quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Não matem o jornalismo, façam-no viver



Amanheci impactada com a notícia sobre a demissão de tantos jornalistas, mais de 20, de uma só vez, em Santa Catarina, em uma única empresa. Alguns dos companheiros e companheiras com mais de 20 anos de casa, vindos da antiga RBS e incorporados pela agora NSC, que os demite. Perder o emprego nesses tempos sombrios parece adquirir uma carga mais pesada. Com meus colegas me solidarizo e os abraço.

As demissões acompanham toda uma mudança de estratégia da empresa que abocanhou o monopólio dos jornais impressos de Santa Catarina que é a de migrar toda a produção de informação apenas para a rede mundial de computadores. Assim, acabam com os três jornais impressos que cobriam praticamente todo o estado. Não haverá mais papel diário, apenas a produção de uma espécie de revista semanal. 

Bom, é importante pensar sobre o papel desses jornais no estado. O Jornal de Santa Catarina, da região de Blumenau, já teve uma linda história, antes de ser comprado pela RBS. Grandes jornalistas se forjaram ali, produzindo reportagens magistrais. Era um jornal regional de muita qualidade e tinha muita influência na formação da opinião pública. Depois, no processo de monopolização da mídia pela RBS, foi comprado pela empresa gaúcha e virou uma pálida lembrança, segurando-se apenas no nome, ainda vivo na memória das gentes. Com alguns anos de “rbscização”, parteurizou, ficou aquela gosma sem vida e sem jornalismo real.

Em Joinville, maior cidade do estado, o jornal A Notícia igualmente teve seus tempos de glória, com jornalismo de qualidade, grandes reportagens, debates culturais, opinião. Jornalão tradicional, gostoso de ler. Comprado pela RBS virou um pastiche. Perdeu sua força narrativa. E mesmo que ainda por lá resistissem bons e bravos repórteres, no geral ficou como o Santa: uma gosma. Pouco produzia de jornalismo, seguindo a lógica de produção de ideologia pura, com raríssimas concessões, muitas vezes cavadas à força pelos jornalistas.

O Diário Catarinense, proposta da RBS para a capital, era, então, o pior deles. Desde que nasceu  trouxe a ideia de um jornalismo “mais informativo”, como se o que fosse praticado aqui no tradicional jornal O Estado, por exemplo, não o fosse. Era, na verdade, um projeto de márquetim, e que foi comprado pela classe dominante catarinense justamente para melhor desinformar a sociedade.

Sendo assim, o fim desses três jornais, que já agonizavam desde algum tempo, sendo praticamente impossível lê-los, não significa a morte do jornalismo no estado. Nada havia ali. E se pontuava alguma gota de jornalismo era só para manter as aparências. Então, o que morre agora não é o jornalismo em si. O que morre são três veículos inúteis, que durante seu tempo de monopólio só produziram exploração dos trabalhadores e, nas suas páginas, apenas ideologia.

Reitero, de novo, a qualidade de grandes repórteres - de texto e de imagem - que sempre fizeram das tripas coração para fazer jornalismo, conseguindo aos trancos e barrancos, oferecer pílulas de conhecimento sobre a realidade catarinense. Uma luta diária contra as pautas tolas. Esses profissionais, contrabandeando jornalismo para dentro dos jornais, deram uma contribuição importante já que os três impressos cobriam o estado inteiro. 

Mas, enquanto projeto de jornal mesmo, a proposta dos periódicos era um lixo só. E, depois que a NSC assumiu, a coisa piorou vertiginosamente. Uma vergonha. 

Agora, dizem os “empresários”, o jornalismo diário vai ser feito apenas nos portais. Ora. Não haverá jornalismo. Eles estão demitindo os jornalistas. Demitiram. Jogaram fora. Porque seres humanos não contam. São números numa planilha do financeiro. Vinte anos de dedicação, fins de semana perdidos, noites sem dormir. Nada disso é levado em conta. Adeus. Passe no financeiro. Vá empreender. Certamente os portais de notícias serão nutridos por pessoas que serão contratadas como “produtoras de conteúdo”, com um salário abaixo do piso de jornalista e uma carga de trabalho imensa. 

Ainda assim, a estratégia da NCS não mata o jornalismo. Porque o jornalismo é um fazer do jornalista, e não do empresário da comunicação. 

Então, minha gente. O que morre não é o jornalismo. Ele segue aí, pronto para ser esgrimido como uma forma de conhecimento e não apenas como informação vazia, ritualística e desconstrutora. 
As empesas apostam na internet porque querem reduzir custos. Não estão preocupadas com formar um público qualificado e discutir os grandes temas do Estado. Não estavam quando tinham o impresso e não estarão nas redes ou na revista gosma que virá. Não é sua intenção ampliar o pensamento crítico. Pelo contrário. Emburrecer e alienar. Esse é o padrão. 

Mas, se há um desejo de alienação das gentes por parte do empresariado comunicacional, há também um desejo nas gentes. E a informação, hoje, é uma necessidade social. Qualquer um sabe disso, mesmo os que creem nas mentiras formuladas todos os dias pelos jornais e televisões. E mais, as pessoas, levadas e interagir com o mundo, querem saber também do que acontece na sua aldeia.
Então, está aberto o campo para a produção de jornalismo mesmo. Eu sinto essa vibração no ar. É chegada a hora de colocarmos o jornalismo nas ruas, em pequenos jornais, panfletos, qualquer coisa de papel que possa ser lido no ônibus, no caminho para casa, no alpendre ao anoitecer. É tempo dos jornalistas de verdade produzirem jornalismo. Sem os três lixos que infestavam a vida dos catarinenses, descortina-se um horizonte. Pode ser difícil, e será. Mas, é hora de começar. 

Quem sabe não acontece de novo, as flores vencendo o canhão. O pequeno jornal, contando histórias, desvelando a realidade, contextualizando os acontecimentos, formando, criando conhecimento? 
Não sei, mas sinto que algo muito lindo pode começar. O jornalismo, outra vez, nas ruas, fazendo o que tem de fazer: formando uma audiência crítica e capaz de compreender o que acontece por trás das cortinas do poder. 

Avante, jornalista, de pé!  Em Blumenau, em Joinville, em Florianópolis e em toda Santa Catarina.



quarta-feira, 16 de outubro de 2019

O rescaldo das lutas no Equador

Foto: Conaie


O Equador voltou a viver certa normalidade depois das jornadas de luta protagonizadas pelos povos originários, com a participação também da Frente Unitária de Trabalhadores, estudantes e outros movimentos sociais, contra o que chamaram de pacotaço, uma medida do governo que cortava o subsídio à gasolina (que já existe há 40 anos), elevando o preço do galão de 1,85 dólares para 2,39. Além disso, o decreto também atingia direitos já conquistados pelos trabalhadores e implicaria em novas medidas de ajustes com incidência na vida geral. Definia ainda uma redução de salários de até 20% para os trabalhadores contratados temporariamente pelo setor público, reduzia as férias dos trabalhadores públicos de 30 para 15 dias e exigia deles o valor de um dia de salário por mês para o fisco. Por outro lado dava vantagens aos empresários para compra de maquinaria e eliminava impostos da importação de tecnologia. 

O argumento do governo para a assinatura do tal decreto é de que o Equador se encontra numa tremenda crise fiscal, com o acúmulo de déficit de 39 bilhões de dólares desde 2007. Só com o corte dos subsídios, Moreno esperava economizar dois bilhões e 273 mil dólares, e com as demais medidas pretendia chegar a cobrir 57% do total. E, com esse decreto, cumpria ordens do FMI, que prometia novo empréstimo de pouco mais de quatro (04) bilhões de dólares. Ou seja, nem resolveria o problema, e ainda projetava mais dívida e mais ajuste para chegar aos 100% do suposto rombo. Como os movimentos sociais sabem muito bem fazer contas, também souberam o que fazer: levantar os protestos. 

Foram 11 dias de mobilização intensa nos quais os indígenas promoveram cortes de estradas, protestos nas comunidades, declararam estado de exceção e realizaram uma marcha até a capital, Quito, a qual foi tomada por mais de 20 mil originários vindos de diversas partes do país. Nesse dia, conclamado como greve geral, ao se unirem também trabalhadores urbanos e estudantes, a população em luta colocou o presidente Lenín Moreno em fuga, e ele instalou o governo na cidade de Guayaquil, bem como desatou uma violenta repressão contra os manifestantes. O saldo da jornada é de sete vidas perdidas, centenas de feridos e mais de 1.500 presos. 

Mas, como já é tradição na luta indígena equatoriana, a repressão brutal não esmoreceu a luta e a saída do presidente foi convocar uma mesa de diálogo, finalmente aceita pelos movimentos, ainda que com o firme propósito de só avançar na conversa se houvesse a anulação do decreto 883. Do ponto de vista dos povos originários, a intenção não era derrubar o governo, tal como anunciara Lenín, inclusive acusando a Venezuela de estar ajudando nos conflitos, o que é uma total bobagem, pois a Venezuela está ela mesma vivendo um ataque sistemático por parte do império estadunidense. Os conflitos e o levante originário só aconteceram porque o decreto imposto pelo FMI e aceito por Lenín Moreno colocaria o Equador num atoleiro bem maior do que já está. 

A batalha com as comunidades indígenas vem de longe. Mesmo durante o governo de Rafael Correa, que foi apoiado pelo movimento, os conflitos foram intensos, pois os originários não aceitam a lógica extrativista predatória implementada pelo governo. Quando Moreno se colocou como candidato fez muitas promessas às comunidades e chegou a chamar lideranças importantes do movimento indígena para seus ministérios. Só que apesar da aparente cooptação, a relação dos povos originários com o poder do estado sempre esteve relacionada com a forma como o estado responde às suas demandas. 

Já houve o caso de esse mesmo movimento indígena ter colocado um presidente para correr, definitivamente, como aconteceu no ano de 2005 com a derrubada de Lúcio Gutiérrez, dirigente de direita, de ascendência indígena, que também defraudou o movimento, não cumprindo com os acordos e aprofundando medidas de corte neoliberal. Naquele ano, com mais de 50 mil pessoas (com protagonismo indígena) ocupando a capital, Quito, a população logrou garantir a renúncia de Gutiérrez e tão logo ela foi anunciada, o “paro” foi levantado e os comunheiros retornaram para suas vidas, deixando suas demandas com os novos dirigentes. Até então nunca fora cogitado tomar o palácio e instituir um governo indígena.

Durante o governo de Rafael Correa as relações estiveram bem por algum tempo e logo que os conflitos começaram principalmente por conta da defesa da água, contaminadas pela mineração, o próprio governo começou a atacar movimentos, em especial os reunidos na CONAIE (Confederação das Nacionalidades Indígenas no Equador), acusando-os de estarem aliados com a direita e com a proposta de retorno de Gutiérrez. Outra bobagem imensa. Os dirigentes indígenas são claros: não estão colados a esses conceitos de direita e esquerda. Querem respaldo para suas demandas, proteção ao território, à água, condições de existirem dentro dos seus supostos culturais, econômicos e políticos. Isso não significa que não compreendam estar mergulhados dentro do sistema capitalista, no qual esses conceitos de direita e esquerda tem mais sentido. Ocorre que trabalham numa outra sincronia. Isso também não significa romantizar o movimento indígena como um espaço de pureza, até porque existem algumas nacionalidades muito bem integradas no sistema capitalista de produção e bastante interessadas em que tudo fique como está. O que se tem de compreender é que são as condições materiais da vida da maioria que determinam os levantes. 

Agora, com a instalação da mesa e o fechamento de mais um acordo, de novo surgem as críticas ao movimento, alegando de que está se aliando a Moreno outra vez. E de novo, os indígenas observam essas acusações com sua atávica paciência.  Sabem que foi a força originária que derrotou esse decreto. Conhecem sua capacidade de mobilização e apresentarão suas propostas. Eles querem que o tal déficit anunciado pelo governo seja atacado não com mais empréstimos que gerarão mais déficits e apresentam ideias simples como a eliminação do pagamento aos ex-presidentes, a recuperação do que tem sido roubado pela corrupção, a suspensão do perdão de dívidas do empresariado, a renegociação dos contratos, a focalização dos subsídios. 

Por outro lado, como sempre acontece depois de manifestações tão intensas de força por parte das organizações populares, o governo joga diferentemente com cada mão. Com uma oferece a mesa e a possibilidade de os indígenas e trabalhadores urbanos participarem da formulação de propostas, e com a outra vai atuando na lógica do terrorismo de estado, atacando lideranças isoladamente, como a prefeita de Pichincha, por exemplo, que está com prisão preventiva por ter apoiado os protestos. E nada garante que nos próximos dias não apareçam notícias de assassinatos aqui e ali, nas comunidades que estiveram em levante. Todos sabem disso, se protegem como dá e avançam. 

É fato de que se há incompreensão por parte dos trabalhadores urbanos não-índios sobre a luta indígena, também parece necessário aos movimentos indígenas avançarem na discussão sobre até onde podem ir sozinhos. Na luta contra o capital, que é global e internacional, as batalhas precisariam ser travadas em conjunto, por todos os explorados, índios e não-índios, tendo consciência de que o inimigo é justamente esse sistema de produção que afeta a existência material de todos os que não estão na bolha do 1%. Ao capitalismo não interessa nem a natureza, nem o humano. Tudo é visto como “recurso” para geração de lucro. Se um humano cai, outro é reposto. Se um lugar se esgota, partem para outro. E assim vai o capital, feito uma nuvem de gafanhotos, arrasando tudo o que toca. E essa é essa nuvem que precisa ser destruída. Sem essa vitória geral, as vitórias particulares serão só resistência e o massacre continuará. O bem viver não tem como existir no capitalismo. 



quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Quem ataca a universidade e por quê?



Nos últimos dias, em Santa Catarina, temos lido alguns colunistas da imprensa comercial atacar de maneira violenta a universidade, os estudantes, os trabalhadores públicos. Isso não é novidade alguma. Sempre que, por algum motivo, os governos procuram destruir a universidade pública, logo assomam os cães de guarda, os puxa-sacos, os lambe-botas, os boca-alugadas, essa gente que só ocupa o lugar que têm nos jornais e emissoras de televisão justamente porque defendem a lógica do capital. Nada se pode esperar desses comentaristas a não ser justamente a defesa da classe dominante. É para isso que estão onde estão. 

A comunidade universitária, ao se ver atacada de forma brutal e praticamente sem espaço para expor seu pensamento, grita e tenta encontrar caminhos para dialogar com a sociedade, na tentativa de explicar os motivos pelo qual está em processo de luta. Mas, claro, os veículos de comunicação alternativos não têm o mesmo alcance que os meios comerciais e é sempre difícil vencer essa batalha de discursos. O que, talvez, precise ficar mais claro à comunidade, é que esse diálogo não pode ser tentado apenas nos momentos de crise. Ele precisa ser permanente. E não é. Quando tudo está bem, a universidade não se apresenta para a sociedade, fica restrita aos seus muros. E as pessoas lá fora não conseguem sentir a universidade presente no seu dia-a-dia, por isso também não se importam quando ela é atacada. Há um abismo aí. Reconhecer isso já seria um bom começo. 

Hoje, diante de mais uma tentativa de privatização da universidade e seu desmantelamento completo, há uma luta em curso. Os estudantes foram os primeiros a se levantar, premidos pela realidade concreta e material: o reitor anunciou que não haveria mais restaurante universitário nem seriam pagas as bolsas. Ora, isso significa o fim da linha para um número significativo de estudantes. Por isso eles se mobilizaram e decidiram entrar em greve. Muitos cursos pararam as aulas e vários atos começaram a acontecer. Isso, é claro, levantou a ira daqueles que defendem o capital e a proposta de privatização do ensino superior. Assim, na mídia, começaram a surgir os ataques, seja nas reportagens, ou através dos comentaristas. Os estudantes são apresentados como “baderneiros”, gente sem limite, sem ordem, vagabundos que não querem estudar. 

A verdade é bem outra. Os que decidiram parar, premidos pela notícia de que não teriam mais onde comer, nem como sustentar a permanência, tudo o que querem é estudar. É fato que diante da realidade, na qual as ameaças ainda não se cumpriram, a greve estudantil arrefeceu. Como o RU não fechou e as bolsas seguem caindo na conta, há propostas de levantamento da greve para o acúmulo de forças que serão necessário desatar nos próximos ataques. O movimento estudantil se debate nesse contexto. Os trabalhadores técnico-administrativos, também ameaçados pelo governo com vários projetos que implicam perda de direitos, decidiram esperar e não chamaram greve. Entendem que a tática governamental é de fazer bastante barulho e ameaças, e depois voltar atrás. Por isso, estão cautelosos. Vão fazendo trabalho interno, acumulando forças. Mas, sem os trabalhadores no movimento grevista, a greve estudantil perde força. Os professores, igualmente ameaçados pelo Projeto Future-se, também não aprovaram greve nesse momento. Como os TAEs, decidiram esperar que a realidade aponte nova tática.

Com apenas os estudantes em greve, os ataques externos ficam mais ferozes. Bater na juventude é mais fácil para os senhores sisudos, amantes da “ordem”. Então, a cada ação estudantil, como as protagonizadas na greve de 48 horas – com participação dos TAEs e professores  - quando fecharam os centros de ensino e as entradas da UFSC, são disparados os ataques virulentos pela mídia de massa. 

Como então, enfrentar esses borra-botas da imprensa vendida? Com informação e ação sistemática junto a população. Não há alternativa. Desde que o capitalismo nasceu com suas fábricas comedoras de gente que os trabalhadores vêm lutando para melhorar a vida. E o fazem com greves, com protestos, com atos. E no contexto do capitalismo, que nega saúde, educação, moradia e segurança a uma parcela muito grande da população, os que sofrem essa falta sabem que só a luta renhida muda as coisas. Não há caminhos fáceis, nem fórmulas mágicas. É luta! E, nesse embate sempre teremos os boca-alugadas do sistema contra nós. 

É fato de que o contexto universitário local hoje exige uma reflexão mais profunda por parte dos estudantes que estão parados. Até agora, estão em solidão. A greve estudantil não avançou nas demais universidades, a UNE não encampou nacionalmente e na maioria dos Centros de Ensino as aulas estão acontecendo. Talvez fosse momento de levantar a greve, rearticular as forças, preparar novas batalhas. 

Estamos vivendo bem agora, um levante nacional no Equador, país vizinho. Os povos indígenas, que tradicionalmente atuam coletivamente nas grandes lutas, estão parando o país. E, entre eles, circula uma máxima, que é a que dá concretude à força que têm: “si falta la gente, se levanta el paro”. Isso significa que se a maioria não assume a luta, a greve termina. É uma decisão difícil, mas necessária. Uma luta coletiva exige mobilização e engajamento, não pode ser o sacrifício de alguns sem o comprometimento da maioria. É tempo de aprender.

No cenário nacional, as coisas seguem acontecendo. No congresso avançam as pautas anti-populares, o projeto Future-se segue sendo construído pelo governo. Há muita coisa ruim sendo preparada não apenas contra a universidade, mas contra os trabalhadores. Por isso a necessidade de uma reflexão profunda e da construção de formas de luta capazes de efetivamente mobilizar as gentes e realizar o combate. 

Quanto aos detratores dos estudantes e dos trabalhadores públicos, eles seguirão atacando, agora e sempre. Porque farão sempre o que a classe dominante mandar. São cães de guarda bem treinados. Contra eles há que atuar sistematicamente, inclusive em tempos de calmaria. 




terça-feira, 8 de outubro de 2019

Bohemian Rhapsody



O cinema tem uma força descomunal. Pelo menos para mim. É incrível como as histórias contadas desde a tela grande podem assumir contornos inimagináveis. E, sobretudo, amo os atores. É uma coisa incrível uma pessoa poder representar outra pessoa, ou tantas outras, com tamanha profundidade. Deveras, é uma profissão pela qual tenho profunda inveja. Inveja boa.

O cinema me arrebata desde quando eu era criancinha e ia com minha irmã para as sessões duplas de matinê, fosse no Variedades ou no Municipal, lá em São Borja. Confesso que gostava mais do Variedades. Era mais rootzeira, com cadeiras de madeira dura, e a gente podia fazer guerrinha de balas. O Municipal era mais chique, de cadeiras estofadas e exigia mais modos. Mas, quando o filme começava, tudo perdia a importância e eu me deixava levar para o universo de luz desenhado na tela.

Quando os cinemas deixaram de existir e tudo virou sala asséptica dentro dos xópings eu fui perdendo essa tradição de mergulhar no escuro/luz. Mas, ainda assim, filmes são parte importante da minha vida. Não passa um dia sem que eu veja um, seja filme mesmo, documentário, vídeo, qualquer coisa escrita na luz e que exija atuação. Vejo tudo atrasado justamente por conta dessa birra com os xópings.

Ontem à noite, depois da rotina com o pai, fui assistir a um filme que já estava na minha lista há tempos: Bohemian Rhapsody. Chorei litros e segui chorando hoje durante todo o dia. Bastava lembrar alguma cena e lá vinham as lágrimas. Estou chorando bem agora, enquanto escrevo. A questão é: por quê? O filme não tem nada demais. É uma historinha comum sobre um artista gigante, seu começo, seus dramas, seus limites, e sua trágica morte aos 45 anos, vítima do então mortal vírus da Aids.

E apesar de ser só um filme simples, sobre alguém, o guri que fez o Mercury me arrebatou. Ele é demais. Cada movimento dele em cena é demais. Encarnou de tal forma o personagem que simplesmente nos toma por inteiro. É emocionante. Não foi à toa que levou um Oscar. Rami Malek é Freddy. Absolutamente incrível. Que trabalho maravilhoso.

O filme sobre o Queen aparece pra mim como um tributo aos anos 70. Lembro bem quando foi lançada essa música, a Bohemian Rhapsody, em 1975. Ainda vivia em São Borja e tinha gosto estranho para música. Aquele misto de ópera e rock logo se fez frequente lá em casa e em pouco tempo eu já cantava a letra toda de cor. Era bonito demais. Creio que foi isso que me emocionou tanto. Esse mergulho num passado tão distante, tão carregado de lembranças. Naqueles dias eu não sabia que o homem que cantava tão lindamente era um imigrante, gay, deslocado e infeliz. Mas, minha sensibilidade sempre a flor da pele talvez intuísse e por isso mesmo me fazia chorar sempre que eu cantava, aos berros, tentando alcançar as notas. Aquela letra forte, antevendo o destino de tantos meninos imigrantes na Inglaterra ou em qualquer parte do mundo. Aquela dor tão profunda.

Bohemian Rhapsody é, assim, mais do que um filme. É parte da vida de tantos, da minha vida mesma, dos desgraçados, dos perdidos, dos que não podem ser o que são. E ainda que termine no momento de maior glória de Freddy, deixa esse amargo, esse amargo...

“Mamãe, acabei de matar um homem
Coloquei uma arma contra a sua cabeça
Puxei o gatilho, agora ele está morto
Mamãe, a vida tinha acabado de começar
Mas agora eu estou acabado e joguei tudo fora...

Então você pensa que pode me apedrejar
e cuspir no meu olho
Então você pensa que pode me amar
E me deixar morrer”.


O Equador e o sentido de comunidade



Por conta do advento da internet, muita coisa que nos era desconhecia hoje chega com facilidade ao conhecimento. Uma delas é a mobilização indígena do Equador. Há quem se surpreenda ao ver as massas originárias enfrentando com paus e pedras a polícia fortemente armada, ou avançando pelas estradas como se fosse uma força da natureza. Mas, não há qualquer surpresa nisso. O nome dessa reação massiva e unificada chama-se comunidade. 

Uma das coisas que o mundo moderno fez desaparecer foi justamente o sentido de comunidade. Muitos teóricos já se debruçaram sobre esse tema entendendo que nas sociedades modernas, formadas por grandes e médias cidades, só pode ser considerada comunidade a união de pessoas através de laços políticos na batalha por causas comuns. Ou seja, num mesmo bairro pode haver várias comunidades. É o que se consegue produzir coletivamente num universo tão partido e no qual é indivíduo que parece ter mais importância.

Mas, nas comunidades indígenas o sentido de comunidade não é uma ideia. É uma práxis. Ou seja, está entranhada no viver e no pensar. Muitos povos sequer têm na sua língua originária uma palavra para o “eu”. Porque o que existe desde sempre é o “nós”. No Brasil nos custa perceber isso porque nossos povos originários foram dizimados e os que restaram – cerca de um milhão – estão espalhados e discriminados num país que é praticamente continental. Mas,  em países como a Bolívia ou o Equador, a maioria da população é indígena, então, não é possível viver separado dessa realidade concreta. Nas pequenas e médias cidades o viver é comunitário, esse comunitário original, carregado no gen, que faz com que a maioria se articule em torno de causas comuns, que exista organizativamente como nos ayllus ancestrais.

Por isso que quando o sentido da vida é atacado por qualquer governo, essas comunidades se levantam em rebelião. E não é coisa simples ou singela. É uma reação visceral, violenta e poderosa. Podem viver em paz nos seus povoados e até negociar com governos de todas as cores – direita, centro ou esquerda – mas, se qualquer um deles resolve atacar a terra, a água, o equilíbrio do viver, a reação é imediata. 

No Equador a história mostra que as rebeliões são frequentes e arrasadoras. Na história recente foram os povos indígenas que colocaram para correr o presidente Lucio Gutierrez, depois de terem sido engadas por promessas que não se cumpriram. Tomaram as ruas e o país inteiro. Depois, vitoriosos, voltaram para seus povoados, deixando o poder na mão da mesma velha elite que domina desde a invasão. São chamados de “capachos da direita” quando se aliam aos da direita, e são chamados de “comunistas” quando se aliam aos da esquerda. Mas, eles mesmos, não se vinculam a esses conceitos forâneos, coloniais. Preferem atuar dentro da sua historicidade permanente. Outros conceitos, outra práxis, outro ethos.

Agora estão mobilizados contra as recorrentes más decisões do governo de Lenín Moreno, de corte neoliberal, bem como se levantaram contra Rafael Correa, que se chamava progressista. Tanto um como outro tocaram no ponto central das gentes originárias: a terra-mãe. O extrativismo entreguista, a falta de diálogo no trato dos recursos naturais, o desconhecimento das autonomias, tudo isso põe os indígenas em pé de guerra. Os movimentos indígenas do Equador sabem que o país é berço de riquezas minerais incontáveis e também sabem que vivem num sistema capitalista, integrado e globalizado. Compreendem as razões de estado sobre o uso do petróleo ou dos minérios, mas querem ser consultados, querem decidir junto. E isso não acontece. 

Hoje, já estão aos milhares nas estradas seguindo para Quito, muitos já estão na capital. Lá se juntam aos demais trabalhadores atingidos pelo pacotaço de Lenín Moreno, que mexe não apenas no subsídio da gasolina, mas também nos direitos laborais. É uma guerra de classe. E todos estarão juntos na tentativa de derrotar o governo. Como sempre, a eles pouco importa quem fique na cadeira presidencial. O que querem é que governe obedecendo. E se isso não acontece, derrubam. É simples e singelo.  

Aos atordoados brasileiros que observam os vídeos nos quais as comunidades enfrentam a polícia, os tanques, os drones, ou os grupos que chegam armados de paus e foices na grande capital, saibam que essa é a toada no Equador, bem como na maioria dos países indígenas. O que avança pelas estradas é a comunidade, o nós. Os que caem são pranteados e reverenciados, mas a coluna segue em frente, porque é uma coisa só. 

O mundo indígena é complexo e belo. Há que conhecer e fazer esforço para entender. 

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Caminha a Reforma Sindical. Mais uma derrota?



Enquanto os brasileiros se digladiam no feicibuqui por conta de algumas pautas pontuais ou sobre a última bobagem proferida pelo mandatário máximo da nação, a batalha contra os trabalhadores segue sem qualquer bloqueio na casa legislativa, onde são definidas as leis que devem gerir a vida de toda a gente. Uma dessas leis é a nova proposta de reforma sindical, que avança a passos acelerados na Câmara dos Deputados e que pretende normatizar a organização dos trabalhadores colocando como “parceiros” os patrões. 

Buscando se antecipar à proposta que está sendo construída pelo governo, especificamente pelo Secretário Especial da Previdência e Trabalho, Rogério Marinho (principal responsável pela reforma trabalhista e pelo fim do imposto sindical), e que tem por base a normatização sindical dos Estados Unidos, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, mexeu os pauzinhos e articulou a apresentação de uma proposta que, segundo ele, foi negociada com trabalhadores e empresários de comum acordo. A minuta que anda circulando traz a assinatura do deputado do PL do Amazonas, Marcelo Ramos, e pretende ser o texto base do debate. 

Como a proposta governamental, que pretende criar sindicatos por empresa, está sendo trabalhada sem a participação dos trabalhadores, algumas centrais preferiram se somar aos esforços feitos por dentro da Câmara, numa tentativa de garantir contribuições ao projeto. Ao que parece já está acordado o fim da unicidade sindical, garantindo assim a possibilidade de mais de um sindicato da mesma categoria, na mesma cidade. Essa foi a forma de reagir diante da ideia de sindicato por empresa, proposta do governo, que tornará a luta sindical ainda mais enfraquecida. 

Como os patrões participam da construção da proposta, entidades como CNI, CNA e CNT propuseram uma porcentagem mínima de filiação para que o sindicato sente à mesa para negociar. Ou seja, pode haver mais de um sindicato, mas só vai negociar quem tiver um número x de filiados. 

A emenda constitucional apresentada pelo deputado liberal tira o estado do processo e não será mais necessária a sua autorização para o registro de novos sindicatos. Tudo será definido por um Conselho Nacional de Organização Sindical que será formado por trabalhadores e patrões, de forma bipartite e paritária. Define ainda que ninguém será filiado compulsoriamente, mas as decisões tomadas em mesa de negociação coletiva só serão levadas para os que estiverem filiados.  Também estabelece proteção aos que estiverem nas direções até um ano após o fim do mandato.

A função que hoje é do governo de reconhecer a personalidade sindical será então atribuição do Conselho, formado por 12 pessoas, seis representantes patronais e seis dos trabalhadores. Também terá como tarefa definir os requisitos de representatividade, democracia, eleição, mandatos, sistema de custeio dos sindicatos e tudo mais. 

Apesar de algumas centrais estarem negociando e aceitando partir dessa proposta inicial, o projeto é, em si, também uma derrota para os trabalhadores. É compreensível que as entidades queiram se aliar a uma proposta “menos pior”, em comparação com a do governo, mas parece ingenuidade ou equívoco mesmo acreditar que no Congresso Nacional poderão garantir ganhos para os trabalhadores. A experiência arrasadora da reforma trabalhista já mostrou que ali não há espaço para conquistas. Apenas alguns ganhos muito pontuais.

O corpo da proposta, ao impor a participação de entidades patronais em um conselho que vai determinar o funcionamento das entidades sindicais, se apresenta como inaceitável. Como poderão os trabalhadores permitir que sejam os patrões os que decidam sobre suas formas organizativas? Qual a real correlação de forças que poderá existir, ainda que aparentemente seja um conselho paritário? E se tantas centrais existentes no Brasil hoje são entidades pelegas não fica absolutamente claro que a tal “paridade” não existirá de fato? Na prática, as decisões ficarão sob a tutela patronal.

A experiência recente da luta política no Brasil mostra que dentro do Congresso não há qualquer possibilidade de ganho para a classe trabalhadora. A casa legislativa está tomada por representantes de grupos de interesse e de poder que não estão dispostos a ceder um milímetro aos trabalhadores. Será, portanto, mais um massacre. 

O debate sobre a reforma sindical, que está pegando fogo nas instâncias legislativa e executiva, não aparece nas bases. Pouco se tem discutido no âmbito dos sindicatos sobre essas propostas e os acordos que estão se costurando. A discussão sobre o fim da unicidade e sobre a participação dos patrões na decisão sobre a organização dos trabalhadores não tem sido feito de forma capilar e provavelmente por isso não haverá grandes mobilizações com relação ao tema. 

Se levarmos em conta que a reforma trabalhista aconteceu sem grandes protestos e a reforma da previdência, praticamente sem nenhum gemido por parte das grandes entidades de massa, nada leva a crer que com a questão sindical será diferente. E, se já há acordos sendo formulados antes mesmo da apresentação oficial da proposta, isso significa que centrais de trabalhadores há que preferirão perder os anéis em vez dos dedos. Mas, em longo prazo, certamente os dedos irão embora, bem como o corpo todo. 

É fato que há e haverá sindicatos dispostos a lutar, a explicar e a formular propostas bem melhores, mas serão minoria.  E a menos que os trabalhadores comecem a se apropriar desse debate, entendendo que só a eles pertence estabelecer suas formas organizativas, a derrota será fragorosa. 

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

A universidade e a luta contra o atraso



Quando o reitor da UFSC decidiu chamar a comunidade para informar sobre possível parada do Restaurante Universitário e cortes de bolsas em função da decisão do governo federal em suspender os recursos já orçados, estava ciente de que a resposta, principalmente estudantil, seria radical. Nas duas primeiras reuniões, que foram massivas, os estudantes já indicavam que a única saída para enfrentar os cortes era estabelecer uma luta concreta contra o governo. E foi assim que começou a se articular uma greve, afinal, sem comida e sem bolsa, quem pode sobreviver na universidade? Ao contrário do que quer fazer crer o governo, as universidades públicas não são redutos da classe rica. Pelo contrário, há uma ampla maioria de estudantes que depende das políticas de permanência para seguir estudando. Assim, sem recursos, o índice de evasão cresce, pois não há como garantir a sobrevivência. Só que quem batalhou tanto para entrar na universidade, ultrapassando barreiras já tão desiguais, não quer abrir mão desse direito e por isso os grupos foram se organizando e articulando um movimento de parada. Seguia o velho – mas sempre necessário – bordão: paramos agora para não parar para sempre.

Na UFSC a movimentação estudantil seguiu fora das veredas do Diretório Central dos Estudantes. E os cursos foram fazendo suas assembleias e decidindo por uma parada geral. Em pouco tempo já eram vários cursos com greve decretada e o movimento cresceu. Os professores fizeram uma assembleia virtual discutindo o tema da greve e decidiram por não parar. E os técnico-administrativos, tentando construir um movimento unificado nacionalmente, também não aderiram a greve por enquanto. Os estudantes ficaram sozinhos. Ainda assim, foram resistindo, mesmo com grande refluxo  em várias frentes.

A tentativa de uma resposta nacional aos ataques do governo, que segue cortando verbas e tentando empurrar o projeto Future-se pela goela abaixo, fez com que as três categorias se unissem numa greve de 48 horas nos dias 2 e 3 de outubro. A proposta seria a de mobilizar toda a área da educação, e não apenas as federais, em grandes atos pelo Brasil afora.

Na UFSC a proposta de parada geral nesses dois dias foi aprovada pelas três categorias: estudantes, professores e técnico-administrativos. Assim, na terça-feira, dia 02, a universidade amanheceu com todos os seus centros de ensino fechado. O ato de trancamento das portas foi realizado por estudantes e já provocou as reações que são comuns àqueles que se negam a seguir as orientações das assembleias.

Entre os TAEs, que não estavam dispostos a parar e vieram para o trabalho normalmente, encontrar as portas fechadas causou aborrecimento, mas a maioria deu meia volta e foi para casa. Outros se somaram às atividades promovidas pelo sindicato, que constaram de palestras, cursos, aulas, públicas e oficinas. Uma parte também acompanhou professores e estudantes em uma atividade no Centro da cidade, onde mostraram à comunidade os projetos e as atividades desenvolvidas pela universidade.

Já com os professores, a reação foi diferente. Os que não aceitam a paralisação provocaram algumas confusões, como agressões verbais e empurra empurra. As ações mais truculentas, como sempre, foram registradas no Centro Tecnológico  (CTC), historicamente conservador. A polícia foi chamada para garantir que as portas se abrissem e estudantes e professores pudessem entrar para suas atividades normais. Como sempre, registraram-se os momentos de tensão e conflito. Ainda assim a universidade parou no primeiro dia.

Na quarta-feira, segundo dia da greve, a universidade amanheceu com mais uma ação de força por parte dos grevistas. Desta vez, além de manter as portas fechadas, estudantes e trabalhadores fecharam as entradas do campus, impedindo que também os carros pudessem circular pela universidade. A ação mais importante  do dia seria no centro da cidade, com um grande ato público. De novo, no CTC, a proposta foi a de chamar a polícia para garantir o acesso. E, outra vez, registraram-se os confrontos.

Na parte da tarde, a mobilização se concentrou em frente à catedral onde estudantes e trabalhadores das universidades se juntaram a outras forças da educação pública, sindicalistas e movimentos sociais.

O saldo dos dois dias de luta na UFSC foi bastante positivo, ainda que tenha havido críticas por parte de alguns grupos de que forçar o fechamento dos centros e bloquear as ruas não incentiva o diálogo. Ocorre que o diálogo vem sendo feito há meses, com reuniões, assembleias, encontros de debates, e momentos há em que as medidas precisam ser mais radicais. Afinal, estava definida uma greve de 48 horas, com votação em todas as categorias. Os conflitos com estudantes que querem aula ou trabalhadores que não querem parar são os conflitos necessários num processo de luta. Não há como ser diferente.  E é nessa correlação de forças que as ações vão se definindo. Além do mais, historicamente, na defesa da universidade pública esse embate sempre foi assim, é a ação de força dos grupos organizados que tem garantido a permanência do ensino superior público e gratuito.

Em nível nacional o governo segue sua pregação a favor do Future-se, sem parada. Ao que parece, as mobilizações e os protestos não lhe fazem cócegas, o que significa que novas estratégias precisam ser acionadas. Nas próximas semanas novas rodadas de discussão entre trabalhadores e estudantes serão realizadas, para avaliar os passos dados até agora e definir caminhos novos. Os estudantes deverão avaliar ainda hoje (04.10) se continuam a greve isoladamente na UFSC ou buscam articulações nacionais. No campo dos técnico-administrativos está se desenhando a possibilidade de uma greve por tempo indeterminado, visto que além do Future-se, que atinge a todos sem distinção, há outras propostas na área administrativa que também tocam de maneira bastante profunda essa categoria especificamente. Assim que a batalha está longe de terminar.

A luta travada hoje dentro das universidades é pela manutenção do ensino público, pela garantia da autonomia e da democracia tão duramente conquistadas, pela soberania nacional na construção de um conhecimento crítico, pelo direito à educação. Há, por parte do governo o firme propósito de elitizar as instituições de ensino, de tomar o controle com a nomeação de interventores, sem que a vontade da maioria seja respeitada, privatizar o ensino e manter o país na dependência científica, tecnológica e econômica. O projeto Future-se segue sendo o carro chefe e ainda que várias universidades tenham dito não à proposta, o governo continua trabalhando nessa direção.

Não bastasse isso a crise econômica se aprofunda e deverá abrir novas chagas. O final do ano não deverá ser de paz.