quinta-feira, 28 de maio de 2020

As noites e os chinelos do pai



O Alzheimer é uma doença danada que todos os dias nos coloca um desafio. Quando tu pensas que resolveu um, lá vêm mais dois. Por agora eu andava as voltas com as noites do pai. Ele levanta pelo menos umas quatro vezes para fazer xixi. Eu colocava, ao pé da cama, um desses chinelos de pano para ele ficar confortável na hora de levantar. Beleza. Dava certo. Até que ele começou a não controlar mais os jatos do xixi. Levanta, vai ao banheiro, chega ao vaso, mas o xixi sai para todos os lados, menos para dentro. Resulta que os chinelos ficavam molhados e os pés também. E quando levantava para nova sessão, o chinelo estava encharcado. Hum, problema.

Resolvi suspender o chinelo de pano, trocando por uma havaiana. Deu certo por um tempo, quando não estava frio. Vez em quando errava o dedo e saia meio troncho, mas funcionava. Fazia o xixi, molhava o pé, o chinelo e tudo mais. Mas, terminado o serviço, era só secar o pé, colocar o chinelo na água, lavar e estava pronto para a próxima mijada. Até que veio o frio. Ele, de meia, não consegue enfiar o chinelo de jeito nenhum e sai quarto afora só de meia, voltando depois com os pés molhados. Cáspite!

Comprei um chinelo de couro, desses que enfia o pé inteiro. Mas, ainda assim o xixi que escapa da calça desce perna afora e continua molhando as meias e também o chinelo, que fica todo gelado porque o couro não seca tão rápido. O problema seguia.

Então, vendo um filme, pensei: quem sabe um desses sapatos que os trabalhadores usam em frigorífico, em peixaria? Hum. Toca a procurar na internet. Achei. Fiz o pedido e ontem chegou. Um desses sapatos de borracha, tipo babuche, fechado em cima, mas aberto atrás, como um chinelo. Bora testar.

Ontem, lá se foi o seu Tavares com seu chinelo novo para as mijadinhas. Na primeira já foi aquele salseiro. Tudo fora do vaso. Volta pra cama e vou ver a situação. Sapato molhado, pé sequinho. Oba! Bastou passar um paninho molhado no calçado e tudo bem. Mais três vezes a situação se apresentou. E todo xixi fora do vaso, espalhado pelo chão. Sapato molhado, pé sequinho.

Às seis horas, hora do último xixi, eu secava o chão com um sorriso nos lábios, enquanto o sapatinho descansava sequinho ao pé da cama. Por agora, deu certo. Dez a zero pra mim. Até o próximo problema. 

terça-feira, 26 de maio de 2020

O MST e o Santin


Eu nem conhecia o Vilson Santin, mas votei nele para deputado estadual em 1990, porque sempre direcionei meu voto para os candidatos que viessem do campo, principalmente se tivessem vínculo com o MST. Naqueles anos a luta pela Reforma Agrária estava ainda no auge e um parlamentar que viesse das entranhas do movimento seria muito bom. Santin era assim. Liderança forjada desde gurizinho na luta pela terra. Foi um dos principais organizadores das primeiras ocupações acontecidas em Santa Catarina, percorrendo as quebradas do campo por mais de 90 dias, só com uma mochila nas costas e o coração cheio de esperanças.

Foi assim que ele, e mais um pequeno grupo de lutadores, arrebanhou quase duas mil pessoas para a grande empreitada. As ocupações de 1985 não foram assim como um raio num céu azul. Não. Foi coisa milimetricamente organizada, nos mínimos detalhes, para que o povo que fosse enfrentar jagunço, polícia e ódio da população tivesse tudo muito claro na cabeça sobre os perigos que iria enfrentar.

Quando Santin chegou, eleito deputado, na Assembleia, no mesmo ano em que Luci Choinaki, mulher camponesa, assumia em Brasília, o que vimos foi um homem cheio de entusiasmo, alegria, vitalidade e vontade de fazer acontecer as lutas dos trabalhadores. Na época, eu assessorava a Luci e pude acompanhar o trabalho desse homem extraordinário. Nunca, em nenhum momento, a máquina legislativa o engoliu. Ele sempre esteve à margem de todos os redemoinhos que puxam e moem gente quando nesses espaços de poder. Santin, não. Ele sempre foi a mesma pessoa, e até quando desfilava com um fino terno azul marinho, exigência do cargo, sua alma camponesa assomava, no riso fácil, na cara sapeca, no trato humano, cheio de calor. Nunca me orgulhei tanto de um voto como o que eu dei para o Santin. Naqueles dias ganhamos um parlamentar de qualidade, mas, eu, mais do que isso, encontrei um amigo, que abriu seu coração e sua casa, na qual pudemos partilhar a vida com a preciosa Jô, sua companheira, raiz de toda ternura e toda a força que envolve essa família.

Hoje conversamos por mais de hora sobre os 35 anos do MST aqui em Santa Catarina. Lembrou as histórias, os companheiros, as peripécias, as vitórias, tudo muito fresquinho na cabeça, como se ainda estivesse andando pelos caminhos do Oeste arrebanhando almas em rebelião, abençoado pelo Dom José. Porque, afinal, é o que continua fazendo ainda hoje, assentado, mas não parado. Segue dirigindo o movimento e fazendo o que mais gosta, que é encher de esperanças e vontade de luta os trabalhadores rurais. “Lá atrás, naquelas primeiras ocupações, nós fizemos um juramento, eu, o Egídio, a Irma, todos, de que, mesmo se um dia conseguíssemos terra pra nós, nunca abandonaríamos o movimento e a luta. E ninguém traiu aquele juramento. Estamos aí, Elaine”, diz, com sua alegria de menino.

O MST fez 35 anos de vida em Santa Catarina, e essas três décadas estão cheias da vida de centenas de mulheres e homens, gente como o Santin. Gente como o Parafuso, um dos fundadores do movimento nacional, que também fez sua vida por aqui no nosso estado. Gente como o Egídio Brunetto, que já encantou também e que nunca arredou pé da luta. O MST é esse espaço de belezas que conseguiu, na força da luta, garantir vida digna para milhares de pessoas. Não só para os que se levantaram e ousaram viver nos acampamentos, mas também para os que hoje vivem ao redor das cooperativas e das propriedades produtivas.

Esse sonho nascido nas madrugadas ao redor do fogo, quando os sem-terra decidiram romper todas as cercas, ainda não está completo. Mas já construiu muito. E, através do Santin, esse meu amigo/irmão, de presença constante, voz de trovão, cara vermelha de indignação e riso sapeca eu reverencio cada companheiro e companheira que um dia escolheu trilhar esse caminho sem volta da luta renhida. Viva o MST. Viva o povo sem-terra que se move, e se move, e move a terra.

segunda-feira, 18 de maio de 2020

Ser velho e inútil


Hoje estava lavando roupa e o tanque fica bem num ângulo que dá pra ver o quarto do pai. Vi que ele conversava muito animado com uma fotografia que achou numa revista e que colocou na mesinha de suporte. Ela fica ali como num altar. É uma foto de um grupo de pessoas, num tempo passado, creio que deve ser lá pelos anos 1940. Não sei quem são, e nem ele, presumo. Mas, de qualquer forma ela o distrai e ele conversa amiúde com aquele povo. O papo é animado, ele mexe as mãos, ri, argumenta. É bem engraçado.

O pai passa os dias assim. Acorda, cochila, come bergamota, cochila, fuma, fica andando em volta da casa, vai até o portão e volta, pega os lixos da lixeira e traz para a cozinha, depois leva outra vez para a lixeira. Almoça, cochila, fica andando em volta da casa, prá e prá cá no portão, fuma, ouve música, come banana. Depois, janta, ouve música, come bergamota, toma chá, vê televisão e vai dormir. É uma vida não produtiva, que alguns chamariam inútil. No mundo do trabalho, do capital, ele é um inútil. Ele não pinta, não compõe, não se lembra do passado, não faz absolutamente nada que sirva para alguma coisa. Então, talvez por isso, que alguns governantes não se importem com a morte dos velhos agora na pandemia, afinal, são inúteis, não servem pra nada.

Quando eu vejo o meu pai, aos 88 anos, na sua rotina diária de andanças pelo quintal, num ir e vir aparentemente sem sentido, não posso deixar de me comover. Sua inutilidade é um fato. Ele que sempre foi arrimo da família, agora não faz mais nada por ninguém. Passa o dia vivendo sem qualquer preocupação. Não seria então a inutilidade um presente? Um momento de viver para si, só na fruição? Penso que sim. Quem disse que é preciso produzir o tempo todo? Quem disse que há que se cumprir um protocolo de utilidade para ser uma pessoa?

O pai começou a trabalhar cedo, em escritório de contabilidade. Teve uma vida boa até os quarenta e poucos anos, quando perdeu tudo e teve de começar do zero. Um velho já para o mundo do trabalho. E, ainda assim, ele se reergueu. Estudou, se esforçou, e terminou sua jornada de trabalhador como chefe do almoxarifado do DEER de Minas Gerais. Nunca se queixou do trabalho duro e sempre foi em frente, sem reclamar. Como empregado era um calvinista. Nunca chegou atrasado, nunca faltou, deu sempre o seu máximo. Fazia o impossível pelos seus colegas. Como pagador de trabalhadores no trecho – obras nas estradas – ele se virava nos 30 para fazer chegar o dinheiro, fizesse chuva ou sol. Chegou a atravessar um rio, amarrado numa corda, para garantir o salário dos companheiros. Era o que se chama de “caxias”.

O pai criou os filhos sempre ensinando o sentido da honestidade e do trabalho. Pagava as contas religiosamente. Era capaz de ter um troço se não tivesse dinheiro para quitar as dívidas e o sinal para a demência foi justamente esse: de repente ele se esqueceu de pagar as contas. Isso só poderia ser doença. E era.

O pai foi um cara extraordinário ao longo de sua vida “produtiva”. Ele tem uma história linda de perseverança, de coragem, de derrotas e superações. Ele tem uma história, que está viva em nós.

Por isso que hoje, quando ele aproveita – sem culpa - desse momento de inutilidade, eu me encho de ternura. É bom vê-lo sem a neurose das contas, sem a necessidade de cumprir afazeres, obrigações. Na sua vida inútil ele está livre. Ele pode conversar com os amigos imaginários nas fotos, ele pode degustar as frutas, dormir, caminhar, ouvir música sem preocupação. Ele tem quem lhe cuide, que lhe dê o alimento na hora, troque sua roupa, dê o banho, quem dance com ele, e lhe encha a cama de perfumes e cobertas quentinhas.

Ele é uma vida que foi vivida na plenitude, mas sempre acorrentada ao trabalho, à obrigação, ao dever. Agora, não. É só um corpo dançante, que toma vinho e cospe o que não quer comer.

Por isso que a vida dele importa. Tanto quanto a do jovem que ainda não viveu tudo o que ele já percorreu. Por isso que não é possível escolher entre um e outro. Cada um é um universo. O jovem, ainda em jornada. O velho, que já cumpriu tanto.

A proposta do “deixa morrer os velhos e os fracos”, que aparece agora, com a pandemia, tem me consumido os dias e noites. Não posso aceitar. Porque, como Manuel de Barros, tenho respeito pelas coisas inúteis, que existem apenas para a fruição. Um velho dedal esquecido numa caixa, um quadro sem valor, um lápis de cor quebrado. Coisas que evocam belezas. O pai, esse homem de tanta vida, é assim. Um ser de fruição. Um evocador de belezas. Ele merece viver sem a pressão de ser útil.

Ele é velho, inútil agora, mas já riscou um caminho nesse mundão de deus. Sua vida importa. E muito. Assim como a vida de outros velhos e velhas desse planeta azul, cheios de histórias, memórias e belezuras.

quarta-feira, 13 de maio de 2020

A vida digital


A pandemia do coronavírus provocou o aprofundamento da dependência digital. Isso é um fato. E ainda que milhões de seres no mundo não tenham acesso ao “admirável” mundo da internet, a tendência que desponta é justamente essa: tudo o que puder ser feito via rede mundial de computadores, será. Em muito pouco tempo quase nada necessitará ser  presencial e chegaremos ao tempo que considerávamos como um futuro distópico que é  tempo dominado por um grande irmão sem rosto e sem nome. 

Mas, apesar de o mundo em rede parecer não ter nome ou rosto, ele tem, e terá. É o bom e velho capitalismo se reinventando e conseguindo garantir mais lucros com menos gastos, porque poderá prescindir de muito mais trabalhadores. E os que restarem para operar – e sustentar  - o sistema serão ainda mais explorados do que antes, a superexploração chegando a todos os rincões do mundo.

Nos grandes centros, onde a vida pulsa, assoma o tal do tele trabalho ou trabalho remoto. Ou seja, a pessoa pode produzir em casa. Assim, o trabalhador fica muito mais tempo disponível para o trabalho, pois está praticamente 24 horas pendente. E tem de fazer seu trabalho, se concentrar, ao mesmo tempo em que cuida dos filhos, da casa, dos bichos, dos doentes. Gasta sua luz, sua conexão com a rede, seus equipamentos, sem que o patrão precise pagar mais por isso. Há quem goste da coisa, mas para a maioria é e será o inferno. 

Também na educação esse parece ser o futuro. Uma luta de anos contra o ensino à distância está preste a ser resolvida oportunamente por conta de um vírus. Sem saídas para o ensino presencial, a proposta que surge é a do ensino via internet. Segundo os governantes e especialistas da área, hoje, todo mundo, com um celular, pode ter acesso à rede. Isso é uma meia verdade. É certo que a maioria das gentes possui um celular, mesmo as mais pobres. Mas, qual é a relação do celular com a conexão? Quem tem os pacotes de dados capazes de garantir navegação em todos os sítios? A esmagadora maioria tem plano básico ou pré-pago e só consegue acesso às redes sociais porque as operadoras oferecem de graça. 

Até mesmo no campo da vida política as coisas poderão ser definidas a partir da rede. A pandemia também mostrou que as articulações via internet para intervir em votações no Congresso ou na decisão de prefeitos e governadores podem ser poderosas. E ainda que a tal da rede seja um criadouro de mentiras e enganos, há uma tendência cada dia maior de as coisas serem discutidas e decididas através dela. Basta ver a dimensão que tomaram os famosos “ao vivo” agora, nesse tempo pandêmico. Mesmo que ninguém esteja vendo, todos estão falando e tentando influenciar. O aplicativo de mensagens tornou-se a assembleia e as consultas em tempo real tendem a se proliferar com rapidez. A batalha de ideias se dará nesse campo minado no qual a verdadeira verdade pouco terá vez. 

Na aparência, o mundo será ágil, limpo e organizado. Na essência, seguirá cobrando sangue e vida dos empobrecidos. 

A arte, que é a antena do mundo, tem sido pródiga em apresentar essas distopias. E em todas elas, para desespero da classe dominante, sempre há um espaço de resistência, de luta e de organização. Porque se para um número bem grande de pessoas esse mundinho limpo das redes pode ser uma realidade, haverá uma fatia considerável de pessoas que ficará de fora. Afinal, quem vai retirar do chão o minério para fazer os suplementos dos computadores? Quem vai produzir as máquinas? Quem vai fabricar os bens de consumo? Quem vai plantar o alimento? Quem ai tratar os animais? Quem vai limpar o lixo do empoderados? Todas essas coisas ainda terão de ser feitas pelo trabalho humano, real e presencial. 

De qualquer forma, é certo que uma nova arena de combate se apresenta, se consolida, e temos de prestar muita atenção a ela. Conhecê-la, dominá-la e encontrar caminhos para atuar é nosso desafio. Mas, também é certo que esse campo, dentro do capitalismo, seguirá sendo um campo desigual. Muito desigual. Mesmo que a gente queira disputar a hegemonia nas redes sociais, como o faremos? Enquanto a classe dominante tem empresas que disparam milhões de mensagens por minuto, nós seguiremos tendo apenas os militantes que terão uma capacidade bem menor de inserção. Já vimos perdendo essa batalha desde o golpe de 2016. O discurso dominante - mentiroso e enganador - circula com mais velocidade e com mais densidade do que o da luta popular. Além disso, como disputar o discurso falando apenas para nossa bolha, enquanto os chamados “influenciadores”, muitas vezes a soldo do capital ou buscando interesses próprios, conseguem obter audiências avassaladoras? O que dizer de um “ao vivo” de uma famosa cantora popular brasileira , do campo da agro/música, que conquistou a segunda maior audiência do mundo, com suas canções eivadas de machismo, misoginia e aceitação acrítica da realidade opressora?

O cenário de futuro pós-pandemia é desolador. Não virá o mundo novo, generoso, solidário que muitos estão sonhando por terem visto imagens poéticas de pessoas tocando violinos nas janelas. Não virá porque esse mundo não pode ser constituído de forma mágica ou pela graça de um deus. O mundo novo só poder vir se construído pelas pessoas reais, organizadas e em luta. 

Assim que entender que se está diante de um novo campo de batalha - as redes  -  é importante, mas não basta para mudar a realidade. Muito menos o combate por dentro delas poderá nos oferecer caminhos vitoriosos para a transformação. Ainda continua atual e necessário o projeto de uma nova sociedade baseada no comum, comandada pelos trabalhadores, a maioria da população. Tomar nas mãos o controle de toda a produção humana e colocar tudo isso a serviço do bem comum fará com que se trabalhe menos e melhor. A distribuição da riqueza poderá ser feita conforme a necessidade e as decisões serão tomadas com base no interesse geral e não apenas dos grupos de poder. Todos terão direito à moradia, saúde, educação e vida boa. Essa é a utopia. Esse é o sul. 

Por isso que o caminho da luta não pode tomar atalhos falaciosos. Nosso drama não é só a luta contra as mentiras da internet ou contra a nova realidade digital. É a luta contra o capital, coisa muito mais profunda. Como diria o poeta palestino Mahmud Darwish, “ainda verte a fonte do crime. Obstruam-na! E permaneçam vigilantes, prontos para o combate”. E é isso mesmo. A fonte do crime: o capitalismo, segue apertando os corpos dos trabalhadores com seus tentáculos sedutores. Há que obstruir, combate, e destruir. Não é tempo de resistência. É tempo de avançar. 

sexta-feira, 8 de maio de 2020

O novo normal na universidade


Está rolando nas internas da UFSC - e provavelmente nas demais instituições federais também  - um debate sobre como será a vida universitária nisso que se está nominando de “novo normal”, ou seja, um mundo com a ameaça do coronavírus, com isolamento social, que pode se estender até por mais de dois anos. A proposta que mais tem recebido adeptos é a do Ensino à Distância. Boa parte dos professores que se manifesta acredita que hoje a tecnologia oferece dezenas de plataformas e programas capazes de atender com qualidade aos alunos. Até aí, tudo certo. É uma verdade incontestável. 

O que parece que não entra na cabeça desses colegas é o fato de que milhares de estudantes universitários não têm acesso à internet de qualidade. Quando muito têm as redes sociais gratuitas, oferecidas pelas operadoras de celular. Como esses estudantes irão acessar as plataformas? Não bastasse isso, os estudantes que estão no campo dos empobrecidos precisam garantir a sobrevivência, como lembrou o professor Jaime Hillesheim, do Curso de Serviço Social, em contundente depoimento: 

“Fico pensando na realidade de nossos estudantes que moram nas periferias que, apesar da regra de isolamento, precisam dar um jeito para conseguir algum recurso para se manterem e a suas famílias. E, em face dessas necessidades, colocam em risco a si mesmos e os seus. Que condições têm eles de estudar num contexto como esse, independentemente da modalidade de ensino? Nem nós e nem os estudantes estamos preparados para esse "novo normal" e, tanto uns quanto outros, nem sempre contam com as condições objetivas para responder as demandas do processo ensino-aprendizagem que esse tempo de pandemia nos impõe. Isso não significa dizer que não poderemos construir as habilidades e competências necessárias para respondê-las, mas ainda nos restará sanar os problemas relacionados às condições objetivas para a implementação de uma proposta de ensino intermediário. Não é possível avançar em qualquer proposta se essas duas questões essenciais (existem outras) não forem enfrentadas com prioridade”.

Esse tema levantado por Jaime é o essencial e é justamente o que parece completamente esquecido na concepção dos demais colegas. Afinal, nas universidades públicas e na UFSC em particular, mais de 50% dos estudantes tem renda mensal familiar baixa. E isso não é só um número, é uma lista de gente com nome, sobrenome e história. 

Definitivamente o tal do novo normal tenderá a ser ainda mais excludente que o que já existe. Basta lembrar que o governo federal decidiu manter o Exame Nacional do Ensino Médio que garante algumas vagas nas universidades. A propaganda que já circula é de uma perversidade sem fim. Jovens bem nutridos dizendo: estude, estude como puder, nos livros, na internet, como puder. Ora, como puder? Quais as condições de disputa que podem ter os estudantes de escolas públicas, moradores das periferias desse brasilzão, que não têm acesso à internet nem a bibliotecas. Em que mundo vivem essas pessoas? Fácil. No mundo capitalista. Esse mundo que cria empobrecidos para que sejam explorados. Esse mundo que não está nem aí para os que não fazem parte do 1% de sua laia.  Por isso a completa incapacidade de perceber a realidade dos que conformam a maioria. Que morram, que permaneçam ignorantes, que se explodam. 

Assim que para quem acreditava que o mundo renasceria melhor da pandemia, as evidências apontam para o contrário. A crise econômica que já vinha se expressando será aprofundada, a desigualdade aumentará o abismo e menos gente estará em condições de fazer um curso superior. Talvez seja por se adequar acriticamente a esse cenário possível que alguns professores já estejam buscando alternativas de ensino que só serão exequíveis para um grupo muito pequenos de pessoas. 

É muito importante reafirmar que o problema não é a existência ou não de tecnologias capazes de serem utilizadas em ensino remoto. O tema a discutir é: em que condições uma pessoa poderá estudar, mesmo tendo acesso à internet? Como estudar numa casa cheia de gente que demanda atenção? Como estudar em casa se o cotidiano fica cobrando a cada minuto a limpeza, o almoço, a janta, o cuidado com os velhos, com as crianças, com os bichos. Ei, professores, as pessoas vivem.

A educação, penso eu, é um ato de entrega no qual educando e educador se encontram e discutem com total atenção. Um momento em que um e outro precisam estar focados e comprometidos. Um momento de diálogo, de comunhão. Ah, mas isso é utopia ou palavreado romântico! Não, isso deveria ser o ideal. Para todos, e não apenas para os que nascem em melhores condições econômicas. 

O ensino à distância pode ser uma boa opção? Pode! Mas, antes há que se pensar nas condições em que esse ensino será recebido. Sem isso, estaremos promovendo ainda mais exclusão. 

quinta-feira, 7 de maio de 2020

O caminho do Brasil



A ruidosa saída do Ministro da Justiça, herói do Lava Jato, Sérgio Moro, anunciada como uma bomba, ao que parece vai se constituir num minúsculo traque, de pequeno alcance. No depoimento dado à Polícia Federal nenhuma prova contundente apareceu contra o mandatário nacional, seu ex-chefe. Por outro lado, a deserção do ex-juiz está atiçando a militância bolsonarista que agora já aparece nas redes sociais, explicitamente, à luz do dia, chamando para treinamento militar com o objetivo de “ucranizar o Brasil”. 

A moça loira e bem nutrida que comanda essa ação chamada de os “300 pelo Brasil” é assessora da Ministra Damares - esta conhecida por seu conservadorismo bíblico - Sara Geromini, agora autointitulada Sara Winter (um sobrenome em inglês para melhor representar sua filiação) já foi militante feminista, pró-aborto, quando essa era uma boa onda e garantia recursos. Agora, resolveu surfar na onda que ocupa o poder no Brasil, virou temente a deus. Comporta-se então como uma oportunista, apontando para onde pode ocupar mais espaço. 

Nas redes sociais ela aparece sempre armada como se fosse uma dessas heroínas de filme estadunidense. Quer criar uma milícia armada, paramilitar, para acabar com os comunistas. Deu entrevista para um jornal conservador onde diz: “eles agora vão ter medo de nós”. Eles, no caso, são os militantes da esquerda ou qualquer ser humano que se oponha ao governo de Bolsonaro. No acampamento “espontâneo” que ajudou a organizar em Brasília, para um ato de apoio ao presidente da nação, iniciou o que chama de “treinamento” do tal grupo 300. 

Provavelmente ela utilizou o nome 300 lembrando a resistência heroica dos espartanos contra o imenso exército persa. Não deve ter lido até o fim a história, pois os 300 acabaram esmagados pelos persas, depois de uma traição dentro de suas próprias fileiras (seria o Moro?). De qualquer forma o tema aqui não é esse.  A questão é que existe um grupo paramilitar se formando no facebook e no uatizapi sem que nenhuma ação seja feita por parte das chamadas instituições brasileiras. Conforme a liderança assegura em entrevistas o objetivo é ucranizar o Brasil, ou seja, promover a matança dos comunistas em nome de um deus vingador. 

Agora imaginemos o contrário: que a CUT ou o PCO, ou o PT, o PSOL ou qualquer outro grupo identificado como esquerda estivesse chamando pela rede social a criação de um grupo armado para enfrentar os bolsonaristas. O que aconteceria? A Polícia Federal certamente entraria nas casas das lideranças, prenderia os envolvidos e eles seriam julgados como subversivos, comunistas a serviço da Rússia, traidores da pátria ou qualquer outro nome. 

Essa é a realidade brasileira no momento. O grupo dos bolsonaristas é pequeno, mas ruidoso. E também é ousado. Está seguro que de com eles nada acontecerá porque seu presidente tem o controle até da Polícia Federal. 

Do outro lado temos uma esquerda acuada, que se comunica através de notas de repúdio ou então fazendo piada sobre a “pequenez” dos grupos que pregam o AI-5 (o fim de todas as garantias individuais e o fechamento do Congresso) e a intervenção militar. Não há ação organizada junto aos trabalhadores, mesmo nessa hora pandêmica onde a maioria está desprotegida e sendo obrigada a seguir vendendo sua força de trabalho mesmo sem as garantias de proteção à saúde. As estradas para a ação dos fanáticos e fascistas estão abertas, sem bloqueios.

Essa é uma hora decisiva. A pandemia avança cobrando vidas. Provavelmente o Brasil ainda colocará muito mais mortes do que as atuais quase nove mil. O desemprego crescerá, a pobreza aumentará, o desespero e a fome assomarão, portanto, terreno fértil para o obscurantismo e o fanatismo.

O caminho para a ucranização está livre. Alguns acham graça disso. Mas, sempre é bom lembrar que se os 300 de Esparta foram derrotados, eles enfraqueceram poderosamente o exército de Xerxes, que foi derrotado logo adiante. Não é momento de tripudiar do que parece ser um exército de Brancaleone às avessas. Isso é sério e tem como objetivo matar brasileiros em nome de deus. 

É tempo de organizar os trabalhadores e montar as barreiras. Se o fanatismo é risco, a revolução também é. Das instituições não há o que esperar. Tudo o que temos são nossos corpos nus, como diria o grande repórter Marcos Faermann. 

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quarta-feira, 6 de maio de 2020

Jornalista não almoça com o poder

A foto é da Geci Prates, que já encantou. À ela, meu amor.

Eu tinha 20 anos quando comecei a trabalhar na TV. Foi em Caxias do Sul, uma cidade de porte médio. Ainda assim, em pouco tempo percebi que a gente, que aparecia na telinha, era uma espécie de celebridade. As pessoas nos tratavam de maneira diferente. Nas lojas, nos restaurantes, na igreja. Lembro que a cada estação, a empresa de malhas Petenatti, mandava sua coleção de presente e as vinícolas – dezenas delas – mandavam caixas de vinhos nas festas especiais. No começo eu achava bem bacana. Não compreendia ainda que aquilo era só uma maneira – nada sutil – de comprar nossa simpatia.

Mas, o bom é que eu sempre fui uma pessoa pensante, e comecei a ruminar sobre aquilo. E foi justamente a elite empresarial de Bento Gonçalves que me fez ver com clareza o que aqueles pequenos presentes representavam. Como Bento ficava na região de abrangência da TV Caxias a gente sempre ia lá cobrir o almoço semanal dos empresários. Era um rega-bofe chique que terminava com a gente fazendo entrevistas com o maior número deles, falando sobre seus negócios. Era, na verdade, uma das matérias 365, código que dávamos para matérias que não tinham interesse público, que eram propaganda travestida de jornalismo. Aquilo incomodava, mas tínhamos de fazer.

O almoço era servido numa mesa grande e uma das laterais era reservada aos jornalistas. Com o tempo fui observando que era sempre a mesma coisa. Os jornalistas ficavam bem longe do centro, no finalzinho da mesa, servidos por último. E, tantas
vezes surpreendi um olhar de desprezo por parte dos empresários, como se fôssemos gente menor, um desprezo que também via no olhar dos garçons. Eram trabalhadores como nós e agiam como os chefes. Fui pegando nojo daquilo. A partir daí comecei a atrasar a saída de Caxias deliberadamente para não chegar a tempo do almoço, para não participar daquela humilhação. Aí, a gente chegava no final, fazia as entrevistas e ia comer xisburguer num boteco perto da Associação Comercial. Eram nossos melhores almoços. Comecei então a ter noção de que os “presentinhos” eram a moeda para comprar nossa vassalagem.

Naqueles dias eu era jovem e pensava que o mundo girava em torno de mim. Por sorte sempre fui curiosa e gostei de estudar. E foram os livros que me salvaram. Os livros e as relações que fui construindo com os trabalhadores. Tinha uma trabalhadora, em particular, que muito me ensinou: a Geci Prates. Era presidente do Sindicatos dos Trabalhadores Gráficos e chegou a ser candidata a prefeita pelo PT naqueles anos 80, quando o PT era a novidade alvissareira para os trabalhadores. Que mulher. Penso que ela nunca soube o tanto que transformou minha vida. A partir dela fui descortinando o mundo dos trabalhadores em Caxias do Sul, um mundo escondido e fora dos holofotes da mídia. E, desde ali, parei de ser idiota e comecei a forjar a pessoa que sou. Então, mesmo dentro da RBS – que era a maior rede comercial do estado – comecei a abrir espaço para as lutas dos trabalhadores. Nunca mais pude aceitar um presente de quem quer que fosse, porque entendia ali a intenção.

Essa postura virou uma regra de ouro para mim. Nenhum presente, nenhum almocinho nas beiradas de mesa, nenhum deslumbramento com o fato de o prefeito, o governador ou mesmo o presidente saber meu nome. Eles não sabem nosso nome porque nos querem bem. Eles sabem nosso nome enquanto estivermos enquadrados na empresa que lhes serve. O jornalista-marca, como muito bem já definiu a professora Roseméri Laurindo no seu livro “As três dimensões do jornalismo”. O jornalista que só é, enquanto empregado da rede famosa, do jornal famoso. Quando perde o emprego e vira uma pessoa sem marca, deixa de ser incensado pelos que estão no poder.

Isso tudo é para dizer que sinto uma profunda indignação quando vejo os jornalistas se abaixarem para a classe dominante acreditando fazer parte do banquete. Não fazem. Estarão sempre na beirada da mesa, sofrendo os olhares de desprezo. Nossa função como jornalista é apurar a crítica, desvelar o escondido, expor as feridas. Doa a quem doer. Fazer jornalismo é ser capaz informar e formar a opinião pública sobre o que corta a carne da maioria, e para isso temos de perder a ilusão de que somos especiais. Não somos. Somos parte do exército de trabalhadores que vive sob a exploração do capital. E, como tal, nossa obrigação é narrar o mundo desde o nosso lugar.

Comungar com o poder que nos oprime é um erro. Um triste e irreparável erro.