sábado, 7 de fevereiro de 2026

Quem poderá nos salvar?


 

Li há pouco uma análise sobre a Venezuela na qual o autor do texto encerrava dizendo que não devíamos esperar a ajuda de China ou Rússia porque, na verdade, a Venezuela deveria salvar-se a si mesma. Refleti sobre isso e me permito discordar. Ninguém, no mundo humano, se salva sozinho. Somos seres sociais, de cooperação. Por mais fortes que sejamos precisamos de parcerias. O que acontece é que as grandes potências geralmente pouco se importam com os destinos das gentes dos países menores. No frigir dos ovos, tudo o que defendem são os seus interesses. Se eles estiverem ameaçados, talvez, possam intervir. Se não, que se salvem sozinhos. 


Vejam aí o caso da Palestina. Estamos assistindo há mais de dois anos um povo inteiro ser destruído. Bombardeios em escolas, hospitais, creches. Os maiores horrores já impostos. E o que fazem as grandes potências? Notas de repúdio. Quem sai às ruas em protestos são as pessoas, na sua impotência. Nada, absolutamente nada tem sido feito pelo povo palestino.  Todos os dias explode um lugar, morrem pessoas, crianças vagam sem rumo pelos escombros. E os grandes seguem disputando poder no tabuleiro geopolítico. Somália, Sudão e tantos outros lugares do mundo, onde as populações estão sendo dizimadas, nada acontece. E os governantes quietos. Esperam! Esperam silentes ver o território arrasado e vazio para depois, aí, ver o que sobrou de riqueza para abocanhar. Nessa hora talvez enfrentem os seus iguais.


Tem sido assim na América Latina. Só nos últimos anos, o que presenciamos? O Haiti foi invadido em nome da paz e da democracia. Está destruído, com seu povo passando pelos piores sofrimentos. Nada é feito. Ajudas humanitárias chegam e são desviadas. "Eles que se salvem”. Parece muito difícil que isso aconteça quando são acossados pelo império estadunidense. Não precisam de caridade, precisam de amigos fortes. 

Nem vou falar de outros momentos históricos porque o texto não teria fim. 


Agora estamos vendo a Venezuela ser destruída. O presidente sequestrado, a população e o governo ameaçados, obrigados a ceder aos desmandos estadunidenses. E por quê? Porque estão sozinhos. E com os navios nucleares do comando sul na sua porta que podem fazer senão ceder, esperando que o tempo lhes aponte caminhos. Esperam que os crimes de Donald Trump o derrubem. Mas, sabemos, isso tem pouca chance de acontecer. Assim como Bolsonaro não era um louco, Trump também não é. Ele é o típico representante da classe dominante estadunidense, imperialista. Se, aparentando loucura, ele bombardear a Venezuela e destruir tudo para pegar o petróleo, ninguém vai pará-lo por isso. Quando tudo tiver arrasado, pode até ser. Serviu. Valeu!


O mesmo se dá com Cuba. Trump está decidido a acabar com a vida na ilha. O bloqueio ao petróleo é a pá de cal na sua tática de "espera paciente”, a qual usam desde que começaram a expandir seu território depois da independência. Vão minando, estrangulando economicamente, fomentando rebeliões até que, pimba, tomam para si. Como se salvarão os cubanos de um ataque armado, ou químico ou tecnológico? Sozinhos? Não. Tampouco com as “ajudas humanitárias”. Precisam de parceiros na luta. Parceiros fortes, graúdos, com poder. Mas, ao que parece, os grandes farão o que sempre fazem. Uma dose de caridade, uma ajudinha com arroz, enquanto o cavaleiro da desgraça vai varrendo o território.


Não há espaço para ingenuidades. No capitalismo, a cooperação e a solidariedade não virão das grandes potências, porque é da sua natureza buscar sempre lucros e mais lucros, riquezas e mais riquezas. Não estão interessados em soberania dos pequenos. O que nos resta, então? O caminho já foi apontado por Bolívar: consolidar a Pátria Grande. Unidas, as pátrias chicas de Nuestra América teriam alguma chance nesse mundo de perversidades do capital. Separadas, são terreno fértil para a invasão, a dominação. Infelizmente o que temos visto no caso da Venezuela e de Cuba é a omissão reverente. Um saco de arroz, tudo bem, mas uma posição mais firme contra os ataques, aí já é pedir demais. Restam as notas de repúdio, inócuas e cínicas.


O fato é que, sim, estamos sozinhos e precisamos salvar-nos a nós mesmos. Difícil tarefa, mas, que outra saída? Quem sabe um dia, algo mude… É o que nos mantém na luta, mesmo que, como Martí e Camilo Torres, possamos vir a cair no primeiro combate. Indefectivelmente temos de seguir em frente, fiéis a nossos sonhos de vida boa e bonita para todos. 


Na verdade, somos assim como o herói mexicano, Chapolin Colorado,  que, mesmo apavorado e sem poder, avança sobre o inimigo munido apenas de seu profundo amor pela vida. Assim nós. P'alante!



terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

O jornalismo em tempos de multimídia

Adelmo Genro Filho, criador da teoria marxista de jornalismo

Outro dia um amigo me disse categoricamente: este jornalismo que tu faz não existe mais, não tem mais espaço para ele no mundo. Fiquei a matutar. E parei por alguns dias a observar a realidade da comunicação no Brasil. 

Já faz algum tempo que a estrutura da comunicação mudou. Os jornais vão desaparecendo, a vida se faz nas redes sociais. Empresas, sindicatos, entidades não querem mais contratar jornalistas, preferem pessoas capacitadas para gerir as redes sociais. O negócio é lacrar no Instagram mesmo que, muitas vezes, a informação fique em segundo plano. E esta lógica tomou um rumo tão hegemônico que agora, em seis de janeiro, o governo sancionou a Lei nº 15.325, chamada de “lei dos multimídias”. A nova lei regulamente uma profissão nova que engloba todos aqueles que trabalham com mídias digitais, incluindo os tais “influenciadores”. 

A nova lei está sendo questionada por radialistas e jornalistas. As entidades sindicais ligadas a esses profissionais alegam que o reconhecimento do “multimídia” pode gerar sobreposição de atribuições e fragilizar a regulamentação do jornalismo e do radialista, uma vez que estas categorias, que têm anos de luta, já conquistaram direitos importantes bem como um piso salarial. O fato concreto é que profissionais multimídia já atuam no mercado há anos e como já disse, vêm ganhando cada vez mais espaço no mercado de trabalho. É bem mais barato contratar um produtor de conteúdo do que um jornalista, por exemplo. Para as empresas é bem melhor. Para os trabalhadores não tanto, pois além de disputar espaço com outras profissões já regulamentadas, acabam sempre sendo arrochados no quesito salário.

Com essa mudança o que se observa é que realmente parece não haver mais espaço para o jornalista. Os que tentam sobreviver no mundo “influencer” acabam virando comentarista de notícias. Na nova geração de jornalistas, sem espaço de trabalho formal, a saída acaba sendo essa: criar um canal no Youtube ou no Instagram e ali fazer comentários. Mas a concorrência com os influenciadores é grande. Ainda há alguns jornalistas que tentam oferecer notícias e reportagens bem feitas. Mas, no geral são profissionais mais velhos e com estrutura para sustentar uma boa apuração dos fatos. A maioria baseia-se apenas na opinião ou na informação colhida de maneira mais superficial. 

É um jeito novo na forma, mas não no conteúdo. Antes das redes também tínhamos muitos jornalistas a escrever notícias superficiais, baseadas em achismos ou sustentadas em uma única fonte – no geral oficial. O jornalismo chamado “manual de geladeira”, sem interpretação ou análise, era maioria nos meios comerciais. Então, olhando bem, não há grandes novidades no campo. 

A novidade, é claro, está na entrada deste novo profissional, o multimídia, na seara da do jornalismo. Sendo assim, que fazer? Agora estamos no tempo do protesto. Jornalistas e radialistas apontam os perigos da lei no aprofundamento da precarização de todos os profissionais. Mas, talvez, seja hora de pensar no ataque. Um sindicato dos trabalhadores da comunicação, quem sabe, que pudesse juntar a todos para garantir mais direitos e vantagens. Algo a se pensar. 

Já no que diz respeito ao jornalismo, insisto em discordar do meu amigo. O jornalismo que eu faço - e muitos outros que conheço – existe sim. Existe e existirá. Porque o jornalismo é cada dia mais necessário. Neste universo de “influencers” que muitas vezes, a exemplo dos antigos grandes jornalões, representam os interesses da classe dominante e do capital, é preciso que emerja o jornalismo, aquele do qual fala Adelmo Genro Filho. O jornalismo que é necessidade social, que aponta a totalidade dos fatos, que leva o leitor à reflexão crítica sobre a realidade, que apresenta a diversidade dos pontos e vista, que interpreta e descreve. Como antes lutávamos contra o jornalismo superficial  e alienador nos grandes meios, agora há que lutar contra a falta de jornalismo nos grandes meios. A batalha é a mesma, as armas mudam um pouquinho. 

Antes como agora, o desafio é unificar os trabalhadores e travar a batalha contra o inimigo real: o sistema capitalista, que tudo engole, que superexplora, que aliena e domestica. Nunca foi fácil fazer esse debate. Nem agora será. Mas, há que seguir resistindo e fazendo jornalismo de qualidade.