quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

A fortaleza vem do coletivo


Esse é um tempo de solidão, de desespero, de nojo. E isso não é um problema pessoal, que atinge um ou outro. É um drama social. Li outro dia o belo trabalho do nosso companheiro, agora jornalista, Pedro Cruz, seu texto de final do curso de Jornalismo. Nele, Pedro narra a dor psicológica de alguns estudantes nos seus dramas aparentemente singulares. Cada história vai descortinando sofrimentos psicológicos, mentais e espirituais que não são exclusivos da vida pessoal. Eles se forjam no embate com o público, com a vida na sua concretude, nas relações desconstruídas, sem tecimento, provocadas por essa maneira absurda de organizar a vida que nos é imposta pelo capitalismo.

Daí o sofrimento de uma juventude de classe baixa ou média sem horizontes, sem objetivos de longo prazo, sem ilusões, sem propostas. A vida se lhes aparece como uma sucessão de dias que são cumpridos automaticamente, no torvelinho das redes sociais, dos relacionamentos sem estofo, do emprego precário ou da tragédia diária vivida nas comunidades empobrecidas, de miséria e morte.

Esse é um tempo de solidão, no qual as pessoas deixam de falar umas com as outras: mandam mensagens por uatizape, mensagens que não permitem interação. Não há afeto, abraços, beijinhos, afagos. Não há horas de completo ócio, com as pernas pra cima, pensando na revolução. As pessoas esqueceram que a revolução é possível. Estão domesticadas num sistema que lhes mente o tempo todo sobre felicidades vãs, inalcançáveis.

E a solidão vai ficando tão grande que as pessoas já não acreditam mais na força da amizade, do amor. Não se permitem se deixar acolher, abraçar, ficar. Pensam que seus dramas são pessoais e que só a elas cabe resolver. Esse círculo louco vai fazendo com que o que sofre fique sozinho, e os demais não se importem com a dor do outro. O circuito da solidão existencial. E é aí que aparecem as igrejas oportunistas, puxando esses tristes seres do vazio, dando-lhes comunidade, pertencimento, mas ao mesmo tempo fortalecendo ainda mais o cerco do capital, na medida em que oferecem a promessa dos bens materiais como isca. Isso não é por acaso.

Ontem eu perdi um amigo. Ele se recusou a responder as mensagens, os telefonemas, os correios. Ele estava longe. Ele estava só. Acuado na sua dor. Ele foi embora pensando que os problemas dele eram só dele. Não eram. Eram meus, eram nossos, eram de todos os brasileiros fodidos, de todos os seres humanos submetidos à moenda do sistema capitalista que tudo destrói.

É preciso que nos recusemos a isso. O sofrimento de um dos nossos companheiros é o sofrimento de todos. E só tem um jeito de mudar esse mundo sombrio: transformá-lo. É tempo de revolucionar, mudar, revolver, virar patas arriba. O mundo precisa ser solidário, amoroso, cooperativo. Só que isso não vai acontecer no privado, no particular, no nosso movimento particularista, ou apenas no nosso grupo de amigos. Precisa ser geral, para a classe trabalhadora, para os oprimidos. E para isso, só a revolução mesmo. A revolução brasileira. A mudança total das coisas. Um mundo no qual as pessoas possam viver sem medo, amparadas socialmente, criando belezas. O mundo do comum.

Não quero prantear corpos vencidos pelo sofrimento. Quero a alegria compartilhada. E te convido. Quando esse sistema for destruído, as coisas vão mudar. Para todas as pessoas. Temos que decidir por isso. Basta!

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

A informação e o direito à cidade



Conversa sobre informação e o direito à cidade realizada no I Congresso de Direito à Cidade realizado nos dias 9 e 10 de dezembro de 2019.

1 – A mídia comercial, tal qual a justiça, é um instrumento da classe dominante e se ampara em duas pedagogias fundamentais: a Pedagogia da Sedução e Pedagogia do Medo. Uma olhada no seu conteúdo e pode-se perceber que os conteúdos estão voltados ora para seduzir, ora para amedrontar.  Na sedução: o capitalismo é bom, compre isso, compre aquilo, seja bonito fumando tal cigarro, seja feliz comendo tal margarina, veja como os empresários da novela são bonzinhos. É o que o pensador venezuelano Ludovico Silva chamou de mais-valia ideológica. O trabalhador, ao acessar a mídia, não se descola do sistema que lhe rouba vida. Assim que da mídia comercial não podemos esperar nada, democratiza-la, dentro do sistema capitalista, não significará absolutamente nada para os trabalhadores, para a maioria da população. O sistema capitalista, para se consolidar e seguir poderoso, precisa desse braço armado, sedutor, por onde divulga suas ideias, expressa a cultura do sistema, trabalha a pedagogia da sedução e define os inimigos que precisam ser combatidos. Ele pode conceder uma coisinha aqui, outra ali, para se dizer “democrático”, mas na essência continuará mentindo e seduzindo.

2  - A mídia comercial não mostra nem nunca mostrará a cidade real, essa cidade dos desvalidos, dos condenados, dos sem casa, dos sem esgoto, dos sem lazer. Não tem interesse nisso, porque ao apresentar a realidade expõe as contradições do sistema. Assim, quando a cidade aparece na mídia é sempre de maneira ritual e fragmentada. Matéria sobre buracos de rua, sobre problemas estruturais são dadas como se fossem pequenos furúnculos num corpo sadio. Aí os repórteres mostram a denúncia e depois mostram o poder público dizendo que vai arrumar. Pronto. Problema resolvido.

3 – Já com relação aos que enfrentam o sistema, a proposta da mídia comercial é aprofundar a  pedagogia do medo. Tudo é feito para amedrontar as pessoas e para criar os estereótipos do que vem a ser o inimigo da ordem e do progresso. Programas como os do Datena, que tem sua filial em todos os estados do país, são usinas do medo. Mortes, assassinatos, coisas horríveis sendo praticadas por quem? Por gente pobre, preta, desempregada, favelada. Raramente um crime de gente rica, branca, bem alimentada. E quando aparece soa como algo assim, quase inusitado. Parece que nada de ruim acontece nos palácios. A parada ruim é só nas comunidades empobrecidas. Por isso que massacres como os de Paraisópolis são vistos como normal, já que aquele povo lá, nos bailes funk, é pobre, preto e favelado, logo, para a maioria alfabetizada pelo medo é “tudo bandido”.

4 - Quando as gentes se levantam em luta, a mídia também mostra. Mas essas lutas igualmente aparecem como uma parte doente de um corpo saudável, reforçando o preconceito instalado pela pedagogia do medo. São pessoas que incomodam. E sobre elas já está manufaturado o conceitos necessários para fazer com que a sociedade encare esses movimentos como coisas ruins. São os baderneiros, os contra tudo, os eco chatos, os vagabundos que querem mordomia sem trabalhar, que querem casa sem pagar por ela. Ou seja, tudo de ruim. Gente ruim. Isso não é por acaso. É preciso fortalecer essa ideia para que a sociedade os veja como seus inimigos também. Então, a pedagogia do medo já fez o seu trabalho.

5  - A mídia mostra como inimigos de todos aqueles que são apenas os inimigos do capital, da classe dominante, ou seja, uma pequena parcela da humanidade que domina o mundo e que produz tanta dor, destruição e desgraça. É um trabalho eficaz e a conjuntura nos mostra isso. De novo estamos enfrentando o ódio de nossos iguais. Esse ódio foi apaziguado por um tempo, durante a era do “politicamente correto”, mas ele não desapareceu. Permaneceu vivo. Porque a mídia continuou seu trabalho de sedução/medo. É importante frisar que o ódio de classe é bom e necessário. Só que o capital faz com que o ódio fique entre a classe trabalhadora, sem envolver a classe dominante. Odeia-se o índio e não o sistema que rouba suas terras (os ricos, os latifundiários, os grileiros). Odeia-se o negro e não o sistema escravocrata que o aprisionou, odeia-se o pobre e não o sistema que o produz. Odeia-se o gay, o trans, o anarquista, o sem teto, o sem terra, o comunista, porque eles desestabilizam a “paz”. Uma paz que não existe, mas que as pessoas acreditam que exista, porque bombardeadas com toda a maquinaria ideológica do capital que também se reproduz na família, na escola, na igreja e na mídia. 

6 – O dramático de tudo isso é que a luta dos empobrecidos pelo direito a cidade sempre se volta contra eles. Quando ocupam um vazio urbano, por exemplo, na batalha por moradia, estão abrindo caminhos para que se expresse a renda da terra, já muito bem explicada por Marx. As famílias ocupam, sofrem a ação da polícia, e quando finalmente conquistam a terra, o posto de saúde, os caminhos, acabam por valorizar os espaços. E os endinheirados olham para o que era um vazio sem estrutura e querem tomar para si. Porque já está ocupado, já conquistou a estrutura, valorizou. Então, os empobrecidos voltam a sofrer a pressão do capital querendo tomar suas terras. Vivemos isso todos os dias na nossa cidade, nas praias e nos morros.  

6 – Diante disso, que fazemos? Como informar sobre a cidade real num sistema de contrainformação? Como desfazer as armadilhas ideológicas montadas via rádio, tv, jornal, internet, redes sociais? Como enfrentar o monstro midiático? 

7 – Ao longo dos tempos sempre procuramos montar nossa própria mídia. Os jornais de bairro, jornais sindicais, as rádios comunitárias. Processos importantíssimos de resistência, mas praticamente ineficazes, porque não atingem a massa. Tem pequeno alcance e, no geral, são incapazes de trabalhar a notícia com a totalidade, igualmente fragmentando a informação, passando um discurso ideologizante que não ajuda no processo de emancipação do sujeito. O que quero dizer com isso? Que não basta mostrar a ocupação, por exemplo, há que dizer que ela só existe por conta de um sistema de produção que tem como norma básica a existência do empobrecido. Para que um viva, outro tem de morrer. Esse é o tema. Então, se há uma ocupação de luta por moradia, a nossa mídia tem de contextualizar de tal maneira que quem está na ocupação entenda sua posição dentro da realidade, e quem está de fora perceba que a responsabilidade daquela situação não é só do prefeito de plantão, mas de um sistema que se organiza pra que as coisas sejam assim , um sistema global do qual o prefeito é braço. Temos dificuldade com isso. Em mostrar isso. 

8 – Adelmo Genro Filho, um teórico do jornalismo, já nos mostrou como é possível fazer jornalismo sem manipular. Usar a informação como formação de conhecimento e não só como uma informação a mais. Mas, infelizmente, nossos companheiros jornalistas, que atuam nas mídias independentes, comunitárias e populares, apesar de conhecerem a teoria, ainda não se apropriaram desse modo de escrever e narrar e, no mais das vezes, produzem ideologia também. Agora nas redes sociais isso é ainda mais óbvio. Quanta mentira sai no campo da esquerda. Não é só a direita que mente. Isso não pode acontecer. Na nossa mídia a informação tem de ser veraz, confiável, correta, totalizante. 
9 – E, diante do assombroso volume de informações que hoje nos chega via redes sociais, como atuar, como se defender, como encontrar a verdade? Não é coisa fácil e demanda um trabalho conjunto entre partidos políticos, movimentos sociais, educadores, lutadores sociais, no sentido de ajudar a criar o pensamento crítico em cada pessoa com a qual atua. 

10 – Partilho da ideia de que ainda é muito preciosa a formação cara-a-cara, a comunicação interpessoal e ainda aposto no impresso. As pessoas querem saber das coisas, elas têm fome de informação, porque hoje a informação é uma necessidade social. Mas, elas também estão mergulhadas num redemoinho de palavras que lhes chegam no celular, fragmentadas e sem amarração totalizante. Então, temos dois caminhos:

a) Ou tentamos responder a enxurrada de ideologia e mentiras que são divulgadas pela mídia comercial e pelas redes sociais, coisa que não conseguimos, porque não temos o controle dos meios. Uma emissora de TV chega a milhões de pessoas. Uma empresa disparadora de uatizapi chega a milhões e nos não temos isso. Não temos essa estrutura, esse alcance de massa. Não temos como competir. Nossa mídia é pequena. Não é de massa. 

b) Ou enfrentamos com criatividade, fugindo do modelo que nos é imposto. A loucura do roubo do tempo nos é imposta pelo capital. O sistema nos quer enredados nessas maluquices informativas que desinformam, nos rouba o tempo para que não pensemos. E entramos na loucura, querendo competir com o tempo do capital. Um exemplo: estamos hoje em Florianópolis sem nenhum jornal. As empresas fecharam, atuando só nas redes sociais.  Acredito firmemente que um jornal pode ter papel importante nesse momento histórico. As pessoas querem ler, gostam disso. A Igreja Universal – que é uma usina ideológica tremenda – sabe disso e distribui um jornal bonito e capaz de tocar as pessoas. Eu as vejo no ônibus, lendo o jornal, que é standard ( grande). E por quê? Porque ali têm coisas que lhes interessa. Então, o que nos falta para ter um jornal, capaz de mostrar a cidade real, provocar o desequilíbrio, fazer a pessoa sair do uatizapi?

11 – Finalizo dizendo que a mídia popular sozinha não faz a revolução, não é o motor da mudança. Hoje, é apenas resistência. Mas, já passamos do tempo da resistência. É preciso avançar e construir o processo da revolução brasileira. Garantir o país para os trabalhadores, os empobrecidos, os oprimidos. Garantir uma cidade para quem a constrói cotidianamente. Para isso nossa mídia tem de atuar para além da resistência. Tem de formar gente. E claro, precisa que também existam partidos políticos forjando o novo, sindicatos formando seus trabalhadores, movimentos sociais lutando, mas também estudando, vanguardas políticas e intelectuais fazendo seu trabalho de pensar em profundidade, totalizar os desejos e concretizar em propostas as demandas populares. O trabalho tem de ser conjunto. Uma andorinha sozinha não faz o verão. 

12 – E finalmente, deixo como provocação final a seguinte afirmação: não é possível democratizar a comunicação no capitalismo. Isso nunca vai acontecer. Não gastem cartuchos com isso. Há que destruir o capitalismo como modo de produção, como maneira de viver. Um novo modo de produção, uma nova cosmovivência apontará também uma nova comunicação, na qual os meios de informação de massa estarão nas mãos dos trabalhadores, da maioria das gentes. Precisamos avançar para além da resistência. Essa é a nossa hora histórica.  


quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Eu gosto do natal

Foto: um guri palestino - Karine Garcêz

Gosto de esperar o menininho fazendo meus rituais. Ver dezenas de filmes de natal, colocar o sapatinho na janela para os presentes espirituais, estender o capim para o burrinho comer enquanto espera o menino que vem para brincar comigo, montar o presépio, enfeitar a árvore. Tudo coisas simples, mas que me dão felicidade. Aprendi tudo isso com minha mãe, que era bem católica e tinha apreço por esses momentos de celebração do aniversário de Jesus. Nada de presentes, compras, grande comidas. Só a espera, carregada de ternura, pela hora do advento. Quando muito uma cerveja bem gelada, que ninguém é de ferro. Prefiro passar a meia-noite em solidão, sem alardes, enquanto nas demais casas as pessoas se empanturram. Eu não. Eu canto.

No geral, a noite de natal sempre é noite de paz. A meia-noite o pai já dormiu, o companheiro já foi brindar com a família, o sobrinho saiu com a namorada. Tudo é silêncio. Eu, os gatos, os cachorros, a cerveja. Celebrar mesmo, em família, a gente curte no almoço do dia 25. O momento do nascimento do menininho pede essa calmaria.

Esse ano, não sei, creio que vai ser um natal bem triste. Afinal, foi um ano em que muita gente ruim fez coisas ruins em nome do meu deusinho. Imagino que nós dois estaremos no alpendre, acabrunhados, sentindo aquele sentimento ruim, de impotência e de raiva. É certo que sempre teve gente ruim usando o nome de deus para justificar seus horrores, mas esse ano parece que foi mais, e a ruindade esteve bem mais próxima. Já posso até ver a carinha do meu menino, com seus olhos graúdos, marejados. Ele que veio para firmar uma nova aliança, baseada no mais profundo amor, vendo seu nome usado para o mal. Acho que não brincaremos, nem daremos gostosas gargalhadas. Acho que ficaremos abraçados, quietos, coração com coração. “Não tenho poder”, ele vai dizer, como sempre disse. E eu responderei: “Eu sei, eu sei”.

E quando a barra do dia surgir e ele tiver de ir, não daremos cambalhotas, nem faremos currupiu entre gritos de alegria. Soltaremos o abraço bem devagar e choraremos. Ele subirá no burrinho e seguirá o caminho para o infinito e eu ficarei, impávida, no portão. Ele acenará tristonho e eu gritarei: “Tranquilo, vamos enfrentar com brio, como tem de ser”. Um dia, menininho, esse mundo vai ser todo de amor, quando a propriedade for comum e o trabalho for para a vida. A gente vai chegar lá.


segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

O centro



Quem me conhece sabe da paixão que tenho pelo centro. Percorrer aquelas ruelas é minha terapia de todo dia. Meu corpo anda automaticamente pelos caminhos tantas vezes percorridos e meu coração saltita todas as repetidas vezes, como se fosse a primeira vez. Conheço cada detalhe, cada cheiro e cada rosto dos que, como eu, também costumam andar ali. Tenho particular amor pela Conselheiro Mafra. É o meu encanto.

Por ali flano como se estivesse na minha própria casa e sei de todos os personagens que fazem daquela rua seu lar, os quais cumprimento com um sorriso, ainda que só eventualmente tenhamos nos falado: as prostitutas, os vendedores haitianos, os equatorianos, os africanos, as senhoras que vendem panos de prato, as que vendem meia, os que vendem agulha pra fogão à gás, os que consertam relógio, os que afiam tesoura, os vendedores de pipoca, os vendedores de água de coco, de caldo de cana. Minha família estendida.

Outra rua que me enternece é a Francisco Tolentino. Gosto de andar por ela nas tardes de calor entrando naquelas lojinhas de maravilhas que vendem toda a sorte de coisas, bem como nas lojas de roupa barata e as de calçado ruim. Posso ficar por horas escolhendo parafusos, ou peças estranhas de fogão, ou pegadores de armários, ou saias indianas falsificadas, ou bichinhos de pelúcia. E, antes de ir embora, tomar um cafezinho nas lanchonetes mocozadas com cheiro de fritura.

O centro é pura vida! Sem ele não existo. Se um dia eu morrer, e vou, com certeza minha alma errante ficará saracoteado por ali, como a do Mosquito (Hamilton Alexandre), o qual vejo sempre nas imediações do mercado público. Hoje mesmo o vi, rápido, com o computador na mão, passando ligeiro na Jerônimo Coelho. Olhamos um para o outro, almas irmãs, sorrimos, nos abraçamos longamente e seguimos, mergulhados na nossa paixão por essa cidade.

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

O pai e a quadra das coisas perdidas


O pai é como um dínamo, e não para um minuto sequer. Acorda as cinco, cinco e meia da manhã e passa o dia inteiro ligadão. Anda pra cá e pra lá milhões de vezes, dá dezenas de voltas no jardim e caminha do alpendre para o portão o tempo todo. Vai até o muro e pega os sacos de lixo que estão descansando esperando o lixeiro, e se vem com eles pra dentro de casa. Se a gente não vê ele leva pra dentro do quarto e esconde.

- Pai, isso é lixo. Deixa lá que os moços do caminhão vêm pegar amanhã.
- Que moços?
- Os que coletam o lixo.
- Ah, tá.

E lá se vai ele de volta com os saquinhos. Dali uns dez minutos a cena se repete, tudo igual. Até que ele arranja outra distração. 

Dentro de casa nada lhe escapa, mexe em tudo. Como eu tenho muitas coisinhas pelos armários, lembranças de viagem, ele tem um universo de tarecos para surrupiar. Pega as pedrinhas do Pacífico e enfia nos bolsos, os saquinhos de areia da Núbia, os bonequinhos chineses, as figurinhas do Jornadas nas Estrelas, o senhor Yoda, o jesusinho do presépio, e vai escapulindo para o quarto com toda a sorte de tarecos. Também se farta na fruteira onde pega laranjas, bananas, e até os grandes maracujás que não consegue acomodar no bolso, mas ainda assim sai de fininho com eles na camisa que transforma em sacola. Chegando ao quarto ele guarda nos lugares mais inauditos. Eu deixo que ele faça seu circuito de pequenos “furtos”, sem atrapalhar a sua viagem. Ele se distrai.

No armário da cozinha ele fuça tudo que há, nos talheres, nas panelas, nos pratos, nos potinhos de plástico. Desarruma tudo e vez quando sai com alguma coisa escondida na camisa. Também mexe nos livros e no saco do pão. É uma faina incansável. E assim passa o dia amealhando coisas, carregando como se fosse uma formiguinha. 

Quando chega o fim do dia o quarto dele é um universo, uma espécie de Nárnia onde as coisas mergulham e ficam invisíveis. É hora então de ele “trabalhar”, que é mexer nos papéis que mantém na mesa. Mexe, mexe, mexe, rasga, faz barquinho, fica entretido. Lá pelas dez da noite eu consigo colocá-lo na cama, com muito custo. Ele deita, esticadinho, eu o cubro com o edredom, dou o beijo de boa noite e digo: “agora fecha os olhos e dorme”. Ele obedece. 

Espero que o sono fique mais pesado e então começo silenciosamente a catar as coisas perdidas. Abro o guarda-roupa e vou coletando. No meio das roupas, nas gavetas, dentro de meias, embaixo das cobertas, ajeitadas em pacotinhos, sempre tem alguma coisa. Outras desaparecem mesmo, por dias, e eu vou encontrar quando já nem mais tenho esperança de vê-las novamente. Elas simplesmente surgem, como mágica. 

Feita a recolha trato de sair, pé ante pé, de fininho. Antes de fechar a porta dou a última olhadinha. Ele está ressonando, bonitinho. Ao lado dele vejo sacis, duendes e até alguns etezinhos, que ficam por ali com seu amiguinho surrupião. O quarto é um reino encantado. Tudo parece bem, a noite vai se alongando e eu finalmente vou dormir.  

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

Morremos sempre, mas levantamos



Quem estuda história sabe. Desde os tempos mais remotos, quando o ser humano decidiu dividir-se em classes, há os que dominam em nome de suas demandas particulares e os que são dominados, geralmente conformando a maioria. Nem sempre foi assim, certo? Houve uma infinidade de povos que existiu em sociedades livres, comunitárias, de mando compartilhado, cooperativo, nas quais as demandas de todos eram levadas em conta. E até hoje podemos encontrar entre algumas nacionalidades originárias essa forma de ser e estar no mundo, ainda que ilhadas pelo capitalismo. 

Dominar em nome de interesses particulares não é coisa fácil. Há que ter todo um trabalho cultural, ideológico, de disseminação de mentiras, que de tantas vezes ditas, se fazem verdades. É preciso fazer a maioria das pessoas acreditar que os interesses de uns poucos são os interesses de todos. E há que ter as forças da repressão para empurrar, pela força bruta, as mentiras feitas verdades àqueles que não foram enganados. É assim que ao longo da história humana as coisas aconteceram e seguem acontecendo. 

Nesse processo, sempre que os dominados se levantam em luta contra todas as dores que lhe são impostas, a saída encontrada pelos que dominam em interesse próprio é o extermínio de quem luta, para que não apareçam como laranjas podres a contaminar toda a gente com a verdade que se impõe. Então, começam as campanhas de mentiras e difamações contra os rebelados: “bandidos, subversivos, comunistas, loucos, desagregadores da boa ordem, insatisfeitos, baderneiros, etc...”. E se isso não basta para que uma massa significativa sirva de anteparo à rebelião, chegando ao ponto de matar seus vizinhos, parentes e amigos, acreditando piamente que os rebelados são “do mal, do demo, do capeta”, então vêm as forças da repressão: tiro, porrada e bomba. 

Essa é uma receita que se repete, e se repete, e se repete. 

Mas, se é assim, porque então as pessoas se levantam em luta? Ora, porque chega uma hora na qual a mentira já não mais se sustenta e as condições da vida material das pessoas ficam tão horríveis que não há mais saída. Os filhos não têm escolas, não têm saúde, não há segurança, a morte ronda pela miséria, pela fome, pela violência social. Como num átimo, as pessoas se dão conta de que os interesses defendidos pelos poderosos não lhes dizem respeito. 

Essa é a compreensão de boa parte do povo chileno, agora mesmo, em luta contra um estado que lhes tirou tudo. Eles observam e vêm que há uns poucos que juntam riquezas sem fim, enquanto a maioria empobrece sem parar. 

Essa é também a compreensão de grande parcela do povo boliviano, que tinha um governo que apresentava sensibilidade social, garantindo que pelo menos parte das riquezas do país fossem investidas no próprio país, servindo a toda gente. Por isso os bolivianos não aceitam o golpe. Sabem que os que estão a clamar por democracia em nome de deus serão bem piores, e que governarão para si e para garantir seus interesses particulares. 

Aos que não têm nem a máquina ideológica, nem as forças da repressão, resta juntar-se e, a partir daí, lutar. Quem decide enfrentar o horror sabe bem o que arrisca: nada menos do que a vida. Porque o poder não tem piedade, nem compaixão, nem clemência. É o que podemos ver no Chile, com os soldados do governo atirando para matar, ou, suprema crueldade, cegar. É o que vemos na Bolívia, com os mortos se acumulando. 

Morrem, fatalmente, morrem sempre os do lado da luta pelas demandas coletivas. Os que se atiram frente à repressão em nome de um mundo que possa ser bom e bonito para todos. E são esses mortos os que garantem as conquistas. É assim que é. E é por causa deles que o mundo avança. São os heróis dos trabalhadores, das mulheres, dos negros, dos índios, de toda a gente que começa a enxergar. Caem, estão mortos. Mas, desde a beirada de suas tumbas, se junta todo um povo, que se levanta e caminha. E é assim que os mortos levantam e caminham também. 

Hoje, no Chile, na Bolívia, no Equador, na Colômbia, nas ruas do Rio de Janeiro, nas veredas das terras indígenas do Brasil, no campo,  tombam os mortos das nossas fileiras. Nós os reverenciamos, os choramos, e os colocamos para andar. Que seja assim, sempre. 

Para os que ficam vivos, o poema de César Vallejo: Massa


Terminada a batalha,
E morto o combatente, veio até ele um homem
E lhe disse: “Não morras, te amo tanto”.
Mas o cadáver, ai! Seguiu morrendo.

Vieram mais dois e repetiram:
“Não nos deixe! Valor! Volte à vida!” 
Mas o cadáver, ai! Seguiu morrendo.

Acudiram a ele vinte, cem, mil, quinhentos mil
Clamando” “tanto amor e não poder nada contra a morte”!
Mas, o cadáver, ai! Seguiu morrendo.

Rodearam-no milhões de indivíduos
Com um pedido comum: “Fica aqui, irmão!”
Mas o cadáver, ai! Seguiu morrendo.

Então, todos os homens da terra o rodearam,
Os viu o cadáver triste, emocionado;
Incorporou-se lentamente
Abraçou o primeiro homem, pôs-se a andar.

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Ataque aos trabalhadores públicos



A proposta do ministro Paulo Guedes para o serviço público é a volta aos tempos dos coronéis. Ou seja: para ser um servidor público haverá de ter QI, o famoso “quem indica”. Todo o processo de luta que os trabalhadores travaram para garantir um serviço público livre das ingerências dos governantes de plantão irá para o ralo com a reforma que está em curso.

Segundo a proposta do ministro não haverá mais servidores públicos com estabilidade. E a estabilidade é justamente o único mecanismo que o Estado tem para não sucumbir aos humores dos governos. Ou seja, um trabalhar estável não pode ser demitido simplesmente porque o governo que está de plantão não gosta de sua cara ou de sua posição política. A estabilidade é uma garantia de que, independentemente de quem está no governo, o trabalho público segue visando apenas o bom atendimento à sociedade.

Pois a ideia do governo de Bolsonaro é colocar na máquina pública apenas os amigos e os amigos dos amigos. A estabilidade estará reservada apenas para um grupo muito seleto de trabalhadores como os auditores fiscais, diplomatas, policiais federais e fiscais do trabalho. Mas, mesmo esses terão de viver um período de “treinamento” de três anos, podendo ser demitidos se não houver vaga ou se não for bem avaliado. Caso passe por esse funil, que significa passar três anos fazendo as vontades das chefias para poder ser bem avaliado, o trabalhador ainda terá pela frente sete anos de estágio probatório, provavelmente o estágio mais longo já criado no universo. Assim, se a pessoa conseguir ficar 10 anos servindo aos seus chefes de maneira cordata e servil, sem meter-se com greves e reivindicações - aí sim terá o direito à estabilidade.
As demais carreiras não terão possibilidade de pleitear a estabilidade. Tudo ficará ao sabor do chefe de plantão. E, caso o governo decida, pode acontecer demissão. Também poderão ser contratados servidores temporários, ou seja, o trabalho precário e sem direitos.

Não bastasse isso quando o governo decidir que vive uma emergência fiscal, poderá passar a mão no salário dos trabalhadores, reduzindo-o em até 25%. Tirar dos ricos nem pensar, os empresários estão cada vez mais recebendo as benesses da desoneração de impostos. Vão tirar mesmos é dos trabalhadores.

Aí está. O plano “Mais Brasil” é na verdade um plano de “mais amigos meus mamando no estado”. Provavelmente só sobreviverão no serviço público os que fizerem a “aliança” pelo brazil e servirem ao senhor deus de Israel. Quando à sociedade? Que se dane!

E os trabalhadores? Esperarão a Justiça?