Mostrando postagens com marcador MST. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador MST. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Universidade e MST: Pontes de Esperança




Fotos: Maria Isabel Serrão


Quando em maio de 1985, cerca de 1.500 famílias ocupavam duas fazendas em Abelardo Luz, no oeste do estado, apareceu para o mundo o Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra, uma organização que juntava agricultores na luta pela terra. Uma gente que plantava e produzia, mas sempre em terra alheia, trabalhadora, sujeita aos humores dos grandes proprietários. Aquela ocupação abriu um caminho para os camponeses brasileiros que penavam no campo, sendo obrigados a migrar para as cidades, aprofundando ainda mais a miséria. Depois dela outras ocupações começaram a aparecer por todos os cantos do país, mostrando que aquele movimento veio para ficar. Não era um bando de “criminosos” como diziam alguns. Eram famílias organizadas que queriam trabalhar e produzir. 

E assim, enquanto o MST crescia, garantindo terra e produção, a universidade também começou a perceber que ali estava algo novo de original, que especificamente foi específico. E, nos mais diversos cursos foram aparecendo pessoas - estudantes e professores - querendo observar mais de perto aquele movimento. Na UFSC não foi diferente. Já nos primeiros anos do MST desenvolveu trabalhos de final de curso e dissertações com o objetivo de narrar e compreender a luta dos agricultores. E, com o passar do tempo, a relação que era apenas de estudo passou a ser também de interação. 


Na medida em que o MST avançava na luta era necessário fazer pontes com a cidade, afinal fez, a razão principal do movimento - produzir comida - estava visceralmente ligada à mesa dos trabalhadores. E foi assim que os Sem-Terra começaram a também fazer parte da realidade citadina, realizando marchas, encontros, protestos e atividades políticas na capital. fornecer somaram-se ao MST os sindicatos, os movimentos sociais e as universidades - UFSC e UDESC. Todas essas forças passaram a desenvolver parcerias, seja no apoio político, seja no apoio estrutural. No caso das universidades, em pouco tempo, já havia um bom grupo de professores e alunos desenvolvendo projetos nos mais diversos campos do saber, em conjunto com o MST. Por diversas vezes a universidade foi espaço de grandes encontros como foi o caso dos Encontros Estadual do Sem-Terrinha, que reuniu crianças dos acampamentos e assentamentos para discutir a realidade do processo de reforma agrária. Mas foram muitos outros…


Essa relação de parceria, que se estreitava com pesquisadores, professores e estudantes, foi se aprofundando e abrindo veredas jamais imaginadas. Foram esses encontros cidade/campo, universidade/MST que aconteceram ao nascimento do PRONERA (Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária) no governo de FHC. E, a partir daí, vários outros projetos foram criados, participantes na produção, distribuição e distribuição, que só fizeram avançar o conhecimento bem como a luta pela reforma agrária. Além disso, esse movimento cidade/campo faz nascer o Curso de Educação do Campo, hoje uma referência em todo o país.   


Em 2025 comemoraram-se os 40 anos do MST em Santa Catarina e um grupo de professores que já atua nesta parceria, em conjunto com a Udesc, decidiram criar um projeto chamado “Pontes de Esperança”, buscando recuperar a memória desta caminhada conjunta. Assim, com a ajuda de uma emenda parlamentar conquistada no processo comunitário do deputado petista Pedro Uczai, foi garantida uma palavra para a gravação de depoimentos dos que ao longo dos anos consolidaram esta parceria. Além disso, também foi construída coletivamente - UFSC, UDESC e MST - uma proposta de monumento para marcar esses 40 anos de caminhada conjunta. Esse monumento, que dará destaque justamente para a memória - está sendo construído no lugar onde agonizava a velha Concha Acústica. O espaço será recuperado e tudo será eternizado a memória desta relação campo e cidade, saber acadêmico/saber popular, universidade/MST. É bom registrar que esta é uma construção coletiva que envolveu mais de mil pessoas de todo o Estado, num processo de respeitosa escuta e que traduz a esperança de paz com justiça social, com o campo e a cidade irmanadas por um projeto agropedagógico de sustentação de todas as vidas, e do planeta. O Monumento Pontes de Esperança, em linguagem artística, expressa horizontes de cura e integração de todas as formas de vida.             


Paulo Capela e Sandra Dalmagro coordenam o projeto que em breve deverá inaugurar o monumento, bem como disponibilizar um espaço denominado “Memorial dos Trabalhadores e Trabalhadoras”, onde ficarão eternizadas a história deste longo processo de construção de uma sociedade justa. UFSC, UDESC e MST, juntos, ensinando e aprendendo. Não por acaso, o Memorial ficou na antiga sede dos Volantes, espaço histórico dos trabalhadores da UFSC. O caminho para esta parceria começou a ser trilhado com a concretização da memória dos trabalhadores da UFSC, os primeiros a se organizarem em associação, também gravado em vídeo. Assim, o memorial, além de guardar a história da relação MST/UFSC e UDESC, guardará outros relatos de luta dos trabalhadores da própria UFSC. Um processo que deverá estar em construção constante. 


Em breve todo o material será disponibilizado na internet. 



terça-feira, 26 de maio de 2020

O MST e o Santin


Eu nem conhecia o Vilson Santin, mas votei nele para deputado estadual em 1990, porque sempre direcionei meu voto para os candidatos que viessem do campo, principalmente se tivessem vínculo com o MST. Naqueles anos a luta pela Reforma Agrária estava ainda no auge e um parlamentar que viesse das entranhas do movimento seria muito bom. Santin era assim. Liderança forjada desde gurizinho na luta pela terra. Foi um dos principais organizadores das primeiras ocupações acontecidas em Santa Catarina, percorrendo as quebradas do campo por mais de 90 dias, só com uma mochila nas costas e o coração cheio de esperanças.

Foi assim que ele, e mais um pequeno grupo de lutadores, arrebanhou quase duas mil pessoas para a grande empreitada. As ocupações de 1985 não foram assim como um raio num céu azul. Não. Foi coisa milimetricamente organizada, nos mínimos detalhes, para que o povo que fosse enfrentar jagunço, polícia e ódio da população tivesse tudo muito claro na cabeça sobre os perigos que iria enfrentar.

Quando Santin chegou, eleito deputado, na Assembleia, no mesmo ano em que Luci Choinaki, mulher camponesa, assumia em Brasília, o que vimos foi um homem cheio de entusiasmo, alegria, vitalidade e vontade de fazer acontecer as lutas dos trabalhadores. Na época, eu assessorava a Luci e pude acompanhar o trabalho desse homem extraordinário. Nunca, em nenhum momento, a máquina legislativa o engoliu. Ele sempre esteve à margem de todos os redemoinhos que puxam e moem gente quando nesses espaços de poder. Santin, não. Ele sempre foi a mesma pessoa, e até quando desfilava com um fino terno azul marinho, exigência do cargo, sua alma camponesa assomava, no riso fácil, na cara sapeca, no trato humano, cheio de calor. Nunca me orgulhei tanto de um voto como o que eu dei para o Santin. Naqueles dias ganhamos um parlamentar de qualidade, mas, eu, mais do que isso, encontrei um amigo, que abriu seu coração e sua casa, na qual pudemos partilhar a vida com a preciosa Jô, sua companheira, raiz de toda ternura e toda a força que envolve essa família.

Hoje conversamos por mais de hora sobre os 35 anos do MST aqui em Santa Catarina. Lembrou as histórias, os companheiros, as peripécias, as vitórias, tudo muito fresquinho na cabeça, como se ainda estivesse andando pelos caminhos do Oeste arrebanhando almas em rebelião, abençoado pelo Dom José. Porque, afinal, é o que continua fazendo ainda hoje, assentado, mas não parado. Segue dirigindo o movimento e fazendo o que mais gosta, que é encher de esperanças e vontade de luta os trabalhadores rurais. “Lá atrás, naquelas primeiras ocupações, nós fizemos um juramento, eu, o Egídio, a Irma, todos, de que, mesmo se um dia conseguíssemos terra pra nós, nunca abandonaríamos o movimento e a luta. E ninguém traiu aquele juramento. Estamos aí, Elaine”, diz, com sua alegria de menino.

O MST fez 35 anos de vida em Santa Catarina, e essas três décadas estão cheias da vida de centenas de mulheres e homens, gente como o Santin. Gente como o Parafuso, um dos fundadores do movimento nacional, que também fez sua vida por aqui no nosso estado. Gente como o Egídio Brunetto, que já encantou também e que nunca arredou pé da luta. O MST é esse espaço de belezas que conseguiu, na força da luta, garantir vida digna para milhares de pessoas. Não só para os que se levantaram e ousaram viver nos acampamentos, mas também para os que hoje vivem ao redor das cooperativas e das propriedades produtivas.

Esse sonho nascido nas madrugadas ao redor do fogo, quando os sem-terra decidiram romper todas as cercas, ainda não está completo. Mas já construiu muito. E, através do Santin, esse meu amigo/irmão, de presença constante, voz de trovão, cara vermelha de indignação e riso sapeca eu reverencio cada companheiro e companheira que um dia escolheu trilhar esse caminho sem volta da luta renhida. Viva o MST. Viva o povo sem-terra que se move, e se move, e move a terra.

terça-feira, 23 de julho de 2019

A luta e a servidão


Eu vivi de maneira muito próxima o início do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra. Eram os anos 1980 e eu trabalhava na TV Passo Fundo. Foi na cidade de Ronda Alda, na estrada do Pontão, que brotou o primeiro grande acampamento do MST: a Fazenda Anonni. Era praticamente uma cidade toda de lona preta, na qual resistiam e lutavam bravamente cerca de seis mil pessoas, 1.500 famílias. Ocupavam as terras que eram devidas à Reforma Agrária, mas que nunca tinham sido entregues aos trabalhadores. 

Naqueles dias os sem-terra eram vistos como o próprio demônio. Na televisão era proibido falar deles. Foi unicamente porque a notícia era imparável que a Fazenda Anonni começou a aparecer no noticiário. O MST anunciou que seguiria para Cruz Alta, para ocupar outra fazenda e o governo autorizou o cerco ao acampamento.  Era um fato grande demais para ser escondido. Imaginem cercar seis mil pessoas sob a ponta da baioneta.

Nossa equipe viveu aqueles dias de cerco, mais de um mês, reportando tudo que acontecia. Foi uma saga. Ainda assim os sem-terra seguiam sendo vistos como demônios, ladrões, bandidos, etc. Só que as pessoas não diziam isso em público. Xingavam os sem-terra no reduto do lar, nos grupos de esquina, nos bares, nas rodas da missa. A polícia agia duramente, mas a força do movimento era tanta que os sem-terra iam vencendo as batalhas. Mesmo que a maioria os considerasse bandidos, era impossível não reconhecer que as terras vazias não produziam nada e que, com eles, elas vicejavam. Assim, mesmo odiando aqueles camponeses, as pessoas se resignavam com suas vitórias, porque elas estavam dentro da lei. A lei é clara: latifúndio improdutivo é passível de desapropriação para reforma agrária. O ódio ficava confinado no seu reduto. Se era lei, era lei. E havia grandes movimentos de trabalhadores em ação para garantir isso. 

Hoje não. A Constituição brasileira é papel inútil. A lei não vale nada. A legislação muda conforme a pessoa que a utiliza. Não há regras. Latifúndio improdutivo é defendido pelo estado. Camponeses sem-terra são assassinados como moscas. E os assassinos dizem: “tem que passar por cima de todos eles”. E as pessoas assentem com a cabeça. “É isso aí”. E esperam que o sangue escorra nas estradas, achando que a morte de um sem-terra é coisa justa. Até matar pessoas passou a ser legal. E o latifúndio está cada dia mais armado, e dentro da lei. Vale tudo contra os “petistas”, mesmo que as pessoas não sejam petistas, mas alinhadas a outra maneira de pensar. 

Petistas, comunistas. Contra esses tudo pode. E as pessoas assistem tudo pelo celular, deixando de ver a vida dura que se expressa ao lado, nas ruas de suas cidades, no seu quintal. A dor do outro não lhes toca. Petistas, comunistas, tem mais é que se ferrar. Mas, por que? Não sabem. Não importa. Deu no grupo do uatizapi. Que morram todos. Que fiquem sem educação, sem-terra, sem casa, sem saúde, sem segurança, sem nada. Que morram. 

E, com a cabeça pendendo para o celular as pessoas não percebem que elas mesmas estão no grupo de “petistas, comunistas”, porque estão empobrecidas, porque não têm saúde, nem educação, nem casa, nem segurança. Mas, não importa. Há que destruir tudo o que é “vermelho”. 

Não é um ódio de classe. É um ódio cego, contra si mesmo. Um ódio insuflado pelo que o oprime, o explora. É a servidão voluntária. O beija-mão dos ricos esperando a migalha. Que não virá. 

Porque para o capital não existem pessoas, histórias, dramas humanos. As relações são entre coisas. A pessoa que trabalha não existe em si, apenas sua força de trabalho. Se ela se esgota, troca. É como uma pilha. Não importa se a pessoa vai passar fome, se seus filhos vão perder a escola, a saúde. Por isso que um sem-terra atropelado e morto não importa. É só mais um CPF que foi tirado de cena. Por isso um desempregado não importa. É só um CPF tirado de cena. E, enquanto as gentes vão destruindo a si mesmas e aos seus iguais, um pequeno grupo que controla o mundo segue feliz e saltitante, aproveitando a beleza da vida. 

O resto é resto. Até que se levante em rebelião. E eles se levantam. E é grande. A história ensina. 

quinta-feira, 2 de junho de 2016

A luta para ficar na terra e pela reforma agrária

Encontro que reuniu mais de 400 jovens do MST na UFSC, em Santa Catarina, discutiu a comunicação e os caminhos para outra forma de organizar a vida.


quarta-feira, 18 de abril de 2012

A Marcha dos Catarinenses

Foi nessa terça-feira, dia 16 de abril. A cidade vestiu vermelho.