terça-feira, 11 de agosto de 2026

A cidade para poucos

A propaganda 

Quando nos anos 1980 o bairro do Campeche iniciou uma batalha para garantir um plano diretor, os moradores já tinham bastante consciência de que a expansão do capitalismo e a renda da terra logo estariam dando as cartas na comunidade. Foram décadas de luta, de encontros, reuniões, passeatas, oficinas, com intensa participação popular. O resultado de toda essa mobilização que nos anos 1990 e 2000 acabou envolvendo toda a cidade foi brutal: o Plano Diretor Participativo acabou derrotado na Câmara de Vereadores. Interesses do bonde do cimento se sobrepuseram aos desejos da cidade. Assim, a partir do apagar das luzes de 2014, Florianópolis foi descaradamente colocada à venda. 

Nos últimos anos esse processo se acelerou. No sul da ilha, espaço onde a luta foi intensa, a expansão da construção civil foi vertiginosa. Condomínios gigantes e prédio foram brotando sem que a região fosse dotada de infraestrutura. A disputa é pela paisagem em frente ao mar. Paisagem especulada.

Agora com novas mudanças no Plano que permitem prédios de muitos andares, o drama se aprofunda. E com as grandes obras para os ricos, como a tal marina da beira-mar, os prédios à beira mar devem se multiplicar. As empreiteiras e construtoras fazem propaganda da vista da cidade, aludindo ao lazer no rooftop (palavra em inglês, claro, para telhado). Os biltres poderão tomar champanhe no telhado observando seus barcos ancorados na marina. Visão dos deuses? Florianópolis vai ficando cada dia mais cafona, mais excludente, mais artificial. 


quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Santos Dumont



Terminei de ler o livro de Gondin da Fonseca sobre Santos Dumont, escrito em 1956. Uma preciosidade. O texto é primoroso e vai tecendo a vida daquele que é o pai da aviação, com o contexto e o cenário das épocas. Desde sua infância, passando pelo período em que ficou em Paris, onde, na verdade, conseguiu as condições reais para construir seus balões, dirigíveis e, depois, os aeroplanos. Uma história incrível, obviamente só possível porque a família de Santos Dumont tinha condições de bancar. De qualquer sorte, é fabuloso saber o quanto esse brasileiro era engenhoso. Ele não tinha o conhecimento teórico, universitário, mas tinha o saber prático de quem está em permanente combate com os engenhos mecânicos. Montava os motores peça por peça e foi assim que conseguiu fazer voar o 14 Bis, sem que nenhum outro mecanismo a não ser o motor, fosse necessário. Fez 14 tentativas e foi na 14+um (o 14 Bis) que conseguiu dar a volta na Torre Eiffel, elevando-se apenas com o esforço das hélices. Era o dia 23 de outubro de 1906. E a partir daí, a indústria da aviação cresceria sem parar. O texto de Gondin narra também o triste fim do herói brasileiro, conquistador do ar, que, premido pela solidão e por seus dramas internos, acabou enforcando-se em casa, em 23 de julho de 1931. Santos Dumont acreditava que ele era o responsável pelos acidentes de avião que se registraram na época, bem como pelo uso do avião nas guerras. Nunca se casou, não teve filhos, não viveu nenhum grande amor. Sua vida sempre foi o embate com o ar e, mesmo vencendo, não foi o suficiente. Um personagem verdadeiramente apaixonante. 

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Os velhos viraram consumidores



Eu não tinha prestado atenção, mas, de repente, prestei. De uns tempos pra cá tem aumentado muito o número de anúncio de mercadorias no meu celular, todas voltadas para pessoas mais velhas. É curso de ginástica, é produto de beleza, é marca de roupa específica pra velhos, é mensagens sobre saúde, anúncios de suplementos alimentares, tudo o que puderes imaginar. Ah, também são inúmeros os anúncios sobre casas de repouso ou empresas de cuidadores. Percebi, então, o óbvio. Os velhos no Brasil só aumentam e são consumidores em potencial para uma série de produtos que antes só eram vendidos em nichos muito singulares. Agora não. Viraram tendência. É uma loucura. 

Os mais graves me parecem os anúncios sobre saúde. A coisa beira o surreal. Li há poucos dias uma matéria que falava justamente sobre essas postagens de falsos médicos, ou de personagens médicos criados por IA para dar dicas de saúde que, no geral, acabam com alguma mercadoria. Uma armadilha muito grave para pessoas sugestionáveis, ou solitárias, ou sem recursos para visitar um médico, considerando os horrores que são as esperas para uma consulta nos postos de saúde. Que mundo confuso e perverso esse que estamos vivenciando... 

Fico pensando no quanto é necessária uma educação para o uso das redes, mas ao mesmo tempo não creio que possamos lograr algo assim. Pessoas há que já não acreditam em nada do que vem do mundo real, apenas do que pode ser visto nos seus celulares. Isso engloba tudo: saúde, educação, política... Sei lá onde vamos parar... Mas o capital, esse não, esse vai seguir destruindo tudo a sua volta, sem se importar com o que provoca. 

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Os sem-terra no jornalismo da UFSC

Depoimento da jornalista Elaine Tavares, que atua junto ao MST desde 1986. Ela foi uma das primeiras estudantes da UFSC a realizar um trabalho de graduação tendo o MST como tema. Seu projeto final no Curso de Jornalismo, em 1990, foi um relato sobre a caminhada das famílias que ocuparam a Fazenda Annoni, em 1985, no Rio Grande do Sul. Um acampamento de 1.500 barracos e seis mil pessoas. “Sem-Terra em Annoni – memórias de uma reportagem” foi o título do trabalho que depois virou livro com o nome: “Porque é preciso romper as cercas – Do MST ao jornalismo de libertação”, publicado em 2008.

Depoimento faz parte do projeto "Pontes de Esperança" , que celebra os 40 anos do MST e a relação com a universidade. Na conversa ela conta sobre como a questão da terra aparece na sua vida desde a infância. 

Napoleão






Passeando por Paris fui dar uma espiada no túmulo de Napoleão. Não para lhe render homenagens, mas para refletir sobre o papel desse homem para nós aqui no Brasil e na América Latina. Foi no Haiti, entre 1801 e 1803, que as tropas do famoso general sofreram sua primeira grande derrota no nosso continente, sendo escorraçados pelos negros vitoriosos. Essa derrota acabou com a ilusão de Napoleão de avançar aqui pelas nossas terras e, ao final, quem acabou ganhando foram os Estados Unidos, que arrebanharam o estado da Louisiana.  É sabido também que foi Napoleão quem empurrou Dom João VI para o Brasil quando invadiu Portugal em 1807. E assim, instalou-se aqui o império, com uma série de implicações. Foi justamente por conta da vinda da corte que o Brasil pode contar com algumas melhorias. Para o bem e para o mal.

Assim que fui lá, ver como os franceses deram a ele sua última morada. O túmulo, imenso, está no Palácio dos Inválidos, criado por Luís XIV, em 1670, para dar abrigo aos inválidos dos seus exércitos. Ali estão os restos do general, trazidos da ilha de Santa Helena, onde morreu no exílio. A obra, de autoria do arquiteto Louis Visconti mais os escultores James Pradier e Pierre-Charles Simart, começou a ser planejada em 1840, mas só foi inaugurada em 1861, por Napoleão III.

O sarcófago de Napoleão fica numa cripta aberta cheia de esculturas impressionantes que representam as vitórias do general francês. Tudo é muito monumental, como foi a sua vida. Diante dele a gente vê que por mais incrível que seja uma vida, e por mais conquistas que alguém possa ter no campo da guerra, vai acabar assim, como qualquer um de nós: feito pó, em um túmulo.  


quarta-feira, 10 de junho de 2026

A comunitária do Campeche resiste


Desde há dois anos, a Rádio Comunitária Campeche vem enfrentando pesados reveses. Primeiro foi a perda do estúdio. O terreno onde estava, com uso em comodato por mais de 20 anos, foi colocado à venda pelo Sinergia. Tivemos de ver o estúdio, feito pelas mãos da comunidade, ir ao chão. Com a derrubada do estúdio começou uma batalha para garantir novo espaço onde fosse possível colocar a antena. Reuniões na prefeitura, na SPU, conversas, um incessante vai-e-vem. Sem a antena, a rádio perdeu várias oportunidades criadas pelo governo federal, com editais para as comunitárias, que ajudariam muito na manutenção. 

Sem o estúdio, para não ficar de todo muda, a rádio conseguiu um espaço no Sindicato dos Trabalhadores da Justiça Federal (Sintrajusc), onde foram montados os equipamentos e desde ali, seguiu transmitindo na internet. Mas, sem um ambiente próprio, no qual pudesse receber a comunidade, a rádio foi ficando um pouco desconectados da vida mesma. Afinal, a força maior sempre foi o contato, a presença, a rádio aberta para o bairro. Ainda assim, a comunitária seguiu com a programação musical e um único programa ao vivo, o "Campo de Peixe”, todos os sábados pela manhã, na tentativa de manter os vínculos com a cidade e com a comunidade.

Ainda no ano passado a rádio foi acionada na Justiça pelo ECAD, exigindo o pagamento mensal de direitos autorais. As comunitárias vêm numa luta de anos para ficar isentas deste pagamento já que não são empresas, não visam lucro, não vendem produtos. Mas, depois de longa batalha, a justiça decidiu que isso não importa. Que os direitos são devidos e devem ser pagos. De nada valeu mostrar ao juiz as nossas finanças, a realidade de uma emissora comunitária que arrecada por mês apenas o suficiente para pagar luz, água  e telefone. Nesse cenário, incluir um valor mensal para o ECAD seria praticamente impossível. Mesmo assim, não teve choro, perdemos a ação. 

O resultado foi a condenação que resulta no pagamento de uma multa bem salgada, mais o valor do pagamento do advogado do ECAD e, se quisermos continuar transmitindo, o pagamento da mensalidade ao ECAD.  Isso significa - incluindo todas as despesas  - um valor de 900 reais que, para uma rádio que vive apenas das contribuições dos sócios, é verdadeiramente uma montanha a ser superada. Além do mais, se levarmos em conta a manutenção dos computadores - sempre com problemas por conta da maresia - que exige frequentes campanhas para conseguirmos pagar, o drama se aprofunda. 

Não bastasse tudo isso, agora estamos esperando que o governo federal aprove a renovação da outorga, num processo que tem se arrastado por mais de um ano. É incrível como empresas como a Globo, a Band e outras desse porte têm suas outorgas liberadas em dias, enquanto as comunitárias precisam amargar um calvário burocrático que não tem fim.

Com todos esses problemas foi chamada uma assembleia geral, no dia 16 de maio, para que os sócios pudessem tomar pé da situação e decidir o destino da rádio. O cenário é difícil. Estamos a dois anos buscando um lugar onde reconstruir a rádio. Uma batalha dura, pois o bairro vive um momento de grande valorização fundiária. A terra aqui é ouro.

A situação da rádio se põe complicada e por conta disso, uma das propostas que veio para a assembleia foi a do fechamento. Uma proposta difícil, se considerarmos os 27 anos de vida e de resistência desta pequena valente, que já enfrentou muitos vendavais. É certo que nunca tantos ao mesmo tempo. Fechar significaria cerrar as portas para uma comunidade que, sim, mudou muito, mas que ainda precisa de um espaço onde possa expressar a voz das lutas necessárias que continuam acontecendo. Então, depois de muito debate, os sócios que acorreram à assembleia decidiram que é preciso fazer um esforço para manter a rádio funcionando. E foram apresentadas propostas de ações para garantir que a comunitária siga irradiando: campanhas de arrecadação para o pagamento da multa, aumento da anuidade, busca de parceria no comércio local. Uma batalha.

Também foi estipulado um prazo até o final deste ano para ver se todos esses nós se desatam. O ponto central é torcer para que o Ministério das Comunicações libere a renovação da outorga. Há uma pequena luz no fim do túnel no que diz respeito a um terreno onde replantar nossa rádio. Tudo está por se definir até 2027. 

Como podem notar pelo relato, o tempo é ruim, mas tem aberturas de sol. O trabalho comunitário é assim, sempre cheio de percalços... Mas, há lutadores, há garra, há trabalho.

Por agora temos um grupo organizado que insiste em manter a rádio no ar. Todos os esforços estão sendo feitos. Já atravessamos alguns desertos. Este pode ser só mais um. Numa conjuntura em que as redes sociais e as big techs estão engolindo nossas almas, manter a comunitária é um compromisso ético. 

Vamos conseguir…

OBS – Quem quiser ajudar com doações, estamos recebendo. Chave PIX: 03434315000135 

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Universidade e MST: Pontes de Esperança




Fotos: Maria Isabel Serrão


Quando em maio de 1985, cerca de 1.500 famílias ocupavam duas fazendas em Abelardo Luz, no oeste do estado, apareceu para o mundo o Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra, uma organização que juntava agricultores na luta pela terra. Uma gente que plantava e produzia, mas sempre em terra alheia, trabalhadora, sujeita aos humores dos grandes proprietários. Aquela ocupação abriu um caminho para os camponeses brasileiros que penavam no campo, sendo obrigados a migrar para as cidades, aprofundando ainda mais a miséria. Depois dela outras ocupações começaram a aparecer por todos os cantos do país, mostrando que aquele movimento veio para ficar. Não era um bando de “criminosos” como diziam alguns. Eram famílias organizadas que queriam trabalhar e produzir. 

E assim, enquanto o MST crescia, garantindo terra e produção, a universidade também começou a perceber que ali estava algo novo de original, que especificamente foi específico. E, nos mais diversos cursos foram aparecendo pessoas - estudantes e professores - querendo observar mais de perto aquele movimento. Na UFSC não foi diferente. Já nos primeiros anos do MST desenvolveu trabalhos de final de curso e dissertações com o objetivo de narrar e compreender a luta dos agricultores. E, com o passar do tempo, a relação que era apenas de estudo passou a ser também de interação. 


Na medida em que o MST avançava na luta era necessário fazer pontes com a cidade, afinal fez, a razão principal do movimento - produzir comida - estava visceralmente ligada à mesa dos trabalhadores. E foi assim que os Sem-Terra começaram a também fazer parte da realidade citadina, realizando marchas, encontros, protestos e atividades políticas na capital. fornecer somaram-se ao MST os sindicatos, os movimentos sociais e as universidades - UFSC e UDESC. Todas essas forças passaram a desenvolver parcerias, seja no apoio político, seja no apoio estrutural. No caso das universidades, em pouco tempo, já havia um bom grupo de professores e alunos desenvolvendo projetos nos mais diversos campos do saber, em conjunto com o MST. Por diversas vezes a universidade foi espaço de grandes encontros como foi o caso dos Encontros Estadual do Sem-Terrinha, que reuniu crianças dos acampamentos e assentamentos para discutir a realidade do processo de reforma agrária. Mas foram muitos outros…


Essa relação de parceria, que se estreitava com pesquisadores, professores e estudantes, foi se aprofundando e abrindo veredas jamais imaginadas. Foram esses encontros cidade/campo, universidade/MST que aconteceram ao nascimento do PRONERA (Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária) no governo de FHC. E, a partir daí, vários outros projetos foram criados, participantes na produção, distribuição e distribuição, que só fizeram avançar o conhecimento bem como a luta pela reforma agrária. Além disso, esse movimento cidade/campo faz nascer o Curso de Educação do Campo, hoje uma referência em todo o país.   


Em 2025 comemoraram-se os 40 anos do MST em Santa Catarina e um grupo de professores que já atua nesta parceria, em conjunto com a Udesc, decidiram criar um projeto chamado “Pontes de Esperança”, buscando recuperar a memória desta caminhada conjunta. Assim, com a ajuda de uma emenda parlamentar conquistada no processo comunitário do deputado petista Pedro Uczai, foi garantida uma palavra para a gravação de depoimentos dos que ao longo dos anos consolidaram esta parceria. Além disso, também foi construída coletivamente - UFSC, UDESC e MST - uma proposta de monumento para marcar esses 40 anos de caminhada conjunta. Esse monumento, que dará destaque justamente para a memória - está sendo construído no lugar onde agonizava a velha Concha Acústica. O espaço será recuperado e tudo será eternizado a memória desta relação campo e cidade, saber acadêmico/saber popular, universidade/MST. É bom registrar que esta é uma construção coletiva que envolveu mais de mil pessoas de todo o Estado, num processo de respeitosa escuta e que traduz a esperança de paz com justiça social, com o campo e a cidade irmanadas por um projeto agropedagógico de sustentação de todas as vidas, e do planeta. O Monumento Pontes de Esperança, em linguagem artística, expressa horizontes de cura e integração de todas as formas de vida.             


Paulo Capela e Sandra Dalmagro coordenam o projeto que em breve deverá inaugurar o monumento, bem como disponibilizar um espaço denominado “Memorial dos Trabalhadores e Trabalhadoras”, onde ficarão eternizadas a história deste longo processo de construção de uma sociedade justa. UFSC, UDESC e MST, juntos, ensinando e aprendendo. Não por acaso, o Memorial ficou na antiga sede dos Volantes, espaço histórico dos trabalhadores da UFSC. O caminho para esta parceria começou a ser trilhado com a concretização da memória dos trabalhadores da UFSC, os primeiros a se organizarem em associação, também gravado em vídeo. Assim, o memorial, além de guardar a história da relação MST/UFSC e UDESC, guardará outros relatos de luta dos trabalhadores da própria UFSC. Um processo que deverá estar em construção constante. 


Em breve todo o material será disponibilizado na internet.