sexta-feira, 6 de março de 2026

As eleições e o Irineu



Nas eleições, como na guerra, o que vale é a mentira. Interesses pessoais ou particularistas (de causas) se transformam, num átimo, em interesses gerais. Os discursos jorram e as propagandas tomam o lugar do debate. Há tempos que não discutimos mais projetos. Tudo vira uma onda louca de peças publicitárias, nas quais as promessas se acumulam.  Nestas horas, vale prestar atenção às práticas, às ações cotidianas, a maneira de atuar na vida. 

Vejamos as eleições na UFSC. Pessoas que já estiveram no comando da universidade vêm a público falar do que não foi feito pelo atual reitor. Reclamam de coisas que eles mesmo não fizeram, e em tempos bem menos hostis. Estranho. Por isso é sempre bom voltar no tempo e pensar nas gestões passadas. O que foi o mandato de Ubaldo? Como enfrentou o tempo da pandemia? Como foi deixada a universidade? O que foi o mandato da Roselane? Como ela atuou politicamente com os trabalhadores, com a tão falada democracia?  Lembram-se da EBSERH votada na Polícia Militar? E as gestões liberais, quem ainda se lembra de suas atuações privatistas? 

Pois é, eu lembro. A universidade é um campo de batalha. Aqui se expressa vida mesma, tal como fora do campus. Há projetos de país em disputa, há projetos de educação em disputa, há projetos políticos em disputa. Não é só como se vai “gerir” a máquina. Diz respeito a que tipo de universidade queremos comandar. Uma universidade abraçada com interesses de grupos de poder ou uma universidade que se coloque na vanguarda do conhecimento necessário aos interesses nacionais e regionais? Uma universidade que se abre para a participação equitativa ou uma universidade que se fecha em círculos elitizados?

Nesta disputa que se avizinha em abril elejo o Irineu, porque conheço suas práticas cotidianas. Tive a sorte de compartilhar com ele a vida no mesmo Centro onde foi diretor. Pessoa querida, equilibrada, sempre disposto a organizar consensos se o que estiver em jogo for o melhor para a comunidade, aberto ao diálogo fraterno, respeitoso com os estudantes, com os trabalhadores TAEs, defensor da participação direta. 

Li num artigo de um professor no sítio da APUFSC que ele é um ‘inexpressivo`. Engraçado como os professores gostam de diminuir o Irineu. Não me lembro de ter visto críticas “ad hominem” a figuras como o Rodolfo, Prata, Lúcio, Ubaldo, ou mesmo  Roselane. No geral as críticas que havia eram respeitosas. Mas, ao Irineu, os colegas gostam de tripudiar, diminuir. Será por quê?  O que seria ser um “inexpressivo”? Seria por não ser membro honorário da maçonaria? Seria por não ser amigo de lideranças estaduais ou nacionais da suja política tradicional? Seria por não estar ligado a grupos empresariais de “prestígio”? Seria por ele ter sido técnico-administrativo?   Seria por sua singela humildade? Seria por sua capacidade de tratar com respeito a qualquer um? 

Sim. Irineu não é dado a grandes discursos nem tem relações pessoais com figurões. Mas é um dedicado trabalhador da UFSC que aqui entrou quando tinha 18 anos. Conhece as entranhas da UFSC e já trilhou muitos dos seus caminhos de administração, sempre fazendo um trabalho diligente e competente. Prefere agir quietinho, sem choramingar. Critica o governo no que cabe e atua para resolver os dramas da universidade, sempre ameaçada e sucateada. Pegou uma UFSC desmontada, pelo drama da pandemia e por uma administração pouco eficaz. Era óbvio que não mudaria a realidade em meses. Tudo foi tendo de ser refeito, reconstruído, repensado. Administrar é isso. Resolve algo aqui, aparece outra coisa ali. As coisas vão tendo de ser reavaliadas. A Universidade perdeu muito de sua autonomia. Gerencia hoje mais de 300 contratos com empresas privadas, porque os governos foram eliminando e extinguindo funções. Limpeza e manutenção é coisa difícil de gerir, por ser privado e por estar submetido a uma série de regras que não favorecem a universidade. E aí, a coisa pega. Mas, vai-se trabalhando.

Estou na UFSC desde a gestão do Diomário, que foi bem boa. Teve seus problemas, como todas têm. Depois tivemos os privatistas, contra os quais lutamos muito, ora impedindo retrocessos, ora não conseguindo. Roselane, da dita “esquerda”, que foi uma decepção. Cancelier, morto pela onda lavajatista. Nada é 100%. Nosso papel, como trabalhador público, é seguir zelando pelo melhor. E hoje, o melhor segue sendo o Irineu. Disso não tenho dúvidas. Para mim ele não é um inexpressivo. É um trabalhador da UFSC da maior qualidade. Um professor exemplar. Um administrador competente. Um homem de valor. Talvez seja isso que incomode tanto. 

Irineu, meu voto é teu.  

quarta-feira, 4 de março de 2026

O tempo das atrocidades




Quando em 2017 Donald Trump foi eleito presidente dos EUA pela primeira vez aberto, com esse feito, um caldeirão de atrocidades. Uma espécie de corolário do irracionalismo que vem se consolidando desde a primeira grande guerra. Conhecido mundialmente por sua frieza e maldade expressas de maneira clara num desses abjetos shows de realidade chamados “O aprendiz”, estava mais do que lógico de que governaria o país com a mesma arrogância com a qual ofendia, humilhava e despedia os seus “aprendizes” de monstros. Sim, porque o tal programa era um show no qual os aprendizes tinham de tomar decisões administrativas que se caracterizavam por falta de empatia, desumanidade e vilania. O mais calhorda era o que ganhava e o prêmio era ser assessor de Trump. Logo, era absolutamente certo de que o que se veria na presidência do país aqui mais poderoso do mundo era exatamente isso: vilanias. Deixemos claro: o Trump foi eleito, o que significa que essa fatia da população, que o conhecia bem, sabia o que estava fazendo. 

O que se viu, então, neste mandato, foi o seu showzinho já conhecido. Grosserias, preconceito, humilhações, arrogância. E, junto com isso, o crescimento de um movimento de ultradireita chamado QAnon, baseado em mentiras e invenções alucinantes. Esse movimento se passou rapidamente pelos eternos repetidores de bobagens estadunidenses e logo chegou à América Latina. Usando as mesmas técnicas de Trump, Bolsonaro se elegeu no Brasil, trazendo para a política o mesmo modo de desempenho. E assim, quanto mais fora da casinha fosse o candidato, mais chance passaria a ter. Claro que as experiências ditas progressistas deram uma mãozinha ao não conseguirem apresentar às populações respostas aos seus dramas. 

Javier Milei, na Argentina, é outro que se elegeu usando a mesma técnica. Gritos, ofensas, atos espetaculosos. E o que é pior. Foi extremamente claro na sua campanha sobre o que iria fazer: acabar com os direitos trabalhistas, destruir os serviços públicos e ajudar a família, a sua é clara. Foi escolhido no voto pelos argentinos. 

Agora, nos últimos anos, já no segundo mandato de Trump, vimos a naturalização da barbárie. O genocídio do povo palestino, perpetrado por Israel, assistido ao vivo nas telas dos celulares, sem causar muita comoção. Pelo contrário. Nos comentários das imagens pudemos ler os horrores de uma gente completamente destituída de humanidade. Apesar das grandes manifestações pelo mundo, nada aconteceu. O genocídio aumentou, sem trégua e segue ainda... Ficou tão naturalizado que já não importa mais... Israel matou crianças, velhos, explodiu gente nos hospitais, nas barracas de refugiados, matou jornalistas, médicos, as coisas mais abjetas. Sem limites. 

Então, quando os soldados estadunidenses entraram na Venezuela e sequestraram Maduro e Cilia, presidente e vice do país, não houve surpresas. O que é um sequestro diante de mais de 100 mil palestinos destruídos? Tá de boa! A Venezuela foi tornada refém e segue tutelada por Trump que governa desde Washington. E, para o mundo, tudo está bem. “É bem feito para os venezuelanos que inventaram de afrontar os Estados Unidos”, são os comentários que proliferaram na internet. Aí também decidimos estrangular Cuba, matar o povo de fome, na escuridão. E está tudo bem. Há quem festeje... e são muitos.

Então, se não há mais limites para o terror, bora bombardear o Irã. Sim, porque os Estados Unidos odeiam o fato de que o Irã não é seu capacho. Logo, vamos “aquecer” as coisas lá no Oriente Médio. O primeiro ato foi fenomenal: uma escola de meninas. Mais de 180 meninas mortas, destroçadas pelas bombas de Israel. Ah, mas não importa. São projetos de terroristas. De novo, o metralhar de comentários maldosos e vis de gente ruim e da mídia comercial, capacho do poder. Então, quando o Irã reviveu e bombardeou Israel. MEUS DEUS!!!! Que pecado atroz. Que gente ruim... está bombardeando alvos civis. Hipócritas!

E assim vamos. Não há limites. Somos, todos, reféns da megalomania de dois ou três governantes que se arvoram xerifes do mundo. E que têm bombas atômicas, capazes de destruir a todos. Não há limites. Nada a esperar de títulos de governos. Tudo indica que esta escalada de terror será longa. Os amantes de Trump, Bolsonaro, Milei e outros quetais, babam, felizes. O que acontecerá quando a realidade os surpreender? 

Os tempos são duros, mas, resistimos! 


quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Derrota para a soberania digital

Os monstros comedores de energia

Na madrugada desta quarta-feira (25/03) a Câmara de Deputados aprovou projeto de lei de autoria do deputado José Guimarães (PT/CE) que isenta de imposto de importação os equipamentos usados ​​na fabricação de data centers e que zera os tributos sobre a exportação de serviços do setor. Uma pancada na luta pela soberania digital. O projeto, agora lei aprovada, substitui uma Medida Provisória que havia sido baixada pelo governo federal. Mais uma vez, o governo Lula se mostra completamente alinhado aos interesses do Congresso e dos grupos multinacionais de comunicação. 

Agora, enquanto vários países debatem e discutem a presença dos centros de dados em seus territórios, por conta do excessivo gasto com energia, o Brasil caminha na contramão, chamando para o país “monstros” que consomem essa água potável e luz de maneira extraordinária. São, pelo menos, 90 mil litros de água por dia. Não bastasse isso, ainda concede incentivo para que as grandes big-techs se apropriem, não só dos recursos naturais, mas também dos dados dos brasileiros. As condições dadas às empresas são um atestado de submissão. 

Quem cria os centros de dados precisa fornecer apenas até 10% do processamento ao mercado interno, e investir ao menos 2% do valor dos produtos adquiridos no mercado interno em projetos de pesquisa ou inovação. O projeto também diz que as empresas deverão publicar relatórios de “sustentabilidade” contendo índices de Eficiência Hídrica e as fontes de energia. Há uma exigência de que apenas energia limpa ou renovável seja utilizada, mas quem define o que é “limpa”? 

Um levantamento feito pela mídia comercial (G1) apontou que só quatro projetos de centro de dados de Inteligência Artificial previstos no Brasil poderão consumir energia equivalente a quase 17 milhões de casas. Isso é um absurdo de energia. E o governo já anunciou que para dar conta desta demanda a carga energética precisa crescer 600% até 2037. 

O argumento do governo para o MP que agora é lei é de que a suspensão do imposto de importação para os centros de dados tornará o Brasil um importante polo digital, competitivo e sem dependência de outras infraestruturas estrangeiras. Mas, quem serão as empresas que poderão construir esses “monstros”? Quem serão os donos senão os mesmos que já detém o domínio desta tecnologia? É uma farsa. 

As palavras de Everton Rodrigues, do movimento Software Livre, integrante da Rede pela Soberania Digital e do movimento Economia Solidária, resumem o horror desta situação: “Lamento profundamente ter que admitir que o discurso do nosso presidente Lula sobre soberania digital é lindo, mas, na prática, o governo não tem e não discute com a sociedade, um projeto nacional de soberania digital, não escuta quem está discutindo e está fazendo outra coisa, completamente diferente e totalmente desarticulada dos interesses da sociedade. O mercado internacional de formulação de dados está tomando conta do Brasil. projeto aprovado, as big techs trilionárias, que não precisam de isenções de impostos, que usam nossos dados, a mentira e a desinformação para ganhar trilhões e que já estão ocupando grande parte das cidades brasileiras, terão isenção de tributos por cinco anos na compra de equipamentos para instalar seus data centers no Brasil.”.

Ou seja, mais um projeto para derrubar a nossa soberania.


terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

A Ufsc, a renúncia e as eleições



Este é um ano eleitoral na UFSC. Encerra-se o mandato do reitor e novas eleições acontecerão no dia primeiro de abril. E, como é de praxe, as forças políticas vão se mostrar e se acomodar. No geral tudo acontece num cenário de tranquilidade, mas sempre há eventos mirabolantes. Neste ano, foi a renúncia da vice-reitora aos 44 minutos do segundo tempo. Não podemos dizer que foi uma surpresa, pois o grupo que ela liderava na gestão já tinha pulado fora em outubro do ano passado. Na época o grupo apresentou uma carta fazendo críticas à gestão, como se ela não fizesse parte, mas apontava que gostaria de continuar nas cargas. O que obviamente não foi aceito. Se você estava tão ruim, por que seguir? E ainda sem se comprometer com a gestão?

Encerrado esse capítulo, a UFSC avançou. Agora, a poucos dias da eleição a vice-reitora entrega uma carta de renúncia acusando violência de gênero e ações antidemocráticas. Paradoxalmente, aponta, na mesma carta, uma série de ações que ela e seu grupo relataram e que foram acatadas pela gestão. Onde está a falta de democracia e a violência? Onde o desrespeito? Carta estranha! 

Diz ainda que o reitor tem sido passivo diante da crise orçamentária, como se não tivesse acontecido ao longo deste mandato reuniões, encontros em Brasília e todo o ritual de pressão junto ao governo federal. Ser ativo e buscar novas conexões seria o quê? Buscar dinheiro privado com empresas em parcerias nas quais as pesquisas públicas seriam privadas? Ou quem sabe recursos via Embaixada dos Estados Unidos? Vale lembrar que o governo Lula reduziu significativamente os orçamentos das IFES e mesmo a recomposição do Congresso veio todas para as universidades. Sendo a vice ligada ao partido do presidente cabe perguntar: o que fez ela para iniciar o governo e garantir verbalmente? Pois é!

Para quem vive na UFSC e aqui milita desde 1994 cabe dizer que poucas gestões conseguiram garantir um nível de participação nas instâncias como esta comandada pelo professor Irineu. Essa é uma marca da sua ação, desde que era a direção técnico-administrativa do departamento pessoal. Uma marca indelével. No CSE, onde foi diretor, instituiu um regimento que ampliou e garantiu instâncias de participação como jamais se tinha visto. Sua competência se revela justamente na capacidade de não fazer alarde das dificuldades e enfrentá-las de frente, com seu jeitinho de garoto do interior. Silencioso e diligente, mas nunca choramingas. Humilde e firme. 

Humanidade? No que diz respeito ao Irineu posso atestar que nas últimas três décadas nenhuma gestão foi tão amorosa e cuidadosa com os trabalhadores docentes e técnicos, bem como com os estudantes. O Irineu é um líder que não se impõe pelo grito. É pelo trabalho. Sendo o primeiro a chegar e o último a sair, atento a tudo que diz respeito à UFSC. Não é dado a arroubos, nem discursos eloquentes, mas pode ser um ouvido atento, como poucos. E sendo atento, avançamos para a resolução dos problemas.

Entendeu-se a saída da vice-reitora, mas se a discordância era tão grande, parece que demorou demais. Estaria ela esperando a primeira notificação do convite para uma carga no governo Lula, conforme ofício enviado ao reitor pelo Ministério das Mulheres datado de dia 13 de fevereiro? Definido o cargo no governo em Brasília, decidiu renunciar. Posição confortável, e não muito leal. Tudo bem. Faz parte do jogo político, ainda que no campo da pequena política.

Encerrada essa fase, cabe a nós seguirmos a batalha na UFSC e no dia primeiro de abril votar por mais um mandato encabeçado por Irineu porque ele mostrou, sim, que é possível avançar, mesmo na dificuldade. Não sem tropeços, mas sempre buscando o melhor. 

Esperamos que, desta vez, os aliados sejam aliados e estejam juntos pelo bem da UFSC e não por interesses particularistas.

Vamu que vamu... Irineu, melhor pessoa...

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

Nem tão Santa Catarina



Os tempos são de perplexidade. Temos assistido às maiores barbaridades, rolando a tela do celular, num alcance mecânico e indiferente. O mundo, essa gaiola de loucura, vai ganhando contornos de uma grande partida de futebol. O bem e o mal diuturnamente se digladiando, mas com etiquetas trocadas. O que é bem vira mal, o que é mal vira bem. Tudo “al revés”. Lembro-me, por exemplo, das campanhas bolsonaristas na internet acusando o papa Francisco de pedófilo e comedor de criancinhas, quando na verdade eram seus “ídolos” os que praticavam esses horrores. E assim podemos seguir com centenas de exemplos. 

Santa Catarina, outro exemplo, é pintada como o estado mais seguro do país, o lugar das maravilhas. Mas, por aqui tivemos no ano passado mais de 50 feminicídios e 225 tentativas. É realmente uma epidemia. Todos os dias, os jornais mostram uma mulher sendo assassinada ou escapando por uma triz. Matar virou coisa natural, como se vivêssemos num mundo anômico, sem lei. A polícia, que deveria existir para proteger, tem sido a que mais mata. Cem pessoas foram mortas pela PM e uma em cada quatro sem qualquer antecedente criminal. Nos últimos dias, vimos policiais atacando mulheres de maneira brutal, sem qualquer propósito. E mesmo com todos estes dados e informações, acompanhamos as boca-alugadas da mídia afirmando que aqui é o melhor lugar para viver, por conta da segurança. Segurança para quem?

Não que o respeito à cidade também seja incontável às violências. Dia após dia a administração municipal vai destruindo a vida, a memória, a cultura. E a população - salvo raras opiniões - seguindo a vidinha, apreciando os videozinhos do prefeito no Tik Topk. O cimento tomando conta das praias, o crescimento desordenado e sem estrutura, o esgoto jorrando no mar. E a turma curtindo o verão. A última agora é o anúncio da tal marina da Beira-Mar, mais um empreendimento que nos roubamos a cidade. Obra para os ricos, aplaudida pelos que nada têm. Enquanto isso, os trabalhadores vão sendo empurrados para fora da cidade, com as vidas inviabilizadas pela voracidade do capital. 

Nem vou falar do martírio do cãozinho Orelha protagonizado por jovens "bem-nascidos".

Ontem vi a notícia de que pretendíamos destruir os bonecos do Berbigão. Um baque atrás do outro. Ainda não se sabe quem atou fogo nos bonecos que, por conta da ação rápida da segurança, não queimou na totalidade, apenas dois foram destruídos, mas eu torço para que tenha sido uma fatalidade, um ato tresloucado de alguma pessoa alcoolizada, sei lá. Não sei se suportarei saber que foi um ato intencional, para realmente apagar os gigantes da alegria, bonecos de pessoas que são significados da nossa cultura. 

Assusta-me ver nossa cidade se transformando desta forma tão violenta. Parece que não há parada... Seguiremos rolando a tela do celular? Inertes? 

De minha parte, escrevo, na minha impotência...

sábado, 7 de fevereiro de 2026

Quem poderá nos salvar?


 

Li há pouco uma análise sobre a Venezuela na qual o autor do texto encerrava dizendo que não devíamos esperar a ajuda de China ou Rússia porque, na verdade, a Venezuela deveria salvar-se a si mesma. Refleti sobre isso e me permito discordar. Ninguém, no mundo humano, se salva sozinho. Somos seres sociais, de cooperação. Por mais fortes que sejamos precisamos de parcerias. O que acontece é que as grandes potências geralmente pouco se importam com os destinos das gentes dos países menores. No frigir dos ovos, tudo o que defendem são os seus interesses. Se eles estiverem ameaçados, talvez, possam intervir. Se não, que se salvem sozinhos. 


Vejam aí o caso da Palestina. Estamos assistindo há mais de dois anos um povo inteiro ser destruído. Bombardeios em escolas, hospitais, creches. Os maiores horrores já impostos. E o que fazem as grandes potências? Notas de repúdio. Quem sai às ruas em protestos são as pessoas, na sua impotência. Nada, absolutamente nada tem sido feito pelo povo palestino.  Todos os dias explode um lugar, morrem pessoas, crianças vagam sem rumo pelos escombros. E os grandes seguem disputando poder no tabuleiro geopolítico. Somália, Sudão e tantos outros lugares do mundo, onde as populações estão sendo dizimadas, nada acontece. E os governantes quietos. Esperam! Esperam silentes ver o território arrasado e vazio para depois, aí, ver o que sobrou de riqueza para abocanhar. Nessa hora talvez enfrentem os seus iguais.


Tem sido assim na América Latina. Só nos últimos anos, o que presenciamos? O Haiti foi invadido em nome da paz e da democracia. Está destruído, com seu povo passando pelos piores sofrimentos. Nada é feito. Ajudas humanitárias chegam e são desviadas. "Eles que se salvem”. Parece muito difícil que isso aconteça quando são acossados pelo império estadunidense. Não precisam de caridade, precisam de amigos fortes. 

Nem vou falar de outros momentos históricos porque o texto não teria fim. 


Agora estamos vendo a Venezuela ser destruída. O presidente sequestrado, a população e o governo ameaçados, obrigados a ceder aos desmandos estadunidenses. E por quê? Porque estão sozinhos. E com os navios nucleares do comando sul na sua porta que podem fazer senão ceder, esperando que o tempo lhes aponte caminhos. Esperam que os crimes de Donald Trump o derrubem. Mas, sabemos, isso tem pouca chance de acontecer. Assim como Bolsonaro não era um louco, Trump também não é. Ele é o típico representante da classe dominante estadunidense, imperialista. Se, aparentando loucura, ele bombardear a Venezuela e destruir tudo para pegar o petróleo, ninguém vai pará-lo por isso. Quando tudo tiver arrasado, pode até ser. Serviu. Valeu!


O mesmo se dá com Cuba. Trump está decidido a acabar com a vida na ilha. O bloqueio ao petróleo é a pá de cal na sua tática de "espera paciente”, a qual usam desde que começaram a expandir seu território depois da independência. Vão minando, estrangulando economicamente, fomentando rebeliões até que, pimba, tomam para si. Como se salvarão os cubanos de um ataque armado, ou químico ou tecnológico? Sozinhos? Não. Tampouco com as “ajudas humanitárias”. Precisam de parceiros na luta. Parceiros fortes, graúdos, com poder. Mas, ao que parece, os grandes farão o que sempre fazem. Uma dose de caridade, uma ajudinha com arroz, enquanto o cavaleiro da desgraça vai varrendo o território.


Não há espaço para ingenuidades. No capitalismo, a cooperação e a solidariedade não virão das grandes potências, porque é da sua natureza buscar sempre lucros e mais lucros, riquezas e mais riquezas. Não estão interessados em soberania dos pequenos. O que nos resta, então? O caminho já foi apontado por Bolívar: consolidar a Pátria Grande. Unidas, as pátrias chicas de Nuestra América teriam alguma chance nesse mundo de perversidades do capital. Separadas, são terreno fértil para a invasão, a dominação. Infelizmente o que temos visto no caso da Venezuela e de Cuba é a omissão reverente. Um saco de arroz, tudo bem, mas uma posição mais firme contra os ataques, aí já é pedir demais. Restam as notas de repúdio, inócuas e cínicas.


O fato é que, sim, estamos sozinhos e precisamos salvar-nos a nós mesmos. Difícil tarefa, mas, que outra saída? Quem sabe um dia, algo mude… É o que nos mantém na luta, mesmo que, como Martí e Camilo Torres, possamos vir a cair no primeiro combate. Indefectivelmente temos de seguir em frente, fiéis a nossos sonhos de vida boa e bonita para todos. 


Na verdade, somos assim como o herói mexicano, Chapolin Colorado,  que, mesmo apavorado e sem poder, avança sobre o inimigo munido apenas de seu profundo amor pela vida. Assim nós. P'alante!



terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

O jornalismo em tempos de multimídia

Adelmo Genro Filho, criador da teoria marxista de jornalismo

Outro dia um amigo me disse categoricamente: este jornalismo que tu faz não existe mais, não tem mais espaço para ele no mundo. Fiquei a matutar. E parei por alguns dias a observar a realidade da comunicação no Brasil. 

Já faz algum tempo que a estrutura da comunicação mudou. Os jornais vão desaparecendo, a vida se faz nas redes sociais. Empresas, sindicatos, entidades não querem mais contratar jornalistas, preferem pessoas capacitadas para gerir as redes sociais. O negócio é lacrar no Instagram mesmo que, muitas vezes, a informação fique em segundo plano. E esta lógica tomou um rumo tão hegemônico que agora, em seis de janeiro, o governo sancionou a Lei nº 15.325, chamada de “lei dos multimídias”. A nova lei regulamente uma profissão nova que engloba todos aqueles que trabalham com mídias digitais, incluindo os tais “influenciadores”. 

A nova lei está sendo questionada por radialistas e jornalistas. As entidades sindicais ligadas a esses profissionais alegam que o reconhecimento do “multimídia” pode gerar sobreposição de atribuições e fragilizar a regulamentação do jornalismo e do radialista, uma vez que estas categorias, que têm anos de luta, já conquistaram direitos importantes bem como um piso salarial. O fato concreto é que profissionais multimídia já atuam no mercado há anos e como já disse, vêm ganhando cada vez mais espaço no mercado de trabalho. É bem mais barato contratar um produtor de conteúdo do que um jornalista, por exemplo. Para as empresas é bem melhor. Para os trabalhadores não tanto, pois além de disputar espaço com outras profissões já regulamentadas, acabam sempre sendo arrochados no quesito salário.

Com essa mudança o que se observa é que realmente parece não haver mais espaço para o jornalista. Os que tentam sobreviver no mundo “influencer” acabam virando comentarista de notícias. Na nova geração de jornalistas, sem espaço de trabalho formal, a saída acaba sendo essa: criar um canal no Youtube ou no Instagram e ali fazer comentários. Mas a concorrência com os influenciadores é grande. Ainda há alguns jornalistas que tentam oferecer notícias e reportagens bem feitas. Mas, no geral são profissionais mais velhos e com estrutura para sustentar uma boa apuração dos fatos. A maioria baseia-se apenas na opinião ou na informação colhida de maneira mais superficial. 

É um jeito novo na forma, mas não no conteúdo. Antes das redes também tínhamos muitos jornalistas a escrever notícias superficiais, baseadas em achismos ou sustentadas em uma única fonte – no geral oficial. O jornalismo chamado “manual de geladeira”, sem interpretação ou análise, era maioria nos meios comerciais. Então, olhando bem, não há grandes novidades no campo. 

A novidade, é claro, está na entrada deste novo profissional, o multimídia, na seara da do jornalismo. Sendo assim, que fazer? Agora estamos no tempo do protesto. Jornalistas e radialistas apontam os perigos da lei no aprofundamento da precarização de todos os profissionais. Mas, talvez, seja hora de pensar no ataque. Um sindicato dos trabalhadores da comunicação, quem sabe, que pudesse juntar a todos para garantir mais direitos e vantagens. Algo a se pensar. 

Já no que diz respeito ao jornalismo, insisto em discordar do meu amigo. O jornalismo que eu faço - e muitos outros que conheço – existe sim. Existe e existirá. Porque o jornalismo é cada dia mais necessário. Neste universo de “influencers” que muitas vezes, a exemplo dos antigos grandes jornalões, representam os interesses da classe dominante e do capital, é preciso que emerja o jornalismo, aquele do qual fala Adelmo Genro Filho. O jornalismo que é necessidade social, que aponta a totalidade dos fatos, que leva o leitor à reflexão crítica sobre a realidade, que apresenta a diversidade dos pontos e vista, que interpreta e descreve. Como antes lutávamos contra o jornalismo superficial  e alienador nos grandes meios, agora há que lutar contra a falta de jornalismo nos grandes meios. A batalha é a mesma, as armas mudam um pouquinho. 

Antes como agora, o desafio é unificar os trabalhadores e travar a batalha contra o inimigo real: o sistema capitalista, que tudo engole, que superexplora, que aliena e domestica. Nunca foi fácil fazer esse debate. Nem agora será. Mas, há que seguir resistindo e fazendo jornalismo de qualidade.