quinta-feira, 8 de junho de 2023

Elisa, mulher de luta



Sempre que eu penso na cidade, essa pela qual tanto lutamos, penso na Elisa Jorge. Tenho a mais plena certeza de que o seu nome está marcado em cada barraco erguido nessa capital catarina desde há mais de 30 anos, quando começou por aqui a luta organizada pela terra urbana. Elisa era estudante de arquitetura, mas não estava na UFSC só para pensar as linhas e as formas das casas. Ela pensava as casas e as gentes dentro delas, principalmente as que não as tinham. Foi assim que ela se integrou ao trabalho do Caprom, que então organizava os migrantes. E minhas primeiras lembranças dela são as da guria de cabelos pretos, arranjados num rabo-de-cavalo, marcando com estacas os terrenos onde ficariam as casas que até então viviam só na ideia e no sonho das famílias que atravessavam a ponte em busca de vida melhor. Sistemática e diligente ela media os terrenos onde os barracos brotariam, e depois as casas.

Depois pude acompanhar o trabalho que a Elisa fez no gabinete do Vitor Schmidt, dando o caminho para o problema da moradia e mais tarde no gabinete do Lázaro, nosso vereador nascido também da luta nas comunidades. Ela foi seu pilar, mulher incansável, imparável, imprescindível. Cá pra mim digo que ela sabia o nome e sobrenome de cada pessoa na luta por moradia nas comunidades. Conhecia cada caminho daqueles espaços nascentes: Chico Mendes, Vila Aparecida, Nova Esperança e tantas outras. Dia e noite, organizando, mexendo, pensando, caminhando no chão vida, mesmo quando estava no emaranhado do gabinete. Ali ou nas comunidades seus olhos atentos estavam sempre desenhando formas boas de viver. 

Elisa depois trabalhou no mandato do Lino,  conhecedora que era tanto da vida lá fora quanto das entranhas da burocracia do município. Guria tinhosa, braba, dura feito um diamante, mas capaz da mais inocente ternura revelada no riso tímido. Com Lino foi o tempo de acompanhar uma nova onda de ocupações, outras comunidades, outras gentes, mas a mesma Elisa de sempre. Solidária, amorosa e diligente. No Plano Diretor, uma lutadora incansável, discutindo, propondo, desenhando a cidade sonhada.

Durante a pandemia, quando todos se fecharam em casa com medo do vírus, lá se foi a Elisa com outros compas a organizar cestas básicas para as famílias das comunidades. E dê-lhe a subir morro, a percorrer os caminhos de terra do interior da ilha, buscando quem precisava mais do que todos. Nas passeatas, nos atos de protesto, em Florianópolis, Palhoça, onde a luta pedisse. Lenço na cara, máscaras e gel, lá estava ela. Elisa e seu desejo de vida boa para todos os trabalhadores. Não consigo pensar em qualquer luta na qual ela não estivesse. Por isso insisto, não há canto desta cidade não tenha sua digital. 

Agora, nossa Elisa trava uma nova batalha. É a vez de defender a sua casa, casa-corpo. Com ela caminha Juliano, seu filho, guri experimentado também nessa luta incansável pela cidade e pela moradia. É nele que se ampara para percorrer os médicos e os hospitais. Juntos, e ladeados amorosamente por uma fileira imensa de amigos e companheiros, estão dando combate à doença. Não tenho dúvidas de que vai vencer. Porque Elisa é mulher que sempre vence. Passe o que passe ela se mantém firme e serena, seja com o dedo em riste na cara de algum prefeito, na crítica aos companheiros, na exigência da disciplina, da coragem. 

Nestes dias em que é necessário se recolher e cuidar de si ela também encontrou tempo para encorajar a todos nós. É uma gigante. Ela sabe que temos uma cidade para defender, aquela cidade sonhada nas noites de fogueira lá na ainda-não Chico Mendes. E nós a defenderemos, mas não sozinhos. Faremos isso com ela, porque ainda há muita estrada para cumprir. 

Elisa amada, recebe nossa força e nossa energia boa. A mesma que tu sempre nos deu. Tenho certeza de que será suficiente para completar o processo de cura. Estamos contigo e te abraçamos. Assim como estamos com Juliano e o abraçamos. Vocês não estão sozinhos. Tem um povo inteiro ao teu lado emanando amor. Esse povo em luta com o qual tu sempre caminhou. Te abraçamos e te esperamos. 


Alberto Aleixo


T
erminei de ler o primeiro volume da Coleção Ponto Final, Editora Insular, de autoria de Nelson Rolim. É impressionante! Um livro que definitivamente precisa ficar entre os primeiros necessários a qualquer jornalista. Não bastasse isso, precisa ser conhecido por toda a gente que queira conhecer a história do nosso país. Com uma escrita segura e simples, Nelsinho vai contando a história da heroica imprensa comunista no Brasil. Uma verdadeira maravilha. 

A gente vai lendo e se emocionando em cada página. O compromisso, a dedicação, a responsabilidade social, a paixão, o amor pelo Brasil, pelo povo brasileiro, tudo isso vai se derramando nas histórias de cada jornal e de cada militante que entregou sua vida para que as pessoas pudessem ter acesso à informação e ao conhecimento. Jornalistas, gráficos, construtores de tipos, motoristas e até pedreiros passeiam pelas páginas, deixando em nós um sentimento oceânico de admiração. 

A proposta do primeiro volume é homenagear o jornalista Alberto Aleixo, morto pela ditadura que assaltou o poder em 1964. Um homem velho, de 73 anos, que foi levado aos calabouços e sofreu as mais tenebrosas torturas, sem fraquejar. Mas, para além desta história singular, que por si só já é arrepiante e pesada, Rolim descortina a incessante luta dos comunistas para manter um jornal onde pudessem fazer suas denúncias e divulgar as ideias de um mundo bom, regido pelo comum. O livro é construído com pequenos textos, que se entrelaçam entre si, num contínuo, e vão carregando a gente para dentro das redações clandestinas, dos porões. 

O tema da ditadura, da morte, da tortura é um tema pesado, mas Rolim consegue tratar disso tudo com determinada leveza. Nos leva ao assombro, ao ódio, mas principalmente nos enche de uma profunda alegria ao realizar esse encontro com colegas de outros tempos, que também tinham essa paixão pelo jornalismo e pela liberdade. Eu mesma terminei de ler o livro e saí porta afora gritando, gritando, feito louca. Gritos da mais estonteante alegria. Por que apesar de tudo o que foi feito, de todas as dores vividas por esses companheiros, apesar de todas as derrotas, eles nos aparecem ali, vivos e vibrantes, nos mostrando que a despeito de tudo, o caminho é a luta. 

Rolim consegue esse feito: trazer, em totalidade, essa monumental história da imprensa comunista e propicia o nececessário encontro amoroso com esses exemplos de jornalista e de ser humano. Vale a pena ler! Eu recomendo vivamente!  Alberto Aleixo – o jornal do PCB. Uma obra extraordinária. 

A coleção terá 38 volumes. Já estou lendo o segundo!

irei quando o tempo estiver bom


Nas noites insones por conta dos cuidados com o pai o que me salva são os doramas. Peguei gosto pelos dramas, que são curtos e intensos. Tem de todo tipo, de vingança, policial, de ação. Mas, eu curto mesmo são os que tratam do cotidiano das vilas ou cidades, com personagens bem típicos. Há pouco tempo vi sobre um pequeno café e seus clientes habituais. Uma ternura. Texto delicado, episódios emocionantes. 

Agora estou vendo outro assim, que enche a noite de delicadezas humanas. É o "Irei quando o tempo estiver bom". Há cenas tão lindas que chego a ver incontáveis vezes, indo e voltando, apenas fruindo. Sem contar a fofurice de Seo Kang-joon que simplesmente fala com os olhos. Uma terna história de amor na aridez de uma cultura de solidão.

segunda-feira, 29 de maio de 2023

Homenagem aos vivos/ Waldir Rampinelli

Foto: Felipe Maciel Martínez


Quero falar de uma pessoa que indefectivelmente me emociona por sua paixão pelas coisas que faz. Pode ser uma simples aula, ou a construção de um livro, ou o cuidado com o gato. Ele está sempre inteiro nas coisas, mergulha em profundidade, se entrega com dedicação desmedida. Raramente o vejo de mau humor ou reclamando de algo. Pelo contrário. É alto astral, engraçado e sempre cheio de novidades. Parece uma cornucópia, derramando planos. 

Nasceu num reduto italiano, Nova Veneza, no sul do estado, e desde gurizinho carrega essa marca de olhar com agudez para o mundo ao seu redor. Tanto que até escreveu um livro sobre sua infância chamado “O menino que vê o mundo”, onde relata suas impressões de guri numa comunidade racista. Foi padre, sempre alinhado com os trabalhadores, com “los de abajo”. Depois, entendeu que não seria ali, na Igreja, onde ele seria feliz. Saiu fora e foi trilhar os caminhos da educação. Hoje é professor titular no Curso de História da UFSC, onde passou a lidar com a história a contrapelo, seguindo seu espírito crítico. 

Ama a América Latina com profunda intensidade, mas não esconde que tem uma preferência: o México. Ali fez seu doutorado e mergulhou mais ainda nesse continente iluminado.  Gosta de viajar, tomar um bom vinho e fofocar. Agora está dirigindo a Editora da UFSC deixando ali uma marca indelével. Porque não apenas divulga os livros, mas faz de cada livro lançado ou anunciado um ato político. Tem lotado a igrejinha da UFSC às sextas-feiras à noite, coisa surpreendente. E toma cada edição como uma jornada épica, o que me provoca grande ternura. Reúne escritores, estudiosos, estudantes, amantes do livro, em concorridos saraus, os quais comemora como se fosse um gol de campeonato. 

Tenho a alegria de caminhar com ele no IELA desde os primeiros anos da nossa história, contando com seu compromisso militante e seu amor pelo continente. Já são mais de 20 anos ao seu lado, desde as memoráveis lutas da Apufsc, numa amizade sólida e risonha. Porque sim, ele ainda é um menino, sempre disposto ao riso e a brincadeira. Sempre que me encontra pergunta: “Elaine Tavares, estás com deus”? E eu respondo... “Estou com jesusinho”.  

Waldir Rampinelli é um cara extraordinário, um desses imprescindíveis.

domingo, 28 de maio de 2023

Das tradições


Minha mãe, Helena, era uma mulher noturna. Gostava de fazer as coisas sempre depois que tudo se aquietava. Gostava de ver jogos de basquete na TV e filmes antigos. Também era de noite que bordava, fazia tricô e escolhia feijão. Feijão era coisa sagrada, tinha de ter todos os dias, então, a cada dois ou três dias lá estava ela de novo escolhendo o feijão.

Eu tinha por costume estar sempre junto nessas tarefas noturnas, até porque era só ela que me acompanhava nas maratonas de filmes de vampiro. Sempre tive medo e para ver os filmes havia que ter companhia. Ela não falhava. Ficava até o fim, as perninhas cruzadas, fazendo crochê e tomando chá de boldo. Eu retribuía, então...

Assim, quando ela estendia os feijões em cima da mesa para catar as sujeirinhas eu já me sentava junto com ela para o mutirão. Enquanto escolhíamos os grãos eu ia contando das coisas do colégio, do menino que eu gostava, essas coisas da vida ordinária. Ela ouvia e por vezes dava algum conselho. Sobre os guris era sempre batata. Se ela dissesse: “esse guri não dá, não presta”, podia escrever na pedra, que era a mais pura verdade.

Eu e minha irmã sempre dizíamos pra ela que ela julgava as pessoas sem conhecer e que isso não era legal. Ela fazia aquela cara de paisagem, um muxoxo de desdém e lascava: não presta, e não presta. Podia passar algum tempo, mas a predição se confirmava. E se ela dissesse: “ah.. esse sim”... podia marcar o casamento, porque o guri era bom.

Assim que até hoje quando jogo os feijões na mesa para catar as sujeirinhas posso sentir a presença da Dona Helena do meu lado, com a perna dobrada e os olhinhos de lâmpada a esperar pela minha algaravia dos dias. Com ela converso e damos muita risada.

Vez em quando coloco um nome na roda para esperar o veredito.

- E o fulano, mãe?

Se ela disser “não presta”, pronto. Tá lascado o fulano, porque a mãe não falha.

quarta-feira, 24 de maio de 2023

A montanha russa do Alzheimer



A montanha russa não para. Já está outra vez fazendo seu percurso estonteante. Quando a gente começa a se acomodar numa fase, vem outra, e outra, e outra. É um sem fim. O pai, depois de sete anos de doença já não faz mais gracinhas. Quase não se comunica a não ser com os olhos, sempre expressivos. Vez em quando, como se tomado por espírito, ele reaparece, mas é raro. Como quando vai tomar água. Ele faz um grande gole e fica fazendo bochechos. É hora das risadas, porque pode esperar que ele vai lançar um chafariz. Eu fico com o copo e o pano à postos, mas ele sempre encontra um jeito de me enganar. Um descuido e zaz, lá vem o jorro de água, na minha cara ou no chão. 

E digo: Bah, seu Tavares, o senhor sempre faz o mais difícil.

E ele responde: Mas não mesmo. E me olha com os olhos mansos.

Agora de uns dias para cá entrou numa fase que já parece não saber mais como respirar e comer. Seguido ele fica com a boca bem aberta, respirando por ali, sem lembrar que a parada é pelo nariz. E nisso faz uns roncos estranhos, assustadores. De dia ainda fica tudo bem, mas de noite, assume proporções épicas. Na hora de comer também temos dificuldades. Ele fica com a comida girando na boca, sem saber o que fazer com ela. Nem cospe, nem engole. E a gente tem de ficar atento para ele não se engasgar. A refeição vai devagarinho, e sempre bem pastosa, com pequeníssimas porções. É preciso muita paciência. 

Também já está apresentando certa rigidez na hora em que acorda e é sempre bem difícil esse momento, pois a sensação é de que ele vai quebrar o pescoço.  Em alguns dias ele fica bem, mas o cotidiano tem sido mais para ruim. Há que ter um preparo psicológico e espiritual bem forte para a gente não desmoronar. Não é bolinho ver alguém se apagar aos poucos, olhando para a gente no fundo do olho.

A gente segue conversando, colocando música e mantendo ele no convívio da casa, que é bem animada, mas cada dia ele dorme mais tempo. Tenho medo de que chegue a hora em que ele não levante mais. Luto desesperadamente, mas sei que não tenho controle sobre isso. Há que esperar e enfrentar. 

Nas manhãs estão sempre os melhores momentos, quando ainda há certa consciência de si e do ambiente. São lampejos de alegria aos quais nos agarramos. E assim, vamos sacolejando nessa difícil estrada.  Por sorte temos uns aos outros e é essa a força que nos sustenta.



quinta-feira, 11 de maio de 2023

Encantou o Pepe



Quando pararemos de chorar? Conheci o Pepe no começo dos anos 1990. Ele chegava de longe e já se misturava com a luta por moradia que rolava aqui na capital. Apresentados pelo Padre Vilson nós já começamos a trabalhar juntos. Ele fazendo imagens e eu fazendo entrevistas e roteiro para vídeos sobre as ocupações. Produzimos juntos o “País dos Sem”, um dos primeiros trabalhos em vídeo sobre a grande batalha que se travava pelo direito de morar na cidade. Caminhamos pelos mesmos caminhos por muito tempo: luta pela moradia e o MST. 

O Pepe também esteve na Ocupação Amarildo, um marco na luta pela agricultura urbana e ali ficou morada, seguindo depois com o grupo para Águas Mornas. O Pepe era um maluco beleza, um furacão de ideias. Recebo a notícia de seu encantamento com profunda tristeza. É mais um dos nossos que se vai. Teve uma vida dura, mas nunca desistiu de sonhar com a possibilidade de vida plena e digna para todos. Fica a dor da ausência, mas também o registro de que o Pepe foi um lutador, um grande companheiro de trabalho, um amigo dos mais queridos. Que seja bem-vindo na casa da beleza.