segunda-feira, 14 de junho de 2021

Coliseu Tropical


Quem escreve sabe: narrar é sangrar. Ainda mais nesses tempos de medo e solidão. É impossível não rasgar a carne da vida e deixar que as vísceras apareçam, afinal, é nelas que mora o futuro. E esse é o caminho percorrido pelo escritor blumenauense no seu livro Coliseu Tropical. Já no primeiro texto colocamos o pé na realidade sem retoques, a morte do pobre, a dor, o abandono, as pinceladas de um cenário que beira o mágico, ainda que dolorosamente real. Os textos são curtos, incisivos, diretos. A barbárie de um tempo duro que só parece tocar o outro quando apresentada como ficção. 

Viegas apresenta o Brasil, esse, que vimos nas páginas policiais como se fosse culpa das vítimas, a partir de olhos amantes, comprometido, abigarrado. Um país atravessado pela dependência e o subdesenvolvimento, a outra cara da riqueza dos países de cima. Viegas apresenta Desterro, essa terra que escolheu para viver e evoca os ventos que sopram memórias de baleias e de canoas de pau. Esgrime as palavras como a bailarina no trapézio. Traz em cada frase a delicadeza, a força, o mais profundo amor pela vida.

O livro anatomiza o corpo dilacerado da vida brasileira, mas não é um livro triste. Sim, às vezes faz chorar, mas é por puro assombramento, por tamanha grandeza, por tanta riqueza na construção de cada parágrafo. A palavra constituindo o nosso mundo que é feio sim, mas também cheio de belezas. Viegas não doura a pílula, extravasa angústias e sopra esperanças: “apesar desses tempos tristes, meus olhos acreditam no horizonte. A história ensina que os tempos serão outros. A história ensina que o mar já desaguou em abismos, antes de lamber nossas praias”. Ah, que vontade de seguir! 

No Coliseu do Viegas se digladiam as letras, os contos, aforismas, as vidas, os sonhos, e o eterno desejo humano de ser feliz. Mas, nessa luta titânica ninguém morre. Não. O que essas lutas nos cobram é coragem, como diz o sertanejo de Guimarães. E a gente chega ao fim desse livro intenso com o peito estufado de tanta belezura.  

Vale a pena percorrer esse caminho do coliseu tropical, acompanhando o traçado de Viegas: “Tu eras bonito. Tinhas o sonho balançando nos olhos como um barco de pesca em alto mar”. 

Assim somos. Bonitos e carregados desses sonhos balanceiros. Vamos vencer!

***

Obrigada por esse livro Viegas Fernandes da Costa. Foi lido bem devagar, como quem sorve um chimarrão amigo. Me fez rir, me fez chorar e me deu muita gana. 

Coliseu Tropical também está a venda na Livraria Livros & Livros (localizada no Centro de Eventos da UFSC).

quinta-feira, 10 de junho de 2021

Da confiança do pai



 Uma das coisas que mais me impacta nesse cuidado com o meu pai, que tem Alzheimer, é a completa e total confiança que ele tem nesse cuidado. Sei que não racional, mas ainda assim é definitivamente incrível e eu não canso de me emocionar. E me emociono mesmo por isso, porque não tem razão ali, embora tenha sentido. Uma pessoa mal intencionada pode fazer muito mal a alguém assim, porque são inocentes demais. Um exemplo disso é a parada dos remédios. 

O pai já não consegue mais entender o lance de engolir. Eu dou o remédio e digo: engole, pai. Ele faz um monte de firula com o remédio na boca, mas não engole. É engraçado até. Às vezes eu pensava que ele tinha engolido, mas passado um tempinho eu só ouvia o barulhinho dele cuspindo fora o comprimido. Uma odisseia. Então a gente tem de trabalhar com algumas artimanhas. Eu faço é moer o remédio e camuflo em pão, fruta, ou bananinha amassada, ou em mingau, pudim. E só chegar com a colherinha perto da boca e ele já abre, abocanhando, sem questionar. É uma ternura. E é incrível que ele não desconfie mesmo que ali tem um remédio. Come bem refestelado. 

Para minha sorte ele só toma um remédio, que é o da pressão, um de manhã e outro à noite. Graças aos deuses não tem qualquer outro problema de saúde, então, não sofro muito com isso. Mas, sei de velhinhos que chegam a tomar 15 comprimidos. Valamideuzi. Seria o caos. Da vez que teve uma infecção urinária eu sofri pra dar o antibiótico porque ele, doente, é outra pessoa. Também precisei de algum engenho. Muuuuuito engenho.

Mas, o fato é que, na confiança, ele vai onde eu quiser. Vamos ao posto de saúde todo mês tomar a vitamina B, e ele vai bem serelepe. Eu explico bem que vai tomar uma injeção, que vai doer um pouquinho, mas nem precisaria. Ele simplesmente pega na minha mão e vai. Olha pra mim, sorri, e me segue no seu passinho lento.

Penso que nunca em minha vida tive ou terei alguém que em mim confie tão cegamente. Isso é grandioso e assustador, porque significa que estamos tomando as decisões e qualquer decisão errada pode trazer consequências danosas. Tenho procurado fazer só coisas boas pra ele, espero poder ser merecedora dessa confiança abissal. 

É um grande aprendizado essa estrada que estamos cumprindo juntos...



quarta-feira, 2 de junho de 2021

Trabalhadores do HU perdem direito de almoço e janta

 





Fotos: Rubens Lopes

 

Cobrança das refeições começou nesse primeiro de junho, Sintufsc realizou ato de protesto

Quando o governo Lula propôs a ideia de uma empresa privada gerir os hospitais universitários os trabalhadores se levantaram. Sabiam que a conversinha de que a empresa iria melhorar os serviços prestados era balela, afinal, basta ter um único neurônio para compreender que hospital não é para dar lucro, logo, não teria sentido ser administrado como empresa. Na época havia já um intenso debate sobre o papel das fundações dentro das IFES e corriam muitas denúncias de corrupção. O governo, então, acreditou que criando uma fundação pública de caráter privado evitaria problemas. Houve uma batalha gigante contra essa proposta, mas, mesmo assim, em 2011 Lula e Haddad assinaram a medida provisória que criava a Ebserh. Apontavam que cada universidade deveria decidir se queria ou não aderir à nova fundação, mas ao mesmo tempo também avisavam que quem não aderisse poderia ficar sem recursos. A boa e velha chantagem.

Na UFSC, o debate correu por anos, antes e depois da criação da Ebserh. Foram pelo menos sete anos de intensos debates, seminários, encontros, mostrando o equívoco que seria aderir à fundação, pois não apenas criariam portas privadas nos HUS como dividiriam a categoria entre trabalhadores públicos e privados, gerando perda de direitos. A luta dos trabalhadores e dos estudantes conseguiu adiar por algum tempo essa decisão. Em 2015, na gestão da reitora Roselane Neckel, foi realizado um plebiscito para que a comunidade universitária decidisse se queria ou não aderir. O plebiscito, realizado em abril de 2015, deu 69,8% para o NÃO. Mesmo assim a reitora insistia em propor a adesão. Várias reuniões do Conselho Universitário foram realizadas, com bastante confusão, pois os trabalhadores e estudantes fazendo pressão. 

E foi numa melancólica tarde do primeiro dia de dezembro de 2015 que a reitora levou o CUN para dentro da Polícia Militar e, numa sessão que durou 30 minutos, conseguiu aprovar a adesão. Naquele dia os TAEs se recusaram a entrar e fizeram protesto em frente à PM. Não participariam de uma vilania tão grande. Por fim, a votação do CUN dentro da PM teve 35 votos a favor e dois contra. Isso significa que apenas 37 dos 61 conselheiros se prestaram a esse triste papel. Uma vergonha para a UFSC e para o HU. 

Desde aí tudo aquilo que se dizia sobre o que poderia causar uma fundação administrando o HU aconteceu. O lucro passou a ser a baliza que mede a atenção e a vida laboral dos trabalhadores vem se deteriorando, com claras divisões entre os que pertencem ao quadro da UFSC e os que são contratados pela fundação.

A última agora da Ebserh foi deixar de oferecer gratuitamente o almoço e a janta aos trabalhadores, alimentação que vinha sendo oferecida há mais de 30 anos. Uma decisão tomada pela direção do HU com o aval da administração da UFSC. E, isso acontece justamente agora quando esses trabalhadores vivem seu pior momento, enfrentando com valentia uma pandemia. Na mídia são apontados como heróis, mas na prática, são acossados com perdas de direitos. O argumento é de que essa cobrança já estava apontada no contrato da Ebersh e que só agora eles conseguiram colocar em prática. Ou seja, seis anos depois e em plena pandemia, quando muita gente dobra turno e se sacrifica para atender os pacientes. Há rumores entre os trabalhadores que também o estacionamento passará a ser cobrado, mesmo de quem trabalha dentro do HU. A lógica privada crescendo e tomando forma.

É importante lembrar que a cozinha do HU sempre foi tocada pelos trabalhadores do quadro da UFSC , muitos já em processo de aposentadoria e sem perspectiva de contratação. Muito provavelmente a fundação quer privatizar a cozinha, daí a cobrança de 13 reais pelo almoço e 9,50 pela janta. 

O Sintufsc realizou ontem um ato dentro do HU, distribuindo alimentação aos trabalhadores e chamando para a luta. O caso foi denunciado na última audiência pública realizada com a administração central, com a presença do reitor Ubaldo Balthazar, e o sindicato espera que haja uma resposta urgente por parte da reitoria contra mais esse ataque aos trabalhadores do HU. Não dá para se vangloriar de ter um hospital de qualidade enquanto explora cada vez mais os trabalhadores.  Com a palavra, o reitor. 


terça-feira, 1 de junho de 2021

O Steve Biko



Já vai fazer uns 15 anos que essa criatura vive comigo. Chegou aqui enrolado na minha blusa. Eu o encontrei no caminho da Rádio Campeche, quando voltava pra casa, perdido, abandonado, cheio de carrapatos. Era um naquinho, pequeno e magricela. Ele olhou pra mim na entrada de um atalho e eu olhei pra ele. Meu coração condoeu, mas segui andando. Então, olhei pra trás e ele me olhava ainda como a dizer: vais mesmo me deixar aqui? Voltei, enrolei-o na blusa e vim correndo. Tinha tanto carrapato que chegou a ficar com um problema neurológico. Mas, fora isso, nunca ficou doente. Eu já tinha um gato preto ao qual dei o nome Zumbi, então coloquei nele o nome do herói negro sul-africano, Steve Biko. Ele sempre foi tranquilo, mas fujão. Mesmo com o portão fechado ele sempre pulou o muro para seus passeios e escapadas. 

Pois agora, justo num momento em que estou dedicada aos cuidados com o meu pai, que tem demência, o Steve começou também a dar sinais de velhice e o primeiro deles é a rabugice. Desde a manhã quer sentar na mesma poltrona do pai e se eu tiro, bah, é um deus nos acuda. Ele chora ou morde. E assim, durante todo o dia tenho que administrar a refrega entre ele  e o pai. Ele se aboleta no sofá e o pai já vem pra tirar. Aí ele rosna, ameaça e o pai fica batendo nele com a almofada. Lá tenho eu que correr e mediar o confronto, pois ele pode morder. Um pouco o pai fica sentado, um pouco o Steve. Mas é o dia inteiro nisso. Se o pai vai para o alpendre é a mesma coisa, ele vai atrás e quer sentar na cadeira do pai. Novas confusões. 

Como ele já está velho não consegue mais pular o muro então fica chorando para que eu abra o portão. Eu não abro e é aquela agonia. Se eu abro ele sai, anda pra lá e pra cá e logo volta, chorando pra entrar. Isso acontece umas mil vezes por dia. Haja paciência. O pai de um lado e o Steve de outro, os dois querendo sair. Valamideuzi.

Quando é de noite eu ponho vídeos de viagens para o pai ver e o Steve finalmente se aquieta. Aí é um em cada poltrona. O pai vendo a TV e o Steve dormindo. Vez ou outra, se dá alguma balbúrdia lá fora, ele se levanta e chora pra sair da casa. Lá vou eu abrir a porta, para dali a dois minutos abrir de novo pra ele entrar. Nesse diapasão meus dois velhinhos vão ocupando meu dia até lá pelas nove da noite, quando cada um vai para sua cama.



terça-feira, 25 de maio de 2021

O Brasil e os dias



É outono no Brasil. Os dias de maio são luminosos. Mas, para a maior parte da população os tempos são sombrios. A pandemia, que chegou em março de 2020, segue seu caminho de morte, sem parada, e sem que o governo federal invista em políticas de prevenção. Avançamos para 500 mil mortes em ritmo acelerado, e não há previsão de alteração no quadro de perdas e dor. Pelo contrário. O presidente da nação segue apostando alto no contágio de rebanho e faz ele mesmo a sua parte, circulando, aglomerando, sem máscaras ou cuidados. E, atrás dele, segue o bonde da negação e da ignorância.

O Congresso Nacional, depois de mais de um ano de omissão, decidiu instalar uma CPI para investigar se há ou não responsabilidade do governo na disseminação acelerada da doença. Passaram por lá os três últimos ministros da sáude, todos eles revelando o que o país inteiro já sabia. O governo não se preocupou em proteger a população, o governo incentivou o não uso de máscaras, incentivou o tratamento precoce com remédios inúteis para a Covid, não atuou para resolver a falta de oxigênio em Manaus – quando morreram centenas de pessoa, sem ar - e não está preocupado com a vacinação. Nenhuma novidade, portanto. 

Mas, apesar de tudo isso, mesmo com os depoimentos e as provas, nada acontece e ao que parece nada acontecerá. Isso porque a escolha governamental tem sido muito boa tanto para os cofres públicos quanto para os negócios da pequena fatia dos brasileiros que conforma a elite local. Os idosos – considerados como peso para a previdência – são os que mais morreram, somando mais de 70% das mortes, e esse dado foi comemorado pela Superintendência de Seguros Privados, pois diminuiria o chamado rombo das contas da previdência. Segundo a Fundação Getúlio Vargas, a morte dos velhos retirou cerca de cinco bilhões de reais da renda potencial das famílias, muitas delas tendo nos aposentados a única fonte de renda. Isso significa um número considerável de gente sendo jogada para a miséria. 

Para os empresários esses números são considerados bons também porque aumenta o exército de reserva e eles podem barganhar ainda mais os salários, exigindo mais dos seus trabalhadores e pagando menos. É um momento propício para aumentar os lucros.

Não bastasse isso, enquanto o país se distrai com os depoimentos da CPI gerando memes nas redes sociais, a casa legislativa segue arrochando ainda mais a vida dos brasileiros, seja votando leis que tiram cada vez mais direitos ou entregando a preço de banana o patrimônio nacional. A última agora foi a aprovação para a venda da Eletrobras, empresa brasileira de geração de energia elétrica. A historinha é a mesma de sempre: tem muita dívida, e empresa dá prejuízo, a conta da luz vai baixar. Ora, uma empresa estatal – a quinta maior do mundo - que cuida de um setor estratégico como o da energia não é uma empresa para dar lucro e sim para servir a nação. Qual empresa privada vai investir e adentrar no interior do país para atender as necessidades de pequenos consumidores? Nenhuma. 

Outro golpe que corre célere no congresso é a tal da reforma administrativa do ministro Guedes, que prevê acabar com o serviço público no país. É um desmonte total do estado, cujas consequências não são divulgadas para a população visto que a mídia comercial é totalmente cúmplice do projeto ultraliberal do governo Bolsonaro. 

Não vou nem falar nos inúmeros casos de corrupção envolvendo a família do presidente que, apesar de todas as evidências e provas concretas, não comove o judiciário brasileiro, igualmente cúmplice dessa tragédia nacional que vivenciamos. E, se está tudo bem para a classe dominante, dane-se o populacho. Essa é a tônica. 

Já vamos entrar no sexto mês do segundo ano da pandemia e por aqui menos de 10% da população está vacinada. Não há indícios de que as coisas possam melhorar, bem como não há indícios de que haja uma reação massiva. Num país onde a Covid-19 só avança, o medo ainda é o nosso maior inimigo. Porque além de não haver vacinas, não há também qualquer garantia de que haverá hospitais, leitos de UTI ou oxigênio para os infectados. É o cenário perfeito para a classe dominante – que se vacina nos EUA – avançar sobre os direitos dos trabalhadores e saquear a nação. 

Nesses tristes dias, nem deus é por nós! 



A rua dos Andradas em São Borja







Mudamos para a rua dos Andradas, em São Borja, no ano de 1970. Em 1969 ainda vivíamos numa casa alugada, bem em frente à casa do filho do Getúlio Vargas, ao lado da Dona Dília e do Dr. Hildebrando. Lembro que nessa casa era bem comum brincarmos no carramanchão do dr. Hildebrando, com a filha da empregada dele, a Dona Tereza, e por vezes também circulávamos na casa do Viriato, entrando pelo portão dos fundos. Mas, foi na rua dos Andradas que vivemos os melhores dias porque ali estava a nossa casa própria, construída durante quase um ano inteiro. Quando nos mudamos acreditávamos que seria para sempre. Não foi assim.

A casa era ladeada por duas vizinhanças maravilhosas. De um lado a família Savian e do outro a Rodrigues. Cada uma delas acabou se transformando em família também porque a vida ali era vivida em comunhão. Na frente tinha a casa do Miro, da Dona Gersey e da dona Nezinha. Mais à esquerda o seu Ciro e na parte de trás do terreno divisámos com a dona Alda. Havia muita criança. Era um mundaréu. E também era comum andarmos todos circulando e correndo por dentro das casas como se nossas fossem. Não havia barreiras. Brincávamos de mocinho e bandido nas cascas de arroz, de pique-esconde pelas casas todas, de Tarzan, pendurados nos cinamomos da casa do Miro e nas noites ocupávamos a rua inteira em brincadeiras de todo o tipo, enquanto as famílias sentavam em frente às casas, enfeitando as calçadas. Nas noites de invernos íamos ouvir casos de assombração na casa do seu Ciro, com sessões comandadas pela Gorda, apelido da Fátima. Ficava a turma toda espremida na sala e depois, saíamos em algaravia, tudo abraçado, com medo de ver os espíritos. 

Era comum a minha irmã pular a janela para sair à noite com as gurias do seu Savian e apesar de acharem que estavam saindo às escondidas, a dona Nezinha sempre estava à espreita na sua janela, atrás das cortinas de crochê, e sabia de todas as escapulidas, fossem a hora que fossem. Era incrível. Sabia de todos os acontecimentos, de todas as casas, embora pouco fosse  vista. 

Entre a gurizada havia, na verdade, três gerações. Os jovens, da idade de minha irmã, os menores, como eu, e os mais criança ainda, como meu irmão. Mas, no geral, nossas atividades se misturavam porque em cada família tinha gente pertencente aos três grupos. E ainda tinha gente que vinha de mais longe como era o caso do Tiririca, que passava por ali sempre puxando sua vaca leiteira. Tinha-lhe tanto apreço que pintou seu nome na vaca, para evitar roubo. Não lhe conhecíamos a família, mas ele era um dos nossos, participando de todas as brincadeiras. Também tinha o Timóteo, que vinha pedir comida, e acabava ficando para brincar e o Juarez, que morava na rua transversal. Fazia parte do cenário também o Newton, um cara a quem chamavam de “louco” porque ele vinha xingar o seu Ciro todos os dias, gritando-lhe impropérios, indo depois pedir comida nas casas. Todos o amavam. 

Nas noites de verão, a rua de terra vermelha se alegrava inteira, com a multidão de gente, crianças e bichos nas rodas de chimarrão e de traquinagens. Brincávamos de Diabo-Rengo, Batatinha Frita, Sapata (amarelinha), Pique-Esconde, Passa o anel, Escolher Fita. Lembro que havia um homem, que morava quase no final da rua, numa casa bem simples, a quem atribuíam o fato de ser lobisomem. Ele era magrinho e sempre usava chapéu, com um bigode estilo Fernando Pessoa. Quando ele apontava na esquina do Bar da Zezé, a gente saía tudo correndo, se escondendo em casa. Estar ali fora era como possuir o mundo. 

Na esquina tinha o armazém da Dona Zezé, onde se comprava de tudo. Não havia isso de supermercado. Ela era uma mulher adorável, penteava o cabelo à moda antiga, armado de laquê. E ficava furiosa quando batíamos na janela, no horário do meio-dia, querendo comprar picolé. Ainda assim ela abria e trazia os picolés, não sem xingar à larga. E caso se precisasse de qualquer coisa, mesmo à noite, era só bater, que lá vinha ela no passo manso. O marido dela, um argentino chamado Pepino, era uma figuraça e estava sempre de bom humor, contrabandeando balas junto com o troco. 

Minha irmã, quatro anos mais velha que eu andava com a turma das gurias do seu Savian. Eu, com as gurias do seu Jesus e da dona Cira, sendo que a Liziane era minha melhor amiga. Com ela compartilhava os segredos e os dias. E ali A Negra e a Gordinha eram menores, mas acabavam sempre com a gente. A nossa casa se dividia com uma cerca, sem muro, praticamente compartilhávamos o mesmo terreno, então para estarmos juntas nem precisávamos sair de casa. Eu sentava na janela do quarto, do meu lado da cerca, e ela na da sala, do outro lado. O seu Jesus era uma figura incrível, grande e engraçada, sempre inventando coisas para a gente brincar. Lembro-me dele às vezes nos levando para a escola em um desses carros antigos, estilo alemão, uma preciosidade que comprou por puro gosto. Minha irmã tinha vergonha de ir, porque achava o carro velho, mas eu sabia que estava andando em uma joia e não via a hora de entrar naquela beleza. 

Vivemos ali apenas sete anos, mas com certeza é de onde me vêm as melhores lembranças, o sentido de comunidade, de solidariedade, de família estendida. Ali vivenciamos as amizades mais puras, as brincadeiras mais sadias, e aprendi o sentido da partilha e a beleza do comum. 

Saímos de São Borja no começo de 1978 em circunstâncias bem tristes, mas aquele lugar nunca saiu de mim. Tanto que sempre que eu sonho que estou em casa, é na casa da rua dos Andradas que estou. Voltei lá em 2009, mais de 30 anos depois, quando fui levar as cinzas da mãe e a rua estava lá igualzinha, com todas as casas, apenas agora calçada de paralelepípedo. Até mesmo o bar da Zezé estava aberto e tomamos uma cerveja lá. Também fizemos uma foto em frente a nossa velha casa, sem coragem de pedir pra entrar. 

Lembro que enquanto estávamos fazendo as fotos, num carro da casa ao lado, avistei uma carinha familiar. Era o Fernando, filho do seu Jesus, que eu conhecera bebê. Foi fácil reconhecer na hora os olhos clarinhos e a carinha redonda, muito parecido com minha amiga Liziane. 

Foi lindo circular outra vez naquela velha rua, reencontrando a minha criança interior. Agradeço e peço a bênção a todos os que me ensinaram tanto. Tia Tida, dona Mira, Preta, Sabiá, Gucha, Negrinha, Mimo, Tiano, Neco, Artur, Alemão, César, Serginho, Rosângela, Regina, Seu Artur, seu Donini e tantos outros que vivem em mim.


domingo, 23 de maio de 2021

Estar presente, no presente


 Lidar com  a demência requer entrega. Não é sem razão que muita gente não dá conta. A pessoa velha já requer cuidados, mas se tiver demência complica um pouco mais. Porque cada minuto é um minuto. A pessoa pode estar de boa e num segundo, virar o humor para a ultraviolência. É um caminhar sobre ovos, todo o instante.  

Digo isso porque a minha própria vida se transformou, nessa tarefa do cuidado. E, no começo, foi difícil. Primeiro, porque bagunçava totalmente minha rotina tão cuidadosamente prezada. Sou uma mulher de rotinas cristalizadas. E, com o cuidado do pai, tudo ficou “patas arriba”. Nada pode ser planejado e nenhum dia é igual ao outro. 

Mas, com o andar da carruagem descobri que era melhor seguir o conselho de um  compa cubano que ensina: “sobre la vida hay dos cosas que se pode hacer: enfadarse o desenfadarse”. Decidi pelo desenfadarme. Então percebi que se eu me entregasse para cada instante, com absoluta entrega, não haveria sofrimento. E é assim que tem sido. 

Sou uma mulher das manhãs. Acordo cedo e gosto de escrever nesse período do dia quando as ideias parecem estar mais claras. Então, sigo minha rotina de pular da cama às seis horas, passe o que passe durante a noite. Porque, assim, tenho um tempinho até umas nove, nove e meia, quando o pai desperta. Depois que ele levanta da cama, o tempo é dele. Há todo um ritual a cumprir, sempre repleto de surpresas, porque como já contei aqui, o pai tem pavor a trocar de roupa. E essa é uma novela mexicana protagonizada a cada manhã. 

É preciso todo um ritual, desde a chegada ao quarto. Geralmente entro dançando e fazendo graça, para ele desenferrujar a cara. Quando ele sorri eu corro para o abraço e nesse abraço vou puxando para o box, onde tento dar o banho matinal. Geralmente dá certo, mas têm dias que não. Ele foge da água como o diabo da cruz. Aí é outro roteiro a cumprir, até que ele deixe a fúria de lado. Depois é hora de ir tirando a roupa da noite, geralmente molhada. É um parto com fórceps. Feito isso, vem a cueca, valamideuzi... Aí o bicho pega e há que ter muuuuita paciência. 

Vencido o tirar, vem o botar. Outra novela. Nisso o tempo vai passando. Novamente há que distrair com cantorias, brincadeiras e todo um arsenal teatral que só mesmo o Eduardo Bolina poderia me valer. E me vale. Vestido meu velhinho é hora de sair do quarto para tomar café. Outro momento demorado. Brinca com o pão, brinca com o café, faz traquinagem de todo o grau. Geralmente acaba tomando o café sozinho, mas muitas vezes tenho de interferir. Então, esse é um tempo que é só dele. Se ele toma o café sozinho aproveito o momento para fazer a limpeza inicial do quarto. Tirar os lençóis, as roupas sujas, enrolar a fralda, colocar os paninhos de limpeza de molho no tanque. Uma azáfama.

Tomado o café vem a hora dos remédios, vencida também sempre com muitas performances. Finalmente ele está pronto para o dia. Passaram-se ai quase duas horas. E nada mais importa além desse tumultuado ritual. Hoje consigo cumpri-lo sem sofrimento, totalmente mergulhada nessa função. Fica muito mais fácil vencer cada dia quando a gente está presente no momento presente. Sem pensar no trabalho a fazer, no compromisso que foi para o pau, nas coisas que se poderia ter feito e tal. Nada disso. Só esse sincero e comprometido carpe diem. Ele fica mais feliz, eu fico mais feliz e o dia segue sem grandes dramas.

Quando por fim, volto ao computador para terminar as tarefas, ali está o meu companheirinho, parado em frente a mim, esperando paciente que eu termine mais essa jornada para, de novo, mergulhar no seu mundo. 

Estamos indo bem...