terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Nem tão Santa Catarina



Os tempos são de perplexidade. Temos assistido às maiores barbaridades, rolando a tela do celular, num alcance mecânico e indiferente. O mundo, essa gaiola de loucura, vai ganhando contornos de uma grande partida de futebol. O bem e o mal diuturnamente se digladiando, mas com etiquetas trocadas. O que é bem vira mal, o que é mal vira bem. Tudo “al revés”. Lembro-me, por exemplo, das campanhas bolsonaristas na internet acusando o papa Francisco de pedófilo e comedor de criancinhas, quando na verdade eram seus “ídolos” os que praticavam esses horrores. E assim podemos seguir com centenas de exemplos. 

Santa Catarina, outro exemplo, é pintada como o estado mais seguro do país, o lugar das maravilhas. Mas, por aqui tivemos no ano passado mais de 50 feminicídios e 225 tentativas. É realmente uma epidemia. Todos os dias, os jornais mostram uma mulher sendo assassinada ou escapando por uma triz. Matar virou coisa natural, como se vivêssemos num mundo anômico, sem lei. A polícia, que deveria existir para proteger, tem sido a que mais mata. Cem pessoas foram mortas pela PM e uma em cada quatro sem qualquer antecedente criminal. Nos últimos dias, vimos policiais atacando mulheres de maneira brutal, sem qualquer propósito. E mesmo com todos estes dados e informações, acompanhamos as boca-alugadas da mídia afirmando que aqui é o melhor lugar para viver, por conta da segurança. Segurança para quem?

Não que o respeito à cidade também seja incontável às violências. Dia após dia a administração municipal vai destruindo a vida, a memória, a cultura. E a população - salvo raras opiniões - seguindo a vidinha, apreciando os videozinhos do prefeito no Tik Topk. O cimento tomando conta das praias, o crescimento desordenado e sem estrutura, o esgoto jorrando no mar. E a turma curtindo o verão. A última agora é o anúncio da tal marina da Beira-Mar, mais um empreendimento que nos roubamos a cidade. Obra para os ricos, aplaudida pelos que nada têm. Enquanto isso, os trabalhadores vão sendo empurrados para fora da cidade, com as vidas inviabilizadas pela voracidade do capital. 

Nem vou falar do martírio do cãozinho Orelha protagonizado por jovens "bem-nascidos".

Ontem vi a notícia de que pretendíamos destruir os bonecos do Berbigão. Um baque atrás do outro. Ainda não se sabe quem atou fogo nos bonecos que, por conta da ação rápida da segurança, não queimou na totalidade, apenas dois foram destruídos, mas eu torço para que tenha sido uma fatalidade, um ato tresloucado de alguma pessoa alcoolizada, sei lá. Não sei se suportarei saber que foi um ato intencional, para realmente apagar os gigantes da alegria, bonecos de pessoas que são significados da nossa cultura. 

Assusta-me ver nossa cidade se transformando desta forma tão violenta. Parece que não há parada... Seguiremos rolando a tela do celular? Inertes? 

De minha parte, escrevo, na minha impotência...

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Quem poderá nos salvar?


 

Li há pouco uma análise sobre a Venezuela na qual o autor do texto encerrava dizendo que não devíamos esperar a ajuda de China ou Rússia porque, na verdade, a Venezuela deveria salvar-se a si mesma. Refleti sobre isso e me permito discordar. Ninguém, no mundo humano, se salva sozinho. Somos seres sociais, de cooperação. Por mais fortes que sejamos precisamos de parcerias. O que acontece é que as grandes potências geralmente pouco se importam com os destinos das gentes dos países menores. No frigir dos ovos, tudo o que defendem são os seus interesses. Se eles estiverem ameaçados, talvez, possam intervir. Se não, que se salvem sozinhos. 


Vejam aí o caso da Palestina. Estamos assistindo há mais de dois anos um povo inteiro ser destruído. Bombardeios em escolas, hospitais, creches. Os maiores horrores já impostos. E o que fazem as grandes potências? Notas de repúdio. Quem sai às ruas em protestos são as pessoas, na sua impotência. Nada, absolutamente nada tem sido feito pelo povo palestino.  Todos os dias explode um lugar, morrem pessoas, crianças vagam sem rumo pelos escombros. E os grandes seguem disputando poder no tabuleiro geopolítico. Somália, Sudão e tantos outros lugares do mundo, onde as populações estão sendo dizimadas, nada acontece. E os governantes quietos. Esperam! Esperam silentes ver o território arrasado e vazio para depois, aí, ver o que sobrou de riqueza para abocanhar. Nessa hora talvez enfrentem os seus iguais.


Tem sido assim na América Latina. Só nos últimos anos, o que presenciamos? O Haiti foi invadido em nome da paz e da democracia. Está destruído, com seu povo passando pelos piores sofrimentos. Nada é feito. Ajudas humanitárias chegam e são desviadas. "Eles que se salvem”. Parece muito difícil que isso aconteça quando são acossados pelo império estadunidense. Não precisam de caridade, precisam de amigos fortes. 

Nem vou falar de outros momentos históricos porque o texto não teria fim. 


Agora estamos vendo a Venezuela ser destruída. O presidente sequestrado, a população e o governo ameaçados, obrigados a ceder aos desmandos estadunidenses. E por quê? Porque estão sozinhos. E com os navios nucleares do comando sul na sua porta que podem fazer senão ceder, esperando que o tempo lhes aponte caminhos. Esperam que os crimes de Donald Trump o derrubem. Mas, sabemos, isso tem pouca chance de acontecer. Assim como Bolsonaro não era um louco, Trump também não é. Ele é o típico representante da classe dominante estadunidense, imperialista. Se, aparentando loucura, ele bombardear a Venezuela e destruir tudo para pegar o petróleo, ninguém vai pará-lo por isso. Quando tudo tiver arrasado, pode até ser. Serviu. Valeu!


O mesmo se dá com Cuba. Trump está decidido a acabar com a vida na ilha. O bloqueio ao petróleo é a pá de cal na sua tática de "espera paciente”, a qual usam desde que começaram a expandir seu território depois da independência. Vão minando, estrangulando economicamente, fomentando rebeliões até que, pimba, tomam para si. Como se salvarão os cubanos de um ataque armado, ou químico ou tecnológico? Sozinhos? Não. Tampouco com as “ajudas humanitárias”. Precisam de parceiros na luta. Parceiros fortes, graúdos, com poder. Mas, ao que parece, os grandes farão o que sempre fazem. Uma dose de caridade, uma ajudinha com arroz, enquanto o cavaleiro da desgraça vai varrendo o território.


Não há espaço para ingenuidades. No capitalismo, a cooperação e a solidariedade não virão das grandes potências, porque é da sua natureza buscar sempre lucros e mais lucros, riquezas e mais riquezas. Não estão interessados em soberania dos pequenos. O que nos resta, então? O caminho já foi apontado por Bolívar: consolidar a Pátria Grande. Unidas, as pátrias chicas de Nuestra América teriam alguma chance nesse mundo de perversidades do capital. Separadas, são terreno fértil para a invasão, a dominação. Infelizmente o que temos visto no caso da Venezuela e de Cuba é a omissão reverente. Um saco de arroz, tudo bem, mas uma posição mais firme contra os ataques, aí já é pedir demais. Restam as notas de repúdio, inócuas e cínicas.


O fato é que, sim, estamos sozinhos e precisamos salvar-nos a nós mesmos. Difícil tarefa, mas, que outra saída? Quem sabe um dia, algo mude… É o que nos mantém na luta, mesmo que, como Martí e Camilo Torres, possamos vir a cair no primeiro combate. Indefectivelmente temos de seguir em frente, fiéis a nossos sonhos de vida boa e bonita para todos. 


Na verdade, somos assim como o herói mexicano, Chapolin Colorado,  que, mesmo apavorado e sem poder, avança sobre o inimigo munido apenas de seu profundo amor pela vida. Assim nós. P'alante!



terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

O jornalismo em tempos de multimídia

Adelmo Genro Filho, criador da teoria marxista de jornalismo

Outro dia um amigo me disse categoricamente: este jornalismo que tu faz não existe mais, não tem mais espaço para ele no mundo. Fiquei a matutar. E parei por alguns dias a observar a realidade da comunicação no Brasil. 

Já faz algum tempo que a estrutura da comunicação mudou. Os jornais vão desaparecendo, a vida se faz nas redes sociais. Empresas, sindicatos, entidades não querem mais contratar jornalistas, preferem pessoas capacitadas para gerir as redes sociais. O negócio é lacrar no Instagram mesmo que, muitas vezes, a informação fique em segundo plano. E esta lógica tomou um rumo tão hegemônico que agora, em seis de janeiro, o governo sancionou a Lei nº 15.325, chamada de “lei dos multimídias”. A nova lei regulamente uma profissão nova que engloba todos aqueles que trabalham com mídias digitais, incluindo os tais “influenciadores”. 

A nova lei está sendo questionada por radialistas e jornalistas. As entidades sindicais ligadas a esses profissionais alegam que o reconhecimento do “multimídia” pode gerar sobreposição de atribuições e fragilizar a regulamentação do jornalismo e do radialista, uma vez que estas categorias, que têm anos de luta, já conquistaram direitos importantes bem como um piso salarial. O fato concreto é que profissionais multimídia já atuam no mercado há anos e como já disse, vêm ganhando cada vez mais espaço no mercado de trabalho. É bem mais barato contratar um produtor de conteúdo do que um jornalista, por exemplo. Para as empresas é bem melhor. Para os trabalhadores não tanto, pois além de disputar espaço com outras profissões já regulamentadas, acabam sempre sendo arrochados no quesito salário.

Com essa mudança o que se observa é que realmente parece não haver mais espaço para o jornalista. Os que tentam sobreviver no mundo “influencer” acabam virando comentarista de notícias. Na nova geração de jornalistas, sem espaço de trabalho formal, a saída acaba sendo essa: criar um canal no Youtube ou no Instagram e ali fazer comentários. Mas a concorrência com os influenciadores é grande. Ainda há alguns jornalistas que tentam oferecer notícias e reportagens bem feitas. Mas, no geral são profissionais mais velhos e com estrutura para sustentar uma boa apuração dos fatos. A maioria baseia-se apenas na opinião ou na informação colhida de maneira mais superficial. 

É um jeito novo na forma, mas não no conteúdo. Antes das redes também tínhamos muitos jornalistas a escrever notícias superficiais, baseadas em achismos ou sustentadas em uma única fonte – no geral oficial. O jornalismo chamado “manual de geladeira”, sem interpretação ou análise, era maioria nos meios comerciais. Então, olhando bem, não há grandes novidades no campo. 

A novidade, é claro, está na entrada deste novo profissional, o multimídia, na seara da do jornalismo. Sendo assim, que fazer? Agora estamos no tempo do protesto. Jornalistas e radialistas apontam os perigos da lei no aprofundamento da precarização de todos os profissionais. Mas, talvez, seja hora de pensar no ataque. Um sindicato dos trabalhadores da comunicação, quem sabe, que pudesse juntar a todos para garantir mais direitos e vantagens. Algo a se pensar. 

Já no que diz respeito ao jornalismo, insisto em discordar do meu amigo. O jornalismo que eu faço - e muitos outros que conheço – existe sim. Existe e existirá. Porque o jornalismo é cada dia mais necessário. Neste universo de “influencers” que muitas vezes, a exemplo dos antigos grandes jornalões, representam os interesses da classe dominante e do capital, é preciso que emerja o jornalismo, aquele do qual fala Adelmo Genro Filho. O jornalismo que é necessidade social, que aponta a totalidade dos fatos, que leva o leitor à reflexão crítica sobre a realidade, que apresenta a diversidade dos pontos e vista, que interpreta e descreve. Como antes lutávamos contra o jornalismo superficial  e alienador nos grandes meios, agora há que lutar contra a falta de jornalismo nos grandes meios. A batalha é a mesma, as armas mudam um pouquinho. 

Antes como agora, o desafio é unificar os trabalhadores e travar a batalha contra o inimigo real: o sistema capitalista, que tudo engole, que superexplora, que aliena e domestica. Nunca foi fácil fazer esse debate. Nem agora será. Mas, há que seguir resistindo e fazendo jornalismo de qualidade. 



terça-feira, 23 de dezembro de 2025

O Natal e o Ano Novo



Sempre que chega o fim do ano somos assaltados pela “opressão da bondade”. Parece que há uma obrigação de participar de festas que não queremos, dar presentes, fingir alegria. Natal, Ano Novo, um atrás do outro, cobrando felicidade, encontros, brindes. Mas, por vezes, não estamos para tanto. O natal mesmo, só me traz melancolia. Lembranças de um tempo em que a mãe fazia sua torta de bolachinha e o pai nos surpreendia após a missa do galo, com algum presente singelo. Íamos todos à igreja matriz e parecia que a vida seria sempre assim, a família reunida, sem rugosidades. Já o ano novo não tinha muito ritual. Era só um churrasco de feriado.


Depois, o tempo passa, a gente cresce, cada irmão encontra seu caminho, os pais morrem. Criamos novas tradições. E fica sempre aquele gostinho de infância que, querendo ou não, diz tristeza, porque afinal, tudo já se foi.


Gosto de celebrar o Natal como um dia de aniversário e não como tempo de Papai Noel. Monto o presépio, acendo a arvorezinha, e espero que novamente nasça aquele menino que foi Jesus, o Cristo. Jantamos na hora de sempre, seis da tarde, e logo vou dormir, não sem deixar o pastinho arrumado embaixo da janela, para o burrinho que traz a família sagrada. Celebramos no dia 25 mesmo, com o almoço tradicional: uma galinha marinada na cerveja, arroz, salada e cerveja gelada. Tudo muito simples, em honra do menino.


Para o ano novo recupero a tradição da mãe que era a de fazer pastel com arroz branco e salada de alface. Tampouco esperávamos a meia-noite, como hoje. A janta é no horário de sempre, com o cardápio especial. Se pá, estouramos um espumante gelado, enquanto a tarde vai caindo na barra do céu. Geralmente ficamos ali no alpendre, rodeados pelos bichos, falando das coisas do nosso tempo, os dramas humanos vividos no ano, os das gentes e os nossos, que também são dolorosos. Depois, a conversa envereda por temas filosóficos e teóricos, ganhando complexidade conforme o copo vai enchendo e esvaziando. Se vem o meu irmão, cantamos velhas canções e fazemos aflorar as lembranças. Se não, é o silêncio que nos envolve. Gosto do silêncio.


O ano que passou foi triste. Tanta coisa ruim. Apenas alguns vislumbres de alegria, aqui e ali, nos quais nos agarramos para seguir em frente. A América Latina voltando a se envolver em sombras, a Palestina como chaga aberta, sangrando, tantas maldades pelo mundo, os problemas irresolvíveis que não se esfumaçam apenas porque virou o ano na folhinha presa à geladeira. Seguem ali, doendo. As ausências que surgem como punhais, os encontros que não serão possíveis. Ainda assim, e apesar disso, seguiremos buscando colher uma alegriazinha aqui e outra ali, porque afinal a vida não é unicamente um vale de lágrimas. Sempre assoma o sol do meio dia, mesmo quando não queremos. E ele nos transpassa, exigindo vida. É quando levantamos e vamos em frente…


Desejo a todos que esse sol possa estar à pino nestas datas, respingando felicidades… Bom Natal e bom ano...

quarta-feira, 26 de novembro de 2025

Vitória dos TAEs da UFSC






 “Cada vez que eu dou um passo, o mundo sai do lugar”... A frase do compositor pernambucano Siba expressa muito bem a luta social: no mundo dos trabalhadores nada se conquista sozinho. Tudo é um longo processo de construção que implica muita gente, cada um dando um passo e movendo o mundo. Ontem, na UFSC, os TAEs garantiram uma importante vitória depois de décadas de batalhas, com avanços e retrocessos. Foi finalmente aprovado o Controle Social e a flexibilização dos horários. A decisão do Conselho Universitário amalgamou uma longa caminhada de luta que só a organização coletiva dos trabalhadores foi capaz de dar conta. 

Quando os órgãos de controle iniciaram uma campanha para obrigar a instalação de relógio ponto na universidade os trabalhadores começaram todo um processo de construção de alternativa visando mostrar que uma universidade não é uma fábrica de salsicha. Ela se move em terreno imaterial, o trabalho envolve inúmeras funções que exigem processos diferenciados. Não se tratava de fugir do ponto, mas de deixar claro que o ponto não era a melhor opção para o controle público do trabalhador público. 

Como sempre acontece, buscando o mais fácil, os dirigentes da época preferiram atender a indicação da CGU e do Ministério Público e chegaram até a comprar os relógios. Mas, a força da luta dos trabalhadores e, principalmente, o extraordinário trabalho da categoria na proposição de alternativa, mudou o curso do rio. Depois de muito debate coletivo os TAEs conseguiram aprovar a criação de um grupo de estudo, o “Reorganiza”, que iria levantar a situação dos setores e apontar outro jeito de prestar contas à sociedade sobre horário de trabalho. Foram longos meses de trabalho, debates, conflitos, até que tudo ficou pronto. Consolidava ali a proposta das 30 horas e do Controle Social, uma maneira de ampliar o atendimento na UFSC e de garantir qualidade de vida aos trabalhadores. Mas, quando chegou a hora de aprovar o relatório, a então reitora Roselane Neckel decidiu não levar adiante a proposta.

Os TAEs realizaram até uma greve local específica que, desgraçadamente acabou por conta da direção do sindicato que trouxe os aposentados para uma assembleia de desmobilização.  

Apesar desta triste derrota a luta não parou e nos anos seguintes os trabalhadores continuaram suas mobilizações. A universidade foi mudando e as propostas do Reorganiza também precisaram ser revistas. A luta pelas 30 horas seguiu, mas também apareceram novas formulações, como o teletrabalho e a flexibilização, que seguiam as novas tendências pós-pandêmicas. Alguns projetos pilotos foram criados e ali também foram dados importantes passos de transformação. Quando o reitor Irineu Manuel de Souza se elegeu, levava junto também a promessa de oficializar estas práticas que já se expressavam em vários espaços da UFSC.  

A discussão ontem no Conselho Universitário foi mais um passo nesta longa batalha dos trabalhadores técnico-administrativos que, desde sempre, entendem serem eles os mais qualificados para apresentar propostas sobre suas vidas laborais. Apesar de haver uma “tradição” de que são os professores os sábios, na UFSC os TAEs já mostraram que são capazes de atuar ombro a ombro na construção da universidade. 

Assim que, mais uma vez, com a força da luta coletiva, com um sindicato forte, com capacidade de convocatória, os trabalhadores acorreram em grande número à reunião do CUn, dispostos a arrancar a vitória com a força de seus argumentos e sua mobilização. Desta vez, as conquistas vieram. Foi bonito! 

É certo que as batalhas não acabam aqui nesta vitória que é dos TAEs e que é também da administração do Irineu, que cumpriu sua promessa. Com mudanças estruturais na forma-trabalho outros novos desafios certamente aparecerão e, mais uma vez, os trabalhadores terão de encontrar caminhos. Novos passos, novas mudanças de mundo. 

Para a nova geração que ontem lotou o auditório da reitoria fica essa deliciosa sensação de vitória. Mas, sempre é bom deixar registrado que ela não veio por conta do hoje. Ela é fruto de uma fieira de gente que lutou, que quase foi demitido (como o Daniel), que foi perseguido (como a Juliane), que ficou doente, que precisou se afastar, enfim, companheiros e companheiras, com nome e sobrenome, que pavimentaram essa conquista. 

O sindicato foi gigante. E mostra que ainda é por esta via que a organização se faz. E os trabalhadores de hoje fizeram sua parte, garantindo essa importante vitória para todos nós.

Um viva aos os trabalhadores e trabalhadoras!  Ontem o mundo saiu do lugar...

quarta-feira, 19 de novembro de 2025

Um dia para os TAEs

 


 Ontem foi um dia de alegria para os trabalhadores técnico-administrativos da UFSC. Um dia histórico. Uma reunião especial do Conselho Universitário concedeu, pela primeira vez, o título de “TAE Emérito” para quatro trabalhadores que encerram – em cada uma de suas trajetórias singulares  - a expressão de um tempo de luta renhida, de amor pela universidade e de compromisso com o trabalho público. Foram homenageados Raquel Moyses, Helena Dalri, Angela Dalri e José de Assis, um quarteto de peso e de passagem inesquecível pela UFSC.

A decisão da homenagem é também uma vitória do Sintufsc, que durante muito tempo batalhou para que, assim como os professores – que são sistematicamente homenageados como professor emérito – também os TAEs pudessem desfrutar desta honraria. Afinal, é mais do que sabido a importância dos trabalhadores TAEs na construção do conhecimento dentro da universidade. Vai muito longe o tempo em que o TAE era visto apenas como “figura da burocracia”. Desde sempre eles são fundamentais no suporte ao ensino, pesquisa e extensão, atuando ombro a ombro com o professorado, pois, como já bem explicou o filósofo marxista, Alfred Sohn-Rethel, nenhum trabalho é possível sem o elemento intelectual. Logo, não pode haver divisão entre trabalho braçal/burocrático e trabalho intelectual, um contém o outro sem possibilidade de separação. 

A honraria aos TAEs é aprovada justamente no mandato do reitor Irineu Manoel de Souza, e não poderia ser em outro, visto que Irineu, que entrou na UFSC como TAE e dirigiu o departamento pessoal por muitos anos, sempre soube dar o devido valor para a categoria. É igualmente inesquecível a passagem do Irineu pelos cargos de direção, tanto no cuidado com os TAEs quanto com os estudantes, no DAE, sempre garantindo o respeito e a participação. 

E foi a vitória destes valores que pudemos acompanhar ontem na reunião especial do CUn. Foi verdadeiramente emocionante ver os colegas sendo homenageados e lembrados com as palavras mais certeiras sobre suas atuações na UFSC, que deixaram marcas indeléveis. 

Os homenageados:


RAQUEL JORGE MOYSÉS -  Raquel atuou como repórter na Agência de Comunicação. Coordenou como Chefe de Reportagem o premiado Jornal Universitário, colaborando de forma decisiva na construção da Política de Comunicação da Agecom, que foi replicada como exemplo em várias universidades do país. Profundamente vinculada às lutas dos trabalhadores atuou no Sindicato dos Trabalhadores, o Sintufsc, primeiro como Diretora de Comunicação e depois como Coordenadora Geral. Liderou importantes batalhas pela manutenção do HU público e contra o Assédio Moral. Depois de sofrer censura e assédio na Agecom, durante a gestão de Áureo Moraes, acabou se integrando ao grupo que fundou o Instituto de Estudos Latino-Americanos, o primeiro no gênero em todo o país. Seu amor pela UFSC e seu compromisso com a instituição estão plasmados no trabalho que deixou eternizado nas páginas do JU.  

HELENA DALRI - Helena atuou no Centro de Ciências Jurídicas, no Curso de Direito, sendo reiteradamente reconhecida pelos alunos em incontáveis formaturas, escolhida como nome de turma ou paraninfa. Sua capacidade de trabalho sempre foi reconhecida, inclusive pelos adversários que amealhou ao longo de sua vida como liderança dos trabalhadores, primeiro na Associação e depois no Sindicato. Foi no ano em que presidiu a Asufsc, na primeira vitória da esquerda, que garantiu a criação do Sindicato dos Trabalhadores, o Sintufsc, abrindo um importante caminho de luta para os Trabalhadores Técnico-Administrativos. Dirigiu grandes greves nos anos 1980, 1990 e 2000, quando as lutas eram massivas e a defesa da universidade pública era a grande pauta. Sem lugar a dúvidas, Helena foi a mais importante liderança dos TAEs em todos os tempos. Sua postura ética e capacidade de articulação são até hoje insuperáveis. 

ANGELA DALRI - Ângela atuou no Centro Socioeconômico, no Curso e Administração e já nos primeiros anos se converteu em importante liderança junto aos trabalhadores, articulando os colegas para as lutas que se faziam pródigas em defesa da universidade pública. Foi diretora do Sintufsc em vários mandatos, incluindo uma coordenação geral, se destacando pela capacidade de organizar o trabalho sindical, bem como as atividades necessárias nas greves. Era ela quem constituía as equipes de trabalho circulando dia e noite pela universidade para garantir as mobilizações. Era conhecida como “formiguinha" por estar incansavelmente envolvido em alguma tarefa. Nas greves era a primeira a chegar a última a sair, sempre se destacando pela criatividade na construção das ações sindicais. 

JOSÉ DE ASSIS - Poucos trabalhadores que já passaram pela UFSC amaram tanto esta universidade como o José de Assis. Atuando por décadas no Departamento de Assuntos Estudantis era muito amado pelos estudantes, por sua capacidade de atender a cada um e cada uma com uma eficiência inigualável. Dono de memória fotográfica, conhecia cada pasta de arquivo - quando estas eram de papel - dos milhares de estudantes da UFSC e se orgulhava disso. Sempre foi envolvido com a defesa da universidade pública e com a luta dos trabalhadores. Foi coordenador geral do Sintufsc e também ocupou outros cargos no sindicato, trabalhando infatigavelmente pela melhoria da vida dos trabalhadores. Seus discursos, nas greves e nas plenárias da Fasubra, eram capazes de incendiar os auditórios. Por sua pródiga memória tinha sempre na ponta da língua os números das leis e de toda sorte de decretos, tornando-se um oponente imbatível nas mesas de negociação. Apesar de ter tido uma passagem pelo grupo da direita da Universidade foi capaz de mudar e mergulhar de cabeça na luta sindical, tornando-se uma das mais importantes lideranças dos TAEs. De temperamento alegre e dono de uma pureza inigualável amealhou mais amigos que inimigos. Seu amor pelos estudantes sempre foi seu ponto forte e enquanto diretor do sindicato o apoio aos estudantes foi a sua marca.
As homenagens a esses especiais e amados colegas nos enche de orgulho, emoção e alegria. Nestes tempos em que o cargo de TAE está em vias de extinção por conta da reforma administrativa é muito significativo viver esse momento.

Gracias infinitas ao povo do Sintufsc e ao nosso reitor Irineu! Foi bonito demais!

sexta-feira, 31 de outubro de 2025

Hoje é dia do Saci


 




Fotos: celebrações do dia do Saci no centro de Florianópolis

Até os anos 60 do século passado a vida da gente era completamente imbricada com a natureza. As grandes cidades ficavam muito distantes e as crianças vivenciavam toda a beleza de conhecer e compartilhar as figuras míticas, moradoras das florestas e dos cantos escuros dos lugares onde viviam. Desde pequenos, os meninos e meninas aprendiam que no meio da noite vagava um negrinho, pastoreando uma boiada, e que se alguma coisa se perdesse dentro de casa era só acender uma vela, e o negrinho ajudava a encontrar. O negrinho do pastoreio era visto nas noites de chuva, quando os relâmpagos riscavam o céu, imponente, no seu baio, cavalgando no rumo das estrelas. 

Nas tarde de inverno, quando os redemoinhos varriam as ruas, a gurizada saia como foguete, com suas garrafas de bocas abertas, buscando aprisionar os Sacis Pererês. Porque afinal, desde sempre aprendiam que o negrinho de uma perna só costumava estar sempre no meio do redemoinho e só aí, quando estava distraído, girando no vento, é que se podia pegá-lo. De resto era sempre um tal de fazer estripulias, batendo janelas, quebrando as louças, levantando as saias das moças. O Saci é guri frajola, serelepe, cheio de alegria e de liberdade.

E se vinha a noite fechada, as crianças entravam em casa, porque sabiam que lá fora, na mata, haveria de andar o boitatá, a cobra de fogo que come os olhos dos bichos, ou ainda o lobisomem, buscando sangue fresco, e o curupira, arrastando os pés virados, procurando pela mula-sem-cabeça. Esse era um universo conhecido e reproduzido nas escolas, na família, nas rodas de conversa ao pé do fogo. 
Já na ilha de Florianópolis, além de todos esses animais míticos também voejavam as bruxas, fazendo rodar as saias, empurrando as canoas para o alto mar, encantando os pescadores, fazendo sortilégios. Era bater o vento sul e as famílias já ficavam de orelha em pé.  

Mas, aí veio a urbanização, o crescimento das grandes cidades, o capitalismo apertou seus laços, infundiu a ideia do consumo. E, além da dominação econômica que já se apresentava, com o Brasil subordinado a bancos internacionais e governos de fora, outra dominação foi tomando conta da vida das gentes: a cultural. 

Já não bastava mais importar o jeito de produzir, a maneira de fazer as coisas, mas era necessário também copiar a cultura, o modo de ser no mundo daqueles que economicamente já dominavam a vida por aqui. Foi assim que se introduziu a moda, com a calça jeans, a minissaia, ou a música, com a introdução da guitarra elétrica e o rock, abafando de vez a marchinha, o xaxado, o baião e a vaneira. 
No cinema, dava-se adeus aos musicais inocentes e aos filmes do caipira Mazzaropi, recheados da vida nacional. Era chegada a hora de Roliúde e seus enlatados repletos de ideologia, colonizando as mentes, apresentando mentiras. Os faroestes estadunidenses endeusavam os cowboys e demonizavam os índios. Os filmes de ação apresentavam os soldados estadunidenses como heróis, salvando o mundo dos horrores das guerras, dos comunistas, e os dramas consolidavam a certeza de que bom mesmo era viver em apartamentos com carpete, fumar Malboro e encontrar o homem dos sonhos, que seria branco, alto e de olhos claros. 

A partir daí foram-se ocupando os territórios mentais. As cidades cresceram, se modernizaram, e as gentes se faziam cada vez mais parecidas com aqueles que, de certa forma, já dominavam no terreno da economia e da política. Bom mesmo era cantar em inglês e não foram poucos os jovens cantores brasileiros que iniciaram suas carreiras cantando na língua estrangeira. Um bom exemplo foi Morris Albert, que fez sucesso no mundo todo com a música “Feelings”. Cantar em português era coisa de brega. Nas festinhas a juventude enrolava um inglês que sequer se entendia. Papagaios.

O conceito de colonização diz que essa situação se faz real quando se conquista um território e se estabelecem novos moradores de acordo com o desejo dos que dominam. Pois foi exatamente isso que aconteceu com a gente. Nas cabeças das crianças, desde a mais tenra idade, foram sendo plantados novos conceitos, totalmente alienígenas. E esse tipo de controle chegou também no campo dos mitos. De repente, já ninguém mais falava em Saci, Curupira, Boitatá, Mula-sem-cabeça. Pela via do cinema cresceu a figura do vampiro e das festas estadunidenses. Uma delas é o Dia das Bruxas.

Até uns 20 anos atrás o tal do “Raloim” era celebrado apenas nas escolas de inglês, o que até tinha certo sentido, uma vez que quando se aprende uma língua há que se aprender algo da cultura do povo. Mas, depois, de mansinho, a festa foi se imiscuindo na vida cotidiana dos jardins de infância das escolas públicas e particulares, espaço de terra virgem, onde a colonização mental tem uma força tremenda. Sem que as famílias percebessem, os elementos mais enraizados da cultura estadunidense começaram a fazer morada na vida da criançada brasileira. Abóboras, a lenda do Jack, enfim, todos os elementos da belíssima lenda de origem celta que foi trazida aos Estados Unidos pelos colonos ingleses. Coloniza-se a cultura e movimenta-se a máquina do capital.

Ao contrário do significado cultural e místico que o Raloim tem nos Estados Unidos, aqui, ao ser transferido de forma artificial, o tal “dia das bruxas” nada mais é do que uma data a mais para vender coisas, que aparecem em profusão nas lojas: abóboras, máscaras, fantasias. Desafortunadamente, essa colonização mental não acontece unicamente no Brasil, ela toma conta também de quase todos os países latino-americanos, onde se pode ver a indefectível abóbora nos 31 de outubro de cada ano.
No Brasil, um grupo de ativistas da cultura do interior de São Paulo começou desde há anos um importante trabalho de conscientização sobre a história da cultura nacional. Grupos como a Sociedade dos Observadores do Saci, a Sosaci, tem dado contribuição importante nesse processo, produzindo vídeos e outros materiais educativos visando recuperar os antigos mitos e lendas da cultura indígena e negra. Levando esse debate por todo o país, os militantes da Sosaci lutaram muito para que fosse instituído o dia 31 de outubro como o Dia do Saci, fazendo com que nosso moleque, de raiz indígena e negra, vença de uma vez por todas a dominação cultural do “raloim”, como bem atesta o manifesto do grupo. “Nós, brasileiros, temos nossos próprios mitos, que não ficam nada a dever a esses importados, comerciais, que são usados para anestesiar a autoestima do nosso povo. Respeitamos os mitos dos outros, mas não queremos que eles sejam usados pela indústria cultural como predadores dos nossos. E, Cada vez mais, muitos brasileiros começam a compreender isso. 

Uma prova são eventos como “O Grito do Saci”, realizado em São Luiz do Paraitinga, Estado de São Paulo, que atrai muita gente e cria uma catarse geral, uma lavação de alma. Outra prova é a onda de adesões que a Sosaci (Sociedade dos Observadores de Saci) recebe de vários pontos do país. O Saci, a Iara, o Boitatá, o Curupira, o Mapinguari , as bruxas da ilha e muitos outros brasileiros legítimos estão aí para serem festejados, sem espírito comercial, como nossos legítimos representantes no mundo do imaginário popular e infantil”. E assim é.

A discussão que foi criada em torno da celebração do Dia do Saci em nada tem a ver com a xenofobia ou o desrespeito a outros povos. Momentos como o Dia dos Mortos no México, o Inti Raimi na América Andina e o Halloween nos Estados Unidos representam a essência cultural de cada um dos povos que os reverenciam. Assim, a celebração dos nossos mitos autóctones é justamente a retomada do nosso território cultural que há tanto tempo vem sendo invadido e colonizado. Respeitar e dialogar com as demais culturas é rico e saudável, mas o preço disso não pode ser a destruição das nossas memórias ancestrais. 

O campo da cultura é sempre um espaço muito mal cuidado pelos movimentos sociais e sindicatos de luta. Faz-se muita política, discute-se o capitalismo, mas muito pouco se discute o pilar de todas as mudanças que é o imaginário popular, a cultura. Desde aí se pode avançar com muito mais eficácia no processo de transformação da sociedade. Se desde bem pequenas as crianças tomarem contato com a beleza que vive no seu próprio espaço de vivência, muito mais fácil será trabalhar conceitos como soberania, liberdade, pensamento crítico, transformação.

A proposta do Dia Nacional do Saci, já definida como 31 de outubro, não é pueril, muito menos folclórica. É uma resposta inteligente e criativa a um longo processo de colonização mental que impera no nosso país desde a invasão europeia. Destruíram muitas culturas originárias, impuseram determinadas crenças e hoje, buscam homogeneizar a cultura. Mas, por todos os cantos do Brasil se levantam os amantes do Saci, do Curupira, do Boitatá, de Iara, Mãe d´água, Boto cor-de-rosa. Todos juntos se encontram nesse dia 31 para uma grande festa com carne seca, mandioca e viola. Porque nossa cultura autóctone tem beleza demais para se render aos interesses do capital.
Mas, para isso, é preciso que cada brasileiro faça sua parte. Pais e mães precisam retomar as velhas histórias, escolas devem ensinar os antigos mitos e toda a gente deve celebrar esse dia 31 de outubro como o dia do Saci e de todos os seus amigos. 

Em Florianópolis o grupo da Revista Pobres e Nojentas celebra desde o ano de 2003, no 31 de outubro, o Dia do Saci e seus amigos. Com atividades de rua e com divulgação busca  dialogar com a população, apresenta a história dos mitos locais, incentiva o festejo da cultura nacional. A mobilização até rendeu até a criação de uma lei municipal que estabelece esse dia como um dia de celebrar o gurizinho de uma perna só, retrato amalgamado da nossa cultura, juntando elementos indígenas, negro e europeu. Mas, como muitas leis, não vingou. O Saci segue bem esquecido.

Os mitos brasileiros são nossa herança cultural e não podem morrer. Eles mudam, se transformam, se atualizam, mas seguem apontando caminhos. Por isso, não se perdem. Então, preste muita atenção quando passar pelos taquarais que ainda resistem por aí na ilha de Santa Catarina. Ao ouvirem os barulhinhos de “cloc, cloc, cloc”, atentem-se. São os Sacis nascendo. Eles nascem dentro das taquaras e bambus. E estão vindo, aos milhares, pulando em uma perna só, fazendo bagunça na proposta de destruição cultural que o império tenta nos impor. 

Saci vive e está bem aí, do seu lado. Com ele, voam as bruxas da ilha, balançando as cabeleiras e enroscando nossos corações. Acredite! Viva o saci e seus amigos...
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