terça-feira, 15 de setembro de 2026

Santa Catarina e as eleições

Professor Lauro Mattei/ Necat/Ufsc

Segundo pesquisas divulgadas na mídia, a eleição para governador já está dada: o atual governador lidera e aparece como pouco provável que não seja eleito outra vez. O que de certa forma é surpreendente já que seu governo não atacou os principais dramas vividos pelo estado. Educação, saúde, renda, moradia e segurança são temas que seguem sem melhorias embora a propaganda seja farta. Ao que parece, o que os catarinenses mais admiram no atual governador, Jorginho Mello, é justamente o seu desempenho grosseiro e violento ao estilo Trump e Jair. Basta reparar que o desrespeito e os xingamentos chulos dirigidos a uma senhora indígena mais foram recebidos com admiração do que com repúdio.  

O professor da UFSC, Lauro Mattei, que mantém um observatório de estudos sobre a economia catarinense, aponta que para entender a situação atual do estado há que voltar pelo menos 20 anos, quando o então governador Luiz Henrique, do PMDB, decidiu inovar, descentralizando a gestão do estado, visando melhorar o desenvolvimento regional. “O projeto foi um fracasso. Aumentou a corrupção e não resolveu os dramas”. 

Segundo o professor, o primeiro ponto que não foi atacado foi justamente a questão demográfica. A descentralização, em vez de equilibrar o desenvolvimento, o que fez foi promover a litoralização, que de lá pra cá, só expandiu. Como se sabe, Santa Catarina é um estado que não tem grandes populações, a não ser Florianópolis e Joinville, com 500 e 600 mil habitantes respectivamente. O censo mostra que existem apenas outras 14 cidades com mais de cem mil habitantes e, nelas, estão 49% da população. Vejam que são 295 municípios no total, sendo que 101 deles com até cinco mil habitantes. O resultado deste desequilíbrio é o inchaço do litoral. “Cerca de 31 municípios vem perdendo população nos últimos 10 anos, com alguns deles tendo menos de 2.500 habitantes. O que pode ser destes municípios? Sem estrutura, sem saúde, sem educação e sem possibilidade de gerar emprego?” 

Lauro lembra que o programa “Estrada Boa”, com ampla visibilidade midiática, de fato facilita e melhora o deslocamento das pessoas, mas não modifica em nada a infraestrutura das pequenas cidades, das regiões e microrregiões distantes. Para o novo mandato não há projetos de desenvolvimento regional sério. Segue a verticalização do litoral e o adensamento populacional, tudo ligado ao ramo do cimento. 

No campo da saúde a situação também é dramática. Não há estrutura suficiente nos pequenos e médios municípios. Pelo menos dois terços do estado é constituído de municípios com menos de 50 mil habitantes e toda essa população, quando precisa de tratamento de alta complexidade, tem de viajar para onde se concentra a infraestrutura, que são seis ou oito cidades do Estado, como Criciúma, Florianópolis, Blumenau, Itajaí, Chapecó, Lages e Joinville. As demais cidades seguem a eterna prática da ambulancioterapia. Um paciente de Dionísio Cerqueira precisa viajar 800 quilômetros para cuidar da saúde. Onde o debate sobre isso? 

A educação em Santa Catarina também passa ao largo dos programas, a não ser com abordagens ideológicas. Propostas de colégios cívicos-militares são um exemplo. Não se faz o debate pedagógico, é sempre desde a ideologia do “sem partido”, coisa que não existe. E nesse embalo, vão-se as estruturas e também a qualidade do ensino. O NECAT/UFSC, núcleo de estudos coordenado pelo professor Lauro, fez um levantamento sobre este tipo de escola: foram gastos mais de nove milhões em 10 escolas cívico-militares, revelando um custo operacional muito superior ao das demais escolas, quase 40% mais. E, medindo os resultados do ENEM, estas escolas têm desempenho menor. Quem está divulgando isso? Ninguém. 

A tal da “universidade gratuita” também é analisada por Mattei. Há uma grande transferência de recursos para esse programa, de fontes fundamentais do ensino básico. Ou seja, desmonta-se o ensino funda
mental para financiar empresários da educação. Porque não investir na UDESC, que é pública e de qualidade? Há que observar isso com mais cuidado. O lobby das privadas é o que está por trás dessa proposta.  

Também há outro dado que não aprece nos jornais: o desemprego. Atualmente são quase 300 mil pessoas sem trabalho em Santa Catarina. É um percentual baixo em relação a outros estados, mais ainda assim, o número é grande. Isso sem contar a precarização, que é a do tal “empreendedor”, tanto no campo quanto na cidade, como os trabalhadores do Uber ou da entrega de produtos. Ou seja, Santa Catarina não é o paraíso cantado. Afinal, a maior parte dos empregos gerados não passa da faixa dos dois salários mínimos.  E quem discute salário hoje nas campanhas políticas? 

O professor Lauro Mattei aponta que o Banco Mundial classifica como pobreza monetária extrema quem ganha até um dólar ao dia.  “Nós usamos a metodologia do Banco Mundial para medir a pobreza monetária e verificamos que, em Santa Catarina, ao final de 2023, cerca de 201 mil pessoas tinham renda de até dois dólares ao dia, o que não chega a nove reais por dia. Se você multiplica, você tem uma renda de menos de 300 reais por mês. Essas pessoas, como podem viver com qualidade?” Há que falar desse problema. 

Agora, com os desafios dos desastres climáticos, estes temas que envolvem saúde, renda, moradia, deveriam estar no topo do debate eleitoral. Não estão. O que se vê é um debate ideológico sobre quem defende a família, quem está com deus, quem vai matar os criminosos e quem consegue ser mais valente contra os “esquerdistas”. É um debate raso, vinculado a questões moralistas, sem qualquer amparo na realidade material das gentes.  A realidade é obscurecida pelas bravatas. Enquanto isso, dois terços dos municípios catarinenses seguem no abandono, ainda que a população aplauda o discurso vazio do governador.