sexta-feira, 6 de novembro de 2026

Concessões ilegais de terra são reconhecidas pela Justiça

Gert - uma luta incansável  - Foto: Rafael Sanz/Sul 21

Prefeito após prefeito o que temos visto em Florianópolis é uma cidade à venda e em destruição. Crescimento desordenado, alterações do Plano Diretor ao sabor dos desejos da classe dominante e aniquilamento ambiental. Mas, apesar da violência e da velocidade destas ações, o movimento comunitário e popular resiste. E, vez em quando, tem alguma vitória. 

Foi o que aconteceu no Pântano do Sul, quando a titânica batalha do Coletivo Ecolhar garantiu uma conquista espetacular: a anulação das várias cadeias dominiais na planície, revertendo assim o domínio das terras ilegalmente concedidas pelo Estado de SC para a União.

O processo de denúncia começou a partir do gigantesco trabalho realizado pelo historiador Gert Shinke que, numa pesquisa minuciosa, provou que as  concessões feitas pelos órgãos de terras do Estado de SC no século passado são todas ilegais. Essas concessões somam 1.064 espaços na ilha e no continente, feitas entre 1904 e 1980. A partir de documentos oficiais, Gert descobriu que os títulos continham no rodapé uma observação impressa “ressalvados os direitos de terceiros”. Isso resguardava o Estado de assumir responsabilidade caso houve alguma ação judicial. Era, na verdade, um título sem garantia.

Segundo Gert, foi o próprio Poder Judiciário que concluiu a ilegalidade dessas concessões ao julgar mais de uma dezena de ações, sempre dando ganho de causa para a União. Ele aponta que as concessões (ilegais) acabaram sendo uma “moeda de troca política‟ para os governantes locais, do vereador ao governador, o que tem garantido o poder de clãs familiares e dos tradicionais grupos políticos na ilha-capital.

Esse levantamento virou um livro chamado “O GOLPE DA “REFORMA AGRÁRIA” (Gert Schinke, Ed. Insular, 2015-450pg, e 2017-630pg), revelando que a maioria destas concessões ocorreu no período da ditadura civil/militar, fato que jamais havia sido revelado pela historiografia local. Esse livro acabou sendo a “peça de denúncia” protocolada junto ao Ministério Público Federal/SC, exigindo a nulidade de inúmeras cadeias dominiais na região do Pântano do Sul. 

E é juntamente uma dessas cadeias que agora teve a nulidade definida em sentença de primeira instância. Cabe destacar que “cadeia dominial” é o conjunto das matrículas que determinada terra teve, desde o primeiro pretenso dono, passando por todos os demais que compraram ou tiveram concessões. Tudo isso é registrado em cartório, está público, mas precisa de um trabalho hercúleo para ser desvendado. Foi o que Gert fez.  

O espaço que constitui o centro da sentença são as glebas inundáveis situadas sobre a planície do Pântano do Sul, hoje colocadas na condição de APP ( área de preservação permanente). “Uma vez percebida a fraude tratamos de colocar um obstáculo intransponível diante de dois mega projetos imobiliários pretendidos na área: um da CR Almeida S/A, com sede em Curitiba, e outro da JAT Engenharia Ltda, com sede em Florianópolis”, diz Gert. 

Segundo documento distribuído pelo Coletivo Ecolhar, as duas empresas se apresentaram como “proprietárias” de mais de 1,5 milhão de metros quadrados (150 hectares, ou 200 campos de futebol) e elaboraram seus projetos a partir do ano 2000, cujos EIA (Estudos de Impacto Ambiental) foram questionados pelo MPF-SC por conta das denúncias feitas por Gert. 

Como a ação das empresas ameaçava o bairro, a comunidade passou a se encontrar e destes encontros, coordenador por Gert Shinke, é que foi apresentada, em setembro de 2005, a proposta de criação de uma unidade de conservação (UC) sobre a planície, como alternativa aos projetos imobiliários. Esse debate se fez dentro do processo  do Plano Diretor Participativo (2006-2017) e segue até hoje, graças ao empenho do Coletivo Ecolhar. Ja são 21 anos lutando para anexar a planície ao Parque Natural Municipal da Lagoinha do Leste, contando com ligação de um

“corredor ecológico” entre as áreas. Agora, com a decisão favorável da justiça isso se torna ainda mais viável porque a prefeitura não poderá mais usar o argumento de que não tem dinheiro para indenizar os “donos”. Não há donos, a terra é da União, pois as concessões ao longo dos anos foram ilegais. E crimes contra o patrimônio da União são imprescritíveis. 

Para Gert, a sentença veio em muito boa hora, pois a ilha vive uma onda incontrolável de especulação imobiliária, avançando sobre as nove AUE (Área Urbanística Especial), um zoneamento nascido a partir do novo plano diretor, aprovado pela Câmara, contra a decisão da população. Além disso, as comunidades também precisam se mobilizar contra os PEU (Projeto Especial Urbanístico) sobre os quais não incide zoneamento urbano algum, permitindo adensamento e construções gigantescas. 

O primeiro PEU foi o mega projeto da HABITASUL, Jurerê In, ao sul do atual Jurerê Internacional, e o segundo PEU é um mega projeto voltado sobre uma área no Rio Tavares. Os dois espaços também foram alvo de denúncias pelo Coletivo Ecolhar que levantou as ilegalidades fundiárias presentes na origem dominial de suas terras. E é justamente essa luta da comunidade que tem impedido que as empresas JAT Engenharia e CR Almeida (aqui HAFIL Ltda) apresentem uma proposta de PEU na planícia do Pântano do Sul, porque as empresas não investiriam vultosas somas na elaboração e tramitação de projetos de 'PEU', que o atual Plano Diretor permite na área, em meio a um processo judicial questionando suas terras e que pudesse colocar tudo abaixo, o que de fato se consumou.

O tema é largo e difícil, mas o importante é que com essa decisão da Justiça a luta se fortalece.



terça-feira, 3 de novembro de 2026

O transporte e os dramas da população

Foto feita em 1975 

O ano era 1975, o presidente era Ernesto Geisel. O Ministério de Indústria e Comércio do Brasil, cujo secretário de Tecnologia Industrial era o Bautista Vidal, pediu um estudo à Universidade Federal do Rio de Janeiro sobre a situação ergonômica dos ônibus urbanos. Estava para ser fechado um acordo de exportação dos ônibus brasileiros para países da África e o governo queria saber se estava nos conformes. O relatório feito pelos especialistas é bastante minucioso e mostra a completa inadequação dos veículos para o transporte de passageiros. O curioso é que muito do que foi levantado pelo estudo permanece até hoje. Não sei se o governo levou a sério o estudo àquela época, mas imagino que não, porque, ao que parece, muito pouca coisa mudou. 

No relatório os pesquisadores mostram com riqueza de detalhes que praticamente tudo é mal planejado nos veículos do transporte urbano. Os degraus de subida são muito altos, dificultando o embarque, principalmente de crianças e pessoas velhas. E os degraus de descida também deveriam ser bem mais baixos, o que daria maior controle muscular para quem sai do ônibus. Os assentos igualmente não respeitam a ergonomia, sem a altura ideal, e sem conforto para os usuários. Pessoas de baixa estatura não conseguem se segurar no ferro que fica acima, no corredor, e tampouco conseguem puxar o fio, o que pode causar acidentes. A estação de trabalho do motorista é matadora, sem cuidado com a saúde do trabalhador. A estação do cobrador também, a começar pelo fato de que ele fica de lado, o que pode ser ruim para sua saúde. O ruído do motor dentro do ônibus é muito alto. E a lotação excessiva causa desconforto e desequilíbrio.

Isso aí em 1975. Mas, em 2026, praticamente tudo segue igual, excetuando a estação do cobrador, que não existe mais. Não faz muito tempo, parada no ponto, vi a dificuldade de uma senhora velhinha, tentando subir no ônibus com duas sacolas de compras na mão. Impossível. Não fosse um rapazinho que estava dentro ajudar, ela poderia até ter caído para trás. Eu mesma, no alto dos meus 65 anos, amiúde encontro dificuldade para acessar o degrau quando o ônibus para na rua, longe da calçada. É uma aventura diária. 

O meu amigo Noé Almeida, que é quem tem a cópia do estudo feito em 1975, afirma categórico: o transporte coletivo é o pau-de-arara urbano. E eu assino embaixo. Nada é feito pensando no usuário. Tudo é feito pensando no menor custo e no maior lucro para as empresas. 

***



quinta-feira, 29 de outubro de 2026

Intervenção dos EUA: mais do mesmo


Já conhecemos esse roteiro velho. A Venezuela vivenciou por anos. E é sempre bom lembrar. Quando Maduro ganhou, de maneira legítima, as eleições no país, os Estados Unidos decidiram não reconhecer. Usando o mesmo mantra de “foram fraudadas”, colocaram o governo eleito em suspeita, iniciando um brutal ataque contra a população. E o mais grave, até o Brasil de Lula sustentou essa farsa, não reconhecendo Maduro como presidente legítimo. Como na Venezuela a toada estadunidense não fez efeito, os Estados Unidos decidiram criar uma guerra econômica contra o país, colocando o povo venezuelano em situação de fome e de desespero, por conta do desabastecimento. Eram filas quilométricas para comprar produtos básicos. Um terror. Mas, também não conseguiram dobrar a fibra da gente da Venezuela. Foi então que decidiram criar um fantoche, Juan Guaidó, que se autoproclamou presidente legítimo e andou pelo mundo sendo recebido como autoridade. Uma vergonha planetária, um mico mundial, pago sem pejo pela maioria dos governantes. Guaidó ainda torrou boa parte dos recursos da Venezuela que foram roubados pelos EUA. E ainda assim, obviamente, nunca foi reconhecido pela população. Maduro governou, enfrentou e venceu mais uma eleição. Só caiu porque foi sequestrado e, de novo, sob o silêncio obsequioso dos governantes mundiais, inclusive o Brasil.

Agora o filho número um foge do país, com a ajuda dos governos da Argentina e dos EUA, entra nos EUA como “exilado” (o que por si só é uma vergonha) e se proclama líder da oposição numa carta ridícula. Mico mundial também. Trump já andou se manifestando dizendo que as eleições no Brasil foram estranhas. Cínico. Estranha é a farsa eleitoral estadunidense. Sabe lá deus o que fará a partir de agora.

Na mídia comercial brasileira as manchetes que dançam sob nossos olhos falam de um Flávio “seguro e descansando nos EUA”. Seguro? Descansando? Quando que a vida dele esteve em perigo no Brasil? Eles são o perigo. A lequinagem midiática não tem fim. 

Bom, Guaidó circulou como “presidente legítimo” por muitos anos e embolsou muita plata. Resta saber o que vai acontecer com o nosso fantoche. Como já sabemos, não dá pra brincar com os Estados Unidos. A farsa do exílio e da perseguição é jogada conhecida, mas não significa que não renda frutos. Há que estar atento e forte.


segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Lula vence as eleições

Foto: Ricardo Stuckert

O presidente Luis Inácio Lula da Silva foi reeleito presidente do Brasil com 51,79% contra 48,21% de Flávio Bolsonaro. Foi uma virada histórica. Lula venceu em 13 Estados do país, os nove do Nordeste mais Minas Gerais, Amazonas e Amapá. Flávio concentrou mais votos na região sul, centro-oeste e mais nos estados de Acre, Rondônia, Roraima, Tocantins, Espírito Santo, Rio de Janeiro e São Paulo.

No Brasil, esta foi a primeira vez que o candidato posicionado em segundo lugar no primeiro turno ultrapassou o primeiro colocado em uma eleição presidencial. Esta virada já aconteceu na Argentina, no Chile, no Equador e no Uruguai.

A vitória de Lula, sem lugar a dúvidas, só aconteceu por conta do extraordinário movimento das ruas aliado a uma reviravolta da estratégia nos meios digitais, coisa que não se viu no primeiro turno. Havia entre os petistas e aliados uma tranquilidade quanto ao resultado, alguns chegando a dizer que Lula venceria já na primeira volta. Não aconteceu. A presença de Bolsonaro em primeiro lugar acendeu o alerta de que algo precisava mudar.

Indignados com a possibilidade de um miliciano chegar à presidência do país, vários movimentos começaram a se organizar para tomar as ruas. Manifestações chamadas pela internet, de maneira espontânea, começaram a colocar molho e força na campanha. Ao mesmo tempo, uma nova dinâmica de ocupação das redes, coordenada pelo deputado André Janones, abriu uma via de disputa dentro das plataformas de comunicação que vinham boicotando as postagens da campanha. Por conta desta ação que foi alavancada por mais de 11 milhões de pessoas engajadas no “Exército de Lula”, as bolhas foram furadas e a propaganda se espalhou de maneira orgânica. Não foram fazendas de boots, foram pessoas, atuando dia e noite na militância digital. Na última semana, as gigantescas marchas em todo o país apontavam que a vitória poderia ser uma possibilidade.

Ainda assim, ontem, no dia da eleição, a máquina da direita atuou forte. Empresas de aviação, a GOL e a Azul, cancelaram e/ou atrasaram voos para o nordeste, visando impedir que eleitores chegassem às urnas, e em algumas cidades, como na imensa São Paulo, a frota de ônibus urbano ficou nas garagens, sem circular, também visando impedir que eleitores pudessem se deslocar para votar. E o que se viu foi uma impressionante onda de indignação que levou os eleitores a encontrar formas de chegar, o que provocou uma distância em quase quatro milhões e meio de votos em relação a Flávio Bolsonaro.

Duas forças também foram fundamentais nesta vitória de Lula. A juventude e os idosos. Os primeiros saíram do imobilismo consolidado pós-pandemia e organizaram as ruas, de maneira completamente independente das direções partidárias. E os velhos decidiram enfrentar todas as dificuldades e foram votar, mesmo não estando mais obrigados a isso. A abstenção diminuiu em mais de três milhões de pessoas. A virada, então, aconteceu.

Agora, o que se espera é que Lula possa reconhecer esse esforço e trabalhar mais no sentido de garantir vida e esperança para todas estas forças que sustentaram a vitória nas ruas e nas redes. No discurso da vitória ele falou que vai cuidar dos velhos, melhorar a educação, proteger o povo. É o que vamos ver. Que toda essa gente não seja defraudada. É certo que o foco da campanha não se baseou nas propostas a serem operadas, mas na batalha contra a possibilidade de um criminoso governar o país. Agora, acalmados os corações, será tempo de constituir um novo governo capaz de dar respostas eficazes aos dramas da vida popular.

O resultado das urnas brasileiras repercutiu em toda a América Latina, hoje quase completamente dominada pela direita e pela ultradireita. A virada histórica e a mobilização popular apontam que é possível encontrar caminhos para enfrentar esta onda conservadora. Em todo mundo, a vitória foi saudada como um importante resultado para a esquerda. Uma responsabilidade que pode fazer com que o governo eleito possa dar alguma guinada à esquerda. Daí a importância de manter o povo mobilizado. Desde seu primeiro mandato Lula não fez questão de governar com o povo em luta, mas, ontem, em seu discurso, disse que aprendeu a lição. O futuro dirá.

Flávio Bolsonaro, como era esperado, não aceitou o resultado e ameaça com a proposta de anular as eleições. Nenhuma novidade. Resta ver como os demais poderes vão atuar diante de mais esta patacoada.

domingo, 11 de outubro de 2026

A luz do céu profundo



A leitura do livro de Marlon Aseff, nestes dias que correm, pode ser um desses pequenos atos que acabam girando nas águas de toda uma vida. Ele desaloja, entristece e logo em seguida, mostra que a única saída que nos cabe é resistir, lutar, seguir em frente. Não há tempo para remoer dores, se isso não nos leva ao paraíso. É o que ensina o personagem principal do romance, Luiz Carlos, um professor negro, de 60 anos, que ainda dá aulas de história em um colégio na capital de Santa Catarina, no conturbado ano de 2016, ano do golpe de Temer em Dilma. Tempo em que começam a sair os monstros de suas cavernas sujas.  

- Os comunistas têm que morrer mesmo. Ouve de um aluno, numa aula qualquer. É o gatilho para que Luiz Carlos entre no barco de sua própria história, cruzando os tempos até quando tinha 18 anos e era um garoto rebelde, afoito, cheio de energia para lutar contra a ditadura que ainda estava matando, prendendo e desaparecendo gente no Brasil. A partir desse mergulho nas lembranças, Marlon vai carregando o leitor desde Florianópolis, passando por Criciúma e chegando ao Uruguai, na viagem angustiosa de um menino e de um velho que, no exílio, acaba construindo amizade e camaradagem.


O que assoma, potente, no texto de Marlon é a capacidade de descrição que, como já ensinou Antônio Olinto, é a mais poderosa das opiniões. A narrativa é densa, ágil e cinematográfica. O leitor acompanha a aventura de Luiz e Ernesto pelas estradas do Brasil até chegar ao Uruguai como se estivesse dentro de um filme. Todas as imagens são muito vívidas, talhadas com maestria por quem fez o jornalismo o seu ofício primeiro. Marlon trabalhou como repórter em Florianópolis e seu texto, desde sempre, foi uma tessitura bem amarrada que foge e foge do lugar comum do jornalismo. A literatura já fez morada nas reportagens e agora, se apresenta, luminosa, sem romance. Marlon maneja as palavras como um mestre.


Os dois personagens, unidos pela necessidade da fuga, vão se conhecer, entre desconfiados e desesperados, apresentando duas faces distintas desses tempos cinzentos da ditadura brasileira. Um, jovem, ardente de revolução e o outro, velho, doente e já sem qualquer expectativa de ver o país livre. Nessa trama ainda podemos conhecer os companheiros fugazes e desconhecidos que fizeram parte da fuga, na secreta confraria de camaradas que arriscaram também suas vidas para salvar outras, mostrando que a luta é coisa mesma coletiva e fraterna.


A fuga dos dois companheiros enfrenta a estrada e os atropelos do encontro com as pessoas comuns. O medo sempre na carona, acendendo em cada rosto novo ou em cada situação estranha. A cena do encontro com os supostos policiais no bar é impactante. Um deslize e tudo estava perdido. Depois, já seguros, os dois chegam ao Uruguai, onde mais uma vez um desconhecido vira morada e abrigo: Juan José, dando concretude à palavra companheiro.


Nas suas lembranças, Luiz Carlos revive o exílio numa praia perdida do Uruguai, na companhia de Ernesto, quando a amizade vai crescendo como planta boa, estendendo as ramas com profundidade, em meio a dor da ausência dos seus. As histórias vão se abraçar, jovem e velho, tecidas no mesmo sonho de ver um país livre e uma vida boa para todos. Uma das passagens mais bonitas é quando Luiz descobre que Ernesto conheceu seu tio, um comunista que foi mineiro em Criciúma. E o velho advogado conta para ele de um momento heróico vívido por Hugo, tio de Luiz, aprofundando no garoto ainda mais a certeza de que estava no caminho certo. Lutar não tinha DNA.


O passado, na praia Uruguai, vem para iluminar o presente de Luiz, agora um professor acossado pela onda imparável da ultra direita, essa velha conhecida. Relembrar aqueles dias de medo, desesperança e perdas, reviver em Luiz o menino que ele foi, sonhando beleza, com Ernesto, na beira do mar.


Assim que a leitura do livro de Marlon faz vibrar em cada leitor a mesma luz do céu profundo que incendiou lutas na ditadura militar. Uma luz que brilha igualmente nos tempos do golpe e que pode brilhar nos caminhos obscuros que se aproximam. Os personagens, o moço e o velho, ensinam que a noite nunca pode servir de escusa para que não se construa a clareza do dia que virá. E a gente fecha as páginas com o coração verdejante, como no poema da poetisa de Quaraí, Lila Ripol, a preferida do doutor Ernesto:


Não, não irei sem grito.

Minha voz nesse dia subirá.

E eu me preencherei também.

Solitária. Definida.

 

...Não. Não irei sem grito.

 

Abram as portas adormecidas,

levantem como cortinas,

abaixem as vozes

e as máscaras —

 

que eu vou sair inteiro.

Eu mesma. Solitária.

Definida.

 

quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Velhice desamparada: espelho do futuro

Maricarmem Abascal


A crise das moradias na Europa cobrou vida. Uma senhora de 87 anos, Maricarmem Abascal, que havia sido violentamente despejada da casa onde viveu por mais de 70 anos, simplesmente porque não conseguia mais pagar o aluguel, morreu ontem, depois de vários dias no hospital. O despejo, que não foi o primeiro, acabou virando um símbolo na luta por moradia na Espanha, levando a população às ruas para garantir que  Maricarmem pudesse continuar vivendo na casa onde sempre morou. A luta nas ruas havia conseguido vitória, mas o coração de Maricarmem não resistiu. 

O exemplo da velhinha espanhola é só um entre os tantos outros que acontecem todos os dias por toda a Europa. Lá, nas grandes cidades, desde a instituição do ArBnb, os aluguéis dispararam e, para piorar, os salários dos trabalhadores têm sido sistematicamente rebaixados. As plataformas de aluguéis turísticos simplesmente têm comido as ofertas de alugueis permanentes e as famílias estão cada vez mais sendo desalojadas. As pessoas velhas são as que mais sofrem, pois ficam encurraladas, sem opção. As pensões ficam entre mil e 1.500 euros, enquanto os alugueis chegam a 950 euros, num sala/quarto. 

Nos países europeus a porcentagem de velhos é considerada bem alta, chegando, na média, em 23% da população e, hoje, perder a casa por conta dos aluguéis é uma realidade que se amplia. Não é sem razão que o caso Maricarmem acabou levantando a população espanhola em luta. Lá, a expectativa de vida é a mais alta do mundo, de 84 anos. 

No Brasil, a questão da habitação também é um grande drama. O déficit nacional quase chega a seis milhões de moradia, enquanto as pesquisas apontam que cerca de 30 milhões de casas são inadequadas para o bem-viver. A Caixa Federal registra um total de 83 milhões de inadimplentes, gente que não consegue pagar as parcelas da casa própria, e mais de 47 mil imóveis foram levados à leilão em 2024. Por aqui, as famílias também gastam bem mais do que 30% do salário em aluguel. Cidades turísticas igualmente têm sofrido com a chegada das plataformas de aluguéis temporários, esvaziando as comunidades e empurrando as pessoas para as periferias.  Em Florianópolis, por exemplo, a prefeitura fez acordo com a ArBnb visando ampliar as construções para especulação, fato que já provoca altas absurdas nos aluguéis para a população local. Drama que se amplia, silenciosamente, sem maiores protestos. 

Os velhos brasileiros, que não ganham em euro, e muitas vezes amargam a mísera aposentadoria de um salário mínimo, vislumbram um futuro bastante duro. Hoje, já são mais de 16% da população e, no geral, desamparados. As projeções são de que em 2047 já ultrapassem a porcentagem da Europa, chegando a 28%. Uma realidade muito pouco discutida nos movimentos sociais, partidos e sindicatos. 

Assim que o drama vivido por Maricarmem, e que a levou à morte, não está longe de nós. O binômio velhice/moradia é coisa que precisa ser acompanhada sistematicamente pelos trabalhadores, pois é sabido que boa parte da saúde mental de uma pessoa está visceralmente ligada às condições de existência. Velhos desamparados, desalojados e abandonados estão muito mais propensos a demências, o que os incapacita ainda mais. 

Esse é um tema duro, e precisa de profunda atenção.  

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Sobre roubar memórias



Texto de Maria Agostini Mello

Tarde chuvosa de agosto, daquelas que te convidam a simplesmente enrolar-se num edredom e puxar um bom canal de streaming. Mas não, criei coragem, me paramentei: botas, sombrinha, e lá fui eu para a feira do livro na UFSC, disposta a só olhar, nada de compras, desde que me conheço compulsiva nesse departamento. A séria consequência dessa compulsividade é o acúmulo de títulos ainda virgens na prateleira, todos os dias a me espiar e eu a lhes pedir muita calma.

No entanto, novamente acabei sendo atraída pela exposição da Insular, onde, entre muitos títulos convidativos, meu coração gaúcho optou por Crônicas da Fronteira, da Elaine Tavares, jornalista e escritora que admiro.

Já em casa, comecei a empreender uma viagem através das cento e poucas páginas dessa obra primorosa, e como não dizer “quirida”.  A naturalidade e a afetividade que ela traz em cada uma das suas crônicas, fez com que eu fosse me identificando com os mesmos lugares, costumes, rememorando pessoas e situações idênticas, passadas durante nossa infância, adolescência e um pedaço da idade adulta, quando, coincidentemente, nós duas escolhemos a cidade de Florianópolis para morar.

“Remexer nas gavetas do passado, sempre olhando pelas frestas da vida que já havia escorrido pelas mãos”, assim ela esmiúça histórias, abusando das metáforas, alternando sinestesias, escutando o farfalhar no riacho onde a avó lavava roupa, o sabor amargo do chimarrão, o perfume do salame que ela fatiava para o avô, as imagens grudadas nas retinas. Enfim, tudo ali cheira poesia. 

E assim eu, leitora atenta de suas memórias, já talvez roubadas, sem pedir permissão a ela, me atrevo a ir em sua carona, visitando as minhas também. Começo lá atrás, desenrolando o carretel do tempo, já bem compridinho, agora.

Eu, Maria, a quinta de uma família de seis irmãos, casa movimentada pela criançada da rua e mais as visitas da parentada que vinha das colônias italianas. Meus avós eram imigrantes italianos e se estabeleceram na região central do Rio Grande do Sul.  Nossa casa era amarela, com grandes portaladas de cor verde-escura; ao fundo, quintal com galinheiro, macieiras, limoeiros, abacateiros, um forno de barro e uma trempe que acomodava o tacho de cobre para fazer a chimia com frutas da época. Na rua, brincadeiras de cabra-cega, de sapata, que muitos conhecem por amarelinha, mocinho e bandido, de bandeirinha, esconde-esconde. Raros carros pela rua, e à tarde os adultos sentavam-se chimarreando nas calçadas, numa prosa que só acabava ao escurecer, quando recolhiam suas crianças para jantar e dormir.  Ali as grandes amizades aconteciam, e ainda hoje conservo muitas delas.

Lembranças do primeiro amor, quem não as tem?  O meu, assim como o da Elaine, também não deu em nada: nem um beijo, nenhum abraço, nada. Meu príncipe encantado, menino moreno, covinhas nos cantos da boca, me substituiu por outra menina bonitinha com jeito de anjo, preferida pelos seus pais. Com o desencanto, ensopei alguns travesseiros, porém, segui a vida e logo me recuperei.

Meu vestido de debutante foi confeccionado pela Tia Altair, amiga de minha mãe, que não cobrou nada por ser muito bem acolhida pela nossa grande família. E foi num longo de tom azul-bebê, losangos contornados por rendas delicadas e muitas miçangas, que eu atravessei o salão nos braços de meu pai, orgulhoso por apresentar a filha à sociedade santamariense. Hoje me emociono ao olhar as fotos em preto e branco no meu álbum antigo.

A leitura flui, e a cada virada de página, uma respirada, uma tomada de fôlego, uma viajada no tempo.   Mario Quintana já dizia que viajar é trocar a roupa da alma. Elaine viaja dentro da Maria Fumaça que corta a fronteira até Uruguaiana, deixando para trás uma nuvem espessa no céu estrelado; viaja (sim, porque viajar é trocar de lugar) pelo centro da cidade na carruagem forrada de cetim vermelho que convidava os clientes a se achegarem ao bordel, mais à noitinha. Afeto puro, nada de malícia, de preconceito, de juízo.

Também o corpo de Jango viajou da cidade uruguaia de Mercedes, onde se encontrava exilado, depois de uma morte mal explicada. Seu corpo foi jogado num porta-malas qualquer e enterrado em sua terra, São Borja, assistido por uma multidão que se manifestava por entender tudo o que acontecia. E eu me pego pensando em qual foi o argumento que Seu Tavares e Dona Helena teriam utilizado para explicar à filha pequena, cheia de vida, de amor, doçura e de tantas ilusões, tudo aquilo que é inexplicável: os golpes, as torturas, a ganância, ao extermínio de povos, a corrupção na política.

No mundo moderno, jatos super equipados riscam o céu sobre nuvens espessas, independentemente das condições do tempo. Lá pelos idos 1626, em grandes naus, viajavam os jesuítas, cujo objetivo era “catequizar” os povos indígenas, domesticando-os e convertendo-os, ao mesmo tempo em que faxinavam os campos. Nas viagens, naufrágios aconteciam devido a tempestades e maremotos.  

 Minha mãe nos despertava cedo nos dias de viagem. O perfume do frango enfarofado já rescendia pela casa inteira, porém este somente seria distribuído após alguns quilômetros percorridos na estrada de chão batido. Nos bancos da Kombi branca de meu pai, nos empilhávamos rumo às colônias italianas, a visitar os parentes. Sempre uma surpresa: ou poeira, ou atoleiro, ou ambos. Deixávamos para trás enormes sesmarias, cercadas por arame farpado, reses espalhadas pela grama, a paisagem bucólica com a morada do patrão rico lá no alto e um pouco mais distante, a casa simples dos agregados. Difícil era entender o porquê de tanto para tão poucos, desde que, em nossa casa, cabíamos mal e mal os oito, e o aluguel caro, muitas vezes, atrasava.

Aos domingos, passávamos pela praça Saldanha Marinho, onde os vendedores de livros ofereciam enciclopédias, coleções e dicionários. Meu pai não resistia e acabava comprando ora um, ora outro, a longuíssimas prestações. Ele adorava livros, e minha mãe, mais ainda. Ela era professora, poeta, e lia para mim os poemas de Guerra Junqueiro, Casemiro de Abreu, Alphonso Guimarães.

E o que falar das nossas pessoas, de quem obtivemos o aprendizado da vida? Elaine traz o avô Dionísio, o Bonetti da padaria, a Dona Noêmia, a Niná, a costureira fumegante (precisei rir neste momento!), a Dona Nezinha, a espiã, e tantos outros a quem dedica crônicas preciosas. E eu trago a Dona Celeste, que fazia pirulitos de mel em pequenos canudos de papel, a minha tia Marina, que era florista e fazia buquês com as rosas que plantava em casa; o Seu Francisco, imigrante italiano que tinha uma vendinha na esquina e fumava um palheiro fedorento; o Seu Gordo, carroceiro que vendia as melhores melancias do mundo.  

Das minhas gentes e das dela, a maioria já partiu, embora continuem vivas em nossas lembranças mais queridas.

Deixei minha cidade já aos vinte anos, certa de ter colocado, na hora da saída, dentro do meu embornal, o essencial para começar tudo de novo em um novo lugar: vida nova, terra nova, novos amigos, mudanças estruturais. Hoje penso que não, ao perceber que as lembranças mais intensas permaneceram lá, na minha casa da infância, na escola, nas ruas do centro da cidade, nos amigos que nem sei por onde andam, se é que ainda vagueiam por este mundo. Tempos depois, voltei lá para matar a saudade e conferir se tudo ficou exatamente como deixei. Ironia do desertor em se entristecer ao ver que muita coisa mudou nesse tempo: os espaços, os amigos, tudo. Porque há sempre um hiato nessa história de abandonos e regressos. Elaine diz que “Foi bonito circular por ali, nas paragens da minha infância. Tudo continuava lá, apenas aparecia aos meus olhos com outra força”. Para mim, no entanto, foi difícil revisitar Santa Maria, anos depois. Minha casa amarela virou um prédio; na Pinheiro Machado, minha rua, motores atrapalham os caminhantes das calçadas mal conservadas. No clube em que dancei minha primeira valsa, o telhado desabou.   Também não encontrei pedra sobre pedra onde antes havia a Estação Ferroviária: nem a gare, nem os trilhos, e nem sombra da Maria-Fumaça e do Minuano. Acharam mais fácil destruir, a recuperação era cara demais. Empresários de empresas de ônibus e de combustíveis decidiram que os trens não lhes eram vantajosos.  Senti um vazio, um gosto amargo, uma impotência, uma dor.

E assim, chego ao final da leitura, pensando ficar devendo muita coisa a contar, inspiradíssima nesta verdadeira “guardiã de lembranças’, que através da sua espontaneidade e do afeto presentes em seus textos, fez com que eu saísse por aí desenrolando carretéis de histórias. E as perguntas: Será que isso tudo aconteceu mesmo? E quando? Quem sabe apenas visagens, utopias, desvarios, sonhos, impressões, apenas, desde que, me disseram que “a mentira é uma verdade que esqueceu de acontecer”. Sim, porque a própria vida é ficção.   

Minhas histórias e as da Elaine: histórias que se cruzam, acontecidas numa época em que o tempo parecia não correr tanto como corre agora. Por isso urge escrevê-las, na expectativa de que ainda sejam escutadas, lidas e, até reescritas por algum outro “ladrão de memórias”, com o qual me identifico como sendo um destes.

Obrigada, Elaine, pela carona! Foi uma bela viagem, adorei a empreitada. Sinto que esvaziei minha mochila pelo caminho, nesta tarde chuvosa de outono. Fiz bem em não me enrolar nas cobertas.