sexta-feira, 27 de abril de 2018

O crime do padre Amaro- Defender a vida e o direito à terra para os camponeses



Já se vão trinta dias de mais uma prisão injusta no Brasil. Seria apenas uma estatística, afinal, isso é mais regra que exceção. Mas, para os lutadores sociais do Pará e de toda a região norte, o preso em questão não é só um número. Ele tem nome, sobrenome e trabalho junto aos empobrecidos. É o padre Amaro, cujo pecado cometido não tem nada a ver com o do romance do Eça de Queirós. Seu “crime” é atuar ao lado dos camponeses e ser uma das principais lideranças da equipe da Pastoral da Terra da Prelazia do Xingu, na paróquia de Santa Luzia do Anapu, Pará. Amaro era o braço direito da missionária estadunidense, Dorothy Stang, que foi assassinada em fevereiro de 2005, justamente por enfrentar os fazendeiros da região.

Pois o padre Amaro foi preso no dia 27 de março, também na lógica de prisão preventiva, por conta de uma investigação sobre supostos crimes de extorsão, ameaça, assédio sexual e ocupação violenta de terras. Quem conhece o trabalho do padre junto aos camponeses e empobrecidos afirma com certeza de que essas acusações não passam de um grande golpe dos latifundiários locais, para tirar o padre da luta pela terra. “A gente acredita que é armação, porque ele é um exemplo de vida inquestionável, com seu compromisso histórico em defesa da justiça e do povo. Sabemos do contexto de conflito de interesses onde ele trabalha e querem criminaliza-lo como líder e a sua luta", afirma Tiago Valentim, da coordenação da CPT do Pará.
  
Amaro trabalha desde 1998 na Paróquia Santa Luzia, onde é líder comunitário e coordenador da Pastoral da Terra (CPT) e nessa sexta-feira se completam 30 dias que ele está encarcerado no Centro de Recuperação Regional de Altamira/PA, onde também está o assassino de Irmã Doroty. Segundo a Irmã Irene Lopes, secretária executiva da Rede Eclesial Pan Amazônica-Brasil, a prisão do padre Amaro faz parte de um longo processo de perseguição de agentes de pastoral e de direitos humanos que cotidianamente são criminalizados, sofrem ameaças ou são mortos na região. 

Na última semana, os advogados do padre tentaram uma liminar para garantir sua soltura, uma vez que ele é conhecido na região, tem residência fixa, não havendo qualquer necessidade de prisão preventiva, num caso de uma investigação que não foi concluída ainda, mas a liminar foi negada pela desembargadora Vânia Lúcia Carvalho da Silveira, do Tribunal de Justiça do Estado do Pará/TJE.

Hoje o Pará se mobiliza em ação e oração pela liberdade do padre Amaro. 

quinta-feira, 26 de abril de 2018

Precisa-se de um sindicato

Luta contra as OSs, Florianópolis  - Foto: Rubens Lopes


Há um filme francês, “Dois dias, uma noite”, que conta a saga de uma mulher trabalhadora, demitida, e que precisa pedir a ajuda dos colegas para poder permanecer no emprego.  A proposta do patrão é de que ela convença os colegas a abrir mão de um bônus. Assim, em vez de pagar o bônus aos demais trabalhadores ele a manteria no emprego. Uma perversidade. A mulher passa dois dias e uma noite indo de casa em casa, falando com os colegas, com toda a carga dramática que isso tem, afinal, cada família tem suas necessidades e precisa do bônus.

O filme é uma porrada. Mostra a solidão de uma trabalhadora, desguarnecida de tudo. Não há um sindicato, não há um apoio. Não há nada. Só ela e seu desespero individual. 

Vivemos tempos assim. Poucos são aqueles que ainda têm ligação e confiança com seu sindicato. Os que ainda permanecem filiados o são por alguma benesse, como o plano de saúde, os convênios, ou coisa assim. É uma filiação ritual. Não se espera nada. Os sindicatos amargam uma fraqueza sem fim. Na UFSC, ontem ainda,  pude comprovar a dor pungente de um colega que vive sendo massacrado no local de trabalho, sem apoio algum. Disse a ele: vá ao sindicato. E ele me olhou com olhos de profundo desespero. Não consegue ver no sindicato um espaço de acolhimento de suas demandas. Não confia. Não acredita. 

Faz-se necessário parar e pensar sobre por que as coisas estão assim. Por que uma ferramenta tão importante da luta coletiva está tão desgastada? Por que as pessoas não acreditam mais na força da organização gremial? 

Não estudo esse tema, mas penso sobre isso. E tenho algumas intuições. Nada é sistematizado ou científico. São impressões que jogo aos companheiros e companheiras para o debate.  

Temos vivido muitas derrotas na atual conjuntura. Fomos às ruas gritando “não vai ter golpe”, e teve. Gritamos “não passarão”, aos formuladores da reforma trabalhista, e passaram. Uma a uma nossas batalhas foram sendo perdidas. E enfrentamos agora mesmo, em Florianópolis, a derrota das OSs. Temos acreditado demais nas instituições, na Justiça da classe dominante, na ordem do sistema. Ora, esse povo não está por nós. Está contra nós. E nosso grito de protesto tem se dado também dentro da ordem, na passeata arrumadinha, na difusão do mesmo velho discurso, que parece não tocar mais ninguém. Acredita-se que com uma postagem no facebook tudo esteja resolvido e a informação espalhada. As redes sociais tomam o espaço da presença. Não é suficiente. 

O trabalhador está, como quase todo mundo nesses tempos atuais, mergulhado numa rede de luzes e bits, que emana palavras e sons, mas não deixa nada. E nesse turbilhão, perde muito das referências sobre a vida que se expressa no chão da rua. A solidariedade de classe não existe, porque a mais-valia ideológica prepara as pessoas para competir e não para amar. 

Desde os tempos do governo Lula, quando o sindicalismo começou a se acomodar de maneira mais rápida, tenho apontado esses elementos. Um sindicato não pode esperar que um governo - mesmo que seja o seu – lhe garanta os ganhos. Sindicato é espaço de luta, de crítica, de reivindicação e de organização da luta de classe. Não se trata de conseguir uma coisinha aqui ou ali no campo corporativo. É necessário criar e fortalecer os laços com as lutas maiores, de toda a classe trabalhadora. E ainda que estejamos no socialismo, esse momento de transição, haveremos de ter críticas e demandas de classe. Não se pode acomodar, nem domesticar. O sindicato é faca afiada da luta, e se perde o gume, como fazer?

Posso ser apontada como uma velha senhora do século XX, mas ainda acredito na força do sindicato. Ainda creio que esse é um instrumento valioso de organização e de corporificação das lutas coletivas. Mas, não esse que vemos aí. O sindicato que precisamos é o que se reinventa conforme caminha a conjuntura. É o que aprende com os erros, o que faz autocrítica, o que inventa novas formas de luta a partir das novas demandas, o que surpreende, o que acolhe, o que forma para a batalha, o que se mostra e age como uma ferramenta da luta da classe trabalhadora. 

O sindicato desses tempos tem de voltar a se conectar de verdade com os trabalhadores. Cara-a-cara, face e face, mas esse "face" como cara e não como "feice", de Facebook. Precisa vida sindical na porta da fábrica, na porta do jornal, do centro de ensino, na porta da loja, em cada setor onde tiver um trabalhador. Sindicato que é visto, que pode ser tocado, com dirigentes que escutam, que acolhem, que olham, que abraçam e dizem: “Não temas, estamos aqui”. 

Eu vejo essa massa da nova geração de trabalhadores, os diaristas, os intermitentes, os informais, os que têm carteira assinada e morrem de medo de perdê-la, todos com esse olhar de desamparo. Temem e não acreditam que possa haver um lugar, ou alguém, que esteja com eles. E se pensarmos bem, não estão errados.  O que se vê são dirigentes burocratizados, em cima dos caminhões de som, em momentos pontuais. Distantes, inacessíveis, intocáveis. 

Os sindicatos são espaços que conquistamos a custa de muito sangue de companheiros e companheiras. Ele deve ser espaço de construção de lutas, lutas renhidas, ferozes, mortais, contra os “vilões do amor”, como dizia Cruz e Sousa. Mas, para isso, é preciso outro tipo de sindicalista, sem temor, sem expediente de horário comercial, entregue, comprometido, disposto a tudo. Esse é o drama. Ser alguém assim exige demais, e poucos estão dispostos. 

Mas, se não for assim, acabaremos todos como aquela moça do filme francês: sozinha e desesperada na dor. No filme, o final sugere que ela venceu o drama. Mas, eu creio que não. Pode até ter saído daquela experiência mais forte como pessoa, mas não como classe. E a guerra contra o capital não se vence no plano psicológico, nem no plano pessoal. A gente vence coletivamente. 

É o nosso desafio. Precisa-se de um sindicato. Sim, precisa-se! E já!

Alguém pode dizer que as lutas podem se fazer sem aparelhos, sem direção, sem hierarquia, como já mostram muitos movimentos vividos no Brasil. Eu digo: sou uma velha senhora do século XX. Não creio nisso. Movimentos são importantes e travam grandes batalhas, mas a classe trabalhadora precisa estar organizada, em todos os campos. E os sindicatos são estruturas perfeitas para essa missão.  


quarta-feira, 25 de abril de 2018

Os cartórios me assombram




Fui ao cartório requerer uma certidão, porque agora elas estão disponíveis no éter, ou na nuvem, ou em algum lugar não sabido. O fato é que podem ser acessadas de qualquer lugar, não sendo necessário viajar até a cidade de origem ou pedir para mandar por correio. Pois não é que, às vezes, a modernidade é legal? Lá fui eu, serelepe. Peguei a senha e esperei, intermináveis minutos. Cartório está sempre cheio.

- Não, não podemos procurar por nome. Tem de trazer os dados, número da folha do cartório, registro etc...
- Mas eu não tenho a certidão. Como vou saber? Se tu entrar no sistema, não acha pelo nome.
- Não senhora, preciso dos dados do registro.

Toda alegria se foi. E agora? Como achar os tais dados? Volta para casa, e  toca ligar para o cartório da cidade de origem. Toda uma algaravia sobre ter perdido a certidão, não ter os dados, recusas, pedidos desesperados. Até que a garota decidiu liberar as informações.

Dia seguinte volta no cartório, já não mais serelepe. Pega a senha, espera, espera e espera. Entrega os dados, espera. A guria vem e diz que a certidão virá em até 15 dias. Oi? 15 dias? Mas, não está no éter?

- Até 15 dias, senhora – responde, monocórdia.
- Quanto custa?
- 70 reais e 20 centavos.
- Mas como, tudo isso? A coisa não tá no éter, vem pelo éter, porque esse custo todo?
- É o custo, senhora.

Porra, porra, porra. Pago. Fazer o quê? Viajar até Uruguaiana sai por uns 600 reais.

No ônibus indo pra casa, vou verificar o recibo. Paguei $22,80 pela materialização. Mas, o que é isso? Deve ser pela aparição da bichinha na tela do computador da moça do cartório de Uruguaiana. Ela materializa e envia pelo éter a certidão. Ai, quando ela chega ao cartório de Florianópolis, eu pago $34,90 para a moça do cartório materializar aqui na capital catarinense. Depois, eu pago 12,50 pela taxa de emissão, que equivale a materialização em papel que eu vou pegar na mão. Somando tudo, são os $70,20.

Vai daí o meu assombro. Esses cartórios lucram demais, não é mesmo? Esse é um tipo de serviço que deveria ser público.

Ah, lá vem aquelas comunistas, estatistas... É, pois é. Sou.

domingo, 22 de abril de 2018

Crônica de um fracasso


Fracasso de uma gestão que, eleita para melhorar a vida da cidade, entrega os serviços públicos ao setor privado. 

Ação da polícia no final da votação
Gás foi jogado dentro da câmara, sufocando as pessoas 


A Câmara de Vereadores aprovou nesse feriado de Tiradentes, por 16 votos contra seis, o projeto do prefeito Gean Loureiro que entrega para as Organizações Sociais - na prática empresas privadas -  a administração dos serviços públicos da cidade. O argumento é que com as OSs será bem mais fácil contratar pessoal e garantir o atendimento na saúde e na educação. Pelo menos essa foi a propaganda divulgada nos meios massivos de comunicação. Mas, quem conhece a história das OSs e acompanha como elas tem se comportado no trato da coisa pública sabe muito bem o que irá acontecer. Maus serviços, corrupção, malversação de recursos e a população entregue a si mesma. Quem tem dinheiro para contratar serviço particular está tranquilo, que não tem vai se lascar. É uma crônica anunciada.  

Durante os dias que seguiram a apresentação da proposta e o pedido de urgência na votação da mesma, os trabalhadores públicos iniciaram uma greve. A lógica do prefeito, de pedir urgência, é o mecanismo que garante a não discussão do tema com a sociedade. Fosse um projeto normal, seguiria o rito de ser debatido nas comissões, poderia haver audiências públicas para que a sociedade soubesse em detalhes o que está em jogo. Mas, não. Urgência urgentíssima define votação imediata, sem qualquer debate. E foi o que sucedeu. Não adiantou os trabalhadores pararem os serviços e encherem o largo do prédio da Câmara exigindo discussão. Mais de seis mil pessoas alçadas em protesto. Foram ignoradas.

A tática dos vereadores foi jogar a votação para o feriado, apostando na desmobilização. Mas, não funcionou. Mesmo com os ônibus em horário de domingo – o que é praticamente imobilidade – e com o feriado bonito de sol, que poderia levar as gentes à praia, o largo da Câmara se encheu outra vez. Milhares de pessoas se manifestando, exigindo discussão, debate, conhecimento do processo. Os poucos vereadores de oposição fizeram o possível para informar às gentes. Vinham no caminhão de som, traziam notícias, mas, o que todos ali sabiam era que a maioria dos vereadores já estava com o voto pronto. Não importaria qualquer argumento que viesse dos vereadores de oposição. Para os aliados do prefeito,  o embate travado dentro da câmara não tinha nada a ver com a cidade, com as pessoas, com a saúde ou a educação. Estavam ali para apoiar o projeto, fosse ele qual fosse. O compromisso dessa gente nunca foi nem nunca será com seus eleitores. Logo, a crônica da votação também estava anunciada. Todos ali em frente a câmara sabiam que, tendo votação, o projeto passava.

Ainda assim, as milhares de pessoas em frente à Câmara seguiram com a manifestação pacífica, cantando, dizendo palavras de ordem, ouvindo discursos sobre o mal que vai se abater sobre a cidade com a entrada das OSs. Os vereadores chegaram pela porta dos fundos do prédio, escoltados pela Polícia Militar. Não houve qualquer tentativa de barrar a entrada, pois a repressão estava com todas as suas ferramentas, prontas para intervir. “Aqui temos crianças, pessoas de idade, não estamos para o confronto”. A população em protesto na frente do prédio apostava na capacidade de mudar o voto dos vereadores apenas com a pressão da presença e do grito. Não foi suficiente.

Com os vereadores lá dentro, o processo seguiu. Reuniões-relâmpago das comissões, com os vereadores impacientes e entediados. Queriam votar logo e voltar para seus churrascos de feriado. Para a maioria ali dentro, pouco importavam aquelas pessoas lá fora. Seus gritos eram irrelevantes. No processo de venda da cidade, tudo o que importa são os bolsos cheios ou as graças futuras que alcançarão. O jogo político todos conhecem. É o toma-lá-dá-cá. Pelo menos na nossa democracia liberal, ou ditadura do capital, melhor dizendo.

A sessão iniciada às 16 horas foi como sempre é. Discursos raivosos contra sindicalistas, trabalhadores e povo em luta. Tentativas de convencimento dos vereadores da oposição. O jogo conhecido e com resultado já antecipado. Não passariam dos seis votos aqueles que seriam contrários ao projeto. O jogo já estava ganho pelo prefeito antes mesmo de começar.

Ainda assim, lá fora, a multidão seguia na esperança de que os vereadores seriam convencidos pelo discurso. Quando a votação começou já era noite, passava das seis. E os votos a favor foram saltando, um a um. Na impotência completa, visto que a tática era a do pacifismo, as pessoas começaram a gritar, dentro e fora do prédio. A polícia então fez sua entrada triunfal, já esperada. Dentro da Câmara tratou de acalmar os ânimos com gás de pimenta, e aí sobrou pra todo mundo, manifestantes e jornalistas. Foi o caos. Pessoas sem ar, trancadas na sala. Lá fora, também premidos pela impotência, apesar de estarem em maior número, os manifestantes tentaram uma reação, mas igualmente foram impedidos pela polícia. E a velha receita de sempre funcionou. Polícia batendo, chutando, jogando gás, “tudo normal”.

A votação continuou, impávida, e os vereadores votaram, aprovando o projeto. A cidade agora terá sua saúde e educação administrada pela iniciativa privada. Começará na UPA do Continente, depois em algumas creches, e, com o tempo, irá se imiscuindo em tudo. O Brasil do golpe se consolidando, em todas as instâncias. Viveremos o tempo do cidadão-cliente, ou seja, só poderá usufruir da cidade e dos serviços públicos aquele e aquela que tiver dinheiro para pagar. A acumulação capitalista seguindo seu curso, se fazendo sobre a vida das gentes.

Os vereadores de oposição buscarão na justiça alguma brecha para anular a votação, visto que foi num feriado e depois das seis da tarde, o que seria ilegal. Mas, quem afinal crê na justiça? Temos visto, depois do golpe, todos os dias, os exemplos de que nada se pode esperar do poder judiciário, marcadamente dominado pela classe dominante e decidindo sempre a favor dela. Esse vai e vem no judiciário é só um ritual patético, cujo resultado final todos já conhecemos.

Na semana que inicia os trabalhadores públicos definirão seu movimento, decidirão se continuam a greve ou não, visto que ela começou para garantir a luta contra o projeto que, na prática, também vai eliminando a figura do servidor público. E a proposta é essa mesmo. Garantir que os serviços públicos sejam administrados pelo setor privado, com trabalhadores precarizados, geridos pela nova lei do trabalho, que não garante mais nenhum direito.

Agora, com o projeto aprovado, quais serão os rumos do movimento grevista? É uma difícil decisão. Mas, os municipários têm força, são milhares. Talvez possam empreender novo ritmo à greve e garantir algum ganho nesse processo. Tudo é uma incógnita visto que a tática é a da manifestação dentro da ordem.

Já a população iniciará a semana como sempre. Completamente alheia ao que acontece na vida da cidade até o dia em que precisar de um atendimento de saúde e tiver de pagar, até a hora em que aconteça algo com seu filho na creche, então despertando do torpor, atrasada e impotente. Mas, todo esse povo apático não é o “vilão”. Até porque faz muito tempo que os partidos políticos, os sindicatos e os movimentos sociais abandonaram a prática de manter o povo informado. Hoje, publica-se no facebook e acha-se que todo mundo está sabendo das coisas. Mas, não. O facebook informa só o que o sistema quer. A maioria ainda recebe a “verdade” pela televisão, e a televisão mente. A comunicação dos movimentos sociais é débil e ineficiente. E os partidos e sindicatos que deveriam inovar nas práticas comunicacionais, enfrentando a mentira e a desinformação, não o fazem. São tempos sombrios.

Os poucos que saíram às ruas lamberão as feridas e se prepararão para novas batalhas, porque sabem que a resistência é necessária. Mas, talvez fosse hora de as gentes que lutam começarem a pensar que só resistir não basta. O tempo no qual vivemos, de ataque total do capital, exige novos caminhos, novas táticas, novos métodos.  É preciso constituir uma proposta eficaz de ataque também do nosso lado. Ou isso, ou sucumbimos.


quarta-feira, 18 de abril de 2018

Só os moradores de Florianópolis podem barrar as OSs

Foto: Rubens Lopes


Os vereadores de Florianópolis, por maioria, votaram contra a realização de uma audiência pública e aprovaram urgência urgentíssima para a votação do projeto do prefeito Gean Loureiro que propõe a contratação de Organizações Sociais para administrar a UPA do Continente e mais 10 creches. Não adiantou o clamor que vinha das ruas em frente à Câmara, afinal, a maioria dos vereadores está ali apenas para legislar conforme os interesses dos empresários ou do governo municipal.

Muita gente tem se manifestado nas redes sociais a favor desse projeto, atirando pedras nos trabalhadores que estão em greve. No geral, os argumentos são auto referenciados e dizem respeito as dificuldades que passam a ter com a paralisação, como não ter onde deixar os filhos, ou não ter a consulta agendada cumprida. É natural, então, a raiva. Mas, essa raiva deveria se voltar contra a prefeitura e não contra os trabalhadores que, além de estarem defendendo o serviço público, estão tentando preservar esses direitos a todos.

O fato é que a propaganda enganosa veiculada nas mídias comerciais induz ao erro. Ela chantageia a população dizendo que ou se contrata as OSs ou não haverá atendimento.  É uma ameaça. Não é uma informação. 

As OSs tem um nome bastante sugestivo, são organizações “sociais”. Isso também induz ao erro, pois pode parecer que estão preocupadas com o social. Mas, não. Elas atuam como empresas comuns, ou seja, estão na busca do lucro. E o que pode ser lucro na saúde ou na educação? Pensem!

Conforme explica o presidente do Sintrasem, Renê Munaro, a experiência de vários estados do Brasil com o uso de OS para administrar serviços públicos têm sido um desastre. E o que mais se vê é corrupção e desperdício de recursos públicos. Conforme Renê, o Tribunal de Contas de São Paulo, investigando OSs que administram hospitais, chegou à conclusão de que a taxa de mortalidade nos hospitais geridos por OSs é maior do que nos públicos  e tem apontado ao governo para que atente para esse dado. No estado do Rio de Janeiro, das 10 OSs que atuam no serviço público, oito estão sob investigação. Em Goiás, foi constatado que uma OSs que atendia o serviço de saúde obrigava os trabalhadores a reutilizarem seringas, para “economizar”. São exemplos escabrosos e que se repetem. Fraudes, superfaturamento, malversação de recursos. Vamos aceitar isso?

O projeto que está na Câmara e que vai ser votado – e provavelmente aprovado – sem qualquer discussão com a cidade, não prevê OS só para a UPA e as 10 creches. Não. Ele abre para qualquer outro serviço público. Deixa escancarada a porteira. E onde passa um boi passa a boiada. Além disso, as OSs  que forem escolhidas pela prefeitura para administrar os serviços receberão todo o patrimônio, que é público, por 10 anos. “São creches novinhas e uma unidade de saúde novinha entregues sem qualquer custo para a empresas”. Não bastasse isso, elas ainda receberão dinheiro público e se não cumprirem com suas obrigações, quem arca com a dívida é a prefeitura. “Ou seja, nós vamos pagar três vezes: no patrimônio, no subsídio e no pagamento das dívidas”, denuncia Renê.

O argumento de que a contratação de trabalhadores públicos é muito demorada e burocrática não se sustenta. E a contratação de trabalhadores via CLT não garante nem bom atendimento, nem qualificação. Até porque os salários são baixos e os trabalhadores asism que têm uma oportunidade melhor, saem. 
A melhor forma de garantir um atendimento de qualidade no serviço público ainda é com trabalhadores públicos. Não há como negar. A lógica de jogar para os trabalhadores as “culpas” do mau serviço só serve aos maus administradores, principalmente aqueles que não querem garantir o direito das gentes e se preocupam mais em servir aos seus apoiadores de campanha. 

É impressionante que nos últimos dois anos tenha-se visto a população sair às ruas com camisas amarelas, gritando contra os corruptos, e agora tenha-se que observar essas mesmas pessoas criminalizando os trabalhadores em apoio a um projeto que só virá contra elas e contra toda a população. Pode ser que a classe média tenha condições de pagar por serviços de saúde e de educação, mas isso não vai durar muito tempo. Então, seria bom ter essas pessoas na luta contra essa ideia de gestão via OS. Não precisa acreditar no sindicato. Mas, seria bom que procurassem saber sobre decisões de Tribunais de Contas e Ministérios Públicos de estados como São Paulo e Rio e já poderia ver a armadilha que é essa proposta.   

Quanto aos vereadores de Florianópolis, não há muito que esperar. Ontem, Lino Peres, Afrânio Tadeu Boppré, Marquito - Marcos José de Abreu e Lela fizeram uma transmissão ao vivo discutindo isso com seus eleitores, contando sobre o projeto, apontando os riscos. Mas, eles são minoria. É só a população que pode mudar o rumo das coisas, impedindo a votação. 

Uma coisa é certa, se passarem as OSs, logo, logo, mais dinheiro vai ter de sair dos bolsos dos trabalhadores para ter saúde e educação. Isso não é conversa de sindicalista. É fato.


sexta-feira, 13 de abril de 2018

Jornalismo XXX



Por um descuido de alguém, foi divulgada no sítio de notícias de uma grande rede local, a NSC (Nossa Santa Catarina), ex-RBS, a notícia pré-redigida para informar sobre as eleições que definiriam o novo reitor da UFSC. O texto clássico da notícia normótica, sem contexto ou impressão, foi terminado deixando alguns espaços com XXX que equivaleriam às informações ainda não obtidas pelo redator e que deveriam ser completadas por quem fosse subir a notícia no sítio. Porcentagem, número de votos, nome do vencedor, etc... Nada muito escabroso, visto que obviamente o repórter não poderia ficar até às dez horas da noite esperando para terminar a notícia. Ainda assim virou piada nas redes.

O descuido do editor, ou de quem quer que seja, circulou pelos meios internéticos e entre os jornalistas, que têm se manifestado, entre risos de deboche e preocupação com o jornalismo. Mas, ao final, o que há de escabroso nisso? Nada. Essa é uma prática comum no jornalismo conhecido como “manual de geladeira”, que é esse do lead clássico, sem maiores informações além das seis famosas perguntas: o que, quem, como, quando, por que, onde.

Por que o espanto se é o que se aprende na faculdade? Respondendo a essas questões temos tudo o que pode interessar ao leitor, dizem os “mestres”. É o jornalismo normótico, hegemônico e, ao contrário do que se alardeia, totalmente parcial. Aquele que é praticado por quem acredita ser o leitor um tolo, um Homer Simpson, um bobão. Por isso não vejo motivo de riso na postagem da NSC. Vejo motivo de debate, isso sim. Pois esse é o jornalismo vigente e, inclusive, segundo se sabe, um texto assim já pode até ser produzido por um programa de computador. Para que precisam de nós, jornalistas, então? Esse é o tema.

Teóricos do jornalismo como Armand Mattelard já havia discutido esse famoso lead (os das seis perguntas) insistindo em incluir uma sétima pergunta nele, aquela que faria toda a diferença, porque mostraria que ali havia mesmo um repórter, alguém vendo, sentindo e analisando. A pergunta chave seria: e daí? Com esse questionamento o repórter teria de ter conhecimento sobre as causas e apontar os cenários de consequências. Fazendo isso, estaria produzindo conhecimento, como também apontou Adelmo Genro Filho. Trazendo na singularidade de determinado fato as determinações que dariam conta da totalidade da atmosfera na qual o fato foi gerado. Ah, o jornalismo, essa coisa bela!

A imagem da notícia XXX, divulgada pela NSC, é a imagem do jornalismo atual. Esse é o drama. O jornalismo que já tem pronta todas as questões, faltando apenas completar os pontinhos. No geral, esse jornalismo, dito “imparcial”, é esgrimido contra os trabalhadores, contra a esquerda, contra a beleza, contra o conhecimento, contra a criticidade. Não há vida nele, não há análise, não há olhos, não há coração, não há nada além da ideologia de um estado de coisas. Aceitar esse jornalismo não é ser imparcial e objetivo, ao contrário. É ser parcial ao extremo, contra a possibilidade de um leitor crítico, de um leitor que se aproprie do conhecimento e defina suas certezas a partir das informações contextualizadas que recebe.

O jornalismo XXX é igual ao direito XXX, como se viu no documento assinado por Sérgio Moro autorizando a prisão de Lula, poucos minutos depois do julgamento. Ou as notícias sobre a judicialização do Sintrasem ( o sindicato dos municipários que está sendo investigado pelos vereadores), em Florianópolis. Tudo já está pronto, não apenas na forma, mas também no conteúdo. O XXX é o nome do sindicato, do morto, do sindicalista, do militante social. A notícia já está redigida, sempre dentro daquilo que interessa ao patrão ou ao sistema.

Mas, isso não significa que temos de apontar o dedo “culpando” o jornalista. Ele ou ela, em si, estão premidos pela dura realidade de ter de vender sua força de trabalho. No geral, são obrigados a fazer isso até para sobreviver num espaço de multifunção e de superexploração do trabalho. Claro, podemos discutir que esse jornalista têm opções. Ele pode resistir, pode lutar, pode denunciar, pode se recusar, pode pedir demissão. Tudo isso é fato. Mas, os tempos são difíceis, há filhos para criar, garantir a comida para por na mesa.

Todas essas variáveis devem ser pensadas. Mas, nenhuma delas impede o pensamento crítico sobre esse tipo de jornalismo. Ainda que se tenha de praticá-lo, deve-se pensar sobre isso e sobre formas de transcender. Há que matar esse jornalismo XXX, mas numa morte que não seja fruto de um assassinato individual, tem de ser uma derrubada coletiva e classista.

Sim, porque o jornalista também tem classe. Existem aqueles que nascem na classe dominante e a partir dessa sua posição praticam o jornalismo, buscando sustentar os privilégios de sua classe. Existem aqueles que vêm das camadas populares, mas assumem a posição da classe dominante, achando que por estarem trabalhando em uma grande meio ou ganhando um salário alto, já pertencem ao “clubinho”. Não pertencem. Bastam que envelheçam ou percam a mão e estão jogados fora, sem dó nem piedade. Existem os que nascem na classe dominante, mas na caminhada vão descobrindo os caminhos da injustiça, da miséria, da destruição que o sistema impõe e mudam sua postura, defendendo os interesses dos trabalhadores e dos oprimidos. E há uma grande parte, quiçá a maioria, que é filha da classe trabalhadora, que pode até ser da classe média, mas vai ter de vender sua força de trabalho por todo o sempre. Nunca será dona de jornal. Nunca será capitalista.

Então é esse debate que precisa ser travado na vida e na faculdade. Saber que vivemos numa sociedade de classe e que uma é dominante, impondo assim suas ideias e suas práticas. No jornal a luta de classes está explícita. No jornal, na TV, no rádio, na internet. E esse é o campo de batalha do jornalista. Há que se posicionar, saber quem se é. O jornalismo XXX é o que representa justamente a classe dominante, feito para alienar, desinformar, estabelecer um consenso sobre a realidade, cuja verdade não aparece no jornal. A realidade do jorna, da notícia XXX é inventada, conforme os interesses de quem domina.

Então, companheirada. A notícia XXX não estava ali por acaso. Ela é o cotidiano. Há que acabar com ela. E essa é uma luta que extrapola o próprio espaço do jornalismo. Ela avança para o mundo da política, a grande política, na disputa por um modo de produção, um modo de organizar a vida.  

Um novo jornalismo virá, fatalmente, quando conquistarmos e construirmos a nova sociedade. À luta, pois!



quinta-feira, 12 de abril de 2018

O menino e as pedras




Vai longe o tempo, mas a memória lembra. Ele era menino ainda, uns sete anos, e vivia em Rio Turvo, Minas Gerais, cidade onde nasceu. Pequeninho e mirrado era alvo sistemático de Zé Bodão, um garoto da mesma idade, mas grandote, que dava umas três vezes o seu tamanho. Zé Bodão batia em todo mundo, era o valentão da escola. E não havia jogo de bolita ou de semente de cinamomo que ele não estragasse. Chegava, pegava as bolinhas e ainda metia o cucuruto em todo mundo.

Danilo era pequeno, mas valente. E fervia de raiva pela impotência de ver, todos os dias, o valentão bater nele e nos seus amigos. Ninguém podia com Zé Bodão. O gurizinho então decidiu dar ouvidos aos conselhos da mãe, que desde sempre vaticinara: “Virem-se na vida, deem jeito, não choraminguem”.  

Ele avaliou todas as possibilidades. Na mão não ganharia, o cara era grande demais. E mesmo que os amigos se juntassem talvez o Zé Bodão ainda vencesse todos eles. O caso não era de força. Tinha de ser de esperteza. Foi aí que decidiu ser um exímio atirador de pedras.

Os dias se passaram e, na escola, a gurizada seguia apanhando e tendo as bolinhas de gude roubadas. Mas, no silêncio dos entardeceres, Danilo treinava pontaria com as pedras. Dias, meses se passaram. Então, ele viu que estava pronto. Seus dedinhos pequenos eram bazucas explosivas e as pedras chegavam ao alvo, certeiras. Chegara a hora.

Zé Bodão tinha a tarefa de, depois da escola, levar a tropa do pai para o pasto. Ia sozinho. Danilo sabia. Então, subiu num pequeno elevado que dava para o descampado e posicionou-se. Os bolsos cheios de pedra. Num segundo elas voavam na direção do Bodão. Bingo. Ele tomara uma saraivada.

E assim foram os dias. Os mísseis certeiros causando danos. Bodão descobriu quem era o atirador. Mas, no colégio, quando Danilo chegava, com os bolsos cheios de pedra, ele retraia. O pequenininho fizera o que mãe mandara: vire-se! Pois se virou. E desde então ninguém mais mexeu com ele na escola. Era o guri das pedras, e elas machucavam.

Foi esse mesmo guri que, depois, já moço, se internou nas matas de Goiás, na Guerrilha do Araguaia. Não tinha como ser diferente. Ele aprendera que quando a força é bruta, há que enfrentá-la, na coragem.

Danilo Carneiro, um mestre. Todos os dias dando lições aqui no IELA.