segunda-feira, 13 de maio de 2019

As eleições e a cidade

Lino, comprometido com a vida popular

Mais uma vez vamos definir os destinos da cidade de Florianópolis numa eleição. E, desde o mandato popular de Sergio Grando/Afrânio Boppré temos colecionado desastres. Um após o outro, prefeita e prefeitos governaram unicamente para os ricos. Nada para a maioria. Periferia abandonada, transporte público de péssima qualidade, mobilidade urbana zero, nada de saneamento, nada de moradia popular, segurança péssima e propostas faraônicas completamente fora da realidade de uma cidade que é também ilha. As vias são para os carros e nunca se pensou uma solução coletiva, para as gentes. Nada de vias exclusivas para ônibus, nada de transporte marítimo, nada de turismo comunitário. Só propostas predadoras, destruidoras da natureza e das pessoas. 

Agora, esse ano, lá vamos nós de novo. Os mesmos candidatos “produzidos” pelo sistema predador, facilitador da vida dos ricos. E, entre os partidos de esquerda, pelo menos para mim não apareceu nenhum nome que seja capaz de encarnar os bons desejos que temos para a cidade. 

Da minha parte, ainda que seu nome não tenha sido aventado, tenho um candidato. Nele, penso eu, estão amalgamados todos os anseios da maioria dos trabalhadores e trabalhadoras que amargam viver numa cidade linda, mas que não se apresenta para eles e elas como possibilidade de fruição. A cidade, para nós, é só um lugar onde circulamos da casa, na periferia, para o trabalho, em algum outro lugar bem distante. E, nesse transitar passamos de duas a três horas dentro dos ônibus ou dos terminais, apesar das distâncias serem pequenas. Uma cidade que não vivemos nem nos finais de semana, porque nesses dias os ônibus escasseiam e podem-se levar horas para chegar a algum lugar de apenas 20 quilômetros de lonjura. 

Meu candidato é Lino Peres, que atualmente é vereador na sua segunda legislatura. Lino é professor na Arquitetura e uma de suas aulas, desde há décadas, é andar pela cidade. Com os alunos ele vai circulando pelas ruas e ladeiras, ensinando como a cidade foi se construindo amparada na ganância da classe dominante. Ele conhece cada cantinho, cada problema estrutural, cada viela. Como vereador seu trajeto é feito nas periferias, nas ocupações, nas quebradas aonde ninguém vai. Ele não tem manhã, nem tarde, nem noite, nem fim de semana, o tempo todo caminhando, conhecendo e construindo coletivamente alternativas  possíveis dentro do horror que é ser governado por um mandatário e uma maioria de vereadores que só pensam em defender os interesses de pequenos grupos.  Nada para a maioria. Nada para os empobrecidos. Com o Lino é diferente. 

No mandato do Lino se expressam as vozes dos índios, dos negros, dos santeiros, dos comunicadores populares, dos motoristas, dos trabalhadores formais e informais. Não há barreiras no seu atarefado gabinete. A gente chega a qualquer hora e é atendido. A equipe é pequena, mas valente, desdobrando-se em mil.

Conheço o Lino desde muito antes de ele pensar em ser vereador, quando apenas vivia sua experiência de professor na UFSC. E o Lino é o mesmo de sempre. Sorridente, simples, quase ingênuo na sua vocação para o cuidado com a cidade e com as pessoas. Porque a bondade e o cuidado às vezes são vistos como fraqueza. Lino não é fraco, não. Ele é bom. E ele é bom nos dois sentidos, no sentido pessoal, da bondade humana, e no profissional, na qualidade técnica. Por isso o Lino é perfeito para ser o nosso candidato. Ele olha pra cidade com amor. Ele escuta as pessoas com amor. E ele sabe o que fazer com isso. Não é o amor sentimento, piegas. É o amor compromisso. Aquele que se envolve até a medula. E que tem consequência prática. 

Eu não sou do PT, nem me arvoro a dar conselhos aos seus membros, mas penso que esse partido deveria finalmente olhar para o Lino com o mesmo amor com o qual ele tem servido a essa proposta. Um homem que se entrega tão profundamente em tudo que faz. Um homem que faz a diferença. Espero firmemente que seu nome apareça. Que seja candidato a mudar essa cidade. 

Com o Lino e sua equipe de gigantes, eu vou. 


sexta-feira, 10 de maio de 2019

Os espaços da cidade



A cidade é coisa que se nos vão tomando. De repente, quase sem que percebamos, alguma parte dela nos é tirada para sempre. E ainda que exista, não cabe mais em nós, nem nas nossas memórias afetivas. Anos atrás era impensável ir ao centro e não sentar na ponta do mercado público, gritando por um chope ao Marcelo ou ao Neto, no Bar do Alvim. Hoje, aquela ponta amada já não me diz nada. E não consigo sentar ali, porque sei que não tem mais Alvim, que o Mosquito não vai sentar trazendo alguma notícia bomba e nem o Ubby vai passar com seus poemas. Não há mais. Não há nada a não ser um chope ruim e garçons desconhecidos. 

O próprio mercado se gourmetizou. Sua copa genérica, tomando todo o espaço com as cadeiras Coca-Cola e aquela infinidade de gente puxando a gente para um prato de comida de 40 reais. Tão fora da ordem. Não sei. Não gosto. Passo por ali, olho com olhos de ontem e choro, sempre choro. 

Ainda assim o centro é um espaço mágico, porque outros espaços vão se abrindo para nós. Gosto de seus caminhos intricados, das ruelinhas, do sobe e desce das calçadas mal havidas, das gentes que ainda insistem em viver ali e daquele universo tirar seu sustento. As trabalhadoras do sexo, os ambulantes, os cantores, os pintores. Com eles faço a via sacra, parando ali para comprar algum badulaque dos haitianos, dos africanos, dos equatorianos, dos lageanos. Paro para ouvir o canto doce de uma mulher que acompanha um violeiro na entrada do ARS, dou um trocado para as estátuas vivas, afio um canivete de unha no moleiro, pego um sapato no sapateiro. O centro me completa. 

Agora que perdi o mercado achei outro espaço para meu nada fazer. É um quiosque que fica bem na em frente da saída do terminal. Ali podemos beber um caldo de cana, uma água de coco ou uma cerveja. Depende do dia. A maioria tá na cerveja e passa do ponto. São os famosos “mamaus”. Mas não incomodam. Também têm os conquistadores passando a conversa nas senhoras solitárias e os desocupados, esperando que alguma coisa lhes caia na cabeça. Tem três mesinhas colocadas bem de frente para a profusão de gente que cruza a rua em direção ao terminal ou  na direção do mercado. É como um vulcão sempre em erupção. Gente, gente e gente. De todo tipo, cores, sorrisos, amores. Gente no vai e vem da cidade. 

Sentada ali me encanto com a alegria do jovem cantador que se se apresenta no vão do cruzamento. Ele tem uma pequena caixa de som, um microfone, e ali fica praticamente o dia todo cantando reggae e outras belezuras da música popular. No geral ele canta para si, poucos param, mas se diverte tanto, que deixa a gente enfeitiçada. Está sempre sem camisa e de chinelo de dedo, o corpo suado pela dança que acompanha o ritmo da canção. Ele canta e sorri para as pessoas.  Parece estar pleno de felicidade. Ele me emociona. Gosto de ficar ali, vendo ele cantar. Depois, discreta, passo e dou minha contribuição. Ele agradece, simpático.

Penso que ele, como eu, deve ser um desses que insiste em viver a cidade, seja do jeito que for. A rua, livre e coletiva, existe para nós, pessoas, gente que ama a cidade. Roubam-nos quase tudo, nos tiram os lugares tradicionais, derrubam prédios históricos. Mas, a gente cava no meio do cimento, com as unhas, com o riso, com a alegria. E ainda que ninguém queira, a gente faz nascer a flor. Aquele guri cantando e dançando no vão da rua é um grito de resistência, assim como eu, lentamente sorvendo meu caldo de cana com os “mamaus”. 

Eu amo essa cidade, e dela nunca vou sair. 

segunda-feira, 6 de maio de 2019

O governo e a educação



O candidato Jair Bolsonaro tinha como mantra na sua campanha a proposta de que não iria governar nem atuar a partir de ideologias. Para muitos, isso significava que ele seria um político do tipo imparcial, sem conexões político-partidárias, sem uma filosofia própria de trabalho e sem uma definição política clara. E esses votaram nele, acreditando nisso. Um governo neutro. 
Para outros essa ideia de “sem ideologia” significava simplesmente desfazer tudo aquilo que o Partido dos Trabalhadores tivesse colocado a mão. Isso porque, para esses, apenas o PT atuara na política com ideologia. 

Bom, passados mais de 100 dias de governo o que se se percebe é que o entendimento do segundo grupo é o que está vigente. Quando Bolsonaro diz “sem ideologia” está querendo dizer sem nada que lembre ações ou pensamentos de esquerda, ou melhor, do PT. Ou seja, é um governo ideológico. Mas, não fica só nisso. É bem mais profundo. Em alguns casos, trata-se inclusive de mera vingança, como o do Hospital do Piauí que teve 100% das verbas cortadas porque lá, segundo os bolsonaristas, os votos foram 100% PT. Ora, isso é agir levando em consideração apenas a bílis. Não há aí qualquer espírito público e muito menos aquele pretenso “nacionalismo” que aparece nas propagandas do governo. 

Não existe Brasil acima de tudo. Pelo contrário. O que aparece acima de todos é a proposta do capital, que quer destruir tudo o que é público para poder abocanhar lucros, e junto com ela alguns desejos da família Bolsonaro e seus mentores  relacionados às suas vinganças pessoais. 
A proposta de cortar verbas da educação está diretamente colada a essa duas vias. O empresariado desde há tempos vem buscando botar a mão na fatia graúda da educação. Assim, sufocar as universidades públicas abre espaço para as universidades privadas de fundo de quintal. Essas que oferecem cursos a 190 reais por mês. Não têm pesquisa, não têm extensão, não têm nada. Apenas um pretenso ensino de uma profissão. É uma ideia furada. Essas universidades não são capazes de formar bons profissionais porque qualquer profissão exige também a experimentação e a relação com o mundo externo à universidade. Os “colegiões” são apenas espaços caça-níqueis que vão enriquecer alguns e deixar milhões no limite da ignorância. 

Qualquer pessoa medianamente informada sabe que são as Universidades Públicas as que são capazes de realizar pesquisas demoradas, essas que realmente mudam a vida e geram patentes. Pesquisas que resolvem problemas práticos da população. E se hoje ainda estamos capengas não é por falta de qualidade nas universidades públicas, mas justamente por conta  do pouco investimento e da atenção demasiada na inovação, que não cria coisa alguma. 

Há quem argumente que o governo quer acabar com a educação por raiva. É fato que há uma pitada disso sim, afinal o governo do PT investiu bastante nas universidades e isso por si só gera um desejo de vingancinha. Mas, não se iludam, a questão não é moral, nem pessoal. O que está realmente em questão é o aprofundamento da dependência tecnológica e intelectual. Os países de periferia precisam produzir matérias primas. Que deixem a ciência para os “grandes”. Afinal, esses grandes precisam vender o conhecimento para a periferia. Como vão fazer se a periferia também pensar e criar novos conhecimentos?  

Por isso esse ataque às universidades públicas. Estrangular financeiramente. Fazer com que venham as greves, as paralisações, os fechamentos de curso. Tudo isso fornecerá lenha para insistir na propaganda de que só tem “balbúrdia” na universidade pública. Assim, uma imagem aleatória de uma apresentação teatral acontecida há milênios, na qual havia uma pessoa pelada, passa a ser difundida como se fosse o cotidiano das instituições. De novo, a questão moral aparecendo para encobrir o político, a ideologia. E enquanto a turba moralista se move para acabar com os “pelados” , o empresariado ri, preparando a casa para a mordida. Ora, se há pelados nas universidades são os pelados de recursos, que precisam comprar com o próprio dinheiro, os insumos para suas pesquisas, ou o giz para suas aulas. 

Quem já frequentou uma universidade pública sabe que ali se expressa a sociedade no microcosmo. Tem de tudo. Tem gente estudando, tem gente curtindo, gente namorando, gente pesquisando, gente alienada, gente descolada, gente fazendo a grande política, gente fazendo pequena política. É um espaço de vida, em todas as suas facetas. Mas, é inegável que é ali o lugar onde 90% das pesquisas são produzidas, porque as privadas não aportam recursos para isso. 

A universidade não é o lugar prefeito. E está longe de ser a casa do saber visto que atravessada pela ideologia dominante. Claramente não é um espaço da esquerda. Não é. Ali, domina o status quo. Então, a única coisa que se pode depreender desse ataque é única e exclusivamente a sede de lucros do empresariado do ensino. Como não estão nem aí para o Brasil, pouco importa o pouco que a universidade pública ainda consegue aportar. Há que acabar com elas também. Que as gentes paguem para estudar. Educação deixa de ser direito. 

Ora, educação é direito. Está na Constituição. Então, até que mudem a Carta Magna, teremos de lutar. Algumas universidades já se levantam. Pelotas saiu na frente, outras já estão se mobilizando. Os Institutos federais também. A vida começa a ferver nos espaços que estavam aquietados. Essa vida fervente é a universidade do pensamento crítico, a universidade necessária. Que cresça. Dia 15 de maio está sendo chamado um ato nacional. E as ruas serão tomadas pelos que querem educação.  Há muito para mudar na universidade, mas há que ser para melhor. 

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Fosfateira em Anitápolis, não!


Anitápolis, uma pequena cidade que fica a 85 quilômetros da capital, Florianópolis, vive agora o drama que muitas cidades mineiras já vivem há anos: o risco de ter em seu território uma fosfateira, inclusive com barragem de contenção de lama ácida, semelhante a essas que se romperam em Minas Gerais. E a Vale é uma das empresas que está envolvida no projeto. Uma fosfateira é uma mina de fósforo, esse mineral que é usado para fazer fertilizante.

Quando a proposta surgiu, lá pelo ano de 2006, a população recebeu uma chuva de propaganda anunciando os “benefícios”, tais como a geração de emprego, o que animou muita gente. Depois, com o passar do tempo e a chegada das informações mais precisas, o risco ambiental e o risco de vida para as pessoas apareceu com mais força. A mina vai desmatar, provocar erosão de solo, produzir lama ácida e uma série de outros problemas comuns a esse tipo de mineração.

Segundo os estudiosos do tema a extração do fósforo em Anitápolis não tem muito sentido visto que o nível de pureza é baixo e atualmente já existem outras técnicas para extração de fósforo, inclusive do esgoto, como acontece na Europa. Sendo assim, a população hoje acredita que a ideia de uma fosfateira na cidade, além dos altos riscos para a vida, é totalmente ultrapassada para o que se destina.

A área desapropriada para a extração do fósforo é uma das áreas mais férteis do município e sua venda para a empresa Bungue acabou ocasionando mais êxodo das famílias em direção à cidade.

O projeto da fosfateira está eivado de problemas, tal como a primeira licença ambiental prévia ter sido dada pela Fatma e não pelo Ibama. Atualmente há um forte movimento contra a fosfateira, pois a população não quer ser refém do risco de uma tragédia como as que aconteceram em Mariana e Brumadinho. 

Nesse dia 04 de maio, sábado, na Praça Central de Anitápolis, acontece um grande ato cultural e de protesto, visando impedir que se inicie a mineração na cidade. Anitápolis, que leva esse nome em honra da grande Anita Garibaldi, está em luta, e não quer a fosfateira. Os moradores convidam toda a gente da região da Grande Florianópolis para participar do ato que terá início as 10 horas da manhã. Participe. O impacto da mineração na nossa região atingirá a todos.

segunda-feira, 22 de abril de 2019

O pai e o entardecer



Sempre gostei do entardecer. Ainda que me dê melancolia. Quando a barra do dia vai sumindo assoma invariavelmente aquela triste sensação da finitude. Tudo acaba. Tudo acaba. Sempre. Mas, se tudo acaba é sinal de que estamos em movimento, construindo novas auroras. Então, quando entardece é bom. Assim que me encanta ficar no alpendre, ruminando pensares. O sol sumindo, a noite vindo. Tão bom!

Mas, agora, com a presença da doença do meu pai, o entardecer perdeu a cor. Já não é mais um momento de fruição. Sua chegada é a hora do desassossego e medo. Por conta de algo que ninguém ainda sabe muito bem, quando chega o pôr-do-sol as pessoas que têm Alzheimer ou demência senil se agitam de maneira desesperadora. E alguém que passara o dia tranquilo fica outra pessoa. Irritado, confuso, violento, desequilibrado. As palavras tropeçam e saem em convulsiva confusão. O olhar fica desesperado, como se estivesse diante de um grande perigo, e ele mira o portão, com seu mantra “quero ir para casa”.

Essa é a hora noa (da suprema angústia). Dele, e minha. Dele, porque sofre. E, minha, porque não sei o que fazer. É aquele momento aterrador no qual tu queres proteger o outro de toda a dor, mas não sabe como, não tens os instrumentos, as condições. No processo de compreensão da doença temos feito algumas tentativas medicamentosas. Mas, as coisas não se ajeitam. É um confuso turbilhão. Um remédio ajuda em uma coisa, e desarruma outra. É uma aventura assustadora, porque tudo parece inútil. Como se todo o conhecimento da medicina não servisse para nada. Uma insuperável impotência nos assalta.

No meu desarvoro faço o que posso. Mas, desabo com o seu olhar aterrorizado. E, nessa hora, nem um abraço pode ser alcançado, porque não há razão, só o desespero, um desejo de fugir talvez. Imagino que seja alguma coisa que acontece no cérebro, que desarranja tudo, onde o toque amoroso não tem morada. É triste demais.

Há dias que são mais calmos, outros mais tumultuados. Mas, indefectivelmente, o fim do dia para mim passou a ser portal do medo e da impotência. Meu pai sempre foi um homem de ação e decisão. Mata-me vê-lo assim. E nesse morrer, dele e meu, vamos caminhando, de mãos dadas, enfrentando o torvelinho com as poucas armas que temos. Lançando-nos no abismo, todos os dias. O amor vai segurando a onda. Mas, momentos há que nem o amor tem poder. É duro demais! Resta essa força atávica, que herdei dele. Que vai sustentando, sustentando, sustentando...


domingo, 21 de abril de 2019

A páscoa e Jesus



A semana santa sempre foi um tempo de muitas celebrações na minha casa. Minha mãe era católica praticante e seguia à risca todos os rituais. Então, desde o domingo de ramos que a casa já começava a se preparar para o grande dia, o qual Jesus ressurgiria da tumba, vencendo todo o mal e toda a corrupção. Na sexta-feira santa, dia do assassinato na cruz, o dia era de silêncio. A mãe tampava os espelhos e não se podia ouvir música. O tempo era de consternação e sempre acompanhávamos a procissão do “senhor morto”, que acontecia no centro, saindo da Catedral. A cena daquele homem morto, ensanguentado, me tomava o coração de angústia. Demorei a entender porque tiveram aqueles homens que torturar de maneira tão horrível um cara que só pregava o amor. 

Minha mãe, com sua lucidez cotidiana, resolvia o mistério: “Por isso mesmo, porque o amor é coisa que incomoda demais”. 

E era isso mesmo. Jesus era muito fora da casinha. Comia com as putas, com os ladrões, com os mendigos. Trabalhava no sábado, questionava as leis que oprimiam as gentes, anunciava um reino que não era desse mundo. Andarilho, sonhador, falastrão, amigo, raivoso com os vilões. Capaz de se deixar ficar em frente ao lago observando o movimento das águas e dos peixes. Dizia para as gentes que todos eram iguais, que não havia esse lance de não falar com os estrangeiros, que não havia impureza em comer quando se tinha fome, e que não se devia comercializar a fé. E mais, Jesus repartia. Os bens, a comida, a alegria, a responsabilidade, o medo. 

Era deveras perigoso. Por isso, me encantava quando em criança. 

Houve um tempo, depois que cresci, que duvidei de seu amor. Quando comecei a ler sobre os horrores causados pela cristandade, na África, na América, na Europa com a Inquisição. Mas, foi de novo minha mãe que me chamou à razão. “Não seja boba, Jesus não tem nada a ver com isso. Isso é coisa dos homens”.

Batata. Jesus deve ter derramado lágrimas de sangue nesses tempos de profunda escuridão, quando em nome dele, e carregando sua cruz, alguns homens impuseram o terror. Na sua impotência, lá no céu, ele deve ter sofrido. Até porque, a cruz, esse símbolo abjeto de tortura ao qual eram submetidos os criminosos do império romano, não deveria ser o que o define. A cruz significa que Jesus escolheu o caminho da dor humana, não para eternizá-la, mas para suprimi-la. Logo, ela deve ser símbolo de libertação e não de dor. 

Por isso mesmo tem a Páscoa, essa hora luminosa de ressurgir dos mortos, de sair da tumba, de reviver. O livro sagrado conta que naquele domingo depois do assassinato, quando todos ainda choravam a morte de Jesus, apareceu uma espécie de anjo à Maria Madalena que disse: "por que procurais entre os mortos aquele que vive?" 

E foi ela, Madalena, que compreendeu que a vida é mais que corpo, que o amor é chama que arde sem se ver, que permanece, que subverte, que empurra, que inspira.  Jesus não estava entre os mortos porque vivia em cada um que tinha sido tocado com sua ternura. E tanto que ainda anda por aí, apesar de todas as leituras equivocadas. 

Nesse domingo de Páscoa, de tempinho emburrado, na minha ilha, acordei cedo para matear com Jesus. São os momentos em que recebo, com ele, meus outros mortos bem amados: minha mãe, meu avô Dionísio. Mateamos e conversamos, porque seguimos, afinal, todos vivos. Nessa manhã falamos do que anda passando no Brasil e na nova inquisição que caminha por aqui. Quando em nome de Jesus tantas barbaridades vão sendo cometidas. E ele balança a cabeça, triste. Sabe que lá em cima não pode fazer nada. Mas, tem esperanças na raça. Disse-me que andou por esse mundo, que se aconchegou em braços humanos, que vivenciou a alegria, que sentiu a grandeza de algumas almas, que tomou vinho, que balançou nos barcos cheios de trabalhadores amorosos. E me segredou que seres humanos há que valem uma vida, e uma morte. Nossa tarefa é encontrá-los e com eles caminhar. Disse-me também que a jornada do amor é coletiva, precisa ser feita em comunhão. 

- Sempre há um traidor, Jesus. Sabes bem disso. 
- Sim, mas também há os que sobrevivem e seguem disseminando essa maravilha que é viver nesse imenso jardim.

Jesus é otimista com o humano. Acredita que essa é uma raça que vale a pena. Foi embora por volta das dez horas, quando a casa começou a despertar. 

- O mal é poderoso, mas as pessoas unidas no amor também. Viver é essa batalha. É como a luta de classes, né? – e piscou para mim, sorrindo. 

- Nietzsche diria que o rebanho é fraqueza - rebati.

- Nietzsche estava certo. O rebanho sem cabeça é fraco, precisa de um pastor. As pessoas que pensam, não.

Assenti. É o tal do pensamento crítico. Rimos. E ele se foi, com a mãe e o vô. E a casa despertou, e a vida brotou. É Páscoa!

quinta-feira, 18 de abril de 2019

Curso de Jornalismo e Adelmo



O Curso de Jornalismo da UFSC está completando 40 anos e tem realizado uma série de atividades para celebrar essas quatro décadas de formação. Nessa quarta-feira, uma em particular encheu meu coração de alegria. A inauguração de uma placa que dá o nome de Adelmo Genro Filho a uma das salas de estudo do Curso. Nada poderia ser mais especial. É fato que ao longo desses 40 anos muitos educadores de alta qualidade passaram por ali. Mas, Adelmo, pelo menos para mim, é singular. Ele me ensinou a escrever os textos jornalísticos de tal modo que eles extrapolassem a particularidade redutora. Porque ele foi o criador da “teoria marxista do jornalismo”. Uma teoria que nos ensina ser o fazer jornalístico não apenas o ato de escrever uma notícia, mas uma práxis complexa e poderosa. Escrever não é só responder as seis perguntas básicas do lead. Escrever é pensar o fato desde a sua singularidade, mas sendo capaz de narrar ali, no espaço curto da notícia, a universalidade do acontecimento. Isso é uma revolução, porque nos tira do espaço da ideologia, da manipulação e nos coloca no caminho do conhecimento. O jornalismo é produção de conhecimento.

Não tive a sorte de conhecer Adelmo pessoalmente. Quando cheguei ao curso de jornalismo ele estava fora, em licença, e logo em seguida morreu. Mas, tive um mestre: Sérgio Weigert, que era seu amigo e parceiro de letras. Ele nos apresentou Adelmo. Ele nos fez ler e compreender aquele livro denso e cheio de complexidade, ele nos ajudou a desvendar o segredo da pirâmide, esse enigma que Adelmo torna tão simples. Sérgio nos fez percorrer os caminhos intricados da filosofia, abertos a facão por Adelmo ali, naquele curso. E, na paixão do Sérgio por aquele homem e suas ideias, fomos nos apaixonando também.

Desde 1988 que o livro do Adelmo é meu livro de cabeceira. A ele volto em cada dúvida, em cada momento de perplexidade diante do jornalismo. E ali estão as palavras que me movem na certeza de que o jornalismo é a melhor das estradas.

Ontem, no lançamento da placa, o colega Samuel Lima fez uma breve apresentação do homem Adelmo, e de suas obras. Samuel foi seu aluno e conheceu, além do gênio, o ser. Assim como ele, outros colegas jornalistas, que acorreram à homenagem também fizeram falas emocionadas sobre a figura do Adelmo e sua importância no jornalismo. Gente como a Néri Pedroso, que o conheceu ainda jovenzinho, em Santa Maria, e Gastão Cassel, também de lá, que trouxeram imagens de tempos distantes quando Adelmo era só um rapaz latino-americano iniciando sua caminhada na política e na teoria. Outros que o conheceram como colega de trabalho, como Eduardo Meditsch, e que tem sido um propagador de suas ideias, e um número expressivo de ex-alunos que ainda carregam nas retinas sua figura generosa, paciente e brilhante.

Eu, nunca o vi. Mas, desde que mergulhei, pelas mãos do Sérgio, em seu livro mais importante: O segredo da Pirâmide, compreendi que se nunca o vi, sempre o amei. Por ter nos trazido essa teoria, essa forma de pensar o jornalismo, essa práxis libertadora. Ao ouvir as palavras daqueles que o conheceram fui tomada pela emoção. Adelmo não é um rosto na foto. Não é uma placa de lata, não é o nome de um centro acadêmico. Adelmo é fonte de conhecimento e vive. Hoje e sempre. Porque sua teoria segue sendo ensinada nas salinhas do jornalismo, porque suas palavras seguem queimando pestanas, porque sua maneira de pensar o jornalismo é ainda absolutamente necessária.

Adelmo circula por aqueles corredores, mastigando seu cachimbo. E ontem, enquanto tantos que o amaram estavam ali o reverenciando, ele deve ter sorrido, feliz, por se saber ainda tão vivo.

Parabéns ao Curso de Jornalismo e a todos os professores e professoras que seguem levando essa labareda de conhecimento e de belezas que ajuda a formar bons narradores de vida. O jornalismo, assim como Adelmo, vive.

Agradeço imensamente a Maria José Baldessar, que generosamente me concedeu a honra de descerrar a placa junto com Samuel Lima. Foi uma surpresa e uma emoção inaudita. Porque foi ali, naquele espaço que um dia eu encontrei esse homem que até hoje me carrega às alturas da delícia que é fazer jornalismo como forma de conhecimento. Foi uma das maiores alegrias da minha vida.

Que Adelmo siga caminhando, soberano, por aqueles corredores.

Adelmo, presente.