Houve um tempo na “fazendinha” em que havia medo. Os trabalhadores técnico-administrativos (TAEs) eram massacrados pelos professores. O que imperava era a política do favor. Tu me ajudas e eu te ajudo. Não era uma relação profissional, era um jogo de troca no qual estava implícito a submissão dos TAEs. Sabe-se de histórias de professores que mandavam TAEs buscar os seus filhos na escola, ou fazer compra no supermercado ou pagar contas no banco. Essas eram histórias que rolavam a boca pequena no sindicato, porque praticamente ninguém ousava verbalizar publicamente.
O tempo passou e as coisas foram mudando, mas eu lembro bem das grandes greves nos anos 1990, quando nos comando locais unificados eram necessárias grandes batalhas com os professores para que respeitassem os TAEs. Nós, TAEs, ainda brincávamos que para fazer o debate tinha muitos, mas para carregar faixas nas passeatas só a Doroti Martins e o Osvaldo Maciel, companheiros docentes de valor. A velha diferenciação entre trabalho intelectual e trabalho braçal se explicitando na prática da luta. Pedagogicamente tínhamos de retomar esse debate em cada greve ou luta pontual que nos unificava. Não há separação entre trabalho braçal e intelectual como já mostrou teoricamente Alfred Sohn-Rethel. Até mesmo o ato singelo de digitar uma nota no sistema exige intelecto, logo, ninguém é melhor que ninguém. Foram anos nessa discussão.
Hoje, não existe mais a fazendinha, não impera a política do favor, mas ainda temos remanescentes dos velhos tempos que consideram os TAEs como trabalhadores braçais, sem intelecto para dirigir os destinos da universidade. E ainda há quem os trate como “empregadinhos”. Mas, ocorre que os tempos mudaram mais ainda e temos outro perfil de trabalhador. A maneira de reagir ao assédio e ao desrespeito também mudou. Os TAEs atualmente estão lado a lado com os professores na formação, por exemplo. Grande parte tem mestrado e doutorado. E os mais antigos, que não lograram garantir a pós-graduação, conhecem com tanta profundidade a máquina administrativa que, muitas vezes, até superam os professores nesse quesito. Isso significa que o que nos diferencia não é a capacidade intelectual. Não era assim antes, embora muitos docentes acreditassem nisso, e não é assim agora.
Ocorre que também a universidade mudou. O trabalho do TAE ficou tão desvalorizado, tão degradado, tão mal pago, que poucos são os que querem continuar por aqui. Na primeira oportunidade, pulam fora em busca de vida melhor. Coisa absolutamente justa. Também mudou a relação do trabalhador com a universidade. Se antes éramos movidos por um robusto espírito de corpo, alavancado na defesa do serviço público de qualidade, na garantia de uma universidade pública e gratuita, hoje temos uma geração mais focada em si mesmo. É o sinal dos tempos. As pessoas escolhem o que é melhor para si, muitas vezes não levando em conta o que é melhor para a instituição. Eu vejo isso todos os dias no contato com colegas. E é difícil mudar esse pensar. Afinal, o cálculo que fazem é: por que lutar por um lugar que nos adoece? Por que defender um lugar que paga mal e que não apresenta possibilidade alguma de ascensão na carreira? Por que entregar a vida por um espaço que está sendo sucateado e destruído lentamente? E a saída muitas vezes é: vou cuidar de mim.
Esta situação me entristece, mas não podemos demonizar o trabalhador por isso. Ele é fruto do tempo em que a política deixou de ser um espaço frutífero de debate, em que o coletivo perdeu força diante das necessidades individuais e a realidade o sugou para dentro das redes, que mais geram solidão que belezas. Vejam o que é luta pelo trabalho remoto. Ficar em casa, ficar sozinho, ficar sem a presença incômoda do outro, do conflito, do assedio, da intolerância, do preconceito. Ficar em paz, mediado apenas pela máquina. Esse é o sonho moderno.
E qual tem sido o papel dos intelectuais da universidade nesse debate? Como têm se colocado diante do drama da vida material do trabalhador, acossado pelo baixo salário, pelo transporte ruim, pela expulsão da cidade que cobra aluguéis estratosféricos? Quem se importa? Mais fácil apontar o dedo, chamar de incompetente, relapso e outros quetais.
Enfim, a realidade da universidade não muda sozinha, nem por obra e graça de uma administração. Ela é também retrato do tempo. O que muda a universidade é a mudança da sociedade inteira. Ela não é um gueto, é um espaço onde se expressam os dramas gerais. O que nos resta é seguir, discutindo, debatendo e avançando, não só na direção da universidade necessária, mas na sociedade necessária.
Estrada longa...
