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A comunidade do Campeche vive dias de bastante polêmica por conta de obras de contenção das dunas que estão sendo feitas na praia. Não bastasse isso ainda circula uma proposta de realização da técnica do enrocamento, que consiste na construção de um muro de pedra. Por agora, máquinas estão mexendo na praia, colocando sacos de areias e uma paliçada na área, visando criar uma barreira para as ondas. Naquele local, na última década, pelos menos 20 casas já desmoronaram por conta da ação das ressacas e outras 10 estão interditadas. Nos últimos dias algumas casas caíram próximo à Rua do Chalé e Aroeira e os moradores – donos das casas - estão se mobilizando para garantir que as moradias se mantenham de pé.
Esta não é a primeira vez que os moradores do local colocam sacos e madeira para tentar proteger as casas. Mas, não tem jeito, o mar vem e toma, afinal, as casas estão fincadas bem em cima das dunas. Agora, a obra está sendo realizada sob a coordenação da Defesa Civil e é, segundo diz a Floram, apenas para garantir a segurança das pessoas, visto que os restos de construção acabam ficando na praia. Conforme informações colhidas junto à assessoria do órgão de proteção ambiental do município, a Defesa Civil não precisaria de licença para fazer isso, visto que é claro o risco de desmoronamento. A Floram não quis se manifestar sobre a proposta de enrocamento que está sendo defendida pelos donos das casas.
De qualquer forma a comunidade está em polvorosa por conta das obras na praia, que tornam a paisagem bastante poluída e perigosa, e circulam vídeos e fotos nos quais moradores do bairro se mostram indignados com a situação, visto que as casas que estão ameaçadas de desmoronamento são construções ilegais feitas em cima da duna. Para muitos moradores do bairro, bem como para entidades como a Associação de Surfe do Campeche, não há sentido em usar dinheiro público para proteger um patrimônio privado, e um dinheiro que irá embora com o mar, pois as paliçadas não aguentam a força das águas e, como já aconteceu, serão levadas mar adentro novamente. Segundo o surfista máster, um dos mais conhecidos do Campeche, que é também presidente da Associação, Adilson Miguel, o Cupim, o enrocamento, além de não resolver o problema das casas, é muito perigoso para os surfistas e pescadores, pois as pedras que conformarão o muro podem se desprender e ir para o mar, causando sérios riscos a quem usa o oceano para o surf ou pesca. Isso também pode ocorrer com os troncos de madeira que, boiando pelo mar, podem atingir surfistas.
É sabido que o mar avança e tem períodos de ressaca e as dunas deveriam servir de anteparo para qualquer dano. Mas, as construções feitas praticamente na beira do mar, simplesmente ocuparam a vegetação típica, de duna e restinga, bem como o próprio espaço da duna. Logo, segundo os moradores, qualquer obra de contenção feita ali será imediatamente consumida pelo mar. Sejam os sacos de areia, as madeiras ou as rochas, e tudo isso pode ser extremamente perigoso para os surfistas, pescadores e comunidade que utiliza a praia. A Associação de Moradores do Campeche, Amocam, tem alertado sobre isso e se coloca contra qualquer obra desse tipo na praia.
Nesse domingo, mais de 150 pessoas participaram de um protesto em frente às obras. A comunidade não quer o enrocamento e, mesmo em tempo de pandemia, decidiu que era preciso marcar presença real na praia, expondo sua indignação. Para quem vive no bairro e faz daqui o seu espaço de existência, cuidar da praia é um imperativo, visto que essa é a maior riqueza do Campeche. Para essas pessoas, a praia não é lugar de especulação, existe como se fosse o jardim de casa, o qual precisa ser cuidado e protegido.
A barreira com sacos e madeira está ali, fincada na areia, como se fosse uma imensa ferida e todos sabem muito bem que não durará, passando a ser um risco para aqueles que estiverem no mar. O oceano cobra seu preço num espaço que foi arrebatado da sua função. As dunas e a restinga que separam o mar da terra firme não estão ali para serem ocupadas por casas de veraneio. Elas existem para proteger a costa. E qualquer pessoa com um mínimo de inteligência sabe que ocupar as dunas e a restinga é abrir caminho para a destruição. É como 2 + 2 ser 4. Não tem erro. A saída segue sendo a retirada dos imóveis de cima das dunas para que elas voltem a ter sua vegetação típica e sigam sendo as protetoras da praia e da comunidade.
No que depender de uma parcela bem significativa do bairro a proposta de enrocamento – que é a criação de um muro de pedras - não vai passar.

É de madrugada. Velo o sono do pai que respira, sereno. No ouvido, o fone, com as canções do Luiz Marenco alcançando o atavismo que mora em mim. O Rio Grande que vive na lembrança. Lá fora, os cachorros se movimentam a cada tanto, latindo, perseguindo algum fantasma. Um dos gatos repousa no meu pé, os demais andam a fazer estripulias pela noite afora. O vento sul assobia na janela me lembrando que a mãe dos ventos está por ali a varrer o desalento. Mas, ele não vai embora de todo. Fica a cutucar a alma, que estremece. As retinas ainda elaboram as imagens dos telejornais, de um país devastado. Não há só um monstro ali, ocupando o cargo maior. Não! Há milhares, milhões. Gente capaz de entrar numa UTI para ver se tem doente de Covid. Gente que persegue enfermeiros. Gente que incensa políticas de morte e baba de prazer. Uma gente que sempre esteve aí, do nosso lado, num silêncio expectante. Esperando a hora de colocar as unhas para fora, os dentes afiados, e oferecer o banquete do terror. Essas pessoas têm nomes conhecidos e rostos até ontem queridos. Há um maremoto em mim, o corpo inteiro se revolve. O gato aconchega. O cachorro arranha a porta. Abro e deixo que mais um bicho se enrosque em mim. Os bichos me olham com olhos de bem-querença. Uma bem-querença que não cobra. Eles me restabelecem a ternura. Suspiro. O pai levanta a cabeça. Quer mijar. Tiro o fone e vou com ele, guiando pelo universo da demência. Como sempre, não acerta o vaso e esparrama o xixi pelo banheiro. Olha pra mim, confiante, e volta para a cama, onde novamente se deita e segue com o sono dos justos. Seco seu chinelo, ajeito as cobertas, e vou limpar o chão. Volto pra cama, o gato espreguiça, o cachorro vai tomando o espaço e eu permaneço com os olhos arregalados, buscando encontrar algum sentido nessa hora noa. Não há. Pego o celular, entro na netflix, nenhuma série mais me toma. Tudo parece demasiado. Há um maremoto em mim. Do outro lado da casa dorme o meu amor, sem mim. E sinto falta de seu abraço. O cachorro me fita, os olhos mansos, como a dizer: não temas, estou aqui. Faço-lhe um carinho. Agradeço. Ligo a TV, o controle passando sem se deter em nada. Há um maremoto em mim. Um medo. Não de morrer de Covid ou de qualquer outra coisa. Um medo de perder o riso, a leveza, a ternura. Há um assombro, em cada passada de notícia do facebook que manejo automaticamente, tentando achar algum nicho de beleza. Não há. A noite avança, célere, e eu penso nas pessoas que amo e que talvez estejam também nessa aflição. O coração acelera. Mas, não há lágrimas. Só esse estupor. Leio algumas mensagens do uatizapi e, de novo, me encolho, tentando encontrar um caminho para dentro, porque aqui fora tá escuro e passeiam os fantasmas. O pai levanta mais umas quatro vezes na madrugada. O mesmo ritual. O mijo, o olhar manso, o chão molhado, o pano encharcado, o chinelo seco. Quando a barra do dia se avizinha, eu adormeço. Restarão algumas horas e a vida recomeçará no dia da marmota, no feitiço do tempo que parece não ter fim.
O assassinato de George Floyd gerou uma onda de protestos no mundo todo na discussão do racismo e da violência policial contra os negros. Nos Estados Unidos, obviamente, as manifestações foram maiores. A comunidade negra, já calejada nesse sofrimento, explodiu em mais uma onda de protestos que iniciou violenta como reação imediata ao assassinato e, na medida em que foi sendo encampada por outros grupos sociais, passou a marchas pacíficas, inclusive com o apoio das autoridades.
As manifestações da população negra não são novidade nos Estados Unidos. No chamado “mundo livre” essas comunidades estão excluídas de direitos reais desde sempre, como acontece em quase toda a América. Nem a independência, nem a tão incensada Constituição foram capazes de apagar a lógica escravocrata da sociedade estadunidense, daí que esse estrato da população precisa sistematicamente se levantar em rebelião para garantir o mínimo. E é sempre o mínimo.
Lendo algumas análises sobre os levantamentos e vendo a comoção mundial, duas linhas de pensamento se expressam de maneira bastante diferenciada. Uma diz que agora sim os negros estadunidenses farão a revolução há tempos desejada, desde os grandes líderes da luta por igualdade de direitos até os mais radicais como os Panteras Negras. Isso claramente não está dado, mas pode estar, caso os protestos avancem para discussões mais profundas e mobilizem ainda mais gente, envolvendo partidos e organizações.
A segunda linha diz que é só mais um levante, entre tantos dos que já aconteceram, que apenas reivindicam inclusão na sociedade capitalista. A falta de consciência de classe é apontada como o grande entrave das mudanças estruturais, visto que os protestos pedem mudanças na polícia, mas não no sistema, deixando a estrutura intocada.
Para a professora Cris Sabino, do Serviço Social da UFSC, dizer que a luta dos negros não está vinculada às mudanças estruturais é totalmente injusta e só denota desconhecimento da realidade. Segundo ela, um negro, aqui no Brasil ou nos EUA, sabe que para que o racismo se acabe é preciso que as mudanças aconteçam no mais profundo das coisas, afinal, ele se expressa em tudo, desde a impossibilidade do acesso a questões básicas, como saúde e educação até o sistemático processo de extermínio. “O negro precisa estar o tempo todo lutando para se manter vivo, para ser tratado como um ser humano e não ser exterminado como um bicho. É um equívoco então dizer que os negros não pautam a luta de classe. A base da luta do povo negro é ter condições de igualdade perante a sociedade e a gente sabe que isso não vai acontecer sem uma mudança estrutural. Veja que quando as pessoas negras se movimentam elas movimentam toda a base da sociedade. O que falta, na verdade, é que os demais movimentos tradicionais e sindicais, pautem o racismo, isso sim”.
Nos Estados Unidos, em meio à comoção provocada pela violência contra George Floyd, boa parte dos governantes – governadores, prefeitos, congressistas – têm se posicionado a favor da pauta dos manifestantes no que toca a reformar as polícias e já se fala até em excluir dos protocolos de abordagem o tal do estrangulamento que acabou matando George. Mas, não se vê qualquer deles falando em mudar a estrutura do poder repressor, muito menos a sociedade como um todo. Os candidatos presidenciais, por exemplo, desviam o tema estrutural. De Trump, nada se espera, e o candidato democrata Joe Biden já declarou que não vai reduzir orçamento para as polícias. Ou seja, os partidos da ordem não têm propostas para os conflitos raciais, que se expressam mais concretamente na relação comunidade x polícia. Isso também pode ser percebido na relação da polícia, não apenas com os negros, mas também com os imigrantes de toda cor: latinos, árabes, chineses, etc... O racismo seguirá intacto, a menos que os protestos encontrem outros elementos de luta que mantenham as pessoas – negras e não-negras - mobilizadas e dispostas a mudanças maiores do simplesmente um protocolo de abordagem.
No Brasil, por exemplo, onde o extermínio da população negra é uma realidade cotidiana nas grandes e médias cidades, que protocolos poderiam ser mudados? Não atirar 80 vezes num carro em movimento com uma família dentro? Não atirar mais de 70 balas em uma casa particular onde adolescentes negros estão jogando vídeo-game? Não sumir com os corpos negros, como o do Amarildo?
Agora, durante o caos gerado por uma estudada e planejada “incompetência” do governo federal no enfrentamento ao novo coronavírus, são os corpos negros os que estão pagando o preço alto da morte. São eles – em maioria - que estão nas ruas, trabalhando, e são eles os que ficam à espera de respiradores em postos de saúde, muitas vezes por dias, sem conseguir. Número do Sistema Único de Saúde mostram que 67% dos usuários são negros e uma boa parte pertencente ao grupo de risco, com diabetes, tuberculose, hipertensão e doença renal.
O racismo estrutura a sociedade capitalista: nos países do centro do sistema por terem sido os traficantes de gente, e nos países de periferia por terem sido os espaços onde os povos originários foram violados e os negros sequestrados da África amargaram a dor de ser escravizado. Esses, depois da chamada libertação, foram lançados no mundo sem o direito à propriedade, o que, de cara, já colocou uma pedra gigante na proposta de igualdade de direitos. Como ter igualdade no capitalismo sem propriedade? Impossível. Nos Estados Unidos, um dos pais da Pátria, Thomas Jefferson, tinha como proposta mandar embora do país todos os negros libertos, porque tinha medo que eles tivessem de roubar para sustentar-se, visto que obviamente formariam um bloco de miseráveis.
Assim que os protestos dos negros nos Estados Unidos, bem como em todo o mundo são efetivamente uma chispa perigosa para o sistema, mas que precisa de mais lenha para queimar até colocar em queda o racismo estrutural.
O Alzheimer é uma doença danada que todos os dias nos coloca um desafio. Quando tu pensas que resolveu um, lá vêm mais dois. Por agora eu andava as voltas com as noites do pai. Ele levanta pelo menos umas quatro vezes para fazer xixi. Eu colocava, ao pé da cama, um desses chinelos de pano para ele ficar confortável na hora de levantar. Beleza. Dava certo. Até que ele começou a não controlar mais os jatos do xixi. Levanta, vai ao banheiro, chega ao vaso, mas o xixi sai para todos os lados, menos para dentro. Resulta que os chinelos ficavam molhados e os pés também. E quando levantava para nova sessão, o chinelo estava encharcado. Hum, problema.
Resolvi suspender o chinelo de pano, trocando por uma havaiana. Deu certo por um tempo, quando não estava frio. Vez em quando errava o dedo e saia meio troncho, mas funcionava. Fazia o xixi, molhava o pé, o chinelo e tudo mais. Mas, terminado o serviço, era só secar o pé, colocar o chinelo na água, lavar e estava pronto para a próxima mijada. Até que veio o frio. Ele, de meia, não consegue enfiar o chinelo de jeito nenhum e sai quarto afora só de meia, voltando depois com os pés molhados. Cáspite!
Comprei um chinelo de couro, desses que enfia o pé inteiro. Mas, ainda assim o xixi que escapa da calça desce perna afora e continua molhando as meias e também o chinelo, que fica todo gelado porque o couro não seca tão rápido. O problema seguia.
Então, vendo um filme, pensei: quem sabe um desses sapatos que os trabalhadores usam em frigorífico, em peixaria? Hum. Toca a procurar na internet. Achei. Fiz o pedido e ontem chegou. Um desses sapatos de borracha, tipo babuche, fechado em cima, mas aberto atrás, como um chinelo. Bora testar.
Ontem, lá se foi o seu Tavares com seu chinelo novo para as mijadinhas. Na primeira já foi aquele salseiro. Tudo fora do vaso. Volta pra cama e vou ver a situação. Sapato molhado, pé sequinho. Oba! Bastou passar um paninho molhado no calçado e tudo bem. Mais três vezes a situação se apresentou. E todo xixi fora do vaso, espalhado pelo chão. Sapato molhado, pé sequinho.
Às seis horas, hora do último xixi, eu secava o chão com um sorriso nos lábios, enquanto o sapatinho descansava sequinho ao pé da cama. Por agora, deu certo. Dez a zero pra mim. Até o próximo problema.
Eu nem conhecia o Vilson Santin, mas votei nele para deputado estadual em 1990, porque sempre direcionei meu voto para os candidatos que viessem do campo, principalmente se tivessem vínculo com o MST. Naqueles anos a luta pela Reforma Agrária estava ainda no auge e um parlamentar que viesse das entranhas do movimento seria muito bom. Santin era assim. Liderança forjada desde gurizinho na luta pela terra. Foi um dos principais organizadores das primeiras ocupações acontecidas em Santa Catarina, percorrendo as quebradas do campo por mais de 90 dias, só com uma mochila nas costas e o coração cheio de esperanças.
Foi assim que ele, e mais um pequeno grupo de lutadores, arrebanhou quase duas mil pessoas para a grande empreitada. As ocupações de 1985 não foram assim como um raio num céu azul. Não. Foi coisa milimetricamente organizada, nos mínimos detalhes, para que o povo que fosse enfrentar jagunço, polícia e ódio da população tivesse tudo muito claro na cabeça sobre os perigos que iria enfrentar.
Quando Santin chegou, eleito deputado, na Assembleia, no mesmo ano em que Luci Choinaki, mulher camponesa, assumia em Brasília, o que vimos foi um homem cheio de entusiasmo, alegria, vitalidade e vontade de fazer acontecer as lutas dos trabalhadores. Na época, eu assessorava a Luci e pude acompanhar o trabalho desse homem extraordinário. Nunca, em nenhum momento, a máquina legislativa o engoliu. Ele sempre esteve à margem de todos os redemoinhos que puxam e moem gente quando nesses espaços de poder. Santin, não. Ele sempre foi a mesma pessoa, e até quando desfilava com um fino terno azul marinho, exigência do cargo, sua alma camponesa assomava, no riso fácil, na cara sapeca, no trato humano, cheio de calor. Nunca me orgulhei tanto de um voto como o que eu dei para o Santin. Naqueles dias ganhamos um parlamentar de qualidade, mas, eu, mais do que isso, encontrei um amigo, que abriu seu coração e sua casa, na qual pudemos partilhar a vida com a preciosa Jô, sua companheira, raiz de toda ternura e toda a força que envolve essa família.
Hoje conversamos por mais de hora sobre os 35 anos do MST aqui em Santa Catarina. Lembrou as histórias, os companheiros, as peripécias, as vitórias, tudo muito fresquinho na cabeça, como se ainda estivesse andando pelos caminhos do Oeste arrebanhando almas em rebelião, abençoado pelo Dom José. Porque, afinal, é o que continua fazendo ainda hoje, assentado, mas não parado. Segue dirigindo o movimento e fazendo o que mais gosta, que é encher de esperanças e vontade de luta os trabalhadores rurais. “Lá atrás, naquelas primeiras ocupações, nós fizemos um juramento, eu, o Egídio, a Irma, todos, de que, mesmo se um dia conseguíssemos terra pra nós, nunca abandonaríamos o movimento e a luta. E ninguém traiu aquele juramento. Estamos aí, Elaine”, diz, com sua alegria de menino.
O MST fez 35 anos de vida em Santa Catarina, e essas três décadas estão cheias da vida de centenas de mulheres e homens, gente como o Santin. Gente como o Parafuso, um dos fundadores do movimento nacional, que também fez sua vida por aqui no nosso estado. Gente como o Egídio Brunetto, que já encantou também e que nunca arredou pé da luta. O MST é esse espaço de belezas que conseguiu, na força da luta, garantir vida digna para milhares de pessoas. Não só para os que se levantaram e ousaram viver nos acampamentos, mas também para os que hoje vivem ao redor das cooperativas e das propriedades produtivas.
Esse sonho nascido nas madrugadas ao redor do fogo, quando os sem-terra decidiram romper todas as cercas, ainda não está completo. Mas já construiu muito. E, através do Santin, esse meu amigo/irmão, de presença constante, voz de trovão, cara vermelha de indignação e riso sapeca eu reverencio cada companheiro e companheira que um dia escolheu trilhar esse caminho sem volta da luta renhida. Viva o MST. Viva o povo sem-terra que se move, e se move, e move a terra.
Hoje estava lavando roupa e o tanque fica bem num ângulo que dá pra ver o quarto do pai. Vi que ele conversava muito animado com uma fotografia que achou numa revista e que colocou na mesinha de suporte. Ela fica ali como num altar. É uma foto de um grupo de pessoas, num tempo passado, creio que deve ser lá pelos anos 1940. Não sei quem são, e nem ele, presumo. Mas, de qualquer forma ela o distrai e ele conversa amiúde com aquele povo. O papo é animado, ele mexe as mãos, ri, argumenta. É bem engraçado.
O pai passa os dias assim. Acorda, cochila, come bergamota, cochila, fuma, fica andando em volta da casa, vai até o portão e volta, pega os lixos da lixeira e traz para a cozinha, depois leva outra vez para a lixeira. Almoça, cochila, fica andando em volta da casa, prá e prá cá no portão, fuma, ouve música, come banana. Depois, janta, ouve música, come bergamota, toma chá, vê televisão e vai dormir. É uma vida não produtiva, que alguns chamariam inútil. No mundo do trabalho, do capital, ele é um inútil. Ele não pinta, não compõe, não se lembra do passado, não faz absolutamente nada que sirva para alguma coisa. Então, talvez por isso, que alguns governantes não se importem com a morte dos velhos agora na pandemia, afinal, são inúteis, não servem pra nada.
Quando eu vejo o meu pai, aos 88 anos, na sua rotina diária de andanças pelo quintal, num ir e vir aparentemente sem sentido, não posso deixar de me comover. Sua inutilidade é um fato. Ele que sempre foi arrimo da família, agora não faz mais nada por ninguém. Passa o dia vivendo sem qualquer preocupação. Não seria então a inutilidade um presente? Um momento de viver para si, só na fruição? Penso que sim. Quem disse que é preciso produzir o tempo todo? Quem disse que há que se cumprir um protocolo de utilidade para ser uma pessoa?
O pai começou a trabalhar cedo, em escritório de contabilidade. Teve uma vida boa até os quarenta e poucos anos, quando perdeu tudo e teve de começar do zero. Um velho já para o mundo do trabalho. E, ainda assim, ele se reergueu. Estudou, se esforçou, e terminou sua jornada de trabalhador como chefe do almoxarifado do DEER de Minas Gerais. Nunca se queixou do trabalho duro e sempre foi em frente, sem reclamar. Como empregado era um calvinista. Nunca chegou atrasado, nunca faltou, deu sempre o seu máximo. Fazia o impossível pelos seus colegas. Como pagador de trabalhadores no trecho – obras nas estradas – ele se virava nos 30 para fazer chegar o dinheiro, fizesse chuva ou sol. Chegou a atravessar um rio, amarrado numa corda, para garantir o salário dos companheiros. Era o que se chama de “caxias”.
O pai criou os filhos sempre ensinando o sentido da honestidade e do trabalho. Pagava as contas religiosamente. Era capaz de ter um troço se não tivesse dinheiro para quitar as dívidas e o sinal para a demência foi justamente esse: de repente ele se esqueceu de pagar as contas. Isso só poderia ser doença. E era.
O pai foi um cara extraordinário ao longo de sua vida “produtiva”. Ele tem uma história linda de perseverança, de coragem, de derrotas e superações. Ele tem uma história, que está viva em nós.
Por isso que hoje, quando ele aproveita – sem culpa - desse momento de inutilidade, eu me encho de ternura. É bom vê-lo sem a neurose das contas, sem a necessidade de cumprir afazeres, obrigações. Na sua vida inútil ele está livre. Ele pode conversar com os amigos imaginários nas fotos, ele pode degustar as frutas, dormir, caminhar, ouvir música sem preocupação. Ele tem quem lhe cuide, que lhe dê o alimento na hora, troque sua roupa, dê o banho, quem dance com ele, e lhe encha a cama de perfumes e cobertas quentinhas.
Ele é uma vida que foi vivida na plenitude, mas sempre acorrentada ao trabalho, à obrigação, ao dever. Agora, não. É só um corpo dançante, que toma vinho e cospe o que não quer comer.
Por isso que a vida dele importa. Tanto quanto a do jovem que ainda não viveu tudo o que ele já percorreu. Por isso que não é possível escolher entre um e outro. Cada um é um universo. O jovem, ainda em jornada. O velho, que já cumpriu tanto.
A proposta do “deixa morrer os velhos e os fracos”, que aparece agora, com a pandemia, tem me consumido os dias e noites. Não posso aceitar. Porque, como Manuel de Barros, tenho respeito pelas coisas inúteis, que existem apenas para a fruição. Um velho dedal esquecido numa caixa, um quadro sem valor, um lápis de cor quebrado. Coisas que evocam belezas. O pai, esse homem de tanta vida, é assim. Um ser de fruição. Um evocador de belezas. Ele merece viver sem a pressão de ser útil.
Ele é velho, inútil agora, mas já riscou um caminho nesse mundão de deus. Sua vida importa. E muito. Assim como a vida de outros velhos e velhas desse planeta azul, cheios de histórias, memórias e belezuras.
A pandemia do coronavírus provocou o aprofundamento da dependência digital. Isso é um fato. E ainda que milhões de seres no mundo não tenham acesso ao “admirável” mundo da internet, a tendência que desponta é justamente essa: tudo o que puder ser feito via rede mundial de computadores, será. Em muito pouco tempo quase nada necessitará ser presencial e chegaremos ao tempo que considerávamos como um futuro distópico que é tempo dominado por um grande irmão sem rosto e sem nome.
Mas, apesar de o mundo em rede parecer não ter nome ou rosto, ele tem, e terá. É o bom e velho capitalismo se reinventando e conseguindo garantir mais lucros com menos gastos, porque poderá prescindir de muito mais trabalhadores. E os que restarem para operar – e sustentar - o sistema serão ainda mais explorados do que antes, a superexploração chegando a todos os rincões do mundo.
Nos grandes centros, onde a vida pulsa, assoma o tal do tele trabalho ou trabalho remoto. Ou seja, a pessoa pode produzir em casa. Assim, o trabalhador fica muito mais tempo disponível para o trabalho, pois está praticamente 24 horas pendente. E tem de fazer seu trabalho, se concentrar, ao mesmo tempo em que cuida dos filhos, da casa, dos bichos, dos doentes. Gasta sua luz, sua conexão com a rede, seus equipamentos, sem que o patrão precise pagar mais por isso. Há quem goste da coisa, mas para a maioria é e será o inferno.
Também na educação esse parece ser o futuro. Uma luta de anos contra o ensino à distância está preste a ser resolvida oportunamente por conta de um vírus. Sem saídas para o ensino presencial, a proposta que surge é a do ensino via internet. Segundo os governantes e especialistas da área, hoje, todo mundo, com um celular, pode ter acesso à rede. Isso é uma meia verdade. É certo que a maioria das gentes possui um celular, mesmo as mais pobres. Mas, qual é a relação do celular com a conexão? Quem tem os pacotes de dados capazes de garantir navegação em todos os sítios? A esmagadora maioria tem plano básico ou pré-pago e só consegue acesso às redes sociais porque as operadoras oferecem de graça.
Até mesmo no campo da vida política as coisas poderão ser definidas a partir da rede. A pandemia também mostrou que as articulações via internet para intervir em votações no Congresso ou na decisão de prefeitos e governadores podem ser poderosas. E ainda que a tal da rede seja um criadouro de mentiras e enganos, há uma tendência cada dia maior de as coisas serem discutidas e decididas através dela. Basta ver a dimensão que tomaram os famosos “ao vivo” agora, nesse tempo pandêmico. Mesmo que ninguém esteja vendo, todos estão falando e tentando influenciar. O aplicativo de mensagens tornou-se a assembleia e as consultas em tempo real tendem a se proliferar com rapidez. A batalha de ideias se dará nesse campo minado no qual a verdadeira verdade pouco terá vez.
Na aparência, o mundo será ágil, limpo e organizado. Na essência, seguirá cobrando sangue e vida dos empobrecidos.
A arte, que é a antena do mundo, tem sido pródiga em apresentar essas distopias. E em todas elas, para desespero da classe dominante, sempre há um espaço de resistência, de luta e de organização. Porque se para um número bem grande de pessoas esse mundinho limpo das redes pode ser uma realidade, haverá uma fatia considerável de pessoas que ficará de fora. Afinal, quem vai retirar do chão o minério para fazer os suplementos dos computadores? Quem vai produzir as máquinas? Quem vai fabricar os bens de consumo? Quem vai plantar o alimento? Quem ai tratar os animais? Quem vai limpar o lixo do empoderados? Todas essas coisas ainda terão de ser feitas pelo trabalho humano, real e presencial.
De qualquer forma, é certo que uma nova arena de combate se apresenta, se consolida, e temos de prestar muita atenção a ela. Conhecê-la, dominá-la e encontrar caminhos para atuar é nosso desafio. Mas, também é certo que esse campo, dentro do capitalismo, seguirá sendo um campo desigual. Muito desigual. Mesmo que a gente queira disputar a hegemonia nas redes sociais, como o faremos? Enquanto a classe dominante tem empresas que disparam milhões de mensagens por minuto, nós seguiremos tendo apenas os militantes que terão uma capacidade bem menor de inserção. Já vimos perdendo essa batalha desde o golpe de 2016. O discurso dominante - mentiroso e enganador - circula com mais velocidade e com mais densidade do que o da luta popular. Além disso, como disputar o discurso falando apenas para nossa bolha, enquanto os chamados “influenciadores”, muitas vezes a soldo do capital ou buscando interesses próprios, conseguem obter audiências avassaladoras? O que dizer de um “ao vivo” de uma famosa cantora popular brasileira , do campo da agro/música, que conquistou a segunda maior audiência do mundo, com suas canções eivadas de machismo, misoginia e aceitação acrítica da realidade opressora?
O cenário de futuro pós-pandemia é desolador. Não virá o mundo novo, generoso, solidário que muitos estão sonhando por terem visto imagens poéticas de pessoas tocando violinos nas janelas. Não virá porque esse mundo não pode ser constituído de forma mágica ou pela graça de um deus. O mundo novo só poder vir se construído pelas pessoas reais, organizadas e em luta.
Assim que entender que se está diante de um novo campo de batalha - as redes - é importante, mas não basta para mudar a realidade. Muito menos o combate por dentro delas poderá nos oferecer caminhos vitoriosos para a transformação. Ainda continua atual e necessário o projeto de uma nova sociedade baseada no comum, comandada pelos trabalhadores, a maioria da população. Tomar nas mãos o controle de toda a produção humana e colocar tudo isso a serviço do bem comum fará com que se trabalhe menos e melhor. A distribuição da riqueza poderá ser feita conforme a necessidade e as decisões serão tomadas com base no interesse geral e não apenas dos grupos de poder. Todos terão direito à moradia, saúde, educação e vida boa. Essa é a utopia. Esse é o sul.
Por isso que o caminho da luta não pode tomar atalhos falaciosos. Nosso drama não é só a luta contra as mentiras da internet ou contra a nova realidade digital. É a luta contra o capital, coisa muito mais profunda. Como diria o poeta palestino Mahmud Darwish, “ainda verte a fonte do crime. Obstruam-na! E permaneçam vigilantes, prontos para o combate”. E é isso mesmo. A fonte do crime: o capitalismo, segue apertando os corpos dos trabalhadores com seus tentáculos sedutores. Há que obstruir, combate, e destruir. Não é tempo de resistência. É tempo de avançar.