segunda-feira, 13 de junho de 2022

As noites com o pai


Durante muito tempo o pai dormiu sozinho. Ele acordava bastante e vinha bater na porta do meu quarto de madrugada. Eu o levava de volta e assim íamos. Um pouco antes de se desatar a pandemia eu decidi me mudar para o quarto dele. Ele havia caído e eu me dei conta que não dava mais para deixá-lo só. Assim que estou ali, acampada. Nesses dois anos foram muitas as fases e as noites eram turbulentas. Agora, já faz algum tempo que ele está tranquilo, e dorme quase a noite toda. Um milagre. Mas, ainda assim, eu sigo ali, porque ele desperta pelo menos umas duas vezes, e estar ao seu lado faz a diferença. 

Eu sinto quando ele começa a se mexer lá por volta da uma hora. Ele se destapa e senta na cama, o rosto crispado, as mãos em luta, como se estivesse andando no inferno. Aquele despertar na madruga é carregado de muito medo. Acho que eles ficam muito confusos quando saem do sono. Não sei, algo passa. Então, eu também sento na cama, pego a sua mão e digo: “tá tudo bem, querido, eu estou aqui”. Ele abre os olhos lentamente, me enxerga e sorri, saindo daquele estado abissal. O medo se desfaz e a expressão que vejo no rosto dele é de pura alegria. Ele fala algumas coisas na sua língua de cigano, canta, resmunga e volta a dormir, apertando bem a minha mão, na certeza de que pode atravessar qualquer deserto. Eu estou ali. 

Quando dá cinco horas, de novo. Ele senta na cama e começa a puxar as minhas cobertas, fazendo um bolo, os olhos apertados, com aquela expressão de medo e desespero. Eu falo com ele e digo que ainda é muito cedo, que dá para dormir mais um pouco. Ele luta com os cobertores até que abre os olhos e me vê. – Ah, tu tá aqui? – ele diz, abrindo um sorriso luminoso. “Sim, meu brotinho, tô bem aqui e não vou a lugar nenhum, tá bom?”. Devagarinho ele vai descendo o corpo, colocando a cabeça no travesseiro para mais algumas horas de sono. Não sem antes espiar pra ver se sigo ali mesmo. Ele se sente seguro.

Acho importante estar sempre por perto quando ele acorda, porque a impressão que tenho é que ele sai de algum emaranhado desesperador. E o rosto familiar o recupera para a vida. De manhã, eu fico espiando ele, esperando que desperte. Porque é sempre igual. Ele senta e começa a amassar as cobertas, assim como fazem os gatos, sovando. Quando por fim vejo que ele abriu os olhos eu entro cantando: “Bom dia, o sol já nasceu lá na fazendinha´, acorda o bezerro e a vaquinha, acorda o seu tavarinho”... e vou fazendo macaquices como uma Maricota maluca. Não dá para descrever a alegria que se desenha no seu rosto. Ele reverbera em riso e eu faço cosquinhas... “Bora pular da cama, seu Tavares, bora tomar café”... Aí começa toda a função da troca de roupa... que é outra história... 

Outro dia um amigo me disse que agora que o pai já dorme bem à noite eu podia voltar para o meu quarto, para a minha vidinha de antes. Mas, não dá. Esses despertares na madrugada são assustadores. Ele realmente fica desorientado. Um rosto amigo e sorridente é fundamental para que ele saia daquele estado de abismo e possa voltar a dormir, serenamente. E assim vamos vivendo nossa aventura, aprendendo sobre confiança e sobre belezas.



terça-feira, 31 de maio de 2022

O transporte de Florianópolis é sofrimento mental


A espera adoece e o wi-fi não funciona

A cena se repete todos os dias. O ônibus sai do terminal Rio Tavares em direção ao Morro das Pedras. Aquele silêncio feito de medo da pandemia, desolação e desesperança pela vida mesma. Os rostos são cansados, os olhos perdidos. Nas paradas mais movimentadas, o ônibus demora. Muitos pagam com dinheiro e não tem mais cobrador. O motorista precisa buscar moedas, se atrapalha, demora. As pessoas suspiram. No meio do trajeto, surge uma cadeirante. O motorista para, deixa o ônibus no ponto-morto, desce e vai baixar o elevador. O elevador emperra. Ele bufa, fica vermelho, força o mecanismo e nada. Dentro do ônibus as pessoas se movem, incomodadas. O motorista luta com o elevador até que consegue fazê-lo baixar. Ajuda a cadeirante a subir, coloca o cinto e volta para baixar o elevador. Ele emperra de novo. O senhorzinho bufa, provavelmente xingando por dentro. Não olha pra ninguém. Consegue. Volta para o banco de motorista e arranca. 

Assim vai o busão, que já leva um tempo absurdo para rodar o bairro, cada vez mais demorado. Enquanto isso, o homem que vai na direção segue o trajeto, três vezes mais explorado que antes. Dirige, cobra, ajuda os cadeirantes, as velhinhas e as crianças. É muita responsa para uma pessoa só. É demais. Provavelmente quando terminam as suas seis horas de trabalho, ele está em escombros. 

Dentro do ônibus também os passageiros estão no limite, tendo de enfrentar cotidianamente um transporte desintegrado que massacra e adoece. Fosse uma linha direta, vir do centro para o Morro das Pedras não passaria de 25 minutos. Mas, no sistema desintegrado, a pessoa demora uma hora e meia, quando tudo corre bem. A espera no terminal Rio Tavares pode chegar a 40 minutos se a criatura chegar no minuto seguinte da partida do Morros das Pedras. E nem adianta tentar um caminho alternativo com o Costa de Dentro, Costa de Baixo ou Tapera. Por obra de algum imbecil que cuida dos horários, todos eles saem quase na mesma hora. A integração é coisa mais desintegrada que conheço. E o mesmo acontece quando a gente vai para o trabalho. É certamente um dos infernos de Dante. Então, o trabalhador, que já vive todo seu processo de exploração no emprego ou no trabalho, acaba geralmente se voltando contra os motoristas e até mesmo contra a cadeirante que “atrasa” ainda mais a viagem. É uma luta de trabalhador contra trabalhador, todos os dias. Quem vive esse inferno sabe, vê, os olhos de ódio, mágoa, desespero. 

Infelizmente todo esse ódio não se volta contra os donos das empresas que agora conseguem ainda mais lucro sem os cobradores. Nem contra a prefeitura que simplesmente lava as mãos diante do sofrimento das gentes. O que acontece é uma aceitação exasperante, uma acomodação diante do que consideram imutável, e consequentemente os efeitos aparecem em forma de doença, mau-humor, estresse e depressão. 

O transporte coletivo é uma fonte segura de sofrimento mental. Uma tortura institucionalizada. Todos os dias massacrando as almas e os corpos. A mera visão do terminal de integração provoca tremores, secura na boca, dor de estômago, vontade de morrer. Duvido que alguém viva esse cotidiano sem acessar esse nível de sofrimento. Usuários ou trabalhadores do transporte são expostos todos os dias a esse horror. Portanto, mais do que uma questão de transporte, a coisa já vira caso de saúde pública. Mas, quem se importa?

Desconheço algum governante desta cidade que tenha realmente se preocupado com o transporte público. Desconheço. Sei que a ideia da integração apareceu no governo da Frente Popular, mas como não houve continuidade quem pegou o bonde foi a Angela Amin, e deu no que deu. Quando é tempo de campanha os candidatos andam de ônibus, fazem filminhos e promessas. Quem não lembra do Dário Berger, O César Souza Jr e o Gean fazendo essa cena? Cada mudança que fazem no sistema piora tudo. Nunca consegui ver uma mudança que tivesse vindo para melhorar a vida do usuário. Só a dos donos das empresas. Aí sim. 

Continuo pensando que a cidade é muito pequena para esse sistema da integração. As linhas para os bairros deveriam ser diretas desde o Centro. Os terminais de integração seriam espaços de linhas alternativas, bairro/bairro. Mas jamais deveriam cortar a possibilidade do bairro/centro. É desumano o que acontece. O tanto de vida roubada nas esperas nos terminais. Isso tem de acabar. Mas, para que isso aconteça há que terminar também a apatia e a aceitação dessa tortura nossa de cada dia.

Como? Não sei.. .mas sigo acendendo meus palitos.. uma hora pega fogo... 



segunda-feira, 23 de maio de 2022

Sábado Santo



Sábado é um dia que eu tiro pra mim. Os cuidados com o pai me exigem demais e a gente precisa de uma janela para oxigenar a existência. A minha é no sábado. Eu acordo bem cedo, como sempre, e enquanto a casa toda dorme eu ajeito o cantinho do pai que fica na sala. Arrumo as mantas, passo um pano com cheirinho bom, tiro o pó, deixo tudo ajeitadinho. Depois, tomo café e leio um pouco até umas oito e meia. Tenho de aproveitar o silêncio. Aí é hora de começar a me preparar para ir para a rádio, onde tenho um programa das onze ao meio dia. Sempre vou cedo para arrumar a rádio, preparar tudo. 

Geralmente o pai dorme até às 10 horas, mas ontem ele acordou antes de eu sair. Aí não tem escapatória. Tenho de ajudar ele a levantar. Arrumo as roupas, dou banho de gato – que é que é possível nesse frio -  e trago para tomar café. Nesse ínterim o resto do povo já levantou então entrego o pai para eles e vou para a rádio. Pedro e Renato ficam no comando. Eu pego a bicicleta e saio na pernada. A rua resplandece ao sol. Os vizinhos estão sentados nas calçadas, uns tomando mate, outros só lagarteando. Bom dia. Bom dia. Bom dia. Vou passando e deixando sorrisos.  

Na rádio a manhã passa voando. O programa tem uma hora, mas conseguimos trazer sempre um bom conteúdo. Terminada a função é hora de ir para o Bar do Zeca, tradição desses 16 anos de Rádio Campeche. Na beira da praia, com os amigos queridos. Rola solta a cerveja e sempre beliscamos um peixinho. Tenho amigos especiais. Eles se importam comigo e com a  minha vida, então é nessa hora que abre-se a assembleia para buscar soluções para os meus problemas cotidianos. Surgem as ideias mais mirabolantes. Rimos muito. É bom demais. Eu os amo.

Lá pelas três horas tomo o rumo de casa depois destas horas estelares regadas à cerveja. Chego e já me espera o pai. Pedro e Renato saem e eu fico. Tudo recomeça. É hora de ver os calouro do Raul Gil e depois preparar a janta. Então, vem a hora de dormir e todo o ritual de arrumação do seu Tavares. Feito isso, ele se embola nas cobertinhas e eu fico ao seu lado, velando até ele dormir. Quando ele ressona é minha hora de embolar na quenturinha... 

E assim termina mais um sábado santo, um dia ordinário, como diz Adélia Prado, mas bunitu dimaisdaconta, e eu agradeço!


domingo, 15 de maio de 2022

Mais uma volta...


Nasci num 14 de maio, no meio do nada, em Japejú, Uruguaiana. Era uma madrugada de tempestade. Cheguei nesse turbilhão, miúda e silente, me acomodando às tormentas. Diz a mãe que eu não chorei e a parteira teve de sacudir bastante até que eu treinasse os pulmões. Quando menina sempre fui assim, quieta e atenta ao mundo que passava à minha volta. Cuidadosa com os lugares, com as pessoas, com os bichos, guardando na memória os detalhes, o que não era percebido pelos demais. 

Bem cedo, acompanhando meu pai nas suas lides radiofônicas, comecei a sonhar com ser jornalista. Esse sempre foi meu objetivo e eu o persegui como uma leoa. Mesmo quando todas as condições diziam que não, eu derrubava os obstáculos e seguia.  Tive um grande amor platônico. Saí de casa cedo, com 17 anos. Sempre cuidei de mim, sozinha e quieta. Fiz amigos queridos, amei, trabalhei, lutei e me diverti. Hoje começo a 61ª volta em torno do sol. Estrada longa de uma vida que se faz na plenitude. 

De tudo que vivi, relembro sempre as coisas boas e as tristeza deixo numa caixinha bem no fundo da memória, a qual raramente acesso. Aprendi que estamos aqui para desfrutar desse adorável jardim e que só levamos para o fim da vida o que se bebe, o que se come e o que se brinca. Já estou na curva da velhice, tentando me desapegar de muitas coisas que agora parecem não importar. Valorizo o tempo que passo com meu pai, na lentidão de sua des/memória. Valorizo os momentos com os amigos e amigas verdadeiros, aqueles que não te abandonam quando a vida pesa. Valorizo os abraços do meu amor. Valorizo os filhos do coração, os netos emprestados. Valorizo as batalhas que sigo travando para que esse mundo seja melhor e mais feliz. 

Gosto de ter essa pitada de Poliana, conseguindo ver as cores e a beleza de se estar vivo, apesar dos escombros. Gosto da pessoa que fui, da que estou sendo e da velhinha que serei, se chegar lá. Sim, carrego ódios e desejos de violência contra os vilões do amor, mas não deixo que isso me impeça de viver o melhor do mundo. Desfruto do pôr-do-sol, da boa música, de uma boa cerveja, do amor dos bichos e das gentes.  Ainda tenho sonhos, coisas para realizar. Vejo sistematicamente o Arquivo X e, agora, os Doramas. Gosto da minha forma miúda, do meu cabelo cacheado, dos meus óculos, da minha cara vincada de tanta vida. Faço 61 anos e estou muito bem. Obrigada!

quinta-feira, 5 de maio de 2022

O SUS e a atenção aos velhos


 

CARTA ABERTA AOS CONSELHEIROS DA SAÚDE DE TODO PAÍS

Na sistemática luta que travamos pelo aperfeiçoamento do nosso SUS há um tema que precisa de mais discussão: a velhice. Vivemos no país um aumento cada vez maior do número de velhos, e doenças como a demência – nos seus mais variados tipos – tem sido um desafio para as famílias que precisam conviver com ela.  

Faço parte de um grupo no facebook de familiares de pessoas com Alzheimer e uma das coisas mais impressionantes são os depoimentos sobre a dificuldade que é encontrar um médico que realmente saiba o que fazer com o velhinho. No geral, as famílias que não têm outro recurso a não ser o SUS enfrentam toda a tragédia que é não ter o sistema funcionando, com falta de profissionais, filas e tudo mais. E aí, o atendimento acaba também prejudicado. Até porque muitos dos profissionais que estão nos Postos não têm muita prática com a coisa da demência. Então é difícil. Como é comum na formação do médico brasileiro, a lógica é tratar a doença e não observar o aspecto da saúde na sua totalidade. Assim, um problema básico do velho com demência, a falta de sono, por exemplo, é tratada com remédios para dormir, sem se levar em conta toda a situação que envolve a demência. Isso acarreta, frequentemente, um sem número de problemas. Grande parte desses remédios causa ainda mais confusão mental e não induz ao sono.

Outro sintoma, como as alucinações, são tratadas com antipsicóticos, o que é um erro, pois acaba piorando a situação na maioria dos casos. Isso sem contar os efeitos colaterais de cada um dos remédios, que no velho com demência parecem se fazer todinhos, quando não dopam completamente, impedindo o velho de ter uma vida em família.

Nesse sentido, garantir que o médico do posto tenha uma capacitação para o trato desses pacientes é fundamental. Ou, melhor, que as equipes dos Postos de Saúde passem a contar com um geriatra, também capacitado para as demências, que hoje parecem ter aumentado significativamente de número. Essa é uma batalha necessária para garantir verdadeiramente uma melhor qualidade de vida ao velho com demência.

Outra questão envolve os cuidadores. Como as famílias são pequenas, em geral é sempre muito sacrificante para quem assume o cuidado. No caso das famílias empobrecidas geralmente alguém precisa parar de trabalhar ou de estudar para assumir o cuidado e esta é uma situação que esgota demais a pessoa, que passa também a adoecer. Até porque um a menos trabalhando significa ainda mais dificuldade para reproduzir a vida.

Seria muito importante que o SUS pudesse oferecer cuidadores capacitados para que as famílias pudessem contar com a possibilidade de solicitar um profissional para quando precisam descansar ou fazer alguma atividade de lazer. O cuidado de 24 horas arrasa com as pessoas. Alguns familiares comentam que deveria haver creche para idosos, onde eles pudessem ficar durante o dia, mas isso não funciona bem para o velho com demência. Esse tipo de doença exige uma rotina fixa e é impensável para um cuidador deslocar o doente para outro ambiente, acordá-lo em determinado horário e coisas assim. Ter um atendimento domiciliar é extremamente necessário. Muitas vezes um dia de descanso repõe as energias de quem vive um carrossel de emoções a cada 24 horas.

Estas são apenas algumas ideias para a discussão, afinal, parece cada dia mais necessário que o Estado deva garantir políticas públicas que atendam às demandas dos velhos com demência e suas famílias. Já basta termos de vivenciar a romantização da velhice, como se fosse uma “melhor idade”. Não é. E para as famílias empobrecidas  - que conformam a maioria  - a situação é ainda pior. No geral, os cuidadores são pessoas que também estão entrando na fase da velhice e o desgaste acaba sendo maior. São velhos cuidando de pessoas mais velhas. E os dramas envolvendo a doença bem como a impossibilidade de lidar com ela vai constituindo almas em escombros, também incapacitadas para o cuidado. O sofrimento é duplo: enfrentar a doença dos pais ou avós e desenvolver sofrimentos mentais inexprimíveis.

É tempo de o SUS abarcar esse grupo e é momento de os conselheiros de saúde começarem a pressionar para que também esses serviços sejam prestados pelo SUS, com a qualidade necessária. Envelhecer no capitalismo – sendo da classe trabalhadora - é ter de enfrentar essa fase da vida com muito mais dificuldade que a fase adulta – quando da exploração pelo trabalho. Porque o velho é visto como um inútil, não produtivo, o que torna tudo ainda mais difícil.

Que o SUS avance para o cuidado com os velhos, dementes ou não.

 

terça-feira, 3 de maio de 2022

Irineu e Joana vencem o terceiro turno

Foto: João Eduardo Cardoso Pinheiro/Agecom/UFSC


O Conselho Universitário da UFSC não embarcou na canoa do golpe tentado por um professor que representa grupo bem específico na universidade. O mesmo que tentou por meses a fio inviabilizar a direção do Centro Socioeconômico, buscando barrar a construção de um regimento construído de maneira ultra participativa. Não por acaso, o diretor do CSE era o professor Irineu Manoel de Souza.  

Agora que Irineu venceu as eleições para a reitoria da UFSC certamente não iram deixar que tudo corresse bem. E, não se enganem, caso o resultado fosse diferente, nada disso teria acontecido. O resultado seria aceito e a vida seguiria em paz. 

Foi assim que a chapa Universidade Presente, de Irineu e Joana, enfrentou nesta segunda-feira mais um turno das eleições. Para azar do golpista o CUn decidiu acatar o resultado das urnas, como historicamente sempre aconteceu. Ainda assim aparecem três votos para a chapa que foi apresentada sem ter passado pelo crivo da eleição. Ou seja, existem três conselheiros que seguem apostando no atraso e no obscurantismo. Como a votação foi secreta, não saberemos quem foi. 

Para viver mais este turno, na manhã chuvosa deste começo de maio, a reitoria se encheu de gente, estudantes, técnicos e professores, que foram apoiar a chapa vencedora e cuidar pra que os acordos fossem mantidos. Havia tempos que não se via esse barulho, essa vibração, essa força que brota da união daqueles que lutam por uma universidade necessária. Foi bonito de ver. 

Terminada a votação, o grito de alegria ecoou, enquanto Irineu e Joana reafirmavam suas propostas e alertavam: ainda não está terminado! Agora, com a lista tríplice encaminhada ao MEC, o presidente da República vai decidir quem assume a UFSC. Será o quarto turno. E, não se sabe o que pode sair daquela cabeça. Caso não seja a chapa vencedora, outras lutas virão. 

Mas, ainda que o presidente assine a condução de Irineu e Joana, já se sabe que os golpistas seguirão agindo. Já tramita ação na justiça. O quinto turno. E, se perderem aí certamente ficarão infernizando por todo o mandato. Assim que não será fácil dirigir a UFSC tendo de esgrimir os inimigos internos. Por sorte a comunidade os conhece bem e saberá enfrentar. 

Por enquanto, a UFSC celebra. A eleição foi realizada, o CUn respaldou. Ainda há que esperar o quarto turno, numa espera ativa a mobilizada, afinal, o processo não acabou.  


domingo, 1 de maio de 2022

Os "democratas" da UFSC


Toda eleição para a reitoria é a mesma coisa. Se o resultado não interessa aos “democratas” de plantão, há uma tentativa de barrar a posse através da alegação de que o processo não respeitou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, que exige um peso de 70% para professores e a divisão dos outros 30% entre técnicos-administrativos e estudantes. É justamente por isso que a consulta é informal. Ela acontece a partir de um acordo político e o candidato eleito é colocado numa lista que depois vai ao Conselho Universitário, onde a conformação é justamente de 70/30. Essa consulta não burla a lei e ela pode ser feito do jeito que as entidades quiserem. É a forma encontrada para garantir uma participação paritária já que não há qualquer argumento que respalde a ideia de que os professores são mais iguais que os outros. Mas, é preciso entender essa história e porque as coisas são assim. Explico.

Como nasceu a LDB

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) que hoje está em vigor foi aprovada em 1996, diante de um movimento social perplexo pela ação do então senador Darcy Ribeiro, que atropelando um debate democrático de anos, apresentou um substitutivo e conseguiu aprova-lo, apesar dos fortes protestos que aconteceram em todo o território nacional. Na nova lei, um dos pontos que configurou tremenda derrota para os trabalhadores foi justamente o que definiu a superioridade dos professores que diz respeito à administração das universidades. Apenas eles poderiam se candidatar à reitoria e a escolha deveria ser feita de forma indireta, pelo Conselho Universitário, respeitando uma porcentagem de 70/30. Ou seja, 70% do peso dos votos ficaria na mão dos professores, enquanto os 30% restantes seriam divididos entre técnicos e estudantes. Com essa proposta, Darcy reforçava a ideia de que os técnico-administrativos não tinham qualquer importância na vida universitária, muito menos os estudantes.

O processo de construção da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação começou logo depois da aprovação da nova Constituição, com a apresentação de um projeto que era fruto de grandes debates públicos. Durante muitos anos, com mais força em 1989, as entidades ligadas à educação haviam discutido a proposta de LDB nos seus fóruns e tinham logrado incluir muitos pontos considerados importantes e progressistas. Justamente por isso, e por não terem uma correlação de forças favorável dentro do Congresso Nacional, que essas entidades – unidas no Fórum Nacional em Defesa da Escola Pública - optaram por aceitar um consenso com os parlamentares, evitando assim confrontos que poderiam levar a perda dos avanços.

A Lei tramitou no Congresso Nacional desde 1990, passando pelas comissões e recebendo emendas. Apesar das muitas contribuições, o caráter progressista da lei foi mantido, graças ao esforço de parlamentares como Florestan Fernandes e Jorge Hage, seu primeiro relator. Quando afinal foi submetido à pauta do Congresso para votação, em 1991, o projeto tinha sido acrescentado de 1.263 emendas. A ofensiva conservadora protelou por mais tempo a votação, encaminhando o projeto de volta para as comissões. Aí aconteceram novas eleições e mudaram os deputados. Angela Amin passou a ser a relatora da Comissão de Educação no lugar de Jorge Hage. Naqueles dias chegou a surgir um projeto substitutivo proposto por um deputado que era dono de uma rede privada de escolas. Um verdadeiro retrocesso.

A reação do Fórum Nacional em Defesa Pública conseguiu reunir mais de 10 mil pessoas em Brasília e os protestos se multiplicaram por todo o país. A ação conseguiu paralisar o projeto por dois anos. Durante esse tempo novas emendas foram apresentadas e novos relatórios foram sendo produzidos, sempre pendendo para o lado conservador. Em 1992 o processo de negociação recomeçou com o debate sobre três substitutivos diferentes. O ponto central do debate era a batalha pelo fortalecimento do sistema público de educação, enquanto os conservadores buscavam privatizar. Davam-se batalhas gigantescas no interior do Congresso, com esse tema perpassando todo o processo.

Quando todas as forças atuavam no debate das propostas apresentadas, surge, de maneira completamente inusitada, um projeto substitutivo, de autoria do então senador Darcy Ribeiro. O atropelo do novo substitutivo complicou a luta que vinha sendo feita pelo Fórum Nacional de Defesa da Escola Pública, pois, como vinha do senado, teria prioridade na votação, deixando o antigo projeto – construído coletivamente à duras penas - em desvantagem. Começou então uma batalha regimental para ver qual o projeto seria colocado em votação primeiro.

A ação de Darcy Ribeiro dividiu as forças progressistas e acabou polarizando o debate em torno de dois projetos. Um que era o da Câmara – com todas as suas idas e vindas (e alguma excrecências), e outro que era o dele. A manobra realizada por Darcy Ribeiro colocou em polvorosa o movimento pela educação outra vez. Houve protestos e lutas. Mas, ainda assim, o projeto de Darcy seguiu sendo o que balizaria a discussão, e o que é pior, incorporando novas emendas feitas pelo governo, via MEC. Era a descaracterização total do trabalho coletivo e democrático que vinha sendo feito desde 1989. E assim, a LDB é aprovada em dezembro de 1996, considerando o projeto individual de Darcy Ribeiro. Foi uma grande derrota para o movimento social.

As eleições e o peso dos trabalhadores

Como havia o entendimento de que a lei aprovada era fruto de um golpe, no campo da educação a luta continuou, visando garantir mudanças que representassem novas correlações de forças que foram se formando no legislativo. De qualquer forma, os tempos neoliberais de FHC foram difíceis para a luta popular como um todo, pois havia muitas frentes para serem atacadas, entre elas a da privatização, o que levou para segundo plano algumas questões mais pontuais. Ainda assim, no âmbito dos trabalhadores das universidades esse ponto específico da LDB, que dá aos professores todos os poderes, sempre foi discutido e combatido. Tanto que em muitas instituições federais aconteceram protestos significativos contra essa ideia. Na UFSC, por exemplo, o movimento chegou a construir uma candidatura estudantil à reitoria, buscando dar visibilidade ao completo absurdo que era deixar de fora dos fóruns de decisão àqueles que são a razão de ser da universidade. No campo dos técnicos-administrativos essa tática nunca foi usada, mas o debate pelo direito de estar em igualdade de condições nos fóruns sempre se deu.

Com o processo de luta política, as universidades conseguiram criar mecanismos de consulta à comunidade – feita através de eleições diretas – organizada pelas entidades das três categorias, docentes, técnicos e estudantes. Havia o acordo de que o nome do candidato eleito de forma paritária, ou seja, com o peso do voto não configurado nos 70/30, mas dividido em igual medida entre as três categorias, seria o enviado ao MEC pelo Conselho Universitário, esse sim configurado dentro dos parâmetros do 70/30.

Essa maneira engenhosa de escapar do reacionarismo da lei acabou sendo acolhida por todas as universidades, com eventuais casos de não cumprimento do acordo. Mas, apesar desse acerto, a batalha pela mudança, na lei, dessa regra excludente e elitista seguiu seu curso. Para os trabalhadores e estudantes, não bastava garantir o direito paritário ao voto numa eleição para reitor. Havia que garantir essa paridade também nos fóruns de decisão. Espaços como o Conselho Universitário, Colegiados de Curso e Departamentos cumprem a lógica do 70/30. Ou seja, nas instâncias cotidianas de decisão da vida universitária, técnicos e estudantes seguem como seres de segunda categoria e sem qualquer possibilidade de garantir suas demandas. Mesmo em eventuais alianças entre os dois, não conseguem superar a avassaladora maioria docente.

Por conta disso, ao longo dos anos seguiram sendo apresentadas emendas à LDB visando mudar esse estado de coisa. Mas, dentro do Congresso Nacional esse tipo de demanda não caminha. Projetos mofam nas gavetas e os trabalhadores precisam garantir, na luta cotidiana, esses espaços de poder. O que não é fácil. 

Quando começou o governo do PT, em 2004, os trabalhadores acreditavam que haveria espaço e vontade política para mudar essa lei. Mas, passados 14 anos de governo as propostas apresentadas no Congresso para mudar a LDB não avançaram. Porque há, na chamada esquerda liberal, a mesma ideia que plasmou a proposta de Darcy, de que os técnico-administrativos são menos importantes na universidade, apesar de serem maioria entre os trabalhadores. Isso segue sendo uma enorme pedra na vida universitária. Mesmo que atualmente o perfil dos trabalhadores tenha mudado significativamente, boa parte dos docentes ainda acredita que devem ter mais peso nas decisões. Esse é um embate que parece não ter fim e está presente em todos os fóruns, conseguindo um acordo apenas para o processo eleitoral, já que esse é mais visível aos olhos da sociedade. 

Assim que a tentativa de golpe na decisão da comunidade universitária, agora com a eleição de Irineu Manoel de Souza e Joana dos Passos, não é nenhuma novidade. Basta que o eleito não faça parte de um determinado grupo que se acha dono da instituição, que esse argumento da ilegalidade da consulta venha à tona. Isso já foi tentado em 2015 e a justiça apontou que não há empecilhos para consultas acertadas entre as entidades. 

Assim que nesta segunda-feira, quando o Conselho se reunir, o que se espera é que os conselheiros sigam a tradição e garantam a eleição de Irineu e Joana, escolhidos por quase 60% dos votos da comunidade. Os golpistas que chorem. 

E os trabalhadores, que se movimentem e garantam de vez a mudança na lei para que isso não tenha de voltar a acontecer. A proposta de 70/30 é ultrapassada, reacionária e fora de sentido. E se vier novamente um governo do PT, que não defraude mais os trabalhadores.