quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Impressões de Beijin



Beijin, capital da China, é uma cidade, a primeira vista, difícil de ser amada. Com mais de 20 milhões de habitantes, nela, tudo parece grandioso demais. As ruas são largas, os prédios imensos e para onde quer que se olhe, lá estão, como monstros a nos oprimir. Alguns deles são famosos como o Word Center, com 330 metros de altura, o maior centro de comércio internacional do mundo ou o da Torre Nova da Televisão Central Chinesa, que é um gigante de cimento, com um desenho estranhíssimo, tendo no seu meio uma espécie de porta. Todo esse esplendor está em consonância com a nova fase do país, que cresce como se tivera engolido fermento. Em 2010 o PIB cresceu 10,4% e, em 2011, embora tenha caído, ainda ficou entre as maiores taxas do mundo, 9,4%. Há um desaquecimento agora em 2013 por conta da crise europeia, mas, ainda assim, há quem diga que as coisas voltam a crescer ainda esse ano. O PIB do ano passado ficou em 8,28 trilhões de dólares. É a segunda economia do mundo, perdendo apenas para a dos Estados Unidos e representa 15% de toda a economia mundial.

Pelas ruas da imensa capital só o que se vê é trabalho. Há uma espécie de frisson em produzir e ganhar dinheiro. Entre a população mais jovem, as prioridades são os aparelhos eletrônicos de última geração e as mercadorias de marcas famosas. “Ninguém quer saber de produtos chineses, não têm qualidade nem diversidade”, diz uma trabalhadora do comércio, cuja aspiração mais imediata é viajar aos Estados Unidos para poder comprar coisas mais “modernas”. Para os jovens, as mudanças introduzidas pelo governo, que nada mais são do que as opções do capitalismo, estão fazendo muito bem. “Antes as mulheres não tinham trabalho, agora têm, podem ser independentes. Nem precisam se casar”. No geral, um salário mínimo, dos mais baixos, está em 2.000 iuans, em torno de 500 dólares, mas há quem ganhe muito mais se trabalhar nas empresas estrangeiras, tiver dois empregos ou for funcionário do governo.

O “governo” é um caso a parte. É visto como um ente, uma coisa concreta, poderosa e misteriosa. Ninguém que não seja funcionário pode entrar em qualquer prédio público, tudo é cheio de segredos e há muito ressentimento com o “comunismo”. Um garoto contando sobre o fato de que não é possível acessar o facebook, abre os braços e diz, desolado: é o comunismo. A grande rede que hoje é um vício mundial está bloqueada na China. Em compensação, a maioria das famílias não sabe o que é um aluguel. “Os que são daqui de Beijin têm moradia própria, só esse pessoal que está vindo de fora agora é que precisa alugar apartamento”. Segundo Jang, como os alugueis acabam sendo muito caros, é comum os jovens se juntarem entre dois ou três para conseguir viver mais perto dos centros de comércio, onde chegam a trabalhar mais de 10 horas por dia. “Se não for assim, há que ficar na periferia”. Na verdade, toda essa problemática que compõe a vida no mundo capitalista agora está muito presente na China. “O bom é que a gente agora pode ter roupas coloridas, variadas, e não mais aquele cinza, sempre igual”.

A virada da China para o inchaço das grandes cidades no ritmo alucinado da produção tem pouco mais de vinte anos e é a única realidade conhecida pela juventude local, mas a memória de pais e avós, muitas delas nada agradáveis no que diz respeito ao sistema, fazem com que o governo seja visto como ameaça. Há sempre um jeito de pronunciar, um sorriso, um manear de cabeça que denota certo desconforto. Mas, se “o governo” não atrapalhar a caminhada para o consumo das coisas boas, das grandes marcas, da tecnologia, já está muito bem.

Por outro lado, as implicações do crescimento tem sido problemáticas. Uma delas é a poluição, que chega a níveis assustadores. Em dias de inverno é tão intensa que parece que é noite mesmo estando o sol a pino. É tanta fumaça que toda a claridade se esvai. Beijin tem milhares de chaminés soltando fumaça por conta da calefação que ainda é feita com carvão mineral. Somam-se a isso mais cinco milhões de carros com seus escapamentos. O resultado é uma espécie de fog que não tem fim. As pessoas usam máscaras, mas isso não é suficiente. Em poucas horas na rua, o peito queima como se fosse explodir. “A gente não protesta porque não tem o que fazer. As pessoas precisam se aquecer no inverno e tem que ter calefação”, diz  a jovem funcionária do café. Em algumas zonas da grande Beijin, a temperatura pode chegar a 23 graus negativos em janeiro e apesar de a maioria ter ar condicionado, ainda há quem só tenha papéis e carvão para queimar.

Mas, se por um milagre qualquer, um vento forte empurra a poluição para longe, a cidade se abre num intenso e vivo colorido. Os restaurantes se enchem de gente e os mais velhos lotam os parques para dançar e praticar o tai chi, duas febres nacionais. Os chineses são amorosos e sorridentes e quando se juntam é como se fosse uma grande festa. “Em Beijin não temos o costume de sair à noite. A gente chega do trabalho, faz a comida, a família come sempre junto, e depois vamos todos até o jardim para a prática dos exercícios. Feito isso, vamos dormir. É raro um bar aberto depois das nove da noite, a não ser nos grande hotéis”, conta Jang. Os mais velhos, que já estão aposentados, não sabem o que é depressão, porque estão sempre buscando se divertir em comunhão e isso inclui muito movimento e muito riso. “Faz bem para o corpo e para a mente”. Nos bairros mais pobres, mais na periferia da cidade, pode-se ver muita pobreza, mas são raros os mendigos e não há vestígios de crianças de rua.

A zona rural destoa totalmente da azáfama da cidade grande. Ali, as casas são baixas, ao estilo tradicional, como se fossem pequenas fortalezas. São construções pobres e cinzentas. “A cor sempre foi um tabu na China. Na época imperial, só os imperadores podiam usar o vermelho e o amarelo. Depois, no comunismo, foi a vez do cinza. Agora é que a gente está podendo variar”. Ainda assim, cinza é considerado uma cor elegante e é por isso que a maioria opta por ela nas suas moradias. Nos arredores de Beijin pode-se ver muitas dessas localidades que são chamadas apenas de “campo” e também nelas dá de perceber muito resentimento com relação ao “governo” porque a maioria de alguma forma foi afetada pelo crescimento. Muitos camponeses foram removidos por conta da abertura de grandes rodovias e não se conformam com isso. Mas, essas são impressões passadas por pessoas da cidade. Eles mesmos não dizem palavra.

Mas, apesar de toda essa onda de modernidade, Beijin também vive bastante do passado. Uma das grandes fontes de divisas são as belezas deixadas pela época imperial. Só a Cidade Proibida, conjunto de palácios que foi o centro do poder por cinco séculos (1416 a 1911), é visitada por mais de 80 mil turistas ao mês. Em janeiro, quando é o tempo é muito frio, os estrangeiros são poucos, mas há vagas e mais vagas de chineses de todas as partes que vêm à capital para conhecer essa parte de sua história. Bem em frente ao complexo fica a famosa Praça Tiananmen , ou Praça da Paz Celestial, a maior do mundo, onde em 1989 um jovem sozinho parou um tanque durante uma revolta estudantil. Curiosamente, todas as menções sobre esse fato em particular não aparecem em quaisquer páginas de internet acessadas na China e o fato foi apagado da história. Mesmo assim, as pessoas tiram fotos da Praça, rememorando aquele acontecimento tão emblemático que ainda vive na memória popular.

Da mesma forma a Grande Muralha, que pode ser acessada a menos de duas horas do centro da cidade, é outro foco de turismo intenso. A assombrosa construção que levou mais de 600 anos para ficar pronta, cobre mais de oito mil quilômetros de fronteira. Algumas partes foram restauradas exclusivamente para o turismo e não há dúvidas de que são magníficos monumentos do trabalho humano. A muralha começou a ser feita 200 anos antes de Cristo durante a dinastia Zhou, com a finalidade de impedir o avanço das tribos nômades. Ela atravessa montanhas, cidades e todo o deserto de Gobi e é, sem dúvida, uma das maravilhas do mundo. Contam que boa parte dos trabalhadores morreu durante a empreitada por conta das péssimas condições de trabalho. Ao longo da muralha há várias fortificações onde ficavam os soldados. Eles se comunicavam por sinais de fumaça e bandeiras coloridas. A subida é um ritual importante para os chineses e logo na entrada se pode ver um escrito do grande timoneiro Mao Tsé Tung: “Quem nunca subiu a muralha não pode ser considerado um homem”.

Mas, para aqueles que amam as cidades pelo que elas têm de invisíveis aos olhos comuns, Beijin se mostra verdadeiramente esplendorosa na sua face mais popular. E, aí, nada pode ser mais bonito do que o fascinante mercado Pan Jia Yuan, um gigantesco espaço da genuína arte tradicional e popular chinesa, misturado a um animado e diversificado brique, no qual se vendem desde bonecas quebradas até as mais finas joias.

O pavilhão, é claro, fica fora dos circuitos turísticos. Há que se arriscar andar pela cidade procurando a vida mesma, aquela que se expressa no cotidiano. E, assim, numa surpreendente e inesperada visão, aparece a Pan Jia Yuan. Adentrar aos seus portões é mergulhar na China mais verdadeira. Na praça estão os vendedores avulsos, cada um com seu banquinho e  antiguidades de todos os tipos. Tranquilos e sorridentes eles nos convidam para sentar e apreciar as coisas, com calma. Não importa que a língua verbal não seja compreendida, o corpo fala e as partes se entendem. Impossível descrever a beleza que explode ali. O mercado, na sua concepção mais antiga. O olho no olho, a conversa, o regateio, tudo na paz.

Depois, nas lojinhas que circundam o grande pavilhão aparecem as pedras de jade em todas as suas conformações e os artistas se apresentam, no trabalho, sorridentes ao olhar do desconhecido. Em outras dezenas de boxes estão os pintores da arte tradicional, em nanquim. Verdadeiras obras de arte que em nada devem as que ficam no chique Espaço 798, antiga fábrica de componentes elétricos desenhada pelos alemães em 1950, que virou área da expressão da arte moderna da China. Só que ali, na Pan Jia Yuan, o desenho é a paisagem, as amendoeiras, o impressionismo. Pode-se ficar por horas nos corredores vendo as obras se fazerem na sua frente, metódica e tranquilamente, por experientes pintores. Também é de tirar o fôlego acompanhar a confecção das famosas sombras chinesas. Incrível e delicado trabalho que testemunha a capacidade humana de produzir indizíveis belezas.

Depois de circular por cada cantinho da imensa praça, é bom ficar ao sol, olhando as pessoas, sob centenas de bandeirinhas coloridas. Não há a sofreguidão dos grandes mercados nem a frieza dos xopins. Não há turistas e praticamente não há ocidentais. Só o farfalhar dos casacos e a risada cristalina das mocinhas. É quase como um oásis no meio de Beijin. E, para coroar a sensação de que se está no paraíso, no meio da praça há uma árvore florida. Em pleno janeiro, no frio intenso, quando não há sequer folhas nas árvores, aquela árvore, no centro de Pan Jia Yuan explode em rosa claro. Seu caule está protegido porque “as árvores se assustam com o frio”, conforme explicou uma senhora. E ela, a árvore, agradece àquele povo simples e criativo, assim, se abrindo em beleza.

Então, de todas as maravilhas que vi em Beijin, na parte antiga e na nova, certamente o que nunca me sairá das retinas é aquela amendoeira, em flor, como que a desafiar o tempo. Ela mesma um milagre, tão maior do que o desenvolvimento que pretende levar a China ao paraíso. Aquele que consegue ver, não tem dúvidas. O paraíso já está ali.