sábado, 7 de abril de 2018

O último Jedi



Vi, um ano atrasada, o episódio VIII do Guerra nas Estrelas, mais um da série de filmes que marcou profundamente minha vida, apaixonada que sou por ficção científica desde bem pequena.  Fiquei totalmente tocada com a presença de Luke e Leia, que são assim, como parentes... 

A cena de Leia vencendo o espaço gelado, Mestre Yoda e sua adorável ironia, Cheewba, Luke e sua partida tão bonita. Um lindo encerramento para uma geração que, como eu, encantou-se com esses personagens. A Força, em toda sua expressão.. Lindo demais. Certamente ficarei pelo menos uma semana em estado de melancolia...

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Sobre a conjuntura, fascismos e golpes



Não pretendo falar do julgamento do STF sobre o Habeas Corpus de Lula. Não é isso que interessa. Julgo que todo o processo que envolve as denúncias contra o ex-presidente tem vício de origem, logo não deveria ter chegado até esse ponto no qual chegou, com duas condenações absurdas, de nove e depois expandida para 12 anos. No campo do direito, não são poucos os juristas que apontam a inconsistência nas provas contra Lula. E, se um dos princípios basilares da lei burguesa é a presunção de inocência, não teria motivo de ser diferente só porque o acusado é um ex-presidente. Logo, o julgamento é político. Não faltará quem jogue na cara: então tu apoias a corrupção do Lula? Não, não apoio. Nem do Lula, nem de ninguém. Os que comandam a máquina capitalista todos têm as mãos sujas de alguma forma. Mas, se formos nos ater a letra fria da lei penso que provas concretas são necessárias, contra quem quer que seja: amigo ou inimigo meu.

Vejo claramente algumas coisas que gostaria de dividir para o debate:

Primeiro: Sim, foi golpe o que aconteceu em 2016. De um jeito novo, mas foi golpe. E estamos vendo esse golpe se desdobrar vertiginosamente. “Primeiro a gente tira a Dilma”, disseram, e é assim mesmo. O que vem depois vai pegando primeiro os petistas e no desenrolar pode pegar qualquer um. Isso é fato. Uma hora vai chegar ao cidadão comum. Alguém pode dizer que o cidadão comum sempre esteve vivendo num estado de exceção e de certa forma é verdade. Os empobrecidos sempre estão com a lei sob suas cabeças, como uma faca afiada, coisa que não ocorre com os do topo da pirâmide. Exemplos não faltam, de um e de outro lado. Vejam os números de mortes impunes nas favelas, nas periferias. Vejam a situação dos aprisionados, grande parte sem julgamento. Vejam os ricos que matam e traficam e saem impunes. Tudo isso é verdade. Mas num tempo de golpe, a ação contra os inimigos do “estado de coisas” se potencializa, cresce e deixa a vida confusa. A mão da lei, que é a mão do poder, pode pegar qualquer um, sem precisar usar a lei. O contrato social representado pelas leis, ainda que frágil na democracia burguesa se rompe definitivamente. Tudo passa a valer. Inclusive convicções pessoais viram provas. Isso não pode ser aceitável.

Segundo: a direita brasileira conseguiu colar no Lula e no PT a imagem de “comunista”. Todos os que temos compreensão da realidade e conhecemos a fundo o que é o capitalismo, o socialismo e o comunismo, sabemos que o PT e o Lula não são comunistas. O máximo que podemos conceder é que eles sejam de um liberalismo de esquerda, com certa pegada social e uma preocupação com os empobrecidos, ainda que insuficiente. Mas, não adianta dizer isso a essas gentes que já estão inoculadas com essa “verdade” do petista/comunista. É por isso que esse povo vai para as ruas com suas camisas da seleção – que representam a pátria -  gritar contra Lula e o PT. Porque pensam que eles são comunistas, e acreditam que o comunismo é o mal. Veem o comunismo com os olhos da direita, sequer sabem bem o que isso significa. Precisaríamos de muito tempo para desconstruir isso. Muito trabalho de base. Não se consegue com discursos nem com postagens no facebook. Ainda mais que o próprio facebook trabalha para consolidar essa mentira que virou verdade. O tal do face é uma usina de mentiras, tal qual os grandes meios de comunicação.

Terceiro: sim, há fascismo nessa conjuntura brasileira e isso não é banalizar o termo. Teothonio dos Santos, no seu livro “Socialismo ou Fascismo” ajuda a gente a compreender esse movimento. Ele avalia que existem atitudes fascistas, movimentos fascistas e fascismo. Cada caso é bem diferente um do outro Ele faz sua análise nos anos 70 do século passado e é claro que não podemos transplantá-la para hoje. Mas ajuda a pensar. Segundo Teothonio,  o fascismo surge quando há uma ameaça à nação e um movimento de unidade nacional que aparece para salvá-la. Não é o caso no Brasil. Mas, acontece que foi criado um consenso que diz o contrário. Nesse consenso liga-se o PT ao comunismo e isso aparece como uma ameaça. É o que dizem os comentários raivosos de um bom número de pessoas. Nesse caldo, figuras como Bolsonaro, militares ou políticos da direita de todas as cores, aparecem como lideranças capazes de colocar ordem na casa. A casa bagunçada pelo capitalismo aparece como uma casa bagunçada apenas pelo PT. “No tempo dos milicos não tinha violência”, dizem, e não analisam o tempo de um Brasil ainda rural, sem os males das grandes metrópoles. A violência não é coisa do PT, ela é estrutural do capitalismo.

O fascismo, diz Teothonio, aparece quando as lideranças populares estão desorientadas ou chegam ao poder e não conseguem dar respostas às lutas do povo. Temos essa realidade com o governo do PT que, de certa forma, não conseguiu avançar nas demandas populares e domesticou sindicatos e movimentos. Hoje temos essa desorientação. Também, para que o fascismo se expresse para além de ações isoladas é necessário que existam grupos marginais e decadentes que se organizem contra o socialismo, o comunismo ou as demandas populares. Temos isso hoje no Brasil de maneira muito clara.

Teothonio diz ainda que para que o fascismo se instale como projeto de governo é necessário que haja uma crescente luta popular que ameace a burguesia, então, ela, com a ajuda do grande capital, trava a luta. Bom, não temos grandes levantes populares, mas não estamos adormecidos, e a burguesia local impõe via meios de comunicação essa “verdade”: os comunistas querem voltar. Isso é forte. Talvez não tenhamos mesmo as condições materiais e históricas para um regime fascista no Brasil. Mas isso não significa que não tenhamos de conviver com movimentos pontuais e atitudes fascistas. Coisas que já observamos claramente hoje. Isso tem de ser combatido, sob pena de avançar.

Nesse contexto todo, misturando os ingredientes, a situação é de fato dramática para esquerda, porque é necessário apontar cenários e saídas a essa camada da população que hoje se mobiliza na campanha de “eleição sem Lula é fraude”. Esse é, na verdade, um projeto muito reduzido para nossa esquerda nacional. Posso entender os partidos se juntando em atos públicos para rechaçar atitudes e movimentos fascistas, mas isso não toca na essência do problema. Não há verdadeiramente um projeto nacional que sirva de rede para nossos desejos. Não há. O projeto que boa parte das gentes em movimento hoje tem é o projeto petista, que já mostrou suas fragilidades e suas insuficiências.

Como acreditar que as coisas possam ser diferentes?  Que a política econômica não será comandada por gerentes do capital? Que os meios de comunicação comerciais de massa não seguirão realizando a mais-valia ideológica sem freio? Que a auditoria da dívida será feita e o que for ilegal não será pago? Esses pontos não estão no horizonte petista hoje. Nesse sentido, antes de pensar em uma frente com essa força seria necessário avançar muito mais, para além da proposta esquerdo/liberal.  

É fato que no mundo real só podemos trabalhar com a realidade real, como diz o economista José Martins. E sabemos que os caminhos da mudança são tortuosos e difíceis, necessitando de construção coletiva massiva. Mas, não podemos rebaixar os horizontes. Como dizia Galeano a utopia foi feita para a gente caminhar, e a utopia não é um lá-na-frente impossível. Ela é um lá-na-frente que ainda não chegou, mas que pode chegar. Então, nossas propostas e bandeira precisam se erguer além do possível. Claro, sem deixar de observar o que é possível no agora. Mas esse é um caminho dianalético ( sim, dianalético, como em Dussel), ou seja, no confronto entre tese e antítese, assoma a voz da comunidade das vítimas, os que estão fora do horizonte do sistema ( e não fora do sistema). É com esses, que clamam desde a exterioridade, que temos de caminhar. E a esses não basta serem incluídos na máquina de moer carne. O que se quer é outra forma de organizar a vida, na qual as maiorias não fiquem de fora – seja das riquezas, seja da possibilidade de decisão.

Resumindo: nesses dias de estupor diante do papel da Justiça, das vozes da caserna que assomam pela TV, dos movimentos fascistas, posso me solidarizar com os partidários de Lula na compreensão de que está sendo travada uma cruzada contra o PT e não contra a corrupção. Mas, ao mesmo tempo conclamo aos companheiros e companheiras de tantas lutas que ampliem o olhar, aumentem o horizonte das lutas, e fortaleçam a utopia. O lá-na-frente não pode ser um pouco mais de justiça, um pouco mais de salário, um pouco mais de democracia. O lá-na-frente tem de ser nosso sonho maior, de trabalhadores livres, solidários, com o fim da propriedade privada, as riquezas repartidas, o poder popular. O comunismo.

Talvez não cheguemos lá agora, mas chegaremos, se para lá dirigirmos, de verdade, nossos pés e nosso coração. 



quarta-feira, 4 de abril de 2018

As aventuras com o pai



No passado cuidar dos idosos não se constituía problema. As famílias eram grandes, sempre tinha alguém em casa e o velho passava pelos cuidados coletivos. No geral era respeitado e acabava sendo o centro de todas as atenções, mas sem que isso fosse um peso. Hoje não. As famílias são pequenas, todos trabalham e a tendência é o velho ficar sozinho. Quando ele adoece, tudo se complica, porque precisa de cuidados 24 horas e não há como fazer. |Ou vai para um asilo ou alguém tem de ficar em casa. na segunda opção os malabarismos são constantes. Estou com o meu pai há dois anos. Ele já completou 86 anos e vive seu processo de esquecimento. Está bem de saúde, mas vez em quando apronta. Um cigarro solto na cama, o intestino que se solta sem ele querer, dinheiro rasgado, documentos estraçalhados, tudo na inocência. A família pequena precisa armar uma logística tremenda para poder sair para estudar e trabalhar. Temos nossos turnos e ainda conto com a ajuda de duas outras pessoas que se revezam no cuidado. É uma correria. O dinheiro é curto, não dá para ter cuidador em tempo integral. Dá um estresse tremendo, mas a gente vai se ajeitando como abóboras na carruagem. Dia dessas uma das cuidadoras teve um problema e não pode chegar. Todos nós já havíamos saído, o pai estava só. Quando ela avisou, eu já estava na UFSC. Aí foi pesado. Meu trabalho fica a uns 15 quilômetros de casa, mas vivo em Florianópolis. Aqui o transporte é um caos e a gente pode levar até três horas para cumprir esse trajeto, pegando três ônibus. Pirei na batatinha. Era a que estava mais perto. Tinha de ser eu a chegar. Meu espírito de pobre nem cogitou um taxi. Já estava correndo para a parada de ônibus quando um amigo me gritou: “Chama um Uber”. Oi? Bah! Grande ideia. Chamei. Ainda assim levamos uma hora para chegar. Trânsito pesado para o Campeche agora é toda hora. Eu com o coração aos saltos. Finalmente cheguei. O pai estava no portão, olhando a rua. Os cachorros deitados na área, cuidando. Felizmente não saíra. Ficou surpreso em me ver e eu nem deixei transparecer que estava em pânico. Enfim, passado o susto e o estresse, fui cuidar da vida. Ele seguiu com seus afazeres matinais. Na hora em que estava preparando o almoço ele chegou, sentou na poltrona e ficou ouvindo música, como sempre faz. Ele bate o pezinho, eu canto, e a comida vai saindo. De repente ele pergunta: “Mas hoje não ia vir uma mulher aí?” - Sim, mas ela teve um problema, não pode vir. A única mulher que vai estar aqui hoje contigo sou eu. - Ah, tá, e é bem bonita – respondeu, sorrindo. Foi só aí que eu chorei. A parada é dura, mas tem seus momentos de puro encanto.



domingo, 25 de março de 2018

Os deuses


Uma das cenas mais lindas da série "American Gods", é essa, no episodio sete, quando Essie Macgowan encanta. Nessa hora abissal ela encontra o seu deus, aquele de quem cuidou uma vida inteira. É um encontro lindo, pleno de ternura e delicadeza. E assim que penso que deve ser a morte. Quando aquele de quem cuidamos no altar de nossos mais secretos desejos de amor, diz delicadamente nosso nome e nos toma pela mão.

Definitivamente o momento mais bonito de Pablo Schreiber como um Leprechaun, um ser mítico da velha Irlanda.


quarta-feira, 21 de março de 2018

Sobre caravanas e ódios de classe

Possivelmente dois trabalhadores

Num desses filmes de roliude chamado “Django Livre” há um personagem que espelha claramente a cara feia desse nosso mundo eivado da herança colonial e escravocrata. É o velho negro, mordomo do senhor de escravos, que tripudia dos negros da senzala e goza de prazer quando os vê passar pelas terríveis dores da tortura. Ele, como negro, e convencido da sua “inferioridade”, não suporta ver um negro livre ou um negro que se rebele contra o horror. Então, de livre vontade assume a postura do opressor. É um servo voluntário, arrastando-se atrás do patrão, tentando abocanhar as migalhas que caem da mesa colonial. Pode-se compreender que aquela seja a estratégia que ele desenvolveu para permanecer vivo, mas não é possível deixar de odiá-lo. E o final do filme representa bem isso. Ou estamos com os nossos, com nossa classe, ou não estamos. 

O mesmo sentimento me invadiu ontem ao ver centenas de comentários sobre a ação de alguns latifundiários, acompanhados de populares, no Rio Grande do Sul, contra os apoiadores da caravana do Lula. Uma cena em particular atraiu mais ferozmente os comentários dos servos voluntários de plantão: a de um jovem agricultor dando de relho em um sem-terra. Imediatamente me veio a cena do filme, quando Jango está sendo torturado e o velho mordomo vem tripudiar dele.  Um horror. Digo isso porque tenho plena certeza de que mais de noventa por cento das pessoas que divulgaram a  foto com comentários de ódio contra os sem-terra ou contra os apoiadores de Lula certamente não são donos de terra, nem donos de meios de produção. São os mordomos. Ou seja, tal qual aquele sem-terra são obrigados a vender sua força de trabalho para viver. São da mesma classe.

Não, eu não gosto do Lula. Penso que o governo petista, ao longo dos anos que esteve no poder, foi bastante responsável pela classe trabalhadora não ter avançado politicamente. Nesses anos todos os sindicatos se domesticaram e os movimentos sociais esperaram muito do governo. Um muito que não veio. Reconheço que o governo petista foi diferente dos demais governos de “casa-grande”, afinal, as tais políticas públicas conseguiram chegar a milhões de pessoas que sempre estiveram fora dos planos governamentais. Não foram as melhores políticas e ainda foram muito tímidas, mas os empobrecidos diminuíram e gente que passava fome, passou a comer. Isso foi real.

Mas, o fato concreto é que os governos petistas serviram muito mais à casa-grande que aos trabalhadores. O agronegócio cresceu, os bancos tiveram lucros astronômicos, os ricos ficaram mais ricos, a dívida não foi auditada e ainda foram aprovadas leis que penalizam os trabalhadores que lutam, como a lei antiterrorismo. 

Então porque tanto ódio contra Lula? Se ele serviu muito bem aos interesses da classe dominante? O ódio dos ricos eu entendo. Eles usam os que os servem até quando querem. E quando não querem mais, ou não precisam deles, descartam. Simples. Sempre haverá outro e outro pronto a servir. Então que um latifundiário cuspa no Lula, posso compreender. Lula não vem de sua classe. O que não compreendo é o estranho mecanismo que leva o brasileiro médio, subalterno, da classe trabalhadora, a odiar tanto esse homem, a ponto de realizar passeatas de mãos dadas com a classe que o oprime. Sim, porque entre os que disseminam horrores contra Lula e Dilma não vejo um que o odeie por ele ter governando mais para os ricos do que para os pobres. Não. É a compra cega do discursinho televisivo da “corrupção”. No geral, essas pessoas que cospem ódio sequer sabem bem como foi que os governo petistas se comportaram, para o bem ou para o mal. A impressão que dá é que o ódio ao Lula se dá porque ele tem aparência de pobre, fala como pobre, age como pobre. E aí aparece aquele sentimento do mordomo lá do filme do Tarantino. Entre os serviçais não há quem suporte ver um dos seus comendo à mesa dos patrões. O ódio não é nem pelo fato de um dos seus ter se aliado com os patrões (o que seria interessante e pedagógico), é só pelo fato e ele estar na posição de patrão sem ter cara ou jeito de patrão. A coisa é louca, mano.

As manifestações contra a caravana do Lula no Rio Grande não foram organizadas de maneira espontânea por agricultores e populares, como quer fazer crer a mídia. São manifestações organizadas por partidos políticos como o DEM, o PSDB ou o PMDB, partidos que congregam os latifundiários e a classe dominante do estado. Foram organizados por movimentos do tipo do MBL que são financiados por pessoas e entidades ligadas a esses partidos ou a organismos internacionais de direita. Portanto, são manifestações político-partidárias sim, realizadas dentro do contexto do cenário das eleições. Nenhum desses dirigentes que organizam atos contra o Lula pelo Brasil promove as manifestações porque o Lula é ladrão ou corrupto. Não. É porque eles querem pegar o lugar do Lula para serem os ladrões e os corruptos. Esse é o jogo no mundo capitalista de produção. Esse é o jogo eleitoral.

E, nesse festival de manipulação, aparecem aqueles que como o mordomo da casa-grande, acreditam firmemente que o país estará melhor na mão dos senhores de terra, dos senhores de fábricas e nos senhores de escravos. Esses precisam ser conquistados para sua própria classe. Um trabalho quase inglório, mas que precisa ser feito.  

As cenas provocadas no Rio Grande e outras que deverão vir no Brasil todo a continuar a caravana de Lula, são, quer a gente queira ou não, cenas explícitas da luta de classes. Porque os que estão do lado de Lula são conhecidos lutadores sociais, gente que também firmemente crê que, com Lula, a vida dos trabalhadores vai melhorar. São aqueles que acreditam que as transformações podem vir a conta gotas, uma melhoradinha aqui, outra ali, mesmo que as políticas públicas sejam raquíticas e insuficientes. E são tantos os que dão a cara para bater nessa luta por tão pouco. Há que respeitá-los e dialogar com eles, porque, no geral, são nossos companheiros de muitas lutas. Não são eles os inimigos.

Não creio que Lula seja a solução para o Brasil. Minhas expectativas são mais altas. Sonho e luto por transformações estruturais, radicais, que mudem verdadeiramente a face do país. Luto pela emancipação real dos trabalhadores, pelo fim da propriedade privada, pela socialização da riqueza, pelo fim da exploração. Isso não é coisa que se faz com política pública. É coisa que se faz com revolução. Por isso, caminho por outros caminhos. Mas, respeito profundamente cada companheiro ou companheira que está na estrada da defesa do petismo. Espero firmemente que, no embate cotidiano com a classe dominante, cada um e cada uma possa avançar nas expectativas. Não apenas um país “mais” justo. Não apenas um país com “mais” oportunidades para os pobres. Mas um país justo, sem pobres. Alguém pode argumentar que isso se faz passo a passo, por etapas, com calma, devagar. Mas eu acredito na possibilidade do salto, o salto abissal, que rasga a história e muda o mundo. 

Nunca estarei do lado da classe dominante. Isso é seguro. Mas, precisamos querer mais do que “um pouquinho mais”. Que as caravanas e os conflitos sirvam para essa reflexão. Que os embates sejam pedagógicos. Sabemos que é o inimigo e vamos enfrentá-lo. E há que ser juntos!



domingo, 18 de março de 2018

Sergio Weigert, mestre


Trabalho como escriba desde os 12 anos praticamente. Comecei minha sina de contadora de histórias reescrevendo os contos de Simões Lopes Neto, adaptando-os para uma linguagem falada no rádio, para um programa que o meu pai tinha na Rádio Fronteira do Sul, em São Borja. Depois, o caminho natural foi o jornalismo. Na escola, nos movimentos sociais, escrever era comigo mesmo. Mas, comecei a atuar profissionalmente, como repórter, aos 21 anos, na TV Umbú, de Caxias do Sul. E, nessa lida, sempre andei ligada às causas dos trabalhadores. Eu vinha de uma militância já bastante consolidada, seja na luta contra a ditadura ou na batalha pela anistia. Consciência de classe não me faltava. Naqueles dias tentei fazer a faculdade. Mas, em Caxias, só havia universidade particular. Fiz vestibular, passei, mas não dei conta de pagar as mensalidades. À época, chorei demais, mas o tempo mostraria que aquele mal viria para bem.

Em 1985 tive a sorte de ir trabalhar na TV Passo Fundo, onde mergulhei de cabeça na realidade dos trabalhadores sem-terra. Cobrindo a primeira grande ocupação organizada do MST, na Fazenda Anonni, todas as minhas inquietações sobre a realidade brasileira foram se consolidando na certeza de que era preciso operar uma grande transformação nesse país. A democracia chegava capenga e todo o processo de luta e repressão vivido pelos acampados de Anonni reforçaram em mim o caminho que já havia escolhido desde pequena: o da classe trabalhadora, sempre, e sem concessões.

Minha vida de repórter, mesmo dentro de uma empresa comercial ultraconservadora como a RBS, foi sempre pautada pelo compromisso de garantir espaço para as vozes dos trabalhadores e trabalhadoras se expressarem. Sempre encontrava jeito de isso acontecer. E são muitas as histórias das minhas artimanhas. Mas, apesar de todas as minhas certezas consolidadas eu sentia que precisava estudar mais e mais. Sobre o jornalismo e sobre a política. Decidi fazer vestibular para jornalismo na federal de Santa Catarina. A prova era em Chapecó, perto de Passo Fundo. E para lá fui, na esperança de passar. Seria uma federal, eu não teria de pagar nada. Era minha chance de crescer intelectualmente depois de mais de dez anos fazendo jornalismo à facão, sem formação acadêmica.

Quis o destino que eu passasse no vestibular e fosse estudar na UFSC. Lá, encontrei o homem que daria sentido a minha vida de jornalista. Ele mudou minha vida inteira, balançou todas as estruturas, fortaleceu algumas certezas e abriu para mim um caminho que nunca mais teria volta: o da filosofia. Seu nome é Sérgio Weigert. Era professor de Realidade Brasileira. Chegava à aula com o cabelo desgrenhado, gritando feito louco, nos provocando, nos incentivando a ultrapassar a mediocridade. Mandava-nos ler os textos mais incognoscíveis. E exigia compreensão. Quantas noites de chimarrão e pipoca vivemos Roseméri Laurindo e eu, tentando decifrar Horkheimer. Era como o inferno na terra.

Um dia chegou com a máxima de que índio não tinha história. Pra quê? Foi o maior furdunço na sala. Eu o odiava. E discutia com ele que aquilo era um absurdo. “Prova pra mim, então”, provocava e eu corria para a biblioteca devorar Darcy Ribeiro e tudo mais que havia sobre índios. E quando eu voltava e discutia, argumentando com vários autores, os seus olhos brilhavam de alegria. “Muito bem, guriazinha”. Era um mestre, nos fazendo descobrir as coisas por nós mesmos.

Com o passar do tempo o ódio foi virando amor. E as aulas do Sérgio passaram a ser a razão de chegar à universidade. Na cadeira de Realidade Brasileira o trabalho final foi absolutamente instigante. A tarefa era de que cada aluno apresentasse uma proposta anti-hegemônica de nação. Pensa? E nós a fizemos. Outra cadeira que ele deu foi a de Estética. Era uma viagem alucinante de filosofia e arte. E tudo era passado com uma intensidade louca. Sérgio era ele mesmo um vulcão, alegre, festivo, devorador. Passava noites e dias lendo, estudando, e chegava desvairado tentando passar para nós tudo o que descobrira nas leituras. Suas aulas eram momentos estelares. E toda aquela beleza se espraiava para além da sala, quando desfrutávamos da sua incrível biblioteca caseira. Obras completas de Lenin, Marx, Adorno, Agnes Heller, Luckás e muito mais. Estudar com Sergio era mais do que aprender, era ser, inteira e total.

Por fim, ele nos apresentou Adelmo Genro Filho. Ai foi a cereja do bolo. Porque Adelmo é seminal. É rei. É único. É o que garante um jornalismo de qualidade, ao qual me agarrei para sempre. Sérgio e Adelmo ficaram desde então colados em mim.

A universidade acabou, e os caminhos do Sergio foram seguindo novos rumos. Ele foi estudar na França. Mas, apesar da lonjura, seguia perto, até porque parte de sua biblioteca ele tinha deixado comigo, e outra parte com minha amiga Catarina. Então, a gente continuava bebendo de sua sabedoria. O tempo passou, ele voltou e enfrentou toda a dureza da falta de solidariedade no Curso de Jornalismo, quando alguns colegas queriam exonerá-lo, chamando-o de louco. Naqueles dias estivemos por perto, vivendo com ele toda a dor. Depois, ele foi para Porto Alegre, já aposentado e veio a terrível agressão que o colocou em coma.

Acompanhamos de longe, sempre torcendo para que se recuperasse. Mais tempo passou e ele foi enfrentando suas limitações. Segue firme. Vivo e ainda sedento de saber, como sempre. E ainda que esteja longe, lá em Porto Alegre, para mim, ele é o mestre da vida. Em cada confusão intelectual, cada descoberta, eu sempre penso: que diria Sergio? E busco na sua alucinada alegria de saber a força para encontrar os caminhos.

Dia desses procurando por ele na Internet, a ver se tinha alguma notícia, me deparo com sua carinha sorridente e a notícia de que os professores Salo de Carvalho e Mariana de Assis Brasil Weigert haviam lançado um livro com alguns dos seus textos. Foi uma explosão de alegria. Saber que os escritos desse homem apaixonante agora estariam públicos e eternos. Liguei na hora para a editora para comprar o meu.

Pois ontem o livro chegou, "Marxismo e Modernidade - ensaios críticos sobre utopia e emancipação". Está entre minhas mãos, dormi abraçada nele e agora, nessa manhã de domingo, vim escrever, para dar vazão aos sentimentos. E a emoção que esse trabalho me provoca é tão intensa que não consigo parar de chorar. A alegria é oceânica.

Guardo até hoje o projeto anti-hegemônico de nação que fiz para a aula do Sergio, o qual contém um elogio e um A+. E a ele recorro sempre que preciso de força para seguir nas minhas reflexões filosóficas e na vida política. Meu mestre amado, sempre aqui. Mas, agora, com o livro, outros textos dele me acompanharão. E vou sorvê-los como se fora o chimarrão há tanto tempo esperado: devagarito, saboreando.

Obrigada por isso Salo de Carvalho. Obrigada Mariana. Sergio, agora, vive para sempre.


segunda-feira, 12 de março de 2018

Sempre é tempo de aprender



A vida é mesmo uma coisa mágica. Vivo isso todos os dias com meu pai. Aos 86 anos ele agora vive uma fase de esquecimentos. Mas, ao mesmo tempo, surpreendentemente, ele também aprende coisas novas. Durante toda sua vida nunca foi uma pessoa preocupada com o ambiente. Nunca teve isso isso incorporado ao seu viver. Homem comum, trabalhador, da casa para o trabalho, honesto e cumpridor. 

Agora, vivendo na minha casa, ele passou a observar os costumes da nossa vida. Temos uma vida simples e regradinha nos cuidados com a Pachamama. Lixo reciclado, plástico com plástico, lata com lata, papel com papel. Temos também um bom pomar e uma composteira que produz minhoca e terra boa. Observando, ele reparou que todo o material orgânico a gente deposita lá no fundo, perto da horta, e passou a fazer disso também a sua rotina.

Dia desses levei pra ele uma banana, para que comesse antes de dormir. Já era umas nove e meia da noite. Ele agradeceu e eu sai. Dali a pouco o vi passar pela cozinha em direção ao pátio, com seu passinho arrastado e levinho. Carregava a casca de banana na mão. 

- Onde vai, pai. Já é noite!
- Vou colocar a casca lá onde tem que ser. 

E se foi pelo escuro na direção da composteira. Pois agora ele faz dessa prática um ritual sagrado. Guarda todas as casquinhas para espalhar no lugar das minhocas. E volta feliz, fazendo o sinal de positivo.