quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

Mais lutas na Grécia

As cenas da greve na Grécia mostram o nível de descontentamento da população com relação ao governo que se faz de surdo aos desejos de quem o elegeu. Desde que os primeiros sintomas da crise começaram a aparecer, o governo principiou a colocar em prática o mesmo velho receituário de tirar do povo o valor da conta que servirá para pagar aquilo que uma pequena parcela da sociedade usufruiu. Os movimentos de trabalhadores, as paralisações e as greves gerais não são coisas que brotaram do nada, como faz parecer a mídia comercial brasileira, que se limita a mostrar as cenas de “violência” do povo. Toda essa luta é fruto de uma longa batalha das gentes gregas contra o que ficou configurado como uma nova onda de acumulação capitalista.

Muito dos problemas que o país enfrenta hoje é fruto das escolhas equivocadas do governo desde o final dos anos 90, culminando com os fabulosos empréstimos recebidos para a construção de infra-estrutura para as olimpíadas de 2004. O dinheiro rolou, poucos encheram os bolsos, obras faraônicas foram feitas e muito pouco segue sendo aproveitado. O povo grego agora está sendo chamado para pagar a conta, cobrada com juros astronômicos pelos bancos “amigos”. A solução encontrada pelo governo é fazer novos empréstimos, o que elevará ainda mais a dívida, aliado a uma série de cortes unicamente na carne dos trabalhadores.

A gente grega é uma gente valente. As centrais sindicais, a despeito de todos os problemas e diferenças que historicamente têm, seguem se expressando e têm conseguido juntar as gentes nas lutas de rua. São manifestações impressionantes, que levam milhões de pessoas para as grandes passeatas. São como uma força da natureza, sem medo e sem hesitações. As gigantescas caminhadas são formadas por grupos muito bem preparados para os embates. Sabedores da brutal repressão policial, as pessoas já saem de casa com suas máscaras de gás e uns enormes porretes de madeira. Nas passeatas, avançam de braços enganchados, formando uma corrente humana de difícil desmanche. A grande maioria é formada por jovens. Eles sabem que, ou cuidam do futuro, ou estão fritos. Mas também se pode ver os velhos trabalhadores, gente das periferias que não aceitam mais pagar pelos ricos.

As primeiras medidas do chamado “ajuste” do governo começaram ainda em 2009 e em 2010 as coisas foram se aprofundando. O Congresso Nacional votou leis que permitem o arrocho dos trabalhadores, mudou a previdência, fez reforma trabalhista e tudo isso sob protestos das gentes. A cada sessão, a imensa praça Syntagma, em frente ao Parlamento, se enche de gente a dizer “não”. Mas, lá dentro ninguém ouve. Nem lá dentro, nem nos palácios. As leis seguem sendo aprovadas mesmo que toda a Grécia se levante em imensas manifestações. Não é sem razão que o povo seja obrigado a atuar de forma mais incisiva diante desta incapacidade auditiva crônica dos governantes.

Como bem diz Enrique Dussel, a sede do poder não está em quem está no posto de mando. Ela reside no povo organizado que decide sobre as coisas. E o povo grego já decidiu que não quer pagar essa conta. Por isso toda semana eles enchem as ruas com suas impressionantes e organizadas passeatas. Esta semana um ministro foi ferido. A cena correu o mundo como a dizer da “selvageria” do povo. Mas os atos infames destes ministros não são registrados pelas câmeras ávidas de espetáculo.

Eu andei com o povo grego pelas ruas de Atenas, atenta às vozes e aos reclamos. Eu vi o rosto inflamado de uma juventude valente e, no meio da massa de gente, que irrompe pelas avenidas da capital pode-se perceber, em construção, a figura de tantos Alexandros Panagulis, o inesquecível lutador grego que, em 1968, tentou matar o ditador Georgios Papadopoulos. “Eu não queria matar um homem, e sim um tirano”, disse Alekos, depois de ser preso e passar por terríveis torturas. Nascido nas imediações de Atenas, Alekos era um destes meninos inconformados com as injustiças, com a guerra, com a ditadura. Hoje, tal como nos terríveis tempos da ditadura militar na Grécia (de 1967 a 1974), o povo afirma o seu “não” a ouvidos moucos. Mas, tanto naqueles dias como agora, o cerco popular foi apertando e as revoltas devolveram à Grécia ao povo. É nisso que as entidades de trabalhadores apostam. Na capacidade do povo grego de superar todos os entraves e, mesmo sob a mira das armas e da repressão, caminhar na direção da soberania.

O governo socialista da Grécia atual vai nadando contra a corrente popular, cada dia mais afastado dos desejos de sua gente. Aplicou reformas, diminuiu direitos e agora prepara-se para votar o orçamento do ano de 2011, com mais cortes nos serviços públicos e arrocho salarial. Os parlamentares insistem em dizer que isso é necessário, porque se não for assim, a Grécia não recebe o último lote do empréstimo de mais de 100 bilhões de euros. Mas as gentes sabem muito bem o que significam mais dívidas. A conta fica sobre suas mesas. O grito na Grécia, desde 2009 é: Que os ricos paguem! Ninguém do poder parece ouvir, mas chega um dia em que a casa cai...

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Só jornalista!


Outro dia, numa dessas atividades acadêmicas fui confrontada com uma situação da qual quase não me lembro, mas que outras pessoas fazem questão de lembrar. Não sou professora. Convidada que fui para dialogar com um aluno sobre seu projeto de mestrado que trata do povo boliviano, lá fui toda serelepe, porque gosto de saber que na academia ainda tem gente que se preocupa em estudar coisas que verdadeiramente interessam, como neste caso, a retomada da identidade do povo aymara e a proposta do Sumac Qamaña (o bem viver).

Então, foi a vez de me apresentarem. Como sempre eu abrevio a apresentação. Elaine Tavares, jornalista. Ao que a professora responsável pela atividade redargüiu, torcendo o nariz: “- só jornalista?” Pois é. Sou isso. Só jornalista. Nem doutora, nem professora, nem coisa nenhuma mais que jornalista. Talvez, para a academia, coisa menor. Mas, para mim, coisa maiúscula. Sou jornalista, destas que pensa o mundo, que narra, que contextualiza, que estuda a história, que busca nexos, que caminha com os empobrecidos, que rastreia a vida das gentes, que opina, que interpreta, que se emociona, que sente raiva, que investiga.

Sou jornalista. E é bom repetir isso. Porque, afinal, esse fazer humano anda tão desgastado. Sou jornalista e me compraz esse comprometimento com a vida mesma, essa coisa sublime que é decodificar os discursos prolixos e compartilhar o conhecimento com as pessoas, doutoras ou não. Encanta-me encontrar alguém na rua que, sabendo da minha condição de jornalista diz: “gostei daquele texto teu. Tão `simplinho´ que eu entendi tudo”. Esse é meu prêmio, minha estatueta de ouro. Quando as palavras que eu faço nascer caminham nas gentes. 

Dentro da universidade parece que não importa muito o que a gente faz, e sim os títulos que temos. Isso às vezes incomoda, mas é só um segundo, porque nos faz lembrar a eterna rixa entre professores e técnicos, que não acaba nunca e que é tão burra. Mas, enfim, para aqueles que realmente importam, que são os estudantes que auscultam a vida real, pessoas como eu ainda têm valor. Não sou professora, nem doutora, e isso não me dói. São as escolhas. Sou jornalista, só jornalista, e isso é muito bom! 

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Meu jesus vem passear


Sou filha do meu tempo e espaço. Nascida numa família cristã, desde pequenina o natal significou presépio, ou seja, a montagem da hora mágica na qual um menino veio ao mundo para anunciar uma boa nova. E, com ele, a promessa de que haveria outra aliança e que nossos pecados todos estariam perdoados. Lá em casa sempre demos prioridade a isso. Nunca ao Papai Noel, brinquedos, compras, etc... A expectativa era a chegada do menino. Eu mesma sempre colocava o sapato na janela, mas a mãe explicava: “os presentes não são coisas, são sentimentos e desejos”. Então, quando o dia amanhecia eu entendia que um gurizinho tinha nascido e, por força da mágica da religião, também havia passado pela janela deixando amor, saúde, alegria e todas essas coisas boas. E recolhia aquele sapato como se fora a coisa mais preciosa do mundo.


Na minha mente de criança eu imaginava não um velhinho montado no trenó, com renas e todas estas coisas da celebração européia. Eu acreditava piamente que havia um menino, bem sapeca, que saracoteava pelo mundo, montado numa grande estrela, levando presentes invisíveis aos olhos. E eu esperava o ano inteiro por esta noite de passeio divino. E o legal era que o fato dele ser um guri tirava toda a pomposidade do sagrado filho. Era como esperar um amigo, coisa íntima.


Depois eu cresci e fui conhecendo outros mitos, outras religiões. Aprendi a dar pago à terra (Pachamama) em agosto, a respeitar o trovão, a folha de coca, as plantas, os animais. Aprendi a reverenciar outras manifestações criadas pelo humano para sustentar suas dores e medos. Porque é disso que se trata quando se fala de deuses. Eles são redes nas quais descansamos de nossos terrores. E, esta construção humana me enche de ternura, porque reconheço aí a fragilidade da nossa raça. Isso me emociona.


Mas, apesar de tudo o que aprendi sobre os outros deuses, o natal ainda me encanta de um jeito muito especial. E, a despeito de todas as impossibilidades, eu espero o menino. Às vezes, nos tumultos familiares ou no barulho da festa, pode parecer que eu o esqueci, mas não. Lá no fundo do meu coração, eu o espero. E o vejo chegar, montado na estrela, rindo um riso de cristal. Também a despeito de tudo, deixo meu sapato na janela e o recolho de manhã com a absoluta certeza de que ali dentro estarão os presentes. Os que verdadeiramente importam.


E assim, nesta natal, como em todos os outros já vividos, meu jesus haverá de vir passear. E eu estarei esperando...


Que ele passe por aí também!...

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Fernando Baéz - um guerreiro contra a destruição cultural


Fernando Báez nasceu em San Felix de Guayana, Venezuela, e desde muito cedo começou a se interessar pela filosofia grega, especialmente Aristóteles. Depois, descobriu Averróis, o filósofo árabe que introduziu Aristóteles na Europa, via Granada. Formou-se em Educação, mas a filosofia continuou correndo rápida pelas veias. Em 1991 escreveu Reflexiones, um livro de ensaios, em 1993 foi a vez de fazer vir à luz os seus poemas no livro Alejado. Em 2000, lançou outro livro sobre o manuscrito bizantino, Tractatus Coislinianus, iniciando seu mergulho no mundo árabe.

Desde aí, Fernando Báez manteve constante interesse na poesia, filosofia árabe, censura antiga e contemporânea, escritura e na conexão do patrimônio cultural com a memória étnica. Em 2002 Báez publicou uma coleção de ensaios sobre a censura, La ortodoxia de los herejes, apresentando seu ponto de vista sobre as tentativas latino-americanas de construir uma teoria coerente sobre a questão da censura no século XX. Escritor fértil seguiu publicando poemas e outros textos sobre Aristóteles.

No ano de 1999, Fernando Báez iniciou o doutorado em Bibliotecologia e logo recebeu o Prêmio “Vintila Horia” por conta do seu ensaio acerca da História da antiga Biblioteca de Alexandria. Seu caminho pela filosofia e pelas bibliotecas consolidou a idéia de estudar a destruição cultural e encerrou seu doutorado com um livro que acabou se tornando um clássico: A história universal da destruição dos livros. Neste trabalho, que foi a sua tese, ele documenta a perda catastrófica de livros durante as guerras, tais como a destruição da biblioteca de Alexandria, queimada em 48 a.C. e as fogueiras acesas pelos nazistas.

Baéz faz da sua vida a busca pela história dos livros e a luta contra a destruição. Talvez porque, quando menino, tenha vivenciado a perda da biblioteca do seu pequeno povoado, San Félix, depois de uma inundação. Essa imagem nunca lhe saiu da cabeça e hoje, entender a destruição cultural e o que leva o poder a queimar os livros virou sua obsessão. Não foi sem razão que ele assumiu a missão de documentar, pela Unesco, a devastação de objetos culturais e religiosos no Iraque, depois da ocupação estadunidense, o que acabou gerando outro livro importantíssimo nesta área: A destruição cultural do Iraque – um testemunho do pós-guerra.

Hoje, Fernando Baéz é reconhecido como um dos mais importantes intelectuais do planeta, tendo seus livros traduzidos em mais de 12 línguas. Generoso, ele partilha diariamente com os amigos, as imagens dos estudos que segue fazendo pelo mundo no que diz respeito aos livros. No seu arquivo de fotos, estão raridades históricas como os cartazes feitos pelos nazistas incentivando a queima de livros.

Jovem e aficcionado pela memória cultural dos povos, Fernando é um intelectual latino-americano que precisa ser cada vez mais conhecido. Sua vitalidade e curiosidade investigativa colocam à nu a necessidade que o poder tem de destruir os livros, porque é deles que brotam as idéias, e as idéias movem mundo.

Veja na página do Iela (http://www.iela.ufsc.br/?page=noticia&id=1601) duas pérolas do arquivo de Baéz. O cartaz dos nazistas para queimar idéias marxistas e a contra propaganda para impedir esse crime.

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Dia de festa


Amanhã será o aniversário da minha mãe. Mas ela não está mais. Encantou. Ainda assim, parece que nunca foi embora. Nestes dias em que a ausência pesa mais do que tudo, eu celebro a sua vida. Ouço um disco do Carlos Galhardo, outro da Ângela Maria. Pego seus bordados e arrisco um ponto cruz. Decido iniciar mais um tapete de crochê, que certamente durará um ano para ser completado. Como goiabada com queijo, ensaio um passo de bugio. Vejo velhas fotos e dou muita risada lembrando as coisas engraçadas que ela fazia e dizia.
Feito um inquieto micuim ela estava sempre em ação. Limpava janelas, preparava refeições, arrastava os móveis, buscava teias de aranha, cuidava da horta, adubava suas plantinhas, costurava, bordava, tudo ao mesmo tempo agora. Depois do almoço, ela descansava e todos nós corríamos para a sua cama, e ali ficávamos ao seu lado, lânguidos, ouvindo histórias, dando risada, contando causos. A cama era um porto seguro, um espaço de comunhão.
Hoje, passados tantos anos do seu encantamento, vejo o quanto dela ainda permanece em tudo que somos e fazemos, para o bem e para o mal. Gemada para curar a gripe, chá de boldo para o estômago, mangas nas tardes quentes, café da tarde com bolo, bife à milanesa com purê, pão de casa, pastel com arroz no natal, costelinha de porco comida com a mão. Aos cinqüenta anos me surpreendi outro dia com ela me olhando no espelho. Tão igual. Teimosa e generosa. Valente e melancólica. Doce e guerreira. Leoa e passarinho.
Amanhã, estarei com ela na varanda de casa, sorvendo um chimarrão. E haveremos de conversar longamente sobre as coisas do mundo. A tristeza no Haiti, a violência em Rapa Nui, a eleição da Dilma. E ela balançará a cabeça dizendo: mas que barbaridade. Depois, distraída, vai sorrir seu riso doce e perguntar: e o Internacional, foi campeão? Não mãe, foi o Fluminense! Quê?! Mas que barbaridade. E daremos muita risada...

sábado, 4 de dezembro de 2010

Levanta o povo de Rapa Nui

Liderança rapanui ferida no olho durante desalojo


Há pouco tempo o mundo inteiro acompanhou o semblante sorridente e inofensivo do novo presidente do Chile, Sebastián Piñera, durante o resgate dos mineiros que ficaram presos numa mina na região de Atacama. Mas, com os povos em luta e os trabalhadores chilenos ele não é tão inofensivo assim. Por 80 dias, prisioneiros Mapuche fizeram greve de fome, porque não aceitam estar presos como bandidos, se tudo o que fazem é lutar por sua terra, e o governo os tratou com brutal dureza.

Agora, nos primeiros dias de dezembro foi a vez do povo Rapanui, os que habitam a ilha de Páscoa, a ilha mais distante do continente, a 3.700 quilômetros da costa leste do Chile. Um grupo de 45 soldados fortemente armados irrompeu na comunidade recuperada pelo clã Tuko Tuki, no centro de Hanga Roa, capital da ilha. Esse espaço vem sendo reivindicado pela gente originária desde há muito tempo, sem que haja sensibilidade por parte do governo que atualmente ocupa as terras, com vários prédios públicos. Até mesmo os organismos internacionais de Direitos Humanos já reconheceram a legitimidade da demanda dos Rapanui, mas a violência desencadeada na última semana pela polícia chilena mostra o quanto isso ainda está longe de acabar.

Num único mês, mais de 35 grupos de famílias Rapanui recuperaram seus antigos terrenos que estão em mãos do governo e desde aí abriram uma ferida que aparentemente estava fechada. Justamente por ser um dos pontos mais afastados da terra, a ilha esteve longe da cobiça dos conquistadores por muito tempo. Foi só em 1722 que um navegador neerlandês chegou à ilha, exatamente num dia de Páscoa, daí este ser o nome dado ao lugar, como sempre, desrespeitando seu nome original. Porque a ilha não era um lugar deserto. Lá habitavam os Rapanui que davam ao lugar o nome de Rapa Nui, que significa ilha grande. Em 1774 um capitão inglês aportou no lugar e um século depois a ilha foi ocupada por europeus que introduziram ali a criação do gado ovino. Em 1888 a ilha foi anexada ao Chile e passou a existir como uma enorme fazenda de ovelhas, sendo o seu povo tornado escravo.

Foram muitas as lutas travadas pelo povo Rapanui pela recuperação da sua liberdade e de seu território. Mas, só em 1966 eles foram alçados à condição de cidadãos chilenos. Até então eram ninguém. Só que o povo da grande ilha nunca quis ser chileno, e nunca ninguém lhes perguntou isso. Essa cidadania foi imposta, assim como a escravidão anterior. Na gente Rapanui sempre esteve muito vivo o sentimento de sua identidade e hoje isso renasce com força total.

Desde o mês de julho de 2010 os Rapanui têm tomado prédios e terras que estão na mão do governo. Exigem de volta o que é seu. Querem o direito de dirigir suas próprias vidas, de acordo com os seus costumes. Outros prédios e terrenos ainda em mãos do estado recebem pequenas bandeiras de Rapa Nui como um símbolo de que aquele lugar tem outro dono. Há um clima de tensão no ar. E há um renascer dos movimentos originários que, apesar das diferenças entre os clãs, voltam a se reunir e encaminhar lutas conjuntas. A recuperação do território é a mais importante.

Na última semana o governo decidiu endurecer e realizou, no amanhecer, uma brutal operação de retirada de famílias. As pessoas ainda dormiam quando a polícia chegou, derrubando portas e golpeando todo mundo. Houve reação e muita gente acabou ferida. Fotos mostram senhoras de idade com balaços de borracha no rosto, uma das lideranças teve o olho destroçado, gente sangrando por todo o lado, alguns gravemente atingidos. Depois de toda a cena de brutalidade os soldados ainda se dispuseram a um último gesto de poder: queimaram as bandeiras de Rapa Nui, numa demonstração de desconhecimento das reivindicações e da cultura do povo autóctone. Nitroglicerina pura. As famílias originárias estão em pé de guerra.

A ilha de Rapa Nui é um importante centro turístico que recebe mais de 60 mil turistas por ano, atraídos pelos misteriosos Moais e pelas praias paradisíacas. Agora, está deflagrado um grave conflito entre o povo Rapanui e o Estado Chileno. O que as famílias querem é um diálogo aberto e respeito, muito respeito. Coisa que o ataque do dia 3 de dezembro mostra parecer impossível. A gente da ilha quer negociar, mas está disposta a lutar se preciso for. No caso deste clã que foi desalojado agora em 3 de dezembro, a reivindicação envolve um espaço de 5, 5 hectares no centro da capital. No terreno estão prédios importantes como a sede da prefeitura, o Banco do Estado e outros prédios públicos. O clã da família Hito reivindica um terreno onde está um dos mais importantes hotéis da ilha. Enfim, é uma batalha gigantesca a que está sendo travada agora naquela longínqua terra.

Quem acompanha a movimentação é o jornal Azkintwe, veículo oficial do país Mapuche. Mas, no resto do mundo poucos sabem da luta deste esplêndido povo, esquecido no meio do pacífico.

Com informações de Elias Paillan – Jornal Azkintwe

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

Nós e o senhor das moscas

Dias desses vi na televisão um filme que já havia assistido nos anos 90 e quem naqueles dias, já me causara profunda tristeza. Chama-se “O senhor das moscas” e mostra um grupo de crianças perdidas numa ilha, depois da queda de um avião, fugindo da guerra. Na ilha, sozinhos, eles têm de se organizar e aí aparecem todos os estereótipos do humano. O ditador, o herói, os elementos da democracia, o misticismo fundamentalista, a ciência, os covardes, os perdidos, os fracos, o selvagem. A película é inspirada em um livro do mesmo nome escrito na década de 50 que, em tese, tenta mostrar o quanto o ser humano carrega dentro de si o germe da corrupção. E aí não se trata desta corrupção que vemos na TV quando um suborna o outro, mas a corrupção existencial, essa que torna um garoto normal e educado num ser sem qualquer sentimento ou moral: um selvagem, na acepção mais crua da palavra.

O senhor das moscas tenta mostrar que há algo de podre no humano que, cedo ou tarde se manifesta, como já havia ousado propor George Orwell, no Revolução dos Bichos. Mas, ao mesmo tempo também aponta a presença do humano justo, digno, bondoso e capaz de conviver com o diferente. Este, ao longo do filme, em que um deles vai assumindo o controle de todos os garotos pelo medo e pela força, vai ficando sozinho. Até ao ponto de ser caçado por todo o grupo, que comandado pelo chefe, se dispunha a eliminar o menino que ousava instituir uma vida de liberdade e respeito pelo outro, nas suas debilidades e belezas.

É uma experiência dolorosa que só acaba com o quê? Com achegada da força, vinda de fora. O exército libertador.

Por algum motivo esse filme me faz pensar no que acontece no Rio, hoje. Por viver tão longe, não me sinto muito capaz de fazer uma boa análise dos fatos. Há tantas variáveis a considerar. O tráfico, duro e cruel, a ganância imobiliária que quer as terras dos morros, a violência da polícia, a corrupção, a ausência completa do Estado nas áreas de favela, os barões da droga que estão no asfalto, enfim... tanta coisa, e outras mais fora do meu olfato. Mas, de alguma forma vejo cada um daqueles meninos do “senhor das moscas” se expressando no turbilhão de notícias e opiniões sobre as ocupações dos morros cariocas, dentro do grotesco “espetáculo” montado pelas emissoras de televisão.

A ascensão dos chefetes das drogas nas comunidades empobrecidas não é coisa que brota do nada. É fruto de toda a omissão do estado burguês diante das promessas que faz. Não há saúde, não há escola, não há lazer, não há vida. O capitalismo suga todas as forças dos trabalhadores e os joga uns contra outros. O povo se vira como pode, equilibrando-se na corda bamba entre a lei e o tráfico. E, aí, assomam todos os tipos de seres: os bem intencionados, os heróis, os selvagens, os fracos, os bondosos, os medrosos, etc... Mas, como bem analisa o professor Nildo Ouriques, o povo é sábio e só sobrevive porque sabe avaliar a correlação de forças do espaço onde vive. Ninguém quer viver sob o terror dos soldados do tráfico, mas tampouco quer a presença de uma polícia corrupta, racista e violenta. É um fogo cruzado que nunca pára.

Hoje a polícia ocupa o morro e a TV expõe as gentes a celebrar o fim de um tipo de opressão. Mas e amanhã, quando o tempo passar, e as câmeras se voltarem para outro tema? E se a polícia sair? E se o Estado não cumprir de novo com suas promessas? E se voltar o terror do tráfico? E se o Estado não agir no espaço dos chefes graúdos, os que vivem no asfalto? Há uma coisa que se chama sobrevivência. As pessoas querem seguir suas existências, de alguma forma, e de preferência bem. Como viveram até hoje, sem o Estado e sem a polícia? Porque são sábias e vergam tal qual o feixe, ao sabor do vento. Se não fosse assim não estariam vivas.

Mas, e amanhã, quando com as UPPs todos os morros estiverem livres da força do tráfico, se as empresas de turismo quiserem os terrenos onde vivem as gentes para ganhar dinheiro durante as festas das olimpíadas e da copa? Haveremos de ter a mídia aliada ao povo do morro? Haveremos de ver os comentaristas das redes nacionais defendendo as “pobres” famílias das favelas? Não! Não veremos. Será uma outra batalha a ser travada tal qual a do personagem do filme do senhor das moscas. Uma solitária batalha contra o capital, e aí não haverá um exército libertador. Pelos menos não um de fora.

A história dos empobrecidos é uma recorrente história de perdas. Coisa poderosa demais. Os de baixo estão sendo sempre colocados diante de suas derrotas, em todas as grande batalhas que travam por vida digna e farta para todos. A força do poder solapa e arrasa, fazendo com que as pequenas vitórias se desfaçam nas brumas. Isso cria uma atmosfera de profunda impotência. E não deveria ser assim. Se o povo empobrecido decidisse tornar-se quem é, as coisas seriam diferentes. Mas, para isso haveria que se despertar a consciência de classe, sair da emergência, da difícil tarefa de manter-se com a cabeça para fora do lodo mortal da sobrevivência cotidiana no reino do capital. Tanto trabalho a ser feito, tanto suor, quase um trabalho de Hércules.

O Rio de Janeiro é esse campo onde reina “o senhor das moscas”, uma espécie de pedaço do campo geral que é o mundo capitalista. No filme, é a cabeça de um porco que representa o mítico, o poder, a força, o símbolo de algo intangível, inalcançável, a coisa etérea que mantém todos os meninos sob um domínio incapaz de se desfazer. Vejo esse símbolo, agora, na caveira do BOPE. Em volta dela arma-se toda essa “festa” de libertação do morro. Mas o que esperar de uma força que tem a caveira como símbolo? Já bem disse Muniz Sodré num recente artigo sobre os fatos. Esta não é uma luta dos bonzinhos contra os malvados. Há tantos lados e tantas variáveis nestas personagens.

O Brasil vive nestes dias uma espécie de euforia desenvolvimentista. Desde o segundo governo Lula as obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento) estão se espalhando por vários cantos do país, como um símbolo da melhora da vida. Mas, muitas destas obras são questionáveis, não representam soluções reais para os problemas. Alguns, elas até aprofundam. Ainda assim, incensa-se sem sendo crítico. Agora, com o pré-sal, mais uma onda de “melhoras” deve atingir o país. Dinheiro do petróleo vindo aos borbotões. Para quem? Até onde esta onda alcançará as gentes simples? Receberão migalhas ou participarão do banquete, como convidadas? Garantirão aos milhões de jovens deste país a possibilidade da vida digna? Ou terão eles que enfrentar o “senhor das moscas”, como sempre foi?

Não sei. Tudo está aberto. Os meninos armados que hoje servem ao tráfico – urdido muito além dos morros empobrecidos – precisam de muito mais do que promessas. Precisam ver as coisas boas acontecendo com eles todos os dias, precisam se saber parte de uma sociedade justa e livre, na qual terão a chance de construir em pé de igualdade. Há uma cena no filme “o senhor das moscas” que me parece bem paradigmática das coisas que vivemos como seres humanos. O garoto “rebelde” está sendo caçado pelo grupo, o chefete quer a sua morte. Ele corre pela selva e se depara com um incêndio. Está acuado, sem saída. Então, dois dos garotos, que foram cooptados pelo líder ditador, o vêem sob uma árvore, quase sendo tocado pelo fogo. Eles estacam, atônitos. O chefe grita: “estão vendo algo?” E eles, olhando fixo nos olhos do menino, respondem, depois de um longo silêncio: “não”. É quando o garoto consegue fugir em direção à praia. Por um minuto, o sentimento de solidariedade e o desejo da liberdade se fazem parceiros. É a otimista mensagem do autor que, apesar de destacar o tempo todo a vileza e a capacidade de destruição que existe no humano, mostra que é possível, num átimo, tudo se transformar. E, claro, isso não se dá por magia, mas por uma profunda compreensão sobre o que, afinal, está em jogo.

No filme, os garotos entendem que algo está errado e procuram fazer algo para mudar. E nós, aqui, agora? Haveremos de continuar rendendo cultos ao senhor das moscas?