existia em São Paulo, em Copacabana, e que não havia melhor lugar para jogar o esgoto que no alto mar. “Não vai vir para a praia”, insistiu. “Cem por cento de certeza que não vai aparecer na praia de ninguém?”, perguntei. “Sim”, disse ele, alegando que os que falam mal do projeto são “palpiteiros. Não entendem nada de correntes marítimas”.

Mais tarde ligou um engenheiro da Casan disposto a mostrar o projeto para que eu entendesse bem o que seria. Marcou hora. Eu fui, ele não. Tinha surgido um compromisso de última hora. Ligou de novo. Insisti. “Olha, o projeto tem que ser mostrado pra comunidade toda, tem que ser discutido”. Mas, ao que parece, discutir com o povo do Campeche não é prioridade. E as coisas vão sendo feitas. Os “palpiteiros” tem argumentos sólidos. O volume de dejetos, mesmo jogado em alto mar, uma hora volta e vai dar na praia de alguém. Pode até nem ser a do Campeche. Mas será a de outra comunidade, tão linda quanto a nossa. Pode ser até na África, mas a nossa sujeira não tem que macular a vida de ninguém.

Os “palpiteiros” vão ainda mais longe. Têm planos, propostas alternativas. Uso da água do tratamento do esgoto para projetos comunitários, produção de gás, de fertilizante. Coisas mais complexas, talvez mais caras, mas infinitamente mais saudáveis. Enfim. Gente há que busca encontrar caminhos melhores, sem pressa de gastar dinheiro do PAC, sem se importar com eleições e desejos de poder de uns poucos. Gente há que ama onde vive e quer preservar a beleza. Assim, no Campeche, neste outono divinal, vamos nos reunindo, conversando, discutindo e defendendo nossas próprias pautas. Ô lugarzinho bom de viver!

Um comentário:

James disse...

Isso mesmo Elaine, a comunidade precisa se mobilizar e impedir este primitivo meio de se livrar do problema. Não vivem dizendo que a gente não deve jogar lixo na rua? Então, lançar os dejetos no mar, com um emissário, seria mais ou menos a mesma coisa, jogar lixo no mar. E não importa se o esgoto não vai voltar para o Campeche ou se não vai parar em uma outra praia. Quanta vida marinha vai se perder no meio do mar? Imagina só os peixes, ou os outros animais que moram sabe lá onde vai parar este emissário. Não tem eles direito a uma "casa limpa"? E os pescadores? Quem disse que não existe a possibilidade deles percarem os peixes que moram lá onde o esgoto vai sair? Certamente existem outras alternativas com menor impacto ambiental e com possibilidade inclusive de geração de renda. Força comunidade!