quarta-feira, 26 de setembro de 2018

As mulheres na frente



Nesse sábado, 29, as mulheres brasileiras mostrarão sua força, manifestando-se em todo o país contra a fascistização da vida representada pela figura do Bolsonaro. Uma mobilização única, original e poderosa, que unifica os contrários e coloca as gentes em luta contra a violência e o ódio ao outro.

Lembro como se fosse hoje a passeata, em Florianópolis, em 20 de junho de 2013. Era o auge dos protestos contra a corrupção - início da batalha contra o governo petista -  e a capital viu saírem às ruas pessoas que sempre jogaram pedra nos manifestantes tradicionais. O protesto juntou mais de 30 mil almas, coisa nunca vista. A RBS, rede catarinense filiada a Globo, transmitia ao vivo. Estranhamente não chamava ninguém de “baderneiro”. Naqueles dias, a classe dominante dava sua bênção para a ocupação das ruas, a Globo chamava ao civismo e  as pessoas acorreram aos borbotões.  

Eu lá estava com os companheiros de sempre. E, aturdida, via as pessoas manifestarem seu ódio contra os militantes de partidos políticos e movimentos sociais. Ou seja, nós. A passeata virou uma batalha, na qual jovens vestindo camiseta – doada por partidos de direita – com inscrições contra a corrupção berravam: “sem partido, sem partido”, e enfrentavam os militantes que se agrupavam com suas bandeiras. Exigiam, de forma violenta, que fossem baixadas as bandeiras partidárias e que a passeata seguisse como uma gosma informe. Uma falsa gosma, pois como disse, os partidos de direita estavam ali, distribuindo camisetas e insuflando a massa contra os partidários da esquerda. Apenas não carregavam bandeiras, porque nunca o fizeram. Eles agem nas sombras.

Aproximei-me de umas jovens “encamisetadas”, que gritavam alucinadas, com olhos em brasa, contra as bandeiras de partidos de esquerda. E perguntei:

- Por que vocês são contra os partidos?

- Hã? É, porque é sem partido, ora!

- Sim, mas por quê?

- É sem partido e pronto. Não fazemos política. Tu tem partido? – inquiriram e me encararam, agressivamente.

Naquele dia, uma massa furiosa nos atacou e obrigou que os grupos embandeirados se descolassem da passeata, seguindo na frente. Escancarava-se a luta de classes e o ovo do fascismo que tomou conta do país estava posto. 

Lembro que comentei com vários companheiros sobre o que estava começando ali. No dizer de Adorno, o fascismo é um vírus que existe latente, em cada um. Diz ele que dadas as condições, ele brota, forte, e se espalha incontrolavelmente. Eu via aquilo na passeata. Um ódio irracional na massa, mas extremamente racionalizado nas direções políticas da direita. Um processo de construção de um consenso que foi crescendo, se consolidando e acabou no impedimento da presidenta Dilma. Jogada de mestre.

As atitudes fascistas também se consolidaram e seguiram a todo vapor. Ações truculentas de membros da justiça, total abandono das leis burguesas, agressões a gays, lésbicas, mulheres, estudantes, professores. Qualquer pessoa identificada como “petista” ou “comunista” passou a ser apontada como um mal. E as ameaças de consolidação de um regime de força foram se fazendo sem freio. Eu que vivi a ditadura militar, como criança e adolescente, lembro muito bem o terror vivido pelas famílias que tinham qualquer posição crítica ao regime. Os vizinhos vigiavam e acusavam anonimamente, muitas vezes se aproveitando da denúncia de “comunista” para vinganças pessoais. Era um tempo de vigilância e de medo. Não se podia pensar. Só dizer sim, sim, sim, ao regime. 

O crescimento das atitudes fascistas praticadas por pessoas comuns, gente “de bem” me preocuparam e provoquei amigos, partidos, movimentos, sem resposta. Estaríamos caminhando para um tempo de fascismo? O que poderia acontecer caso tudo isso se fortalecesse e crescesse sem parar?  Pensava que havia que botar freio a essa fascistização da vida ou ela se espalharia como rastilho de pólvora, no fundamentalismo do terror. Acreditava que era preciso juntar forças com as mulheres, os negros, índios, trans, trabalhadores formais, informais, homossexuais, enfim, todos os oprimidos pelo capital e pelo patriarcado. Uma luta de todos nós. 

Mas, naqueles dias era arar no deserto. Nada vingou e a onda foi crescendo.

Agora, às vésperas da eleição, quando essa ameaça iniciada lá em 2013 se concretiza numa candidatura específica, a de Bolsonaro, pronta para assumir o comando do país, fortalecendo ainda mais as práticas fascistas, foram as mulheres que, entendendo a gravidade das coisas, decidiram agir. Uma ação que começou pelas redes sociais, com as brincadeiras de sempre, mas foi crescendo e se fazendo real na vida mesma. A mulherada passou por cima das diferenças partidárias, dos pequenos poderes, de tudo. E, uma a uma, foram dando-se as mãos contra o “coiso” numa demonstração inequívoca de inteligência e numa estratégia perfeita que, sistematicamente, tem conscientizado pessoas e derrubado os índices do candidato.

Agora, nesse sábado, dia 29, toda essa intensa mobilização internética se expressará nas ruas, na luta concreta contra a fascistização da vida que é o que representa a candidatura Bolsonaro. Em Florianópolis, o encontro será em frente a Catedral, às 15 horas. E as mulheres se juntarão para dizer que “ele, não”. Cada uma terá lá no seu coração o seu candidato, de centro, de esquerda, e talvez até de direita, mas cada uma sabe que algumas coisas precisam ser banidas da face da terra. Tais como o racismo, o preconceito e ódio pelo diferente. 

Nesse sábado, em todo o Brasil as mulheres marcharão. Estarão juntas, e mostrarão sua força. Tenho esperanças que nas eleições essa proposta seja derrotada. E creio que será. Mas, ainda assim será necessário seguir juntas, no mesmo movimento, porque o fim do pleito não colocará fim nessa serpente insidiosa que já vive entre nós. Um grande estrago foi feito e há ainda um longo trabalho por fazer. Trabalho real, para além das eleições. Que a unidade feminina permaneça, porque está sendo uma bela lição. 




quinta-feira, 20 de setembro de 2018

O sangue negro de todos os dias

Todos os dias tomba um negro, vítima do racismo

O Brasil já foi saudado como uma “democracia racial”, conceito que coloca um véu sobre as relações étnicas no país e que foi fortalecido por um clássico da sociologia brasileira, o "Casa Grande e Senzala", de Gilberto Freyre. O famoso autor criou o mito do “bom senhor” ao caracterizar a escravidão brasileira como sendo composta por senhores maleáveis e escravos conformados. Aquele que é negro sabe muito bem o quanto essa ideia é falsa e ideológica. 

A escravidão no Brasil foi selvagem e violenta, como qualquer outra escravidão. E os “senhores” eram canalhas como qualquer senhor. Tiveram a cara de pau de, ao verem se esgotar o tempo da escravidão, lançarem mão da chamada “Leis de Terras”, em 1850,  impedindo assim que os negros libertos pudessem garantir um espaço para viver. 

Nesse mesmo ano havia sido aprovada uma lei que obrigava ao fim do tráfico de gente e os “bons” senhores trataram de se adiantar , assegurando assim a propriedade. A lei de terras definia que só poderia ter terra quem pagasse por elas. Não se legalizaria posse. E os negros que já começavam a ser libertos saiam das casas-grandes com uma mão na frente e outra atrás. Como poderiam comprar terras? Quando finalmente veio a abolição, em 1888, milhões deles foram jogados nas ruas, para que "se virassem" com sua liberdade.Desde aí o destino dos negros tem sido as periferias e os morros. 

A escravidão é uma chaga aberta ainda no Brasil, e o sequestro de milhões de pessoas nunca foi reparado. Passados séculos o povo negro segue marcado por uma realidade que não buscou. Foi o capitalismo dependente que, precisando de braços para dar força ao processo de produção na América dependente, que inventou essa vilania. Mas os negros pagam por isso até hoje.

No Brasil o negro é visto como bandido. Seja onde for. Pode estar vestido de ouro, mas sempre será apontado como marginal, sujo, vagabundo. A cor é desculpa para as mais absurdas violências e para assegurar o sistemático terrorismo de estado contra esse povo. O Rio de Janeiro tem sido a janela mais visível desse drama, hoje inclusive vivendo uma ocupação militar, justamente para “conter” o povo negro das favelas. 

As histórias envolvendo o assassinato metódico da juventude negra são intermináveis. Até crianças indo para a escola são abatidas a tiros, porque “poderiam” ter uma arma na bolsa. A mais recente, também no Rio de Janeiro, envolveu o jovem trabalhador Rodrigo Serrano, que foi morto pela PM por estar levando um guarda-chuva, que os policiais pensaram ser um fuzil. Do moço negro, que trabalhava como garçom em  um restaurante no bairro de Ipanema, restou apenas a carteira de trabalho ensanguentada, que ele levava consigo, justamente porque o negro tem de provar em cada esquina que é trabalhador. 

O caso de Rodrigo não é uma exceção. É a regra. A cada minuto tomba um negro. E falar disso nos coloca na mira dos racistas que já começam a gritar: “leva pra casa”. Para essa gente todo negro é bandido. E todo o bandido negro só é bandido porque é negro. Não se quer saber as causas que levam um guri da favela, negro, ao crime. “É preto, e pronto”. Os brancos, quando são bandidos, aparecem nos jornais e na TV de maneira bem mais suave. E se são da classe alta então, nem seus nomes são escritos. São citados como “jovem estudante”, “motorista do Audi”, “condutor da Ferrari”. Saem ilesos, sequer são presos. Mas se um guri negro roubar um pão, aí é o demônio, o irrecuperável. 

Na periferia das grandes cidades os negros morrem como moscas, e o seu sangue derramado incomoda pouca gente. A carteira ensanguentada de Rodrigo pode causar uma comoção momentânea, mas logo passa, superada por outra sensação. 

A carne preta é a mais barata no mercado capitalista. É sim. E que não se fale em democracia racial, por favor. 


quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Quem se importa com a cultura?

Jana Gularte, representante do Coletivo Ética na Cultura, fala na Assembleia Legislativa


Estamos aí a poucos dias de uma eleição gigantesca, na qual elegeremos presidente, governador, senador, deputado federal e deputado estadual. Uma eleição que define praticamente todos os rumos da nação, dependendo do projeto que passar, garantindo àqueles que farão as leis e os que a executarão mudar ou manter tudo o que aí está. 

Depois de dois anos sob golpe e o país estraçalhado, com a aprovação de uma PEC que congela os investimentos públicos em 20 anos, o que podemos esperar dos novos eleitos? No geral, os candidatos não representam a maioria da população. Boa parte deles, financiados por grupos poderosos, estarão a serviço de interesses muito particulares e quando chegarem no poder, a esse gente servirão. 

Nas propagandas eleitorais o que vimos? As mesmas velhas caras que se revezam no poder desde há anos. Os mesmos programas enganadores. “Vamos investir na saúde, na educação, no transporte, na segurança”. As mesmas velhas promessas que seguem sem se cumprir. 

Em Santa Catarina a impressão que se tem é que vivemos num paraíso, isolado do resto do Brasil. Aqui, os candidatos, que estavam ontem no poder dizem que fizeram isso e aquilo, que o estado é o melhor colocado, que ganhou isso e aquilo. Mas, a realidade mesma não aparece assim. Nos hospitais sem leitos, nas escolas que estão sendo fechadas sem dó nem piedade, na universidade que propõe diminuir o salário dos professores, na criminalidade crescente, na violência, no enxame de drogas, no atraso cultural, na exploração dos trabalhadores do campo e da cidade aparece a verdadeira cara do poder estadual. E ela não é bonita. 

Mas, mesmo assim, vemos os mesmos velhos políticos, com suas caras de pau, aparecer na televisão prometendo maravilhas. Elas não virão. Pelo menos não para nós, os simples mortais. As maravilhas são guardadas para pequenos grupos, os de sempre, que enchem os bolsos enquanto a maioria agoniza.
Hoje, em Santa Catarina, em meio a todas essas faltas no campo da saúde, educação, segurança e moradia, um pequeno grupo de artistas trava uma luta renhida pela justiça na distribuição de verbas da cultura. Alguém poderia dizer: mas, que tolice! Falta-nos tanta coisa e esse povo preocupado com cultura. 

Pois é! Falta-nos tanto, e principalmente cultura. É o acesso à cultura que nos permitiria desvelar a cara de pau de toda essa gente que hoje se apresenta como salvador do estado tendo estado o tempo nele, destruindo o que é nosso. Mas, em Santa Catarina, quando se fala em cultura, o que aparece são os “big” eventos: a Oktoberfest, o Festival de Dança de Joinville, as demais grandes festas gastronômicas, as grandes orquestras. Esses conseguem grandes financiamentos e seguem cada vez maiores. Já os pequenos grupos de teatro, os músicos, os projetos culturais de regiões menos turísticas, esses precisam mendigar, com o copo na mão, entre empresários surdos e governo desinteressado. 

Um exemplo é o edital Elisabete Anderle, nascido para financiar projetos culturais no estado, depois de longas lutas da classe artística. Pois esse ano o edital não foi lançado, ainda que exista uma lei que obriga o Estado a apresentá-lo. A resposta do presidente da Fundação Catarinense de Cultural a um pedido de explicações da deputada Luciane Carminatti (PT), foi de que o fundo para o edital não teria verba suficiente, e que a FCC estaria com apenas a metade do valor correspondente ao que fora disponibilizado no ano passado, o que seria algo em torno de cinco milhões de reais.  Essa mesma explicação foi dada no Conselho Estadual de Cultura. Assim, já que não havia a verba total para o edital, a FCC decidiu liberar, sem licitação, um milhão e 500 mil reais para a Orquestra Filarmônica Camerata de Florianópolis, e mais um milhão de reais para o Festival de Dança de Joinville.  

Essa decisão levou os artistas catarinenses a questionar de maneira veemente os motivos que levam a Fundação de Cultura a privilegiar dois grandes projetos em detrimento de centenas de outros artistas do Estado. O movimento cresceu e agora formou-se o Coletivo Ética na Cultura, que já realizou um importante ato público denunciando o governo do estado, por liberar verbas da cultura sem licitação, e exigindo que, pelo menos o edital mais importante do campo da cultura, seja viabilizado. 

No ano passado, o Elisabete Anderle teve 1.803 inscritos, com artistas de todas as regiões do Estado, mostrando o quanto existe de proposta e projetos culturais em Santa Catarina, para além dos grandes eventos. Destes, 175 foram premiados e puderam levar adiante suas propostas, espalhando a cultura pelo Estado, inclusive em pequenas cidades.   Isso, por si só já mostra a importância desse edital. Segundo Jana Gularte, cantora e uma das articuladoras do Coletivo, o orçamento para a cultura em Santa Catarina tem sido de 0,06% nos últimos anos. Vejam bem o número. É uma miséria. E ainda assim, as relações seguem clientelistas, privilegiando pouquíssimos grupos. 

O coletivo Ética na Cultura não discute o mérito e a importância dos grandes projetos e dos eventos já consagrados, mas insiste que a cultura catarinense é muito mais do que os “big shows”. E, por isso, insistem que o edital seja lançado. 

Tem sido uma batalha gigante a que travam os artistas catarinenses, porque a cultura não é vista como prioridade. No mundo capitalista, o que vale é o mega negócio, o que gera lucros estrondosos. Nada a ver com cultura mesmo, visto que a maioria das gentes tampouco consegue chegar a esses eventos. Por isso que os pequenos projetos culturais, que se fazem nas cidades, nos bairros, com projetos modestos, são tão importantes. Porque eles chegam na maioria, eles se fazem nas praças, nos pequenos teatros, nas ruas da cidade, nos bares.  

Agora, no dia 22 de setembro, o Coletivo Ética na Cultura realiza mais um ato público, um ato-festa, ato-cultura, ato-protesto. Será na Travessa Ratcliff, em Florianópolis, importante espaço de resistência cultural no centro da cidade. 

Apesar de parecer algo “inútil” a cultura é base de uma nação. Isso é algo que todos deveriam entender. É pela via da cultura que tem se imposto uma forma de viver, é através da cultura que se fortalecem valores. E, no Brasil, desde há muito tempo temos uma cultura colonizada, que dá mais valor e visibilidade ao que vem de fora, da Europa ou dos Estados Unidos, escondendo o que temos de belo e forte, que são nossas raízes, nossa própria cultura. Por isso que fortalecer os artistas locais que trabalham com a cultura popular, brasileira, garantir sua multidiversidade, fazer chegar aos trabalhadores e trabalhadores, é coisa muito importante. Porque é através da arte que podemos compreender as dores da vida material e, a partir daí encontrar os caminhos para superá-la.

Que a luta dos artistas não se limite a esse momento da conjuntura, que ela siga firme e forte, garantindo que a arte e a cultura chegue a todos os cantos do estado, cultura brasileira, cultura local. E que possa desvelar a dura luta de classes que vivemos, na qual para que um viva outro tenha de morrer. 


segunda-feira, 17 de setembro de 2018

As aventuras com o pai


Todas as manhãs são sempre iguais. Sair para o trabalho é uma odisséia. Meu pai acorda às cinco e meia, seis horas, depende, mas não passa disso. Sempre procuro despertar antes dele, para tomar banho antes de começar os cuidados, senão o atraso é certo. Sempre há algo para acertar. Ou ele põe o sapato trocado, ou a blusa do avesso, ou o casaco virado, ou o cabelo fica molhado. E não dá para dizer que está errado. Tem de acertar inventando outra história para ele não ficar brabo. Então, depois de ajeitado o figurino, começa o rolo do café. Até aí já tomei banho e vou fazendo uma coisa pra ele, e outra pra mim.

Café pronto e preciso ficar atenta, senão ele joga tudo fora, ou enche de pão, ou amassa o remédio. Então as coisas precisam ser realizadas uma de cada vez. Antes de servir a xícara, corto o pão em cubinhos pequenos, passo manteiga e mel. Depois encho a xícara e só então dou o remédio. Se descuidar ele joga o remédio fora, então tem de ficar olhando se ele põe na boca mesmo. Remédio na boca é hora de engolir. Outra novela. Ele faz a maior enrolação e gira o remédio na boca, ou tira e põe no pão. Esse momento precisa de atenção total.

Quando o remédio já foi para dentro dá pra deixá-lo tomando café sozinho, enquanto me arrumo. Mas é tudo muito rápido. Ele termina e já vai para a pia lavar a xícara. Ali ele arruma novo salseiro, jorrando água pra todo lado. Deixo que ele “trabalhe” senão fica brabo e mal humorado o dia todo. Ele lava a xícara e em vez de guardá-la começa a tirar todas as outras do armário ordenando-as em cima da mesa, enchendo-as de água, cada uma com sua respectiva colherinha. É um ritual. Vamos tentando tomar café, enquanto ele nos olha com ares de repreensão. É um tumulto na mesa, mas tudo bem. Seguimos.

Passado o café já estou exausta, mas é hora de colocar os cachorros pra dentro, porque senão eles saem e correm atrás das pessoas na rua. É sempre a mesma novela. Bota os cachorros pra dentro e o pai vai lá e abre a porta. Gritaria geral. Nããããããoooooo! E corre pra lá e pra cá atrás dos cachorros. 

Ufa. Cachorros dentro de casa, pai no lado de fora e lá vamos nós. Fechado o portão, cachorros pra fora, pai pra dentro e passo o bastão para o Renato, que seguirá com os cuidados até as oito horas quando chega a moça que fica com o pai enquanto eu trabalho e ele vai para a faculdade.

Tudo isso leva pouco mais de uma hora, mas quando sento no carro, parece que já se passaram horas e horas. Não são nem sete horas da manhã e a sensação é de profundo esgotamento. Sem contar que ainda precisarei viver o engarrafamento do Rio Tavares.

Suspiro e olho pela janela. Ele está no alpendre e acena. Tão frágil e bonitinho. É uma daquelas cenas de doce encantamento. A gente ri e acena de volta. E vamos embora com aquela sensação ambígua de preocupação e ternura.


sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Um bilhão de famintos no mundo


Betinho entendeu que a fome é um crime ético, e mobilizou o Brasil contra isso. Betinho queria matar a fome e mudar o mundo. Reforma e revolução.

Na última terça-feira, dia 11, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) divulgou os números da fome no mundo. Quase um bilhão de famintos (821 milhões). E isso considerando os países que dispõem de dados, o que significa que o número pode ser maior. Só no continente africano estão 256 milhões de pessoas passando fome.  Na América Latina, aonde os números haviam diminuído, a fome voltou a crescer, afetando 32 milhões de pessoas. 

Fazendo as contas é possível perceber que uma em cada nove pessoas no planeta está nesse momento passando fome. E não é aquela fome que dá quando ficamos um período sem comer. É a fome estrutural, a que mata horrivelmente, e mata mais do que qualquer outra enfermidade no mundo.

A FAO reconhece que as guerras, os conflitos armados (60% dos famintos estão em zona de guerra) são causas importantes para o drama da fome, assim como também as mudanças climáticas que acabam afetando bem mais os empobrecidos. Mas, também aponta que essas emergências bélicas e climáticas, apesar de influírem no mapa da fome, não são as causas principais. 

A fome da maioria dessas pessoas é estrutural, ou seja, são gerações e gerações vivendo sem alimentação adequada ou se alimentando muito pouco. Porque faz parte da organização do modo de produção capitalista que para que poucos tenham muito, a maioria seja despojada de tudo. 

Parece irracional que quase um bilhão de pessoas estejam vivenciando o horror da fome, num mundo que produz tanta comida, cujas cifras poderiam alimentar quase 13 bilhões de seres humanos tranquilamente (o dobro do número de pessoas que existe). Num mundo onde o desperdício de comida é imenso.  Mas, o que acontece é que como bem apontava Marx, a lógica do capital é manter os trabalhadores num estado limite entre a possibilidade de produzir valor e a morte. Nem ganhando tanto que possam achar que não precisam trabalhar, nem tão pouco que não sobrevivam. É da natureza do capital manter os trabalhadores nesse estado de letargia, típico da fome. 

Uma olhada sobre o nosso território brasileiro e vamos ver que a produção maior de grãos não é para comer. Serão 232 milhões de toneladas esse ano, a segunda maior produção de toda a história. Mas, é uma produção que serve para exportação e vai alimentar vacas e porcos em outros países. 

O jornalista argentino Martín Caparros, autor do livro "A Fome", escrevendo sobre os números da fome lembra que no seu país, Argentina, a produção atual de alimentos poderia sustentar 300 milhões de pessoas, mas mesmo lá existem dois milhões de famintos, com tendência a aumentar esse número. Ele mostra uma conta muito simples: para produzir um quilo de carne são necessários dez quilos de cereal. Então, o produtor de grãos tem duas opções. Ou vende um quilo de cereal para dez famílias, ou vendo os dez quilos, a um preço bem melhor, para um fazendeiro criador de gado. No geral, a escolha é pelo gado e não pelas gentes. 

Ele lembra também do caso de Níger, um país africano considerado um dos mais pobres do mundo e com séculos de fome estrutural. Lá, os campos são secos e tudo é pobre, o que pode parecer que não há saída. Mas, esse mesmo país é o segundo produtor mundial de urânio, mineral estratégico e caro. Imaginem o que não seria possível fazer com os recursos do urânio? Mas, se a riqueza entra no país, ela não chega às pessoas em geral. Fica em algum bolso. 

Assim que a fome não tem nada a ver com falta de comida, mas sim como o sistema capitalista se organiza. No Brasil, por exemplo, ainda são contabilizadas 7 milhões de pessoas no mapa da fome (IBGE), o mesmo país que desperdiça 14 mil toneladas de alimentos por ano, estando entre os dez mais em desperdício no mundo.

Mas, esses terríveis números, divulgados todos os anos pela FAO, caem no vazio. Porque a notícia é dada nos telejornais como uma nota ritualística. Um bilhão de pessoas passam fome no mundo. E ponto. Não dizem por quê. E quem ouve, se impressiona naquele momento, mas logo já esquece, envolvida com outra notícia bombástica, como a separação de uma celebridade, ou outra coisa qualquer.

Esse um bilhão de pessoas famintas não tem rosto, não tem nome, não tem CPF nem endereço, não provoca qualquer empatia. Quando muito uma lágrima rápida diante de uma foto impactante de um menino morrendo, e sendo velado por um urubu. Mas, poucos são aqueles que procuram saber os por quês. O que afinal se passa no mundo, se há tanta comida sendo produzida? Que sistema é esse no qual para que poucos vivam à larga, milhões tenham de morrer?

A fome no mundo é a falência de nossa espécie. Uma pessoa em cada nove está morrendo agora, essa morte lenta, dolorosa, marcada pelo horror. E para essa gente não basta que doemos o nosso quilo de arroz, em musculação de consciência. Ajudá-las é mudar o sistema. Mudar o modo de organização da vida. Destruir o capitalismo. 

Sem isso, seremos sempre cúmplices dessa dor. 


quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Lula e a política brasileira



Lula está preso em Curitiba. E o caso de pagamento de propina pelo qual está sendo processado ainda não teve julgamento de mérito. Ele foi condenado em segunda instância e, conforme uma infinidade de advogados, não precisaria estar preso. Vários outros casos de pessoas julgadas em segunda instância foram resolvidos com Habeas Corpus até julgamento do mérito. Lula não. Ele é a cabeça da hidra petista que precisa ficar exposta como a dizer: o jogo acabou, não se aventurem, já era. Não haverá mais conciliação de classe e nem concessão de poder a alguém minimamente identificada com os trabalhadores. Mesmo que ele não represente mais propostas de transformação radical.

Fatalmente, salvo alguma mudança "cósmica", ele deverá cumprir todos os anos de prisão imputados. E, possivelmente só depois disso os eminentes juízes julgarão o mérito. Talvez decidam que não há mesmo nenhuma prova que determine a posse do imóvel. Mas, isso não importa. O que importa é que ele fique preso. E durante muito tempo. Isso será exemplar.

E, para isso, tampouco basta a prisão. O judiciário brasileiro quer muito mais. Precisa ver o cidadão Lula no chão, aplastado.

O juiz de Curitiba, na primeira instância, havia condenado Lula a nove anos e seis meses de prisão e ao pagamento de multa no valor de 669 mil reais. Já ao passar pelo TRF da 4ª região, em segunda instância, Lula teve a pena aumentada para 12 anos. E a multa também dobrou. Passou dos 669 mil para um milhão e 14 mil reais. O TRF decidiu aplicar o valor máximo permitido. Já outros réus na mesma ação, como Léo Pinheiro, ex-presidente da OAS e Agenor Franklin, também diretor da OAS, na segunda instância tiveram as penas e as multas bastante diminuídas.

Agora, no mês de agosto, depois de já estar amargando a prisão, uma outra juíza de Curitiba, Carolina Lebbos, decidiu que Lula deverá pagar uma multa por reparação de danos e custos processuais no mesmo processo do tríplex, de 31 milhões de reais.

Sendo assim, ao todo, o ex-presidente terá de pagar 32 milhões de reais pelo processo referente a um crime que, até prova em contrário, ele não cometeu. Uma situação jurídica que, no entender de muitos estudiosos do Direito, é absolutamente surreal.

Mas, apesar de toda essa circunstância esdrúxula, o ex-presidente, bem como seu partido, o PT, tem insistido em recorrer a esse mesmo judiciário que o enterra. Reiteradas vezes novas apelações são feitas buscando na lei as mesmas condições que são dadas a outros réus. Segundo os dirigentes do partido a lógica é mostrar para a população que a prisão de Lula é mesmo política. Outros políticos, como Aécio Neves - que disse em gravação de própria voz que poderia matar quem pudesse delatá-lo – ou Geddel – pego com malas de dinheiro de propina - estão inocentados porque não há provas contundentes, por que então Lula está encarcerado? Se todas as provas contra ele no processo do tríplex são circunstanciais, o que poderia levar a uma presunção de inocência, como mantê-lo preso? Esses questionamentos são jogados para a população, que então, faz o seu julgamento.

Enquanto todo esse cenário kafkiano vai se descortinando, a estratégia petista é de manter a militância aquecida com a cotidiana saudação ao ex-presidente em Curitiba. Todas as manhãs e todo final de tarde, um grupo se aproxima da sede da Polícia Federal e dá o bom-dia e o boa-noite a Lula. Essa rotina deixa o PT em evidência na mídia e nas redes sociais, mantém o nome de Lula no imaginário e busca fortalecer o nome do indicado de Lula para disputar as eleições presidenciais.

Tanto que a decisão de desistência de Lula aconteceu só agora, pouco mais de 20 dias antes das eleições. Até então, a tática era manter o nome de Lula na cabeça, para mobilizar ainda mais a militância. Quando todos os recursos fossem esgotados, sempre apontando para a parcialidade política do judiciário, o nome de Haddad já estaria bem colado ao de Lula. Esse era o plano.

Agora, a partir dessa semana, o partido vai conhecer o resultado da estratégia montada. A expectativa é de que Lula consiga, com a força de sua personalidade carismática, transferir os votos para Haddad. Mas, a conjuntura, com o ataque ao candidato do ultraliberalismo, Jair Bolsonaro, pode alterar o caminho petista.

Com o atentado, Bolsonaro cresceu. Os partidários do candidato da direita fazem barbaridades nas redes sociais, divulgando notícias falsas, ligando o atentado ao PT ou à esquerda. Um senador da república, Magno Malta, ligado à igreja evangélica, divulgou no seu perfil do facebook uma foto adulterada, com a cara do agressor do Bolsonaro num comício do Lula. A manipulação da foto é grosseira, mas mesmo assim o senador a disseminou pela rede, dando ao PT a autoria do ataque. Outro pastor, de fama nacional, divulgou no seu Twiter que a ex-presidenta Dilma havia mandado matar Bolsonaro. E pasmem, nada aconteceu com eles.

A subida de Bolsonaro agitou as águas da eleição. Nas pesquisas ele está em primeiro lugar e a proposta do voto pragmático já aparece com força. Os brasileiros fazem cálculos para ver quem poderia ter mais chance de vencer o candidato reacionário. Com isso, crescem os eleitores de Ciro Gomes, que não faz parte da dobradinha petucana (PT/PSDB). Seria uma terceira via. Pesa contra ele o fato de ter como vice uma latifundiária que apesar de articulada e poderosa no debate, está ligada ao agronegócio de maneira visceral, tendo já recebido dos indígenas brasileiros o título de rainha da motosserra, em alusão ao desmatamento provocado pelo latifúndio. Guilherme Boulos, escolhido pelo PSOL para ser uma força de esquerda, não empolgou, tendo ficado muito tempo mais no apoio à estratégia petista do que na campanha própria e o PSTU, apesar de ter uma proposta de governos bastante radical, é avaliado na esquerda também pela sua prática cotidiana e pelas posições tomadas com relação à Venezuela e à Síria, que foram totalmente equivocadas. Por fora corre Geraldo Alkmin, candidato do PSBD, insosso e inexpressivo, mas que pode receber o apoio da classe dominante se a situação com Bolsonaro complicar e ele escorregar do primeiro lugar.

Assim que os rumos da eleição ainda estão incertos. Nesses 20 dias que faltam para o pleito muita água vai rolar. A política brasileira é uma montanha russa, resta saber se está desgovernada ou se vai se manter nos trilhos, ainda que com sustos controlados.


Visitando Zininho


Um dos nossos poetas maiores, Cláudio Alvim Barbosa, Zininho, está te esperando para um encontro de belezas, na exposição que lembra os 20 anos de saudade, desde o seu encantamento em 1998. A mostra está no Mercado Público, na parte de cima, na entrada que dá para a Alfandega. E não poderia ser outro lugar, visto que o mercado sempre foi o guardião da alma boêmia da cidade. E mesmo que agora esteja gourmetizado, ainda restam as memórias, que perduram nas velhas paredes.

Assim, que subir os dois lances de escadas vermelhas já vai nos preparando para o encontro. De cara a gente vê, na entrada, o imenso boneco, que sai no Berbigão do Boca. E a gente se enche de alegria. Depois, lá dentro, a simplicidade da mostra se abre em saudade e pequenas maravilhas. Os óculos do poeta, os microfones que usava, os enormes gravadores, as placas e homenagens, os discos, os livros escritos sobre ele, os quadros que o retratam, os vídeos com o Aldírio Simões falando das coisas da ilha, tudo isso forma uma atmosfera de encantamento. Nossa querida Desterro, as dores de amor, tudo de bonito que foi retratado nas músicas de Zininho, que é muito mais do que o compositor do “Rancho de Amor à ilha”, nosso hino.

No meio da sala está Zininho, com seu riso estampado, um copo de cerveja na mão, esperando por cada um de nós, para um papo, uma trova, um poema. A cadeira ao seu lado chama e a gente senta e conversa, e ri com ele. Eu mesma não o conheci pessoalmente. Mas, o conheço da obra. Das músicas que tocamos cotidianamente na nossa Rádio Campeche. Gosto de sua poesia, de sua simplicidade, da sua carinha tão litorânea. 
Hoje, na sala vazia de gente, e cheia de memórias, me apresentei. E falamos sobre a música brasileira e sobre nossa amada cidade. Foi bom.

A exposição é uma belezura e a obra em fibra de vidro, que imortaliza Zininho, feita por outro maravilhoso artista catarinense, o Plínio Verani, simplesmente nos transporta para o encontro amoroso com esse grande compositor brasileiro que nossa cidade teve a alegria e a honra de ter como morador desde que era bem gurizinho. Um homem do continente, do estreito, do Abrãao, que tão bem soube cantar a vida.

Vai lá, fica até o dia 22 de setembro. Temos de conhecer os nossos!