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quarta-feira, 28 de junho de 2023

O estudo e o pai

Estudar e cuidar do pai é sempre uma coisa bem difícil porque se fico concentrada ele cobra atenção. Por outro lado ficamos muito tempo juntos durante a tarde e eu sempre tento encontrar uma forma de dar a atenção que ele exige, mas também aproveitar um pouco. Então decidi estudar como eu fazia antes, quando eu era menina. Naqueles dias a minha vó costumava ficar costurando na sala e eu ia ler os meus livros para ela. Eu lia e explicava para a vó qual era o lance do livro. Eu aprendia ensinando e ela se divertia com minha algaravia. Então, passei a fazer o mesmo. Pego o livro que estou estudando e vou lendo e explicando a parada para o pai. Conseguimos passar um bom tempo assim. Ele me olha com atenção e eu fico falando, colocando ele no centro da conversa. É legal, porque essa técnica de ensinar para aprender sempre funcionou comigo e ele se sente envolvido na situação. É assim que vamos passando as tardes, avançando algumas páginas de leituras fundamentais. Provavelmente ele não entende patavina do que estou falando, mas seu eu pergunto: e aí, sacou? Ele prontamente responde: saquei!



quarta-feira, 24 de maio de 2023

A montanha russa do Alzheimer



A montanha russa não para. Já está outra vez fazendo seu percurso estonteante. Quando a gente começa a se acomodar numa fase, vem outra, e outra, e outra. É um sem fim. O pai, depois de sete anos de doença já não faz mais gracinhas. Quase não se comunica a não ser com os olhos, sempre expressivos. Vez em quando, como se tomado por espírito, ele reaparece, mas é raro. Como quando vai tomar água. Ele faz um grande gole e fica fazendo bochechos. É hora das risadas, porque pode esperar que ele vai lançar um chafariz. Eu fico com o copo e o pano à postos, mas ele sempre encontra um jeito de me enganar. Um descuido e zaz, lá vem o jorro de água, na minha cara ou no chão. 

E digo: Bah, seu Tavares, o senhor sempre faz o mais difícil.

E ele responde: Mas não mesmo. E me olha com os olhos mansos.

Agora de uns dias para cá entrou numa fase que já parece não saber mais como respirar e comer. Seguido ele fica com a boca bem aberta, respirando por ali, sem lembrar que a parada é pelo nariz. E nisso faz uns roncos estranhos, assustadores. De dia ainda fica tudo bem, mas de noite, assume proporções épicas. Na hora de comer também temos dificuldades. Ele fica com a comida girando na boca, sem saber o que fazer com ela. Nem cospe, nem engole. E a gente tem de ficar atento para ele não se engasgar. A refeição vai devagarinho, e sempre bem pastosa, com pequeníssimas porções. É preciso muita paciência. 

Também já está apresentando certa rigidez na hora em que acorda e é sempre bem difícil esse momento, pois a sensação é de que ele vai quebrar o pescoço.  Em alguns dias ele fica bem, mas o cotidiano tem sido mais para ruim. Há que ter um preparo psicológico e espiritual bem forte para a gente não desmoronar. Não é bolinho ver alguém se apagar aos poucos, olhando para a gente no fundo do olho.

A gente segue conversando, colocando música e mantendo ele no convívio da casa, que é bem animada, mas cada dia ele dorme mais tempo. Tenho medo de que chegue a hora em que ele não levante mais. Luto desesperadamente, mas sei que não tenho controle sobre isso. Há que esperar e enfrentar. 

Nas manhãs estão sempre os melhores momentos, quando ainda há certa consciência de si e do ambiente. São lampejos de alegria aos quais nos agarramos. E assim, vamos sacolejando nessa difícil estrada.  Por sorte temos uns aos outros e é essa a força que nos sustenta.



domingo, 15 de janeiro de 2023

Alzheimer, uma fase a mais


O pai foi diagnosticado com Alzheimer há sete anos e está comigo desde aí. Muito provavelmente já passamos por todas as fases: esquecimento, alucinações, violência, impaciência, perda da capacidade de cuidar de sua higiene pessoal, insônia crônica e tudo mais. É tanta coisa que nem sei. Um turbilhão, uma montanha russa para ele e para todos nós que formamos sua família. Um aprendizado constante, pois a doença é assim. Quando entendemos uma das fases, vem outra. E tudo precisa ser recomeçado. Uma batalha. 

Desde dezembro de 2021 o pai foi parando de andar. Mais um baque porque perde completamente a autonomia. Desde aí sua rotina é levantar e dar uns poucos passos do quarto até a cozinha, onde senta e fica até de noite, ou na cadeira de rodas, com a qual saímos para pegar sol, ou no sofá. Mais que isso ele cansa muito.

Mas, o mais surpreendente é que todos os demais sintomas da doença parecem ter desaparecido como mágica. Não há mais o tal do "quero ir para casa", não tenta fugir, não fica brabo quando faz as necessidades na fralda, não fica violento, toma banho cantando, bem contente e pasmem: dorme a noite todinha. Coisa absolutamente impensável nos últimos seis anos, quando acordava dezenas de vezes querendo sair e aprontando miles de aventuras. E, não, não está apático para nada. Ele presta atenção em tudo, entende boa parte do que dizemos, responde perguntas básicas e não raro me chama de filha. Seus olhinhos estão sempre atentos e basta que a gente abra a geladeira para ele abrir a boca, pedindo algo para comer. Ele se alimenta bem e só é meio chato com a água. Essa a gente tem de empurrar, toda hora um golinho.

De manhã, quando entro no quarto para os trâmites da limpeza, ele me recebe sempre com um sorriso sapeca.  Sempre, como se reconhecesse que ali está alguém que o ama. 

- Vamos levantar pra comer ovo? – eu digo

E ele fica a animado, dizendo: 

— Mas, bah! - ou enrolando na sua língua Klingon.

Quando tem visita em casa ele também fica bem alegrinho, sorrindo para as pessoas. Durante o dia escuta suas músicas preferidas e se alegra quando ouve a palavra Uruguaiana.

É fato que os cuidados aumentaram, mas é incrível ver que ele segue antenado, tranquilo e aparentemente bem feliz. Tá magrinho, mas forte. Continua arrenegando com os cachorros e querendo tomar a nossa cerveja. Toma um único remédio para pressão, além, é claro, do abençoado óleo da Santa Maria. 

E assim, vamos caminhando rumos aos 91 aninhos que se cumprirão agora em fevereiro.

terça-feira, 29 de novembro de 2022

Eu, o pai e a ceifadora


Há muito tempo vi um vídeo sobre a morte. Ela se enamora da vida. E é um sofrimento, porque se ela toca na vida, a vida se esvai. Ainda assim, a morte segue a vida

e está ali, todos os dias, do seu lado, extasiada de amor, mas sem poder sentir o calor do abraço, a doçura do beijo. É um filme extraordinariamente triste, mas absurdamente belo, a ensinar que a ceifadora está conosco, o tempo todo, amorosamente esperando, a vida inteira. 

Passei a observar mais a morte quando meu pai foi diagnosticado com a doença de Alzheimer. Porque, desde ali, tenho caminhado com ela. A doença é degenerativa, a pessoa vai passando por várias fases até chegar o fim. Não é como cuidar um bebê, que a gente vai preparando para a vida. É o contrário. Vamos preparando para a morte. E a doença vai lentamente apagando tudo. Primeiro é a memória. Depois, vai afetando o movimento até que a pessoa

não anda mais. E depois vai se agravando. A pessoa esquece como comer e como respirar. É avassalador.

Ontem, mexendo nos textos que já escrevi sobre o pai desde que

ele veio morar comigo em 2016 fui percebendo, assombrada, o quanto ele mudou. Quando chegou era serelepe, caminhador, fugia de casa,  molhava as plantas, juntava os cocozinhos dos

cachorros, cuidava da cachorra doente, caçava carrapatos, fazia bagunça nos guarda-roupas, nos armários da cozinha, quebrava todos os meus bonequinhos, fumava, rasgava meus livros. Agora, desde há alguns meses ele já não anda e não bagunça mais nada. Fica ali, sentadinho, o dia todo, e só se anima quando a gente conversa, daí a necessidade de ter alguém sempre ao seu lado, puxando assunto. A doença é assim, ela dá saltos. Uma hora tá bem e na outra, záz. E por mais forte que sejamos, a gente desaba.

Quando vem a noite e eu me deito ao seu lado, fico vigiando

seu sono. Vez em quando parece que ele se afoga, faz barulhos estranhos e eu sinto a presença da ceifadora, num misto de dor e de amor. A gente se olha e sorrimos uma para a outra. Momentos há em que eu sinto vontade de abraçá-la, para fugir do sofrimento. Mas ela se afasta. São horas noas, para nós duas. 

Quando clareia o dia ali estamos, lado a lado. A azáfama do

dia permite que eu esqueça um pouco sua presença, mas basta apagar a luz, e lá está, com seus olhos amorosos. É um duro aprendizado, mas vamos cumprindo.

Assim, enquanto não vem o toque, vamos saltitando, cantando, dançando, vendo futebol e compartilhando esse imenso jardim.



domingo, 23 de maio de 2021

Estar presente, no presente


 Lidar com  a demência requer entrega. Não é sem razão que muita gente não dá conta. A pessoa velha já requer cuidados, mas se tiver demência complica um pouco mais. Porque cada minuto é um minuto. A pessoa pode estar de boa e num segundo, virar o humor para a ultraviolência. É um caminhar sobre ovos, todo o instante.  

Digo isso porque a minha própria vida se transformou, nessa tarefa do cuidado. E, no começo, foi difícil. Primeiro, porque bagunçava totalmente minha rotina tão cuidadosamente prezada. Sou uma mulher de rotinas cristalizadas. E, com o cuidado do pai, tudo ficou “patas arriba”. Nada pode ser planejado e nenhum dia é igual ao outro. 

Mas, com o andar da carruagem descobri que era melhor seguir o conselho de um  compa cubano que ensina: “sobre la vida hay dos cosas que se pode hacer: enfadarse o desenfadarse”. Decidi pelo desenfadarme. Então percebi que se eu me entregasse para cada instante, com absoluta entrega, não haveria sofrimento. E é assim que tem sido. 

Sou uma mulher das manhãs. Acordo cedo e gosto de escrever nesse período do dia quando as ideias parecem estar mais claras. Então, sigo minha rotina de pular da cama às seis horas, passe o que passe durante a noite. Porque, assim, tenho um tempinho até umas nove, nove e meia, quando o pai desperta. Depois que ele levanta da cama, o tempo é dele. Há todo um ritual a cumprir, sempre repleto de surpresas, porque como já contei aqui, o pai tem pavor a trocar de roupa. E essa é uma novela mexicana protagonizada a cada manhã. 

É preciso todo um ritual, desde a chegada ao quarto. Geralmente entro dançando e fazendo graça, para ele desenferrujar a cara. Quando ele sorri eu corro para o abraço e nesse abraço vou puxando para o box, onde tento dar o banho matinal. Geralmente dá certo, mas têm dias que não. Ele foge da água como o diabo da cruz. Aí é outro roteiro a cumprir, até que ele deixe a fúria de lado. Depois é hora de ir tirando a roupa da noite, geralmente molhada. É um parto com fórceps. Feito isso, vem a cueca, valamideuzi... Aí o bicho pega e há que ter muuuuita paciência. 

Vencido o tirar, vem o botar. Outra novela. Nisso o tempo vai passando. Novamente há que distrair com cantorias, brincadeiras e todo um arsenal teatral que só mesmo o Eduardo Bolina poderia me valer. E me vale. Vestido meu velhinho é hora de sair do quarto para tomar café. Outro momento demorado. Brinca com o pão, brinca com o café, faz traquinagem de todo o grau. Geralmente acaba tomando o café sozinho, mas muitas vezes tenho de interferir. Então, esse é um tempo que é só dele. Se ele toma o café sozinho aproveito o momento para fazer a limpeza inicial do quarto. Tirar os lençóis, as roupas sujas, enrolar a fralda, colocar os paninhos de limpeza de molho no tanque. Uma azáfama.

Tomado o café vem a hora dos remédios, vencida também sempre com muitas performances. Finalmente ele está pronto para o dia. Passaram-se ai quase duas horas. E nada mais importa além desse tumultuado ritual. Hoje consigo cumpri-lo sem sofrimento, totalmente mergulhada nessa função. Fica muito mais fácil vencer cada dia quando a gente está presente no momento presente. Sem pensar no trabalho a fazer, no compromisso que foi para o pau, nas coisas que se poderia ter feito e tal. Nada disso. Só esse sincero e comprometido carpe diem. Ele fica mais feliz, eu fico mais feliz e o dia segue sem grandes dramas.

Quando por fim, volto ao computador para terminar as tarefas, ali está o meu companheirinho, parado em frente a mim, esperando paciente que eu termine mais essa jornada para, de novo, mergulhar no seu mundo. 

Estamos indo bem...

terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Sobre a tristeza e o pai



Desde bem pequena fui apegada à tristeza. Meu pai tinha o hábito de comprar livros dos vendedores ambulantes que batiam na nossa porta e eu vivia escondida dentro deles, tentando entender o mundo. Aluísio Azevedo, José de Alencar, Lima Barreto eram meus companheiros. Com eles eu aprendia sobre a luta dos trabalhadores, sobre o poder do dinheiro, a pobreza. Depois, nas coleções sobre América Latina, fui sabendo da destruição e da barbárie que destruíram nossas famílias ancestrais e mais tarde os Cadernos do Terceiro Mundo abriram meus olhos para a África e o Oriente Médio. Tanta dor nesse planetinha. Era impossível não se tapar de tristeza. Por vezes me parecia difícil até dormir. Como era possível que houvesse tanta miséria e sofrimento?  

Mas, apesar de todo esse caminhar com a tristeza acho que não estava preparada para o que tenho vivido com o pai. Não é coisa fácil observar cotidianamente uma pessoa ir se extinguindo de uma forma tão cruel. Minha mãe morreu cedo, vítima de doença do pulmão. Eu morava longe, não vivi sua dor. Isso coube aos meus irmãos que acompanharam seus últimos respiros agônicos. Agora, com o pai, tocou a mim. E é devastador. Durante o dia as coisas até que ficam sob certo controle e com cuidado e carinho a gente vai contornando as pequenas “loucurinhas”. Mas, quando chega a noite parece que entramos num universo paralelo no qual nenhum gesto ou palavra cabe.  

No geral o sono demora demais a chegar. E quando vem é entrecortado. Ele acorda muitas vezes durante a madrugada. Não creio que consiga entrar em alfa. E isso cobra no dia seguinte porque quando não dorme direito fica muito mais desequilibrado e fora do ar. Praticamente todos os remédios já foram tentados, mas causam sofrimento demais. A coisa fica pior. Ele não dorme e acaba ficando mais agitado ainda. Todos os chás também são tentados. Não surtem efeito. Só os seres da noite sabem o que acontece naquele quartinho nas madrugadas. 

Com muito custo consegui fazer com que use fralde de noite, o que, pensei, iria diminuir a necessidade de levantar. Ledo engano. Mudou de  problema. Agora, quando ele quer fazer xixi, não levanta, mas senta na cama e não há cristo que o faça deitar outra vez. Fica sentado na beirinha do colchão, dormitando sentado, enquanto o corpo cai para um lado e para o outro conforme o peso. Se eu puxo, forçando para que se deite, vira no Jiraya, pateando e soqueando com uma força extraordinária. Fica duro feito um pau. Há noites que fica assim, sentando, bambeando por mais de quatro horas. E no dia seguinte acaba ficando fraco e tonto, creio eu que por falta do sono e do descanso corporal. Já tentei de tudo. Nada funciona. E é profundamente triste vê-lo assim. Não desejo pra ninguém nesse mundo essa imagem de desequilíbrio e sofrimento. É avassaladora. Porque a gente tem de ficar parada diante dela, impotente, sem absolutamente saída alguma. Não há o que fazer nem a quem clamar. Há que segurar as lágrimas, empinar o corpo e ficar ali, sentada ao seu lado, em silêncio, esperando que a exaustão o derrube. Aí há que ser rápida para erguer as pernas e esticar o corpinho para que descanse. Nem sempre consigo. 

Hoje, acossada por esse governo de merda, de morte e de dor, sigo me entristecendo por conta das injustiças do mundo. Contra essas dores eu me insurjo, luto, batalho, saio às ruas, me rebelo. Há uma sensação de que pelo menos algo estamos fazendo. Mas, essa tristeza que sinto ao ver o pai nesse sofrimento noturno não tem igual. Por que diante dela sou incapaz, inútil, sem potência. 

E assim, a tristeza vai obscurecendo tudo, ficando tão densa quanto a própria noite a qual temo. Por isso escrevo. Não espero piedade, compaixão ou comiseração. Não. Apenas compartilho para não sufocar. A demência é uma carga pesada. Ela nos ensina sobre nossa pequenez nesse universo. Mas, não precisava ser assim. Se há alguma sorte nisso é que quando o dia vem e o pai levanta, ele não se lembra do que aconteceu durante, na sua luta insana contra o descansar. E quando o vejo assomar à porta, batendo as mãos e dizendo: vamos! Volto a sorrir... E lá vamos nós para mais uma jornada.  



quarta-feira, 15 de abril de 2020

Os desafios do cuidador


Se existe algo que o processo de demência nos ensina é que não há caminho seguro, tampouco estabilidade. Quando a gente pensa que conseguiu encontrar uma forma de lidar com algum aspecto da doença, lá vem outra novidade a nos interpelar, exigindo novas técnicas, novos modos de lidar, tudo outra vez.  Com o pai tem sido assim, praticamente a cada dois, três dias um novo problema se apresenta e há que encontrar novas soluções. 

A novidade agora é com relação ao remédio. Não há como fazê-lo engolir os comprimidos. Simplesmente ele não consegue. Põe na boca, dá o gole de água, mas trava. Não consegue engolir. Imediatamente cospe fora. Alguns, como a  Vitamina B, consegui encontrar em gotas, mas o da pressão não tem jeito. Então, a saída é amassar e colocar na comida. Mas, o gosto é ruim e ele logo percebe, então muitas vezes cospe fora também. É uma novela mexicana. Por vezes, para garantir que tome um comprimido eu gasto dois ou três deles. Mesmo as gotas, se ele percebe que eu boto algo no suco, já não toma. Então, é todo um processo de esconde-esconde na cozinha.

Na mesma linha do remédio, tem vezes que parece que ele esquece como é que se engole. Põe o café na boca, por exemplo, e fica com as bochechas cheias, olhando para mim, como em desespero para jogar fora. Tenho que correr com o baldinho para ele cuspir tudo. Não há jeito de comer. Não consegui descobrir uma saída para isso. Não sei se é uma evolução da doença ou se é passageiro. Porque passado algum tempo, eu ofereço para ele outra vez o café, o pão ou a comida e ele come. Mas, volta e meia isso acontece. Fico um pouco em pânico, porque não sei o que fazer. Tenho respeitado a vontade dele por enquanto, visto que não é o tempo todo que acontece, mas assusta-me pensar que pode chegar a hora em que ele não vai mais conseguir comer mesmo. 

À noite, o problema é com o xixi. Acorda várias vezes para ir ao banheiro, mas por vezes não consegue chegar. Então, faz nas calças e nem com reza braba deixa eu trocar o calção. Xinga, fica brabo, dá soco, o diabo. Não há santo que faça ele tirar a roupa molhada. Tento secar como posso, mas tem vez que ele segue dormindo molhado. E se tento trocar enquanto dorme, valamideuzi, ele desperta virado no Jiraia. Ainda são poucas vezes que isso acontece, mas e se piorar? Não aceita fraldas nem que vaca tussa. E enquanto tiver sanidade para isso tenho de inventar formas de mantê-lo seco, afinal, aí já vem o inverno. É uma luta. 

De manhã, quando o dia sobe, afastando toda a tensão que a noite traz, ele senta no alpendre, tranquilo como um monge. Eu o observo, silente, porque não sei o que vai acontecer na próxima hora. A vida segue, como uma montanha russa louca. E eu, tentando ser aquela que precisa dar um jeito do passeio ser bom e parar em segurança. Não é fácil!



quarta-feira, 29 de janeiro de 2020

O pai e as convenções



Escrevo sobre a doença do pai - demência, Alzheimer, caduquice, ninguém sabe ao certo - e procuro encontrar janelas de beleza. Sem romantizar. Porque a parada é dura. Dura mesmo. Mas, se o que não tem remédio remediado está, penso que é necessário driblar o desespero. E é o que faço colocando no papel as histórias dessa fase intensa com ele.

O pai não aceita colocar fralda. Ele ainda tem boa dose de autonomia e de vontade. Não quer e pronto. Faz escândalo. Então, há que deixar que ele se vire com suas necessidades. E cada dia é uma surpresa. Fazer cocô é complicado. Quando está bem, vai no vaso e segue os protocolos. Mas, quando não tá muito legal, o salseiro é grande. Eu fico na minha, deixo ele se resolver. Depois vou lá e limpo tudo, serenamente, cercada de óleos perfumados e luvas de borracha. Ainda brinco com ele que “as mãos amarelas” vão lhe pegar. Ele se diverte. Antes tinha um pouco de vergonha. Agora não tem mais. Não está nem aí. Fica mexendo nos “seus papéis” enquanto eu vou limpando.

Pois é, sujaram tudo aqui, eu digo. E ele, surpreso, responde com pergunta: sujaaaaaaaaram? Eu não fui.

Mas, se para o cocô ainda vai ao banheiro, para o xixi ele não escolhe lugar. Deu vontade, baixa as calças e vai mijando. Geralmente escolhe uma planta ou as pedrinhas do jardim e ainda faz mira. Se é de noite. Ele levanta da cama e ali mesmo, em pé, se alivia. Pode bater na parede, no guarda-roupa, foda-se. Ele mija mesmo. E eu, por perto, para a operação limpeza. Ele volta a dormir, bem tranquilo.

Agora, nos últimos dias, deu de levantar pelado. Cinco horas da manhã ele está na porta da cozinha, como veio ao mundo, sorrindo. Eu me comporto com naturalidade e vou, devagarinho, levando ele para o quarto.

- Bora botar uma roupinha, querido, que tá fresquinho.

E ele me segue, tranquilo, aceitando a roupa outra vez. Fosse no começo ele não me deixaria vê-lo nu. Tomar banho foi um calvário. Mas, agora, ele parece não estar nem aí com a nudez. Fico pensando que isso até que é bom. Para quem viveu tanto - vai fazer 88 - ter de passar quase um século seguindo regras morais e sociais, deve ser bem legal poder mandar tudo às favas.

Claro que pra mim o lance é pesado, a limpeza sextuplifica. Mas, sinto que pra ele é libertador. Então, enquanto posso, vou deixando. Nada paga o olharzinho sapeca de quem está muito bem com a vida. Seu Tavares não é fácil.

domingo, 23 de dezembro de 2018

Quem cuida do cuidador?



Desde que comecei a cuidar do meu pai, diagnosticado com Alzheimer, há uns três anos, tenho procurado encontrar caminhos para melhor atender as exigências desse tempo da vida. O velho não é criança, então não dá para aplicar as regras do trato infantil com ele. É preciso dar autonomia, fazer com que se sinta capaz, respeitar suas escolhas e vontades. É um processo intenso e difícil.

As coisas ficam ainda mais duras se a gente tem de trabalhar. São pelo menos umas oito horas longe de casa, sempre em sobressalto. Há pessoas que cuidam, mas a gente não descansa. Se o telefone toca, o coração pula, se chega mensagem no celular, o peito aperta. Fica aberto aí um caminho para a doença porque a sobrecarga é grande. O sono é pouco, a pressão aumenta, e a gente parece viver num eterno torpor por conta da vigília intermitente.

Não bastasse o ataque físico, o psicológico também fica roto. Afinal, aquele que cuida está sozinho. Com o tempo, já não há mais tempo para os amigos e muitos vão sumindo. Não é culpa deles, cada um tem seus próprios dramas para viver. A família ajuda, mas a confiança do velhinho se fixa em uma única pessoa e ela é quem carrega o cuidado inteiro. Não é qualquer um que pode dar banho, não é de qualquer um que aceita a comida, o processo de dependência vai criando um torvelinho no qual o cuidador pode sucumbir.

Nesse diapasão, quem cuida do cuidador? Pois, ele mesmo. Ao longo desse tempo nos cuidados com o pai fortaleci em mim uma certeza que eu já tinha de que somos mesmo seres da solidão.  E é isso aí. Não dá para esperar nada de ninguém. Se a ajuda chega, é bom, mas não podemos querer que as outras pessoas venham em nosso auxílio.  Vejo nos grupos de ajuda a familiares o quanto as pessoas sofrem por estarem sozinhas nessa batalha danada. Mas, toda hora de angústia sempre é vivida na solidão. Não tem jeito. Nem mesmo a pessoa que mais nos ama pode viver nossa dor. Ela é nossa. E temos de nos virar com ela. Sei que isso é duro, mas é assim que é.

Podemos nos enterrar na tristeza ou podemos encontrar pequenos pedaços de beleza espalhados pela estrada do cuidado. Aprendi que o meu pai, apesar de seus devaneios, está muito bem. Faço por ele tudo o que posso, o que não posso e um pouco mais. Dedico a ele meu tempo inteiro e sei que isso o faz feliz. Vejo no seu rosto, sinto na sua risada, no seu passo miúdo, sempre me procurando pela casa. Percebo sua confiança na forma como segura meu braço quando vamos passear ou como fecha os olhos, quietinho, quando lhe faço a barba. E mesmo quando explode em violência querendo “ir para casa” compreendo que é coisa da doença e deixo que a raiva passe para depois estreitá-lo em meus braços, dizendo que estarei sempre ali.

Quanto a mim, me esforço para cuidar da casinha que abriga a minha alma. Faço pequenos momentos de meditação. Tomo uma boa cerveja enquanto cozinho. Busco encontrar momentos para encontrar as amigas e os amigos mais próximos, tomar um café, jogar conversa fora, ver as tendências. Também faço ginástica, muita ginástica, fortalecendo o corpo, os músculos, cada pedaço de mim. Basta o pai dar uma folga e lá estou eu estendendo minha toalhinha no chão, dando duro nos abdominais. Procuro ficar forte porque sei que é só comigo que posso contar. Pode parecer meio arrogante, mas não é. Saber da nossa solidão, aceitar isso, é a única maneira de não sucumbir na auto piedade.

Sei que não é bolinho cuidar de uma pessoa velha, com demência, sem grana para cuidadores, ou massagens, ou fisioterapias. Mas, busco me virar à moda cubana, inventando, inventando e inventando, todos os dias e a cada minuto. É assim que eu mesmo descubro as massagens, os exercícios, os entretenimentos. E vou dando jeito, até quando preciso for.  

Por fim, nossos velhos não são incômodos, muito menos castigos de deus. Eles são uma janela para nossa mais profunda humanidade. E se a dureza do cuidado com eles pesa, ela também estende o tapete vermelho para que assome tudo aquilo que é de mais bonito em nós: o riso sem razão, o carinho, a picardia, a ternura, o amor, a compaixão, a vontade de acertar, o cuidado conosco mesmo.

Assim, vamos ficando melhores pessoas. O outro sempre é o paraíso quando ele já existe dentro de nós.