A leitura do livro de Marlon Aseff, nestes dias que correm, pode ser um desses pequenos atos que acabam girando nas águas de toda uma vida. Ele desaloja, entristece e logo em seguida, mostra que a única saída que nos cabe é resistir, lutar, seguir em frente. Não há tempo para remoer dores, se isso não nos leva ao paraíso. É o que ensina o personagem principal do romance, Luiz Carlos, um professor negro, de 60 anos, que ainda dá aulas de história em um colégio na capital de Santa Catarina, no conturbado ano de 2016, ano do golpe de Temer em Dilma. Tempo em que começam a sair os monstros de suas cavernas sujas.
- Os comunistas têm que morrer mesmo. Ouve de um aluno, numa aula qualquer. É o gatilho para que Luiz Carlos entre no barco de sua própria história, cruzando os tempos até quando tinha 18 anos e era um garoto rebelde, afoito, cheio de energia para lutar contra a ditadura que ainda estava matando, prendendo e desaparecendo gente no Brasil. A partir desse mergulho nas lembranças, Marlon vai carregando o leitor desde Florianópolis, passando por Criciúma e chegando ao Uruguai, na viagem angustiosa de um menino e de um velho que, no exílio, acaba construindo amizade e camaradagem.
O que assoma, potente, no texto de Marlon é a capacidade de descrição que, como já ensinou Antônio Olinto, é a mais poderosa das opiniões. A narrativa é densa, ágil e cinematográfica. O leitor acompanha a aventura de Luiz e Ernesto pelas estradas do Brasil até chegar ao Uruguai como se estivesse dentro de um filme. Todas as imagens são muito vívidas, talhadas com maestria por quem fez o jornalismo o seu ofício primeiro. Marlon trabalhou como repórter em Florianópolis e seu texto, desde sempre, foi uma tessitura bem amarrada que foge e foge do lugar comum do jornalismo. A literatura já fez morada nas reportagens e agora, se apresenta, luminosa, sem romance. Marlon maneja as palavras como um mestre.
Os dois personagens, unidos pela necessidade da fuga, vão se conhecer, entre desconfiados e desesperados, apresentando duas faces distintas desses tempos cinzentos da ditadura brasileira. Um, jovem, ardente de revolução e o outro, velho, doente e já sem qualquer expectativa de ver o país livre. Nessa trama ainda podemos conhecer os companheiros fugazes e desconhecidos que fizeram parte da fuga, na secreta confraria de camaradas que arriscaram também suas vidas para salvar outras, mostrando que a luta é coisa mesma coletiva e fraterna.
A fuga dos dois companheiros enfrenta a estrada e os atropelos do encontro com as pessoas comuns. O medo sempre na carona, acendendo em cada rosto novo ou em cada situação estranha. A cena do encontro com os supostos policiais no bar é impactante. Um deslize e tudo estava perdido. Depois, já seguros, os dois chegam ao Uruguai, onde mais uma vez um desconhecido vira morada e abrigo: Juan José, dando concretude à palavra companheiro.
Nas suas lembranças, Luiz Carlos revive o exílio numa praia perdida do Uruguai, na companhia de Ernesto, quando a amizade vai crescendo como planta boa, estendendo as ramas com profundidade, em meio a dor da ausência dos seus. As histórias vão se abraçar, jovem e velho, tecidas no mesmo sonho de ver um país livre e uma vida boa para todos. Uma das passagens mais bonitas é quando Luiz descobre que Ernesto conheceu seu tio, um comunista que foi mineiro em Criciúma. E o velho advogado conta para ele de um momento heróico vívido por Hugo, tio de Luiz, aprofundando no garoto ainda mais a certeza de que estava no caminho certo. Lutar não tinha DNA.
O passado, na praia Uruguai, vem para iluminar o presente de Luiz, agora um professor acossado pela onda imparável da ultra direita, essa velha conhecida. Relembrar aqueles dias de medo, desesperança e perdas, reviver em Luiz o menino que ele foi, sonhando beleza, com Ernesto, na beira do mar.
Assim que a leitura do livro de Marlon faz vibrar em cada leitor a mesma luz do céu profundo que incendiou lutas na ditadura militar. Uma luz que brilha igualmente nos tempos do golpe e que pode brilhar nos caminhos obscuros que se aproximam. Os personagens, o moço e o velho, ensinam que a noite nunca pode servir de escusa para que não se construa a clareza do dia que virá. E a gente fecha as páginas com o coração verdejante, como no poema da poetisa de Quaraí, Lila Ripol, a preferida do doutor Ernesto:
Não, não irei sem grito.
Minha voz nesse dia subirá.
E eu me preencherei também.
Solitária. Definida.
...Não. Não irei sem grito.
Abram as portas adormecidas,
levantem como cortinas,
abaixem as vozes
e as máscaras —
que eu vou sair inteiro.
Eu mesma. Solitária.
Definida.

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