quarta-feira, 14 de setembro de 2022

A aranha


Na minha casa mora uma aranha. E já vai pra mais de dois anos. Ela fica num canto da parede, dentro de uma espécie de casulo. É bonita, grande e com uma cor delicada. Durante o dia tu olha pra lá e ela está lá, quietinha, como morta... No final da tarde ela desce, devagar e começa a tecer uma teia. Imagino eu que é onde ela prende os bichinhos voadores que lhe servem de alimento. Aquilo me encanta.

Nunca tive coragem de limpar o lugar. Olho para a teia e imagino que aquilo ali deve ser um universo para a aranha. Seu pequeno mundo é aquele espaço entre o casulo e a teia. Não deixo ninguém mexer. A aranha me faz pensar na vida da gente. E sempre que me aperta a angústia dos dias que passam quase sem propósito, na rotina do prosaico, eu vou ali bater um papo com ela. Aconteça o que acontecer ela tece sua teia. Todos os dias ela vai ali e remenda. Por vezes a teia está maior, outras menor, mas está ali, o seu universo. 

Então eu penso que com a gente pode ser assim também. Mesmo quando nada parece fazer sentido, é preciso percorrer os caminhos da nossa teia, remendar, costurar, agrandar. Talvez esse seja o sentido mesmo: simplesmente viver. Sei que não sou uma aranha, mas dias há em que me consola pensar que sou como ela, apenas tecendo, tecendo e tecendo...

terça-feira, 6 de setembro de 2022

O pai e a alegria


É certo que a gente não é de ferro. Por isso, vez em quando me dá uma tristeza infinita por perceber que a doença de Alzheimer está levando o pai, lentamente. Não é bolinho a gente ver a pessoa que a gente ama ir se apagando. São as tais das fases. Lembro que quando ele chegou aqui saía sozinho, ia ao mercado comprar seu pito, troteava pelo bairro “indo para casa”, molhava as plantas, secava a louça, caçava carrapato, marcava os cocozinhos dos cachorros, sempre envolvido em alguma tarefa. Agora, ele já não quer saber de andar e passa os dias sentadinho na sua poltrona ou na cadeira de rodas, no quintal. É coisa que me angustia. Mas, vou aguentando. 

Por outro lado, mesmo nesse contexto de perdas, há momentos que são de uma alegria estelar. Um deles é o momento de tirá-lo da cama. Espio na janela para ver se ele já acordou. Ele acorda devagar. Fica um tempão brincando com as cobertas. Quando, por fim, ele meio que senta na cama vejo que é hora de eu entrar em ação. Então, eu abro a porta do quarto, cantando: “bom dia, seu Tavares, o sol já nasceu lá na fazendinha”... E ele me olha, dando uma baita risada. Ele me reconhece. Provavelmente não como filha, mas como alguém em quem ele pode confiar. Ele se alegra e se agita, pronto para levantar. 

Esse momento, esse único momento já vale pelo dia inteiro. Sei que muito pouco posso fazer por ele no que diz respeito à doença. Mas, tenho completa certeza de que ele sabe e sente que faço tudo o que é possível para que ele passe esse tempo na felicidade. Vejo isso também quando chego do trabalho. Eu ponho a cara na porta e digo: “cheguei, meu broto”. E ele abre o sorrisão, como a dizer “que bom!”. E nos sintonizamos na alegria.

Cuidado e carinho é tudo o que é preciso...

quinta-feira, 1 de setembro de 2022

A Gina e o telefone



Eu ainda tenho telefone fixo. Insisto nisso. Ele toca bastante. São chamadas da Tim, da Vivo ou de empresas de cobrança procurando pessoas que jamais vi. Mas o seu toque é sempre um alerta pra mim. E aviva minhas lembranças mais doces. Poucos são os amigos que ligam para o meu fixo. Havia dois em especial que sempre ligavam: o Danilo, que encantou esse ano, e a Gina, que encantou há seis anos.  Assim, quando ouço o tlim tlim do telefone eu imediatamente penso: ou é a Gina ou o Danilo e corro para atender. Desafortunadamente não é nenhum dos dois, mas é bom, porque eu sorrio e lembro de suas vozes a me encher a cabeça e o coração.

A Gina era batata. Qualquer mudança na conjuntura ela ligava para discutir o tema , passar suas impressões. Ou então vinha com pautas para eu fazer matéria. “Tem que escrever sobre isso, baixinha”. “Tu ouviste o discurso do Chávez? Tem que reproduzir!” E ela mandava e eu obedecia. Por vezes ela ligava para xingar os políticos ou qualquer outra criatura que estivesse fazendo merda. E de sua boca saiam as mais escabrosas maldições. Era uma pândega. Iluminava minha vida. A Gina era uma antena, captando tudo sem parar. E tinha garras afiadas para lutar contra os vilões do amor. E para defender o MST, movimento que ela amava mais que tudo. 

Lembro que ela já estava doente e fomos buscá-la para almoçar na casa do Glauco. Enchemos a cara, demos muita risada e falamos mal de deus e o mundo. Ela já tinha mandado eu fazer um livro sobre o Artigas e eu estava enrolando. Então prometi que iria fazer um vídeo sobre o nosso general dos povos livres. E fiz, e ela foi a linha mestra de todo o trabalho.

A Gina encantou antes de o vídeo ficar pronto. Não viu o produto final, mas não importa. Eu sei que ela iria adorar. “La puta madre. Ficou bom”, diria. E mandaria eu espalhar por aí a história da grande marcha para a liberdade. Eu o fiz, amada minha.

Hoje faz seis anos que ela se foi. Não mais sua figura esguia, meio Maricota. Não mais sua risada forte, não mais a sua voz uruguaia. Mas, ainda que não esteja em carne, ela permanece. Vive em cada toque do telefone, em cada notícia sobre Cuba, Venezuela, MST, nas lutas dos trabalhadores. Sua energia vulcânica está nos ar, nas estradas que levam aos acampamentos e assentamentos, nos auditórios da UFSC e nas entradas de todos os encontros de trabalhadores. Porque a Gina é desses mortos que nunca morrem. Ela vive para sempre. 

Te amo Gina... Te amo a morir! E gosto de te lembrar assim: com cerveja, risos e maldições!!!

terça-feira, 9 de agosto de 2022

O comunista



Trocar o pai de manhã é uma longa novela. Há todo um ritual para ele levantar da cama e depois para a limpeza corporal. Tudo feito com muita calma e muito conversê. É uma maneira de distraí-lo e ir fazendo o que precisa ser feito. Tirar a roupa da noite, dar o banho de gato ou de água, conforme o estado de humor, trocar as meias, passar o óleo de girassol pelo corpo todo para hidratar a pele, fazer o curativo da feridinha que apareceu nas costas, tirar a fralda. 

Feito isso, começa a parte de colocar a roupa do dia. Outro processo. Colocar a camiseta, a blusa de lã, a fralda limpa, a calça, as meias, o tênis. Tudo isso eu faço sempre avisando cada passo que vou dar. Agora vamos colocar a camisa. Agora vamos colocar a blusa, agora isso, agora aquilo... Nesse meio tempo, ele vai conversando e dizendo coisas na sua língua de cigano. 

Dia desses, lá estávamos nós, eu e a Clau, ajudando ele a se levantar e trocando a roupa. E ele falando, falando, falando. Começou a dizer foice, foice. 

E eu:

- Foice, que foice? A única foice que eu conheço é a foice e o martelo do comunismo. 

E ele assentindo com a cabeça. 

- Por que estás falando isso? Por acaso  tu és comunista?

E ele, muito rápido e firmemente:

- Euuuu sou!

Pois é, a fruta não cai longe do pé.



No ônibus



Aí entra no ônibus o vendedor de trufas. Faz toda a sua conversa contando que é do Maranhão e que preferia estar trabalhando de carteira assinada. Mas, no país do Bozo, o desemprego cresceu. Ele está fazendo o que pode para sustentar a família. Começou a explicar como os maranhenses comem a juçara, que para nós aqui é açaí. Então ofereçe as trufas, seu ganha-pão. Um menino olha pra ele, atento, com os olhos pidões. Acompanha o conversê todinho. Um ou outro compra a trufa e o guri com aquela carinha triste.

Aí o vendedor olha pra ele e pergunta:

- Você quer uma trufa, menino? 

E ele, ainda com os olhos pidões, mostra uma nota amassada de dois reais. 

- Só tenho isso...

- Tá bom, toma aqui, faço por dois. 

E a carinha dele se ilumina, irradiando a felicidade pelo ônibus inteiro. 

O homem sai antes que o ônibus arranque. E o gurizinho segue o caminho da Eucalipto se lambuzando de chocolate, feliz, feliz... 

Não sei porque diabos isso me emociona tanto e me saltam as lágrimas..

Jornal Comunitário


Apesar da internet e tudo mais eu ainda acredito firmemente que a comunicação do cara-a-cara é a melhor. E fazer esse encontro com um jornal impresso é melhor ainda. Por isso gosto de saber de experiências de jornalismo comunitário por aí que ainda apostam nessa proposta. 

É o caso do trabalho da Comunidade de Jovens do Oeste (Cojoeste) que desde há nove anos edita o Jornal Comunitário. São 12 páginas de reportagens, informações de interesse público, poemas, enfim, coisas que interessam aos moradores da região. Essa gurizada, além de produzir o jornal, vai pelos caminhos fazer a distribuição, casa em casa, aproveitando para fazer uma prosa e tomar um mate. 

Recebi alguns exemplares pelo correio e agradeço. Por seguirem fazendo jornal, por trabalharem com o jornalismo libertador e por garantirem informação de qualidade no espaço rural, onde quase nada chega. Parabéns meu queridos Paulo Fortes, Tayson Bedin, Eliezer A. de Oliveira, Claudia Weinman Cláudia Baumgardt, Julia Saggioratto e Pedro Pinheiro. Vocês aquecem meu coração....

sexta-feira, 29 de julho de 2022

A força de viver



Meu pai tem Alzheimer há sete anos. Com a pandemia piorou um pouco porque a interação social parou. Mas, também sabemos que essa doença é assim mesmo, vai piorando. Não há melhora. Temos de ir nos reinventando. Há alguns meses a mobilidade dele deteriorou muito. Homem afeito a caminhadas, parou de andar. Mal consigo fazer com que ande até o portão, logo de manhã quando acorda. Depois, ele senta e não levanta mais até de noite. 

Como aqui em casa a vida acontece mais na parte de fora – almoços e encontros familiares  - eu tive de encontrar alternativas para não deixar ele isolado no lado de dentro. Então, aluguei uma cadeira de banho – para a hora do banho – e uma cadeira de rodas para movê-lo para fora, no quintal, onde precisa tomar sol e interagir. 

Pois foi só as cadeiras chegarem que ele se aprumou. A cadeira de banho ele abomina. Não senta de jeito nenhum. Na primeira vez fez uma balbúrdia tão grande que tivemos de desistir. Hoje, em mais uma tentativa de dar banho sentado, ele colocou toda sua força nos braços e se levantou sozinho. Não quer saber de sentar na bichinha. O jeito foi levá-lo até o box, caminhando mesmo. E ele se foi, bem contente, chegando até a brincar com a água quentinha. Xô cadeira, não tô morto, parecia dizer. 

Já a cadeira de rodas ele só aceita para ficar ao sol. Eu o levanto e ele vai andando até o quintal, lá ele senta na cadeira e fica o tempo todo empurrando ela com os pezinhos. Na hora de voltar pra dentro, tem de ser andando também. Seu Tavares é porreta mesmo, se recusa a se deixar vencer.  Observo isso com profunda ternura. Meu amado pai, que sempre foi um caminhador, enfrenta com valentia mais essa dificuldade. A parada é dura pra todos nós, mas enquanto ele tiver força, vai querer andar. E que bom que seja assim. 

Nessa doença o lance é esse. Quem tem de se adaptar é a gente que cuida. Eu me alegro de ver a força da vida que segue forte no pai. Ele não se entrega fácil não. Que siga assim, meu brotinho...