segunda-feira, 10 de junho de 2024

A universidade, o governo e a greve dos TAEs



Greve nas universidades nunca foi fácil. Até porque uma universidade não é uma fábrica de salsichas. Quando os trabalhadores param não há um patrão específico perdendo seus lucros. É uma batalha contra um governo de plantão. No geral, os motivos são salariais e isso não é um acaso. Ocorre que os trabalhadores públicos, ao contrário dos que atuam no mundo privado, não têm uma data-base, que é aquele momento obrigatório no qual são recompostas as perdas do ano. Por conta disso o governo vai se fazendo de morto, não recompõe os salários, não repõe a inflação e vai deixando os trabalhadores na lona. Sem a recomposição da inflação o salário vai minguando, perdendo poder de compra. Quando fica insustentável, a única saída é a greve. 

Outro motivo que obriga os trabalhadores a parar o trabalho é a destruição sistemática da universidade, quando o governo - seguindo receitas externas - vai diminuindo as verbas, sucateando, arruinando, arrasando a estrutura e minguando as políticas de permanência. Chega uma hora que fica impossível trabalhar e estudar. Então, os trabalhadores precisam agir em consequência, parando, para que o governo seja provocado a recompor também o orçamento das instituições federais, melhorando assim o ambiente de trabalho e permitindo que mais estudantes possam se manter na universidade. Esse é, portanto, o cenário no qual se movem os trabalhadores e os governos. É como um interminável jogo de força. 

Nesse ano os trabalhadores técnico-administrativos, amargando perdas de 76% desde 2015, tiveram de parar. Iniciaram uma greve para recompor os salários e também para exigir o aumento das verbas de custeio para a universidade, que diminuíram mais de 50% desde 2015 até aqui. São perdas muito significativas na vida do trabalhador e na da universidade. É uma derrocada que impacta muito mais do que os mais de 200 mil TAEs (entre ativos e aposentados), afinal, a universidade caindo aos pedaços interfere também na vida de mais de um milhão e 200 mil alunos que ainda estudam no modo presencial. Pois é esta pauta que move a greve iniciada em março deste ano. 

Agora o movimento chega aos três meses tendo apenas duas mesas de negociação com o governo, nas quais a proposta tem sido a mesma: zero% de reajuste para este ano, mudanças insignificantes no plano de cargos e nenhum aceno para o aumento de verbas para as universidades.  O governo de Luis Inácio já negociou com outras categorias e concedeu aumentos graúdos para algumas delas, mas para os trabalhadores das universidades a regra tem sido: endurecer e não ceder. 

Diante disso há que se compreender duas questões importantes. 

As mudanças ocorridas no desenvolvimento do sistema capitalista têm colocado os países periféricos como o Brasil na condição - cada vez mais fortalecida  - de meros exportadores de matérias primas: grãos, petróleo, carne. Por isso os governos fortalecem tanto o setor do agronegócio bem como o da extração mineral. Os incentivos para esses setores crescem de maneira vertiginosa, enquanto a educação vai perdendo na mesma medida. Para um país que exporta commodities (mercadorias de origem primária) e importa tecnologias, não se faz necessário investir em escolas ou universidades. Por isso um ensino médio voltado ao “empreendedorismo”, e uma universidade cada dia mais sucateada. Oferece-se uma educação meia-boca para capacitar minimamente o trabalhador e deixam-se essas coisas de ciência e pesquisa para os países centrais. Não é sem razão que hoje, no Brasil, o número de estudantes fazendo faculdade no modo on-line, pagando 50 reais de mensalidade, cresce sem parar. Já são mais de três milhões de alunos nessa modalidade, enquanto nas universidades públicas, no ensino regular e presencial são pouco mais de um milhão. Como bem avalia o economista Nildo Ouriques, isso resolve o problema da formação de profissionais e gente minimamente capacitada. A universidade pública, tal como a conhecemos, está ficando desnecessária. 

Com essa decisão política de enxugar as universidades públicas ao máximo, o governo federal vai estrangulando os atuais trabalhadores, visando justamente extinguir a carreira de técnico-administrativo, ideia que vem desde o governo Fernando Henrique. Os sucessivos governos foram extinguindo cargos, terceirizando e tornando esta carreira cada vez menos atrativa. A tal ponto que hoje o que mais se ouve entre os trabalhadores das universidades é a vontade de passar em outro concurso, para uma carreira mais vantajosa. A condição material real tem afugentado os trabalhadores. Só na UFSC há um déficit de mais de 300 que ou se aposentaram ou abandonaram a carreira. E não há reposição destes cargos, o que sobrecarrega os que ficam. 

Agora na greve essa política de extinção dos TAEs fica bem clara. Pela primeira vez não se vê movimentação da base de apoio do governo no sentido de cavar reuniões ou influenciar o presidente para que atenda as demandas dos trabalhadores. Há apoios ritualísticos, mas nenhuma ação concreta por parte de deputados federais e senadores. É certo que alguns têm gritado no deserto, mas são exceções e acabam não tendo muita força. Audiências sobre educação são feitas, mas não há pressão sobre o executivo, que é quem tem a caneta. Por parte do governo de Luís Inácio a intenção é de oferecer o mínimo possível e ainda dividido em dois anos, com zero ajuste nesse ano. Com o agravante de manter o movimento em greve, prejudicando ainda mais a universidade. Nem mesmo os professores, que sempre são os que aparecem para a sociedade como “os trabalhadores” das universidades estão sendo ouvidos. A negociação tem sido dura. 

Neste diapasão o governo vai mantendo a ideia de que a universidade é desnecessária, que os trabalhadores técnico-administrativos precisam ser privatizados e que os professores precisam aceitar os novos tempos. A sociedade, como sempre mal informada pelos sacerdotes do capital (mídia comercial), começa a acreditar que fazer dancinha no tik tok pode ser mais rentável para seus filhos do que queimar pestanas na universidade, e assim, a educação vai perdendo força e importância. 

O mais dramático é que esta universidade que aí está nem chegou a ser a universidade que sonhamos, aquela, necessária, rebelde, que se debruça sobre os problemas nacionais, que avance nas pesquisas estratégicas para o país, que abre caminhos para o fim da dependência. E, mesmo assim, caminha-se para sua destruição.  

O cenário é esse. Para os trabalhadores só resta o caminho da luta. 


terça-feira, 28 de maio de 2024

Lá vem o cidadão-cliente


Quando o famoso "neoliberalismo" estava em alta, lá pelo começo dos anos 1990, a ideia que circulou pelo país era a do cidadão-cliente, proposta por Bresser Pereira, então ministro do FHC. O lance era privatizar tudo e só teria direitos de cidadão aqueles que pudessem pagar por isso. O Chile aparecia como o exemplo perfeito. Lá, tudo estava privatizado e a mídia o mostrava como o país modelo do capitalismo. Não era novidade. A turma do estado mínimo seguia as regras do chamado Consenso de Washington, que orientava aos países da periferia encolher o estado e abrir as portas para o dinheiro estrangeiro, aprofundando ainda mais a dependência. Foi quando o Fernando Henrique começou a liquidação do país. Durante seu governo foram privatizadas 165 estatais, entre elas a gigante Vale do Rio Doce vendida por míseros três bilhões quando rendia mais de dois bilhões por ano. Um entrega absurda. 

Naqueles dias houve muita luta, mas, ajudado pela imprensa, o bonitinho da burguesia afirmava que a venda das estatais ajudaria o Brasil a pagar a dívida e a se desenvolver. E esse foi o discurso que venceu. As empresas foram entregues, só que a dívida aumentou. Passou de 153 bilhões para 850 bilhões, exatamente como os movimentos sociais apontavam. E durante o governo de FHC se desmantelaram empresas de telecomunicações, transporte e energia com a promessa de modernização. Obviamente que tudo isso passou para as mãos privadas e a modernização só foi possível para quem teve dinheiro para pagar. O tal do cidadão-cliente. 

Com a chegada do Partido dos Trabalhadores (PT) ao poder em 2003 a promessa era de esse caminho iria se reverter. Mas, não foi o que aconteceu. As privatizações continuaram. Começou com a privatização das estradas e, depois, Lula trouxe uma “inovação”, as chamadas parcerias público-privadas, que dava aos empresários a garantia de que, investindo no estado, caso desse prejuízo, o estado bancaria. O mundo perfeito para o setor privado. Nesse diapasão vieram as parcerias para ferrovias e aeroportos, setores estratégicos da nação.

Os anos se passaram, vieram os governos de Temer e Bolsonaro, e a privatização seguiu caminhando. Foram reaproveitadas as Organizações Sociais, que são empresas privadas travestidas de públicas, para administrar o serviço público. Tomaram conta de setores de assistência e de hospitais. Sob a aparência do público elas vão sugando os recursos e sucateando o serviço público a ponto de a população implorar por um serviço privado. Então, quando tudo está destruído um empresário surge para “salvar” o serviço. Assim vamos caminhando nessa novela de enredo ruim. 

Agora, as tais Organizações Sociais estão sendo chamadas para gerir postos de saúde e até escolas. Tudo na mesma toada. Inocula-se a lógica privada e o serviço público deixa de ser universal. Em pouco tempo o que era público se esfacela e o privado assume, salvando a pátria. Em São Paulo já caminha a proposta de privatização das escolas públicas, para que “se modernizem”. Mas só na periferia, para “ajudar” os pobres. Esse filme já vimos. Elas até se modernizam, mas não serão para os filhos dos trabalhadores. Serão para os cidadãos-clientes. Tem dinheiro? Certo! Não tem? Está fora!

E assim o capitalismo avança, escondendo-se atrás de nomes pomposos como neoliberalismo, modernização, globalização, eficiência. Lobo em pele de cordeiro. Não deu certo no passado e não dará agora quando a falta de memória leva a população a novamente acreditar que é o serviço público o mal do país. Por aqui seguimos gritando e infelizmente sendo os arautos da desgraça. Apontamos os males que a privatização do serviço público traz, mas poucos escutam. Deixam-se levar pelo canto da sereia, até que sobrevenha a desgraça. E ela vem, sem lugar a dúvidas. 

Neste novo ciclo de governo do PT esse processo se aprofunda e não vai demorar a que propostas mirabolantes de privatização ou do eufemismo parceria público-privadas voltem a dar as cartas. A universidade tem sido um exemplo. Ano a ano as instituições federais de ensino superior vêm perdendo verbas, sendo, com isso, destruídas. A coisa deve piorar até que a sociedade clame por privatização. Vejam que em 2015 os valores de custeio chegavam a mais de 300 bilhões, e agora, em 2024, mal passam dos 150 bilhões. É um processo de aniquilamento por dentro que se aprofunda. E essa onda também faz com que ninguém mais queira saber de trabalhar numa universidade. Os salários são baixos e as condições precárias. É a velha lógica do sucateamento. 

Ao começar o mês de junho se completarão três meses de greve dos trabalhadores nas universidades, sem que o governo atue em consequência. Lula ironiza os trabalhadores: “agora vocês podem reclamar”, e não oferece saída. Ou melhor, oferece sim, a saída é justamente a saída da universidade, para que ela se apequene ainda mais. Nos últimos anos, o número de trabalhadores que deixam as IFES em busca de melhores salários é grande. Poucos ainda querem fazer carreira na educação. A universidade parece desnecessária neste país que cada dia mais se torna um grande fazendão. Por aqui, só o agro é pop. 

E assim vai se destruindo tudo o que é público. Buscando o cidadão-cliente. Então, quem tiver ouvidos para ouvir, que ouça. E que se faça a luta. 


sexta-feira, 3 de maio de 2024

Os desastres, a política e a ciência

Foto: Diego Vara /Agencia Brasil

O ano era 1775. Lisboa. Portugal. O dia estava claro e sol apascentava as colinas. Então, o terremoto. Uma das maiores tragédia daquele tempo. A terra tremeu com dois grandes abalos de nove pontos na escala Richter, a cidade desabou e ainda veio um tsunami arrastando os escombros. Milhares de pessoas morreram. Foi a primeira grande catástrofe midiática mundial, discutida em toda Europa e fora dela. O horror do terremoto levou vários pensadores da época e buscar explicações para tão grande destruição e mortes. Voltaire dedicou um poema ao terremoto e escreveu no seu livro “Cândido” como a igreja tratou do tema: "Depois do terremoto que destruiu três quartos de Lisboa, o meio mais eficaz que os sábios do país inventaram para evitar uma ruína total foi a celebração de um soberbo auto de fé [ritual de penitência pública], tendo a Universidade de Coimbra decidido que o espetáculo de algumas pessoas sendo queimadas em fogo lento com toda a solenidade é um segredo infalível para evitar tremores de terra ". Horrores para evitar o horror, coisa típica da inquisição. 

O deus impiedoso e vingativo aterrorizou Voltaire e os grandes filósofos da época trataram de dar explicações mais seculares para o infortúnio. No seu famoso poema Voltaire ironizou a ideia de que deus tivesse um propósito naquele sofrimento. 

"Cem mil desafortunados que a terra devora,
Os quais, sangrando, despedaçados, e palpitantes embora,
Enterrados com seus tetos terminam sem assistência
No horror dos tormentos sua lamentosa existência!
Aos gritos balbuciados por suas vozes expirantes,
Ao espetáculo medonho de suas cinzas fumegantes,
Direis vós: «Eis das eternas leis o cumprimento,
Quem de um Deus livre e bom requer o discernimento?»
Direis vós, perante tal amontoado de vítimas:
«Deus vingou-se, a morte deles é o preço de seus crimes»?
Que crime, que falta comentaram estes infantes
Sobre o seio materno esmagados e sangrantes?"

Kant, por exemplo, escreveu textos mostrando que deus não tinha nada a ver com a coisa. Tudo tinha causas naturais. Mas é Rousseau quem vai dar a explicação mais próxima da realidade. Segundo ele, ali não estava a mão de deus, mas dos homens, bem como a decisão de ocupar o espaço da cidade de maneira equivocada. "A natureza não construiu ali 20 mil casas de seis a sete andares, (...) se os habitantes desta grande cidade vivessem mais dispersos, com maior igualdade e modéstia, os danos causados pelo terremoto teriam sido menores ou talvez inexistentes”. Mostrava assim que as causas das mortes não estavam relacionadas unicamente ao tremor de terra, tão inusitado, mas no modo de organizar a vida. 

Aquele desastre desencadeou muitas mudanças no mundo e uma delas foi a valorização da ciência. De tal maneira que no projeto de reconstrução da cidade, comandando pelo Marques de Pombal, houve uma grande preocupação em substituir as ruas sinuosas e estreitas por largas avenidas, bem como garantir uma separação maior das construções e o uso de estruturas flexíveis de madeira para que os prédios tremessem, mas não caíssem. 

É incrível que tendo passado tanto tempo ainda há quem acredite que os desastres ditos ambientais são obras de deus ou da natureza. Ao mesmo tempo em que é incrível que a humanidade ainda não tenha compreendido o valor da ciência. Os portugueses do 700 abraçaram-se aos cientistas que ensinavam como se proteger de tragédias como aquela, mas nós, em pleno século XXI permitimos que políticos medíocres e vende-pátrias aprovem leis que são ataques inomináveis ao que a ciência já determinou como necessário para a proteção das vidas humanas. Códigos ambientais feitos para alegrar o bolso de empresários, fazendeiros e mineradores, enquanto as tragédias se repetem ano após ano, cobrando vidas e recursos públicos. 

Todos sabem como evitar enchentes, deslizamentos, terremotos e outros desastres, mas preferem ignorar as respostas. Depois, quando a calamidade se instala, pagam de bons cristãos com discursos emocionados e pedidos de ajuda aos “desabrigados”. Hoje assistimos aos rios crescendo e devastando o Rio Grande do Sul. Já vimos isso em Santa Catarina, no Rio de Janeiro, enfim, em todos os cantos. Amanhã ouviremos os mesmos políticos e “gestores municipais” choramingando por conta da seca que desertifica os lugares e provoca tanto sofrimento aos humanos e aos animais. E ainda assim, os legisladores do capital seguirão aprovando leis que destroem o ambiente, provocando cada uma destas tragédias. Até quando isso seguirá? 


segunda-feira, 29 de abril de 2024

Palestina, uma dor pulsante

Getty Images


Todos os dias vejo os horrores de Israel contra o povo palestino. Milhares de mortos. Crianças feridas vagando, velhos perdidos na angústia, famílias revirando escombros, buscando comida. Centenas de pessoas andando pelos caminhos, sendo caçadas como num filme de roliúde. Os Jogos Vorazes impiedosos dos sionistas, assassinos confessos. Uma dor que pulsa como um vidro cravado no peito. Impossível dormir. Impossível seguir vivendo como se nada. Na impotência, vamos gritando para ver se os malditos governantes do mundo acabam com essa dor dilacerante que atravessa o corpo e alma dos palestinos. Mas, nada acontece. 

No meio de todo esse horror, com  mais de 30 mil mortos e cidades despedaçadas, também morrem os jornalistas. Nesses tempos tiktokers, de dancinhas e musiquinhas, onde o jornalismo agoniza, jornalistas tentam passar ao mundo a verdade do genocídio. Mas, estar com a identificação de “imprensa” do meio do inferno promovido por Israel não vale de nada. Como não valem nada as resoluções da ONU  ou coisas assim. Nenhuma regra vale para Israel. Nesses seis meses de massacre, o grupo Repórteres Sem Fronteira já contabilizou 103 profissionais assassinados. Deste número 91 são homens e 12 são mulheres. Vinte e dois morreram enquanto estavam com o microfone ou a câmera na mão, reportando. Assassinatos frios e calculados. Bastou estar reportando o genocídio no lado palestino e já vira alvo. Os únicos jornalistas respeitados e protegidos são o que atuam do lado das forças de Israel, contando mentiras ao mundo. 

A verdade não tem vez no território sob bombas. A verdade morre junto. A verdade é despedaçada junto com os corpos dos profissionais que insistem em reportar a realidade desde dentro de Gaza. Ali, são alvos, como qualquer um palestino. Porque o jornalismo que escancara a verdade tem de ser destruído. Basta a gente ver a agonia de Julian Assange, o primeiro a desvelar os horrores da guerra no Iraque. Preso, torturado, jurado de morte. Porque decidiu mostrar a barbárie. Os homens e mulheres que se arriscam hoje nas ruas de Gaza para mostrar a realidade são filhos dessa proposta tão bem defendida por Assange: revelar as entranhas dos monstros. Expor suas vísceras.

É fato que o jornalismo desapareceu dos meios comercias. Mas, pessoas há que ainda insistem, via outros espaços, sem a palavra “imprensa” escrita nas costas, reportando a vida e a morte. E por mais que as bombas atravessem os corpos, outros tomarão as câmeras e os microfones e seguirão narrando. E é por causa deles que o jornalismo ainda vive em Gaza, mesmo sob os escombros do genocídio. Na Palestina as vozes não se calam, por mais que os assassinos insistam. 

Como jornalista me envergonha um pouco que nem o Sindicato da categoria, nem a Federação realizem uma campanha sistemática de repasse de informação sobre Gaza. E que tampouco pranteiem esses colegas que tombaram sob as bombas israelenses, 103 jornalistas. Cá na minha insignificância eu  velo seus corpos e dignifico sua coragem, diariamente, repetindo com o imorrível Mahmoud Darwish:

"Sobre esta terra existe algo que merece viver

Sobre esta terra está a sua dona, a mãe dos começos, a mãe dos finais.

Chama-se Palestina.

E segue chamando-se Palestina. 

Palestina: eu mereço, porque tu és a minha dama, eu mereço viver."

Viverá. Palestina Livre

domingo, 24 de março de 2024

Memória do Carnaval

O livro de Alzemi Machado "O carnaval das grandes sociedades em Desterro/Florianópolis 1858 - 2011" recebeu o Prêmio Patrimônio Cultural do Carnaval, organizado pela Oficina Crítica do Carnaval. O autor fala sobre o prêmio, o livro e a importância da leitura. A entrega será no dia 26 de abril, às 17h, no Museu Histórico de Santa Catarina.

sábado, 23 de março de 2024

A minha cidade

Foto: Rubens Lopes

Hoje Florianópolis está de aniversário. Meiembipe, minha cidade. Lembro quando cheguei aqui com minha mochilinha verde, alguns caraminguás e o sonho de, finalmente fazer faculdade. Meu primeiro lugar foi o dormitório Cruzeiro, lugar de encontros fortuitos, de cuja janela via passar a Lurdinha com sua caixinha de fósforo. A Conselheiro e sua fauna. O mercado público. Desde aquele março de 1987 até hoje minha vida tem sido batalhar por esse lugar, para que seja bom para mim e para toda gente que vive aqui. Vinda das fileiras do MST logo me vinculei ao movimento pela moradia e vi nascer a maioria das comunidades da periferia. Monte Cristo, Chico Mendes, Vila Aparecida, enfim... Com Padre Vilson recorrendo os morros e veredas dos perdidos. Estive na prefeitura do Grando/Afranio, construí o Orçamento Participativo, sonhei esse lugar melhor. Aqui encontrei meu amor. Aqui tenho partilhado amigos queridos. Já se vão mais de três décadas de vida vivida, flanando pelo centro amado, fruindo o Campeche. A foto abaixo define minha relação com a cidade : uma mulher que ama esse lugar e por ele luta. Para que siga sendo lindo e sendo rede onde possamos descansar nossos corpos rotos de batalhas. Uma cidade para os trabalhadores, para os que realmente a fazem, no cotidiano dos dias. Te amo, cidade... Te amo loucamente...

sexta-feira, 22 de março de 2024

Os dramas do Restaurante Universitário


O restaurante universitário da UFSC serve cerca de 10 mil refeições por dia. Sua capacidade foi planejada – em 2011 – para cinco mil, o que já complica. Além disso, a manutenção das instalações, que deveria ser frequente e sistemática, foi abandonada nos últimos anos em função da vertiginosa diminuição dos recursos do governo para as universidades. Tudo isso acaba desembocando em relações muito precárias de trabalho. Não é de hoje que os trabalhadores vêm reivindicando melhorias nas instalações, pois além de se preocuparam com suas próprias condições sabem que o usuário também acaba sofrendo. É fato que as coisas no serviço público são mais lentas. Tudo precisa ser licitado e há que ter recursos. Mas, se há planejamento, a coisa flui. Também é fato que a pandemia complicou demais as coisas e que a última gestão perdeu a mão. Só que agora é preciso dar respostas aos problemas ou então o RU vai fechar. 

Nesta quinta-feira os trabalhadores em greve ocuparam o RU justamente para colocar às claras os dramas que se desenrolam para além da aparência. Enquanto as refeições seguem sendo servidas, lá dentro, os trabalhadores vivenciam situações limite, pois, como já foi dito a cozinha foi projetada para cinco mil refeições e prepara dez mil. Todos os dias são manejados e distribuídos mais de uma tonelada de carnes, 400kg de feijão, 500kg de arroz, além das outras preparações do cardápio. O que ninguém sabe é que para amaciar um bife há que ter equipamento em quantidade suficiente e operando bem, assim como a comida quente no balcão precisa de maquinário adequado. 

Para que a comida esteja saudável as condições higiênico-sanitárias precisam estar em dia. Não estão. Há sobrecarga das instalações causando frequentes entupimento das tubulações. Isso gera sujeira no chão e faz com que o esgoto brote, atingindo as áreas de manipulação de alimentos. Vem o mau cheiro e o risco para a saúde dos trabalhadores. Como trabalhar assim? 

Uma boa olhada na cozinha e já se vê que o piso está se desfazendo, porque a manutenção não acontece. A área de carga e descarga amiúde está invadida pelo esgoto porque as tubulações estão entupidas, o que ajuda na proliferação de insetos e roedores. Risco para os trabalhadores e para os usuários. 

Atualmente o RU tem um número bastante grande de trabalhadores terceirizados (mais de 100), visto que alguns cargos importantes para a manutenção da cozinha foram extintos. Ainda assim, restam cargos que são chaves na cadeia de produção do alimento, como é o caso das nutricionistas, só para dar um exemplo. Isso significa que só com terceirizados o RU não pode funcionar. Daí a importância de se pensar o RU como um todo, focando sempre na qualidade do ambiente onde todos esses trabalhadores atuam.

Agora, aproveitando a greve, os trabalhadores do RU paralisaram por um dia para tornar visíveis suas reivindicações, tais como o redimensionamento das redes de esgoto e elétrica, reparos no telhado da área de produção, almoxarifado e vestiários dos funcionários. Reparos para resolver goteiras e infiltrações nos banheiros, vestiários e na área de produção e estoque de alimentos. Manutenção do ar condicionado do refeitório que não tem dado conta nesses dias de intenso calor. Climatização da cozinha, que é extremamente quente por conta dos equipamentos de cocção, e que torna exaustivo ao extremo o trabalho. Climatização do almoxarifado para evitar proliferação de insetos. Manutenção preventiva dos equipamentos. Criação de novos espaços para o preparo e distribuição de alimentos no campus, visando diminuir as imensas filas. Contratação de mais trabalhadores, pois se aumenta o número de refeições o quadro não acompanha gerando sobrecarga.  

Estas são algumas questões que estão na pauta. A principal delas é a garantia de um alimento saudável e de qualidade que está em risco nas atuais condições. Os trabalhadores sabem que o governo federal diminuiu ainda mais os recursos para as universidades e por isso estão em luta. Querem recuperar os salários, melhorar o plano de cargos, mas fundamentalmente lutam pela valorização das universidades, abandonadas nos últimos governos e também no atual. 

Sabem que é duro fechar as portas, mas também sabem que se não forem resolvidos esses problemas estruturais não demorará muito para que o RU seja obrigado a parar por absoluta falta de condições. Por isso apontam que toda a energia dispendida para “xingar” os trabalhadores seja voltada para o governo, exigindo uma proposta séria na mesa de negociação e mais recursos para as universidades.