terça-feira, 18 de agosto de 2020

O pai, falando em línguas


As noites com o pai tem suas agruras, mas também os momentos de riso. Com algum custo tenho conseguido fazer com que ele cumpra uma rotina de sono que começa as nove horas da noite. Ele deita e dorme até umas dez e meia. Aí levanta para o xixi. Tudo bem rápido. Então vem a despertada da uma e meia da manhã. Ele acorda, faz xixi e volta pra cama, mas não deita. É quando começa uma algaravia indecifrável que eu chamo de “falando em línguas”. Pra quem não está familiarizado com isso é como se ele estivesse falando uma língua só compreensível para o criador. Ele fala por mais de uma hora, bem alto, como se discursasse, sentado na ponta da cama ou andando pelo quarto. Consigo entender no meio do palavreado apenas um lamentoso “santa maria”, talvez reminiscências de suas rezas, já que era devoto de Nossa Senhora de Fátima. Eu apenas observo. 

No começo me dava alguma aflição, agora acho engraçado. Tomei pra mim que essa hora é a hora da conversa com os espíritos, com seus sonhos passados ou com suas próprias memórias, numa língua que só ele mesmo pode entender. Então, eu fico silente, reverente, esperando que ele termine esse encontro insólito. Tudo termina como começa, do nada. Ele para de falar, levanta os pezinhos, entra pra dentro das cobertas e segue dormindo. Eu cubro com o cobertor, acarinho sua cabeça e peço aos deuses que cuidem dele no próximo bloco de sono. Ele ressona, como um anjo, até que lá pelas quatro e meia ressurja de novo em meio às cobertas, para mais um xixi. E valamideuzi que seja só isso... e não mais duas horas de algaravia pois, às vezes, parece que há muita coisa para conversar com os espíritos... <3