sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Reféns do global ou vítimas da bolha assassina



As notícias pululam fragmentadas e a imprensa olha de um jeito vesgo. Dezenas de artistas da Rede Globo estão sendo demitidos ou se demitindo. Alguns analistas de televisão falam em crise na emissora, outros falam de falta de coração, afinal, está se desfazendo de gente que deu sua vida ali na telinha. Nessa semana Lázaro Ramos deu adeus a 18 anos de Globo e Ingrid Guimaraes sai da emissora depois de 30 anos. Saem fazendo discursos emocionados enquanto abraçam as novas gigantes mundiais da comunicação. Pois o que se configura por trás de tudo isso é justamente a acomodação das forças comunicacionais mundiais. As novas tecnologias anunciam outras formas de se comunicar e as empresas locais terão dois caminhos: ou começam a se adequar ou morrem. 

No Brasil a televisão aberta ainda tem um grande espaço na vida das pessoas. Os números dizem que a Rede Globo segue liderando o mercado, apesar de ter perdido audiência. A média de audiência é de 15 pontos enquanto a segunda rede, a Record, tem 5 pontos, a diferença é grande. Não bastasse isso, a Globo é a empresa de comunicação de massa brasileira que está mais à frente no âmbito da tendência mundial, tanto que já tem um canal de streaming (transmissão direta por internet), a Globoplay, e tem produzido exclusivamente para esse nicho. 

Há quem diga que estamos vivendo o fim da era da TV aberta. A tendência agora é a transmissão por demanda. E, como temos visto, essa é uma área completamente dominada por empresas internacionais gigantes como a Amazon, a Netflix, a Disney, etc... A Globo quer surfar nessa onda e está testando se vai nessa sozinha ou se precisará se aliar a algumas dessas gigantes. 

Essa nova configuração das contratações também faz parte dos novos tempos. Foi-se a era da fidelidade dos atores a determinados canais. Agora eles também trabalharão por demanda. Podem fazer produções para a Netflix, para a Amazon ou para a Globoplay, sem um lugar realmente fixo, um emprego seguro. Terão de amargar a eterna busca de espaço num mundo sem regras. Até agora ser ator ou atriz é uma profissão regulamentada, a pessoa precisa fazer curso, ter registro. Mas, pode ser que isso também se esboroe. Quem acompanha o mundo televisivo está por dentro da tentativa da Globo em levar a celebridade instantânea do BBB, Juliette (32 milhões de seguidores no Instagram), para a novela Pantanal. Por enquanto, o sindicato dos atores está segurando, visto que ela não é atriz, mas até quando? Emprego, registro profissional, estabilidade, são palavras que vão perdendo o sentido no mundo do trabalho. Inclusive no serviço público, vide a PEC 32 que quer a volta do “quem indica”. 

Os tempos são sombrios para os trabalhadores e também para as empresas nacionais porque as gigantes estrangeiras estão abocanhando tudo. Muito em breve estaremos completamente reféns dessas empresas, vítimas das informações falsas, do pensamento único e da estética única. O Facebook está planejando até permitir a realização de transações bancárias dentro da plataforma, ou seja, a pessoa entra ali e não precisa mais sair para quase nada. 

O mundo distópico do grande irmão está cada dia mais presente.  O capitalismo aprofunda seu processo de dominação. 

Enquanto isso, a TV aberta – esta que chega a 97% dos lares – segue sendo a única opção de quem não têm condições de comprar os pacotes das diversas empresas de transmissão direta por demanda. Por isso, seguramente que ela não vai se acabar. Pode encolher, mas seguirá existindo. A Record, com seu nicho evangélico e suas novelas bíblicas, tentando levar o rebanho para os tempos fundamentalistas do velho testamento, e a Globo emburrecendo as gentes cada dia mais, com a profusão de programas idiotizados, como os de danças dos famosos, famosos mascarados, programas de calouros cheios de sadismo e de gente autocentrada, joguinhos entre artistas e dramas de humilhação dos pobres. Um show de horrores que segue o modelo dos shows europeus e estadunidenses com apresentadores engraçadinhos e sem cabeça. 

Um desafio imenso para quem quer um mundo onde o pensamento crítico seja soberano. Cada dia que passa vamos assistindo ao crescimento da “bolha assassina” das grandes empresas de transmissão por demanda, tal qual a gosma vermelha do filme de terror protagonizado e dirigido por  Steve McQueen, em 1958. No filme, a gosma não é destruída, é congelada e levada para o Ártico. E a fala final do “mocinho” prenuncia o nosso tempo. “Até que o ártico também siga congelado”. Pois parece que o Ártico descongelou e bolha está aí outra vez. 



quarta-feira, 15 de setembro de 2021

As manhãs



Todas as manhãs são tumultuadas ao extremo. Acordo seis horas para ter um tempinho com meu amor e depois começar a trabalhar, antes do pai acordar. É quando eu posso me concentrar. Depois que ele acorda a coisa fica difícil. Tem todo o ritual do despertar que demoooooora. Depois, o café. Quando ele está bem, toma sozinho, mas se acorda meio virado aí eu tenho de dar pouco a pouco. Vai um eito. Quando tudo se acalma de novo, volto ao trabalho.

Mas, aí, vem a confusão com os cachorros. O Steve Biko, que já é velhinho, é cismado com uma poltrona. Ele gosta de deitar naquela e ponto final. Se o pai está nela, ou algum outro bicho, ele inicia um circuito de latidos sistemáticos e insuportáveis até que eu levante e vá resolver o assunto. Não tem como ignorá-lo. A menos que eu queira enlouquecer. Se quem está na cadeira é a Mel, tenho de convencê-la a ficar em cima da cama, para que não fique também incomodando o pai, tentando subir nele. É um parto. Já o Dourado é tranquilo. Se ele vê o Steve enchendo o saco, por sua própria vontade sai da cadeira e vai deitar no tapete. Não sem antes me olhar como a dizer: que chato!

Lá pelas onze horas é a vez de chegar o Pezinho. Ele dorme em outra casa e só vem aqui pra comer. Quando ele chega, já sabemos. Antes mesmo de pular o muro ele já começa a miar alto, como se estivesse em grande perigo. Na verdade é seu miado de dizer: ei, estou chegando, arruma o rango aí. Lá vou eu arrumar a ração. Depois de comer ele vem pra cozinha, onde estamos todos  e exige o leitinho. É seu ritual. Já deixo pronto em cima da mesa. Ele vem, sobe, come e se manda de novo. A Ramona é de boa, se aboleta no espaldar da poltrona do pai e fica ali, dormindo junto com ele. A Juanita nem se toca, gosta de ficar distante e não incomoda ninguém. 

Quando chega a hora de começar o almoço tá todo mundo ajeitado no seu lugar. Já eu, tive de passar por pelo menos 500 situações de estresse. Valamideuzi. Quando então tudo parece se acalmar, o pai acorda do cochilo e começa o mexe-mexe. Ontem achou os óculos escuros do Renato e o colocou sobre o seu. 

- Tás enxergando, pai?

- Tô vendo tudo.

- Mas não tá escuro?

- Tá muito bom. 

Então tá!

quarta-feira, 8 de setembro de 2021

Segue o "bonde" da destruição


Foto: 
@marcelanicolass

Em meio a grave crise econômica e social, pirotecnia governamental busca ofuscar realidade

O presidente do país segue governando na lógica do factoide, imitando seu ídolo Donald Trump. Parece não ter se dado conta do que aconteceu lá na matriz que tanto ama. A tática do factoide não deu certo. Trump foi derrotado fragorosamente. Por aqui, os marqueteiros do presidente continuam incentivando a mesma toada que, ao que parece, só serve mesmo para animar a sua plateia cativa. Foi o que se viu.

As chamadas “lideranças” dos atos que visavam invadir o STF e cortar a cabeça do ministro Alexandre Moraes foram presas, responderão na justiça e provavelmente serão abandonadas para que se virem como possam. Milhares foram para Brasília armados da esperança de que os comunistas finalmente seriam eliminados – física e politicamente. Era de impressionar os áudios e vídeos que circulavam pela rede bolsonarista sobre estocar comida, remédio, água e trancar as janelas porque a coisa seria estrondosa. Não foi. O que se viu foi um discurso pífio, tentando reanimar a claque para outro “amanhã”. O golpe seria adiado e fora só um susto no ministro, o qual não será mais obedecido “sob hipótese alguma”.

Os seguidores mais renitentes voltaram para casa ainda sob o efeito da catarse, prontos para a nova investida que virá quando o presidente chamar. Outros voltaram desiludidos. Esperavam o apocalipse, ainda que no momento em que a polícia atuou, muito gentilmente, aliás, gravassem vídeos desesperados em meio à correria, gritando que era um absurdo a polícia tentar impedi-los de chegar ao STF. Estranha gente que pede ditadura e sequer entende o que isso possa significar.  

O Brasil esperou o desenrolar dos fatos. Uns com medo, outros comendo pipoca em frente à televisão e uma grande parte em luta, nos atos de protesto contra a carestia da vida e a falta de um governo para enfrentar os grandes dramas nacionais como a fome e as crises hídrica e energética. As redes de televisão deram visibilidade para as manifestações dos dois lados e foi possível avaliar com bastante informação as duas frentes de batalha. Os atos pró-governo foram grandes em São Paulo e Brasília, mas também deixaram claro sobre quem são esses aliados, na sua maioria uma classe média alta que sequer consegue enxergar os efeitos desse governo sobre si mesma. Por outro lado, nas colunas dos protestos estavam os trabalhadores organizados, a juventude, os estudantes, os sem-terra, os sem-teto, enfim, os que sempre estiveram na luta. A luta de classes bem demarcada nas ruas.

O chefe de governo, que tem mais de 100 pedidos de impedimento no Congresso, fez o que sabe fazer. Esticou a corda mais um pouco. Até agora tem nadado de braçada, sem que nada ou ninguém o obstaculize. As chamadas instituições democráticas fazem ouvidos moucos aos seus ataques à Constituição e permitem que a roda da economia siga girando em favor da classe dominante. Os trabalhadores vão sendo acossados, as privatizações seguem, o agro comanda e tudo parece bem. O judiciário fisga peixinhos enquanto o líder do cardume segue tranquilo. Nada lhe toca. A fascisitização do governo é pop nas altas rodas. 

O sete de setembro foi uma patacoada. Mostrou que o governo perdeu apoio e apenas mantém seu reduto inicial formado por ultraconservadores e reacionários de carteirinha, bem como outros que ingenuamente acreditam nas mentiras disseminadas à exaustão sobre o comunismo e blá, blá, blá. Mas, ainda assim é uma parcela barulhenta e em sistemático estado de agitação. As forças de esquerda, as institucionalizadas, agiram com timidez. Como sempre, são os trabalhadores os que se movem para além dos líderes. Esses sabem que muito pouco têm a perder indo para a luta nas ruas. E, por isso, vão. 

A aprovação do presidente despenca. Mas, ele tem cartas na manga, não nos enganemos. Enquanto a burguesia nacional não se descolar dele, ele seguirá esticando a corda para garantir mais um mandato. A turma do andar de cima ainda está ganhando muita grana e vê passar muitas de suas pautas anti-trabalhadores no Congresso Nacional. Para eles, tá suave. 

A batalha real será mesmo nas ruas. E os trabalhadores organizados devem dar o tom. 


quarta-feira, 1 de setembro de 2021

O pai e as surpresas


Uma das coisas mais seguras nessa doença de Alzheimer é o mexe-mexe nas coisas. Uma ansiedade por abrir portas, gavetas e mexericar em tudo. Aqui é assim. O pai almoça e dá uma descansadinha no sofá. Fica ali vendo TV ou olhando para a janela. De repente, do nada, ele se levanta e sai. Caminha ligeirinho em direção ao portão. Pode fazer o tempo que for, inclusive chuva. Ele se manda. Depois de mexer no cadeado do portão, sem sucesso para abrir, ele volta. Ai começa o abre fecha de tudo que há. Gavetas, armários, fogão, geladeira. E ai de quem diga alguma coisa ou o impeça. Tem que deixar fuçar. Eu fico de longe só observando se ele não vai pegar alguma coisa de vidro ou derrubar algum pacote aberto. 

Nisso ele fica um tempo. Pega as panelas em cima do fogão e bota na mesa. Tira da mesa, bota de novo no fogão. Fuça no lixinho da pia. Geralmente deixo uns saquinhos pendurados nos pegadores das portas dos armários com coisa que ele pode comer como pão, frutas, biscoitos. Ele pega os saquinhos e sai de fininho, achando que está me enganando. E eu fico bem quietinha. É um joguinho de gato e rato que pode durar horas. Ele até dá uma paradinha para o café, mas logo retorna ao mexe-mexe  e esconde-esconde. 

Quando chega a hora de dormir é hora de finalmente recolher as surpresas. Dentro dos bolsos encontro cada coisa. É controle da televisão, cartas, pedacinhos de dominó, bolinhas, banana, pinhão, cascas, pedaços de pão, colheres, pedacinhos de papel, garrafinhas de molho, panos de prato, canetas, lápis de cor, prendedores de roupa, latinhas,  caixinhas de remédio e até cabeças de alho. Também já achei uma caixinha de Maisena. Tudo isso ele vai amealhando ao longo do dia. Eu vou trocando a roupa dele e encontrando os “mimos”. E tenho de esconder debaixo da cama senão ele quer pegar de volta. Tem alguns aos quais ele se aferra e aí não tem jeito. Há que esperar adormecer para tirar da mão. Geralmente são panos de prato ou saquinhos plásticos.

A vida dele gira em torno dessas insólitas e prosaicas atividades. Pode parecer que ele está fechado em mundinho pequeno. Mas, não. Nessas colheitas de pequenos objetos, no vai-e-vem no quintal, nas espiadas por cima do muro, nas conversas com o Rolando Boldrin e no diálogo com os cachorrinhos existem universos inteiros que podem ser incompreensíveis para nós, mas que o enchem de alegria e serenidade. E é assim que seus dias passam, na paz.



Fenaj quer mitigar danos aos jornalistas. Esse é o caminho?



Participei de uma discussão chamada pela Fenaj na qual os seus dirigentes apresentaram uma proposta que me deixou boquiaberta: a taxação das grandes plataformas. Oi? Confesso que me esforcei. Mas não entendi. Então, fui buscar mais informações no sitio da minha federação e lá estava a manchete, assim, sem pejo: “FENAJ apresenta proposta de taxação de plataformas digitais como forma de mitigar danos causados ao jornalismo”. Oi? Como assim, meu deus? Mitigar os danos? 

A Fenaj era para ser uma federação de sindicatos, logo, deveria atuar numa pegada sindical. Mas, não é assim. Já faz algum tempo que a Federação dos Jornalistas atua mais como um espaço de trabalhadores liberais. Tanto que é a Fenaj quem tem feito a campanha pela criação de um Conselho Nacional de Jornalistas, que seria algo assim como um espaço de fiscalização da profissão, típico das profissões liberais, como médico, engenheiro, contabilista, etc...

Sempre acreditei que os trabalhadores da comunicação deveriam se unificar em um sindicato único. Não faz muito sentido ter um sindicato de uma categoria que não se sente trabalhadora. No nosso caso, jornalistas, temos avançado muito para essa forma de ser que é a pessoa pejotizada. Ou seja, não é trabalhador, porque não assalariado, mas também não é patrão, porque precisa da empresa que o contrata de forma terceirizada. Logo, tá sempre numa espécie de limbo identitário. 

Já fui contra o Conselho Nacional de Jornalistas justamente porque, se ele existisse, o sindicato dos jornalistas seria algo totalmente inútil e eu acreditava que os jornalistas poderiam, sim, ter um sindicato que fosse um instrumento de luta dos trabalhadores desse fazer. Hoje não me oponho mais. Observo que cada vez mais os jornalistas vão se distanciando da ideia de ser trabalhador. Vivemos um tempo de pessoas-projeto, de empreendedores, e os poucos que ainda estão nas galés (mídias comerciais, sindicatos e instituições), portanto, com patrões, acabam se determinando no conjunto do grupo onde estão inseridos. O sindicato dos jornalistas fica inútil. Não que isso seja “culpa” dos jornalistas. É que o tempo histórico, que constituiu outras ferramentas de comunicação, tem destruído a profissão e ao mesmo tempo não há qualquer proposta revolucionária que garanta a construção de outra realidade.

Agora, ao me deparar com essa campanha da Fenaj pela taxação das grandes plataformas, tenho fortalecida essa sensação de que a profissão de jornalista se esboroa.

A ideia é tirar das grandes plataformas de dados e informação – que hoje matam o jornalismo – uma grana, que seria colocada num fundo. Esse fundo seria gerido por um conselho que iria destinar as verbas para a formação de jornalistas e/ou produção de notícias. A proposta não é da Fenaj mesmo, é da FIJ, a Federação Internacional. Esta federação está  preocupada com a queda dos investimentos nas empresas de comunicação. Como a queda de investimentos acaba tendo impacto nos empregos, eles pensaram em taxar as megaempresas e com a grana criar alternativas para os jornalistas. Uma coisa meio surreal. É mais ou menos como as entidades de luta popular que usam recursos das Fundações estadunidenses para combater as políticas que essas mesmas fundações oferecem aos Estados Unidos e que os  Estados Unidos nos impõem. Sinto muito, mas não consigo entender.

É incognoscível.

Conforme ainda a notícia no sítio da Fenaj, esse  fundo seria usado para a produção de jornalismo, notícias, que, assim, garantiriam a pluralidade e a democratização da comunicação. Eu confesso que ainda não entendi direito a parada. Como que isso iria garantir a pluralidade? Por mais notícias que fossem produzidas pelos jornalistas pagos pelo fundo, haveria garantia de que essas notícias circulariam nas big empresas de informação? Seria uma espécie de terceirização do serviço jornalístico por essas big empresas? Ne afinal essas informações circularia?  E a universidade então não teria mais sentido na formação do jornalista? A formação universitária seria apenas ritualística, com a verdadeira formação para os meios sendo feita à parte?  Seriam os cursos promovidos com a grana das plataformas que iriam definir a qualidade do jornalismo? De que forma isso combateria a formação dos oligopólios? Sem or! Não me parece fazer sentido essa proposta.

Compreendo a apreensão da Fenaj com o futuro dos jornalistas, afinal, a realidade aponta para o fim das empresas de comunicação tal como as conhecemos. Televisão, jornal e rádio são mídias que tendem a encolher com o avanço das grandes avenidas comunicacionais criadas pelas bigdatas, streamings e plataformas de bobagens tipo o tik tok. Continuo acreditando que, mesmo nesse cenário, o jornalismo ainda é necessário, pois diante de tanta desinformação e alienação é sempre o jornalismo que tem o papel de desvendar o que se esconde. Assim que o jornalismo deve continuar existindo, fazendo o ataque feroz aos inimigos do conhecimento. Mas, não creio que o caminho seja esse proposto pela Fenaj. 

Da minha parte penso que deveria ser transformado e fortalecido o ensino do jornalismo nas universidades, capacitando os profissionais para serem  bons perguntadores, bons analistas da realidade e críticos. E, do ponto de vista da luta política teríamos de combater os oligopólios e não fazer alianças com eles. 

Ou seja, precisamos de teoria revolucionária, luta revolucionária e um sindicato capaz de incorporar essa luta, insuflando os trabalhadores à construção de outro mundo, socialista. A proposta da Fenaj está dentro da lógica da “humanização do capitalismo”, coisa que obviamente não é possível.



segunda-feira, 30 de agosto de 2021

Anita



Há quem diga, para desqualificar nossa Anita, que ela era apenas uma mulher que, por amor, se deixou levar por aí, nas batalhas farroupilhas e em outras peleias de libertação, inclusive na Itália. Heroína de dois mundos. Ora, ainda que fosse isso, deveríamos lhe render glória. Afinal, que mulher, naqueles dias, foi capaz de fazer o que ela fez?  

Mas, o fato é que sua saga não foi só seguir um homem. 

Fosse assim ela não teria lutado batalhas sem ele, espada em punho, revólver na cintura, em cima do cavalo e com os filhos nos braços. Anita era mulher apaixonada. Anita era soldado, era organizadora, era mãe, era parceira. Anita era valente, era destemida, era furacão. 

Hoje, quando se celebra seu nascimento, sopra desde o mar, vindo lá de Laguna, um vento levinho. E com ele vem o seu perfume de mulher tocada pelo amor. Uma amor que a fez imortal. Eu te reverencio, Ana, Aninha, Anita, guerreira desses nossos caminhos. 

E tudo o que posso desejar é que brote em nós essa paixão louca que te fez combatente quando tudo apontava para uma pacata vida na beira do mar. Eu te reverencio Anita, assim como reverencio Juana Azurduy, Bartolina, Micaela, Manuela e tantas outras mulheres que, por amor, conduziram uma nação.

quarta-feira, 25 de agosto de 2021

De cozinha e de felicidade



Minha mãe adorava dormir de manhã e odiava cozinhar. Por isso, no geral, acordava de mau humor. Porque sabia que logo teria de entrar na cozinha. Levantava sempre depois das 10h, cara amarrada, tomava um cafezinho preto e já começava a azáfama do almoço. Não gostava da parada, mas era mestre. Jamais fez um prato só. Enchia a mesa com várias opções. E era tudo muuuuito bom. Seu mau humor ia diminuindo conforme ela dançava entre as panelas, a mesa e o fogão. Eu sempre procurava diminuir seu trabalho e funcionava assim como uma auxiliar de cozinha. Fazia o pré-preparo e, nisso, fui aprendendo a cozinhar também.  Ela não gostava de carne moída. Preferia picar em pedaços bem pequenos e bater, bater, bater. Era uma perfeccionista. Nunca entendi como podia ela detestar tanto cozinhar e fazer isso tão bem. 

Depois que saí pra vida levei comigo esse desgosto com a cozinha. Também nunca fui de cozinhar e minha opção principal sempre foi comer fora. Nos finais de semana, um sanduiche de mortadela já estava muito bom. O máximo que eu chegava a fazer era um arroz com guizado para comer com farinha. Quando decidi morar com o Pedro, os deuses me abençoaram, ele adora cozinhar. Depois, chegou meu sobrinho, praticamente um chef. Ô, bênção! Ainda assim, se eles não estão, eu tranquilamente me viro com sanduiches.

Com a chegada do pai, as coisas mudaram. Ele precisa de refeições balanceadas. Há que ter almoço, jantar, lanches. Valamideuzi. Antes da pandemia, o Renato me valia e tudo ia bem. Mas, com a peste, tive que ficar em casa e aí, a cozinha estava lá, me chamando. As aulas pela internet do Renato e o meu trabalho remoto viraram a vida de pernas para o ar, e ao final, em vários dias da semana o almoço é por minha conta. 

Foi só aí que entendi o lance da mãe. Sobre como podia ela não gostar de cozinhar, mas ainda assim fazer as comidinhas mais deliciosas do mundo (sim, porque nunca encontrei panquecas ou bifes à milanesa melhores do que os dela).  Não era o que fazer, mas o para quem. Ela cozinhava para nós, seus filhos, seu companheiro. Ela superava o fato de não gostar de cozinhar com o seu compromisso de amor. Por isso tudo saia tão bom.

É o que acontece comigo. Quando é meu dia de cozinhar já começo bem cedinho tirando os ingredientes da geladeira, deixando-os descansar. Depois, vou fazendo tudo como a mãe fazia, do mesmo jeitinho e com os mesmos temperos. Coloco para tocar as músicas do Expresso Rural, abro uma cerveja, e entre cantorias e bailados vou mexendo os caldeirões. Quando o pai acorda, já encontra a cozinha nessa polvorosa, porque também como a mãe, eu faço uma baita bagunça com os temperos e as panelas. Como ele gosta de música, ponho os vídeos do Orlandinho e ele se diverte com os passinhos. A gente dança. Depois, passamos para as músicas gaúchas, de preferência as que falam de Uruguaiana. Ele toma um vinho e a comida vai se fazendo. Não há mau humor nem má vontade porque tudo está temperado com a bem-querença. É quando sinto, visível e concreto, o espírito da minha mãe. Ela conhecia esse segredo. Era só amor. 

Acho que é por isso que consigo fazer comidas gostosas, mesmo que sejam meio sem sal (por conta da pressão alta da turma). E, assim, vamos mantendo o bom astral e a alegria, apesar de ter de conviver com uma doença tão terrível como é o Alzheimer. 

Não, a vida não é um conto de fadas e nem todos os dias são bons. Mas, seja em qualquer hora, ver o riso do pai é a melhor pedida. Vale todos os sacrifícios. Penso que era isso que ia mudando o humor da mãe, todas as manhãs, enquanto ia cozinhando. Sua alegria era a mesa farta e todos nós saboreando. Mas, ela encontrava um jeito de se “vingar” também, deixando a pia repleta de louças. Acabo fazendo igual. Cozinho, mas bagunço. Por isso o Renato, quando se prepara para sua tarefa de lavar a sujeira toda, diz:

- A dona Helena passou por aqui. E é bem verdade.