terça-feira, 28 de agosto de 2018

O Xangô do São Francisco



Era assim. Todas as tardes era hora de ir ao Xangô, um espaço de bar/discoteca/ salão que havia na beira do Rio São Francisco, em Pirapora. Por volta das cinco horas o tempo era de um banho nas duchas do rio e depois ficar à toa, pernas para o ar, vendo o pôr-do-sol, aquela quenturinha envolvendo o corpo. 
A vida passava devagar naquelas lindas paragens das Minas Gerais. 

Uma cuba libre, a cabeça tonteada. A cidade toda passava por ali, pelo menos a que nos interessava. O flerte, o olhar oblíquo, aquela coisa morna do norte de Minas. Um deixar-se estar, apenas fruindo o som do rio, passando devagar. Tudo era devagar. Por vezes um beijo, um volteio de corpo, o mergulho nas águas profundas. Pirapora. Pira Poré. 

E no som que ecoava das caixas do Xangô, Alceu... E a belle de jour... as tardes de dias azuis... Era bom! E a gente, no azul, também viajava. Saudades daqueles verdes anos!

domingo, 26 de agosto de 2018

Sobre o direito de se manifestar na UFSC


Entrei na UFSC no ano de 1994. Fui trabalhar na Agecom sob as vistas do Moacir Loth e Raquel Moysés, dois jornalistas extraordinários. Ali aprendi a amar a UFSC. Não com esse amor bobo, de trabalhador acrítico, que veste a camisa pra agradar patrão. Mas com o amor compromisso, de quem sabe a importância que pode ter uma casa de saber quando for verdadeiramente popular. Um amor crítico também, capaz de enxergar as coisas erradas e denunciar. Como quando quase perdi o emprego por denunciar em nível internacional o assassinato de cachorros no HU, que eram usados pelos estudantes e jogados no lixo, ainda vivos. Aquilo foi um furdunço, minha cabeça quase rolou.

Mas, foi justamente esse episódio que colocou em questão a tal da liberdade de expressão. Como jornalista na UFSC eu deveria fazer vistas grossas ao crime? Ou, de maneira responsável, denunciar e provocar a mudança? Creio que fiz o que era certo. Mas, não faltaram os censores, os apontadores de dedo, os críticos do jornalismo. Acreditavam esses que, proteger e amar a UFSC era ficar calado diante do horror. Não eu. E, com o apoio do chefe e dos colegas, venci essa parada. 

Depois, ainda na Agecom, mas sob outra chefia, vivi a dor da censura. Matérias feitas que iam para o lixo, trabalhos que não me permitiam fazer, a voz calada, a impossibilidade da expressão. Foi um tempo ruim, duro e triste. Mas, superei. Encontrei em meio a toda essa dor, o caminho para a construção do IELA, onde hoje atuo. E da voz sufocada, da censura e da impossibilidade, voltei a escrever e dizer das coisas da UFSC e da América Latina. Porque é a alma do jornalismo ser crítico. Ou isso, ou não é jornalismo. 

A UFSC sempre foi esse espaço contraditório. Em alguns lugares impera o conservadorismo, o reacionarismo, o desrespeito. Em outros aflora a liberdade, a beleza, a comunhão. É uma instituição pública e, como tal, abriga a pluralidade que existe na sociedade mesma. E, cada um de nós, professores ou técnicos, temos a liberdade de expressar o que quisermos. Em alguns cantos é mais difícil que outros, mas é a batalha normal da vida. A gente enfrenta e avança. 

Foi por se saberem numa instituição pública e afeita a democracia que trabalhadores, estudantes e membros da comunidade expressaram sua dor e sua inconformidade com a tragédia que se abateu sobre o reitor Luiz Carlos Cancellier, preso de maneira violenta, levado ao presídio e impedido de entrar na UFSC por conta de uma denúncia de “obstrução de justiça”.  

Era o dia da celebração do aniversário da UFSC. E era para ser uma data festiva. Mas, não foi. O Cao havia se matado. Jogara-se do alto do xopingue por não suportar a dor de ser banido da universidade, espaço que amava a mais não poder. A dor, para os amigos, a perplexidade para os conhecidos, o estupor até para os inimigos. Ele sequer completara metade da gestão. Sua figura galhofeira, sempre com o cigarro entre os dedos, não mais circularia pelo Hall da reitoria em busca de espaço para “fumaçar”.  Fora levado à morte por uma ação truculenta e desnecessária. 

Naquele dia, que deveria ser de festa, as gentes ainda estavam de luto. Mas, a UFSC tinha de seguir em frente, então se decidiu que o que era para ser festa, seria celebração da vida e protesto. Foi assim que as gentes da comunidade construíram faixas, cartazes e palavras de ordem. E foram para o Hall onde estavam as autoridades. Aquele dia de aniversário seria diferente e inauguraria a foto do Cao na galeria dos ex-reitores. E os amigos, colegas e companheiros se manifestariam contra os abusos que tinham sido praticados pelos agentes do poder público, da polícia e da justiça. Colocaram seus nomes e rostos em relevo, para lembrar que a ação fora praticada por pessoas, com nome e sobrenome. Porque o Estado não é um ente, ele é feito de gente. 

Aquele foi um dia triste. Para todos. 

Pois agora, passados meses daquele momento, o atual reitor, Ubaldo Balthazar,  e seu chefe de gabinete, Áureo Moraes, foram denunciados por um procurador do Ministério Público, Marco Aurélio Dutra Aydos, por, segundo ele, ofender a honra da delegada que conduziu a prisão de Cancellier, Érika Marena. Isso porque ela era um dos rostos estampados nas faixas das pessoas que protestaram. O procurador quer que os dois paguem uma multa de 15 mil reais por danos morais, quantia estipulada pela própria delegada. Alega ainda que os dois, reitor e chefe de gabinete, deveriam ter impedido a manifestação. 

Ora, desde que a UFSC foi inaugurada, nos anos 60 do século passado, as pessoas protestam por aqui. E nem mesmo na ditadura militar algum reitor impediu a livre manifestação. É fato que sempre foi comum o chamamento da polícia para conter as manifestações. Mas elas nunca foram de fato impedidas. As pessoas ficam ali, enfrentam a polícia, gritam, levantam seus cartazes. 

Agora imaginem num dia de luto e tristeza, quando as pessoas precisavam expressar sua indignação e quando todos ali estavam irmanados no mesmo sentimento de impotência diante da morte trágica? Quem haveria de impedir que ação se fizesse? Cada um e cada uma que se somou naquele hall estava ainda vivendo a perplexidade. E os rostos dos algozes do reitor morto era uma necessidade do luto. 
Nem o reitor, nem o chefe de gabinete teriam podido impedir a manifestação. Não o fizeram nem no próprio velório do reitor, quando uma estudante se manifestou em protesto contra o reitor morto. Porque a expressão ainda é livre nesse país, o qual muitos ainda chamam de democracia. Porque as pessoas ainda podem gritar, protestar, denunciar. E, a considerar a “normalidade” da UFSC, se a manifestação não estava colocando em risco ninguém, que motivos haveria para impedi-la?

Não posso entender o que moveu esse procurador público a tornar “crime contra a honra” um grito de dor, um protesto legítimo.  Penso que numa democracia – como dizem os juízes do Lava-Jato – ninguém é intocável. Sendo assim, os agentes públicos estão todos submetidos à mesma assertiva. Também podem cobrados, criticados e denunciados. 

Assim, nesses dias de imobilidade e medo, quando tudo nos convida ao silêncio assustado, venho manifestar esse velho amor pela UFSC, que extrapola os dirigentes se plantão. E nesse amor, manifestar também minha solidariedade aos colegas Áureo e Balthazar. E dizer que nessa específica batalha, pelo direito de garantir a livre expressão da dor, estamos juntos. 

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

A nova escravidão


Sempre que se fala em escravidão, vem à mente a cena do negro, acorrentado, vindo para a América nos navios negreiros do século 17 e 18. Naqueles dias, durante o processo de invasão e dominação dos territórios africanos e americanos, esse era o grande negócio. Usar as pessoas como mão de obra barata para a acumulação de riqueza. Portugal e Espanha desbravaram os novos espaços, destruíram as comunidades existentes e implantaram o saque. A Inglaterra dominou a rota e o mercado do tráfico. Tudo era uma grande operação comercial destinada a enriquecer uns poucos. Esse longo processo foi o responsável pela dizimação dos povos originários no chamado “novo mundo”, nossa Abya Yala, e pela desagregação comunitária nos espaços do continente africano. E foi essa movimentação de conquista de território e escravidão que deu força ao sistema capitalista. A tal da revolução industrial, tão decantada pelos ingleses, nunca teria existido se não fosse esse quadro de exploração, dor e miséria. Para que a Europa se fizesse rica, a América e a África tiveram de ser destruídas.

Durante séculos se lutou contra a escravidão e precisou muito sangue para que essa prática fosse abolida. E, na verdade, quando o sistema escravista foi finalmente varrido das Américas, o motivo foi igualmente econômico. O escravo passou a ser um problema para o sistema capitalista que se consolidava. Os “donos” tinham muita despesa com os escravos e ainda precisavam cuidar de suas “propriedades”. Melhor mesmo é que as pessoas se virassem sozinhas. Foi aí que veio a “libertação”. Os escravos passaram a ser pessoas livres que, então, poderiam vender sua força de trabalho. Assim, os fazendeiros e empresários não precisariam mais ter qualquer despesa para sustentar a mão de obra. Cada um que se sustentasse a si mesmo. Foi perfeito. Assim, nasceram as fábricas e a vida urbana, com as levas de gente explorada formando vilas miseráveis próximas aos locais de trabalho.

O tempo passou e a escravidão virou apenas tema de filme e romance, como se fosse uma mera lembrança do passado. Ledo engano. Nas entranhas do mundo, essa prática de vileza seguia sendo usada. Ainda assim, sempre foi combatida pelos movimentos de direitos humanos e não são poucos os episódios de “libertação” que são empreendidos em fazendas ou empresas. Mesmo nas metrópoles, como São Paulo, por exemplo, a cada tempo pipocam os casos de estrangeiros sendo mantidos como escravos em vários tipos de negócio. Usar as pessoas como coisas segue sendo uma prática muito comum.

Mas, se esses casos, aparentemente isolados, são denunciados e vistos como um ataque aos direitos humanos, isso não significa que o sistema capitalista – que é um sistema de exploração humana – não tenha encontrado outras formas de escravizar e dominar. Na verdade, é como se a mesma história se repetisse ad infinitum.

Se no passado, as grandes navegações, que exploraram novas terras, permitiram a invasão e o saque desses lugares. Hoje, as cruzadas antiterroristas cumprem o mesmo papel. Quem denuncia essa situação é o jornalista Antony Loewenstein, no livro “Capitalismo do desastre: uma radiografia da catástrofe”. Segundo ele, toda essa política de destruição dos países do Oriente Médio, iniciada na chamada “Primavera Árabe”, nada mais é do que o novo jeito de garantir escravos para a movimentação do sistema. Ele mostra que empresas multinacionais como a G4S, Serco e Halliburton, angariam elevados lucros com a calamidade em países como o Afeganistão, Iraque, Síria, Líbano, Haiti e Nova Guiné. E qual é o negócio dessas empresas? Prisões privadas para refugiados de guerra.

Numa entrevista à jornalista estadunidense Amy Goodman, Loewnstein contou como isso acontece. “Essa empresas montam enormes armazéns nas zonas de guerra, que servem como centros de detenção de refugiados e requerentes de asilo. Quando os holofotes se apagam, e as ONGS deixam de ajudar para passar à próxima catástrofe, essas empresas aparecem, com funcionários recebendo gordos salários para institucionalizar a escravidão. Chegam com a promessa de recuperar os países e o fazem com a indústria da escravidão”.

Segundo o jornalista, armazenar refugiados está sendo um dos negócios mais lucrativos do século. Um exemplo dado por ele é o da empresa Transfield Services, que administra - com dinheiro do governo da Austrália - um centro de detenção na Papua Nova Guiné. Lá, perto de 90% dos presos são refugiados, que vivem em condições desumanas, mulheres são violadas e ninguém pode entrar para ver as condições dos prisioneiros. Eles vivem em situação de escravidão e prestam serviços. Ou seja, seu trabalho vira lucro para a empresa, enquanto eles apenas sobrevivem, nas piores condições.

Ele também observou esse mesmo sistema em prisões dentro dos Estados Unidos, como uma do estado de Geórgia, que é administrada pela empresa Corrections Corporation of America. O sistema é o mesmo. Centenas de presos – no geral negros e pobres - servindo como escravos. “E lá dentro é o inferno. Direitos Humanos não existem”. E, para a sociedade, esse sistema parece ser perfeito, pois uma boa parte apoia. Tanto que o atual candidato à presidência dos EUA, Donald Trump, fala abertamente que é necessário que os EUA se livrem de 11 milhões de imigrantes em situação irregular. E aí, a indústria da prisão privada parece ser a solução perfeita. Conforme Anthony, empresas como a CCA e a GEO Group, que administram prisões privadas nos EUA e fora deles, tiveram lucros de mais de 40 milhões de dólares nos últimos anos. Para se ter uma ideia do volume do negócio, nos Estados Unidos, são detidos 34 mil refugiados a cada noite. Agora imaginem esses exércitos trabalhando e produzindo lucro, sem receber salário. É perfeito e legal!

Em outubro de 2015, durante uma grande marcha contra a violência policial realizada na cidade de Nova Iorque, outro jornalista, Chris Hedges, que recentemente lançou um livro chamado “O império da ilusão: o fim da alfabetização e o triunfo do espetáculo” , também denunciou essa nova fase da escravidão moderna concretizada nas prisões privadas. Segundo ele, a lógica que está colocada para o mundo é a do fim da alfabetização para os pobres, a retirada do direito à educação, para que eles venham a se tornar os potenciais “usuários” das cadeias privadas, servindo assim de mão de obra para a geração de lucros. "Há maridos e esposas separados, às vezes para sempre, de seus cônjuges. Há irmãos e irmãs que foram dilacerados, mães e pais que estão trancadas atrás das grades, cujas vidas minúsculas foram destruídas, e crianças cujas infâncias foram roubadas”.

Na sua fala aos nova-iorquinos ele insistiu: “Clamamos por todos os que se tornaram invisíveis, os que desapareceram por trás dos muros da prisão, que se tornaram presas do estupro, da tortura, do espancamento, do isolamento prolongado, da privação sensorial, da discriminação racial, das gangues de cadeia, do trabalho forçado, da comida podre, sem cuidados médicos, crianças presas com adultos, prisioneiros forçados a tomar medicamentos para induzir letargia, pouco ou nenhum aquecimento e ventilação, com décadas penas para crimes não-violentos e violência endêmica. Há que condenar um Estado que perpetua esse abuso”.

Ele também insiste que o encarceramento hoje é um negócio extremamente lucrativo e não são apenas as administradoras de presídio que ganham com o trabalho dos presos. Há as que fazem as chaves, as empresas de telefonia, de aparelhos de segurança, de alimentos, de roupas de cama, enfim, tudo o que gira em torno dos complexos. Hedges denuncia também que são os lobistas de empresas como a Corrections Corporation of America, os que escrevem as leis que asseguram penas mais longas para crimes comuns, tudo isso para encher as prisões. “Nesse pool de empresas estão as que chamamos de cumplices da nova escravidão: Chevron, Bank of America, IBM, Penney, Sears, Wal-Mart, Eddie Bauer, Wendy, Procter & Gamble, Johnson & Johnson, Motorola, Caterpillar , da Microsoft, Texas Instruments, Pierre Cardin e Target”.

Quem vê na televisão os debates sobre a redução da maioridade penal pode pensar que há uma grande preocupação nacional com relação á segurança das pessoas, mas não é nada disso. Todo esse debate está ligado à logica da nova escravidão. Tanto que na rabeira dessa proposta vem também a ideia dos presídios privados, afinal, como alegam alguns: “bandido tem que trabalhar para pagar o estado”. Muito poucos se importam em saber se os que estão na prisão são de fato, bandidos.

No Brasil, segundo dados do Ministério da Justiça, existem mais de 600 mil encarcerados (a quarta maior população carcerária do mundo), 200 mil a mais do que o próprio sistema suporta. Esse número cresceu 80% nos últimos dez anos, o que mostra uma política cada vez mais forte de penas de reclusão. Notem que 41% dos presos estão em situação provisória, ou seja, sem julgamento. E, conforme informações Conselho Nacional de Justiça, pelo menos 20 pessoas podem estar presas por puro “esquecimento”, ou seja, já cumpriram a pena, mas o sistema não liberou.

Os dados da Infopen são claros: 67% dos presos são negros, 56% são jovens e 53% não concluíram o ensino fundamental. Três únicos delitos são os responsáveis pela prisão de mais de 59% deles: tráfico (27%), roubo (21%) e furto (11%). Ou seja, os verdadeiros bandidos ou são poucos ou não foram pegos.

E justamente a tal da superlotação do sistema carcerário que tem levantado a ideia das prisões privadas. Tudo feito no jogo de cena do legislativo, com discursos bem articulados de defesa do cidadão. Desde 2012 que se vem tentando passar uma lei que permita a criação desses armazenamentos privados de pessoas, ainda sem sucesso. Ainda assim já existem experiências como a da Penitenciária Industrial do Paraná, que é administrada como uma empresa desde 1999. Conforme informações da Pastoral Carcerária Nacional, outras 29 unidades já atuam de maneira privada dentro da proposta das PPPs, as Parcerias Público-Privadas, um eufemismo criado para respaldar a nova escravidão. Ou seja, a administração é pública, mas os demais serviços são privados. E o consenso que a mídia cria sobre isso é de que lá, os presos trabalham e são produtivos. Ah, que bom, dizem os bons cristãos!

É fato que as prisões são hoje mero depósito de gente, sem chance alguma de ressocialização, e esse tem sido o principal argumento a favor da “profissionalização” dos presos. Mas, o que não se problematiza é justamente o reconhecimento sobre quem é o preso e porque ele está encarcerado.

Conforme as denúncias levantadas e comprovadas pelos jornalistas estadunidenses, em nível mundial a lógica que comanda a proposta de privatização dos presídios é a da geração de lucros para algumas empresas, com o uso de mão de obra escrava. Por isso, em boa parte dos países se legisla na defesa de novas leis, penas longas e, principalmente, na constituição de novas “figuras” que precisam ser tirada das ruas por oferecem risco à sociedade: refugiados, imigrantes e terroristas (que são os militantes sociais). Tudo isso articulado para que se encham as prisões.

Não bastasse isso, ainda há o sistemático processo de emburrecimento das gentes com o fechamento de escolas e a privatização da educação.

Ou seja, voltamos aos velhos tempos em que apenas a aristocracia se ilustrava, enquanto gerenciava seus escravos.

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

24 dias de greve de fome


Hoje completam 24 dias que militantes ligados a diversos movimentos sociais brasileiros realizam uma greve de fome em frente ao Superior Tribunal Federal, reivindicando que sejam colocadas em votação as ações que questionam a legalidade da prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, após julgamento de segunda instância, etapa em que o acusado ainda poderia apresentar recursos sobre sua inocência. Tudo o que querem é que o STF decida de uma vez se a prisão é ou não é constitucional. Eles entendem que se os tribunais são céleres para prender o ex-mandatário, porque não podem ser céleres para decidir essa questão? 

Sete pessoas se mantém firmes na greve, apesar de uma delas ter passado mal durante um ato em frente ao STF há dois dias. Ainda assim, depois de medicada Zonália Neres dos Santos, militante do MST do Mato Grosso do Sul, voltou ao movimento. Com ela estão Frei Sérgio Gorgen, Rafaela Alves, Vilmar Pacífico, Jaime Amorim, Luiz Gonzaga (Gegê) e Leonardo Soares. Todos já apresentam visíveis consequências no aspecto físico, mas a presidente do STF em nenhum momento se mostrou inclinada a discutir o mérito da prisão de Lula. 

Roberto Malvezzi, da Comissão Pastoral da Terra, que acompanha o sacrifício dos trabalhadores, lembra que a greve de fome sempre foi arma de pessoas de extrema grandeza humana. “Recorreram a ela Gandhi, pela libertação da Índia, Martin Luther King, pelos direitos civis dos negros nos Estados Unidos, Mandela, pelo fim do apartheid na África do Sul, índios Mapuche dentro da prisão, pela liberdade de seus prisioneiros e pela defesa de suas terras, assim por diante. Aqui no Brasil, Frei Luiz Cappio fez duas longas greves de fome em favor da distribuição da água no Nordeste por adutoras simples e captação da água de chuva, contra o projeto faraônico dos imensos canais que favorecem mais às empreiteiras que ao povo necessitado de água”.

Malvezzi entende que uma greve de fome é também um ato violento e amoroso. Primeiro porque coloca a vida mesmo em risco, e segundo porque a vida em questão nunca é a do outro, mas a de quem se propõe a esse ato de grandeza. “Essas sete pessoas em greve de fome dizem que o Supremo Tribunal Federal não cumpre com suas prerrogativas, joga pessoas na prisão antes que possam esgotar todos os recursos da defesa e jogam o país na instabilidade jurídica e política. Enfim, sujeitam qualquer brasileiro aos arbítrios da vontade individual de algum juiz, ou mesmo de um coletivo de instância menor”.

A greve de fome iniciada há 24 dias é parte da mobilização de petistas e militantes do movimento social pela libertação de Lula. Enquanto a vigília segue em frente ao STF em Brasília, em Curitiba mantem-se também a rotina do acampamento que diariamente saúde o ex-presidente de manhã e à noite. 

Os militantes entendem que o judiciário brasileiro se utiliza de dois pesos e duas medidas, na medida em que faz vistas grossas às acusações contra políticos de outros partidos, como o PSDB, MDB, e insiste na perseguição ao PT. Há poucas semanas o deputado federal João Rodrigues (PSD), que estava preso também por suposto crime numa lei de licitação, foi colocado em liberdade pelo STF, atendendo a uma liminar. Com isso, o deputado está apto para disputar sua reeleição, direito que tem sido negado a Lula.

A greve de fome em frente ao STF busca pressionar os ministros para que definam de maneira igual a situação de Lula, para que ele possa concorrer à presidência. Mas, ao que parece, o sacrifício dos militantes não será levado em consideração. Não há indícios de que a presidenta do tribunal, ministra Carmem Lúcia, decida por realizar a discussão sobre a legalidade da prisão de Lula, pelo menos não até outubro. 

Enquanto isso, os trabalhadores, que tem apenas seus corpos para oferecer, estão definhando a olhos vistos. Será necessário que alguém perca a vida para que todos possam entender que o judiciário é uma instituição de classe? E, é claro, uma instituição da classe dominante, que,  atuando como avalista dessa nova modalidade de golpe que avança pela América Latina, não terá qualquer compaixão pelas vidas que estão sendo colocadas em risco. 

Um simples ato para o colégio de ministros pode definir vida ou morte. Mas, pela forma como o judiciário vem atuando ao longo de todo o processo é pouco provável que ceda. A proposta da classe dominante é não permitir que Lula concorra. Depois das eleições, tudo pode mudar. Mas, agora, não. 

Temo pela vida dos trabalhadores, particularmente pela de um que me é caro – porque o conheço pessoalmente desde anos   – Frei Sérgio Gorgen. Um homem dedicado à vida dos caídos, um guerreiro na luta pela terra, pelos direitos humanos, pela vida. E, assim como ele, cada um e cada uma: Rafaela, Zonália, Vilmar, Jaime, Gegê e Leonardo, que certamente tem amigos, filhos, pais, seres que os amam, e que agora passam pelo drama de verem os seus amados em risco, por conta de que um tribunal não quer discutir uma ação. Uma única ação. 

No triste cenário do golpe brasileiro, é pena que nem mesmo a vil democracia burguesa possa se fazer. 

terça-feira, 21 de agosto de 2018

Sobre ser da fronteira

Foto: na beira do rio Uruguai/São Borja.

Eu nasci na fronteira entre Brasil e Argentina, e desde bem menina já sabia falar três línguas: o português, o espanhol e o portunhol. Estudei no Passo, o bairro de São Borja que fica na beira do rio, lugar de onde saía a balsa para Santo Tomé. Meus pés de menina pisavam as pedrinhas e a lama do Rio Uruguai quase todos os dias, e no fim de semana, com o pai, passávamos para o outro lado para comprar batatada e balas Mumu. Em épocas de enchente, corríamos para a beira do rio para ver passar as madeiras, conduzidas pelos paysanos e gaúchos, que as manejavam gritando: ibibibiuuuuururu.

Na fronteira, aprendi que a vida mesma não tem divisão. Argentinos e uruguaios eram como nós, filhos de uma mesma pampa, com história comum, com costumes comuns. São Borja, Uruguaiana, Quaraí, cidades irmãs de Santo Tomé, Paso de los Libres, Artigas. Nunca pude perceber onde cada uma começava ou terminava, ainda que as aduanas e os milicos de cara amarrada interpusessem paradas e rituais. A pampa é quase um estado de espírito. Está em nós e não lá fora.

Aprendi a ser latino-americana assim, ainda bem niñita, nesse enfrentamento diário com a vida, com a história e com a cultura. Ora tomando mate com leite, ora amargo, enchendo o pão com doce de leite, ou tomando limonada, comendo matambre, milanesa, dançando vanerão e chamamé. Quando comecei a entender o mundo, então, já estava tomada pela Pátria Grande. Não poderia ser diferente. Cada voz argentina era de um irmão. E aos argentinos e uruguaios foram se somando os bolivianos, chilenos, paraguaios, colombianos, peruanos, equatorianos, venezuelanos, cubanos, nicas, guatemaltecos, hondurenhos, mexicanos, caribenhos... todos e cada um.

Mas, é bom que se esclareça. Há dois tipos de fronteiriço. Os que ocupam as canhadas para delas se apossar (os patrões) e os que, sem nada além da força de trabalho, vivem nos descampados a dura lida do existir (os trabalhadores). Os primeiros não se ocupam de encontros humanos, são produtores de mercadoria, caçadores do lucro. Já os segundos veem o território como um amplo espaço por onde podem andar e viver, enredados com os hermanos, na mesma faina da manutenção da vida. Esses, trabalhadores, são seres amalgamados de horizontes diversos, e têm vários mundos girando dentro de si. Por conta das mesmas necessidades, não pode lhes caber preconceito, não pode lhes caber o ódio, não pode lhes caber o medo do outro. Porque estão também tecidos de outridades, o tempo todo e todo o tempo.

A única forma de mudar a forma amorosa de um fronteiriço é inventar um inimigo. E é assim que se fazem as guerras. Os grandes forjam sonhos de conquista e disseminam a ideologia do outro, no outro lado, como inimigo. Assim, aquele que até ontem tomava mate com a gente vira um monstro a quem temos de eliminar. A guerra é dos grandes, mas somos nós os que entregamos os corpos.

Amigos fronteiriços. Não há fronteiras. Tudo o que existe são desenhos pintados pelos que estão no poder. Assim se balcanizou a américa baixa. Pela ganância e pelo desejo de poder de uns e outros. Não fosse isso hoje seríamos todos patriagrandinos, filhos do mesmo continente. Com nossas particularidades, é fato, mas cheios dessa universalidade abyayálica que nos iguala. Toda terra nos pertence e por ela temos o direito de andar.

Quase 70 milhões de pessoas estão agora, agorinha mesmo, enquanto lês esse texto, saindo de sua terra ancestral. Caminham não porque querem – como eu, criança, indo buscar balinhas Mumu - mas acossados por guerras, fome, medo, ódio, engano, incompreensão. Carregam seus filhos, tralhas e esperanças. Tudo o que querem é um olhar doce, uma mão amiga, um pão, e a compreensão de que somos todos um pequeno gênero humano.

Que as pessoas que vivem nas fronteiras não caiam no conto dos latifundiários, dos empresários, dos gananciosos, dos comerciantes, dos que estão no poder. Não acreditem que o outro – igual a ti - é o inimigo. O inimigo é bem diferente. É o que te explora e te consome aí mesmo, no teu lugar. O que rouba tua força de trabalho, o que te incita a lutar guerras por eles, guerras que nem sequer podes entender.

Nós, os trabalhadores, temos de fazer aflorar a consciência de classe, ficar junto daquele que sofre o mesmo que nós, ainda que ele mesmo não perceba. Não nos deixamos levar pela invenção de um inimigo imaginário. O outro, que sofre, é meu/teu irmão. Com ele enfrentaremos a classe dominante. Com ele destruiremos o capital.

Se eu o renego, se queimo suas roupas, se maltrato seus filhos, estou dando linha para os que nos temem. Esses que sabem, que se estivermos juntos, ficamos mais fortes e podemos mudar o mundo. Por isso nos dividem e nos afastam. Não vamos temer o migrante, o que caminha, o que foge, o que procura vida melhor. Vamos travar com ele aliança e virar o mundo “patas arriba”.

O fronteiriço não pode erguer cercas, nem muros. O fronteiriço, por conter tantos, tem de ser ele mesmo espaço de comunhão.

Por fim, o fato é que nós, os trabalhadores, somos todos fronteiriços, sempre à beira de algum alambrado. E, como diria Victor Jara, é tempo de desalambrar.


quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Sobre a informação e o pensamento crítico


Frente Parlamentar será presidida por Dirceu Dresch 


Raul Fitipaldi, do Desacato, é um dos articuladores

A Assembleia Legislativa de Santa Catarina lançou nessa terça-feira, dia 14 de agosto, a Frente Parlamentar pela Democratização da Comunicação, sob a coordenação do deputado Dirceu Dresch (PT). Essa frente foi uma proposição que surgiu da articulação de vários meios de comunicação independentes, livres e comunitários, puxados pelo Portal Desacato, preocupados em discutir de maneira mais sistemática a questão do monopólio da informação, bem como o monopólio das verbas públicas.

É sabido que a mídia no Brasil está sob o domínio de poucas famílias e uma igreja, todos atuando conforme os interesses da classe dominante. Nessas empresas de comunicação que produzem praticamente tudo o que se vê, lê e ouve, o espaço para o contraditório é praticamente inexistente. As lutas dos trabalhadores, os grandes problemas nacionais, a crítica sistemática que deveria ser a característica do jornalismo, tudo isso fica ausente. Resta a grupos independentes de jornalistas ou comunicadores sociais, mostrar o outro lado das notícias, praticando efetivamente o jornalismo.

Mas, esses veículos independentes ou comunitários  no geral estão fadados a ineficácia, uma vez que enfrentam muitas dificuldades para garantir estrutura e para produzir a informação de qualidade. Como bem disse a presidenta da Cooperativa Desacato, Rosângela Bion de Assis, é bem capaz que uma cooperativa pague mais imposto do que uma rede como a Globo, sempre aliada do poder. Só em 2002, por conta da Copa do Mundo, a emissora dos Marinho sonegou 358 milhões em impostos. Isso foi divulgado com exclusividade pelo jornalista Miguel do Rosário, a partir de um documento oficial da Receita Federal, o Termo de Verificação e de Constatação Fiscal, datado de 25 de julho de 2006 e assinado pelo auditor Alberto Sodré Zile.

Isso diz respeito apenas a 2007. Agora imaginem se uma rádio comunitária deixar de pagar algum imposto? O que aconteceria com ela? Com certeza, fecharia.

E é assim que as grandes empresas de comunicação vão acumulando capital, sempre de mãos dadas com os governos de plantão, servindo aos interesses de quem domina o sistema de produção. Por isso, o monopólio. Aos governos é importante ter essas empresas sob seu cabresto, e às empresas é bom poder ganhar dinheiro à larga. “Quid pro quo”, a boa e velha troca de favores.  

Nesse universo da comunicação há pouquíssimo espaço para a comunicação da classe trabalhadora, ou seja, da maioria da população. Nessas empresas a notícia que interessa a essa classe não tem vez. Sendo assim, é preciso atuar na margem. Foram assim que surgiram os jornais sindicais, buscando chegar ao trabalhador. E, depois, os jornais partidários, também procurando encontrar um caminho por onde a informação não hegemônica pudesse se expressar. E tudo isso sempre foi feito a partir da arrecadação vinda dos próprios trabalhadores. Uma batalha desigual, visto que os trabalhadores não conseguem manter veículos de massa com abrangência nacional. Afinal, só a Rede Globo é dona do melhor sinal de televisão do país, chegando aos confins das terras, abrangendo quase 97% do território nacional.  Como competir?

As novas tecnologias, com a assunção da rede mundial de computadores, ofereceu um novo espaço para as mídias independentes, que começaram a criar suas páginas e a usar as redes sociais. Mas, essa é uma realidade enganosa, visto que o controle da rede não é dos próprios veículos. Também é preciso pagar para usar a www, e pagar caro. Além disso a “rede” tem um dono e esse dono pode tirar do ar a qualquer momento qualquer página de notícias que não esteja adequada aos seus interesses. Sendo assim, os meios comunitários, independentes, sindicais ou populares seguem refém dos donos do capital.

Recentemente comemorou-se no Brasil o fato de a rede social de Mark Zuckberg ter tirado do ar vários sítios da extrema-direita, basicamente formado por notícias falsas. Mas, o pau que bate em Chico, bate em Francisco também. Nessa semana a mesma rede excluiu páginas da Telesur e de outras agências de notícias sobre a Venezuela que produziam em inglês. Não tinham notícias falsas, mas informações sobre a Venezuela que o governo de Donal Trump não quer que seus compatriotas saibam. Assim, qualquer coisa que não interesse ao capital, é eliminada, sem dó nem piedade. Isso significa que a tal “democracia”  da internet segue o mesmo diapasão da democracia política que existe no capitalismo. Só é respeitado o que serve ao poder e o que não incomoda muito.

É esse debate que as entidades sociais e os veículos anticapitalistas e anti-hegemônicos querem fazer dentro da Frente Parlamentar. Colocar à nu a realidade monopólica da comunicação, que existe também em nível estadual. Em Santa Catarina, por exemplo, uma única empresa domina emissoras de televisão e jornais em praticamente todas as regiões. O espaço para o jornalismo é absolutamente reduzido aos pequenos veículos, que não conseguem o alcance e a eficácia dessa única rede.

Não bastasse isso, são essas poucas empresas que abocanham todos os recursos do estado destinado à mídia. A verba, que gira em torno dos 100 milhões de reais, é centralizada sempre nos mesmos meios e distribuída pela mesma empresa de publicidade há anos. Esse ano, finalmente, depois e muitas denuncias e pedidos de explicação, o governo do estado abriu licitação para contração de nova empresa, ou empresas, para gerir as verbas. A entrega de propostas está marcada para setembro. Ainda assim, certamente a distribuição seguirá sendo a mesma, sempre nos mesmos grupos. Nada para as mídias menores. É nesse campo que a Frente pretende atuar. 

A intenção dos comunicadores e jornalistas que provocaram a formação da Frente Parlamentar é agora pressionar desde dentro da casa das leis para que haja mais equidade na distribuição das verbas públicas. Santa Catarina tem mais de cem rádios comunitárias e dezenas de grupos comunicacionais menores que também têm direito a receber verbas públicas.  Debates públicos e pressão interna na AL devem ser os pontos de luta.

É fato que no modo capitalista a tal da “democracia” sempre será capenga, mas para que venha outra forma de organizar a vida e para que a comunicação seja realmente soberana é preciso lutar aqui e agora, avançando no que for possível dentro do sistema, sem perder o foco na batalha mais importante que é a de destruir esse modo de produção. É a caminhada histórica das gentes em luta que muda a vida.

Enquanto isso cabe a mídia independente, comunitária e popular seguir produzindo jornalismo, de verdade, atuando como criadora de conhecimento, provocando o pensamento crítico.



sábado, 11 de agosto de 2018

Pátria Grande, sempre.


Hoje se falou muito sobre a “Ursal”, uma suposta conspiração socialista para tornar toda a América Latina um só bloco de poder, acabando com todos os países, aos moldes do que aconteceu na União Soviética. O candidato chamado Cabo Dalciolo usou essa sigla para se referir a ideia generosa e integracionista de Simón Bolívar: a Pátria Grande.

Em primeiro lugar é preciso entender o que é a proposta de Pátria Grande. Durante as guerras de independência, quando as províncias, todas submetidas ao governo das metrópoles de Espanha e Portugal, estavam se libertando do jugo colonial, apresentaram-se dois caminhos. Ou cada pedacinho formava um estado isolado, com governo próprio, ou formava-se uma pátria grande, com o que hoje são países sendo províncias. A ideia era a formação de uma grande nação, capaz de unificada e livre dar novo rumo para toda a gente que aqui vivia.

Não se pode dizer que naquele então seria uma pátria socialista porque Bolívar não tinha o socialismo em mente. Era um liberal, ainda aprendendo sobre seu próprio povo. Seu sonho era ver toda a gente unificada numa pátria soberana e capaz de conduzir seu destino sem a interferência de nenhum outro país. Aquilo que hoje conhecemos como países seriam as “pátrias chicas”. Pode até ser que chegasse a pensar no socialismo, mas não teve tempo.

Bolívar foi traído pelos seus generais, os quais só queriam saber de criar cada um deles seu próprio país. Assim, destruíram Bolívar, levaram-no a morte e balcanizaram a América do Sul, recortando-a em países, alimentando velhas rixas e inimizades.

O resultado é o que vemos. Países isolados, cada qual com seu projeto de poder, alguns ajoelhados diante do império estadunidense, outros tentando caminhar com as próprias pernas, outros ainda buscando tornar real o sonho de Bolívar.

Assim que o sonho da Pátria Grande não é uma conspiração, nem um delírio e muito menos uma alucinação. Está, inclusive, consolidado na Constituição brasileira, no parágrafo único, do artigo 4: “A República Federativa do Brasil buscará a integração econômica, política, social e cultural dos povos da América Latina, visando à formação de uma comunidade latino-americana de nações”.

Então, por caminhos tortos, o Cabo candidato acertou em parte. Pelo menos na ideia de uma Pátria Grande. Errou ao tentar imputar a Ciro Gomes uma liderança nessa empreitada. Nada menos provável. A grande nação bolivariana é obra para revolucionários. E será socialista, é claro. Com esse povo, vamos!