domingo, 25 de março de 2018

Os deuses


Uma das cenas mais lindas da série "American Gods", é essa, no episodio sete, quando Essie Macgowan encanta. Nessa hora abissal ela encontra o seu deus, aquele de quem cuidou uma vida inteira. É um encontro lindo, pleno de ternura e delicadeza. E assim que penso que deve ser a morte. Quando aquele de quem cuidamos no altar de nossos mais secretos desejos de amor, diz delicadamente nosso nome e nos toma pela mão.

Definitivamente o momento mais bonito de Pablo Schreiber como um Leprechaun, um ser mítico da velha Irlanda.


quarta-feira, 21 de março de 2018

Sobre caravanas e ódios de classe

Possivelmente dois trabalhadores

Num desses filmes de roliude chamado “Django Livre” há um personagem que espelha claramente a cara feia desse nosso mundo eivado da herança colonial e escravocrata. É o velho negro, mordomo do senhor de escravos, que tripudia dos negros da senzala e goza de prazer quando os vê passar pelas terríveis dores da tortura. Ele, como negro, e convencido da sua “inferioridade”, não suporta ver um negro livre ou um negro que se rebele contra o horror. Então, de livre vontade assume a postura do opressor. É um servo voluntário, arrastando-se atrás do patrão, tentando abocanhar as migalhas que caem da mesa colonial. Pode-se compreender que aquela seja a estratégia que ele desenvolveu para permanecer vivo, mas não é possível deixar de odiá-lo. E o final do filme representa bem isso. Ou estamos com os nossos, com nossa classe, ou não estamos. 

O mesmo sentimento me invadiu ontem ao ver centenas de comentários sobre a ação de alguns latifundiários, acompanhados de populares, no Rio Grande do Sul, contra os apoiadores da caravana do Lula. Uma cena em particular atraiu mais ferozmente os comentários dos servos voluntários de plantão: a de um jovem agricultor dando de relho em um sem-terra. Imediatamente me veio a cena do filme, quando Jango está sendo torturado e o velho mordomo vem tripudiar dele.  Um horror. Digo isso porque tenho plena certeza de que mais de noventa por cento das pessoas que divulgaram a  foto com comentários de ódio contra os sem-terra ou contra os apoiadores de Lula certamente não são donos de terra, nem donos de meios de produção. São os mordomos. Ou seja, tal qual aquele sem-terra são obrigados a vender sua força de trabalho para viver. São da mesma classe.

Não, eu não gosto do Lula. Penso que o governo petista, ao longo dos anos que esteve no poder, foi bastante responsável pela classe trabalhadora não ter avançado politicamente. Nesses anos todos os sindicatos se domesticaram e os movimentos sociais esperaram muito do governo. Um muito que não veio. Reconheço que o governo petista foi diferente dos demais governos de “casa-grande”, afinal, as tais políticas públicas conseguiram chegar a milhões de pessoas que sempre estiveram fora dos planos governamentais. Não foram as melhores políticas e ainda foram muito tímidas, mas os empobrecidos diminuíram e gente que passava fome, passou a comer. Isso foi real.

Mas, o fato concreto é que os governos petistas serviram muito mais à casa-grande que aos trabalhadores. O agronegócio cresceu, os bancos tiveram lucros astronômicos, os ricos ficaram mais ricos, a dívida não foi auditada e ainda foram aprovadas leis que penalizam os trabalhadores que lutam, como a lei antiterrorismo. 

Então porque tanto ódio contra Lula? Se ele serviu muito bem aos interesses da classe dominante? O ódio dos ricos eu entendo. Eles usam os que os servem até quando querem. E quando não querem mais, ou não precisam deles, descartam. Simples. Sempre haverá outro e outro pronto a servir. Então que um latifundiário cuspa no Lula, posso compreender. Lula não vem de sua classe. O que não compreendo é o estranho mecanismo que leva o brasileiro médio, subalterno, da classe trabalhadora, a odiar tanto esse homem, a ponto de realizar passeatas de mãos dadas com a classe que o oprime. Sim, porque entre os que disseminam horrores contra Lula e Dilma não vejo um que o odeie por ele ter governando mais para os ricos do que para os pobres. Não. É a compra cega do discursinho televisivo da “corrupção”. No geral, essas pessoas que cospem ódio sequer sabem bem como foi que os governo petistas se comportaram, para o bem ou para o mal. A impressão que dá é que o ódio ao Lula se dá porque ele tem aparência de pobre, fala como pobre, age como pobre. E aí aparece aquele sentimento do mordomo lá do filme do Tarantino. Entre os serviçais não há quem suporte ver um dos seus comendo à mesa dos patrões. O ódio não é nem pelo fato de um dos seus ter se aliado com os patrões (o que seria interessante e pedagógico), é só pelo fato e ele estar na posição de patrão sem ter cara ou jeito de patrão. A coisa é louca, mano.

As manifestações contra a caravana do Lula no Rio Grande não foram organizadas de maneira espontânea por agricultores e populares, como quer fazer crer a mídia. São manifestações organizadas por partidos políticos como o DEM, o PSDB ou o PMDB, partidos que congregam os latifundiários e a classe dominante do estado. Foram organizados por movimentos do tipo do MBL que são financiados por pessoas e entidades ligadas a esses partidos ou a organismos internacionais de direita. Portanto, são manifestações político-partidárias sim, realizadas dentro do contexto do cenário das eleições. Nenhum desses dirigentes que organizam atos contra o Lula pelo Brasil promove as manifestações porque o Lula é ladrão ou corrupto. Não. É porque eles querem pegar o lugar do Lula para serem os ladrões e os corruptos. Esse é o jogo no mundo capitalista de produção. Esse é o jogo eleitoral.

E, nesse festival de manipulação, aparecem aqueles que como o mordomo da casa-grande, acreditam firmemente que o país estará melhor na mão dos senhores de terra, dos senhores de fábricas e nos senhores de escravos. Esses precisam ser conquistados para sua própria classe. Um trabalho quase inglório, mas que precisa ser feito.  

As cenas provocadas no Rio Grande e outras que deverão vir no Brasil todo a continuar a caravana de Lula, são, quer a gente queira ou não, cenas explícitas da luta de classes. Porque os que estão do lado de Lula são conhecidos lutadores sociais, gente que também firmemente crê que, com Lula, a vida dos trabalhadores vai melhorar. São aqueles que acreditam que as transformações podem vir a conta gotas, uma melhoradinha aqui, outra ali, mesmo que as políticas públicas sejam raquíticas e insuficientes. E são tantos os que dão a cara para bater nessa luta por tão pouco. Há que respeitá-los e dialogar com eles, porque, no geral, são nossos companheiros de muitas lutas. Não são eles os inimigos.

Não creio que Lula seja a solução para o Brasil. Minhas expectativas são mais altas. Sonho e luto por transformações estruturais, radicais, que mudem verdadeiramente a face do país. Luto pela emancipação real dos trabalhadores, pelo fim da propriedade privada, pela socialização da riqueza, pelo fim da exploração. Isso não é coisa que se faz com política pública. É coisa que se faz com revolução. Por isso, caminho por outros caminhos. Mas, respeito profundamente cada companheiro ou companheira que está na estrada da defesa do petismo. Espero firmemente que, no embate cotidiano com a classe dominante, cada um e cada uma possa avançar nas expectativas. Não apenas um país “mais” justo. Não apenas um país com “mais” oportunidades para os pobres. Mas um país justo, sem pobres. Alguém pode argumentar que isso se faz passo a passo, por etapas, com calma, devagar. Mas eu acredito na possibilidade do salto, o salto abissal, que rasga a história e muda o mundo. 

Nunca estarei do lado da classe dominante. Isso é seguro. Mas, precisamos querer mais do que “um pouquinho mais”. Que as caravanas e os conflitos sirvam para essa reflexão. Que os embates sejam pedagógicos. Sabemos que é o inimigo e vamos enfrentá-lo. E há que ser juntos!



domingo, 18 de março de 2018

Sergio Weigert, mestre


Trabalho como escriba desde os 12 anos praticamente. Comecei minha sina de contadora de histórias reescrevendo os contos de Simões Lopes Neto, adaptando-os para uma linguagem falada no rádio, para um programa que o meu pai tinha na Rádio Fronteira do Sul, em São Borja. Depois, o caminho natural foi o jornalismo. Na escola, nos movimentos sociais, escrever era comigo mesmo. Mas, comecei a atuar profissionalmente, como repórter, aos 21 anos, na TV Umbú, de Caxias do Sul. E, nessa lida, sempre andei ligada às causas dos trabalhadores. Eu vinha de uma militância já bastante consolidada, seja na luta contra a ditadura ou na batalha pela anistia. Consciência de classe não me faltava. Naqueles dias tentei fazer a faculdade. Mas, em Caxias, só havia universidade particular. Fiz vestibular, passei, mas não dei conta de pagar as mensalidades. À época, chorei demais, mas o tempo mostraria que aquele mal viria para bem.

Em 1985 tive a sorte de ir trabalhar na TV Passo Fundo, onde mergulhei de cabeça na realidade dos trabalhadores sem-terra. Cobrindo a primeira grande ocupação organizada do MST, na Fazenda Anonni, todas as minhas inquietações sobre a realidade brasileira foram se consolidando na certeza de que era preciso operar uma grande transformação nesse país. A democracia chegava capenga e todo o processo de luta e repressão vivido pelos acampados de Anonni reforçaram em mim o caminho que já havia escolhido desde pequena: o da classe trabalhadora, sempre, e sem concessões.

Minha vida de repórter, mesmo dentro de uma empresa comercial ultraconservadora como a RBS, foi sempre pautada pelo compromisso de garantir espaço para as vozes dos trabalhadores e trabalhadoras se expressarem. Sempre encontrava jeito de isso acontecer. E são muitas as histórias das minhas artimanhas. Mas, apesar de todas as minhas certezas consolidadas eu sentia que precisava estudar mais e mais. Sobre o jornalismo e sobre a política. Decidi fazer vestibular para jornalismo na federal de Santa Catarina. A prova era em Chapecó, perto de Passo Fundo. E para lá fui, na esperança de passar. Seria uma federal, eu não teria de pagar nada. Era minha chance de crescer intelectualmente depois de mais de dez anos fazendo jornalismo à facão, sem formação acadêmica.

Quis o destino que eu passasse no vestibular e fosse estudar na UFSC. Lá, encontrei o homem que daria sentido a minha vida de jornalista. Ele mudou minha vida inteira, balançou todas as estruturas, fortaleceu algumas certezas e abriu para mim um caminho que nunca mais teria volta: o da filosofia. Seu nome é Sérgio Weigert. Era professor de Realidade Brasileira. Chegava à aula com o cabelo desgrenhado, gritando feito louco, nos provocando, nos incentivando a ultrapassar a mediocridade. Mandava-nos ler os textos mais incognoscíveis. E exigia compreensão. Quantas noites de chimarrão e pipoca vivemos Roseméri Laurindo e eu, tentando decifrar Horkheimer. Era como o inferno na terra.

Um dia chegou com a máxima de que índio não tinha história. Pra quê? Foi o maior furdunço na sala. Eu o odiava. E discutia com ele que aquilo era um absurdo. “Prova pra mim, então”, provocava e eu corria para a biblioteca devorar Darcy Ribeiro e tudo mais que havia sobre índios. E quando eu voltava e discutia, argumentando com vários autores, os seus olhos brilhavam de alegria. “Muito bem, guriazinha”. Era um mestre, nos fazendo descobrir as coisas por nós mesmos.

Com o passar do tempo o ódio foi virando amor. E as aulas do Sérgio passaram a ser a razão de chegar à universidade. Na cadeira de Realidade Brasileira o trabalho final foi absolutamente instigante. A tarefa era de que cada aluno apresentasse uma proposta anti-hegemônica de nação. Pensa? E nós a fizemos. Outra cadeira que ele deu foi a de Estética. Era uma viagem alucinante de filosofia e arte. E tudo era passado com uma intensidade louca. Sérgio era ele mesmo um vulcão, alegre, festivo, devorador. Passava noites e dias lendo, estudando, e chegava desvairado tentando passar para nós tudo o que descobrira nas leituras. Suas aulas eram momentos estelares. E toda aquela beleza se espraiava para além da sala, quando desfrutávamos da sua incrível biblioteca caseira. Obras completas de Lenin, Marx, Adorno, Agnes Heller, Luckás e muito mais. Estudar com Sergio era mais do que aprender, era ser, inteira e total.

Por fim, ele nos apresentou Adelmo Genro Filho. Ai foi a cereja do bolo. Porque Adelmo é seminal. É rei. É único. É o que garante um jornalismo de qualidade, ao qual me agarrei para sempre. Sérgio e Adelmo ficaram desde então colados em mim.

A universidade acabou, e os caminhos do Sergio foram seguindo novos rumos. Ele foi estudar na França. Mas, apesar da lonjura, seguia perto, até porque parte de sua biblioteca ele tinha deixado comigo, e outra parte com minha amiga Catarina. Então, a gente continuava bebendo de sua sabedoria. O tempo passou, ele voltou e enfrentou toda a dureza da falta de solidariedade no Curso de Jornalismo, quando alguns colegas queriam exonerá-lo, chamando-o de louco. Naqueles dias estivemos por perto, vivendo com ele toda a dor. Depois, ele foi para Porto Alegre, já aposentado e veio a terrível agressão que o colocou em coma.

Acompanhamos de longe, sempre torcendo para que se recuperasse. Mais tempo passou e ele foi enfrentando suas limitações. Segue firme. Vivo e ainda sedento de saber, como sempre. E ainda que esteja longe, lá em Porto Alegre, para mim, ele é o mestre da vida. Em cada confusão intelectual, cada descoberta, eu sempre penso: que diria Sergio? E busco na sua alucinada alegria de saber a força para encontrar os caminhos.

Dia desses procurando por ele na Internet, a ver se tinha alguma notícia, me deparo com sua carinha sorridente e a notícia de que os professores Salo de Carvalho e Mariana de Assis Brasil Weigert haviam lançado um livro com alguns dos seus textos. Foi uma explosão de alegria. Saber que os escritos desse homem apaixonante agora estariam públicos e eternos. Liguei na hora para a editora para comprar o meu.

Pois ontem o livro chegou, "Marxismo e Modernidade - ensaios críticos sobre utopia e emancipação". Está entre minhas mãos, dormi abraçada nele e agora, nessa manhã de domingo, vim escrever, para dar vazão aos sentimentos. E a emoção que esse trabalho me provoca é tão intensa que não consigo parar de chorar. A alegria é oceânica.

Guardo até hoje o projeto anti-hegemônico de nação que fiz para a aula do Sergio, o qual contém um elogio e um A+. E a ele recorro sempre que preciso de força para seguir nas minhas reflexões filosóficas e na vida política. Meu mestre amado, sempre aqui. Mas, agora, com o livro, outros textos dele me acompanharão. E vou sorvê-los como se fora o chimarrão há tanto tempo esperado: devagarito, saboreando.

Obrigada por isso Salo de Carvalho. Obrigada Mariana. Sergio, agora, vive para sempre.


segunda-feira, 12 de março de 2018

Sempre é tempo de aprender



A vida é mesmo uma coisa mágica. Vivo isso todos os dias com meu pai. Aos 86 anos ele agora vive uma fase de esquecimentos. Mas, ao mesmo tempo, surpreendentemente, ele também aprende coisas novas. Durante toda sua vida nunca foi uma pessoa preocupada com o ambiente. Nunca teve isso isso incorporado ao seu viver. Homem comum, trabalhador, da casa para o trabalho, honesto e cumpridor. 

Agora, vivendo na minha casa, ele passou a observar os costumes da nossa vida. Temos uma vida simples e regradinha nos cuidados com a Pachamama. Lixo reciclado, plástico com plástico, lata com lata, papel com papel. Temos também um bom pomar e uma composteira que produz minhoca e terra boa. Observando, ele reparou que todo o material orgânico a gente deposita lá no fundo, perto da horta, e passou a fazer disso também a sua rotina.

Dia desses levei pra ele uma banana, para que comesse antes de dormir. Já era umas nove e meia da noite. Ele agradeceu e eu sai. Dali a pouco o vi passar pela cozinha em direção ao pátio, com seu passinho arrastado e levinho. Carregava a casca de banana na mão. 

- Onde vai, pai. Já é noite!
- Vou colocar a casca lá onde tem que ser. 

E se foi pelo escuro na direção da composteira. Pois agora ele faz dessa prática um ritual sagrado. Guarda todas as casquinhas para espalhar no lugar das minhocas. E volta feliz, fazendo o sinal de positivo.   




domingo, 11 de março de 2018

30 anos de amizade




Conheci essas duas num março de 1988 e lá se vão 30 anos.

Uma delas vislumbrei na porta da sala de aula, no Curso de Jornalismo, com seu cabelo enroladinho e roupa hippie. A conexão foi imediata. Iriamos partilhar juntas toda a aventura de estudar jornalismo, lendo e discutindo texto pelas noites a fio, com pipoca e chimarrão. Vez em quando ainda meio bêbadas, chegando das domingueiras do Clube 15, depois de nos esbaldar na lambada. Desde aquele março vivenciamos belezas e dores, sempre juntas. Passamos por amores, viagens, noitadas de samba e cumplicidades. Brigamos, ficamos sem falar, mas a amizade sempre foi maior que a zanga.

A outra entrou na minha casa pela mão de um companheiro que morava comigo na república do Itambé. Namorou com ele, terminou, mas seguimos amigas. No primeiro dia em que a vi, não gostei. Carinha de entojada e filha de militar. Pacote perfeito para a exclusão. Mas, não sei por que cargas d´água, acabamos acertando os ponteiros e nunca mais nos separamos. Enfrentamos tormentas e alegrias. Ela é a única pessoa no mundo que me procura quando está transbordando de felicidade. Uma qualidade ímpar. Brigamos, ficamos sem falar, mas a amizade sempre foi maior que a zanga.

Todas duas têm suas diferenças e dessemelhanças. Por vezes já se estranharam entre si, mas nossa unidade sempre prevaleceu. O tempo passa e a gente segue se acompanhando, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. Vivemos longe, mas estamos perto.

Ontem encontrei essa foto, de um dia de 2004, quando elas vieram conhecer minha casinha, a primeira e única, meu cafofo, o sonho de uma vida inteira, conquistada com a dificuldade de sempre na vida de um trabalhador. E só foi possível, paradoxalmente, depois de uma demissão. Com a grana da rescisão, ergui a casinha.  Foram elas as primeiras a encher de boas energias minha morada. Talvez por isso tenha tanta alegria aqui.

Nesse março celebramos 30 anos de amizade verdadeira, dessas que não se quebra. É uma vida inteira, uma vida de partilha e de comunhão. Com elas, aprendi e ainda aprendo, todos os dias. Com elas, a vida fica leve. Com elas, pretendo seguir até que a ceifadora venha me levar. Porque juntas sempre somos melhores.

Amo vocês...  Feliz “Bodas de Pérolas” para nós... 30 anos, não é bolinho!



Uma noite no Campeche



Capela São Sebastião, no Campeche. A missa terminou, mas boa parte das gentes não foi embora. E, pelos caminhos, outras pessoas chegavam. Vinham para um encontro importante demais: um encontro com a história. Dentro do salão foram se agrupando. Famílias inteiras, cheias de expectativa e orgulho. Amigos se encontravam e trocavam abraços. Crianças corriam e alguns moradores, bem velhinhos, vinham amparados por filhos e netos. Aquela seria uma noite de lembranças e de belezas. A comunidade viva do Campeche vinha reviver suas velhas histórias.

O responsável por tudo isso é Hugo Adriano Daniel, nascido e criado nas veredas do Campeche, que, agora, professor de história, decidiu que era chegada a hora de registrar para a eternidade a vida pulsante que deu origem ao bairro. Mas não aquela história fria, de documentos e datas. Sua opção foi pela memória das gentes. Na conversa com os mais velhos do bairro, ele foi desenterrando a história viva, essa que é feita do sangue e do suor de homens e mulheres que, na força do braço, constroem o mundo. E a teia de vida tecida por Hugo se materializou num livro, que foi apresentado a todos.

Por uma hora Hugo Daniel mostrou velhas fotos e foi tecendo a colcha de lembranças. Lugares, pessoas, causos. E da boca foram brotando nomes, datas, histórias engraçadas, histórias tristes. Muitos dos personagens ali estavam, cerimoniosos, ouvindo suas próprias histórias com reverência. E Hugo foi apontando e agradecendo um a um, uma a uma. E a comunidade respondia com palmas, risos, gritos e lágrimas. Seu Erasmo, velho comerciante na loja de quem quase todas as famílias do lugar se abasteciam, o primeiro ônibus, o padeiro que deixava o pão nas sacolinhas que ficavam penduradas nas portas das casas, a dona Nicota, os cantores da festa do Divino.

O tempo passou num átimo, e quase ninguém se deu conta, mergulhados que estavam no Campeche de antes. As origens do bairro, a raiz de quase todos os que ali estavam.

Poucas vezes na vida pude viver algo assim. Uma comunidade inteira abraçada em si mesma, se reconhecendo e reconhecendo sua própria história. Ali estava o gurizinho que sujava os pés em bosta de vaca nos potreiros do bairro, agora recompondo os caminhos que foram apagados pelo asfalto e pela expansão imobiliária. “Não podemos deixar que nos tirem a memória”, insistiu. E suas conversas com os velhos agora imortalizando a história.

O livro “Campeche – um lugar no sul da ilha” é uma história de amor. E nas suas páginas saltam personagens inesquecíveis, histórias para guardar no fundo da memória e para serem contadas aos filhos e netos. Porque uma comunidade só pode avançar se lembra de si mesma, de suas raízes. O Hugo desenterra cada uma delas, deixa à flor da terra. E, assim, garante que a lembrança seja o adubo capaz de manter forte o fruto.

O Campeche é um bairro de luta, um bairro jardim, um lugar onde a vida simples, do jeito açoriano, ainda resiste. E quando a gente vê o que viu ontem, fica cada vez mais claro de que a história e a cultura local seguirão preservadas e protegidas, porque vivem na memória.

O lançamento do livro do Hugo, editado pela Insular, essa editora da ilha, do Nelson Rolim de Moura, o Nelsinho, que insiste em acreditar nos escritores locais, foi um desses momentos estelares, inesquecíveis. Bem do jeito campechiano, com refrigerante e bolo, com riso de criança, com o passo lento dos velhos, com a alegria daqueles que se conhecem e se amam. Uma noite para ficar guardada nas retinas. Um momento que fortalece e une todos os que seguem vivendo nesse bairro e cuidando dele.

Foi bonito demais! Obrigada Hugo.

quinta-feira, 8 de março de 2018

Dia de mulheres

Mirando La Paz, desde El Alto


Sempre que a vida pesa e a luta chama, recorro à imagem de dona Vivi, uma mulher boliviana que conheci em janeiro de 2004, na cidade de La Paz. Acontecia uma greve da força policial e junto com ela manifestações massivas contra um pacote de impostos decretados pelo então presidente Sanches de Lozada. O governo chamou o exército e os conflitos se espalharam com extrema violência. Todas as estradas estavam fechadas, ninguém entrava ou saia de La Paz. Eu estava numa pensão perto da rodoviária e lá acompanhei o terror que foram aqueles dias. Na mesma pensão estava dona Vivi. Viera da cidade de Oruro com o marido, mineiro, para tratamento médico. Devia andar aí pelos 70 anos, bem magrinha, encurvadinha, os dedos tortos de tanta lida. A ordem era não sair para a rua, porque como não havia polícia, os saqueadores tomavam conta da cidade. Durante a noite, ficávamos acordados, todos juntos, porque grupos criminosos estavam invadindo casas e hotéis para roubar. A pensão era simples, e havia poucas mulheres. Eu, dona Vivi, a esposa do dono da pensão e uma senhora que fazia a limpeza. Os demais hóspedes eram homens.

Acompanhávamos os conflitos pela televisão e dona Vivi reportava outros conflitos, tão violentos quanto aquele, que ela já tinha vivido. “A Bolívia é um caldeirão, minha filha. Não há que ter medo. A morte nunca vem fora de hora. E contra os tubarões, tem que lutar. Não tem outro jeito”.

No segundo dia de conflito, a comida já se acabando, ela decidiu sair. Os homens gritavam. “Não pode sair, o terror está lá fora. Vão matar a senhora”.  E ela firme na decisão de conseguir comida. O marido precisava, estava doente, não podia ficar só na bolacha, que era o que tínhamos. Tudo estava fechado. As pessoas que andavam nas ruas eram os saqueadores, carregando móveis, portas, janelas. Um horror. Pois ela pegou sua bengalinha e saiu. Os homens acuados, sem esboçar reação. Eu olhava estarrecida pensando como podiam deixa-la sair e não fazer nada. Decidi ir com ela. Quando me viu sair, estendeu a mão e sorriu. “Tienen miedo. Pobrecitos”.

Andamos uma quadra inteira e nada de encontrar qualquer comércio aberto. Havia um silêncio estranho no ar. De repente, um som, baixinho e crescendo. Parecia uma onda gigante quebrando no mar. Ela se agitou. “Se vienen”, gritou, as mãozinhas agarrando com força o meu braço. E saiu ligeira em direção ao som. Pela estrada que leva a cidade de El Alto vinha a multidão. Uma vaga humana incontrolável. Na frente da coluna vinham mulheres, de braços dados, formando uma corrente. E atrás delas vinha o povo. Milhares. Uma cena inesquecível. Dona Vivi seguiu em direção à passeata, me arrastando com ela. Vibrava. “Vamos pegar o cabrón”, dizia, referindo-se ao presidente. Entramos na onda humana e ali, as mulheres eram maioria. Caminhavam de olhar fixo, passando por cima de tudo. Ao longo do caminho foram destruindo tudo que havia, tudo. Uma violência santa. Dona Vivi caminhava com a mesma fúria inquebrantável das suas companheiras.

A marcha chegou ao palácio presidencial e as gentes colocaram fogo nele. Também atearam fogo nos prédios dos ministérios que ficam em volta. De dentro dos edifícios jogavam mesas, cadeiras, computadores. Era uma praça de guerra. Dona Vivi, impávida. E só não entrou para jogar as coisas para fora porque não tinha forças. Mas não arredou pé, nem quando o exército chegou atirando e os corpos começaram a cair no chão. Foram 14 mortes ali em frente ao palácio. O sangue escorria pela sarjeta. E ela, punho em riste, gritava: “Fora gringo”, numa alusão ao sotaque inglês do presidente boliviano.

Feito o estrago nos prédios públicos e dispersada a multidão ela decidiu voltar para a pensão, mas ainda queria conseguir comida. Na volta, observávamos o rastro de destruição que ficara pelo caminho onde passara a marcha. Vários comércios estavam com as portas quebradas e as pessoas começavam a ajeitar as coisas, calmamente, como se nada. Dona Vivi conversou com elas, em aymara, sua língua originária. E, como mágica, apareceram farinha de milho, carne de lhama e batatas. Ela me passou a sacola e seguiu, firmezita, subindo a rua devastada.

Quando chegamos à pensão, todos estavam como ratos apavorados. Tinham visto tudo pela televisão. Já nos acreditavam mortas. Menos o marido de dona Vivi, que esboçou um leve sorriso quando ela entrou, devagar, no passinho cadenciado. Foi uma algaravia, todos falando ao mesmo tempo, querendo saber de tudo. E ela seguiu para a cozinha onde iria fazer uma sopa.

À noite, depois de saborearmos a sopa de lhama, ficamos na sala, ela e eu, falando sobre comida. Ela queria que eu lhe passasse a receita da feijoada.  “Foste muito corajosa – disse, segurando minha mão – e é assim que tem que ser. Ninguém faz nada por nós. É a gente que faz. Eu já explodi mina, já enfrentei tiro, paulada. E também já bati muito. Ninguém é por nós. Nem deus. É nós e nosso braço. E a gente é forte quanto tá junto.”

No dia seguinte, ela se foi, com o marido, decidida a encontrar o médico que viera ver. Nada a deteria. Ofereci para ir junto. Não quis. “Fica aqui. Hoje vai estar ruim para um misti (branco)”. Saiu, passo lento, as tranças brancas escondidas sob o chapéu. O marido agarrado em seu braço, mancando e silente. Não me abraçou nem beijou. Apenas apertou forte as minhas mãos e disse: “te protege e protege as companheiras. Somos só nós. Só nós.” Fiquei ali parada, olhando a velhinha sumir rua acima, as lágrimas caindo sem parar. A impressão que eu tinha era de que ela era uma força da natureza, alguma deusa originária, vinda das profundezas das minas de Oruro. Uma fortaleza de bronze. Mas, não. Ela era apenas uma mulher. Uma mulher como tem que ser. Forte, decidida, sem medo, imparável diante do terror.  

Dona Vivi em meio ao turbilhão da rebelião boliviana era a expressão de todas essas mulheres anônimas que rasgam o mundo todos os dias. Olhos fixos no infinito, corpos em movimento, mãos armadas de porretes e uma vontade férrea de garantir vida boa e bonita. “Somos só nós”, dissera ela naquela despedida. E isso não é pouco. Quando estamos juntas, tudo parece possível. Essa nossa energia lunar, que nos revoluciona por dentro, a cada ciclo de sangue, é a prova concreta de que fomos feita para a luta renhida, para o vendaval. Não é da nossa natureza a submissão. Pelo contrário. Estamos sempre ao pé do canhão. Quando os homens titubeiam, são as mulheres que saltam à frente, como leoas. 

Aquela mulher boliviana, de frágil aparência, era feita de puro mineral, o mesmo que ainda se esconde nas montanhas de Oruro. Aquela mulher era como eu, como tu que me lê, capaz de atravessar o inferno em busca do que quer, para proteger o que ama. Era como as trabalhadoras de Chicago, que morreram queimadas na luta por direitos. Ou como Juana Azurduy, enfrentando os espanhóis, espada na mão e dois filhos pendurados no corpo. Ou Anita, que seguiu Garibaldi e expôs sua vida na luta pela liberdade de dois mundos. Como Dandara, enfrentando o exército para defender o Quilombo dos Palmares. Ou como essas mulheres anônimas que estão na frente das batalhas nas cidades curdas, na Síria, no Iraque, em Honduras, na Guatemala, em Trinidad y Tobago, no Congo, na Zâmbia, nas ruas de São Paulo, nas favelas do Rio, nos protestos em Florianópolis.

Por isso gosto de pensar que todos os dias são dias de mulheres, de mulheres que lutam. Porque todos os dias podemos encontrar uma dona Vivi. No sertão pernambucano, numa ilha grega, nos confins da Itália, no interior de Chapecó, num órgão público em Florianópolis. Cada manhã uma de nós acorda dando de cara com o monstro e precisa enfrentá-lo. E como aquela velhinha aymara, essa mulher respira fundo, pega suas armas e sai para a rua, disposta a vencer a batalha. O monstro se expressa em muitas caras. Pode ser o machismo, a violência doméstica, o trabalho escravo, o abusador, a exploração. Mas, tudo isso forma o corpo do sistema capitalista de produção. Esse modo de organizar a vida em que para que um viva outro tenha de morrer. Um sistema no qual a mulher é vista como propriedade e mercadoria. Destruir esse modo de vida é fundamental para que encontremos o caminho da vida plena.

Quando naquela manhã dona Vivi se despediu dizendo: “somos só nós”, ela não estava falando da união das mulheres em geral. Não. Ela estava me dizendo que temos de ter tomar uma posição de classe. Naquele dia ela poderia ter escolhido ficar em casa, assustada, com medo, ou apoiando a postura de um governo corrupto e opressão. Mas não, ela saiu, foi para a rua, se juntou à marcha dos trabalhadores. E com os trabalhadores ela derrubou cercas, ocupou palácios, incendiou o poder e mudou a história. Porque naquele dia o presidente da Bolívia teve de fugir do país.

Assim, todos os dias é tempo de sermos valentes para a guerra contra o capital. Nós, mulheres, irmãs, rasgando a história e construindo o novo mundo. Isso é possível em todo o lugar, nas grandes lutas e também nas pequenas batalhas cotidianas.  

Somos só nós,  e vamos juntas!