terça-feira, 1 de agosto de 2017

Dos tantos Rafaéis



Hoje no Brasil existem quase 800 mil pessoas encarceradas, 150 mil cumprem prisão domiciliar e existem mais de 300 mil mandatos de prisão que não são cumpridos por falta de vagas no sistema penitenciário. O que ultrapassa o número de um milhão de almas. O Brasil tem a quarta maior população carcerária no mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, Rússia e China.  Mais de 250 mil pessoas estão presas de maneira provisória, com seus processos ainda não julgados. Menos de 1% dos encarcerados respondem por crime de corrupção, esse mote que levou milhares às ruas com suas camisas amarelas. 

46% dos apenados foram presos por crime contra o patrimônio, 28% estão encarcerados por envolvimento com drogas, apenas 13 % são crimes contra a pessoa e os negros são a maioria nos presídios: 61%. Esses números são do Ministério da Justiça e dizem respeito ao ano de 2014, portanto já devem ter aumentado bem mais. 

Isso leva a seguinte reflexão: a impunidade, de que tanto falam, não existe. Pelo menos não para os pobres e negros, a maioria nos presídios, no geral pagando por pequenos furtos ou o tráfico de drogas de pouca monta. Porque os figurões, os que são donos da droga, os que são os donos dos helicópteros e dos aeroportos, esses não vão parar na cadeia nunca. Eles estão nos salões e nas telas de TV curtindo a vida ou destruindo países. 

Rafael Braga, pobre e negro, preso em 2013 por portar um vidro de Pinho Sol durante uma manifestação está na prisão, mofando. Com ele, outros tantos, possivelmente mais de 90% da população carcerária. E olhem que levar Pinho Sol na mochila não configura crime algum. Já os ricos e bem nascidos que matam pessoas, por estarem embriagados ou que traficam drogas, não são tocados e saem da cadeia pelos braços de mães e pais bem posicionados.  A impunidade, portanto, tem um perfil de classe. As leis são feitas pela classe dominante, logo, servem a ela.

De minha parte, sou contra o encarceramento, a não ser em casos ultra/extremos. E esses são mínimos. A justiça deveria ser pedagógica.

Uma boa olhada nos crimes de uma sociedade nos leva a ver que muitos desses crimes se devem ao modo como a sociedade se organiza. Por que há tanta gente pobre envolvida com o tráfico de drogas? Por que as pessoas roubam? Essas são perguntas importantes.

Sendo assim, não se trata de defender cadeia para os ricos que cometem crimes. Não. Há que acabar com os ricos que gestam uma sociedade dividida, de maioria oprimida. Há que acabar com a divisão de classes e o domínio de uma sobre a outra. Construir uma sociedade sem classes, como no comunismo. Nesse modo de produção, não haverá ricos, nem pobres, todos terão o que precisarem na justa medida. E, vejam, o comunismo é apresentado como se fosse o diabo, enquanto o capitalismo – que é o diabo – é apresentado como o melhor dos mundos. Pois é mundo que está aí e que espelha esses tristes dados. 

Há que inverter a lógica, construir outra forma de organizar a vida. Ainda não chegamos a isso, e talvez demore muito para alcançarmos o comunismo (comum viver). E mesmo quando chegarmos ainda haverá crimes, pois o humano precisa de tempo para transcender. De qualquer forma, acredito que 90% ou mais desse trágico sistema prisional desaparece. Eu aposto nisso, e para isso caminho!

Sam


Tenho profunda predileção por figuras e personagens marginais. Essas pessoas que não aparecem, não por medo, mas porque não julgam necessário embandeirar seus feitos. E, são, muitas vezes, fundamentais para o desenrolar da história humana. Na arte, são os que me encantam e mais puxam meu olhar.
Na saga “O Senhor dos Anéis”, ainda que Frodo seja o herói, meu coração se aquece com a trajetória de Sam, o amigo que o acompanha e que, ao fim, é quem torna possível que a missão se complete. Ah, como ele é especial, e amigo, e leal, e companheiro, e terno. Depois, ao voltarem para casa, tudo o que quer é casar com seu amor e viver feliz. Tendo sido mais herói que o herói. Morro de ternura por ele.
Agora, na saga do Jogo dos Tronos, outro Sam rouba meu olhar. Desde sua aparição na patrulha da noite, com aquela pureza peculiar aos que são bons. Personagem marginal, mas capaz dos atos mais lindos. Ah, como ele é especial, e amigo, e leal, e companheiro, e terno. Absolutamente incrível seu gesto de salvar um completo desconhecido. Absolutamente adorável sua sede de saber. Mais herói que os heróis.
Gosto dessas gentes quietas, que olham com doçura, que sabem sem pompa, que amam sem reservas e que se enfurecem contra os vilões do amor.
John Bradley West, esse ator inglês que faz Sam, é perfeito... ! Pura doçura!!!


domingo, 30 de julho de 2017

Ainda é 1500



A cena é tocante. Na beira do asfalto, um grupo de indígenas olha, entre estupefato e triste, outro grupo de gente, branca, postado em cima da passarela. Os brancos estendem faixas, denunciando uma “invasão” dos indígenas e dizendo que a demarcação das terras ameaça o seus lares. São moradores da comunidade Enseada de Brito, que fica próxima à terra Guarani, no Morro dos Cavalos. Vê-se que são “bem-nascidos” e poderiam estar no rol das chamadas “pessoas de bem”. Um deles ostenta a camisa amarela da CBF, de triste papel no Brasil atual.  Na verdade, um pequeno grupo organizado por políticos da região ligados ao DEM. De longe, eles se olham. Os Guarani, como sempre, no silêncio circunspecto. Esperam, tranquilos, mas não mansos.

Lá no alto, os brancos ostentam o preconceito e a ignorância. Pouco sabem sobre o mundo indígena. Em nem querem conhecer. Tal como no longínquo 1500, chegam com suas bandeiras e verdades, vendo o outro, diferente, como inimigo. E não são.

Já os Guarani observam com aquele mesmo olhar afiado com o qual miraram as caravelas naqueles tempos distantes. Viram os homens chegarem e acolheram com risos e oferendas. Mas, ao longo desses mais de 500 anos, eles já sabem que a hospitalidade nunca valeu de nada diante da cobiça. Carregam bem fundo na alma e no corpo e memória da violência, do massacre, do assassínio, do terror.

Hoje, nesse domingo de sol, eles se olharam outra vez. Distantes. O diálogo mais uma vez impossível.

A terra da área do Morro dos Cavalos é uma terra que já foi demarcada, portanto, legalmente terra indígena. Ali vivem as famílias que conformam a comunidade Guarani. E, como é do seu costume, as famílias se movimentam dentro da área. Assim, ora estão aqui, ora ali. É a sua maneira de viver.
Incansáveis na perseguição aos indígenas, alguns políticos da região, liderados pelo vereador Pitanta (DEM), continuam provocando a discórdia na tentativa de jogar a comunidade de Enseada contra os Guarani. Já foi assim durante o processo de demarcação, foi assim durante a desintrusão, foi assim nas conversas sobre a obra na BR 101. Acostumados a mandar no pedaço, eles não reconhecem a forma de viver dos indígenas, não aceitam o fato de que a terra está demarcada e buscam atrapalhar a vida dos Guarani ao máximo, esperando talvez que eles desistam e vão embora.

É a história “patas arriba”. Chamam de invasores aos donos originários de toda aquela terra. Uma terra que os Guarani nem reivindicam, e poderiam. Afinal, tudo era deles. Mas, em vez disso, se contentam com o espaço conquistado, que nem é o ideal. Agora, tudo o querem é viver em paz, do jeito deles.

É uma vida de sobressaltos. Quando não têm de viver esses momentos patéticos, precisam se defender de jagunços, de jornalistas mal intencionados, de políticos oportunistas, da justiça, da polícia, de tudo. O tempo todo na defensiva, como se fossem bandidos. Não são.

A farsa da “manifestação” armada pelo vereador é só mais um ataque dos tantos, cotidianos e sistemáticos. Porque a intenção é colocar medo, fazer com que se movam, saiam da terra, abandonem tudo. Afinal, quem pode viver assim, o tempo todo ameaçado, acossado?

O dia acabou e os manifestantes foram para casa. Jantarão felizes, por certo, comentando a ação contra os índios, os quais odeiam sem conhecer. Na aldeia, os Guarani discutem e se preparam. Sabem que não acaba aí. A terra é ouro para o branco.

Estamos no século XXI e no Brasil os colonizadores conseguiram exterminar grande parte dos povos originários. As pessoas brancas acham bonito vê-los no museu ou nas apresentações do dia do índio. Mas, não suportam saber que eles estão por perto, que se movem, que lutam, que buscam garantir seus direitos. Índio bom é índio quieto e distante. Mas o fato é que eles estão aqui e aqui ficarão.

Tenho dúvidas sobre se essas pessoas que são capazes de sair à rua, portando cartazes que chamam os indígenas de invasores, estão abertas ao diálogo. Tenho dúvidas. Mas, é preciso seguir tentando. Os povos originários, que chegaram a um número de 150 mil nos anos de 1960, praticamente a beira da extinção, agora já passam de um milhão. Levantam-se e assumem sua identidade. Querem viver em paz nos seus territórios. Para isso é preciso que o povo brasileiro os conheça, sem armaduras, de peito aberto, pronto para um encontro verdadeiro.

No velho Brasil colônia, dominado pela cobiça, isso não foi possível. Mas, hoje, muitos há que se solidarizam, que respeitam, que apoiam e que lutam junto. Essa é ainda uma longa caminhada. Mas, não há saída. Como dizem os chiapanecas, das montanhas mexicanas: “nunca mais o mundo sem nós”. E assim é. É preciso reconhecer o território originário, demarcá-lo e garantir que os povos vivam em paz. Mas, não nos iludamos. O que está por trás de ações como essa de hoje, na Enseada, é a velha luta de classes. Os indígenas, como os trabalhadores empobrecidos, estão no mesmo lado. O inimigo é o mesmo. E contra ele, vamos – como dizia o velho Quixote – travar uma longa e feroz batalha. 

Fotos e informações: Comunidade Guarani




sábado, 29 de julho de 2017

Ratos de Esgoto

Escrito em 1990, esse pequeno conto narra a realidade das famílias que ocupavam as margens da Via Expressa, na entrada de Florianópolis. Um tempo de intensa luta por moradia. Esperidião Amin era o prefeito, logo substituído pelo seu vice Bulcão Viana. 


                                              *****************************



Nos barracos da Via Expressa o clima é de aparente calma. Algumas pessoas estão sentadas em frente das casinhas, espantando o calor. No boteco, improvisado no barraco do Zé Pedro, os homens tomam a pinga do fim de tarde, fazendo hora para não voltar para casa. O trabalho já foi duro e, agora, aturar mulher e filho, é “dose pra leão”, diz Antoninho, um branco azedo, conhecido na comunidade por viver brindando com sopapos a sua mulher Otávia.

            Carlos Alberto também passa pelo boteco. É ali que fica sabendo das fofocas. Como ele trabalha de servente de pedreiro na ilha, fica fora o dia todo. Dentro do bar a discussão está acirrada. Todos falam sobre os ratos que andam competindo com as pessoas pelo espaço na favela. Euzébio, um negro forte, de voz arrastada, diz que é preciso fazer uma cruzada: “vâmo pegá uma turma e saí por aí matando tudo que é rato que a gente encontrá”. Todos têm uma ideia brilhante e falam sem parar, esquentados pela pinga. Enquanto isso, dois ratos enormes passam pra lá e pra cá, indiferentes à discussão, roubando açúcar do saco que fica sob o balcão.

            Carlos lembra os dois filhinhos, que já foram mordidos por rato, e a raiva vai tomando conta. Ele sai do bar e vai em direção à sua casa, um amontoado de tábuas velhas, coberta com pedaços de telha e lona preta. Ritinha está sentada no degrau da porta. Um filho no chão e o outro no colo. Em volta da casa, um valo fedorento deixa passar todo o esgoto que vem dos apartamentos do lado contrário à Via Expressa. Rita tem os olhos arregalados na escuridão. Está com medo.

            - Trouxe vela? – pergunta com a voz firme, sem ternura.
            - Trouxe! – responde secamente o garoto, que já é homem apesar dos 18 anos apenas. Ele entra e acende a vela. Só aí Ritinha se mexe. Bota os filhos na cama e vai preparar a comida para o seu homem. Estão casados há dois anos. Ela tinha 15 e ele 16. Duas crianças que se agarraram, com medo de ficar sós na vida. Sem pai nem mãe ela só tinha um destino: virar puta. Mas ele, que há muito tempo a espiava convidou-a para morar junto. Ela aceitou. Gostava dele, era carinhoso, bom, trabalhador. Quando ela teve o primeiro filho, estava com medo, e ele ficou o tempo todo do seu lado, vigiando, enquanto a parteira Maria lutava para tirar de dentro o guri que teimava em não sair.

            A vida até que corria tranquila por ali, mas agora tinha os ratos que andavam roubando a paz no barraco.
            - Será que ele não pode fazer nada – rumina a menina, enquanto mexe devagar uma mistura de arroz, feijão e macarrão branco.

            Carlos está estirado na cama. Também pensa nos ratos. Sabe que Rita tem medo, mas ele não dá conta de matar todos eles. Bem que queria, mas eles são muitos, aparecem sem que se possa fazer nada. Devia ser por causa da sujeira que tem ali, o esgoto, e o lixão lá atrás. Já tinham reclamado na prefeitura, mas nada fora feito. Era preciso que eles fizessem uma limpeza geral.

            Rita está de costas, perdida em pensamentos e Carlos olha fixo para sua bunda. Gosta dela, ainda mais quando estão na cama. Bem que ela podia não ficar tão emburrada.
            - Semana que vem vou puxar um rabicho do poste de luz, então ponho luz aqui em casa e compro uma televisão. Ela vai gostar – pensa feliz.

            Na madrugada, quando já estão deitados, Rita ouve um gemido fraquinho. Por um segundo, sente-se morrer.

            - São os ratos – assombra-se.

            Corre para a vela, acende e joga a luz sobre as crianças. O maiorzinho dorme na cama com eles, está bem. A pequenina está num berço improvisado com restos de cadeiras. Quando a luz da vela chega ao bebê, ela sente o terror invadir o seu corpo. Um rato está grudado na cabecinha que a criança mexe devagar, com um choro miúdo. Nesta hora o medo se vai e Rita avanço no rato com as duas mãos, puxa com força, tentando tirá-lo da cabeça da filha. O rato resiste, finca os dentinhos. O bebê chora, Rita também, mas não larga o bicho. Pega um pedaço de pau que está no chão e bate. O rato solta a criança e a mulher geme baixinho enquanto levanta a filha e a encosta contra o peito, as duas chorando. Na cama, o marido e o filho sonham.

            Quando o dia chega Carlos encontra Rita sentada, com a filha no colo, chorando mansinho.
            - O que foi? - pergunta. Ela conta, sem soluços, o choro caindo salgado e quieto. Ele fica puto, não vai trabalhar. Pega uma pá, e sai para limpar o terreno.

            - Hoje acabo com esse lixo – resmunga entredentes. Os restos de esgoto estão por toda a parte. Ele se enfia no meio da merda, da sujeira, e vai cavando uma vala em volta do barraco. Depois, entra em casa e vai tirando tudo o que tem para fora. Limpa cada canto, tira tudo o quanto é papel velho, pano sujo, tudo. Rita assiste assustada aquela faxina toda, mas não diz nada. Esperava por isso, queria isso.

            Já vai longe o meio dia quando Carlos termina a limpeza. Vai à venda, compra veneno para ratos e espalha em cada cantinho da casa.
            - Cuida pras crianças não tocá – orienta a mulher.

            Passam dois dias inteiros sem que apareça qualquer rato. Carlos puxou o rabicho do poste e agora tem luz na casa. As coisas vão melhorar, pensa a mulher. Mas naquela tarde, o marido chega doente. Tem dor de cabeça e muita febre. Rita se apavora e chama a sogra. Levam-no para o hospital, pois nenhum remédio acaba com a dor. Lá, o médico diz que não é nada, só um problema de estômago, e manda de volta pra casa. Mas a dor não vai embora, e ainda tem o vômito, a febre alta.
            No outro dia, volta de novo para o hospital. Mais um pouco de remédio para estômago. Aquilo não estava certo. Carlos enfraquece, perde o prumo. Rita se apavora e leva para outro hospital, afinal, já se iam três dias naquele sofrimento e aquele homem era tudo o que ela tinha.  
  
            No Hospital Regional, outro médico examina e manda internar. É grave.
            - O que ele tem? – indaga a menina. A pergunta fica sem resposta.
            - Vamos fazer alguns exames – diz o médico.
            Três dias depois o garoto está morto. Diagnóstico: Leptospirose. Uma doença causada por ratos. Carlos deve ter se contaminado quando limpava as valas do esgoto em volta da casa. A urina do rato, em contato com alguma ferida, fora a sua sentença de morte. Isso, aliado ao descaso da saúde pública que não se importa muito quando o paciente é pobre e preto.

            Na Via Expressa, durante o enterro do menino (tinha só 18 anos), o clima era de revolta. Tinham um morto naquela batalha dura contra os ratos, e era um deles, gente. Ritinha, agarrada aos dois filhos, já não chorava mais. Tinha medo. Desses medos mudos de quem nada espera. A casa estava limpa, a vala também. Já não tinha ratos a morder cabeças. Mas, até quando? Os esgotos continuavam correndo no meio da comunidade. Os ratos voltariam. E quando isso acontecesse, Carlos não estaria mais ali.

            Naquela noite, a primeira sem ele, a vizinha trouxe uma televisão, “que é pra menina se distrair”. Na hora do jornal, o prefeito da cidade falava de um novo projeto. Era a construção da marina na Barra, “onde os barcos vão poder atracar sem problemas, com muito mais conforto”, ressaltava a cara branca no vídeo.

            Foi só aí que Rita chorou. Chorou de medo, de dor, de solidão. Ela, menina, entregue aos ratos, não tinha nenhum portinho onde ancorar. Seu único porto estava agora enterrado. Não tinha mais ninguém. E enquanto uma menina amansava sua dor lá para os lados da Via Expressa, a cidade continuava a brilhar, longe, além da ponte, fria e bela...


            Pouco tempo depois a polícia derrubava todos os barracos da Via Expressa, que era para deixar a cidade com cara bonita para os turistas. Nem ratos, nem gente, nada mais assomava no espaço. Era só um verde artificial, de grama nova, que perdura até hoje.


sexta-feira, 28 de julho de 2017

Ódio aos indígenas: até quando?


Não bastou exterminar centenas de etnias, roubar as terras, escravizar, matar, destruir a cultura. Parece que nunca basta. Todos os dias, os povos originários precisam recomeçar a luta contra o preconceito e a ignorância. De cinco milhões na época da invasão, hoje mal chegam a um milhão e ocupam apenas 12% do território nacional. Muitos já perderam grande parte dos seus costumes e saberes, precisam garantir as forças para não morrer, para conseguir um mínimo de território onde possam ser quem são. Outros, na força da luta, uma luta renhida, conseguiram demarcar terras, nas quais tentam viver. 

Eu disse, tentam! 

Porque a guerra contra eles ainda não terminou. Todo dia é um 1500. 

Pois nesse domingo está sendo chamada uma reunião no colégio da comunidade de Enseada de Brito, Santa Catarina, para discutir o que chamam de mais uma “invasão indígena”, referindo-se a presença de um grupo Guarani na terra do Morro dos Cavalos. A terra que é dos Guarani desde os tempos imemoriais. 

Ocorre que ali na Enseada desde há tempos vem sendo travada uma luta contra os Guarani por gente que tudo o que quer é rapinar a terra. E, esses, insuflam a comunidade contra os índios, os quais poucos conhecem de verdade. Resta o preconceito e todas as simbologias construídas durante séculos de discriminação e inverdades. 

O mote da reunião é que os índios estão pondo em risco a água da comunidade. Como se os índios não fossem os poucos nessa bola azul chamada Terra que cuidam, de verdade, do ambiente. 

Pois domingo agora, eles já chamaram até a imprensa para denunciar a “invasão”. Seria engraçado se não fosse trágico. Quem são os invasores? 

É certo que o tempo passou e que é preciso encontrar formas de viver em paz, índios e brancos. Mas é certo também que o problema não está no índio. As pessoas precisariam conhecer a cultura originária, entender como funciona, como se move no mundo, compreender seus mitos, sua forma de ser. Fosse assim, muito do ódio se dissiparia. 

Mas, sabemos, a questão não é só a ignorância. O não saber. Aflora também a rapinagem, o espírito predador dos que apenas querem a terra para especular. Onde hoje tentam sobreviver os Guarani, há quem veja prédios, condomínios, empreendimentos rurais. Negócios, lucros. E nessa ambição, vão contaminando mentes e corações contra aqueles que só querem seguir vivendo suas vidas na terra que é deles por direito. 

As campanhas de ódio contra os Guarani do Morro dos Cavalos não são de hoje. O que surpreende é que passado tanto tempo, ainda não tenha sido possível uma convivência harmoniosa por parte dos moradores da cidade. Os índios não são monstros de sete cabeças. Eles só vivem de maneira diferente. Compreender isso já é um bom passo para o entendimento. Tomara que o povo de Enseada seja capaz. 

SOS Campeche Praia Limpa

O Movimento SOS Campeche praia Limpa nasceu de uma indignação, de ver, no verão, o esgoto escorrendo para o mar. Naqueles dias de final de dezembro, um pequeno grupo decidiu que se alguém estava jogando esgoto na rede pluvial, era preciso que fosse parado. E a primeira ação foi encher de sacos de areia as saídas de esgoto no rio Rafael. O lugar era quase invisível, pois o mato e a sujeira já tinham tomado conta do rio, que sequer se podia ver. Mesmo assim, o povo adentrou pela vala, buscando as saídas. E encontrou. Então, as gentes foram enchendo os sacos de areia e formando uma barreira. A partir desse dia o grupo só fez crescer. Cada domingo era uma ação direta. Sacos e mais sacos de areia nas embocaduras dos canos, discursos, informações aos banhistas, caminhadas com faixas e cartazes. Depois, o SOS começou um longo trabalho de identificação de cada saída de esgoto e construiu mapas, os quais foram entregues às autoridades. Não haveria de ser só um protesto de verão. Por isso, quando o verão se foi e com eles os banhistas, o SOS seguiu seu trabalho, devagar e sempre. Fez reunião com a Casan, discutiu a rede de esgotos, pediu fiscalização. E lá veio a Casan, mais tarde, fechando as saídas clandestinas, sempre orientada pelos mapas do SOS epela presença dos lutadores. Mas, o trabalho não ficou por aí. Começaram as articulações com a Associação dos Pescadores e com a Floram. Cada dia um passo. Trabalho de formiga, incansável e imparável. Nessa semana, junto com os pescadores, o SOS conseguiu levar o intendente, Edir Gonçalves, para a uma reunião no rancho do seu Getúlio. A proposta era limpar os rios do Campeche, desassorear, deixar o curso d´água à mostra, para que pudesse respirar, ser visto, correr livremente no seu curso, sem o peso da sujeira e do esgoto. Hoje o rio Rafael, que mais parecia uma vala malcheirosa, recebeu um trato, ficou livre da sujeira, a água brotou. Está suja ainda, muita sujeira estava ali atravancando o caminho, mas pode ser que volte a correr limpinha. É uma primeira vitória, pequena, singela. Mas, para quem é campechiano, ama esse lugar e viu nascer mais esse braço de luta no bairro, o que fica é um sentimento oceânico de alegria. Porque quando a comunidade viva se une e luta, as coisas acontecem. Parabéns ao grupo SOS Campeche Praia Limpa. Isso é só o começo. A luta segue. Viva o Campeche.

quinta-feira, 27 de julho de 2017

De tristezas e alegrias


Sim, ando triste. Mais que triste. Tristíssima! Não fosse assim, não seria humana. A vida pesa. E, de fato, surpreende-me que alguém possa dormir bem à noite. Há coisas demais que provocam dor. As guerras na África, a destruição do mundo árabe, a morte de carroceiros pela polícia, o assassinato de meninos negros nas comunidades de periferia, o massacre de trabalhadores sem-terra, o assassinato de líderes populares, as guarimbas na Venezuela, os pacotes de maldade do Temer, a condenação de estudantes em Honduras, os horrores nos acampamentos de refugiados, o racismo em todas as partes do mundo, o ódio aos pobres, as caçadas aos animais e às gentes, os dramas familiares que me consomem, a destruição do Morro do Lampião, a demora do Plano Diretor, a exoneração do Daniel, as guerras do tráfico nas quais pobres matam pobres, a impunidade aos ricos, o machismo que mata mulheres, homossexuais, travestis e trans, a prisão de Rafael Braga. E por aí vai...

As coisas tristes saltam na nossa cara, sem compaixão. E pesam. Por isso, por vezes, encarranco com as pessoas que parecem "felizinhas" o tempo todo. Como isso pode ser possível? Sempre quis compreender. Eu, desde bem pequena, sou prisioneira da melancolia e, por vezes, quando a alegria me assalta, envergonho-me. Não me parece justo!

Os tempos que vivemos não perdoam a tristeza. São como deuses implacáveis exigindo felicidade, paz interior, espíritos apaziguados. Eu não lhes dou essa oferenda. Tenho esse freio na boca, com o gosto do fel que a raça humana produz, dia após dia. Sou como as carpideiras que se estraçalham diante do morto, num convulsivo choro, barulhento e estridente. Seus gritos não são teatro. São a desesperada não-aceitação do que é tido como normal. Minha tristeza é isso: carpideira, inconforme.

Sim, a vida me exaspera e eu me rasgo a alma. Não tenho poder contra os vilões do amor. Não posso resolver os problemas do mundo, nem sequer os meus, tão prosaicos. Sou como um seixo na beira do lago, vergando ao sabor do vento, na inescapável impotência. E as lágrimas são como lavas, escorrendo e queimando, tão destrutivas quanto a dor que procuram aplacar. A tristeza não tem fim, como já dizia o poetinha. Então, o que nos salva?

Outro poeta, mais popular, anuncia: “felicidade não existe, o que existe na vida são momentos felizes”. E é assim mesmo, Odair. Eles chegam, num átimo e nos fazem plenos. São como relâmpagos, um risco de luz. Pode ser uma greve geral, um projeto que começa, um programa de rádio, uma fruta madura na manhã, um beijo cálido, um sindicato que se ganha.

Hoje foi assim. No ônibus, em meio a toda a tristeza das gentes que voltam para casa depois de um longo dia de exploração, deixei que o olhar se fosse pela barra da rua, perdido, esperando nada. Então o vi. Um desses bonecos que ficam em frente às borracharias. Feitos de plástico, com tubos que parecem braços e que dançam pela força do vento que é insuflado neles. Não sei por que, mas esses bonecos me dão uma alegria inexplicável e intensa. Aquelas carinhas estranhas, meio quadradas, e aqueles braços numa dança alucinada. Aquilo é tão esfuziante, tão engraçado, tão alegre.

Sempre fico feito uma pluma ao vento quando vejo um desses bonecos dançantes. Toda a tristeza se vai, tudo é esquecimento. Só vem aquela vontade louca de ficar, tal qual o boneco, mexendo os braços, alucinada, com aquele riso bobo. É meu momento estelar.

Não sei quem foi o maluco que inventou esses bonecos, mas se alguém souber, por favor, diga-lhe: essa estranha criatura feliz me arrebata do porão e, por um segundo, vive em mim toda a alegria do mundo. É por essas e outras que os humanos ainda são capazes de me surpreender.