terça-feira, 15 de setembro de 2026

Santa Catarina e as eleições

Professor Lauro Mattei/ Necat/Ufsc

Segundo pesquisas divulgadas na mídia, a eleição para governador já está dada: o atual governador lidera e aparece como pouco provável que não seja eleito outra vez. O que de certa forma é surpreendente já que seu governo não atacou os principais dramas vividos pelo estado. Educação, saúde, renda, moradia e segurança são temas que seguem sem melhorias embora a propaganda seja farta. Ao que parece, o que os catarinenses mais admiram no atual governador, Jorginho Mello, é justamente o seu desempenho grosseiro e violento ao estilo Trump e Jair. Basta reparar que o desrespeito e os xingamentos chulos dirigidos a uma senhora indígena mais foram recebidos com admiração do que com repúdio.  

O professor da UFSC, Lauro Mattei, que mantém um observatório de estudos sobre a economia catarinense, aponta que para entender a situação atual do estado há que voltar pelo menos 20 anos, quando o então governador Luiz Henrique, do PMDB, decidiu inovar, descentralizando a gestão do estado, visando melhorar o desenvolvimento regional. “O projeto foi um fracasso. Aumentou a corrupção e não resolveu os dramas”. 

Segundo o professor, o primeiro ponto que não foi atacado foi justamente a questão demográfica. A descentralização, em vez de equilibrar o desenvolvimento, o que fez foi promover a litoralização, que de lá pra cá, só expandiu. Como se sabe, Santa Catarina é um estado que não tem grandes populações, a não ser Florianópolis e Joinville, com 500 e 600 mil habitantes respectivamente. O censo mostra que existem apenas outras 14 cidades com mais de cem mil habitantes e, nelas, estão 49% da população. Vejam que são 295 municípios no total, sendo que 101 deles com até cinco mil habitantes. O resultado deste desequilíbrio é o inchaço do litoral. “Cerca de 31 municípios vem perdendo população nos últimos 10 anos, com alguns deles tendo menos de 2.500 habitantes. O que pode ser destes municípios? Sem estrutura, sem saúde, sem educação e sem possibilidade de gerar emprego?” 

Lauro lembra que o programa “Estrada Boa”, com ampla visibilidade midiática, de fato facilita e melhora o deslocamento das pessoas, mas não modifica em nada a infraestrutura das pequenas cidades, das regiões e microrregiões distantes. Para o novo mandato não há projetos de desenvolvimento regional sério. Segue a verticalização do litoral e o adensamento populacional, tudo ligado ao ramo do cimento. 

No campo da saúde a situação também é dramática. Não há estrutura suficiente nos pequenos e médios municípios. Pelo menos dois terços do estado é constituído de municípios com menos de 50 mil habitantes e toda essa população, quando precisa de tratamento de alta complexidade, tem de viajar para onde se concentra a infraestrutura, que são seis ou oito cidades do Estado, como Criciúma, Florianópolis, Blumenau, Itajaí, Chapecó, Lages e Joinville. As demais cidades seguem a eterna prática da ambulancioterapia. Um paciente de Dionísio Cerqueira precisa viajar 800 quilômetros para cuidar da saúde. Onde o debate sobre isso? 

A educação em Santa Catarina também passa ao largo dos programas, a não ser com abordagens ideológicas. Propostas de colégios cívicos-militares são um exemplo. Não se faz o debate pedagógico, é sempre desde a ideologia do “sem partido”, coisa que não existe. E nesse embalo, vão-se as estruturas e também a qualidade do ensino. O NECAT/UFSC, núcleo de estudos coordenado pelo professor Lauro, fez um levantamento sobre este tipo de escola: foram gastos mais de nove milhões em 10 escolas cívico-militares, revelando um custo operacional muito superior ao das demais escolas, quase 40% mais. E, medindo os resultados do ENEM, estas escolas têm desempenho menor. Quem está divulgando isso? Ninguém. 

A tal da “universidade gratuita” também é analisada por Mattei. Há uma grande transferência de recursos para esse programa, de fontes fundamentais do ensino básico. Ou seja, desmonta-se o ensino funda
mental para financiar empresários da educação. Porque não investir na UDESC, que é pública e de qualidade? Há que observar isso com mais cuidado. O lobby das privadas é o que está por trás dessa proposta.  

Também há outro dado que não aprece nos jornais: o desemprego. Atualmente são quase 300 mil pessoas sem trabalho em Santa Catarina. É um percentual baixo em relação a outros estados, mais ainda assim, o número é grande. Isso sem contar a precarização, que é a do tal “empreendedor”, tanto no campo quanto na cidade, como os trabalhadores do Uber ou da entrega de produtos. Ou seja, Santa Catarina não é o paraíso cantado. Afinal, a maior parte dos empregos gerados não passa da faixa dos dois salários mínimos.  E quem discute salário hoje nas campanhas políticas? 

O professor Lauro Mattei aponta que o Banco Mundial classifica como pobreza monetária extrema quem ganha até um dólar ao dia.  “Nós usamos a metodologia do Banco Mundial para medir a pobreza monetária e verificamos que, em Santa Catarina, ao final de 2023, cerca de 201 mil pessoas tinham renda de até dois dólares ao dia, o que não chega a nove reais por dia. Se você multiplica, você tem uma renda de menos de 300 reais por mês. Essas pessoas, como podem viver com qualidade?” Há que falar desse problema. 

Agora, com os desafios dos desastres climáticos, estes temas que envolvem saúde, renda, moradia, deveriam estar no topo do debate eleitoral. Não estão. O que se vê é um debate ideológico sobre quem defende a família, quem está com deus, quem vai matar os criminosos e quem consegue ser mais valente contra os “esquerdistas”. É um debate raso, vinculado a questões moralistas, sem qualquer amparo na realidade material das gentes.  A realidade é obscurecida pelas bravatas. Enquanto isso, dois terços dos municípios catarinenses seguem no abandono, ainda que a população aplauda o discurso vazio do governador. 


sábado, 12 de setembro de 2026

O jornalismo oficial


Seria de corar de vergonha se já não fosse sabido o papel de capacho da mídia tradicional. Apresentadores de todos os telejornais e canais de notícias deram, sem qualquer pejo ou comentário desabonador, a notícia de que Trump prometeu cinco mil dólares por pessoa nos EUA se o seu partido ganhar as eleições. Muito provavelmente aceitam isso como a "DEMOCRACIA". Imaginem se fosse o Maduro, ou o Lula ou o Petro, ou qualquer outro que não esteja na caixinha "amigo dos EUA"? Seria um escarcéu. Ditadura, crime, inconstitucional e outras cositas más... Mas, como é Trump  é só uma notícia... nada mais.... sem comentários ou opiniões.... A compra de votos sempre foi o artifício dos poderosos para vencer eleições, mas nunca a coisa tinha sido assim , tão exposta. Pois o foi, em rede nacional e pelo próprio presidente. Hoje fui ver os jornais. Igual... Só uma notícia, como se nada... É de lascar...


terça-feira, 18 de agosto de 2026

Versalhes










Estive em Paris no mês de abril e um dos passeios que não pude deixar de fazer foi ir até Versalhes, cidade que fica a 10 quilômetros da capital e que foi sede do poder político da França entre 1682 e 1789.  Era apenas uma aldeia quando Luís XIV decidiu fazer ali a sua residência, longe de todo o burburinho de Paris, construindo um castelo grandioso. O castelo do “rei sol” foi erguido em várias etapas, durante anos, e é um dos maiores do mundo. Tem 2.153 janelas, 67 escadas, 352 chaminés, 700 quartos, 1.250 lareiras e 700 hectares de parque. A proposta de Luís XIV foi manter em Versalhes toda sua corte, totalmente centralizada e sob controle, bem como completamente descolada da realidade popular. Foi dali que seu neto, Luís XVI, fugiu, quando o povo invadiu o palácio disposto a mudar o destino da França e de boa parte do mundo. Era a revolução francesa. 1789.

Vendo o esplendor do palácio a gente entende a fúria do povo que vivia na miséria enquanto a corte dançava e comia brioches dentro de uma fortaleza de luxo. Versalhes impressiona já na chegada. Os portões são forrados de ouro, bem como os lambris das portas e janelas. As salas são espaçosas, mobiliadas com elegância, obras de arte gigantescas nas paredes, muito veludo e seda. O famoso salão dos espelhos é realmente estonteante. Era ali onde a corte dançava e tomava champanhe em celebrações acerca de nada. Nos seus dias de glamour, consumia cerca de 25% dos rendimentos de toda França. 

Versalhes foi saqueado durante a revolução francesa, mas logo depois foi sendo recuperado e chegou a abrigar Napoleão. Hoje é um museus aberto ao público onde se pode ver, bem de perto, todo o luxo que cercava a corte francesa. Nas inúmeras salas que se sucedem, uma após a outra, passando pelo quarto do rei e o da rainha, pode-se ouvir o farfalhar dos vestidos e dos fraques dos fantasmas daqueles que formaram a imensa e dispendiosa corte do Rei Sol, vivendo à custa do sangue e do suor dos trabalhadores. É bonito, mas é triste... 


terça-feira, 11 de agosto de 2026

A cidade para poucos

A propaganda 

Quando nos anos 1980 o bairro do Campeche iniciou uma batalha para garantir um plano diretor, os moradores já tinham bastante consciência de que a expansão do capitalismo e a renda da terra logo estariam dando as cartas na comunidade. Foram décadas de luta, de encontros, reuniões, passeatas, oficinas, com intensa participação popular. O resultado de toda essa mobilização que nos anos 1990 e 2000 acabou envolvendo toda a cidade foi brutal: o Plano Diretor Participativo acabou derrotado na Câmara de Vereadores. Interesses do bonde do cimento se sobrepuseram aos desejos da cidade. Assim, a partir do apagar das luzes de 2014, Florianópolis foi descaradamente colocada à venda. 

Nos últimos anos esse processo se acelerou. No sul da ilha, espaço onde a luta foi intensa, a expansão da construção civil foi vertiginosa. Condomínios gigantes e prédio foram brotando sem que a região fosse dotada de infraestrutura. A disputa é pela paisagem em frente ao mar. Paisagem especulada.

Agora com novas mudanças no Plano que permitem prédios de muitos andares, o drama se aprofunda. E com as grandes obras para os ricos, como a tal marina da beira-mar, os prédios à beira mar devem se multiplicar. As empreiteiras e construtoras fazem propaganda da vista da cidade, aludindo ao lazer no rooftop (palavra em inglês, claro, para telhado). Os biltres poderão tomar champanhe no telhado observando seus barcos ancorados na marina. Visão dos deuses? Florianópolis vai ficando cada dia mais cafona, mais excludente, mais artificial. 


quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Santos Dumont



Terminei de ler o livro de Gondin da Fonseca sobre Santos Dumont, escrito em 1956. Uma preciosidade. O texto é primoroso e vai tecendo a vida daquele que é o pai da aviação, com o contexto e o cenário das épocas. Desde sua infância, passando pelo período em que ficou em Paris, onde, na verdade, conseguiu as condições reais para construir seus balões, dirigíveis e, depois, os aeroplanos. Uma história incrível, obviamente só possível porque a família de Santos Dumont tinha condições de bancar. De qualquer sorte, é fabuloso saber o quanto esse brasileiro era engenhoso. Ele não tinha o conhecimento teórico, universitário, mas tinha o saber prático de quem está em permanente combate com os engenhos mecânicos. Montava os motores peça por peça e foi assim que conseguiu fazer voar o 14 Bis, sem que nenhum outro mecanismo a não ser o motor, fosse necessário. Fez 14 tentativas e foi na 14+um (o 14 Bis) que conseguiu dar a volta na Torre Eiffel, elevando-se apenas com o esforço das hélices. Era o dia 23 de outubro de 1906. E a partir daí, a indústria da aviação cresceria sem parar. O texto de Gondin narra também o triste fim do herói brasileiro, conquistador do ar, que, premido pela solidão e por seus dramas internos, acabou enforcando-se em casa, em 23 de julho de 1931. Santos Dumont acreditava que ele era o responsável pelos acidentes de avião que se registraram na época, bem como pelo uso do avião nas guerras. Nunca se casou, não teve filhos, não viveu nenhum grande amor. Sua vida sempre foi o embate com o ar e, mesmo vencendo, não foi o suficiente. Um personagem verdadeiramente apaixonante. 

sexta-feira, 24 de julho de 2026

Os velhos viraram consumidores



Eu não tinha prestado atenção, mas, de repente, prestei. De uns tempos pra cá tem aumentado muito o número de anúncio de mercadorias no meu celular, todas voltadas para pessoas mais velhas. É curso de ginástica, é produto de beleza, é marca de roupa específica pra velhos, é mensagens sobre saúde, anúncios de suplementos alimentares, tudo o que puderes imaginar. Ah, também são inúmeros os anúncios sobre casas de repouso ou empresas de cuidadores. Percebi, então, o óbvio. Os velhos no Brasil só aumentam e são consumidores em potencial para uma série de produtos que antes só eram vendidos em nichos muito singulares. Agora não. Viraram tendência. É uma loucura. 

Os mais graves me parecem os anúncios sobre saúde. A coisa beira o surreal. Li há poucos dias uma matéria que falava justamente sobre essas postagens de falsos médicos, ou de personagens médicos criados por IA para dar dicas de saúde que, no geral, acabam com alguma mercadoria. Uma armadilha muito grave para pessoas sugestionáveis, ou solitárias, ou sem recursos para visitar um médico, considerando os horrores que são as esperas para uma consulta nos postos de saúde. Que mundo confuso e perverso esse que estamos vivenciando... 

Fico pensando no quanto é necessária uma educação para o uso das redes, mas ao mesmo tempo não creio que possamos lograr algo assim. Pessoas há que já não acreditam em nada do que vem do mundo real, apenas do que pode ser visto nos seus celulares. Isso engloba tudo: saúde, educação, política... Sei lá onde vamos parar... Mas o capital, esse não, esse vai seguir destruindo tudo a sua volta, sem se importar com o que provoca. 

quarta-feira, 15 de julho de 2026

Os sem-terra no jornalismo da UFSC

Depoimento da jornalista Elaine Tavares, que atua junto ao MST desde 1986. Ela foi uma das primeiras estudantes da UFSC a realizar um trabalho de graduação tendo o MST como tema. Seu projeto final no Curso de Jornalismo, em 1990, foi um relato sobre a caminhada das famílias que ocuparam a Fazenda Annoni, em 1985, no Rio Grande do Sul. Um acampamento de 1.500 barracos e seis mil pessoas. “Sem-Terra em Annoni – memórias de uma reportagem” foi o título do trabalho que depois virou livro com o nome: “Porque é preciso romper as cercas – Do MST ao jornalismo de libertação”, publicado em 2008.

Depoimento faz parte do projeto "Pontes de Esperança" , que celebra os 40 anos do MST e a relação com a universidade. Na conversa ela conta sobre como a questão da terra aparece na sua vida desde a infância. 

Napoleão






Passeando por Paris fui dar uma espiada no túmulo de Napoleão. Não para lhe render homenagens, mas para refletir sobre o papel desse homem para nós aqui no Brasil e na América Latina. Foi no Haiti, entre 1801 e 1803, que as tropas do famoso general sofreram sua primeira grande derrota no nosso continente, sendo escorraçados pelos negros vitoriosos. Essa derrota acabou com a ilusão de Napoleão de avançar aqui pelas nossas terras e, ao final, quem acabou ganhando foram os Estados Unidos, que arrebanharam o estado da Louisiana.  É sabido também que foi Napoleão quem empurrou Dom João VI para o Brasil quando invadiu Portugal em 1807. E assim, instalou-se aqui o império, com uma série de implicações. Foi justamente por conta da vinda da corte que o Brasil pode contar com algumas melhorias. Para o bem e para o mal.

Assim que fui lá, ver como os franceses deram a ele sua última morada. O túmulo, imenso, está no Palácio dos Inválidos, criado por Luís XIV, em 1670, para dar abrigo aos inválidos dos seus exércitos. Ali estão os restos do general, trazidos da ilha de Santa Helena, onde morreu no exílio. A obra, de autoria do arquiteto Louis Visconti mais os escultores James Pradier e Pierre-Charles Simart, começou a ser planejada em 1840, mas só foi inaugurada em 1861, por Napoleão III.

O sarcófago de Napoleão fica numa cripta aberta cheia de esculturas impressionantes que representam as vitórias do general francês. Tudo é muito monumental, como foi a sua vida. Diante dele a gente vê que por mais incrível que seja uma vida, e por mais conquistas que alguém possa ter no campo da guerra, vai acabar assim, como qualquer um de nós: feito pó, em um túmulo.  


quarta-feira, 10 de junho de 2026

A comunitária do Campeche resiste


Desde há dois anos, a Rádio Comunitária Campeche vem enfrentando pesados reveses. Primeiro foi a perda do estúdio. O terreno onde estava, com uso em comodato por mais de 20 anos, foi colocado à venda pelo Sinergia. Tivemos de ver o estúdio, feito pelas mãos da comunidade, ir ao chão. Com a derrubada do estúdio começou uma batalha para garantir novo espaço onde fosse possível colocar a antena. Reuniões na prefeitura, na SPU, conversas, um incessante vai-e-vem. Sem a antena, a rádio perdeu várias oportunidades criadas pelo governo federal, com editais para as comunitárias, que ajudariam muito na manutenção. 

Sem o estúdio, para não ficar de todo muda, a rádio conseguiu um espaço no Sindicato dos Trabalhadores da Justiça Federal (Sintrajusc), onde foram montados os equipamentos e desde ali, seguiu transmitindo na internet. Mas, sem um ambiente próprio, no qual pudesse receber a comunidade, a rádio foi ficando um pouco desconectados da vida mesma. Afinal, a força maior sempre foi o contato, a presença, a rádio aberta para o bairro. Ainda assim, a comunitária seguiu com a programação musical e um único programa ao vivo, o "Campo de Peixe”, todos os sábados pela manhã, na tentativa de manter os vínculos com a cidade e com a comunidade.

Ainda no ano passado a rádio foi acionada na Justiça pelo ECAD, exigindo o pagamento mensal de direitos autorais. As comunitárias vêm numa luta de anos para ficar isentas deste pagamento já que não são empresas, não visam lucro, não vendem produtos. Mas, depois de longa batalha, a justiça decidiu que isso não importa. Que os direitos são devidos e devem ser pagos. De nada valeu mostrar ao juiz as nossas finanças, a realidade de uma emissora comunitária que arrecada por mês apenas o suficiente para pagar luz, água  e telefone. Nesse cenário, incluir um valor mensal para o ECAD seria praticamente impossível. Mesmo assim, não teve choro, perdemos a ação. 

O resultado foi a condenação que resulta no pagamento de uma multa bem salgada, mais o valor do pagamento do advogado do ECAD e, se quisermos continuar transmitindo, o pagamento da mensalidade ao ECAD.  Isso significa - incluindo todas as despesas  - um valor de 900 reais que, para uma rádio que vive apenas das contribuições dos sócios, é verdadeiramente uma montanha a ser superada. Além do mais, se levarmos em conta a manutenção dos computadores - sempre com problemas por conta da maresia - que exige frequentes campanhas para conseguirmos pagar, o drama se aprofunda. 

Não bastasse tudo isso, agora estamos esperando que o governo federal aprove a renovação da outorga, num processo que tem se arrastado por mais de um ano. É incrível como empresas como a Globo, a Band e outras desse porte têm suas outorgas liberadas em dias, enquanto as comunitárias precisam amargar um calvário burocrático que não tem fim.

Com todos esses problemas foi chamada uma assembleia geral, no dia 16 de maio, para que os sócios pudessem tomar pé da situação e decidir o destino da rádio. O cenário é difícil. Estamos a dois anos buscando um lugar onde reconstruir a rádio. Uma batalha dura, pois o bairro vive um momento de grande valorização fundiária. A terra aqui é ouro.

A situação da rádio se põe complicada e por conta disso, uma das propostas que veio para a assembleia foi a do fechamento. Uma proposta difícil, se considerarmos os 27 anos de vida e de resistência desta pequena valente, que já enfrentou muitos vendavais. É certo que nunca tantos ao mesmo tempo. Fechar significaria cerrar as portas para uma comunidade que, sim, mudou muito, mas que ainda precisa de um espaço onde possa expressar a voz das lutas necessárias que continuam acontecendo. Então, depois de muito debate, os sócios que acorreram à assembleia decidiram que é preciso fazer um esforço para manter a rádio funcionando. E foram apresentadas propostas de ações para garantir que a comunitária siga irradiando: campanhas de arrecadação para o pagamento da multa, aumento da anuidade, busca de parceria no comércio local. Uma batalha.

Também foi estipulado um prazo até o final deste ano para ver se todos esses nós se desatam. O ponto central é torcer para que o Ministério das Comunicações libere a renovação da outorga. Há uma pequena luz no fim do túnel no que diz respeito a um terreno onde replantar nossa rádio. Tudo está por se definir até 2027. 

Como podem notar pelo relato, o tempo é ruim, mas tem aberturas de sol. O trabalho comunitário é assim, sempre cheio de percalços... Mas, há lutadores, há garra, há trabalho.

Por agora temos um grupo organizado que insiste em manter a rádio no ar. Todos os esforços estão sendo feitos. Já atravessamos alguns desertos. Este pode ser só mais um. Numa conjuntura em que as redes sociais e as big techs estão engolindo nossas almas, manter a comunitária é um compromisso ético. 

Vamos conseguir…

OBS – Quem quiser ajudar com doações, estamos recebendo. Chave PIX: 03434315000135 

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Universidade e MST: Pontes de Esperança




Fotos: Maria Isabel Serrão


Quando em maio de 1985, cerca de 1.500 famílias ocupavam duas fazendas em Abelardo Luz, no oeste do estado, apareceu para o mundo o Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra, uma organização que juntava agricultores na luta pela terra. Uma gente que plantava e produzia, mas sempre em terra alheia, trabalhadora, sujeita aos humores dos grandes proprietários. Aquela ocupação abriu um caminho para os camponeses brasileiros que penavam no campo, sendo obrigados a migrar para as cidades, aprofundando ainda mais a miséria. Depois dela outras ocupações começaram a aparecer por todos os cantos do país, mostrando que aquele movimento veio para ficar. Não era um bando de “criminosos” como diziam alguns. Eram famílias organizadas que queriam trabalhar e produzir. 

E assim, enquanto o MST crescia, garantindo terra e produção, a universidade também começou a perceber que ali estava algo novo de original, que especificamente foi específico. E, nos mais diversos cursos foram aparecendo pessoas - estudantes e professores - querendo observar mais de perto aquele movimento. Na UFSC não foi diferente. Já nos primeiros anos do MST desenvolveu trabalhos de final de curso e dissertações com o objetivo de narrar e compreender a luta dos agricultores. E, com o passar do tempo, a relação que era apenas de estudo passou a ser também de interação. 


Na medida em que o MST avançava na luta era necessário fazer pontes com a cidade, afinal fez, a razão principal do movimento - produzir comida - estava visceralmente ligada à mesa dos trabalhadores. E foi assim que os Sem-Terra começaram a também fazer parte da realidade citadina, realizando marchas, encontros, protestos e atividades políticas na capital. fornecer somaram-se ao MST os sindicatos, os movimentos sociais e as universidades - UFSC e UDESC. Todas essas forças passaram a desenvolver parcerias, seja no apoio político, seja no apoio estrutural. No caso das universidades, em pouco tempo, já havia um bom grupo de professores e alunos desenvolvendo projetos nos mais diversos campos do saber, em conjunto com o MST. Por diversas vezes a universidade foi espaço de grandes encontros como foi o caso dos Encontros Estadual do Sem-Terrinha, que reuniu crianças dos acampamentos e assentamentos para discutir a realidade do processo de reforma agrária. Mas foram muitos outros…


Essa relação de parceria, que se estreitava com pesquisadores, professores e estudantes, foi se aprofundando e abrindo veredas jamais imaginadas. Foram esses encontros cidade/campo, universidade/MST que aconteceram ao nascimento do PRONERA (Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária) no governo de FHC. E, a partir daí, vários outros projetos foram criados, participantes na produção, distribuição e distribuição, que só fizeram avançar o conhecimento bem como a luta pela reforma agrária. Além disso, esse movimento cidade/campo faz nascer o Curso de Educação do Campo, hoje uma referência em todo o país.   


Em 2025 comemoraram-se os 40 anos do MST em Santa Catarina e um grupo de professores que já atua nesta parceria, em conjunto com a Udesc, decidiram criar um projeto chamado “Pontes de Esperança”, buscando recuperar a memória desta caminhada conjunta. Assim, com a ajuda de uma emenda parlamentar conquistada no processo comunitário do deputado petista Pedro Uczai, foi garantida uma palavra para a gravação de depoimentos dos que ao longo dos anos consolidaram esta parceria. Além disso, também foi construída coletivamente - UFSC, UDESC e MST - uma proposta de monumento para marcar esses 40 anos de caminhada conjunta. Esse monumento, que dará destaque justamente para a memória - está sendo construído no lugar onde agonizava a velha Concha Acústica. O espaço será recuperado e tudo será eternizado a memória desta relação campo e cidade, saber acadêmico/saber popular, universidade/MST. É bom registrar que esta é uma construção coletiva que envolveu mais de mil pessoas de todo o Estado, num processo de respeitosa escuta e que traduz a esperança de paz com justiça social, com o campo e a cidade irmanadas por um projeto agropedagógico de sustentação de todas as vidas, e do planeta. O Monumento Pontes de Esperança, em linguagem artística, expressa horizontes de cura e integração de todas as formas de vida.             


Paulo Capela e Sandra Dalmagro coordenam o projeto que em breve deverá inaugurar o monumento, bem como disponibilizar um espaço denominado “Memorial dos Trabalhadores e Trabalhadoras”, onde ficarão eternizadas a história deste longo processo de construção de uma sociedade justa. UFSC, UDESC e MST, juntos, ensinando e aprendendo. Não por acaso, o Memorial ficou na antiga sede dos Volantes, espaço histórico dos trabalhadores da UFSC. O caminho para esta parceria começou a ser trilhado com a concretização da memória dos trabalhadores da UFSC, os primeiros a se organizarem em associação, também gravado em vídeo. Assim, o memorial, além de guardar a história da relação MST/UFSC e UDESC, guardará outros relatos de luta dos trabalhadores da própria UFSC. Um processo que deverá estar em construção constante. 


Em breve todo o material será disponibilizado na internet. 



sábado, 23 de maio de 2026

A Venezuela caiu

Aviões estadunidense mostrando força em Caracas

 Lembro-me da dor profunda que senti quando Chávez morreu. E do tanto que chorei. Era o fim de um sonho de ver nossa América baixa soberana. Nunca mais aquela voz de trovão, aquele riso, aquele olhar de águia. Sabia que Maduro o haveria de suceder, mas não seria igual. E não foi. Ainda assim, creio que Maduro, com erros e acerto, ia cumprindo o legado bolivariano, anti-imperialista. Foi estrangulado com o roubo do ouro e das divisas da Venezuela, também com as sanções comerciais, até que acabou sequestrado numa espetaculosa ação estadunidense que, certamente, contou com um traidor. Trinta combatentes cubanos caíram defendendo Maduro, firmes até o fim, leais companheiros da Pátria Grande. Com eles mais outros 70 venezuelanos.

Já andava triste com o caminhar das coisas na Venezuela desde o sequestro criminoso, que foi tratado pelo mundo inteiro como coisa normal. Está bem. Foi sequestrado. Legal! Nenhum protesto, nada. Só o vazio das vozes. E, dias depois a vice-presidente em exercício, Delcy Rodríguez, já recebia enviados estadunidenses para discutir coisas do país. Venezuela estava tomada. Caíra naquela madrugada quando Maduro foi tirado de casa e levado embora para os Estados Unidos. Só o sangue dos 100 soldados cubanos e venezuelanos que tombaram foi testemunha. Depois veio a abertura da embaixada dos EUA e o subsequente roubo do petróleo.

Hoje de manhã voltei a chorar, copiosamente. Porque até então alimentava algumas ilusões. Delcy estava dando tempo ao tempo, mantendo o povo tranquilo, esperando a boa hora para que a Venezuela voltasse a ser autônoma. Mas, hoje, vendo os Estados Unidos realizarem manobras militares bem no centro de Caracas, treinando com aviões de guerra no que chamaram de “capacidade de resposta rápida” vi que não há mais espaço para ilusão. A Venezuela bolivariana caiu. E assim, sem, qualquer resistência popular. Apenas os 30 cubanos e os 70 venezuelanos que deram a vida pelo sonho de Chávez.  

No dia seguinte ao sequestro não estavam nas ruas as milícias, treinadas durante anos. A população, acalmada pela presidente e pelos demais dirigentes, esperou. E o resultado é esse: políticos e empresários estadunidenses tomando conta das riquezas do país e militares ianques fazendo provocações, como essa dos aviões ensaiando uma “resposta rápida” no centro da capital. Acordei do torpor. A Venezuela é hoje mais um país ocupado pelos criminosos da “américa”. Ali está, de joelhos, como jamais poderia supor. Cedendo a cada pequeno capricho do governo invasor. Sem qualquer resistência. Trump ainda tripudia e diz que com o petróleo que tirou da Venezuela está conseguindo pagar a conta da guerra que armou contra o Irã. E o mundo quietinho, quietinho... 

Este é certamente um momento triste para Nuestra América. Venezuela ocupada, Cuba sitiada, Raul ameaçado de sequestro, Colômbia em risco, sanções e chantagens sobre qualquer um que resolva não pactuar com a sanha imperialista, resistência enfraquecida. A impressão que tenho é de que toda a gente está com a cara no celular vendo alguma dancinha enquanto nosso continente queima, a Palestina queima, o Líbano, o Sudão e tantos outro lugares onde alcança a mão criminosa do império. 

É certo que já vivemos momentos assim, e superamos. Com alto custo, é óbvio. Quanto ainda haveremos de pagar, por termos riquezas e por querermos ser livres? Não sei... O que sei é que chove... Na cidade e em mim. E o presente é tão desgarrador quanto a frase do androide no Blade Runner: "Todos esses momentos se perderão no tempo, como lágrimas na chuva. Hora de morrer." 



quinta-feira, 21 de maio de 2026

Os destinos do HU da UFSC




 A audiência pública realizada hoje na UFSC sobre os destinos da Ebserh, empresa que administra o Hospital Universitário desde há dez anos, e que está com seu contrato vencido, mostrou que esse não é um tema pacificado na comunidade. Há os que defendem a não renovação do contrato, ancorados no descumprimento sistemático do que foi acordado no contrato anterior. Há os que defendem um novo contrato que incorpore garantias de campo de estágio e de formação para os estudantes do campo da Saúde, na lógica da universidade pública e não de uma empresa privada como é hoje. E há os que defendem a renovação do contrato por mais 20 anos, segundo o modelo que a empresa tem para todos os HUs do país. Embutidos aí, nestas três propostas, estão claramente três projetos diferentes de universidade. 

Defender a não renovação do contrato implica em travar uma luta larga e dura com o governo federal. Desde que o governo Lula criou a Ebserh, lá no final do seu segundo mandato, ele simplesmente tirou os HUs da mão das universidades. Seria a partir de uma empresa de direito privado que o hospital passaria a ser gerido. Todo o sentido de ser de um HU começou a ser destruído. E os recursos, que antes eram repassados diretamente à universidade, passaram a ser jogados na Ebserh, que precisaria cumprir determinadas “metas”. Então, o que era um hospital-escola público, que formava médicos numa perspectiva de saúde pública, com os estágios e residências sendo coordenados por professores da universidade, passou para a mão privada. A formação dos médicos começou a ser priorizada na lógica da saúde privada, e a universidade foi perdendo o controle dessa formação. 

É importante lembrar que os HUs foram criados, não para atender à comunidade nos casos gerais, mas para ser um centro de formação capaz de produzir ciência. Ou seja, um espaço de formação no qual estudantes e residentes poderiam avançar na pesquisa de atendimentos complexos. O Hu não deveria atender casos comuns, que poderiam ser tratados em qualquer hospital público. Mas, com parcas opções de hospital público de qualidade na capital, com o tempo, a comunidade foi encontrando no HU o espaço para consultas, tratamento e procedimentos não-complexos. Aí já foi uma grande derrota da universidade. Porque, envolvidos nos atendimentos que deveriam ser prestados pelo Estado, os estudantes perdem espaço para pesquisa e construção de novos conhecimentos. O estado, ao não criar novos hospitais de referência públicos, jogou para o HU essa carga e, hoje, é ali que chegam pacientes de toda Santa Catarina. Porque não há hospital de referência nas regiões, a sobrecarga é no HU.  

A chegada da Ebserh só aprofunda o problema, porque agora o hospital é gerido apenas na lógica do lucro. Qualquer série estadunidense de hospital, destas que são famosas na TV, mostra bem como a banda toca. É o dinheiro que comanda. E o médico formado dentro dos princípios do lucro é diferente do médico formado com os princípios da saúde pública, como bem comum e direito de todos. Só por isso a Ebserh deveria ser rejeitada. Mas, não foi. Quando a comunidade da UFSC teve a chance de decidir, ela disse não. Só que a reitora da época, Roselane Neckel, levou a reunião do Conselho para dentro do quartel da Polícia Militar e os conselheiros votaram pela aprovação da Ebserh. Segundo tombo para o HU.

Desde aí, nestes 10 anos de administração, muitas lutas foram travadas para que houvesse fiscalização do contrato. O Sintufsc batalhou bravamente. Muita coisa acordada não foi cumprida, o que por si só já deveria garantir a quebra do contrato. Ninguém teve coragem. E a Ebserh fincou raízes. 

Agora, a empresa quer empurrar goela abaixo um contrato de mais vinte anos, que mantém as coisas como estão, aprofundando cada dia mais o processo de mercantilização da saúde. Qualquer pessoa que defenda a saúde pública rejeita essa proposta. Não é possível.

Como o governo federal não está nem aí para o problema, não há qualquer ação que aponte para a retomada dos HUs pelas universidades. A Ebserh não é questionada pelo governo brasileiro, apesar de todas as denúncias de não cumprimento do contrato acordado em vários HUs espalhados por todo o país. O governo lava as mãos. Daí o segundo grupo entender que, sem financiamento garantido pelo governo, não é possível abrir mão da Ebserh, por isso a tentativa de construir um contrato menos leonino, como esse apresentado pela comissão que trabalhou por três anos seguidos. A proposta é melhorar algumas coisas, como garantir o controle da universidade na formação de médicos e outros profissionais da saúde, medidas administrativas colegiadas ou cooperadas, enfim, dar algumas rédeas para a universidade manejar. É uma decisão pragmática, mas nada garante que na mesa de negociação a Ebserh aceite a proposta. 

O argumento de que o governo não financiaria é furado. Se há dinheiro para ser colocado na Ebserh, que esse mesmo recurso venha para a universidade. A universidade saberia gerir.  Ou não? Eu aposto que sim. Saberia, e melhor. Mas seria preciso um movimento forte a sustentar essa decisão. Luta, camaradas, luta!

O terceiro grupo que topa o contrato da Ebserh como está é o que lucra com ele ou que compactua com a lógica privada. Há gordos salários em disputa, há muitos negócios envolvendo toda a maquinaria de um hospital. É a privatização em estado puro, mantendo um atendimento público pelo SUS, mas controlando a formação de profissionais na lógica privada. Tudo de boa com o capital. 

Aí está o imbróglio. E é nestes cenários que vamos decidir. Ou melhor, o Conselho Universitário vai decidir, dentro do nada democrático 70/30, no qual trabalhadores TAEs e estudantes, serão minoria. 

Nestes cenários nem falei dos dramas dos trabalhadores que precisam conviver, parte públicos, parte privados. Que muitas vezes se encaram como adversários. Porque uma eventual partida da Ebserh colocaria muitos trabalhadores CLT na rua. São as questões mais intestinas que precisam de outro texto. Procurei dar uma visão de macro para que as pessoas que não são da UFSC possa entender melhor o que está em jogo. 

terça-feira, 7 de abril de 2026

Sobre as mentiras e a UFSC


Irineu, a melhor pessoa


As eleições na UFSC sempre foram um embate entre a direita e a esquerda. Porque aí está embutido um projeto de universidade. A direita usa a universidade para seus propósitos particularistas, nas parcerias privadas, nos projetos ligados a empresas, numa visão privatista. A esquerda pensa a universidade como espaço do conhecimento que deve ser direito de todos, e busca incentivar a pesquisa de temas que tenham a ver com o desenvolvimento regional e nacional, sempre numa visão pública. 


Em cada eleição para a reitoria, essa dicotomia volta a aparecer. Por vezes, os grupos mais à esquerda se dividem, mas a direita nunca. Podem divergir no que for, mas quando chega a eleição, se junta. Historicamente são sempre batalhas duras. A direita, useira e vezeira de empunhar armas sujas, mas, de certa forma, ainda havia algum pejo. As coisas não eram muito claras, se escondiam, se camuflavam. Hoje, não. O pessoal da direita se orgulha do seu jogo sujo.


Nesta eleição em particular estamos vendo o reitor da UFSC, Irineu, candidato à reeleição, ser atacado moralmente por essa turba de gente desonesta. Sujam aquilo que lhe é mais caro: a sua genuína honestidade. Vendo postagens nas redes sociais a impressão que se tem é de que o irineu é um monstrinho com sede de poder e, que, usando de sua condição de reitor, está manipulando as regras da eleição.


Isso é uma mentira. Mas, esse é o jogo dos desonestos. Mentir e mentir e mentir, até que pareça verdade. Até mesmo jornalistas de nome têm reproduzido essas mentiras, sem fazer o que é o mínimo no jornalismo: checar. Também temos visto políticos menores, buscando tirar uma casquinha, reproduzindo comentários totalmente descabidos. Um festival de desonestidade e vigarice.


Nós, na universidade, temos lutado uma vida inteira contra esses grupos que não suportam a democracia, que sonham em tornar a universidade seu pequeno feudo. Pessoas que defendem a constituição de uma aristocracia docente, acreditando que apenas os professores têm capacidade de dirigir. São contra o voto universal e abominam o voto paritário, que equilibra as categorias. Essas pessoas olham para os trabalhadores não-docentes com absoluta indiferença e não aceitam um espaço igualitário, no qual todos têm o mesmo peso e valor. São esses os que estão alardeando que a UFSC está um caos e que o Irineu é um inepto. Um velho e conhecido jogo sujo, que só explicita o preconceito e o autoritarismo. Querem voltar ao tempo da fazendinha, onde mandavam e desmandavam.


O reitor não tem nada a ver com a Comissão Eleitoral. Não é ele quem escolhe. Os integrantes da comissão são escolhidos nas categorias, pelos integrantes de cada categoria. Já faz algum tempo que esse grupo que sonha com a eleição 70/30 (que significa 70% de peso para os professores), tenta melar o processo eleitoral. Não é de hoje. E quando não consegue impor a sua proposta, faz beicinho e sai do jogo, mostrando que não sabe mesmo viver em democracia. Querem de volta a fazendinha.


O reitor da UFSC não tem nada a ver com a Comissão. Ela é autônoma, não responde a ele, não tem ligação alguma com ele. Isso foi uma conquista nossa. Tirar o processo da mão do poder instituído. O erro com relação à lista de Blumenau, foi um erro da comissão. Não há nenhum complô armado para fazer o Irineu ganhar a eleição usando de jogo sujo. Essa não é a prática das entidades que historicamente vem bancando o voto paritário. Basta uma olhadinha na história. Mas, quem se importa com a história, né? O que vale é acreditar em sujeitos abjetos como um ex-deputado direitista que quer fazer palco para sua próxima campanha política. O que vale é cegamente acreditar no discurso que quem pouco se importa com os destinos da universidade. O jogo nós já conhecemos bem. O tristemente famoso gabinete do ódio bolsonarista fez isso desde 2018, defendendo a família ( a sua), a pátria (dos EUA) e a propriedade (a sua). Um jogo que vem criando monstros e destruindo pessoas. Hoje seguimos vendo essa mesma prática, inclusive entre alguns que se dizem de esquerda. É dramático.


O cenário está em plena vista. Há que ter olhos para ver. A direita não discute a universidade. Ela ataca a pessoa do reitor. Porque ele não é da turma dos aristocratas. É o combo bolsonarista. A direita diz que é preciso "mudar” para transformar a UFSC. Transformar no quê? No seu reduto privado? Querem a volta da fazendinha.


Olho vivo, trabalhador. Olho vivo, estudante. A "mudança” proposta pela chapa da direita é nada mais, nada menos do que o retorno da universidade à esfera do privado. E isso é que é o caos. 


A gestão do Irineu/Joana pegou a UFSC em escombros, depois de uma pandemia e de encolhimento orçamentário. Não fez milagres, mas avançou em coisas muito importantes. 


Agora é disso que se trata: seguir avançando ou caminhar para trás. 


Por vezes "mudar” é o pior. O mudar que está na boca dos verde-amarelo é a volta da fazendinha. Tu quésh? 



domingo, 22 de março de 2026

A eleição na UFSC



Dia primeiro de abril é dia de votar para escolher quem vai ser reitor da UFSC. De minha parte, sigo com Irineu e explico o porquê da minha escolha. Demoramos muito para escolher um reitor que, além das questões gerais da universidade, realmente enxergasse os TAEs. Foram muitas gestões mais à direita ou conservadoras. Tivemos esperanças com Roselane, mas sua gestão foi um fracasso. Basta lembrar o triste episódio da aprovação da EBSERH dentro da Polícia Militar. Cancelier tinha bastante entrada ente os TAEs, mas, infelizmente, por conta do horror da Lava Jato, não conseguiu terminar o mandato. Por fim, veio o Irineu e, com ele, tivemos muitos avanços.

A primeira mudança foi no quesito participação. Esta foi uma gestão que primou pelo processo participativo, com os TAEs assumindo espaços importantes nos Conselhos e nas instâncias da UFSC. Acolheu as demandas históricas dos trabalhadores e fez com elas se tornassem reais, como o Controle Social, por exemplo, além de outras pautas como a flexibilização e o tele trabalho. Na grande greve realizada em 2024, abriu as portas da reitoria, para que os TAEs discutissem com todo o grupo dirigente as demandas internas e muito se caminhou em estradas até então estéreis. Aprimorou o combate ao assédio moral e valorizou os trabalhadores com a distinção de TAE Emérito, momento inédito. Num tempo em que a saúde virou mercadoria e os Planos privados comem os salários buscou viabilizar a volta do atendimento gratuito à saúde dos trabalhadores nos moldes do antigo SASC, que deve começar em pouco tempo.


Administrou a UFSC num de seus piores momentos. Saíamos de uma pandemia com a estrutura da universidade bastante prejudicada, dávamos início a um novo tempo marcado pela vida online e pelo esvaziamento do campus, além de enfrentar mais cortes no orçamento. E mesmo que ainda tenhamos problemas estruturais, muito foi feito, com reformas em todos os espaços e o planejamento de obras há muito reivindicadas, como a do Centro de Convivência, que deverá ressurgir. Diante do aperto orçamentário foi à luta, buscando as emendas parlamentares para garantir o funcionamento da UFSC. 


Para os estudantes esta também foi uma administração atenta. Aumentaram os valores das bolsas – reivindicação antiga -, teve política de permanência para mães, a construção da casa para os estudantes indígenas, mudanças significativas no sistema de ingresso, aumento das políticas de ação afirmativa e até café da manhã, que incluiu também os trabalhadores terceirizados. 


Esta foi uma gestão que não se furtou ao debate. Os grandes temas sempre tiveram as reuniões do Conselho Universitário abertas, sem qualquer confronto com estudantes ou TAEs. O caminho da conversa e do respeito foi o mais trilhado. E, através da popularização da Editora, a UFSC levou o livro para a praça e tem aberto veredas nacionais no campo editorial. 


É claro que a UFSC não virou um paraíso. Os problemas existem, novos e velhos, e vão sendo resolvidos da melhor forma. É fato que a brutal terceirização iniciada com o governo FHC segue causando estragos e não é fácil administrar mais de 300 contratos com empresas privadas que, muitas vezes, deixam a universidade na mão. Mas, gerir uma universidade é isso mesmo. Desafios de toda ordem que precisam ser desenrolados e vencidos no dia-a-dia. 


Agora, com Moretti como vice, novas dinâmicas se anunciam. Ele é um colega vibrante e resolutivo, e está disposto a colocar sua energia para que a UFSC possa passar por estes tempos de mudança de temperatura do mundo, garantindo sua importância social e fomentando a capacidade de ser uma referência para o desenvolvimento regional e nacional. 


A Ufsc Unida é nossa melhor opção.