Capela São Sebastião, no Campeche. A missa terminou, mas boa parte das gentes não foi embora. E, pelos caminhos, outras pessoas chegavam. Vinham para um encontro importante demais: um encontro com a história. Dentro do salão foram se agrupando. Famílias inteiras, cheias de expectativa e orgulho. Amigos se encontravam e trocavam abraços. Crianças corriam e alguns moradores, bem velhinhos, vinham amparados por filhos e netos. Aquela seria uma noite de lembranças e de belezas. A comunidade viva do Campeche vinha reviver suas velhas histórias. O responsável por tudo isso é Hugo Adriano Daniel, nascido e criado nas veredas do Campeche, que, agora, professor de história, decidiu que era chegada a hora de registrar para a eternidade a vida pulsante que deu origem ao bairro. Mas não aquela história fria, de documentos e datas. Sua opção foi pela memória das gentes. Na conversa com os mais velhos do bairro, ele foi desenterrando a história viva, essa que é feita do sangue e do suor de homens e mulheres que, na força do braço, constroem o mundo. E a teia de vida tecida por Hugo se materializou num livro, que foi apresentado a todos. Por uma hora Hugo Daniel mostrou velhas fotos e foi tecendo a colcha de lembranças. Lugares, pessoas, causos. E da boca foram brotando nomes, datas, histórias engraçadas, histórias tristes. Muitos dos personagens ali estavam, cerimoniosos, ouvindo suas próprias histórias com reverência. E Hugo foi apontando e agradecendo um a um, uma a uma. E a comunidade respondia com palmas, risos, gritos e lágrimas. Seu Erasmo, velho comerciante na loja de quem quase todas as famílias do lugar se abasteciam, o primeiro ônibus, o padeiro que deixava o pão nas sacolinhas que ficavam penduradas nas portas das casas, a dona Nicota, os cantores da festa do Divino. O tempo passou num átimo, e quase ninguém se deu conta, mergulhados que estavam no Campeche de antes. As origens do bairro, a raiz de quase todos os que ali estavam. Poucas vezes na vida pude viver algo assim. Uma comunidade inteira abraçada em si mesma, se reconhecendo e reconhecendo sua própria história. Ali estava o gurizinho que sujava os pés em bosta de vaca nos potreiros do bairro, agora recompondo os caminhos que foram apagados pelo asfalto e pela expansão imobiliária. “Não podemos deixar que nos tirem a memória”, insistiu. E suas conversas com os velhos agora imortalizando a história. O livro “Campeche – um lugar no sul da ilha” é uma história de amor. E nas suas páginas saltam personagens inesquecíveis, histórias para guardar no fundo da memória e para serem contadas aos filhos e netos. Porque uma comunidade só pode avançar se lembra de si mesma, de suas raízes. O Hugo desenterra cada uma delas, deixa à flor da terra. E, assim, garante que a lembrança seja o adubo capaz de manter forte o fruto. O Campeche é um bairro de luta, um bairro jardim, um lugar onde a vida simples, do jeito açoriano, ainda resiste. E quando a gente vê o que viu ontem, fica cada vez mais claro de que a história e a cultura local seguirão preservadas e protegidas, porque vivem na memória. O lançamento do livro do Hugo, editado pela Insular, essa editora da ilha, do Nelson Rolim de Moura, o Nelsinho, que insiste em acreditar nos escritores locais, foi um desses momentos estelares, inesquecíveis. Bem do jeito campechiano, com refrigerante e bolo, com riso de criança, com o passo lento dos velhos, com a alegria daqueles que se conhecem e se amam. Uma noite para ficar guardada nas retinas. Um momento que fortalece e une todos os que seguem vivendo nesse bairro e cuidando dele. Foi bonito demais! Obrigada Hugo.
Elaine Tavares. Jornalista. Humana, demasiado humana. Filha de Abya Yala, domadora de palavras, construtora de mundos, irmã do vento, da lua, do sol, das flores. Educadora, aprendiz, maga. Esperando o dia em que o condor e a águia voarão juntos,inaugurando o esperado pachakuti. Contato: eteia@gmx.net / tel: (48) 99078877
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Este é o pressuposto teórico básico do jornalismo praticado pela autora deste blog. Seguindo a senda da Filosofia de Libertação, que busca olhar o mundo a partir do olhar da comunidade das vítimas do sistema capitalista, o jornalismo de libertação se compromete em narrar a vida que vive nas estradas secundárias, nas vias marginais. O jornalismo de libertação não é neutro nem imparcial. Ele se compromete com o outro oprimido e trata de, na singularidade do fato, chegar ao universal, oferecendo ao leitor toda a atmosfera que envolve o assunto tratado. (Jornalismo nas Margens. Elaine Tavares. 2004)
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