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| Foto feita em 1975 |
O ano era 1975, o presidente era Ernesto Geisel. O Ministério de Indústria e Comércio do Brasil, cujo secretário de Tecnologia Industrial era o Bautista Vidal, pediu um estudo à Universidade Federal do Rio de Janeiro sobre a situação ergonômica dos ônibus urbanos. Estava para ser fechado um acordo de exportação dos ônibus brasileiros para países da África e o governo queria saber se estava nos conformes. O relatório feito pelos especialistas é bastante minucioso e mostra a completa inadequação dos veículos para o transporte de passageiros. O curioso é que muito do que foi levantado pelo estudo permanece até hoje. Não sei se o governo levou a sério o estudo àquela época, mas imagino que não, porque, ao que parece, muito pouca coisa mudou.
No relatório os pesquisadores mostram com riqueza de detalhes que praticamente tudo é mal planejado nos veículos do transporte urbano. Os degraus de subida são muito altos, dificultando o embarque, principalmente de crianças e pessoas velhas. E os degraus de descida também deveriam ser bem mais baixos, o que daria maior controle muscular para quem sai do ônibus. Os assentos igualmente não respeitam a ergonomia, sem a altura ideal, e sem conforto para os usuários. Pessoas de baixa estatura não conseguem se segurar no ferro que fica acima, no corredor, e tampouco conseguem puxar o fio, o que pode causar acidentes. A estação de trabalho do motorista é matadora, sem cuidado com a saúde do trabalhador. A estação do cobrador também, a começar pelo fato de que ele fica de lado, o que pode ser ruim para sua saúde. O ruído do motor dentro do ônibus é muito alto. E a lotação excessiva causa desconforto e desequilíbrio.
Isso aí em 1975. Mas, em 2026, praticamente tudo segue igual, excetuando a estação do cobrador, que não existe mais. Não faz muito tempo, parada no ponto, vi a dificuldade de uma senhora velhinha, tentando subir no ônibus com duas sacolas de compras na mão. Impossível. Não fosse um rapazinho que estava dentro ajudar, ela poderia até ter caído para trás. Eu mesma, no alto dos meus 65 anos, amiúde encontro dificuldade para acessar o degrau quando o ônibus para na rua, longe da calçada. É uma aventura diária.
O meu amigo Noé Almeida, que é quem tem a cópia do estudo feito em 1975, afirma categórico: o transporte coletivo é o pau-de-arara urbano. E eu assino embaixo. Nada é feito pensando no usuário. Tudo é feito pensando no menor custo e no maior lucro para as empresas.
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