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terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

O jornalismo em tempos de multimídia

Adelmo Genro Filho, criador da teoria marxista de jornalismo

Outro dia um amigo me disse categoricamente: este jornalismo que tu faz não existe mais, não tem mais espaço para ele no mundo. Fiquei a matutar. E parei por alguns dias a observar a realidade da comunicação no Brasil. 

Já faz algum tempo que a estrutura da comunicação mudou. Os jornais vão desaparecendo, a vida se faz nas redes sociais. Empresas, sindicatos, entidades não querem mais contratar jornalistas, preferem pessoas capacitadas para gerir as redes sociais. O negócio é lacrar no Instagram mesmo que, muitas vezes, a informação fique em segundo plano. E esta lógica tomou um rumo tão hegemônico que agora, em seis de janeiro, o governo sancionou a Lei nº 15.325, chamada de “lei dos multimídias”. A nova lei regulamente uma profissão nova que engloba todos aqueles que trabalham com mídias digitais, incluindo os tais “influenciadores”. 

A nova lei está sendo questionada por radialistas e jornalistas. As entidades sindicais ligadas a esses profissionais alegam que o reconhecimento do “multimídia” pode gerar sobreposição de atribuições e fragilizar a regulamentação do jornalismo e do radialista, uma vez que estas categorias, que têm anos de luta, já conquistaram direitos importantes bem como um piso salarial. O fato concreto é que profissionais multimídia já atuam no mercado há anos e como já disse, vêm ganhando cada vez mais espaço no mercado de trabalho. É bem mais barato contratar um produtor de conteúdo do que um jornalista, por exemplo. Para as empresas é bem melhor. Para os trabalhadores não tanto, pois além de disputar espaço com outras profissões já regulamentadas, acabam sempre sendo arrochados no quesito salário.

Com essa mudança o que se observa é que realmente parece não haver mais espaço para o jornalista. Os que tentam sobreviver no mundo “influencer” acabam virando comentarista de notícias. Na nova geração de jornalistas, sem espaço de trabalho formal, a saída acaba sendo essa: criar um canal no Youtube ou no Instagram e ali fazer comentários. Mas a concorrência com os influenciadores é grande. Ainda há alguns jornalistas que tentam oferecer notícias e reportagens bem feitas. Mas, no geral são profissionais mais velhos e com estrutura para sustentar uma boa apuração dos fatos. A maioria baseia-se apenas na opinião ou na informação colhida de maneira mais superficial. 

É um jeito novo na forma, mas não no conteúdo. Antes das redes também tínhamos muitos jornalistas a escrever notícias superficiais, baseadas em achismos ou sustentadas em uma única fonte – no geral oficial. O jornalismo chamado “manual de geladeira”, sem interpretação ou análise, era maioria nos meios comerciais. Então, olhando bem, não há grandes novidades no campo. 

A novidade, é claro, está na entrada deste novo profissional, o multimídia, na seara da do jornalismo. Sendo assim, que fazer? Agora estamos no tempo do protesto. Jornalistas e radialistas apontam os perigos da lei no aprofundamento da precarização de todos os profissionais. Mas, talvez, seja hora de pensar no ataque. Um sindicato dos trabalhadores da comunicação, quem sabe, que pudesse juntar a todos para garantir mais direitos e vantagens. Algo a se pensar. 

Já no que diz respeito ao jornalismo, insisto em discordar do meu amigo. O jornalismo que eu faço - e muitos outros que conheço – existe sim. Existe e existirá. Porque o jornalismo é cada dia mais necessário. Neste universo de “influencers” que muitas vezes, a exemplo dos antigos grandes jornalões, representam os interesses da classe dominante e do capital, é preciso que emerja o jornalismo, aquele do qual fala Adelmo Genro Filho. O jornalismo que é necessidade social, que aponta a totalidade dos fatos, que leva o leitor à reflexão crítica sobre a realidade, que apresenta a diversidade dos pontos e vista, que interpreta e descreve. Como antes lutávamos contra o jornalismo superficial  e alienador nos grandes meios, agora há que lutar contra a falta de jornalismo nos grandes meios. A batalha é a mesma, as armas mudam um pouquinho. 

Antes como agora, o desafio é unificar os trabalhadores e travar a batalha contra o inimigo real: o sistema capitalista, que tudo engole, que superexplora, que aliena e domestica. Nunca foi fácil fazer esse debate. Nem agora será. Mas, há que seguir resistindo e fazendo jornalismo de qualidade. 



sexta-feira, 22 de agosto de 2025

A percepção da notícia em Florianópolis




Por solicitação do vereador Leonel Camasão (Psol) aconteceu ontem (21.08) uma Audiência Pública, na Comissão de Educação da Câmara, para discutir os resultados de uma pesquisa realizada pelo Laboratório de práticas para o jornalismo local, vinculado às Pós Graduação dos cursos de Jornalismo e Sociologia Política da UFSC. A pesquisa, apresentada pela professora Andressa Dancosky, traz dados importantes sobre como a população de Florianópolis se conecta com o jornalismo local, analisando hábitos, interesses, sustentabilidade, engajamento e participação. 

A proposta de uma discussão destes dados surgiu principalmente pelo fato de a pesquisa ter apontado que o sítio mais procurado pela população de Florianópolis para se informar sobre a realidade local ter sido o “Floripa Milgraus”, uma página que se autodenomina de “humor manezinho”.  Este dado mostra de maneira cristalina o quanto a cidade está abandonada pelos meios de comunicação, que não priorizam a notícia local. Isso acaba provocando a migração do público para as redes sociais, nas quais vão encontrando informações que aparentemente lhes dizem respeito. O Floripa Milgraus, apesar de ser uma página de humor apresenta cotidianamente informações sobre acidentes, casos policiais e situações citadinas, aparecendo assim como uma fonte de informação do local. 

A audiência pública tinha como objetivo colocar os vereadores da Comissão de Educação a par dessas informações para então propor alternativas no sentido de garantir uma informação qualificada para a cidade. Mas, como sempre acontece quando um tema é proposto pela oposição, nenhum vereador da comissão apareceu. Ainda assim, o vereador Camasão assumiu a coordenação da audiência e o trabalho seguiu. Na plenária estavam muitos jornalistas e representantes de projetos de comunicação comunitária, independente e popular, além da representação da UFECO, ACI e Sindicato dos Jornalistas.  

A pesquisa apresentada pela professora Andressa ouviu 604 pessoas entre maio e junho de 2024. Destas 69,7% se identificaram como brancas, 27,4% como negras, 1,2% como indígenas e 0,5% como amarelas. 33,3% ganham entre três e cinco salários mínimos, 21,4% entre um e dois salários e 17,1% com renda superior a dez salários. 

Para os entrevistados o principal motivo que os leva à busca de notícias é o interesse pessoal e em segundo plano o interesse social. Sobre os temas que mais interessam, as respostas mostraram claramente que, pelo menos no que diz respeito à mídia tradicional, há um abismo. Os temas mais buscados – e não encontrados – foram educação, cidadania, prestação de serviços, meio ambiente, saúde e alimentação. O tema “celebridades e entretenimento” foi o último colocado.  

A pesquisa também aponta que a principal fonte de informação são as redes sociais (55,3%), mas a televisão ainda tem certo poder (25,3). E 79,5% dos entrevistados consideram jornais e jornalistas as fontes mais confiáveis. Pagar para ler notícias foi considerado o principal motivo para desistir (73,5%). Vai aí uma boa dica para os sítios de notícias que escondem notícias só para assinantes. 

Os dados revelados não apresentam muita novidade, pelo menos para quem está atuando no campo do jornalismo comunitário e popular. Estas sempre foram percepções da empiria, por isso é bom ver que uma pesquisa realizada com parâmetros científicos reforça o que já se sabia. A experiência mostra que as pessoas querem saber das coisas locais, elas tem sede e fome de notícias que digam respeito aos seus problemas mais prosaicos, por isso talvez que páginas como a do Floripa Milgraus  seja bem vista, porque ali assomam questões como trânsito, segurança e esporte. 

Outra questão importante para problematizar é a de que esse jornalismo que a população quer, plasmado na pesquisa, já existe. Ele é praticado em Florianópolis em algumas experiências como jornais de bairro, a Rádio Campeche, o Desacato, o Catarinas, a Pobres e Nojentas, ente outros. Ocorre que fazer reportagens e manter um sítio atualizado de notícias não é coisa barata. Aí entra o financiamento. Muitos destes veículos que já existem patinam na falta de recursos, e acabam produzindo menos do que poderiam. Por isso a mídia popular e independente tem feito movimentos no sentido de também garantir para si os recursos públicos que migram em milhões para a mídia comercial. O governo do estado, por exemplo, dispendeu esse ano, até agora, 20 milhões de reais para apenas dois grupos de comunicação que têm rádio, televisão, portal e jornal impresso: NSC, afiliada da Globo, e ND, afiliada da Record. A Assembleia Legislativa transferiu para Acaert (entidade dos patrões do rádio) cerca de 15 milhões para reproduzir seus programas. A pergunta é: por que então não há repasse para as outras mídias? Essa é uma batalha antiga que não avança em Santa Catarina.

O mais impactante da pesquisa é que ela mostra de maneira luminosa que o jornalismo praticado hoje na mídia comercial não interessa e não serve à maioria da população. Isso muito provavelmente explique o porquê da página do prefeito da cidade ser tão vista e seguida. Ainda que recheada de enganos e manipulações, a página fala da vida cotidiana, do parquinho, da praia, das coisas da vida real, da cidade real, das pessoas reais. Na verdade, a comunicação do Topázio segue muito mais as dicas da realidade do que até mesmo alguns espaços ditos de esquerda, que acabam distribuindo informações muito particularizadas e sem interesse imediato para o trabalhador.

É fato que a disputa no campo comunicacional sempre existiu e sempre foi muito desigual para os veículos de cunho popular, independente ou comunitário. E, agora, com o advento das redes sociais, as pessoas acabam buscando aquilo que tem mais a ver com seus interesses pessoais, como aponta a pesquisa. Isso também explica o sucesso da página do deputado Sérgio Guimarães – que foi repórter e se apresenta assim na sua página do Instagram – porque ali se encontra muito mais notícias da cidade, ainda que sob o seu viés político singular, do que em outros espaços da mídia popular. 

A pesquisa deu boas pistas para o pessoal da política, dos movimentos, dos sindicatos, dos meios populares. Ocorre que no caso dos veículos populares o quesito financiamento ainda é um nó cego. Uma mídia dos trabalhadores deveria ser financiada pelos próprios trabalhadores, mas, muitas vezes há que se recorrer a financiamento que podem, inclusive, ir contra o propósito de soberania popular, como são os projetos financiados por fundações estadunidenses ou outras instituições forâneas, que logicamente têm seus interesses, que não são os nossos. 

Por fim, a plenária apontou alguns encaminhamentos que foram entregues ao vereador Camasão que, ainda que ele não seja da comissão de educação, deverá encaminhar o relatório final. Para os jornalistas que lá estiveram fica a esperança de algo se avance, ainda que essa novela do financiamento seja bem antiga e muitos passos já tenham sido dados, sem que os projetos tenham realmente saído do lugar. 

O que fica de bom é a certeza de que o jornalismo ainda é algo que realmente interessa à população e que o jornalista ainda goza de credibilidade. O que reforça ainda mais a responsabilidade do nosso fazer. Reportar o local e mirar o universal é a velha lição de Adelmo Genro Filho (teórico do jornalismo). Fazer isso é o nosso feijão com arroz, o que não impede que seja um feijão com arroz cheio de bossa.



terça-feira, 19 de agosto de 2025

O jornalismo nos tempos do "Eu sozinho"



Foto: criação Kristina Alexanderson - CC-by-sa

Lembro quando até bem pouco tempo fazíamos protesto nas ruas contra o monopólio de comunicação da Rede Globo. A empresa abocanhava Tvs, rádios, revistas. E era muito poder. Fazíamos denúncias sobre essa acumulação de veículos estar burlando a Constituição, mas isso sempre deu em nada, nunca conseguimos sequer arranhar o processo de renovação das outorgas. Uma das alternativas que tínhamos era constituir veículos de comunicação que pudessem chegar às pessoas, contrapondo as informações, no mais das vezes manipuladas pelas grandes empresas de comunicação. Uma luta bem desigual visto que jornais, rádios e outras formas de comunicação da esquerda sempre tiveram pequeno alcance. Disputar com a capacidade de alcance da Globo, Record e SBT era algo brutal. Mas, resistíamos.

O tempo passou e a coisa ficou ainda pior. Chegaram as big techs, com um poder muito mais extraordinário que o da Globo. Oligopólio mundial, alcance infinito e imediato. Além disso, detêm total controle sobre quem pode operar cada uma das chamadas “redes sociais” que disponibilizam.  Criadas para democratizar a comunicação, elas acabam aprofundando ainda mais o abismo. E, se no começo pareciam permitir que todas as vozes ecoassem, agora controlam o que se vê a partir de um algoritmo. Um robô decide se uma postagem nossa pode ou não circular. Estamos presos na teia. E elas entraram na vida das pessoas de tal maneira que hoje, se uma das plataformas sai do ar, ocorre um caos mundial, como se o fluxo da comunicação não pudesse mais viver sem elas. 

No campo da esquerda a resposta ao violento controle tem sido bem pífia, ou ainda pior, de aceitação desta lógica. Há quem proponha a taxação das big techs, ou uma lei que controle em alguma medida os conteúdos veiculados, mas isso é absolutamente impossível. Mesmo que haja taxação e lei elas seguirão fazendo o que fazem que é disseminar a ideologia do capital. A mercadoria na sua forma pura, sendo semeada o tempo todo e sem controle algum. Mercadorias materiais e imateriais, ideias, ideologias, só o que interessa aos donos do poder. O que aparece nas nossas linhas de tempo é o que o algoritmo dita. E o algoritmo é controlado pelos graúdos.

No campo do jornalismo a situação só piora. Se antes, com o monopólios das três gigantes (Globo, SBT e Record) a informação era manipulada, havia sempre alguma chance de algo escapar, bem como os veículos independentes podiam contrapor os fatos, com algum alcance. Jornais sindicais, por exemplo, tinham boas tiragens e chegavam aos trabalhadores. Hoje não. Vivemos o tempo do “jornalismo de pessoa". Os jornais, comerciais ou não, estão quase extintos e os que existem trabalham com pautas policiais (à exaustão) e temas amenos que não constituem a possibilidade do conhecimento ou da reflexão sobre os fatos. E justamente por isso, os jornalistas que ainda atuam fazendo jornalismo acabam tendo de publicar nos seus blogs ou páginas pessoais nas plataformas ditas “sociais”. Isso é ruim para o jornalista que fica sozinho, exposto, sem qualquer anteparo e é ruim para o jornalismo, pois se o jornalista em questão não tem um número massivo de seguidores, sua voz fica totalmente obscurecida. É praticamente a mesma resistência frágil que tínhamos nos velhos tempos, só que sem o suporte do projeto coletivo, o que torna tudo mais difícil. E se o jornalista não conseguir abocanhar seguidores, o trabalho fica invisível.

Além disso, o fenômeno das redes sociais instituiu a figura do “influenciador”, que já virou até profissão. É a pessoa que domina o processo de comunicação com a massa, basta que tenha milhões de seguidores. Isso vale para quem faz dancinha, vende produtos, mostra o corpo ou mesmo repassa ideias. Vide as estranhíssimas criaturas do universo bolsonarista que divulgam coisas absurdas, amealhando milhares de seguidores. Assim, a mediação do jornalista sobre os fatos parece não ser mais necessária. Uma pessoa com um microfone pode informar que os extraterrestres estão chegando, que o golpe vem em 72 horas ou qualquer outra coisa, sem precisar mostrar qualquer comprovação. 

As pessoas consomem a informação diretamente das fontes que elegem como “confiáveis”, ainda que apresentem grotescas falsificações ou realidades forjadas na IA. Se olharmos com detalhe não se diferencia muito do que sempre foi, já que uma informação que aparecia no jornal ou na TV também vinha carregada de ideologia ou manipulação. E também tinha mais poder quem tinha mais audiência, como era o caso da Globo, cujo sinal conseguia chegar limpinho nos confins do país. 

A diferença é que hoje, pelo menos no campo do jornalismo, a informação virou um produto do “eu sozinho”.  Há que se confiar na pessoa, no jornalista que atua em solidão, e este precisa disputar o coração e as mentes num universo absolutamente desfavorável e sem qualquer controle. Um robô qualquer, numa manhã qualquer, pode derrubar a página e já era. O poder da comunicação de massa está na mão de pouquíssimas figuras, das quais raríssimas estão a serviço da informação veraz. É uma batalha ainda mais desigual do que a que travávamos antes do advento das plataformas. 

Vida dura! Mas, seguimos, resistindo. 


quinta-feira, 24 de outubro de 2024

A Turma da Umbu









No sábado, dia 19 de outubro, reunimos a “Turma da Umbu” para o lançamento de um livro com nossas histórias, vividas na chamada década de ouro da televisão de Passo Fundo: os anos 1980. Num tempo em que as condições para produzir jornalismo e programação local em uma emissora do interior eram precárias e desafiadoras, um grupo de profissionais, vivendo seus verdes anos, arregaçou as mangas e fez história, inclusive dando vida a toda uma série de produções que mais tarde foram incorporadas pela RBS de Porto Alegre, como o programa de música nativista (Galpão Crioulo), a promoção da Garota Verão e até o hoje famoso Planeta Atlântida, entre outros. Também era ali, na TV Umbu, que a gurizada inventava as peças de propaganda mais criativas e os videoclipes famosos que faziam febre na época. Quase nenhuma tecnologia, mas muita ideia circulando na cabeça. 

A turma se desfez ao longo dos anos, mas nunca deixou de se comunicar. Até que, na pandemia, foi criado um grupo no uatizapi, onde as histórias daqueles dias foram rememoradas entre risos e lágrimas. Foi o que bastou para virar um livro. Um relato bem humorado daquela década em que a RBS inaugurou sua emissora em Passo Fundo e criou espaço para que toda aquela turma pudesse mostrar seu trabalho. Voltar ao velho prédio e rever os velhos amigos passou a ser uma meta e, finalmente, neste dia 19, aconteceu. Um momento estelar, de reencontro e de lembranças. Quase quarenta anos depois, estávamos juntos outra vez.  

Lembro que quando deixei para trás na TV Umbu, onde trabalhei como repórter, o caminho até ela parecia outro. Antes, o que se via, enquanto subíamos o morro que levava ao prédio onde se plantava a sede da televisão, era um imenso descampado. Agora já não havia vazios, só casas e mais casas. A entrada, pela Avenida Brasil, era totalmente desconhecida. O prédio também. Naqueles dias dos anos 1980 era uma construção branca, sem muros ou grades, destacando-se na paisagem em cuja mureta a gurizada ficava a fumar e tramar as noitadas de farra. Agora, murada, gradeada e com cerca elétrica, virou uma espécie de bunker. Sinal dos tempos. Para entrar precisamos chamar no porteiro eletrônico. Rimos, Bozó e eu, registrando que nos velhos tempos os cobradores entravam porta adentro, exigindo o pagamento das noitadas dos guris, sem passar por entregas. De, apenas o Seu Ivo, de revólver na cintura e sua cara bonachona. 

O portão aberto e na entrada estava o querido Milton Reimers, o técnico que cuidava da “porra toda”, responsável por manter tudo funcionando. Pois não é que ele ainda está ali, cumprindo 44 anos de casa. O mesmo sorriso, o mesmo carinho, o mesmo abraço. Disse-me depois que até hoje guarda a lembrança que deixei pra ele quando fui embora: um cartãozinho com o desenho de um gato e palavras amigas. Na recepção, nenhum sinal da bancada onde a maravilhosa Mara Cavalheiro cuidava da recepção. Chequei a vê-la, linda, com suas trancinhas de kanekalon, lixando as unhas enquanto comandava o telefone e organizava a entrada do povo, com sua risada inconfundível. Ela e a Indiora Crivelli eram as guardiãs da portaria e de todos nós.

Tudo parecia estar como antes, apesar da nova pintura e outras modernidades. A sala do Valmir Correia, onde eu ia contar dos amores e fofocar, o estúdio, o espaço do jornalismo, o salão de festas. Até no espaço do pátio onde ficavam os carros, se podia sentir a presença do Manão e do Seu Ângelo, que eram responsáveis ​​pelo jardim. Tudo ali evocando os bons fantasmas – dos nossos colegas que já partiram – e boas lembranças. O Pedro, mais sensível, nem quis ver o estúdio onde atuoso. Depois, mais tarde, deixou que as lágrimas rolaram sem freio ao lembrar-se da Angélica – colega já falecida - e de tudo que viveu ali naquelas paredes. 

O encontro foi o esperado, cheio de emoções. Cada um que está chegando passando pelo estalar de abraços e beijos, acompanhado de muita gritaria. Até o Lúcio Rodrigues (cinegrafista), hoje uma estrela da Rede Globo, apareceu, para a alegria de todos. Ele, que começou a carreira ali na TV, sempre é lembrado como um dos grandes profissionais que o Umbu deu à televisão. Muitos colegas já estão fora do mundo da comunicação, hoje participam em outras profissões como advocacia, negócios, arte. Outros seguem na empresa, como o Milton, o Paulo Souza, o Carlos Alejandro e o Arno Brinker. Este, que havia perdido o irmão no dia anterior, nosso querido Coroco, chegou quase ao final e foi recebido como um ídolo. Além disso, está ali na TV há mais de 40 anos e é uma referência para todos nós. É uma das pessoas mais queridas que já conheci. 

Tio também a presença de José Carlos Bortoloti, o primeiro apresentador da TV, o Paulo Ricardo e o Ipácio Carolino, vozes espetaculares da Atlântida, a Mara, hoje uma atriz de raro talento. Enfim, a gurizada toda, agora já na estrada dos sessenta, fez com que a gente pudesse se considerar, como há 40 anos, na nossa juventude rebelde, irreverente e criadora. E no salão onde protagonizamos festas de arromba, o tempo voltou atrás, revelando nossos dourados anos. Da porta, Amélia e Leonilda, como “donas” da cozinha, já em outro plano, com certeza celebraram também.    

Nesse clima o nosso livro foi distribuído para que as nossas antigas aventuras agora possam estar na cabeceira de cada um de nós, alimentando as lembranças e assim, concretizadas em palavras, para a eternidade. Não foi um lançamento público. É um livro para nós. Mas, certamente encontre caminhos para as bibliotecas locais, afinal, registre a história. Nosso carinho ao Pereira, Fonseca, Carlinhos e Carlos Alejandro, pela organização do encontro que, com certeza, revigorou a amizade que nasceu bem ali, naquele chão, e que resistiu ao tempo. Afinal, 40 anos é uma vida.

Viva a Turma da Umbu. 


quinta-feira, 29 de agosto de 2024

As precursoras do Curso de Jornalismo da UFSC


O Curso de Jornalismo completa 45 anos e realizou ontem uma atividade de celebração, convidando as professoras que começaram essa caminhada. Um momento mágico rever essas mulheres maravilhosas que foram decisivas na minha formação como jornalista. Todas elas, de alguma maneira, foram expulsas do curso porque não caminhavam na estrada do chamado jornalismo tecnicista. Viveram um expurgo cruel porque estavam mais vinculadas a uma proposta cultural, ou literária, ou humanizada e o curso queria ficar mais “profissional”, mais “técnico”. 

Lembro bem, quando ainda estudava, das conversinhas de corredor falando mal das aulas de algumas delas, porque davam muita teoria, ou porque falavam de assuntos que não tinham “nada a ver” com jornalismo. Ora, o nada a ver era a discussão da arte, da cultura, da literatura, do simbólico, elementos que são fundamentais para a formação de um jornalista, para que seja capaz de ler o mundo com mais competência. Neila Biachin, Aglair Bernardo, Sônia Maluf, Carmem Rial e minha adorada mestra Gilka Girardello pavimentaram um caminho que se descortinou extraordinário. Na época em que cursei jornalismo tinha o grupo dos “políticos” e o dos “culturais” e havia essa rivalidade boba, tão redutora, que depois evoluiu para a perversidade. 

Por sorte conseguimos conviver com essas mulheres generosas e criativas, fora das caixinhas da normose. Como mulheres foram particularmente ridicularizadas e sofreram inúmeras violências. Mas, alguns homens também tiveram sua cota de sofrimento, como foi o caso do Henrique Finco, do Mauro Pommer, que também faziam parte do grupo dos “culturais”, e eram igualmente professores instigantes e criadores. E até o Sérgio Weiggert, que era da turma dos “políticos”, sofreu na mão de alguns perversos, tirado como louco. Um gênio, que abriu mundos em nós. Eu mesma tenho ele e a Gilka como minhas referências eternas  - mudaram meu rumo. 

Ontem vendo aquela mesa bonita, com aquelas mulheres corajosas, que a despeito de tudo que viveram ali, seguiram seus caminhos construindo maravilhas, me emocionei demais. Que bom que a turma do curso de hoje teve a coragem de trazê-las e prestar essa homenagem. O passado não se apaga, foi duro e triste, mas o presente mostra claramente o tamanho da contribuição destes professores  - mulheres e homens – que nos guiaram pelo labirinto do fazer jornalístico. Eu os reverencio e os honro! E agradeço por ter tido a sorte de tê-los no meu caminho...

sexta-feira, 19 de julho de 2024

Pobres e Nojentas lança mais um volume da coleção Jornalismo no Coletivo







Organizada pela jornalista Miriam Santini de Abreu a coleção “Jornalismo no Coletivo” trouxe à luz mais um volume. Trata-se do livro “Jornalismo e Comunicação Sindical em Santa Catarina” que apresenta vários artigos de jornalistas com destacada atuação nos sindicatos. O trabalho traz reflexões importantes sobre o fazer jornalístico num tempo de profundas mudanças, tanto no jornalismo como no sindicalismo. A proposta da coleção é justamente discutir o jornalismo nas mais diversas realidades, tanto que o primeiro volume apresenta as experiências do jornalismo independente em Santa Catarina e o segundo traz o debate sobre o jornalismo ambiental. Conforme explica Miriam, a ideia é eternizar as práticas jornalísticas vivenciadas no estado e as experiências de jornalistas em particular que atuam a partir do olhar crítico. Num momento da história em que a informação é oferecida aos borbotões e sem contextualização nas redes sociais, apontar o caminho do jornalismo ainda parece ser a estrada mais segura. 

O terceiro volume da coleção foi lançado nesta quarta-feira, dia 17, e contou com a presença de muitos colegas da profissão, além de amigos e apoiadores do jornalismo praticado pela Pobres e Nojentas desde que surgiu a sua primeira produção no início dos anos 2000. A Pobres, que começou seu trabalho como revista impressa, hoje se expressa no mundo digital a partir de sua página na internet, mas insiste em manter as publicações impressas sempre debatendo o melhor do jornalismo e discutindo criticamente a vida política da cidade. 

O coletivo Pobres e Nojentas mantém também o projeto “Repórteres SC”, que eterniza, em vídeo, a memória e o fazer jornalístico dos profissionais que marcaram a história do jornalismo no estado. 


quarta-feira, 3 de janeiro de 2024

Formatura


Esta sou eu no dia da minha formatura, no começo de 1991. Era um dia dúbio. Havia uma grande felicidade por estar concluindo o curso de Jornalismo com o qual eu sonhara uma vida inteira, mas ao mesmo tempo uma profunda tristeza porque minha mãe estava muito doente. Tinha saído do hospital meses antes para, como diziam os médicos, morrer em casa. Assim que eu estaria ali sozinha no dia da minha conquista mais esperada. Nem a mãe, nem o pai. Tinha sido um dia tenso. Eu for a ao cabelereiro, por insistência de uma amiga, e o resultado tinha sido horrível. Então, cheguei a casa e lavei o cabelo de novo, desfazendo a marmota, indo para a formatura com ele praticamente molhado. A saia era emprestada da Linete Braz Martins e a blusa da Clarinda. Eu estava um pitéu. Mas, triste. Qual não foi minha surpresa quanto, lá dentro do plenário da Assembleia, onde seria a formatura, vejo minha tia Dalva e o meu tio Holmes. Eles tinham vindo de Porto Alegre para que eu tivesse alguém da família naquele dia tão especial. Uma surpresa é tanto que me encheu de alegria. São esses pequenos retalhos de vida que nos enchem de mundos...

sexta-feira, 1 de dezembro de 2023

Condenada por mostrar a verdade


Fábio Bispo - pres. do SJSC e Schirlei Alves




A jornalista Schirlei Alves foi condenada à prisão e pagamento de multa pelo judiciário catarinense. Ela foi acusada de “manchar a honra” de um juiz, um advogado e um promotor que atuaram num caso de estupro. Tudo isso porque ela noticiou a gravação da audiência de instrução, na qual a vítima do estupro, Mari Ferrer, é humilhada e constrangida várias vezes pelo advogado de defesa do acusado, Cláudio Gastão da Rosa Filho. A gravação mostra que ela implora ao juiz por respeito, dizendo que nem assassinos eram tratados como ela estava sendo tratada, mas o juiz ignorou seu apelo. Foram cinco horas de massacre contra a vítima e por fim, o acusado do estupro foi inocentado. Seria mais um caso “comum”, no qual o agressor sai livre, a mulher depreciada e os operadores do direito, incólumes. 

Mas, ocorre que a Schirlei fez o que qualquer bom jornalista faria: descreveu as cenas, desvelou o cenário, expôs as chagas, tanto as da situação do estupro sofrido quanto as do judiciário.  Uma reportagem que não encontrou abrigo nos meios comerciais catarinenses e acabou sendo veiculada na Intercept Brasil, uma agência de notícias. O texto explicita o que as imagens igualmente dizem. E o que se vê é uma garota sendo julgada por suas roupas, por ter bebido, por estar num bar. E, mais do que isso, sofrendo outra violência, praticamente sendo apontada como culpada de ter sido estuprada. Um balaio de horrores. 

A reportagem da Schirlei não se limita às imagens desveladas. Ela ouve a vítima, as pessoas próximas, a OAB, o Ministério da Mulher, delegada, promotora do Núcleo de Gênero, enfim, uma série de outras vozes que corroboram a tese de que a jovem vítima do estupro foi também humilhada e negligenciada no caso. O caso repercutiu em todo país e os envolvidos se viram expostos. O juiz, Rudson Marcos, recebeu uma advertência formal do Conselho Nacional de Justiça, por ter sido negligente, o promotor e o advogado foram repudiados pela opinião pública. E, por isso, decidiram acusar Schirlei de lhes manchar a honra.

O processo foi julgado pela juíza Andrea Struder, que condenou Schirlei aplicando uma sentença leonina. Segundo texto na Agência Intecep: ” A condenação de Schirlei proferida pela juíza lembra a época da ditadura e é totalmente infundada, repleta de falhas processuais e extremamente desproporcional. Studer foi a única juíza disposta a aceitar o caso apresentado por seus colegas na vara, depois que muitos outros se recusaram devido ao conflito aparente”.

A condenação da jornalista levantou a categoria que entende a decisão como uma sentença não apenas contra Schirlei, mas contra todos os jornalistas, visto que a ser mantida, significa claramente uma mordaça. É sabido que o judiciário brasileiro é uma instituição que representa a classe dominante e que se configura num guardião desta minúscula fatia da sociedade. Ficar contra os trabalhadores é pão comido, coisa cotidiana. Mas, ainda assim a sentença chocou os jornalistas por representar uma obstrução ao trabalho do profissional que é o de reportar os fatos. Importante ressaltar que a queixa se dá porque a jornalista expôs um juiz, um promotor e um advogado. 

Ora, receber pena de prisão e multa de 400 mil reais por ter relatado fatos reais e comprovados tem algum sentido? Nenhum. Esta semana outro vídeo de uma audiência virtual em Santa Catarina mostra uma juíza igualmente sendo grossa e arrogante com uma testemunha. Será penalizada também a pessoa que divulgou mais essa cotidiana ação das cortes? Não se pode mostrar a realidade do mundo judiciário? Está vedado? Bom, isso tem nome. Censura. 

Hoje, na Universidade Federal de Santa Catarina, foi organizado pelo Sindicato dos Jornalistas um ato de solidariedade à jornalista, que ainda está lutando na justiça, agora em segunda instância. Compareceram jornalistas, representantes de movimentos sociais, de sindicatos, estudantes, políticos e comunidade, todos dispostos a apoiar e lutar junto com Schirlei para que essa sentença seja anulada. Nenhum dia de prisão e nenhum centavo de multa. O judiciário catarinense terá de responder com justiça. 

É sabido que o jornalismo brasileiro é, via e regra, um jornalismo declaratório, sem profundidade e muitas vezes cúmplice dos poderes dominantes. Mas, jornalistas há que fogem do lugar comum e cumprem a função primeira do jornalismo que é desvelar o que quer se esconder. Schirlei é uma dessas profissionais. Valente, responsável, ética. Ela está sofrendo, porque é repórter, e sabe que fez o certo. Vive uma tortura cotidiana por ter cumprido com seu compromisso profissional. 

Cabe a nós enredá-la numa rede de afeto e de luta para que ela saiba que não está sozinha. E cabe a nós também divulgar ao máximo essa infâmia. 

O jornalismo de verdade carrega essa marca, a da expor à luz o que se esconde. Não é sem razão que lá na Inglaterra o também jornalista Julian Assange sofre prisão e tortura por ter revelado os crimes dos Estados Unidos. Guardadas as proporções, assim tem sido com a Schirlei, por ter exposto algumas vísceras do judiciário. 

Justiça para Schirlei. Suspensão da sentença já! Nada menos do que isso!



segunda-feira, 27 de junho de 2022

Jornalismo, 40 anos - o primeiro chefe


Neste ano de 2022 completei 40 anos de atuação no jornalismo profissional. Comecei minha carreira na TV Caxias, em Caxias do Sul, então afiliada da RBS. Na carteira de trabalho o registro foi de locutora-entrevistadora, mas a função era de repórter. Tive a sorte de ter como meu primeiro chefe de reportagem o jornalista Otaviano Fonseca. Era assim uma espécie de anjo. Sempre bem humorado e paciente, ele conseguia lidar bem com a minha inexperiência, evitando assim que eu cometesse muitos erros, afinal, nunca na vida tinha trabalhado em TV, e fazer TV não é coisa fácil. Diferentemente de escrever, que é um ato solitário, fazer TV é coisa coletiva. Tu dependes do trabalho da equipe toda: o motorista, o cinegrafista, o carregador de VT (é, tinha isso) e o editor. 

Pois o Otaviano me ensinou tudo sobre a reportagem em televisão. Tudo. E sempre com muita delicadeza. Eu o amava por isso. Guardo até hoje as orientações que ele me passou quando fui fazer o primeiro enterro de político. Bah, eu fiquei em pânico. O que eu ia fazer? O que perguntar numa hora dessas para não parecer idiota? Quem entrevistar para não ser invasiva e inoportuna?  E ele, pacientemente fez uma espécie de roteiro, tudo escritinho à mão. Além das manhas da reportagem ele também me ensinou a editar naquelas imensas ilhas de edição, com as fitas U-Matic, e em pouco tempo eu já editava minhas matérias e a de outros colegas. Tenho por ele o maior amor do mundo e todos os dias da minha vida eu agradeço por ter sido ele o meu primeiro chefe. 

Metidos naquele imenso salão onde ficava a redação - que era a metade da garagem da TV Caxias – nós, eu e o Britto Jr (outro repórter) pudemos aprender tudo o que era possível na profissão. E, mesmo quando a gente cometia algum erro, ainda que fosse grande, ele assumia tudo e nos orientava sobre o que fazer para não mais errar. O Otaviano era muito especial. O Britto logo em seguida alçou voo para São Paulo, onde se deu muito bem e eu também segui meu caminho, segura e competente, esculpida por conta dos seus ensinamentos. Desde que saí de Caxias nunca mais o vi, mas ele mora dentro do meu coração.  Nesse ano em que celebro os 40 anos dessa minha prática no jornalismo, eu o reverencio: meu mestre muito amado. 

Obrigada por tudo e tanto. Te amo!!! 



terça-feira, 14 de junho de 2022

40 anos no jornalismo






Foi num dia 14 de junho de 1982 que tive registrado meu primeiro emprego formal no jornalismo. A anotação era locutora-entrevistadora, mas a função cumprida era de repórter. Hoje, celebro então 40 anos nessa profissão. Uma vida inteira correndo atrás da notícia, da informação de qualidade, da análise do dia. Desde bem pequena eu tive esse sonho de ser jornalista, imagino que por conta do exemplo do meu pai. Minha brincadeira favorita era andar com um gravador e microfones feitos de papelão, fazendo entrevistas. O rádio me fascinava, e ver meu pai nas coberturas noticiosas,  ou de futebol e carnaval era minha alegria. “Vou ser como ele”. Eu morava em São Borja e o caminho natural seria terminar o ensino médio e fazer faculdade em Santa Maria. Era o planejado. 

Mas, a vida dispôs. Meu pai perdeu tudo, teve de migrar para Minas Gerais e a família toda precisou se mover para lá em 1977. Um novo estado, nova cidade no interior das Geraes, pobreza, sem condições de pensar em faculdade.  O caminho agora era arrumar um trabalho e ajudar o pai a sustentar a casa. Guardei o sonho no fundo do coração. O tempo passou e meu tio se ofereceu para me pagar um cursinho em Belo Horizonte. Mas, ele esperava que eu cursasse engenharia. Nóóó... muito longe do meu querer. Fiquei lá por um ano, não fiz o vestibular de engenharia e voltei para Pirapora, disposta a fazer um concurso para o Banco do Brasil. Fiz a inscrição e, no dia da prova, cheguei até a porta do colégio e não entrei. Eu pensei comigo: vou passar nessa porra, e aí? Nunca mais saio do banco. Foi uma surpresa na família eu não ter passado, afinal eu sempre fora “a estudiosa”, caxias em nível máximo. Não contei que não tinha feito a prova.  

Finalmente em 1982, quando minha mãe já estava boa da tuberculose, eu decidi sair atrás do meu sonho e fui morar em Caxias do Sul, com minha tia Dalva. Não sabia como ou o que fazer para ser jornalista. Então, fui preencher uma ficha para vaga de telefonista na TV Caxias. Coloquei ali minha experiência com comunicação e o diretor resolveu me chamar. O motorista foi até me buscar em casa. Uma surpresa e tanto. Eu não tinha noção do que ia acontecer. Lá, na sala do seu Ênio, ele me perguntou: “tu já fizeste tudo isso mesmo que colocaste na ficha?”  E eu respondi que sim, embora houvesse ali muito exagero. E ele então disparou: “Acreditas que pode trabalhar aqui como repórter?” Meu coração deu um salto, mas ele não notou. “Pode apostar”, eu respondi, segura. Ele apostou.  Estava contratada. De quase telefonista a repórter, assim, do nada. Não tive medo. Já tinha uma estrada na comunicação. Daria conta.

E foi assim que eu desci para o salão onde ficava o setor de jornalismo e me apresentei ao Otaviano Fonseca, que era o chefe de jornalismo. No outro dia já estava jogada aos leões, fazendo entrevistas. Tive a sorte de ter grandes parcerias, colegas incríveis que me ajudaram e me ensinaram. Passei depois pela TV Globo de Bauru, a TV Globo de Marília, TV Uruguaiana, TV Umbú de Passo Fundo, RCE TV em Florianópolis, Jornal O Estado, Rádio Guarujá, Jornal A Notícia, dei aulas na Univali, atuei na comunicação popular e por fim a UFSC. 

Toda essa caminhada eu fiz com profunda alegria e com imenso amor por essa profissão que escolhi desde menina . O jornalismo que se compromete, que toma partido, que olha o mundo desde o lado da classe trabalhadora. Foi assim desde as primeiras greves de gráficos que eu cobri em Caxias. Naqueles dias era intuitivo, mas com o passar do tempo a consciência ingênua se fez crítica. Onde quer que eu trabalhasse estava sempre a serviço das lutas. Sempre atuei no sindicato dos radialistas e depois de formada em Jornalismo, no sindicato dos jornalistas. 

Como jornalista, trabalhando dentro da RBS, usei todos os recursos da rede para divulgar as lutas sociais e tive a alegria de cobrir por um ano inteiro a grande batalha dos trabalhadores sem-terra na Fazenda Anonni, um marco na luta pela terra no Brasil. Pauteira atilada, sempre procurei abordar as notícias de maneira a mostrar a injustiça e a exploração. Quando por fim fui fazer a faculdade, lá por 1987, encontrei Adelmo Genro Filho, pela mão do mestre Sérgio Weigert. Então, tudo o que era intuição ganhou corpo e se fez compreensão. Entendi que fazer jornalismo é garantir a visão da totalidade do fato. Que fazer jornalismo é estar comprometida com verdade dos tempos, sendo capaz de capturar o singular, sem perder a conexão com o todo, o universal. Que fazer jornalismo é estar sempre atenta ao que nos salta aos olhos e ser capaz de ver o que quase ninguém vê.   

Hoje, assombrada com o andar do tempo, vejo que quatro décadas se passaram e eu ainda não perdi o encantamento pela rua e pelas pessoas. Que exatamente como aquela menina aprendiz da TV Caxias eu ainda caminho pelo mundo com olhos de lâmpada, sedenta de desvelar o que se esconde, de gritar o que tentam calar. O jornalismo é minha espada Jedi, meu carrossel encantado, meu espaço de ser. 

Hoje é um dia cheio de significado para mim. Vou tomar uma gelada e lembrar cada criatura que passou por esse meu caminho: os que me ajudaram a ser quem sou, os que eu narrei, os que caminharam comigo, os que eu amei, os que me feriram, todos... 

Quarenta anos de jornalismo não é bolinho...  É uma vida, uma doce, linda e generosa vida...

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2021

Onde andas, jornalismo?



 Vira e mexe alguém decreta a morte do jornalismo, e aqui entenda-se jornalismo como um fazer específico que desvela a realidade dos fatos, a partir do singular, abrindo-se para o universal. O jornalismo como a análise do dia, a análise crítica dos fatos, a descrição e a interpretação da realidade, tudo junto e misturado.

Bom, se pensarmos naquilo que se pratica nos meios comerciais de massa, pode haver alguma razão. Deveras, por ali, raramente acha-se o jornalismo. Há desinformação premeditada, há mentiras, há propaganda, mas muito pouco de jornalismo. Ainda que ele sobreviva, vez ou outra assomando em meio ao lixo, pela mão de algum jornalista raiz. É raro, mas acontece.

Nas redes sociais, é como buscar agulha no palheiro. Essas são terras sem lei, nas quais as maiores barbaridades têm morada. Cada pessoa atrás do seu computador ou do seu celular é um produtor de informação. Boa parte delas totalmente inúteis para a compreensão da realidade. Uma grande parte é formada por mentiras bem elaboradas pelos grupos políticos interessados em confundir. Quanto mais informação falsa, melhor. Um meme baseado em mentira pode alcançar visualizações virais enquanto um belo texto de reportagem tem modestas curtidas. As redes, já sabemos, não são espaços de reflexão ou de busca de conhecimento. É só um algaravia festiva movida pelas curtidas sistemáticas e insanas. Tudo é engano. Publica-se um textão e em menos de um segundo já temos cinco curtidas, mostrando obviamente que a pessoa curtiu automaticamente, seja por gostar de quem postou, seja por puro hábito de tocar o sinal de positivo, visando ser simpático. É, portanto, impossível confiar nesses espaços. Ali, o jornalismo não só está morto, como bem enterrado.

Também temos de procurar muito bem o jornalismo nos meios de comunicação independentes, comunitários, populares e sindicais. Nesses espaços igualmente achamos propaganda, algum engano, mas é bem mais fácil encontrar o jornalismo. Porque não são meios acossados por empresas financiadoras. Há certa autonomia para abrir os véus da realidade, mergulhando em busca da essência dos fatos. Até porque, no mais das vezes, há um compromisso político nesse fazer. Ainda assim, por falta de recursos o jornalismo acaba ficando para trás.

Também é possível achar o jornalismo em alguns blogs de jornalistas específicos ou mesmo em algumas páginas de entidades e instituições. Porque apesar da formação cada vez mais superficial, indefectivelmente ainda aparecem jornalistas capazes da reportagem, da investigação, da apuração de qualidade, da impressão e da descrição, construindo o que chamamos de verdadeiro jornalismo, que é o que desvela e desaloja.

Para usar um exemplo bem contemporâneo podemos citar o trabalho da jornalista Schirlei Alves sobre o julgamento do estuprador de Jurerê. Quem, senão o jornalismo, se debruçaria sobre as páginas do processo buscando as letras pequenas e interpretando a realidade, como a colega fez? Ou a reportagem do Fabio Bispo sobre os respiradores inúteis comprados pelo estado de Santa Catarina que abriu as gavetas da incompetência e expôs o governador-bombeiro? Ou a reportagem sobre o mega vazamento dos dados feita pelo Intercept, contando o que ninguém quer que seja dito? São temas “complicados” que precisam ficar escondidos. Mas, fatalmente, serão os jornalistas da boa cepa aqueles capazes de cavoucar no lixo, expondo a miséria do poder. Isso mostra que o jornalismo segue vivinho da silva e segue sendo muito necessário. Agora, mais do que nunca, justamente por conta da selva fechada da desinformação que se multiplica como um monstro.

E é por entender isso claramente que me causa espécie ver o mundo sindical abrir mão do jornalismo. Justamente agora quando os movimentos estão fracos e a sociedade capturada pela mentira, seja essa viralizada nas redes ou a dos meios comerciais. Percebo que cada dia mais as entidades vão abrindo mão do trabalho sistemático do jornalista ou então usando esse profissional apenas como um produtor alucinado de conteúdo para as redes sociais. Que baita engano. Os jornalistas são seres que investigam, que fazem perguntas incômodas, que precisam de tempo para ler, pensar e elaborar os textos. Jornalista não é para ficar postando coisa no uatizapi ou no facebook. Isso pode ser função de outro trabalhador. Jornalista é para pensar a comunicação eficaz, para escrever reportagens, para tirar o véu do que se esconde.

Vejo que nesses tempos bicudos, quando a informação é coisa fugaz e - no mais das vezes  - mentirosa, quem está na frente é a direita. Sindicatos ligados à direita chegam a ter quatro jornalistas profissionais para produzir sua comunicação. Ou seja, empregam profissionais qualificados para fazer o trabalho da mentira e do engano. Já outros que se articulam à esquerda, tercerizam a comunicação ou contratam frilas acreditando que fazer um jornal mensal, burocrático e cheio de notícias velhas, pode ajudar o trabalhador a pensar sobre sua realidade. Contratar um jornalista, que atue organicamente junto a categoria, é sempre uma decisão difícil. “Ah, não temos verba para isso”. Bueno, então preparem-se para perder a batalha da comunicação.

Sempre é bom lembrar a peleia travada pelo velho compa Vitto Giannotti, que gastou sua vida nesse debate, sempre muito aplaudido, mas pouco seguido. Parece que ainda estamos lá atrás, nos anos 80, e parece que ainda precisamos de um profeta do jornalismo, ou seja, aquele faz, agora, o que tem de ser feito já e no futuro. Fica realmente inacreditável pensar que o mundo sindical ainda não se deu conta do que é esse tempo. Um tempo que precisa, mais do que nunca do jornalismo. Como trabalhadora, sinto-me abandonada e impotente. Não temos ação sindical de luta e não temos sequer uma boa briga comunicacional. Obvio que não se vence o sistema só com o jornalismo. Esse é um fazer profissional e não uma bandeira de luta. Mas tendo jornalismo nas entidades dos trabalhadores, mais chances teríamos de abrir as caixas de pandora do mundo do capital.

Nunca é demais lembrar que o grande herói do nosso tempo é um jornalista: Julian Assange, que mostrou ao mundo os crimes dos EUA e que por isso amarga prisão e tortura. É por isso que eu sigo, como o velho Diógenes com sua lanterna, tentando encontrar o jornalismo. Ondes andas, jornalismo? Apareça, e que seja do nosso lado, porque aqueles que estão vendados, precisam ver.


sábado, 19 de dezembro de 2020

Jornalicídio doloso - jornalista processada por interpretar a realidade



 A palavra jornalismo vem do grego diurnalis, que significa “do dia”. Quando passa a designar um fazer significa então “análise do dia”. Isso é o que está na etimologia e é o que deveria estar na cabeça de cada um de nós, os que praticamos o jornalismo todos os dias. Observar a vida, os fatos, e narrar, não como meros porta-vozes, mas como sujeitos capazes de analisar e interpretar os fatos para além da aparência. 

Pois foi exatamente isso que fez a jornalista Schirlei Alves ao cobrir o vexaminoso julgamento do caso André Aranha, acusado de estuprar uma garota numa casa noturna da capital catarinense. Na audiência, o advogado do dito estuprador coloca foco na vida da jovem estuprada, Mariana Ferrer, e a humilha em diversos momentos, tratando-a como se ela fosse culpada por ter sido estuprada. Na verdade, até aí nada de novo, pois sempre foi essa a estratégia das defesas de estupradores: virar o jogo para a vítima. “Estava bêbada, estava de vestido curto, estava com roupa transparente, provocou, que fazia ali àquela hora”, e tudo mais. Até aí, pão comido. Como também foi pão comido o resultado do julgamento. Depois de toda a pressão sobre a vítima, o resultado foi a absolvição do Aranha. 

Com todo o rebuscamento da linguagem do juridiquês, o processo aponta que existem situações em que “o erro exclui o dolo, mas permite a punição por crime culposo... quando há a vontade, mas não a plena consciência”. E foi – linhas gerais – em cima disso que o homem foi absolvido. Chegaram à conclusão de que não foi estupro, porque, mesmo que tenha havido o dolo (perda da virgindade) não houvera a intenção.

Como uma boa jornalista, Schirlei Alves, se debruçou sobre o processo, leu as letras pequenas e fez suas análises e interpretações. Uma delas lhe permitiu apontar a genial expressão “estupro culposo”, que acabou ganhando destaque e levando o país inteiro a discutir o caso. Ou seja, Shirlei percebeu que a lógica usada na sentença permitia uma analogia com o que conhecemos como homicídio culposo – quando uma pessoa mata outra sem intenção de matar (o caso de um acidente, por exemplo). Claro que o que a jornalista fez foi uma ironia - porque nem isso seria. Mas , foi uma ironia que não surgiu do nada. Ela está subentendida nos autos. 

Como as palavras são polissêmicas, cada um que leu o texto atribuiu um sentido e a expressão foi usada para criticar de maneira jocosa o judiciário e todos os operadores que atuaram no caso. Obviamente que a exposição nacional, e até internacional do acontecido, causou indignação aos envolvidos. Então, trataram de judicializar a jornalista. E agora, ela responde processo por ter analisado um fato e interpretado o mesmo com base nas informações dos autos. Ou seja, ela disse algo que eles não haviam dito mas que estava subentendido nas entrelinhas.

Seria até engraçado um processo por isso, mas é claro que não é. Porque estamos no Brasil, porque a Justiça tem classe e porque esse é um tempo em que o jornalismo tem de ser calado. Na verdade, todos os tempos são tempos que tentam calar o jornalismo, aquele, de verdade, que interpreta, que desaloja, que desequilibra, que analisa criticamente. Mas, momentos há em que ele tem mais espaço. Não é o caso dos nossos dias. Vale lembrar outro colega jornalista e professor, o Cristian Góes,  que foi processado por ter escrito um texto de ficção com o qual um desses “coronéis”  nordestinos se identificou. Cristian foi condenado por fazer ficção e ainda teve de pagar por isso. Loucura? Não! Realidade brasileira. 

O processo agora contra Schirlei segue essa lógica da tentativa do cala-boca. Diz para os jornalistas: não vejam para além das aparências, não tentem interpretar nada, não realizem a análise do dia, não façam mediações inteligentes com seus leitores, limitem-se a carregar vozes, fiquem nos seus lugares de capachos do sistema.

O caso Schirlei Alves então passa a ser o nosso caso, dos jornalistas, dos que fazem jornalismo, dos que tem apreço pelo jornalismo.  E é preciso contar essa história, para que a jornalista não venha a ser condenada por interpretar um fato, por criar uma manchete fora do padrão. Por que se isso acontece é um tiro no peito do jornalismo e aí, não é “jornalicídio culposo”, mas doloso mesmo, porque a intenção é obviamente a de matar qualquer possibilidade de um trabalho que fuja da normose disso que alguns chamam de jornalismo, mas que é apenas um pastiche, limitando-se a dizer que: segundo fulano isso, segundo fulano aquilo. 

O jornalismo de verdade vai além do porta-voz. Ele mexe no vespeiro. Ele expõe a ferida, sangrando. O que Schirlei fez foi isso: de maneira inteligente, expôs, numa expressão tão curtinha, toda a pantomina do julgamento e da ação do estuprador. 

Que se mexam o Sindicato, a Fenaj, as instituições internacionais. A Schirlei não pode ficar sozinha nessa batalha. Notas de repúdio não são suficientes. Há que ter movimento forte. 

Tô contigo, Schirlei Alves.

quinta-feira, 23 de abril de 2020

Renan


Eu não conheci o Renan, mas sabia de suas histórias de luta. Nunca nos encontramos para um papo ou coisa assim. As poucas vezes que nos encontramos foi em situação de eleição para o Sindicato dos Jornalistas e Fenaj. E estávamos em campos diferentes. Ele nunca me dirigiu a palavra, apenas olhares acusadores. Ele não gostava de mim. Creio que foi envenenado por colegas adversários, porque, afinal, não me conhecia. Mas, ainda assim, ele foi capaz de um ato generoso. 

Tempos depois de o grupo no qual estava vencer o sindicato ele publicou um texto comentando um livro meu. Dizia que estava lá na sede, limpando as estantes e o encontrara. Renan deve ter sido o único colega que leu o livro e fez um comentário bem honesto sobre ele. Como repórter que era, sabia reconhecer uma reportagem. O texto me chegou por outras vias, e achei bonito. Ele teve a delicadeza de, apesar de envenenado, dar uma espiada. E gostou do que leu. E foi digno em fazer um comentário público. Isso diz muito de quem ele era. 

Quando entrei na imprensa catarinense era lendária a sua história de briga com a RBS e seu solitário protesto deitado em frente à empresa, exigindo seus direitos. Lendários também eram seus textos, suas reportagens cheias de viço e bossa. Renan era um repórter, absolutamente repórter. Com o passar dos anos a gente ouvia falar: Renan tá na China, Renan tá na guerra, Renan está incomodando alguém. Ele era um furacão. E a gente lia suas reportagens com quem sorve uma água fresca no deserto. Escrevia como ninguém e era capaz de fazer um baita texto sem quase nada. Só observando e descrevendo. 

A última vez que o vi foi, brevemente, por ocasião da campanha do Nildo Ouriques, como candidato a candidato à presidência. Ali estava ele, grudado em mais uma causa impossível. Trabalhamos em uníssono. Foi a primeira vez. 

Depois, fui acompanhando sua luta com o transplante e tudo mais. No dia em que vi sua última postagem liguei para o Nildo e disse: o Renan vai sair de mais uma, ele sempre sai. Danado, não saiu. 

Fica aqui meu carinho por esse grandalhão do jornalismo, em todos os sentidos. Um repórter que iluminava o jornalismo com seu texto. E, por conta disso, é um desses mortos que nunca morrem.   

domingo, 5 de abril de 2020

O jornalismo esperneia, mas não assoma



Já faz tempo que se ouvem vozes sobre o fim do jornalismo. Eu sempre defendi que não. Não morreu. Pode estar meio adormecido, solapado pelas empresas que preferem desinformar a formar opinião pública esclarecida e consciente. O jornalismo em si não tem nada a ver com isso. Ele não é um ser, é um fazer. E, como já ensinou Adelmo Genro, tem até uma forma de expressar a realidade como conhecimento e não apenas informação. O que pode estar em crise ou morto é o humano capaz de narrar a vida nesses termos propostos por Adelmo, partindo do singular e abarcando o universal. Ah, isso sim.  

Agora, nesses dias de pandemia, o jornalismo reapareceu com força total, a pondo de as emissoras de televisão aumentarem seu tempo no ar para horas e horas. Repórteres cruzam os caminhos trazendo informação para lá e para cá. É uma enxurrada de notícias e reportagens. Num tempo em que as redes sociais pareciam ter tomado o lugar das empresas de comunicação, a atenção voltou a focar nos veículos tradicionais, como se, de repente, só o jornalismo pudesse ser capaz de trazer a notícia verdadeira. O que, de certa forma, é verdade. Os jornalistas têm se esforçado. 

É fato que no campo da informação crua as emissoras estão indo bem. Passam os dados, os números, as notas dos governos, as orientações médicas. Tudo isso é muito importante. Mas, o jornalismo – e aí insisto em Adelmo Genro – não é só informação. Ele pode ser também conhecimento, e deve ser. É a função mais importante dele, oferecer possibilidades de compreensão da realidade para além da simples informação, ou da simples resposta das seis perguntas tradicionais do lead. 

O que se percebe é que, como o uso do cachimbo entorta a boca, a maioria dos jornalistas parece que esqueceu como é fazer o bom jornalismo. Aquele jornalismo que é também análise, impressão, descrição e narração. Mesmo na mídia alternativa, comunitária e popular esse tipo de jornalismo pouco existe, salvo raras exceções. No geral, os jovens jornalistas, malformados a partir do ideal liberal de “mostrar os dois lados” se espantam com textos que aprofundam os temas, que singularizam as histórias, que descrevem a vida na sua imanência. Espantam-se e, surpreendentemente rechaçam.  É uma catástrofe. Porque essa seria uma hora histórica, de retomar as boas formas de narrar.

Não é o que se vê e ao fim e ao cabo, vamos mudando de canal, ou saltando as páginas de jornalismo alternativo, e tudo o que vemos é a informação asséptica, que não tem lado, que não se compromete, que não consegue conduzir o leitor/espectador para a atmosfera universalizante do fato singular. Ouve-se o morador, o governador. Ouve-se o comerciante, o médico. Ouve-se o que espera tratamento, ouve-se o enfermeiro sem máscara. Mas nada de oferecer elementos de análise que permitam o leitor/espectador compreender o cenário, o pano de fundo, as contradições.

Eu me alegrei com a retomada do espaço jornalístico, mas já perdi a esperança. O espaço aumentou, mas o jornalismo segue esquecido. Faltam os bons narradores da vida, faltam os jornalistas capazes de contar uma boa história, sobram os liberais formados pelos manuais de jornalismo copiados dos Estados Unidos.  

É desanimador! Ainda assim, vamos resistindo... 

quinta-feira, 5 de março de 2020

Os carregadores de voz




O jornalismo é um fazer que, segundo o teórico Adelmo Genro Filho, deveria ser uma forma de conhecimento capaz de transitar entre o singular, o particular e o universal. Ou seja, aquilo que é único no acontecimento, sendo mostrado na relação com o todo. Só assim o leitor, espectador ou ouvinte poderá compreender o que realmente aconteceu, porque terá à sua disposição toda atmosfera do fato. A universalidade. Fazer jornalismo assim não é para qualquer um. Precisa estofo. Isso significa que a pessoa que escreve, narra e descreve, tem de carregar dentro de si uma boa bagagem intelectual. Há que ter lido muita literatura, muitos livros de história, há que conhecer em profundidade os grandes dramas do seu espaço geográfico, há que ter capacidade de descrição profunda da realidade. 

Podemos pensar que atualmente os cursos de jornalismo não oferecem essa bagagem. A formação intelectual desapareceu. Muitos deles se tornaram meros repassadores de técnicas e tecnologias. Assim, podemos encontrar entre os recém-formados gente que sabe tudo sobre os novos softwares comunicacionais, mas é incapaz de fazer uma boa pergunta. E repórteres, senhores, já diria Acácio Ramos, são seres que perguntam. O que temos, na verdade, são os carregadores de voz. 

O jornalismo dos grandes meios comerciais já não se preocupa em narrar e descrever a realidade. E vamos ser honestos, entre os veículos alternativos a coisa anda por aí também. Basta dizer o que o outro disse. Segundo fulano, segundo beltrano. E nada de investigação, e nada de análise. Não importa. A informação é só uma sensação. Tampouco importa se o que o fulano disse é verdade. Se o fulano é autoridade, então, falou tá falado. Foi-se o tempo em que o jornalista escarafunchava arquivos em busca da verdade. Hoje não há tempo. A informação é pássaro fugaz. E a verdade é igualmente fluida.

Não é sem razão que o presidente do Brasil ataca os jornalistas. Ele grita em alto e bom som que o jornalismo mente. E ao fazer isso está apenas expressando uma opinião que já está consolidada nos brasileiros. Por isso os seus seguidores aplaudem as patacoadas que ele faz com o grupo que está em frente ao palácio para mostrar – sem crítica ou análise – as suas atitudes. O jornalismo palaciano é uma farsa. E o presidente sabe disso. Por isso brinca e tripudia. Sabe que dali não sairá qualquer reportagem digna de nota. Sabe que os que ali estão apenas repercutirão seus gestos, ou uma frase infeliz. Não haverá consistência nem narrativa crítica sobre o governo em si, sobre os dramas da nação ou sobre as entranhas podres do poder. É um jornalismo do tipo “Caras”, voltado ao exótico, ao engraçado. É um jornalismo conivente, amigo, ajoelhado diante do poder. Quem não se lembra das corridas do presidente Collor, com os jornalistas correndo junto, ofegantes, alegres por mostrarem a nova frase que o presidente ostentava na camiseta? Tudo segue como dantes no quartel de Abrantes.

Houvesse realmente jornalismo correndo nas veias dos que fazem a cobertura presidencial, eles haveriam que sair da frente do palácio e entrar. Vasculhar as gavetas, sob o tapete, manipular os papéis, os decretos, os projetos, contar ao povo o que se está armando contra ele. E se fossem impedidos, teriam de encontrar formas de encontrar a verdade que se esconde sob a lógica das piadas, das grosserias, da estupidez. O show diário da presidência é um esconderijo de verdades. E os jornalistas palacianos ficam ali, observando o que não existe, enquanto que o que existe, de fato, continua invisível para a maioria.

O jornalismo precisa deixar a opinião pública informada sobre a essência das coisas, não sobre a aparência. O jornalismo é espaço de fatos concretos, não de sensações. O jornalismo é a análise apurada do dia. Ou isso, ou nada. É só uma algaravia sem sentido que muito bem serve a quem quer embotar os sentidos. 

Há quem defenda os profissionais que seguem se submetendo aos vexames diários em frente ao palácio. Eu não. Existem sapos que temos de engolir para poder sobreviver num mundo no qual só temos nossa força de trabalho para vender. Sim, é verdade. Mas, momentos há que os limites se impõe. É bem conhecida a lenda de que no mundo das trabalhadoras do sexo há uma regra a ser seguida: se aceita tudo, menos beijo na boca. Porque o beijo é algo íntimo demais, só oferecido ao amor. Assim no jornalismo. Podem-se engolir sapos ao longo da vida para se garantir um emprego, mas coisas há que não são admissíveis. É o beijo na boca. E aí, há que dizer não, ainda que se nos custe a vida. 

Mas, essa decisão de honra não é fácil de ser tomada. Ainda assim, há que recusar o jornalismo de sensações e recolocar essa profissão nos trilhos, ou ela perecerá como vaticina o presidente. Destapar a verdade que os poderosos querem ver escondida. Informar ao público sobre o que lhe cabe. Produzir conhecimento. 

É tempo de desalambrar, colegas, romper as cercas, desalambrar... 



sexta-feira, 21 de fevereiro de 2020

A mídia dos trabalhadores na cidade de Florianópolis

Fotos: Rubens Lopes


Fazer jornalismo em Florianópolis não é coisa fácil. Até bem pouco tempo o oligopólio formado pela empresa gaúcha RBS detinha a hegemonia, abarcando não apenas a capital, mas toda Santa Catarina. Sua ligação visceral com o poder político instituído fazia dela o braço armado comunicacional da oligarquia local. Enfrentar essa massa uniforme de propaganda oficial sempre foi um desafio. Ainda assim, ao logo dos tempos, alguns jornalistas em particular e algumas experiências de comunicação comunitária ou popular conseguiram dar à sociedade outra mirada sobre os fatos, ainda que com dificuldades e com pequeno alcance. Hoje, o controle da empresa gaúcha se esgarçou, mas as propostas hegemônicas seguem o mesmo diapasão, ligadas ao poder político e neopentecostal. A batalha é a mesma. Dura e implacável.

Pensando na história mais contemporânea da mídia popular na cidade podemos nominar a proposta levada a cabo pelo Centro de Apoio e Promoção do Migrante (Caprom), na metade dos anos 1980 que conseguiu viabilizar o Jornal das Comunidades, com o qual abria um canal de comunicação com os florianopolitanos divulgando sobre a intensa jornada de migração vivida na época. Essa leva de gente vinda do interior do estado e de outros estados da federação viabilizou uma série de ocupações urbanas, que acabaram fazendo nascer uma boa parte das comunidades de periferia da capital. O jornal era distribuído gratuitamente e era produzido por jornalistas e estudantes de jornalismo da UFSC. O debate sobre o direito à terra e à moradia se fazia por ali. 

No início dos anos 1990 surgiu no bairro do Campeche o jornal Fala Campeche, que também expressava a luta vivida na comunidade por um Plano Diretor, ampliando ainda mais a temática de interesse das gentes, discutindo terra, moradia, transporte, saúde e educação. O jornal abarcava o bairro, mas também discutia a cidade.

No final daquela década, justamente por conta do crescimento da luta popular, foi a vez da aparição da Rádio Comunitária Campeche, uma proposta de comunicação popular nascida do centro nervoso da luta pelo direito à cidade que vicejava no bairro. A rádio, criada em 1998, despontava como um oásis dentro do controle comunicacional exercido pelo poder dominante, o qual tinha sob seu tacão os principais jornais, as TVs e as emissoras de rádio locais. A Rádio Campeche passou a ser não apenas a voz da comunidade se expressando pelo ar, mas também o espaço para a divulgação das lutas dos trabalhadores e dos movimentos sociais. 

No mesmo ano de 1998, é fundada a TV Floripa, gerida por um grupo de entidades sindicais. A proposta era justamente trazer à luz todo o espectro das lutas sindicais que se faziam fortes na cidade. No início dos anos 2000, já com a consolidação das novas tecnologias, surge a Alquimídia, uma proposta  de comunicação crítica que trazia com ela também a possibilidade de criação de novos veículos, dos próprios movimentos sociais, com hospedagem solidária. Em 2004 nasce a revista de reportagem Pobres e Nojentas, que procurava ser uma referência de jornalismo de classe, focando seu trabalho nas pautas de interesse dos trabalhadores, distribuída gratuitamente nas comunidades. 

Nesse período é também de grande repercussão o trabalho do ativista Hamilton Alexandre, o Mosquito, que com suas Tijoladas, expressas num blog, trazia outros olhares sobre a política da cidade. Com ele também fazia coro o meu blog pessoal, chamado primeiro de Jornalismo Amoroso e de Libertação, transformando-se mais tarde no Palavras Insurgentes, também com o objetivo de mostrar as vísceras da cidade e as lutas dos trabalhadores. Igualmente importante foi a experiência do bairro da Lagoa da Conceição, com a criação da Folha da Lagoa, espaço de jornalismo crítico.

Mais tarde foi a vez da criação do Portal Desacato, gerido por uma cooperativa, trazendo a possibilidade de uma cobertura ampliada não apenas da cidade, mas também do Oeste catarinense. E em seguida, outras novas propostas de jornalismo independente como o do Coletivo Maruim, Catarinas, Estopim, o braço estadual do Jornalistas Livres, o Daqui na Rede e por fim a proposta da Associação das Rádio Comunitárias foram aparecendo, dando mais musculatura para o jornalismo independente que vinha sendo praticado sistematicamente por um grupo pequeno de jornalistas.  

Pois foi toda essa gente que se juntou nesta quinta-feira, dia 20 de fevereiro, para uma sessão de homenagens na Câmara dos Vereadores proposta pelo vereador Lino Peres. Um momento importante de encontro e de reafirmação do compromisso de construção de uma mídia comprometida com os trabalhadores, com os oprimidos, com os explorados da terra. Cada um dos veículos ainda em atividade recebeu um diploma de reconhecimento, e os que já não existem mais foram lembrados como deve ser, porque a luta pela soberania comunicacional é um edifício construído por inúmeras mãos de jornalistas e agentes comunicacionais que decidiram romper com a falácia do jornalismo imparcial. A memória histórica não pode nem deve ser apagada, porque essa luta não começou agora.

No capitalismo vivemos uma guerra de classes e é importante que a sociedade saiba que existe uma mídia que se emparelha com os dominadores e outra que atua irmanada com os trabalhadores. É uma batalha comunicacional travada cotidianamente. Claro que os veículos de comunicação independentes, populares e comunitários têm muito menos alcance e eficácia na relação com os meios de massa, mas eles seguem firmes na resistência até que chegue o dia em que os trabalhadores realizem a revolução e os meios de comunicação sejam controlados pela maioria. 

A sessão promovida pelo vereador Lino Peres, muito mais do que amaciar egos, foi o encontro de parceiros e parceiras que trabalham pela transformação. E, para além disso, a oportunidade da reafirmação pública desse compromisso coletivo, generoso e revolucionário. Na guerra de classe, estamos todos – os que lá compareceram, os que já passaram e os que chegam agora - na trincheira dos trabalhadores e como afirmou a jornalista Paula Guimarães na sua fala, representando todos nós: 

“... é um erro pensar que somos poucos ou poucas, preocupadas com construir uma narrativa anti-hegemônica. A cada dia somos muitas e muitos que, de maneira coletiva e em redes, nos movemos na contramão das fake news e na luta por uma democracia de fato e direito, só possível com a edificação do poder popular. Teorias e práticas atentas a desestabilizar verdades legitimadas sob violências são nossa maior potência. Por isso, governos autoritários não nos querem por perto. E não estaremos mesmo. Nosso lugar é do outro lado da trincheira”.

A mídia da classe trabalhadora está viva e se move, a despeito de tudo.