sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Viva o Dia do Saci Pererê


Em luta neste dia 30, no Trapiche da Beira-Mar, às 10h, em Florianópolis, contra o estaleiro

Não há nada mais servil do que se deixar dominar culturalmente. Quando a força das armas vem, pode-se até entender. Mas quando o domínio se dá de forma sub-reptícia, via cultura, parece mais letal. O Brasil vive isso de forma visceral. A música estadunidense invade as rádios e a juventude canta sem entender a mensagem. No comércio abundam os nomes de lojas em inglês e até as marcas de roupa ou sapato são na língua anglo-saxônica, “porque vende mais” dizem as atendentes. Nas vitrines, cartazes de “sale”, ou “50% off” embandeiram a escravidão cultural. E tudo acontece automaticamente, como se fosse natural. Não é!

Outra prática que vem invadindo as escolas e até os jardins de infância é a comemoração do Halloween, o dia das bruxas dos estadunidenses. Lá, no país de Obama, esta data, o 31 de outubro, é um lindo dia de festividades com as crianças, no qual elas saem fazendo estripulias, exigindo guloseimas. Tudo muito legal dentro da cultura daquele povo, que incorporou esta milenar festa irlandesa lá pelo início do 1800. Nesta festa misturam-se velhas lendas de almas penadas, de gente que enganou o diabo e outras tantas comemorações pagãs. Além disso, hoje, ela nada mais é do que mais uma boa desculpa para frenéticas compras, bem ao estilo do capitalismo selvagem, predador.

Aqui no Brasil esta festa não tem qualquer razão de ser, exceto por conta das mentes colonizadas, que também associam o Halloween ao consumo. Não temos raízes celtas, nem irlandesas ou inglesas. Nossas raízes são outras, Guarani, Caraíba, Tupinambá, Pataxó... Nossos mitos – e são tantos – guardam relação com a floresta, com a vida livre, com a beleza. O mais conhecido deles é ainda mais bonito, fala de alegria e liberdade. É o Saci Pererê. Uma figurinha buliçosa que tem sua origem nas lendas dos povos originários, como guardião das generosas florestas que garantiam a vida plena das gentes. Com a chegada dos povos das mais variadas regiões da África, o menino guardião foi agregando novos contornos. Ficou negro, perdeu uma perna e ganhou um barrete vermelho na cabeça, símbolo da liberdade. Leva na boca um cachimbo (o petyngua), muito usado pelos mais velhos nas comunidades indígenas. Sua missão no mundo é brincar, idéia muito próxima do mito fundador de quase todas as etnias de que o mundo é um grande jardim.

Pois é para reviver a cada ano as lendas e mitos do povo brasileiro que vários movimentos culturais e sociais usam o 31 de outubro para comemorar o Dia do Saci. Com atividades nas ruas, as gentes discutem a necessidade da libertação - coisa própria do Saci - das práticas culturais colonizadas. Ao trazer para o conhecimento público figuras como o Saci, o Caipora, o Boitatá, o Curupira, a Mula Sem Cabeça, todos personagens do imaginário popular, busca-se, na brincadeira que é próprias destes personagens mitológicos, incutir um sentimento nacional, de brasilidade, de reverência pela cultura autóctone. Não como sectária diferença, mas como afirmação das nossas raízes.

Em Florianópolis, quem iniciou esta idéia foi o Sindicato dos Trabalhadores da UFSC, que decidiu instituir o 31 de outubro como o Dia do Saci e seus amigos. Assim, neste dia, durante vários anos, os mitos da nossa gente invadiam as ruas, não para pedir guloseimas, mas para celebrar a vida. Tendo como personagem principal o Saci, o sindicato discutia a necessidade de valorizarmos aquilo que é nosso, que tem raiz encravada nas origens do nosso povo. Mas, agora, sob outra direção, que não conspira com estas idéias de nacionalismo cultural, o Saci não vai sair com a pompa usual.

Mas, não tem problema, porque neste 30, prenunciando seu dia, por toda a cidade, se ouvirão os loucos estalos nos pés de bambu. É porque dali saem, às carreiras, todos os Sacis que estavam dormindo, esperando a hora de brincar com as gentes. Redemoinhos, ventanias, correrias e muito riso. Isso é o Saci, moleque danado, guardião da floresta, protetor da natureza. Ele vem, com seus amigos, encantar o povo, fazer com que percebam que é preciso cuidar da nossa grande casa. Não virá pela mão do Sintufsc, mas pelo coração dos homens, mulheres e crianças que estarão no trapiche da Beira-Mar, às 10h, em Florianópolis, em luta contra o estaleiro que Eike Batista quer construir na nossa região. O Saci é protetor da natureza e vai se unir a barqueata que singrará os mares no encontro das gentes em rebelião. Ah Saci, eu vou te esperar... Que venhas com o vento sul...


quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Democracia e Jornalismo na era digital

O tema pomposo me seduziu e lá fui eu assistir a conferência promovida pela pós-graduação em Jornalismo na UFSC. Já na entrada um enorme banner do Diário Catarinense, jornal principal da empresa monopólica da comunicação em Santa Catarina, não me surpreendeu. Faz muito tempo que o curso da UFSC está rendido à razão empresarial, afinal, existe até uma Cátedra RBS. É de se lamentar, mas, enfim, vamos em frente.

A conferência do professor Silvio Waisbord, um argentino com sotaque gringo, era uma promoção da Associação Nacional de Jornais, entidade patronal que, conforme explicou o jornalista responsável pelo jornal da entidade, Carlo Müller, estava realizando um recorrido por várias capitais do país, levando estas informações às escolas porque: “nós entendemos que as escolas são os melhores espaços para a formação de jornalistas e para a reflexão do jornalismo”. A declaração do assessor da ANJ me surpreendeu pelo cinismo, afinal, a ANJ saudou a queda da obrigatoriedade do diploma assegurando, nas palavras de seu diretor Paulo Tonet Camargo, que a exigência feria o direito de livre expressão. Talvez porque falasse a estudantes, Müller preferiu a segunda parte da declaração. A ANJ diz que não é contra o diploma, mas garante que fere a liberdade de expressão. Logo... Confuso, não? Absolutamente não! Muito claro...

A conferência de Silvio Waisbord limitou-se a apresentar aquilo que ele considera como as três transições, nos Estados Unidos, que afetam o jornalismo mundial. Segundo ele, há mudanças na área comercial, na prática jornalística e na comunicação política. “O jornalismo está no centro de uma rede de negócios e a informação é um produto, mas isso não é qualquer negócio, precisa manter a democracia”. E, segundo ele, é nesse paradoxo que o jornalismo vem se equilibrando: ser produto para os empresários ganharem dinheiro, mas ao mesmo tempo ser o responsável pela manutenção da democracia. Em nenhum momento da fala ele explicitou de que democracia estava falando, embora se possa perceber que seja a dos Estados Unidos, a qual muitos consideram o carro chefe do “mundo livre”, mesmo que lá os cidadãos não tenham mais qualquer direito individual depois da doutrina Busch.

Silvio falou aos estudantes, futuros trabalhadores do jornalismo, sobre os grandes problemas vividos pelo empresariado da comunicação. Com as novas tecnologias muita coisa está mudando e as empresas já se ressentem da falta de financiamento para seus negócios. “Há uma crise na propaganda porque os anunciantes estão diversificando os veículos. Não há mais a concentração nos grandes jornais. Há novos espaços para divulgar e as empresas estão com grandes dívidas contraídas. Há ainda uma grande queda na venda dos impressos, o que tem levado as empresas a medidas de contenção”. Conforme o estudo de Sílvio, estas medidas acabam sendo as de cortar edições impressas, cortar pessoal e fazer um jornalismo mais econômico.

Como a conferência foi preparada para as empresas, é óbvio que o professor em nenhum momento problematizou o que deveria ser o mais importante para os futuros profissionais que o assistiam. As medidas das empresas são sempre desfavoráveis para os trabalhadores. E o que seria mesmo fazer um jornalismo mais econômico? Como ele mesmo repetiu várias vezes durante a palestra, fazer jornalismo é coisa cara. Jornalismo de análise, com profundidade e com investigação é caro, mas as empresas não podem gastar, então fazer o quê?

A solução que as empresas têm para o futuro do jornalismo é a tendência do nicho. Fazer publicações cada vez mais dirigidas, para um público específico. É a última fronteira da especialização. Dizer apenas o que as pessoas querem ouvir. É o fim da diversidade, da universalidade. O fim da democracia, portanto. Esta é única forma de as empresas sobreviverem. A tendência é a criação de plataformas comunicacionais com múltiplas funções. Pouca gente trabalhando, muito trabalho para cada um, produção para vários meios ao mesmo tempo. Lucro para os patrões, escravidão para os trabalhadores, mas essa parte aí não foi tocada.

Conforme Waisbord as empresas estadunidenses “estão lutando” contra a crise. E neste processo já se fala em formas de financiamento. Os empresários, com perdas de lucro, pensam em várias alternativas para “sobreviver”. Há várias alternativas tais como buscar fundos filantrópicos (?), criar esquemas de membros fixos, trabalhar na lógica do “micropayments” que seria a pessoa pagando pela matéria que consumir, e até mesmo subvenções estatais. Esta última o professor disse que talvez pudesse ser mais difícil porque significaria uma espécie de estatização. Mas, se for para ampliar os lucros, quem duvida? Nesse caso, elementos do “comunismo” poderiam ser bem-vindos. Já pensaram se essa solução viesse da Venezuela ou do Irã?

As novas tecnologias também apontam para mudanças nas práticas jornalísticas. Como hoje qualquer pessoa é um produtor de conteúdo na internet, o monopólio da produção já não pertence mais ao jornalista. “As habilidades jornalísticas estão democratizadas no jornalismo cidadão”. Mais um equívoco do professor argentino/estadunidense. O que ele chama de jornalismo cidadão é a produção de informações por parte das pessoas e dos movimentos sociais que, para nós, está mais na linha da soberania comunicacional. E isso não tira do jornalismo a capacidade de ser jornalismo, porque as pessoas que escrevem nos blogs ou em páginas pessoais não estão vendendo sua força de trabalho. Não estão, portanto, sob o domínio da empresa. Há uma tremenda incompreensão, ou má fé, nesta reflexão. A soberania comunicacional não inviabiliza o jornalismo como profissão. Assim como o jornalismo não inviabiliza a liberdade de expressão. Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa.

Para Waisbord as empresas de comunicação ainda não atentaram para as múltiplas possibilidades das novas tecnologias. “Hoje valem as velhas regras da autoridade do jornalista, há uma distância entre profissional e cidadão. Os jornalistas não têm iniciativa para realizar novas experiências. O jornalismo em profundidade é caro, não é viável. Os jornalistas precisam inventar”. Ou seja, conforme o assessor da ANJ, os jornalistas, além de estarem proporcionando mais mais-valia, aumento de horas de trabalho excedente, por conta das novas tecnologias, ainda precisam ser criativos, inventivos, apontando aos patrões novas formas de eles (patrões) ganharem mais dinheiro. Muito engenhoso isso, e o mais triste foi ver boa parte dos estudantes e professores balançando a cabeça em sinal afirmativo.

Finalizando, Waisbord disse que o futuro do jornalismo é de mais competitividade, não há modelos fechados embora a tendência seja a de fragmentação por grupos fechados, informação feita de iguais para iguais, nada dissonante. Ele concorda que isso pode não facilitar o diálogo, não ser bom para a democracia, mas assegura que é a tendência. Também acredita que o jornalismo deve oferecer mais análise, mais profundidade. E como isso é caro, não conseguiu apontar como fazer isso. Talvez queira dizer que isso fique por conta dos jornalistas “criativos”.

Carlos Müller, da ANJ, acrescentou que há diferenças bem grandes entre os Estados Unidos e o Brasil. “Lá eles tem a primeira emenda, que garante liberdade de imprensa. Aqui já tivemos oito Constituições no mesmo período e seguimos lutando. Lá nos EUA as empresas familiares se abriram para o mercado, aqui ainda não. A vantagem que temos em relação aos EUA é que lá as cadeias de jornais são cada vez mais parecidas e aqui não, temos imprensa regional”. Ora, o assessor da ANJ não deve conhecer seu próprio país. O que ele chama de “imprensa regional” são monopólios regionais, praticamente clones do grande monopólio nacional, reproduzindo a mesma lógica e a mesma proposta de superexploração dos trabalhadores, e aumento dos lucros, tal e qual faz o patrocinador do evento, a RBS.

Enfim, a conversa do jornalista Sílvio Waisbord, trazendo para os estudantes os grandes problemas do empresariado do jornalismo estadunidense só reforça aquilo que já temos muito claro. O jornalismo ensinado na maioria das universidades segue cativo de mentes colonizadas, incapazes de pensar o jornalismo desde os problemas reais daqueles que serão os futuros trabalhadores. A pedagogia do “empreendedorismo” cria no aluno a certeza de que eles são parte desta “família” que são as empresas, que eles precisam ficar solidários com os problemas de rentabilidade dos patrões, que devem encontrar saídas para melhorar os lucros, que precisam ser flexíveis, maleáveis, multifuncionais, capazes de filmar, escrever, postar no blog, fotografar, dirigir, editar, diagramar, e tudo isso nas cinco horas de sua jornadas. Patrocinadas pelas RBS da vida e pela Associação Nacional de Jornais, as atividades acadêmicas oferecem aos estudantes de jornalismo a doce possibilidade do cabresto, da roda de mó do moinho do capital, a escravidão.

Já o pensamento herege, anti-sistêmico, anticapitalista e descolonizado, é rechaçado e ridicularizado. Ou seja, não se dá aos estudantes o direito de sequer conhecer que a moeda do jornalismo tem outros lados que não só o do patrão. Que o diga a comunicação ostensiva subliminar do evento do jornalismo da UFSC, concretizada nos dois imensos banners do Diário Catarinense, a casa grande do jornalismo local.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

O mito da dona da água

Esta é uma história que é contada milenarmente pelo povo Ayoreo, da Bolívia. Dizem eles que no principio havia uma avó, que era um grilo chamado Direjná. Esta avozinha era a dona da água e por onde quer que ela passasse com seu canto de amor, a água brotava. Um dia, os netos pediram que ela fosse embora e ela partiu, triste. Mas, na medida em que ia sumindo, também a água ia embora. Neste vídeo, a história se atualiza e na sua viagem para lugar nenhum a avó é encontrada pelos empresários que a aprisionam e fazem com que ela faça a água cair apenas nos seus caminhões pipa. Então, eles vendem a água. O povo passa necessidade e sofre. A avozinha também sofre. Até que um dia, o povo entende que é preciso lutar. Então….

Vale a pena ver essa beleza de desenho animado, que representa a poderosa luta dos povos originários contra a mercantilização da natureza.

A produção foi feita na Dinamarca, por The Animation Workshop, Nicobis, Escorzo, e pela Comunidade de Animadores Bolivianos. O trabalho de desenho foi realizado por oito animadores bolivianos, dirigido por um francês, com música da embaixadora da Bolívia na França, e a ajuda de um mexicano e uma alemã. Todo juntos na defesa dos recursos naturais.




Abuela Grillo from Denis Chapon on Vimeo.


quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Curtindo Zeca Pires

Peguei uma gripe doida, destas que derruba mesmo, ou caixão ou longa recuperação. Por sorte, fiquei com a segunda opção. Assim, por conta dela me obriguei a descansar, ficar em casa, remexer gavetas e achar coisas que estavam perdidas, sem atenção. Uma delas foi um DVD, emprestado pela Jussara, com os filmes do Zeca Pires, um cineasta catarinense. Então, tarde dessas, depois de alguns quilos de remédio, deitei e fui ver os curtas, já que haveria muito tempo para fruir.

O primeiro deles já foi uma porrada de emoção. “Manhã”, finalizado em 1989, mostrava Ademir Rosa, bem novinho, com aquela cara de guri lindo e levado, e a saudade bateu forte demais. Ela sempre me vem nesses tempos de eleição, pois o Ademir era bicho político. O filme é uma singeleza. Considerado um marco no cinema catarina, universaliza o interior deste estado numa história simples, capaz de tocar qualquer um, em qualquer lugar do mundo. Belo, forte, único. Drummond, Tabajara Ruas, Zeca. Um trio que arromba qualquer tarrafinha...

Depois fui passando os documentários sobre a festa do divino, desde os Açores e o da farra do boi. Gosto dessa coisa de imortalizar a cultura das gentes e, neste caso, duas tradições fortes e viscerais. Em seguida uma ficção, o pungente “A Iha”, drama universal de amor, perdão e buscas. Bonito demais. Eu estava feito uma gata de muro, ronronando de prazer.

Mas o que me fez chorar por horas foi o “Perto do Mar” que, por sorte deixei para o final. E não foi pela história, apesar de ela ser sobre uma morte e tratar da dor de uma perda. Não. Foi pelo fato de ser tão ilhéu. Cada cena, cada pequeno fotograma é a representação exata desta ilha inteira. Seja no cenário composto, no natural e até nos detalhes como a roupa do jovem pescador vestida do avesso. O ator Diogo Dutra é uma belezura. A gente vai ouvindo ele falar e vai se enternecendo com tanta pureza, tanta ternura. Um cinema que fala nossa língua, com o jeito ligeirinho do falar deste lugar.

Eu vi uma vez, duas, três, quatro, e em cada mirada descobria mais coisas desse meu lugar. A santeria, o feijão, as redes, o mar, as gaivotas, os bares da Armação ou do Pantanodosuli, os barcos, a casa de pescador, as carpideiras, os bêbados, o arrasto do peixe, os costões, tudo com aquele sotaque adorável, que só se ouve aqui, em mais nenhum lugar. Ah, essa doida sensação de estar em casa. E ainda tem, de lambuja, o veterano Waldir Brazil, divino como sempre. “Perto do Mar” é um poema, uma coisa linda. É cinema daqui, tão original. Então me veio essa vontade de dividir, e de querer que cada um possa ver e se sentir como eu.

É fato, não nasci aqui, mas esse lugar me acolheu e o reconheço como meu. Todos os dias, no meu Campeche, eu acordo com esse cheiro de mar, e caminho pela beira da praia ouvindo essa fala ilhoa, e meu coração se abranda e se sente em casa. Perto do Mar me pegou por isso, porque diz desse espaço geográfico, e com tal delicadeza, que tudo o que se pode fazer enquanto o barquinho vai adentrando mar afora é chorar e chorar... Não de dor, nem de tristeza, mas por ser ternamente golpeada com essa abissal beleza, natural e humana, que só essa ilha tem. Perto do Mar é um presente...

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Presente da Magali

Recebi, desde Blumenau, vindo de uma linda e antenada repórter... Vale ver e pensar. Eduardo Marinho, Observar e absorver.


sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Os mineiros e a mineração chilena



Como todo mundo, acompanhei, emocionada, o resgate dos mineiros da mina São José. Depois de quase 70 dias enterrados, vivendo nas entranhas da Pachamama, eles voltaram à vida, numa operação de resgate inédita, a qual não faltaram a coragem, a ousadia, a solidariedade, a cooperação. As cenas que se sucediam, a cada homem que vinha à luz, eram de profunda mística. As famílias, principais responsáveis por aquele milagre, esperavam, com o rosto transfigurado de alegria, a chegada dos seus. E eles saiam da cápsula, com a aura de quem havia caminhado no escuro do mundo inferior e voltado para contar. Isso não é pouca coisa para o universo cultural das gentes do atacama. Afinal, no mundo dos likan antay, tal como se autodenominam os originários da região do deserto chileno, o mundo inferior é morada dos mortos. Na Bolívia, os aymara respeitam tanto esse mundo subterrâneo que não há uma mina que não tenha a figura do “tio”, espécie de entidade mágica que faz a ligação entre o mundo de baixo e o de cima. Levar oferendas ao “tio” é imprescindível para que as gentes possam transitar no mundo inferior e voltar. Assim, aqueles homens que viveram a angustiosa espera de quase 70 dias no território da morte, certamente haverão de mudar suas vidas para sempre. Isso é altamente perturbador.

Quem via aqueles homens saindo da cápsula, poderia pensar que aquela gente é quase mineral, talhada em cobre, prata e ouro. As caras angulosas, os narizes esculpidos, tornam os mineiros chilenos uma espécie de escultura forjada na riqueza que produzem dia após dia, cavoucando as entranhas da Mãe Terra. Mas, a história daqueles homens, perdido no deserto mais seco do mundo, não foi sempre assim. Antes da chega dos espanhóis e da invasão de seus mundos, o minério que hoje é responsável pela vida e pela morte, não era usado para gerar riqueza. Ninguém feria a Pachamama para dela arrancar o lucro. Apenas o que brotava do chão era colhido para se transformar em adorno ou objeto de cerimônia. Foram os homens brancos que trouxeram a febre do ouro, e com ela a destruição, que perdura até hoje.

Apesar de ser um dos lugares mais secos do mundo, premido entre os Andes e o mar, o deserto tem seus espaços de vida nas chamadas quebradas, espécie de oásis, com pequenos riachos, onde se concentram as cidades. Ali vivem os atacamenhos desde há milênios. Há registros de que há 11 mil anos já era povoada a quebrada de San Lorenzo, assim como há 1.500 anos já se configuravam verdadeiras comunidades sedentárias, como o povo de Tulor, do qual se pode ver as ruínas das construções e o modo de vida. Essa era uma gente que viva no deserto em harmonia com as forças da natureza. Inscrições nas rochas dão conta de que eles realizavam longas jornadas comerciais, ligando-se inclusive ao povo de Tiahuanaco, na Bolívia e ao povo inca, no Peru. Sob a sombra do sagrado Licancabur (um vulcão) eles faziam cerimônias, davam pago a terra e viviam em paz.

Esta paz só foi quebrada por volta de 1536 quando os espanhóis Diego Dalmagro Valdívia e Francisco Aguirre iniciaram a jornada de conquista pelo interior. Naqueles dias, o povo atacamenho já tinha recebido notícias dos saques e destruição impetrados pelos espanhóis e preparou-se para resistir. Do alto da fortaleza chamada de “Pukará de Quitor” (fortaleza do alto) eles esperaram os brancos e lutaram bravamente por longos 20 anos. Mas, sem armas de fogo ou cavalos, acabaram vencidos pela supremacia bélica das hordas espanholas. E desde aí começou a escalada da mineração naquele lugar de sonhos.

Quem anda pela estrada que vai de São Pedro de Atacama à Calama, não pode deixar de se surpreender com a visão de Chuquicamata, a maior mina a céu aberto do mundo. No meio da paisagem árida e marrom de pedras e areia, aquele gigantesco buraco é como uma ferida aberta, uma espécie de monstro a consumir a vida dos seus 15 mil trabalhadores dia após dia. A lembrança desta cena torna absolutamente perturbadora a cena do grito de guerra dos mineiros chilenos na medida em que cada companheiro saia da mina. Um grito de bravura e de amor a uma profissão que lhes foi imposta pela força e que custou a morte de quase toda a população autóctone dos lugares por onde os espanhóis semearam esta forma estranha de arrancar da terra suas riquezas minerais.

Historiadores da vida chilena estimam que de 1542 a 1560, início do processo de mineração na região do deserto, os espanhóis arrancavam mais de dois mil quilos de ouro por ano, usando para isso a mão de obra escrava do indígena conquistado. A rapinagem foi tão grande que este primeiro ciclo alucinado do ouro durou bem pouco. Ao final do século XVI esta atividade já estava esgotada, não tanto por faltar ouro, mas por não haver mais gente para fazer o trabalho. O genocídio se consolidava.

A nova onda de mineração na região chilena só voltou a crescer no século seguinte quando o capitalismo nascente decidiu alavancar o comércio de matérias primas, dando prioridade aos metais preciosos, dos quais a região era extremamente rica. Naqueles dias a mão-de-obra já se recuperara e o ouro voltou a ser extraído com produção duplicada, assim como o cobre que teve um acréscimo de 20 vezes. No caso da prata o aumento da produção passou para 400 vezes mais, o que custou a dizimação de quase todo povo aymara e quéchua da Bolívia. No Chile, a produção de cobre chegou a duas mil toneladas por ano, quase maior do que a produção de trigo.

Com a revolução Industrial caminhando a todo vapor, o cobre passou a ser um metal muito requisitado, o que aumentou o processo de mineração no Chile. De 60 toneladas em 1826, a exportação para a Inglaterra passou a 12.700 toneladas em 1835. Em 1940 a produção total era de 44 mil toneladas por ano. Aquela era uma riqueza tão essencial que mesmo durante as guerras de independência a mineração se manteve praticamente intocada. E, logo depois da independência, passou a ser vital para o desenvolvimento das forças produtivas no país. Instalada a república e definido o modo capitalista de produção a mineração passa a ser dominada pela elite local assim como por algumas empresas estrangeiras que viam ali uma fonte inesgotável de riquezas. Até porque, se não havia mais a mão-de-obra escrava indígena, agora, a massa de trabalhadores “livre” e empobrecida seria a cereja do bolo. Baixos salários e muita exploração fizeram a riqueza de alguns. Nada muito diferente do que é hoje.

E foi assim que o Chile converteu-se num país de mineradores e mineiros. Quando o século XX chegou, a exploração anual da prata chegava a 150 mil quilos e, embora o cobre tivesse caído bastante, ainda representava importante setor da economia. Naqueles dias outros minerais assomavam para garantir mais lucro aos donos das minas: o salitre e o carvão de pedra. As riquezas brotavam do chão, mas só para alguns. Por isso, acaba sendo tão desolador um passeio pela cidade de Calama, por exemplo, onde a pobreza e falta de estrutura são gritantes. Ali vivem os que adentram ao “mundo inferior” para extrair as riquezas que jamais serão usufruídas por eles, nem mesmo em termos de políticas públicas. O Chile, como se sabe, depois de viver uma longa e feroz ditadura, foi o produto mais acabado das políticas neoliberais, privatizando praticamente tudo.

Salvador Allende, durante o curto período que ficou no poder chegou a nacionalizar algumas minas e delimitar o investimento estrangeiro, mas tudo isso foi pelo ralo com o golpe militar, que voltou a entregar as riquezas minerais do Chile às grandes empresas transnacionais. Nos anos 90 do século XX, o setor mineiro chileno vive outro momento de expansão, também fruto de gigantescos investimentos estrangeiros. Leis específicas são criadas para dar legitimidade ao saque e, segundo dados do próprio governo (http://www.minmineria.cl/574/w3-propertyvalue-1986.html) nas últimas décadas foram registrados ingressos que oscilam de 73 a 245 milhões de dólares anuais. Entre 1990 e 2002 entraram 18 bilhões de dólares. Desde 1990 o Chile triplicou a produção de cobre, chegando a 4,6 milhões de toneladas anuais.

Os fatores que levam os estrangeiros e a elite local a investir tanto dinheiro na atividade mineira são alardeados pelas autoridades, assim como o presidente Piñera alardeou ao mundo no seu discurso, tão logo saiu o último mineiro da mina acidentada: “a fortaleza e a capacidade técnica de nossa gente”. Nos relatórios de empresas especializadas em mineração no Chile, que podem se encontrados na internet, esse fator também é contado como fundamental. O braço forte do homem chileno, e o baixo salário que ele recebe por isso.

Dados divulgados por uma empresa chamada de “Corporação para o desenvolvimento da região do Atacama” mostram friamente a situação dos trabalhadores diante destes exuberantes números de investimentos e exportações: A pobreza extrema toma quase 20% da população, o índice de aproveitamento escolar das crianças é baixíssimo e menos de 2% de quem termina o segundo grau vai para a universidade, os índices de desenvolvimento humano nas cidades da região são ínfimos. Não há saneamento, as moradias são precárias, não há saúde pública, muito menos educação. Por outro lado, 47% da economia gira em torno da mineração, dali saem 90% do ouro, 82% da prata e 100% do ferro e 80% de tudo que é exportado. Até 2015 estima-se que mais de 162 milhões de toneladas de cobre possam ser exploradas. Ou seja, é o lugar perfeito para uma empresa investir. Como bem já definiu Ruy Mauro Marini, a periferia do sistema capitalista se caracteriza justamente pela capacidade de superexplorar o trabalho. Ou seja, não basta ao capitalista sugar a tradicional mais-valia, é preciso ampliar essa marca, estendendo a corda até as últimas conseqüências.

Neste universo de números astronômicos, riquezas polpudas e exploração desenfreada dos trabalhadores ainda há que se discutir os motivos reais que levaram ao acidente da mina São José. Um senador ligado ao setor mineiro, Carlos Cantero, apressou-se em dizer que o acidente não pode servir para demonizar as médias e pequenas empresas mineradoras que, via de regra, são as que investem menos em segurança. E, nesta onda, o presidente Sebastián Piñera, que nadou de braçada no “espetáculo” da retirada, também prometeu aos mineiros que vai pedir um relatório minucioso sobre as condições de segurança das minas e que vai investir muito mais neste setor. “Não só no setor mineiro, mas também na educação e na saúde”, prometeu, eufórico, no discurso final pós-resgate. Nunca é pouco lembrar que o homem afável e sorridente que acompanhou a saída de cada um dos mineiros acidentados é o mesmo que se manteve inflexível diante de uma greve de fome dos prisioneiros políticos da etnia Mapuche, que estão presos acusados de terrorismo, embora tudo o que tenham feito seja lutar pela demarcação de suas terras e por autodeterminação.

No caso da mina São José, o que fica de perplexidade é que seus donos, Marcelo Kemeny y Alejandro Bohn, já são bastante conhecidos no Chile pela falta de cuidado com os trabalhadores. Uma reportagem de Claudia Uriquieta dá conta de que existem muitas demandas judiciais contra eles, justamente por falta de segurança no trabalho, tendo já sido registradas pelo menos três mortes, dezenas de feridos, muitos mutilados, além de vários desabamentos. O sindicato dos trabalhadores vem desde longa data exigindo que as minas tenham sempre duas áreas de escape, para que não aconteça justamente o que aconteceu. Mas, a Suprema Corte chilena negou o pedido dos trabalhadores, protegendo assim os empresários que teriam de investir muito mais para garantir a segurança dos mineiros. E, para coroar este completo desdém pela vida dos trabalhadores, estes empresários ainda são agraciados com prêmios e recebem títulos de patronos dos mineiros (http://www.iela.ufsc.br/?page=noticia&id=1525).

A retirada dos mineiros da mina desabada seguiu todos os rituais do espetáculo midiático. Apenas a cena carregada de emoção da saída, do encontro com familiares, a dedicação dos socorristas. As redes a cabo ainda conseguiram apresentar uma entrevista aqui e ali falando dos problemas recorrentes no campo da mineração chilena. Mas, ao final, o que restou foi a catarse. O povo chileno nas ruas, com bandeiras, as lágrimas, os sorrisos, a alusão à solidariedade de todos, à fortaleza destes trabalhadores que conseguiram sobreviver a uma longa noite no mundo inferior. O presidente ainda foi aclamado como um herói, porque, afinal, gastou 20 milhões de dólares com o resgate. Ora, foi até pouco diante da dívida histórica que tem com esse povo que, no segundo quartel do 1500 foi obrigado, por conta da invasão, a se transformar em uma espécie de tatu, esburacando a terra em busca de riquezas que não consegue verdadeiramente tocar.

E agora, passada a ressaca do “espetáculo”, o que acontecerá naqueles fundões do deserto? Um milionário chileno já adiantou que vai doar uma bolada para cada um dos sobreviventes. E as gentes se emocionam com esse empresário tão bonzinho. É a versão chilena da “síndrome do Gugu”, essa perversa proposta de dar uma casa a um pobre por semana, resolvendo assim a vida de uma família, e evitando que a luta coletiva cresça para dar conta da melhoria da vida de todos. Estes mineiros que ficaram prisioneiros no interior da Pachamama podem até melhorar de vida. Mas e os milhares de outros trabalhadores que seguirão arriscando suas vidas nas minas mal cuidadas e sem proteção? Quem chorará pelos que caírem soterrados nas centenas de acidentes que acontecem recorrentemente?

A resposta a essa pergunta já foi dada, pelo próprio espetáculo midiático, e, como dizia Jesus: quem tem olhos para ver, que veja. Quando o último homem saiu da cápsula, era um dos socorristas que haviam descido para ajudar os mineiros, todas as atenções já estavam no presidente Piñera, que dava seu discurso. Apenas um quadrinho, no lado direito da tela mostrava a chegada daquele ser humano anônimo. O presidente seguia, sorrindo, faceiro, fazendo promessas ao Chile, enquanto os trabalhadores se abraçavam e acolhiam o companheiro. Estavam ali, sozinhos, outra vez. O poder instituído já estava viajando em outra órbita.

Por isso, não há heróis neste drama latino-americano. Há, isto sim, a repetição do eterno mesmo. Aos trabalhadores cabe conhecer a história e aprender a lição que foi dada pelos familiares dos soterrados. Aquela gente atacamenha, aquela gente forjada no cobre e na rocha do deserto, não arredou pé da mina. Fez acampamento, exigiu. E foi essa força que garantiu o resgate. Nada mais que isso, a força do povo unido. Se as gentes em pequeno número conseguem coisas assim, o que não conseguirão os trabalhadores, juntos?


segunda-feira, 11 de outubro de 2010

12 de outubro – Dia de Resistência e Luta dos Povos Originários

O dia 12 de outubro marca um momento importante na vida dos povos desta parte do mundo. Foi neste dia, no longínquo 1492, que Cristóvão Colombo aportou numa pequena ilha do Caribe, achando que havia chegado às Índias. Ele e seus homens não vieram em paz. Tudo o que queriam era o ouro e não respeitaram coisa alguma no caminho. Com eles chegaram também a violência, o genocídio, a destruição, coisas típicas do capitalismo nascente. As terras novas foram invadidas por hordas de europeus em busca de riqueza e aos povos originários foi dada como opção a escravidão ou a morte. Mas, entre os que aqui já viviam desde há milênios, assomou outra proposta: resistir e lutar!

Muitas foram as batalhas contra o branco invasor, até com algumas vitórias, como a famosa “noite triste” (para os espanhóis e não para os originários), em 30 de junho de 1520, quando os guerreiros mexicas imprimiram uma fragorosa derrota a Hernán Cortéz. Ou, para lembrar as lutas dos povos de Pindorama (Brasil), a Confederação dos Tamoios em 1556, chefiada pela valente nação Tupinambá contra os portugueses, que obrigou a libertação de todos os escravos. Mas, ao fim, os povos de Abya Yala não puderam vencer as armas de fogo, tecnologia que não conheciam. Assim, pouco a pouco, todas as terras desta parte do continente foram sendo invadidas e as gentes autóctones que não aceitavam a integração à força, ou eram mortas ou obrigadas a viver em reservas, como bichos exóticos. Por longos tempos Portugal e Espanha saquearam as riquezas do novo continente. Muito do ouro e da madeira nobre que se vê nos castelos e igrejas da Europa foram tirados daqui. Até mesmo a tão aclamada revolução industrial só foi possível por conta do ouro e da prata que os ingleses levavam de Portugal e Espanha, os quais, por sua vez, roubavam de Abya Yala.

E desta forma foi se formando a riqueza européia enquanto os povos da agora chamada América Latina seguiram na periferia, praticamente a margem das benesses do desenvolvimento, que só se fazia possível por conta das riquezas saqueadas. Os tempos passaram e as gentes originárias foram elaborando sua resistência na quietude das planuras, na solidão das montanhas. Por isso, quando todos imaginavam que o extermínio já estava consumado e nada mais restava além dos “reservados exóticos”, os povos originários reaparecem com força total, lutando com unhas e dentes para preservar aquilo que consideram sagrado: a terra, a água, as floresta, enfim, o ambiente, como um espaço bendito de tudo aquilo que vive.

Para os povos autóctones o chamado “desenvolvimento”, para além das bugigangas modernizantes que podem ter melhorado a vida de todos no cotidiano da vida urbana, trouxe principalmente a destruição. Observando como o capitalismo organizava a vida das gentes ao longo de todos estes anos de dominação, os originários compreenderam que isso era ruim e não lhes servia. Nesse sentido eles propõem outro conceito, nascido de suas próprias entranhas, do conhecimento e do contato que eles sempre mantiveram com as forças da natureza: o bom viver. Esta é uma forma de organizar a vida que pressupõe elementos esquecidos e abandonados pelos homens e mulheres “modernos”, mergulhados no modo de produção capitalista. As propostas do bom viver são a de um desenvolvimento capaz de servir às gentes e a natureza, em harmonia, o que por si só já descarta o modo de produção capitalista, no qual para que um viva, outro tenha de morrer. O bem viver não comporta o acúmulo de riquezas, pois tudo o que há sobre a terra e que os seres humanos produzem juntos deve ser repartido. No bem viver o centro de tudo é a vida comunitária, esta é a que deve ser preservada e conservada.

Talvez para as pessoas acostumadas ao modo de viver ocidental, capitalista, seja praticamente impossível compreender o significado real do sumak kawsai (o bom viver), porque suas mentes e corpos já estão acostumados a acreditar que a melhor vida possível é essa que está aí, com a competição, o desenvolvimento predador, o egoísmo, o individualismo. Mas, nunca é tarde para se debruçar sobre essa proposta que emerge das profundezas da vida originária. E, que fique bem claro. Não se trata de voltar ao passado, renegando todos os avanços da humanidade. Não. Até porque cada avanço diz respeito a toda a comunidade humana. Nenhum invento, nenhum conhecimento dito “moderno” foi criado a partir do nada. Tudo é fruto da comunidade, seja na herança do saber, seja no financiamento, seja no alto preço que pagam os da periferia para que o centro cresça e produza riqueza. Tudo está interligado. Tudo é conquista comunitária, embora o sistema insista em fazer crer que são pessoas isoladas, ou países específicos, os que logram fazer caminhar o conhecimento.

O que as gentes originárias colocam na grande mesa do saber humano é uma proposta de vida que está ao alcance de todos, autóctones ou não. Equilíbrio, solidariedade, cooperação, respeito, justiça comunitária, alteridade, interação com a Pachamama, sacralidade da vida mesma, como ressalta Dussel. É uma proposta radical, revolucionária, que exige a “desconexão”, tal qual já propôs Samir Amin. Adentrar ao modo de vida do bem viver significa uma ruptura completa com o modelo capitalista. É um desafio abissal, que exige compromisso e desapego. Exige a destruição de todos os valores do mundo moderno e a aceitação de um jeito de viver comunitário absolutamente desconhecido para a maioria das gentes.

É por isso que neste 12 de outubro, em todas as parte de Abya Yala, os povos originários estarão celebrando e apontando caminhos. Celebram, não a conquista de Colombo, porque, afinal, nunca se deixaram vencer. Celebram a resistência. É certo que por algum tempo, premidos pela força bruta, aquietaram seus corpos, mas, lá dentro, vibrava, acesa, a chama do que chamam de bom viver. No escuro de suas choças, eles chamavam seu nome e esse desejo seguiu andando pelas cordilheiras, pelos caminhos. Na escuridão da noite destes 500 anos, eles acendiam fogueiras, davam pago à Pachamama, reverenciavam seus deuses. Agora, estão aí, à luz, cada dia mais fortes, reivindicando seu comunitário jeito de viver, autonomia e autodeterminação.É tempo de aprendermos com eles.

Assim, o 12 de outubro, que é visto pelo colonizado como o Dia do Descobrimento ou, pelos bem intencionados como o Dia da Raça, é, na visão do originários o Dia da Resistência, o Dia da Luta, a hora de fazer ecoar por todos os cantos da terra essa boa nova: as gentes autóctones estão vivas, estão crescendo, dizem a sua palavra e propõem mudanças. É chegada a hora do bom viver!