quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Sobre roubar memórias



Texto de Maria Agostini Mello

Tarde chuvosa de agosto, daquelas que te convidam a simplesmente enrolar-se num edredom e puxar um bom canal de streaming. Mas não, criei coragem, me paramentei: botas, sombrinha, e lá fui eu para a feira do livro na UFSC, disposta a só olhar, nada de compras, desde que me conheço compulsiva nesse departamento. A séria consequência dessa compulsividade é o acúmulo de títulos ainda virgens na prateleira, todos os dias a me espiar e eu a lhes pedir muita calma.

No entanto, novamente acabei sendo atraída pela exposição da Insular, onde, entre muitos títulos convidativos, meu coração gaúcho optou por Crônicas da Fronteira, da Elaine Tavares, jornalista e escritora que admiro.

Já em casa, comecei a empreender uma viagem através das cento e poucas páginas dessa obra primorosa, e como não dizer “quirida”.  A naturalidade e a afetividade que ela traz em cada uma das suas crônicas, fez com que eu fosse me identificando com os mesmos lugares, costumes, rememorando pessoas e situações idênticas, passadas durante nossa infância, adolescência e um pedaço da idade adulta, quando, coincidentemente, nós duas escolhemos a cidade de Florianópolis para morar.

“Remexer nas gavetas do passado, sempre olhando pelas frestas da vida que já havia escorrido pelas mãos”, assim ela esmiúça histórias, abusando das metáforas, alternando sinestesias, escutando o farfalhar no riacho onde a avó lavava roupa, o sabor amargo do chimarrão, o perfume do salame que ela fatiava para o avô, as imagens grudadas nas retinas. Enfim, tudo ali cheira poesia. 

E assim eu, leitora atenta de suas memórias, já talvez roubadas, sem pedir permissão a ela, me atrevo a ir em sua carona, visitando as minhas também. Começo lá atrás, desenrolando o carretel do tempo, já bem compridinho, agora.

Eu, Maria, a quinta de uma família de seis irmãos, casa movimentada pela criançada da rua e mais as visitas da parentada que vinha das colônias italianas. Meus avós eram imigrantes italianos e se estabeleceram na região central do Rio Grande do Sul.  Nossa casa era amarela, com grandes portaladas de cor verde-escura; ao fundo, quintal com galinheiro, macieiras, limoeiros, abacateiros, um forno de barro e uma trempe que acomodava o tacho de cobre para fazer a chimia com frutas da época. Na rua, brincadeiras de cabra-cega, de sapata, que muitos conhecem por amarelinha, mocinho e bandido, de bandeirinha, esconde-esconde. Raros carros pela rua, e à tarde os adultos sentavam-se chimarreando nas calçadas, numa prosa que só acabava ao escurecer, quando recolhiam suas crianças para jantar e dormir.  Ali as grandes amizades aconteciam, e ainda hoje conservo muitas delas.

Lembranças do primeiro amor, quem não as tem?  O meu, assim como o da Elaine, também não deu em nada: nem um beijo, nenhum abraço, nada. Meu príncipe encantado, menino moreno, covinhas nos cantos da boca, me substituiu por outra menina bonitinha com jeito de anjo, preferida pelos seus pais. Com o desencanto, ensopei alguns travesseiros, porém, segui a vida e logo me recuperei.

Meu vestido de debutante foi confeccionado pela Tia Altair, amiga de minha mãe, que não cobrou nada por ser muito bem acolhida pela nossa grande família. E foi num longo de tom azul-bebê, losangos contornados por rendas delicadas e muitas miçangas, que eu atravessei o salão nos braços de meu pai, orgulhoso por apresentar a filha à sociedade santamariense. Hoje me emociono ao olhar as fotos em preto e branco no meu álbum antigo.

A leitura flui, e a cada virada de página, uma respirada, uma tomada de fôlego, uma viajada no tempo.   Mario Quintana já dizia que viajar é trocar a roupa da alma. Elaine viaja dentro da Maria Fumaça que corta a fronteira até Uruguaiana, deixando para trás uma nuvem espessa no céu estrelado; viaja (sim, porque viajar é trocar de lugar) pelo centro da cidade na carruagem forrada de cetim vermelho que convidava os clientes a se achegarem ao bordel, mais à noitinha. Afeto puro, nada de malícia, de preconceito, de juízo.

Também o corpo de Jango viajou da cidade uruguaia de Mercedes, onde se encontrava exilado, depois de uma morte mal explicada. Seu corpo foi jogado num porta-malas qualquer e enterrado em sua terra, São Borja, assistido por uma multidão que se manifestava por entender tudo o que acontecia. E eu me pego pensando em qual foi o argumento que Seu Tavares e Dona Helena teriam utilizado para explicar à filha pequena, cheia de vida, de amor, doçura e de tantas ilusões, tudo aquilo que é inexplicável: os golpes, as torturas, a ganância, ao extermínio de povos, a corrupção na política.

No mundo moderno, jatos super equipados riscam o céu sobre nuvens espessas, independentemente das condições do tempo. Lá pelos idos 1626, em grandes naus, viajavam os jesuítas, cujo objetivo era “catequizar” os povos indígenas, domesticando-os e convertendo-os, ao mesmo tempo em que faxinavam os campos. Nas viagens, naufrágios aconteciam devido a tempestades e maremotos.  

 Minha mãe nos despertava cedo nos dias de viagem. O perfume do frango enfarofado já rescendia pela casa inteira, porém este somente seria distribuído após alguns quilômetros percorridos na estrada de chão batido. Nos bancos da Kombi branca de meu pai, nos empilhávamos rumo às colônias italianas, a visitar os parentes. Sempre uma surpresa: ou poeira, ou atoleiro, ou ambos. Deixávamos para trás enormes sesmarias, cercadas por arame farpado, reses espalhadas pela grama, a paisagem bucólica com a morada do patrão rico lá no alto e um pouco mais distante, a casa simples dos agregados. Difícil era entender o porquê de tanto para tão poucos, desde que, em nossa casa, cabíamos mal e mal os oito, e o aluguel caro, muitas vezes, atrasava.

Aos domingos, passávamos pela praça Saldanha Marinho, onde os vendedores de livros ofereciam enciclopédias, coleções e dicionários. Meu pai não resistia e acabava comprando ora um, ora outro, a longuíssimas prestações. Ele adorava livros, e minha mãe, mais ainda. Ela era professora, poeta, e lia para mim os poemas de Guerra Junqueiro, Casemiro de Abreu, Alphonso Guimarães.

E o que falar das nossas pessoas, de quem obtivemos o aprendizado da vida? Elaine traz o avô Dionísio, o Bonetti da padaria, a Dona Noêmia, a Niná, a costureira fumegante (precisei rir neste momento!), a Dona Nezinha, a espiã, e tantos outros a quem dedica crônicas preciosas. E eu trago a Dona Celeste, que fazia pirulitos de mel em pequenos canudos de papel, a minha tia Marina, que era florista e fazia buquês com as rosas que plantava em casa; o Seu Francisco, imigrante italiano que tinha uma vendinha na esquina e fumava um palheiro fedorento; o Seu Gordo, carroceiro que vendia as melhores melancias do mundo.  

Das minhas gentes e das dela, a maioria já partiu, embora continuem vivas em nossas lembranças mais queridas.

Deixei minha cidade já aos vinte anos, certa de ter colocado, na hora da saída, dentro do meu embornal, o essencial para começar tudo de novo em um novo lugar: vida nova, terra nova, novos amigos, mudanças estruturais. Hoje penso que não, ao perceber que as lembranças mais intensas permaneceram lá, na minha casa da infância, na escola, nas ruas do centro da cidade, nos amigos que nem sei por onde andam, se é que ainda vagueiam por este mundo. Tempos depois, voltei lá para matar a saudade e conferir se tudo ficou exatamente como deixei. Ironia do desertor em se entristecer ao ver que muita coisa mudou nesse tempo: os espaços, os amigos, tudo. Porque há sempre um hiato nessa história de abandonos e regressos. Elaine diz que “Foi bonito circular por ali, nas paragens da minha infância. Tudo continuava lá, apenas aparecia aos meus olhos com outra força”. Para mim, no entanto, foi difícil revisitar Santa Maria, anos depois. Minha casa amarela virou um prédio; na Pinheiro Machado, minha rua, motores atrapalham os caminhantes das calçadas mal conservadas. No clube em que dancei minha primeira valsa, o telhado desabou.   Também não encontrei pedra sobre pedra onde antes havia a Estação Ferroviária: nem a gare, nem os trilhos, e nem sombra da Maria-Fumaça e do Minuano. Acharam mais fácil destruir, a recuperação era cara demais. Empresários de empresas de ônibus e de combustíveis decidiram que os trens não lhes eram vantajosos.  Senti um vazio, um gosto amargo, uma impotência, uma dor.

E assim, chego ao final da leitura, pensando ficar devendo muita coisa a contar, inspiradíssima nesta verdadeira “guardiã de lembranças’, que através da sua espontaneidade e do afeto presentes em seus textos, fez com que eu saísse por aí desenrolando carretéis de histórias. E as perguntas: Será que isso tudo aconteceu mesmo? E quando? Quem sabe apenas visagens, utopias, desvarios, sonhos, impressões, apenas, desde que, me disseram que “a mentira é uma verdade que esqueceu de acontecer”. Sim, porque a própria vida é ficção.   

Minhas histórias e as da Elaine: histórias que se cruzam, acontecidas numa época em que o tempo parecia não correr tanto como corre agora. Por isso urge escrevê-las, na expectativa de que ainda sejam escutadas, lidas e, até reescritas por algum outro “ladrão de memórias”, com o qual me identifico como sendo um destes.

Obrigada, Elaine, pela carona! Foi uma bela viagem, adorei a empreitada. Sinto que esvaziei minha mochila pelo caminho, nesta tarde chuvosa de outono. Fiz bem em não me enrolar nas cobertas. 

terça-feira, 15 de setembro de 2026

Santa Catarina e as eleições

Professor Lauro Mattei/ Necat/Ufsc

Segundo pesquisas divulgadas na mídia, a eleição para governador já está dada: o atual governador lidera e aparece como pouco provável que não seja eleito outra vez. O que de certa forma é surpreendente já que seu governo não atacou os principais dramas vividos pelo estado. Educação, saúde, renda, moradia e segurança são temas que seguem sem melhorias embora a propaganda seja farta. Ao que parece, o que os catarinenses mais admiram no atual governador, Jorginho Mello, é justamente o seu desempenho grosseiro e violento ao estilo Trump e Jair. Basta reparar que o desrespeito e os xingamentos chulos dirigidos a uma senhora indígena mais foram recebidos com admiração do que com repúdio.  

O professor da UFSC, Lauro Mattei, que mantém um observatório de estudos sobre a economia catarinense, aponta que para entender a situação atual do estado há que voltar pelo menos 20 anos, quando o então governador Luiz Henrique, do PMDB, decidiu inovar, descentralizando a gestão do estado, visando melhorar o desenvolvimento regional. “O projeto foi um fracasso. Aumentou a corrupção e não resolveu os dramas”. 

Segundo o professor, o primeiro ponto que não foi atacado foi justamente a questão demográfica. A descentralização, em vez de equilibrar o desenvolvimento, o que fez foi promover a litoralização, que de lá pra cá, só expandiu. Como se sabe, Santa Catarina é um estado que não tem grandes populações, a não ser Florianópolis e Joinville, com 500 e 600 mil habitantes respectivamente. O censo mostra que existem apenas outras 14 cidades com mais de cem mil habitantes e, nelas, estão 49% da população. Vejam que são 295 municípios no total, sendo que 101 deles com até cinco mil habitantes. O resultado deste desequilíbrio é o inchaço do litoral. “Cerca de 31 municípios vem perdendo população nos últimos 10 anos, com alguns deles tendo menos de 2.500 habitantes. O que pode ser destes municípios? Sem estrutura, sem saúde, sem educação e sem possibilidade de gerar emprego?” 

Lauro lembra que o programa “Estrada Boa”, com ampla visibilidade midiática, de fato facilita e melhora o deslocamento das pessoas, mas não modifica em nada a infraestrutura das pequenas cidades, das regiões e microrregiões distantes. Para o novo mandato não há projetos de desenvolvimento regional sério. Segue a verticalização do litoral e o adensamento populacional, tudo ligado ao ramo do cimento. 

No campo da saúde a situação também é dramática. Não há estrutura suficiente nos pequenos e médios municípios. Pelo menos dois terços do estado é constituído de municípios com menos de 50 mil habitantes e toda essa população, quando precisa de tratamento de alta complexidade, tem de viajar para onde se concentra a infraestrutura, que são seis ou oito cidades do Estado, como Criciúma, Florianópolis, Blumenau, Itajaí, Chapecó, Lages e Joinville. As demais cidades seguem a eterna prática da ambulancioterapia. Um paciente de Dionísio Cerqueira precisa viajar 800 quilômetros para cuidar da saúde. Onde o debate sobre isso? 

A educação em Santa Catarina também passa ao largo dos programas, a não ser com abordagens ideológicas. Propostas de colégios cívicos-militares são um exemplo. Não se faz o debate pedagógico, é sempre desde a ideologia do “sem partido”, coisa que não existe. E nesse embalo, vão-se as estruturas e também a qualidade do ensino. O NECAT/UFSC, núcleo de estudos coordenado pelo professor Lauro, fez um levantamento sobre este tipo de escola: foram gastos mais de nove milhões em 10 escolas cívico-militares, revelando um custo operacional muito superior ao das demais escolas, quase 40% mais. E, medindo os resultados do ENEM, estas escolas têm desempenho menor. Quem está divulgando isso? Ninguém. 

A tal da “universidade gratuita” também é analisada por Mattei. Há uma grande transferência de recursos para esse programa, de fontes fundamentais do ensino básico. Ou seja, desmonta-se o ensino funda
mental para financiar empresários da educação. Porque não investir na UDESC, que é pública e de qualidade? Há que observar isso com mais cuidado. O lobby das privadas é o que está por trás dessa proposta.  

Também há outro dado que não aprece nos jornais: o desemprego. Atualmente são quase 300 mil pessoas sem trabalho em Santa Catarina. É um percentual baixo em relação a outros estados, mais ainda assim, o número é grande. Isso sem contar a precarização, que é a do tal “empreendedor”, tanto no campo quanto na cidade, como os trabalhadores do Uber ou da entrega de produtos. Ou seja, Santa Catarina não é o paraíso cantado. Afinal, a maior parte dos empregos gerados não passa da faixa dos dois salários mínimos.  E quem discute salário hoje nas campanhas políticas? 

O professor Lauro Mattei aponta que o Banco Mundial classifica como pobreza monetária extrema quem ganha até um dólar ao dia.  “Nós usamos a metodologia do Banco Mundial para medir a pobreza monetária e verificamos que, em Santa Catarina, ao final de 2023, cerca de 201 mil pessoas tinham renda de até dois dólares ao dia, o que não chega a nove reais por dia. Se você multiplica, você tem uma renda de menos de 300 reais por mês. Essas pessoas, como podem viver com qualidade?” Há que falar desse problema. 

Agora, com os desafios dos desastres climáticos, estes temas que envolvem saúde, renda, moradia, deveriam estar no topo do debate eleitoral. Não estão. O que se vê é um debate ideológico sobre quem defende a família, quem está com deus, quem vai matar os criminosos e quem consegue ser mais valente contra os “esquerdistas”. É um debate raso, vinculado a questões moralistas, sem qualquer amparo na realidade material das gentes.  A realidade é obscurecida pelas bravatas. Enquanto isso, dois terços dos municípios catarinenses seguem no abandono, ainda que a população aplauda o discurso vazio do governador. 


sábado, 12 de setembro de 2026

O jornalismo oficial


Seria de corar de vergonha se já não fosse sabido o papel de capacho da mídia tradicional. Apresentadores de todos os telejornais e canais de notícias deram, sem qualquer pejo ou comentário desabonador, a notícia de que Trump prometeu cinco mil dólares por pessoa nos EUA se o seu partido ganhar as eleições. Muito provavelmente aceitam isso como a "DEMOCRACIA". Imaginem se fosse o Maduro, ou o Lula ou o Petro, ou qualquer outro que não esteja na caixinha "amigo dos EUA"? Seria um escarcéu. Ditadura, crime, inconstitucional e outras cositas más... Mas, como é Trump  é só uma notícia... nada mais.... sem comentários ou opiniões.... A compra de votos sempre foi o artifício dos poderosos para vencer eleições, mas nunca a coisa tinha sido assim , tão exposta. Pois o foi, em rede nacional e pelo próprio presidente. Hoje fui ver os jornais. Igual... Só uma notícia, como se nada... É de lascar...


terça-feira, 18 de agosto de 2026

Versalhes










Estive em Paris no mês de abril e um dos passeios que não pude deixar de fazer foi ir até Versalhes, cidade que fica a 10 quilômetros da capital e que foi sede do poder político da França entre 1682 e 1789.  Era apenas uma aldeia quando Luís XIV decidiu fazer ali a sua residência, longe de todo o burburinho de Paris, construindo um castelo grandioso. O castelo do “rei sol” foi erguido em várias etapas, durante anos, e é um dos maiores do mundo. Tem 2.153 janelas, 67 escadas, 352 chaminés, 700 quartos, 1.250 lareiras e 700 hectares de parque. A proposta de Luís XIV foi manter em Versalhes toda sua corte, totalmente centralizada e sob controle, bem como completamente descolada da realidade popular. Foi dali que seu neto, Luís XVI, fugiu, quando o povo invadiu o palácio disposto a mudar o destino da França e de boa parte do mundo. Era a revolução francesa. 1789.

Vendo o esplendor do palácio a gente entende a fúria do povo que vivia na miséria enquanto a corte dançava e comia brioches dentro de uma fortaleza de luxo. Versalhes impressiona já na chegada. Os portões são forrados de ouro, bem como os lambris das portas e janelas. As salas são espaçosas, mobiliadas com elegância, obras de arte gigantescas nas paredes, muito veludo e seda. O famoso salão dos espelhos é realmente estonteante. Era ali onde a corte dançava e tomava champanhe em celebrações acerca de nada. Nos seus dias de glamour, consumia cerca de 25% dos rendimentos de toda França. 

Versalhes foi saqueado durante a revolução francesa, mas logo depois foi sendo recuperado e chegou a abrigar Napoleão. Hoje é um museus aberto ao público onde se pode ver, bem de perto, todo o luxo que cercava a corte francesa. Nas inúmeras salas que se sucedem, uma após a outra, passando pelo quarto do rei e o da rainha, pode-se ouvir o farfalhar dos vestidos e dos fraques dos fantasmas daqueles que formaram a imensa e dispendiosa corte do Rei Sol, vivendo à custa do sangue e do suor dos trabalhadores. É bonito, mas é triste... 


terça-feira, 11 de agosto de 2026

A cidade para poucos

A propaganda 

Quando nos anos 1980 o bairro do Campeche iniciou uma batalha para garantir um plano diretor, os moradores já tinham bastante consciência de que a expansão do capitalismo e a renda da terra logo estariam dando as cartas na comunidade. Foram décadas de luta, de encontros, reuniões, passeatas, oficinas, com intensa participação popular. O resultado de toda essa mobilização que nos anos 1990 e 2000 acabou envolvendo toda a cidade foi brutal: o Plano Diretor Participativo acabou derrotado na Câmara de Vereadores. Interesses do bonde do cimento se sobrepuseram aos desejos da cidade. Assim, a partir do apagar das luzes de 2014, Florianópolis foi descaradamente colocada à venda. 

Nos últimos anos esse processo se acelerou. No sul da ilha, espaço onde a luta foi intensa, a expansão da construção civil foi vertiginosa. Condomínios gigantes e prédio foram brotando sem que a região fosse dotada de infraestrutura. A disputa é pela paisagem em frente ao mar. Paisagem especulada.

Agora com novas mudanças no Plano que permitem prédios de muitos andares, o drama se aprofunda. E com as grandes obras para os ricos, como a tal marina da beira-mar, os prédios à beira mar devem se multiplicar. As empreiteiras e construtoras fazem propaganda da vista da cidade, aludindo ao lazer no rooftop (palavra em inglês, claro, para telhado). Os biltres poderão tomar champanhe no telhado observando seus barcos ancorados na marina. Visão dos deuses? Florianópolis vai ficando cada dia mais cafona, mais excludente, mais artificial. 


quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Santos Dumont



Terminei de ler o livro de Gondin da Fonseca sobre Santos Dumont, escrito em 1956. Uma preciosidade. O texto é primoroso e vai tecendo a vida daquele que é o pai da aviação, com o contexto e o cenário das épocas. Desde sua infância, passando pelo período em que ficou em Paris, onde, na verdade, conseguiu as condições reais para construir seus balões, dirigíveis e, depois, os aeroplanos. Uma história incrível, obviamente só possível porque a família de Santos Dumont tinha condições de bancar. De qualquer sorte, é fabuloso saber o quanto esse brasileiro era engenhoso. Ele não tinha o conhecimento teórico, universitário, mas tinha o saber prático de quem está em permanente combate com os engenhos mecânicos. Montava os motores peça por peça e foi assim que conseguiu fazer voar o 14 Bis, sem que nenhum outro mecanismo a não ser o motor, fosse necessário. Fez 14 tentativas e foi na 14+um (o 14 Bis) que conseguiu dar a volta na Torre Eiffel, elevando-se apenas com o esforço das hélices. Era o dia 23 de outubro de 1906. E a partir daí, a indústria da aviação cresceria sem parar. O texto de Gondin narra também o triste fim do herói brasileiro, conquistador do ar, que, premido pela solidão e por seus dramas internos, acabou enforcando-se em casa, em 23 de julho de 1931. Santos Dumont acreditava que ele era o responsável pelos acidentes de avião que se registraram na época, bem como pelo uso do avião nas guerras. Nunca se casou, não teve filhos, não viveu nenhum grande amor. Sua vida sempre foi o embate com o ar e, mesmo vencendo, não foi o suficiente. Um personagem verdadeiramente apaixonante. 

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Os velhos viraram consumidores



Eu não tinha prestado atenção, mas, de repente, prestei. De uns tempos pra cá tem aumentado muito o número de anúncio de mercadorias no meu celular, todas voltadas para pessoas mais velhas. É curso de ginástica, é produto de beleza, é marca de roupa específica pra velhos, é mensagens sobre saúde, anúncios de suplementos alimentares, tudo o que puderes imaginar. Ah, também são inúmeros os anúncios sobre casas de repouso ou empresas de cuidadores. Percebi, então, o óbvio. Os velhos no Brasil só aumentam e são consumidores em potencial para uma série de produtos que antes só eram vendidos em nichos muito singulares. Agora não. Viraram tendência. É uma loucura. 

Os mais graves me parecem os anúncios sobre saúde. A coisa beira o surreal. Li há poucos dias uma matéria que falava justamente sobre essas postagens de falsos médicos, ou de personagens médicos criados por IA para dar dicas de saúde que, no geral, acabam com alguma mercadoria. Uma armadilha muito grave para pessoas sugestionáveis, ou solitárias, ou sem recursos para visitar um médico, considerando os horrores que são as esperas para uma consulta nos postos de saúde. Que mundo confuso e perverso esse que estamos vivenciando... 

Fico pensando no quanto é necessária uma educação para o uso das redes, mas ao mesmo tempo não creio que possamos lograr algo assim. Pessoas há que já não acreditam em nada do que vem do mundo real, apenas do que pode ser visto nos seus celulares. Isso engloba tudo: saúde, educação, política... Sei lá onde vamos parar... Mas o capital, esse não, esse vai seguir destruindo tudo a sua volta, sem se importar com o que provoca.