sexta-feira, 9 de abril de 2021

Os movimentos brasileiros e Biden



 Li a carta para Joe Biden, o presidente dos Estados Unidos, que quase 200 entidades e movimentos brasileiros assinam. Eles pedem que o governo dos Estados Unidos não feche nenhum acordo com o governo de Jair Bolsonaro e que discuta com a sociedade brasileira as proposta que ele possa ter para ajudar a Amazônia. Um equívoco constrangedor. 

Ora, companheiros. Biden não terá nenhuma proposta para a Amazônia que não seja para defender os interesses dos Estados Unidos, como sempre foi qualquer ação por parte dos EUA na América Latina e no mundo. Esse é um governo que já começou bombardeando a Síria, reforçando os ataques aos palestinos e prendendo crianças latinas na fronteira. Biden não é um interlocutor para os movimentos sociais nem para os indígenas. O máximo que ele pode aceitar dos povos originários brasileiros é que eles se mantenham como um reduto folclórico, que é exatamente o que espera dos povos originários dos Estados Unidos. Nada de reivindicar terra ou direitos.  Nada de se interpor a qualquer ação do capital para roubar energia ou riqueza. Quando Biden fala em proteger a Amazônia ele está dizendo proteger para eles. 

Jamais, nem nos meus mais terríveis pesadelos, pensei em ver companheiros e companheiras que caminham nas lutas mais radicais dentro do nosso país fazendo esse pedido que chega a ser patético.  Que é que restou da esquerda desse país? Que é que restou de nossa dignidade? Foi-se com a pandemia? Foi comida pelo vírus? Não temos sido capazes de lutar por nós mesmos, vamos pedir ajuda ao império? A um estado que já nos imputou as maiores violências e dores? 

Sei que muitas vezes os povos originários do Brasil precisam sair pelo mundo fazendo denúncias e expondo as tragédias que vivem porque, no geral, tampouco encontram nos movimentos nacionais, nos sindicatos e partidos de esquerda, a força que precisam para enfrentar com mais eficácia os ataques que sofrem. Isso é necessário, muitas vezes.  Mas querer estabelecer um “diálogo” com Biden é um tiro no pé. O governo dos Estados Unidos não têm amigos, ele tem interesses, já disse um de seus Secretários de Estado.  

Não há diálogo com os Estados Unidos. É sempre uma imposição que vem de lá. Sempre. Basta perseguir a história. Sentar com o presidente dos Estados Unidos para tentar fugir da sanha de Bolsonaro é trocar seis por meia-dúzia.

Só tem uma forma de vencer Bolsonaro: nossa luta aqui, entre nós. Qualquer ingerência nos cobrará caro. 

Não assino essa carta. Eu a repilo.  E tremo de dor e indignação.

Eu, a guardiã das memórias


 Têm dias que o pai acorda bem virado. Penso que as terminações nervosas no cérebro devem ficar em curto circuito, algo assim, porque ele fica bem perdido do senso, numa agitação bem maior do que o normal. Dizem que é da doença. Para quem cuida é prenúncio de um dia tenso porque a atenção precisa ser redobrada. É quando ele cai, ou se bate nas coisas, ou quebra tudo o que vê pela frente. Também fica teimoso e não aceita comer. É quando entra em cena a guardião das memórias. 

Não costumo ficar puxando pelas lembranças dele porque o pessoal que entende do Alzheimer diz que não é bom fazer isso. Pode dar mais estresse quando ele percebe que não lembra. Então, uso a técnica de citar as memórias que eu conheço, como se nada. Minha sorte é que eu sempre fui guria perguntadeira, desde pequena, querendo saber as histórias da família. Então, eu praticamente sei tudo sobre o que ele e todos viveram nos tempos idos. Cada detalhe.

Hoje foi assim. Justo num dia que começou já com muita tristeza, por conta da morte de amigos. Pois ele acordou e não quis saber do café. Aí eu ataco:

- Seu Tavares, sabe quem trouxe esse café? A Mariquinha. – Ele me olha, surpreso.

- A Mariquinha? Mas, como?

- Ela veio lá de Santa Maria, passou aqui e deixou esse café. Pediu pra tu tomares. 

Ele fica cismando, imagino eu que alguma coisa venha na memória, porque ao fim ele senta e toma alguns goles, com pequenos pedaços de pão. A Mariquinha é uma prima dele, muito amada.

Assim eu vou fazendo, buscando histórias que o façam atentar. Começo a falar das ruas onde ele morou, das pessoas. Mas não peço para ele lembrar, apenas comento de maneira casual. 

De meio-dia estava de novo agitado.

- Olha pai, mandaram esse feijão lá do 64º Batalhão, de Quarai. Vem provar -  Ele abre um sorriso.

- Quaraí? 

- Sim, tu tá ligado onde era o batalhão?

- Mas, claro. 

Aí vou desfiando o rosário das lembranças de lugares e pessoas. Até agora tem dado certo. Falo dos parentes, dos velhos amigos, dos lugares que ele amava. Não sei se ele lembra, mas algo acende. No geral, a palavra mágica é Uruguaiana. Bastou pronunciar e ele se alegra. E mesmo quando ele está naquela agitação para “ir embora”, basta eu dizer: 

- Tu queres ir pra Uruguaiana?

- Mas, claro!

- Ah, tá, então vamos lá. Abro portão, dou uma voltinha na rua e voltamos pra casa. 

- Pronto, já estamos em Uruguaiana. 

E tudo fica bem. Acende um cigarro e vai ver a Inezita Barroso na TV.



quarta-feira, 7 de abril de 2021

Destruição de escola quilombola em Santa Catarina está ligada à luta pela terra



a escola no chão

No feriado da semana santa os moradores do quilombo Invernada dos Negros, localizado na divisa entre os municípios Campos Novos e Abdon Batista, em Santa Catarina, foram surpreendidos com a notícia da derrubada da escola estadual José Faria Neto que era utilizada por eles para atividades de educação de mais de 100 alunos e também de organização da comunidade. Uma máquina chegou e simplesmente colocou no chão o prédio. Todo o material da educação quilombola que estava dentro sumiu. Ninguém sabe, ninguém viu. O governo estadual, responsável pelo patrimônio público, diz que não mandou derrubar, mas declarou em nota que uma nova escola foi construída a 500 metros da que caiu, sugerindo que os quilombolas se conformem e passem a usar o prédio novo. Um inquérito sobre o caso, registrado como dano ao patrimônio público, foi aberto na policia civil de Campos Novos, mas até ontem, terça-feira (07/04), não havia sido iniciada a oitiva das testemunhas.

A questão que se coloca é: se não foi o estado o que mandou derrubar a escola, quem se atreveu a um ato dessa natureza? Colocar no chão uma escola inteira que é patrimônio do povo catarinense? A suspeita dos quilombolas recai sobre a Empresa Imaribo, uma madeireira que planta pinus na região e que, inclusive, tem uma disputa antiga com o quilombo, na medida em que está instalada em pelo menos quatro mil hectares que pertencem à Invernada dos Negros. Ou seja: a batalha é pela terra. A destruição da escola foi mais um passo no sentido de quebrar a espinha dos quilombolas, arrancando deles um espaço conquistado com muita luta junto à Secretaria de Educação para garantir educação à comunidade. 

A história do quilombo

As terras onde hoje vivem os remanescentes de negros escravizados conhecida como Quilombo Invernada dos Negros, ao contrário de muitos outros quilombos que não têm registro de propriedade, foram deixadas como herança, em testamento, no ano de 1877, pelo então proprietário Matheus José de Souza e Oliveira, a oito pessoas ainda escravas e três libertas. Como naqueles dias era muito mais difícil a um negro garantir seus direitos na justiça, as terras não foram regularizadas. Ainda assim, as famílias seguiram vivendo suas vidas no local até que a partir dos anos 1940 começaram a ver seu território invadido. Desde aí tem sido sistemática a luta contra os grileiros, com os negros sempre em desvantagem.

O território original do quilombo é de 7.950 hectares, mas apenas uma parte desse total foi titulada e regularizada em 2014 (cerca de 639 hectares), sendo que pelo menos quatro mil hectares seguem na mão da Empresa Imaribo, que se diz dona das terras e continua plantando pinus no local. Como se sabe, o pinus é uma cultura alienígena que inclusive provoca a destruição do solo para outras culturas. Isso significa que quanto mais os pinus seguirem infestando o campo, menos chance a comunidade terá de recuperar a fertilidade da terra. Já a parte ocupada pelos quilombolas preserva a vegetação nativa e busca garantir uma cultura de existência.

Em 2014 quando finalmente o Incra reconheceu o território quilombola as terras que estavam sob ocupação da Imaribo foram colocadas como sendo do quilombo e passíveis de indenização por parte do estado. Mas, até hoje não se sabe de qualquer avanço nesse sentido e a empresa segue comportando-se como se dona fosse. Tanto que agora pode ter derrubado a escola que fica nessas terras. 

Em 2019, aproveitando que a empresa fez um corte de pinus em um dos espaços da terra, as famílias quilombolas ocuparam o lugar, visando assim forçar o estado a resolver de vez a questão da desapropriação. Na época, a empresa Imaribo entrou na justiça pedindo reintegração de posse, que foi aceita pelo judiciário. Na iminência de serem despejados de suas próprias terras, os quilombolas recorreram ao Ministério Público Federal, que reconheceu serem os quatro mil hectares que estão sob o nome da Imaribo, parte do território quilombola.  Já a justiça catarinense entendia que como a empresa tinha o título imobiliário os quilombolas tinham que sair. O caso acabou indo para a justiça federal que, por fim, impediu o despejo violento. Mais tarde, a justiça também decidiu que os quilombolas poderiam ficar na área, pois um acordo anterior com a empresa Imaribo dava conta de que ela não poderia replantar os espaços onde já houvesse feito o corte da madeira. 

É assim que a os quilombolas da Invernada dos Negros vem, a cada tanto, enfrentando a madeireira visando recuperar os quatro mil hectares que lhes pertence. Eles entendem que a empresa pode ter comprado a terra de boa fé, mas cabe ao governo resolver o conflito indenizando a Imaribo. 

A educação quilombola

Outra batalha travada pelo quilombo diz respeito à educação quilombola, direito que conquistaram em 2003, quando o governo federal aprovou a lei que definia que tanto os indígenas como os quilombolas tinham suas singularidades culturais e poderiam trabalhar a educação dentro desses parâmetros. Foi assim que a partir de 2004, conforme conta Maria de Lourdes Mina, do Movimento Negro Unificado de Santa Catarina, começou um trabalho com os quilombolas e o governo do Estado para garantir esse direito. Foram realizados inúmeros encontros e seminários com as gerências regionais de educação para informar e formar os gestores, mas até o ano de 2010 nada havia sido encaminhado. Foi necessário entrar na justiça contra o Estado para garantir que os quilombos pudessem ter a educação conforme sua cultura e tradição.  E, como a justiça é lenta quando se trata do direito dos empobrecidos, a decisão só saiu em 2019 quando então o estado foi obrigado a implementar a educação quilombola.

Na Invernada dos Negros esse trabalho de educação começou principalmente com os jovens e adultos, pois havia muita gente que não sabia ler nem escrever. Gente com 60, 70 anos que tinha como sonho aprender a ler o mundo. Havia inclusive a promessa do governo estadual de que o quilombo teria sua própria escola física, visto que é um dos mais populosos do estado.  Foi assim que eles começaram a usar a escola estadual José Faria Neto, que agora foi demolida. O estado alega que construiu uma escola nova que dista 500 metros da escola que foi ao chão, mas para os quilombolas isso não significa nada. A escola, se deixava de servir aos demais alunos da região, deveria ter sido destinada ao quilombo, pois lá, além das aulas, acontecem atividades de formação da comunidade, encontros de organização e atividades culturais. É importante registrar que ter garantido o direito a trabalhar com educação quilombola – que leva em conta a oralidade e a ancestralidade - foi considerada uma das maiores conquistas da Invernada dos Negros. 

Edson Camargo, liderança do quilombo, confirma que não houve qualquer conversa nem com a Secretaria de Educação, nem com a Empresa Imaribo, sobre o que ia acontecer com a escola. Ela estava fechada por conta da pandemia, mas a comunidade chegou a realizar uma reunião no começo do ano para se preparar para a volta ao trabalho. Todo o patrimônio foi destruído: o físico e o imaterial, porque a escola, bem mais do que um prédio, significava uma vitória sobre o preconceito e uma garantia para que a história do quilombo seguisse seu caminho dentro do modo de ser quilombola. Derrubar o prédio é atingir também essa conquista. Jogar as crianças e adultos para a escola nova é destruir todo o processo que vinha sendo constituído desde 2004. “O prédio da escola existe há 40 anos como uma escola pública. Como que da noite para o dia vira propriedade da Imaribo? Como que uma máquina destrói o patrimônio público e não acontece nada? Como que o estado não sabia? Até quando vão nos atacar e tentar nos destruir, inclusive os nossos sonhos?”. 

O Movimento Negro Unificado (MNU) realizou nesta terça-feira um encontro virtual juntando representantes do quilombo com apoiadores de vários segmentos, sindicalistas, movimentos sociais, vereadores, deputados estaduais e federais. A intenção é fazer com que destes espaços todos partam ações no sentido de cobrar o governo do estado a explicar o que aconteceu e a garantir um espaço digno para que a Invernada dos Negros possa continuar com seu trabalho dentro da lógica da educação quilombola. 

Tentamos contato com a empresa Imaribo para ouvir sua versão sobre os fatos, mas não conseguimos. Foi pedido o meu número de telefone para um retorno, pois apenas uma pessoa na empresa está autorizada a falar sobre o caso. Mas, até o fechamento da matéria, ninguém ligou. 

A luta segue na Invernada dos Negros. 


terça-feira, 6 de abril de 2021

As eleições subnacionais na Bolívia



Depois de alguns meses de governo de Luis Arce, o MAS foi novamente testado nas urnas, nas eleições municipais e departamentais, chamadas de subnacionais, na Bolívia.  

Nos departamentos, que são nove, o MAS ganhou Oruro, Cochabamba e Potosí. Santa Cruz ficou na mão do Creemos, tendo eleito Luis Camacho, líder do grupo que tomou o palácio depois da renúncia de Evo Morales e principal adversário do MAS,  e Beni com o MTS. Quatro departamentos terão segundo turno e todos têm o MAS na disputa. Esse resultado nos departamentos está sendo visto como um alerta de que a oposição segue firme e de que a situação do partido não é tão confortável. 

No que diz respeito aos municípios o mapa do país seguiu prioritariamente azul com o Movimento ao Socialismo conquistando 240 munícipios - 13 a mais do que em 2015 - dos 336 existentes. Apesar de a oposição de direita ser forte em alguns municípios de grande densidade populacional como Santa Cruz, o MAS consegue ter bastante penetração nas pequenas cidades do interior que ainda são eminentemente rurais. Esses espaços seguem sendo o núcleo duro do partido e chegam a somar mais de 30% da base partidária. 

Observou-se ainda uma grande polarização nas grandes cidades nas quais subsiste um sentimento anti-Evo bem demarcado. Já falamos em Santa Cruz, mas isso se deu também em La Paz, Cochabamba e El Alto, onde o MAS perdeu, embora essa perda tenha sido para novas lideranças que deixaram velhos caudilhos locais para trás, inaugurando uma novidade na política. Ainda assim, o partido do governo foi o único que conseguiu garantir representação nos nove departamentos, inclusive no racista e direitista Santa Cruz, onde ficou com 28 municípios contra 54. 

Nos 96 municípios que não ficaram sob o comando do MAS a vitória ficou dividida entre 43 frentes locais ou regionais. Entre elas, o Movimento Terceiro Sistema ficou com 10, Unidos com oito, Venceremos com sete, Cremos com sete, Democratas com cinco e o Jallalla (de base indígena e popular), que abocanhou quatro municípios, incluindo El Alto. 

As eleições subnacionais na Bolívia têm dois sistemas bem demarcados, um que se articula em nível nacional e outro que se organiza regionalmente, subdividido nos municípios, a partir de interessem bem particulares, daí o grande número de agrupações cidadãs com listas nos mais diversos municípios, bem como organizações indígenas por etnia. Isso significa que uma agrupação pode disputar em apenas um departamento. 

A esquerda e a direita – conceitos que não abarcam o indígena 

É justamente essa diversidade de agrupamentos políticos que possibilitou a ascensão do Jallalla, que elegeu Eva Copa como prefeita de El Alto. Esse agrupamento se articulou esse ano para as eleições no Departamento de La Paz, principalmente na cidade de El Alto, a segunda maior cidade do país, com a capital a seus pés. O município fica a quatro mil metros acima do nível do mar e tem hoje quase um milhão e duzentos mil habitantes, a maioria indígenas da etnia Aymara, migrantes das mais diferentes regiões da Bolívia. 

El Alto foi até 1985 um subúrbio de La Paz, mas em função de seu crescimento ganhou status de município. Sua gente tem destacado papel na vida política do país desde o levantamento de Tupac Katari, que dali chegou a cercar La Paz em 1791, no mesmo rastro da luta de Tupac Amaru. Na história contemporânea a cidade de El Alto também teve protagonismo na queda de Sanchez de Losada e na Guerra do Gás.  

Em dezembro do ano passado, quando as candidaturas para as prefeituras começaram a se articular, a senadora Eva Copa, eleita pelo MAS, que foi inclusive presidente do Senado e que depois da renúncia costurou acordos políticos para garantir as eleições presidenciais, sob a orientação de Evo Morales, esperava ser indicada pelo partido para a municipalidade de El Alto. Mas, não foi a escolhida. Isso gerou uma crise e fez com que ela rompesse com o Movimento ao Socialismo. Pouco tempo depois, Eva surpreendeu a todos anunciando sua candidatura para a prefeitura de El Alto pela Agrupação Jallalla, organização política de corte indígena. Em um ato público, ela falou do compromisso que tinha com a sua cidade natal e aceitou vestir o jaleco vermelho do movimento. O resultado foi a vitória avassaladora de Eva, com quase 70% dos votos que também garantiu 9 dos 11 conselheiros municipais. 

Apesar de algumas lideranças de esquerda, ligadas ao MAS acusarem a agrupação Jallalla de ser um braço do PAN-BOL, um partido de direita, as lideranças que assumiram a campanha esse ano repudiam essa afirmação. Conforme Magali Vianca, advogada e militante que trabalhou na campanha de Eva Copa, a agrupação já existia, mas estava inativa, e seu criador realmente tem acusações de corrupção. “Mas, isso não significa que estamos ligados ao PAN-BOL. Apenas era necessária uma agrupação para que pudéssemos lançar a candidatura de Eva e do Malku (Felipe Quispe, que era o candidato ao departamento de La Paz), porque aqui, para nós, o que pesa mesmo é a liderança política”.  

Magali também não gosta de marcar a realidade boliviana pela dicotomia direita/esquerda que, para ela, são conceitos importados, eurocêntricos. O mundo indígena tem outras referências. Ela explica também que até o começo dos anos 2000 era possível divisar com claridade o que era direita e o que era esquerda, com todo o processo de privatização e tudo mais, mas agora essa linha foi se perdendo. “Tem gente que acha que o governo de Evo Morales era de direita porque ele não cumpriu a agenda indígena, pelo que fez nos territórios, como o caso do TIPNIS”.  

TPNIS é a Terra Indígena Parque Nacional Isiboro-Sécure. Isiboro e Sécure são dois rios dessa área de mais ou menos um milhão de hectares onde habitam quatro nacionalidades:  Tsimanes, Mojeno-Triitários e Yuracarés. O governo de Evo tentou dividir a terra ao meio para abrir uma estrada, provocando muitas manifestações e protestos. 

É por isso que a liderança de Eva Copa, eleita prefeita de El Alto, agora pretende trabalhar numa linha que não reforce essa divisão que hoje existe no país entre os que apoiam o MAS e o movimento anti-MAS. Há mais coisas do que essa dicotomia pretende cristalizar. Daí a ideia de criar um novo partido, capaz de unificar as demandas indígenas, camponesas e populares, para além da proposta social-democrata do MAS. “A esquerda local vê o índio de maneira muito paternalista. Não pretende sua emancipação. Tanto que a cara da pobreza no país ainda é indígena. Por isso sempre surge a ideia de um partido índio. Isso sempre teve na Bolívia: o katarismo, o nacionalismo. E esses movimentos também sempre dialogaram com a esquerda, e com a direita também. Para eles têm que valer as demandas da maioria”.  

Magali critica o que chama de “esquerda pachamamista”, que usa a cultura indígena como um adorno para suas políticas populistas, sem realmente compreender essa cultura e sem um projeto real de escuta das demandas originárias. O próprio vice de Evo Morales, García Linera, que tem um vasto trabalho teórico sobre o povo indígena da Bolívia, é visto como um “pachamamista”, pois nunca avançou de verdade na construção do estado plurinacional que está consolidado na Constituição.  

A agrupação Jallalla, que elegeu Eva Copa, também está no segundo turno para a disputa de governador do departamento de La Paz. O candidato escolhido havia sido o lendário líder aymara Felipe Quispe, de larga trajetória política na luta dos povos originários, mas sua morte acabou colocando na cabeça de chapa o filho, Santos Quispe, que igualmente arrebanhou muitos votos e é um forte adversário do MAS. A campanha tem sido valente, mas é bastante claro que Santos não tem o preparo político que tinha El Malku e isso pode ser decisivo na eleição do dia 11 de abril.  

Essa tensão entre os indígenas (de perfil katarista e nacionalista) e o MAS não é de hoje e cresceu muito quando Evo Morales decidiu passar uma estrada por dentro do Parque Nacional Indígena (TIPNIS), gerando revolta e muitas batalhas de resistência. Não bastasse isso, apesar da origem aymara de Evo, as comunidades muito mais o identificavam com o grupo de cocaleiros/camponeses do que com os grupos de luta indígena. Isso foi sempre um ponto de conflito. Muitas lideranças indígenas passaram a criticar o governo alegando que a proposta Evo/Linera caminhava mais para uma via desenvolvimentista aos moldes da revolução de 1952, do que para um processo de mudança realmente vinculado ao caráter plurinacional com respeito ao modo de viver da população majoritariamente indígena. Garcia Linera também foi criticado por estar fazendo o contrário daquilo que escreveu. 

Felipe Quispe, por exemplo, que chegou a liderar um exército guerrilheiro, o Tupac Katari, nos anos 1990, sempre foi crítico do governo de Evo Morales e era um dos que reivindicavam a necessidade de um partido nascido nas comunidades indígenas e apenas com indígenas. Nesse ponto ele era bem radical, não aceitando que pessoas não-indígenas pudessem ditar a vida das comunidades. Sempre foi tachado de intolerante, radical e até racista, mas ele entendia que qualquer concessão significaria manter o vírus do colonialismo.  

A revolução popular de corte camponês que aconteceu em 1952 já havia mostrado que mesmo um governo de esquerda, como foi o governo revolucionário, não estava preparado para lidar com as demandas indígenas. Na época, a proposta para as comunidades foi uma reforma agrária nos moldes do capitalismo, com a repartição individual da terra, quando a tradição sempre foi de uso coletivo da terra, na tradição do ayllu.  

Um novo partido 

Com a vitória estrondosa de Eva Copa em El Alto, novamente volta a ideia de um partido indígena, de abrangência nacional, capaz de amalgamar as propostas do katarismo e do nacionalismo popular, e isso deve começar a ser costurado. Não se sabe ainda se o grupo de Santos Quispe vai compor essa proposta, ainda que ele – tanto quando seu pai, Felipe  - já tivessem verbalizado essa intenção. O Jallalla os juntou para essa eleição em particular e também pode ser que não seja essa sigla, visto que apresenta problemas por conta de seu fundador.   

O que parece certo, como enfatiza Magali Vianca, é trabalhar contra a polarização MS/anti-MAS e fortalecer as lideranças mais jovens que assomaram desde a guerra da água e a guerra do gás. A população boliviana é de maioria indígena e as demandas das comunidades precisam ser melhor compreendidas e atendidas. “O que nos interessa é gerar projetos políticos que tenham como sujeitos os movimentos indígenas”. 

Magali conta que Eva Copa, por exemplo, não precisa ficar se afirmando como indígena, ou usando adornos indígenas de forma folclórica. Ela é uma aymara e pronto. Maneja de maneira muito segura o discurso popular e não precisa se reivindicar indianista. “Aqui em El Alto somos muito politizados. A senhora que vende refresco na rua discute a política, o estudante, o comerciante e o indígena. Não é algo simbólico, folclórico, é a vida mesma”. Os povos indígenas não querem ser instrumentalizados por nenhum partido que use os adornos indígenas, compartilhe cerimônias, mas siga fazendo política de forma tradicional e não avance nas transformações estruturais.  

“Não trazemos petições culturais. Isso só fortalece o racismo que existe forte no nosso país. Nós queremos atacar as questões econômica e estruturais”, afirma Magali.  

Os indígenas da Bolívia querem discutir suas demandas e avançar na consolidação do estado plurinacional, dando espaço para as singularidades aymara, quechua, guarani e mais 33 outras nacionalidades.

quarta-feira, 31 de março de 2021

Lá vai o Brasil, descendo a ladeira


 

A verdade é como um esqueleto no armário. Mais dia, menos dia, ela aparece, ainda que seja tarde. É assim que, agora, vai se revelando o que todos sabíamos: o juiz Sérgio Moro, que conduziu o processo contra Luiz Inácio Lula da Silva manipulou, mentiu, agiu ilegalmente e tudo mais. O que era nítido naqueles dias agora ressurge com nova roupagem, visto que são os juízes da Suprema Corte que estão apontando os erros. Ainda assim, as emissoras de televisão, que foram pródigas em condenar o líder petista, comportam-se de maneira muito contida na divulgação dos fatos. O que antes era acompanhado de análises rebuscadas e áudios proibidos, agora aparece como mera notícia, sem maiores explicações. E não poderia ser diferente. A mídia comercial está sempre agarrada ao poder.

O fato é que a farsa montada em Curitiba tirou do páreo o ex-presidente Lula e abriu caminho para a vitória de Jair Bolsonaro nas eleições de 2018. A condenação do dirigente petista e a facada falsa foram gasolina no fogo do fascismo que se assanhava. Muito provavelmente tivesse sido Lula o candidato, e vencido, o país não estaria vivendo esse filme de terror, no qual todos os dias morrem mais de três mil pessoas sem que cause qualquer desconforto a não ser na família de quem morreu. Não que Lula fosse a melhor opção, mas certamente enfrentaria a pandemia de outra forma e não estaríamos vivendo esse massacre diário, com mais de 300 mil pessoas perdendo a vida por conta da incompetência e da má-fé.

Chegamos ao segundo ano do mandato de Jair sob um governo eminentemente militar – já há mais de 11 mil milicos nos cargos – e que, a todo o momento, acena com mais e mais endurecimento a tal ponto de quase anunciar um ato-golpe. Os milicos conformam quase 15% dos postos no governo. Dilma teve 2,5% e Temer 4%, só para comparar. Os últimos acontecimentos, com a saída do ministro da Defesa, mais do que uma crise nos quartéis,  mostram que o presidente segue com a rédea firme e não é sem razão que o governo acene com aumento salarial apenas para os militares entre os funcionários públicos. Analistas apontam que a hipermilitarização do governo, incluindo aí as escolas militares que seguem sendo implantadas no país, está carregando o país para um fechamento conservador, ainda que siga com aparência de democracia. Bolsonaro está seguro de que tem os militares sob seu comando, tanto que chama de “meu exército” e não hesitará em endurecer o regime. Até porque segue sem oposição concreta.

A maneira autoritária como está comandando a pandemia, dizendo que não vai fechar nada, que não usa máscara, que não compra vacina e o escambau, sem uma oposição séria, mostra que está bem seguro no cargo e que pode ir apertando a corda. Sabe-se lá até quando.

Enquanto as peças do tabuleiro conservador vão se montando a esquerda partidária fica no silêncio. Não se manifesta, não promove agitação das massas, e o máximo que consegue fazer é mapear candidaturas para 2022. Parece não compreender que pode nem haver eleição e que a batalha está sendo dada agora. Diante do silêncio dos partidos de esquerda, das centrais sindicais e de boa parte dos movimentos sociais, sobra o salve-se quem puder.

Enquanto os quartéis se reorganizam e a presidência se fortalece, os brasileiros seguem morrendo. Até ontem parecia um pesadelo que se chegasse a três mil mortos por dia, agora já vamos caminhando para quatro mil e tudo parece normal. Há quem diga que logo chegaremos a cinco mil mortos por dia e a população segue apática como se tudo fosse designíos de deus e não uma deliberada política de extermínio. O caos na saúde foi uma ação planejada e teve como objetivo justamente fomentar o medo. Um povo com medo fica acuado e quieto. Para o governo importam muito pouco as perdas em vida, afinal, ali, ninguém é coveiro, e tem muita gente no país para manter a máquina do capital funcionando. Logo, está tudo bem.

Bolsonaro segue esticando a corda, sem oposição. O gigante da América do Sul parece um ursinho domesticado e assustadiço. E, enquanto o regime vai endurecendo, nos partidos políticos fala-se nas eleições de 2022 com esperanças. Os últimos acontecimentos envolvendo Lula reacenderam as expectativas sobre uma candidatura do ex-presidente. Ora, nem Lula nem o Brasil são os mesmos de 2018. Essas criaturas vivem como Alice no país das maravilhas. É aterrador.


quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

A televisão, os shows de "realidade" e a eliminação de nós mesmos

Os "irmãos", que se matam por um prêmio

Engana-se quem diz que a televisão perdeu poder. Não é verdade. Ela segue dominando a sala de quase 98% dos brasileiros. Alguns programas podem ter  perdido força, mas o carro-chefe, que é o que o sociólogo Gilberto Felisberto Vasconcellos chama de “novelização da vida” segue introduzindo pílulas eficazes de ideologia, justamente porque é sistemático e segura a audiência. A população brasileira tem alto índice de analfabetismo, seja o de não saber sequer escrever o nome, seja o funcional, que é aquele que mal consegue ler e muito não consegue entender o que dizem as letras. É por isso que por aqui as gentes engravidam pelo ouvido, como dizia Rubem Alves. Daí o sucesso de usinas ideológicas como o rádio, a televisão e agora o uatizapi. As verdades, e as mentiras, chegam pelo ouvido e por vezes nem mesmo as imagens conseguem provar: “Ah, mas eu ouvi na TV”. Pronto. Está feito.  

O filósofo argentino Enrique Dussel mostra que o mundo ocidental greco/cristão é um mundo que tem se amparado numa ideologia do ódio ao outro, distinto. Desde a Grécia, a máxima que move o mundo é: o ser é, o não-ser não é. Ou seja. Aquele que é igual a mim eu valido como bom, o que me parece distinto eu considero como um não-ser, alguém que pode ser eliminado sem culpa. Afinal, se algo não-é, não existe. E o que é nesse mundo é o rico, o branco, o cristão. Pois, é isso o que tem sido sistematicamente ensinado até hoje. Existem seres que não são. Assim formam-se as discriminações. O ódio ao negro, ao pobre, ao mendigo, ao gay, ao que reclama, ao que reivindica. A indústria cultural tem sido um eficaz braço de propagação dessa “verdade”. E a novelização da vida é o canal por onde essa ideia se fortalece. Oferece-se aos espectadores uma história na qual estão bem demarcados esses personagens e a trama vai tratando de consolidar o paradigma. Para isso existem as novelas, o jornalismo, os programas de auditório, enfim, quase tudo. 

A proposta da novelização da vida real embutida nos chamados “reality shows” surgiu como mais uma pílula bastante eficiente para disseminar essa verdade, e mais, tem servido para reforçar a necessidade de eliminar aquilo que nos parece ruim. Digo parece porque, na verdade, dentro dessas propostas, no geral as pessoas acabam assumindo máscaras, seja para se defender, seja para suportar. Então, o que aparece na tela pode não ser a verdade. Tudo é uma grande e bem formulada mentira que, inclusive, conta a ajuda externa, da famosa “edição”. Isso significa que o diretor do programa, que assume a figura de um deus, pode manipular a seu prazer as falas, as situações, as expressões. Nada ali é verdade, exatamente como nas novelas ou nos programas de auditório.  

Mas então, o que tem de verdade nisso tudo? Sob meu ponto de vista, duas coisas. A primeira delas é a domesticação. Daí a terrível humilhação que as pessoas sofrem para disputar um prêmio. Pode-se dizer que elas estão ali por sua vontade. Bom, isso é uma meia verdade. Elas topam participar, mas cabe perguntar por que? Desconhecidos querem seus minutos de fama, porque a sociedade diz que tu é um não-ser se tu não se destacas. Artistas em decadência ou em subida também aceitam porque precisam alavancar as carreiras e o sistema os obriga a essas situações. Pensem nos programa de auditório que levam artistas que são obrigados a comer bicho, comidas estragadas ou a entrarem em câmaras com baratas ou outras coisas abjetas? O fazem por querer? Elas fazem porque é preciso e porque não podem dizer não. E essa é uma lição importante do sistema: para vencer há que se sujeitar. Recursar-se, rebelar-se, pode significar o retorno ao ostracismo. Isso acontece desde a emissora de rádio em Carapicuíba até a indústria de Hollywood. 

A outra lição é a validação da eliminação do outro. Aquele que nos incomoda, que nos desaloja, que destoa da nossa plataforma de certezas, é colocado no patíbulo para que o eliminemos. Assim como um dia o foram as bruxas, os loucos, os doentes, os estrangeiros, os escravizados. A novelização da vida, a criação de inimigos ou a confirmação de preconceitos, faz com que numa noite de verão, milhões de pessoas peguem seus telefones e eliminem alguém. Observem o verbo: eliminar. Retirar do cenário, matar, excluir, sacar fora. Eliminar é tirar de cena para sempre. Está aí embutida outra preciosa lição: quando o sistema te diz para eliminar alguém, tu vais lá e elimina. Simples e singelo. Não importa se toda a trama foi criada, inventada, editada. Tu vais lá, tomada pela paixão do ódio e elimina. Mas, observem que nessa novela ninguém elimina o patrão, o chefe, o empresário. Não, os eliminados são exatamente como nós, as pessoas da vida real, os trabalhadores. Somos nós eliminando a nós mesmos. Os que destoam, os que reclamam, os que ousam ser ousados, os desafiadores, ou mesmo os que são muito mansos nesse mundo de vale-tudo.    

Enrique Dussel, aquele que mostrou como o mundo ocidental cria uma mentira que se sustenta por milênios, de que o ser é e o não-ser não é, desmonta essa farsa ao propor uma nova forma de ver o mundo. Segundo ele, é possível mudar completamente a realidade a partir de outra máxima: o ser é, o não-ser é real. E o que ele quer dizer com essa proposição filosófica. Que mesmo aqueles que são considerados não-seres pelo sistema, pelo mundo, pela maioria das gentes como os negros, os pobres, os inválidos, os doentes, os gays etc... eles existem, são reais, logo, não podem ser simplesmente eliminados. Precisam ser conhecidos, respeitados, ouvidos, vistos. Isso significa que confrontados com seres que nos desalojam as certezas, os medos, os preconceitos, é preciso um tempo para conhecer de verdade. Talvez não sejam maus, talvez não sejam perigosos, talvez não sejam feios, talvez não sejam repugnantes. Ah, mas esse é um mundo de Poliana. Não. Esse é um mundo de pessoas capazes de entender por seus próprios meios. Um mundo no qual os inimigos reais podem aparecer com claridade, os vilões podem ser reconhecidos, os malvados podem ser vistos apesar dos seus carrões ou roupas caras. E aí sim, reconhecidos os verdadeiros inimigos, combatê-los, com todas as armas, eliminando-os se for necessário.  

Assim que não tripudiemos a televisão, essa usina de mentiras, nem subestimemos programas como esse malfadado Big Brother. Porque eles são faculdades da manipulação, mestrado e doutorado das gentes na formação do ódio a si mesmos, à sua classe, trabalhadora, real. Por isso que a luta deve ser pela tomada dos meios de comunicação e não pela sua “democratização”. Porque se o sistema aceitar colocar lá dentro os pretos, os pobres, os gays, ele os tornará vilões. E eles serão eliminados.  

E como tomaremos os meios? Na paz, no diálogo, através da Câmara dos Deputados? Infelizmente não. Isso só acontecerá com a luta mesmo, a revolução. Como será essa revolução cabe a nós definir. Mas só a derrubada total dessas estruturas de poder e mentira poderá mudar as coisas. Não sendo assim, seguiremos enxugando gelo, discutindo sazonalmente os personagens que vão passando por essas usinas, patéticos e tristes personagens construídos para serem odiados, desprezados e eliminados. 

Juntos e em luta, podemos fazer com que ninguém nesse mundo precise submeter-se à humilhação para fazer parte do banquete. Porque no mundo sonhado, o socialista, comunista, ninguém estará sob a mesa, esperando migalhas. Todos estarão sentados, comendo, bebendo, e sendo felizes.    



sexta-feira, 19 de fevereiro de 2021

A pampa



Das imagens que povoam a minha vida uma delas é a da pampa gaúcha. Todos os anos a família saía de São Borja para Uruguaiana nas férias, para visitar os avós. Primeiro era a longa e maravilhosa viagem de trem.  O campo passando na janela, o balanço do vagão, o rec-rec-rec das rodas da Maria Fumaça nos trilhos. Lá fora, os nhandus correndo, tentando seguir o trem, as saracuras nos banhados ao longo dos trilhos, os tarumãs com sua sombra bendita para o gado, as ovelhas e os cavalos livres pelas campinas e, vez em quando, algum paysano tocando uma pequena tropa. E lá longe, o horizonte. O mundo parecia sem fim. 

Depois, o pai comprou um Fusca e fazíamos a viagem de carro. A estrada era de chão e demorava chegar. Por outro lado, as coisas podiam ser vistas com mais vagar. Às vezes o pai parava para a gente ver os nhandus bem de perto e ao longo da estrada brotavam os banhados repletos de vida. Fazíamos uma parada em Itaqui para descansar e comer sanduiche na rodoviária. Era o melhor sanduíche do mundo, por isso a parada era obrigatória. Enchíamos a pança e com mais um monte deles na sacola seguíamos o caminho até chegar à ponte do Ibicuí onde também fazíamos parada apenas para olhar, embevecidos, aquela imensa estrutura de ferro construída pelos ingleses ainda no século 19. Nela só podia passar um carro por vez, e então ficávamos esperando nossa hora, enquanto a mãe contava histórias sobre o rio. Era um momento mágico.

Depois de cruzar a ponte, mais um monte de tempo até chegar à Uruguaiana, sentindo todos aqueles sentimentos que a pampa traz. Aquela era a viagem mais linda. Passávamos o natal com os pais do pai na cidade e depois seguíamos para o Japeju, na casa dos pais da mãe.  Ali o vô plantava arroz e os dias se passavam no cuidado com a terra. Cedinho ele pegava o rumo da plantação onde ia cuidar da bomba d´água e manejar as taipas. Eu ia de apêndice, ouvindo suas piadas de sapo e pulando nas macegas. Voltava para casa com as pernas cheias de chamichungas. Havia noites que ele pegava a lata de minhoca e ia pescar no Ibicuí. Metida, eu ia com ele. Amava demais aquele vô. E lá, na beira do rio, ficávamos pela madrugada, apenas com uma fogueirinha feita numa lata de banha e com o vô contando causos de assombração. Certa noite, enquanto vigiava a linha, vi passar uma perna... era seguramente uma perna humana, via-se o pé, os dedos. O Vô estava do meu lado e também viu. 

- Que é aquilo, vô? 

- Deve ser assombração - disse, achando que não iria me assustar.

Nunca soubemos se era gente ou não, mas que era uma perna, era, e aquele foi um causo que nos seguiu a vida toda nos saraus à luz do lampião de gás, que era o que iluminava a casinha de madeira no meio do nada, alaranjada como a aurora. 

Quando as férias acabavam fazíamos a viagem de volta. Tudo outra vez. A pampa e suas maravilhas, Itaqui e seu sanduíche, os nhandus, as saracuras, os paysanos, o céu azul, o horizonte. Chegávamos à São Borja já sonhando com o fim do ano, para novas aventuras... 

Ah, essa pampa que ainda vive em mim!