quarta-feira, 26 de outubro de 2016

PEC 241 - A hora da vingança contra a esquerda



Acompanhei ontem a votação da PEC 241 na Câmara através de um “ao vivo” do aplicativo Facebook. Era uma transmissão feita pela Bancada do PT. Entrei ali ao acaso, foi a primeira que encontrei no aplicativo. 

E como acontece, essa opção de “ao vivo” no face, permite que as pessoas comentem ao longo da transmissão. Definitivamente fiquei impressionada com o nível de fundamentalismo de grande parte das pessoas que acompanhavam a votação. 

Na medida em que o “sim” ia sendo proferido, aprovando a PEC, as pessoas destilavam todo o seu ódio contra o PT e a esquerda. Os comentários, ofensivos, agressivos e violentos não tinham qualquer argumentação plausível. A aprovação da PEC era apenas para ver a cara de derrotado do PT. “Chupa PT”, “morram todos os comunistas”, “Chupem e chorem, esquerdinhas”, “morte aos funcionários públicos” e mais outra centena de xingamentos que nem ouso reproduzir. 

Para essas pessoas, a PEC 241 é só uma facada no PT e na esquerda brasileira que, segundo eles, cometeu o erro de estar no governo. Uma tragédia comunicacional, visto que a esquerda mesmo nunca esteve no poder. O PT, como governo, não avançou na pauta da esquerda. Pelo contrário, foi duramente criticado por render-se a agenda neoliberal, de maneira suave, mas segura. 

Tudo o que o Temer está fazendo, destruindo cada política criada ao longo do governo petista, que timidamente correspondia apenas a uma gestão moral da pobreza, como conceitua o professor Nildo Ouriques, passa a ser, para essas pessoas, apenas uma vingança contra a esquerda. 

Pouco se importam se os pobres ficarão mais pobres, se os cotistas não poderão se manter nas universidades, se a classe média baixa não poderá mais pagar as prestações da casa própria, se milhões perderão os empregos. Danem-se! O negócio é “foder” com o PT, “bando de petralhas desgraçados”. 

É certo que o PT fez por onde levantar alguns ódios, mas o que se vê agora extrapola qualquer bom senso. Parece uma histeria coletiva, cega e sem qualquer argumento além do desejo de vingança. Ainda que não se tenha muita noção de vingança contra o quê. 

E assim passará a PEC 241, sob o aplauso frenético de um número bem expressivo de pessoas que certamente será bastante afetado pelo congelamento dos investimentos em tudo o que é público. Vai demorar um tempo até que isso seja percebido, mas aí, já será tarde. 

A vida ficará ainda mais dura para a camada mais empobrecida da população, que é gigantesca, mas isso também não importa para essas pessoas que hoje gritam pedindo a morte dos “petralhas”. Elas sabem bem como resolver os problemas da pobreza: mais polícia, extermínio dos “bandidos”, cercas eletrificadas nas casas, tortura nas delegacias, violência de estado. “Pobre tem de morrer” é o lema. Não sabem, ou não querem saber, que são os trabalhadores os que produzem a riqueza e que, sem eles, o sistema que tanto amam, quebra. 

Posso entender o ódio de classe. Ele é inerente à luta. Mas, como entender o ódio a sua própria classe? Possivelmente existe aí uma construção de consenso feita pelos meios de comunicação de massa, que é bastante forte e não pode ser negada. Há sim a constituição de uma mais-valia ideológica, produzida pelos meios, que potencializa a opinião dos receptores. De qualquer forma, o que assiste à televisão não é um imbecil, que pode ser moldado. Ele está envolto em sua própria bolha ideológica, constituída a partir de vários outros espaços – não só o da TV – que condiciona sua maneira de agir no mundo. O que a mídia faz é justamente potencializar os rasgos fascistas que já pipocam na sociedade. Como bem lembra Adorno, somos todos fascistas em potencial, e se tivermos aumentados esses estímulos, há riscos de que essa forma de ser no mundo cresça.

Luckás também oferece pistas sobre a ação da classe média em tempos de crise ao falar sobre como age a pequena burguesia. Segundo ele, esse extrato social, apesar de estar dentro do sistema capitalista se sente acima da oposição de classes em geral e age, não no sentido de suprimir alguns dos extremos – capital ou salário – mas sim buscando atenuar sua posição e transformar tudo em harmonia. O filósofo húngaro não usa essa expressão, mas podemos incluir essa postura a um alinhamento com o chamado “capitalismo humanizado”, que a despeito de sua aparente boa-vontade, está descolado da totalidade da sociedade, logo, fica prisioneiro de seus interesses particularistas e no geral, contra os trabalhadores.

Ele argumenta também que é fundamental para a pequena burguesia não compreender o que se esconde na oficina escura do capital, porque, sabendo, não poderia mais sustentar essa ideia de que o capitalismo pode ser humanizado. Por isso, a alienação. Não saber leva a não comprometer-se com a mudança. Então fica mais fácil gritar por “morte aos petralhas”, “morte aos funcionários públicos”, “morte aos pobres”.

Há um longo caminho a percorrer no processo de construção da consciência de classe. Enquanto isso, a classe média seguirá oscilando, ora com a burguesia, ora com os trabalhadores, sempre defendendo seus interesses particularistas. Sem alteridade, ou seja, pouco se lixando para o outro que sofre.   

  

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Eleições e a cidade



Ouvindo os programas eleitorais dos candidatos Angela e Gean a gente pode notar o quanto, de repente, os problemas que tomam conta da nossa vida cotidiana são falados e o quanto de  promessas são feitas para resolvê-los. Os postos de saúde que não tem médico, terão. Os postos que não têm remédio, terão. As filas de madrugada para garantir ficha, acabarão. A mobilidade urbana  ficará perfeita. Haverá mais horário de ônibus, faixas exclusivas, elevados, novos terminais de integração. Os que não têm casa, terão. Os que não têm segurança, terão.

Ou seja, todas as promessas de campanha são consolidadas em cima dos empobrecidos, dos trabalhadores, dos que realmente produzem a riqueza na cidade.

Mas, os candidatos não dizem uma palavra sobre o que eles realmente farão. Como são financiados por grupos de interesse, as propostas que realmente serão executadas serão aquelas que dizem respeito às demandas e anseios da classe rica, a qual de fato representam. Alterações de zoneamento para construção em lugar irregular, licenças ambientais para construtoras em áreas de proteção, grandes empreendimentos para melhorar o lazer dos mais ricos, construção de grandes hotéis para incrementar o turismo predador, alinhamento com os empresários do transporte. Sobre isso, nenhuma linha.

No geral, passa ano, sai ano, e as demandas da maioria por transporte, saúde, segurança, lazer e educação não são levadas em conta. Basta pesquisar as propostas dos candidatos vencedores nos últimos tempos. Sempre as mesmas, porque os problemas não se resolvem. Mas, afinal, é justamente isso que faz com que eles, elas ou seus iguais possam voltar e ganhar em cima de promessas sobre os mesmos velhos entraves da nossa vida.

É de chorar...

Só que chorar não resolve. Há que ter informação e pensamento crítico para observar a realidade, desvendar o engano que se esconde pro trás das notícias de jornal e das propagandas dos partidos. E, a partir daí, lutar para mudar as coisas.

Com os candidatos que temos hoje, para decidir domingo, passaremos mais quatro anos amargando as dores no transporte, na saúde, na educação, na segurança, na cultura, ganhe quem ganhe. Nenhuma mudança no horizonte.  Como é possível que as pessoas não se deem conta disso? Afinal, Angela já foi prefeita e deixou essa triste herança do transporte desintegrado, que nos mata noturnamente. E Gean ocupou cargos públicos importantes em governos passados, sem melhorar de fato a vida da maioria.

Hoje temos tantas fontes de informação além da RBS ou do Diário Catarinense. É preciso que a gente escape dessas armadilhas ideológicas e comece a ver quem, de fato, se importa com essa cidade e com sua gente. Não precisamos de paizinhos ou mãezinhas para cuidar de nós. Podemos, juntos, cuidar de nós mesmos, construindo a cidade que seja nossa de fato. Mas, para isso é preciso se comprometer, atuar na cidade, lutar, reivindicar, participar das batalhas travadas na Câmara ou junto á prefeitura. Comprometer-se é difícil e implica em dispender tempo para isso. Talvez, seja o que afaste tanta gente. Mas, sem luta, nada acontece.


Valamideuzi, eu acredito!!! 


Escola Sem Partido – o que é e o que se esconde



O chamado movimento “Escolas sem Partido” não é uma novidade criada pela direita brasileira, muito menos saiu da cabeça do Alexandre Frota. Como sempre, é uma cópia piorada de movimento semelhante que existe nos Estados Unidos, desde os anos 80, conhecido como “No Indoutrination”, no qual as escolas recrutavam estudantes para espionar os professores considerados “de esquerda”. Os alunos escreviam relatórios sobre os professores denunciando-os, caso eles falassem de qualquer tema que não fosse o que estava estabelecido como verdade pela escola. Ou seja, censura total ao pensamento crítico. E o que é pior, a formação de pessoas movidas pelo ódio, legítimos dedos-duros. Pedagogicamente, um desastre.

Pois em 2004 um advogado brasiliense chamado Miguel Nagib escreveu, a pedido do deputado estadual do Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro, um projeto de lei que procurou incorporar os objetivos do movimento dos ultraconservadores estadunidenses, apontando como “doutrinação” tudo o que fosse crítico à história oficial ou aos pressupostos do liberalismo vigente. E foi justamente esse Flávio, que é filho do deputado federal Jair Bolsonaro, o primeiro a apresentar um projeto dessa natureza em maio de 2014, no legislativo carioca.

Logo em seguida, seu irmão, Carlos Bolsonaro (PSC-RJ), que é vereador na cidade do Rio de Janeiro, apresentou projeto igual, só que na esfera municipal. Feita esse jogada, a proposta acabou pipocando em todo país, surfando na onda de ódio ao PT, desatada já em 2013. O foco, é claro, é impedir a construção de um pensamento crítico.

Em 2015, já com o fortalecimento das bancadas da bala, do boi e da bíblia – extremamente conservadoras – o projeto chegou à Câmara dos Deputados a partir do PL 867/2015, de autoria do deputado Izalci Lucas, do PSDB. No ano seguinte lá estava no Senado também, com mesmo teor, o PL 193/2016, apresentado pelo senador Magno Malta, do PR-ES, já numa versão atualizada, incluindo aí também a proibição do debate sobre gênero. 

A investida do conservadorismo foi se espalhando, com propostas parecidas sendo apresentadas nas Assembleias dos estados e do Distrito Federal. Alagoas foi o estado pioneiro. Lá, o projeto foi aprovado com o nome de “Escola Livre”.  Alguns municípios brasileiros também se adiantaram e já aprovaram a proposta. 

Para a professora Olinda Evangelista, da UFSC, a proposta do projeto “Escola Sem Partido” é apenas uma das expressões de um projeto educativo regressivo global, visivelmente conservador e doutrinário, dentro do qual também se insere a reforma do ensino médio, em curso agora no país, e que vem levantando os estudantes em protestos e ocupações de escolas.

A professora lembra que essas mudanças no ensino foram feita por medida provisória, e é a primeira vez que isso acontece na história do Brasil, o que demonstra seu caráter autoritário. Além disso, o Congresso Nacional, capitaneado pelos latifundiários, evangélicos e conservadores de todas as cores, está querendo arrogar para si o direito até de discutir os currículos das escolas, coisa que sempre foi atribuição do MEC, mediado pelo Conselho Nacional de Educação. É uma ofensiva autoritária sem precedentes na ainda jovem democracia brasileira.

Na verdade, argumenta Olinda, o que o governo quer é criar duas escolas distintas. Uma, para os ricos – as particulares, privadas e confessionais  - continuarão tendo uma formação completa, com filosofia, sociologia, arte, e tudo o que forma o espírito humano crítico; e outra – pública - para os trabalhadores, alienada e de segunda categoria, apenas capacitando os estudantes para o trabalho e para a obediência. Além disso, a proposta de “Escola sem Partido” abre portas para a criminalização de professores que ainda garantem um mínimo de pensamento crítico dentro das escolas. Olinda lembra que o número desse tipo de professor é pequeno, a maioria está totalmente alinhada aos conteúdos formais e alienantes. Mas, o ataque é certeiro. Tem como objetivo calar o pensamento crítico, baseado no vil instrumento do “entreguismo”, tornando o aluno um vigia do professor. Coisa que no entender do educador Gaudêncio Frigotto quebra todo o processo pedagógico que é baseado na confiança mútua. 

Outro elemento importante do projeto conservador é o fato de tornar o professor um mero repassador de conteúdo, sem qualquer função educativa. A boa e velha educação bancária, analisada por Paulo Freire e já superada.

O projeto de lei, que á praticamente igual em todas as esferas legislativas, apesar de discutir a necessidade de “não doutrinação”, em nenhum momento define o que seja efetivamente a tal da “doutrinação”. Na letra da lei, isso parece estar amarrado no artigo 4, que diz o seguinte:

Art. 4º. No exercício de suas funções, o professor:

I - não se aproveitará da audiência cativa dos alunos, com o objetivo de cooptá-los para esta ou aquela corrente política, ideológica ou partidária;
II - não favorecerá nem prejudicará os alunos em razão de suas convicções políticas, ideológicas, morais ou religiosas, ou da falta delas;
III - não fará propaganda político-partidária em sala de aula nem incitará seus alunos a participar de manifestações, atos públicos e passeatas;
IV - ao tratar de questões políticas, socioculturais e econômicas, apresentará aos alunos, de forma justa, as principais versões, teorias, opiniões e perspectivas concorrentes a respeito;
V - respeitará o direito dos pais a que seus filhos recebam a educação moral que esteja de acordo com suas próprias convicções;
VI - não permitirá que os direitos assegurados nos itens anteriores sejam violados pela ação de terceiros, dentro da sala de aula.

Tudo parece muito sem sentido, uma vez que isso que diz a lei é o que já acontece em qualquer escola. Difícil acreditar que exista algum professor fazendo proselitismo partidário, por exemplo. Isso não existe.

Mas, na página do movimento (www.escoalsempartido.org), é possível entender melhor o que eles têm em mente quando falam em doutrinação: é justamente o debate sobre questões críticas. Tudo isso baseado numa compreensão preconceituosa da educação, policialesca e movida pelo ódio. Tanto que o enlace que fala sobre os “exemplos de doutrinação” leva o nome de “corpo de delito”. Entre os exemplos está o funk construído pelos alunos, discutindo a teoria marxista do conhecimento, que é um método científico de apreensão da realidade, sem nada a ver com a política rasteira, ou a política partidária.  

A proposta não apenas impede o professor de explicar o contexto dos acontecimentos e das teorias, como também torna o aluno um completo imbecil, como se ele não fosse capaz de dialogar e compreender o mundo a partir de várias abordagens diferenciadas.  

O projeto da “Escola Sem partido” torna “doutrinação” qualquer discussão sobre participação democrática e, de maneira autoritária qualifica como “síndrome de Estocolmo” a “doença” sofrida por alunos que defendem seus professores ou a sua escola, como é o caso dos milhares de jovens que hoje se levantam na luta por uma educação pública de qualidade.  

Com base em todas essas ideias pré-concebidas e sem qualquer cabimento o objetivo é, a exemplo do movimento estadunidense, criar um canal de denúncia anônima para que os próprios alunos acusem os professores. Uma situação muito parecida com a caça aos comunistas na ditadura militar, na qual muita gente foi presa apenas por ter sido denunciada pelos seus desafetos, sem que houvesse qualquer prova de a pessoa ser uma comunista de verdade. Assim, a consequência mais nociva seria justamente esse aprendizado para a deduragem.  Uma formação para o preconceito e o totalitarismo.

O professor Fernando Pena, um dos integrantes do movimento que se organiza contra essa ideia nefasta (https://www.facebook.com/contraoescolasempartido/) lembra que o projeto viola a própria Constituição Federal, que afirma que um dos objetivos da educação nacional é justamente preparar para o exercício da cidadania. E a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) reforça esses valores.  “No projeto deles, no artigo 2°, eles estabelecem princípios da educação nacional. Mas a nossa Constituição Federal já estabeleceu esses princípios. Se você conferir esses princípios no projeto do Escola Sem Partido, irá encontrar “pluralismo de ideias no ambiente acadêmico”. Ao olhar na Constituição, verá “pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas”. Percebe? Eles pegaram “pluralismo de ideias” nominalmente e excluíram “o de concepções pedagógicas”, que está no mesmo artigo da Constituição”, garante Pena.

Na verdade, tudo o que o projeto de lei diz já está de alguma forma na Constituição. O que a “Escola sem Partido” faz é fomentar a perseguição unicamente ao pensamento crítico. Qualquer outra bobagem poderá ser dita, desde que dentro da lógica capitalista e neoliberal. Com isso, elimina o pluralismo de ideias e impõe o pensamento único. Ou seja, faz justamente o contrário do que diz querer.

A considerar a conformação do Congresso Nacional, dominado pelo pensamento ultraconservador, essa proposta redutora e discriminatória da educação tem grandes chances de passar. E isso fica ainda mais plausível se considerarmos a ação dos meios de comunicação comercial que acabam formando um consenso na população. Depois da criação do ódio ao PT e de colarem qualquer pensamento crítico ao tipo “petralha”, convencer a população de que esse projeto é bom não é difícil.

Esta agora é uma dura e difícil tarefa dos movimentos sociais críticos. Lutar contra o projeto e ainda desconstruir esse consenso criado com maestria pelo braço midiático do sistema.

O professor Fernando Pena lembra que os movimentos sociais esperaram se agigantar essa proposta, sem dar a devida atenção, vendo-a, inclusive, como uma piada. Vê-se que não é. Agora precisarão de muito mais força para mostrar aos pais, alunos e demais lideranças sociais que, na verdade, este é o projeto de uma escola com partido, e um partido único, alienante e alienador.  


Os estudantes secundaristas, que vivem a realidade da escola no cotidiano, são os que estão na linha de frente dessa luta, ocupando escolas e mostrando qual é o modelo de educação que querem ter. Ou seja, eles sabem que a escola que aí está sequer é crítica, precisando avançar muito nesse campo. Retroceder daquilo que já é atraso aparece como inimaginável e inaceitável, daí a resistência. E, num tempo em que a comunicação e a informação está cada vez mais acessível – muitas vezes disseminando ódio e preconceito - o pensamento crítico é também cada vez mais necessário.  Como diz o professor Nildo Ouriques, a batalha não pode ficar só no plano da resistência. É necessário ir para o ataque e não permitir que esse tipo de totalitarismo se estabeleça. A luta é o único caminho.   


sexta-feira, 21 de outubro de 2016

Sobre o trabalho e a luta dos jornalistas em Santa Catarina


























O sistema de produção que domina o mundo - capitalismo – não tem moral. E o que significa isso? Que aos que comandam o processo não importam as gentes. Os seres humanos são apenas números, dados, estatísticas. Máquinas de trabalho capazes de produzir valor. Única e exclusivamente. Pouco se dá aos capitalistas se alguém perdeu o emprego, se teve o braço cortado, se se matou por não ter como dar comida ao filho, ou se vai fenecer lentamente por não conseguir manter a vida. As poucas pessoas que dominam o mundo das mercadorias sabem que há milhões de outra pessoas de reserva, prontas para assumir o lugar de quem morre. A máquina continuará produzindo, gerando capital e lucros apenas para uma pequena parcela da população. É por isso que pessoas como o deputado Nelson Marquezelli (PTB/SP) são capazes de dizer: “se o pobre não tem dinheiro, que não vá para a universidade. Meus filhos vão”. Ou seja, aos pobres só está reservado o trabalho. Nada de cultura, educação, lazer  ou saúde.

A exploração dos trabalhadores é algo que faz parte da natureza do capital. Como eles só tem sua força de trabalho para vender, acabam aceitando acordos que não dão conta de garantir uma existência plena. Sem os meios materiais para produzir mercadorias, os trabalhadores precisam aceitar trabalhar para alguém que é dono da fábrica, do estado ou da empresa, por um salário de fome, que, quando muito o manterá vivo em condições bastante precárias. E não adianta lutar por salário. Esse pagamento nunca será capaz de garantir o mesmo banquete com o qual se lambuza a classe dominante. O patrão determina o preço que vai pagar pela força de trabalho, e o trabalhador aceita ou não. “Quem não tá satisfeito, que vá embora”, dizem os donos dos negócios. E o trabalhador sabe, que sem os meios de produção, não terá como garantir a sua vida. Vai fazer o quê, se não tem máquinas, nem o capital para iniciar um negócio?

No caso da periferia do sistema, em países como o nosso, os trabalhadores sofrem uma exploração a mais. Além de já ter o salário rebaixado, enfrentam uma jornada de trabalho estendida. Como os patrões têm máquinas que otimizam a produção, o trabalhador acaba produzindo muito mais. Logo, ele vai morrendo e se desgastando mais rápido enquanto o patrão vai enchendo mais os bolsos.  

Podemos observar isso muito concretamente na categoria dos jornalistas. Um tipo de trabalhador que produz uma mercadoria muito especial: a informação. Esses trabalhadores ganham, em Santa Catarina, um piso de 2.100 reais. É por esse valor que eles vendem a força de trabalho que irá produzir as notícias. Esse valor pagaria cinco horas de jornada, mas as empresas grandes exigem que os jornalistas façam uma jornada estendida, mais duas horas. Então, a jornada fica sendo de sete horas. Eles ganham hora-extra, é verdade, mas é um valor insuficiente para garantir uma vida boa. No geral, essas sete horas são superdimensionadas porque as novas tecnologias agora obrigam o jornalista a produzir muito mais, e mais rápido. Com isso vem mais desgaste para o corpo e para mente.

Como os meios de comunicação combinam espaços de texto impresso, fotografias, rede social, página web e outras cositas más, o trabalhador é obrigado a cumprir a função de vários trabalhadores. Ele tem de sair da redação, muitas vezes dirigindo ele mesmo o carro,  buscar a informação, anotar, fotografar, postar no blog, tratar a foto,  mandar a foto para o editor do impresso, redigir a matéria, postar a matéria nas plataformas - várias. Muitas vezes, durante uma cobertura de rua, por exemplo, é comum ver o mesmo profissional fotografar e imediatamente postar nos blogs do veículo, carregando máquina fotográfica e computador, em uma azáfama desumana de trabalho. Na verdade, um único trabalhador está cumprindo a função de vários profissionais – pelo menos nove funções diferentes – e recebendo como um. Imaginem então, quanto o patrão não lucra com esse único trabalhador...

Esse é um exemplo completo do que Ruy Mauro Marini, um teórico brasileiro da maior importância, conceituou como superexploração, um modo de existir do sistema capitalista que é típico dos países subdesenvolvidos.

Hoje, em Santa Catarina, os trabalhadores jornalistas vivem mais um processo de busca de melhoria salarial. Os donos das empresas sequer querem negociar, apesar de registrarem lucros astronômicos, justamente por serem capazes de tanta exploração.  No ano passado, os hipócritas que dominam os meios concederam um aumento de 10 reais. Um acinte, uma provocação. Mas, os trabalhadores que só têm sua força de trabalho para vender, que não têm as condições de eles mesmos criarem uma agência de notícias, ou abrirem um canal de televisão, não têm o que fazer. Aceitam, porque precisam continuar vivendo.

Só que rebaixar salário não é suficiente para os barões da mídia. Eles ainda enxugam as redações, demitem pessoas e exigem que os que ficam trabalhem mais e mais. Até o esgotamento. Na verdade, os que produzem as notícias que cada pessoa vê ou lê, são como os escravos nas galés. Obrigados a remar até a exaustão, golpeados, chicoteados. E quando caem, são substituídos por outro, sem dó nem piedade. Lembrem: o capital não tem moral. Pouco importam as gentes.

Agora, com a alardeada crise na economia, é isso que acontece. Incapazes de perder um centavo nos lucros, os patrões cortam na carne daquele que não tem os meios para garantir a vida: o trabalhador. Se formos buscar nos balancetes das empresas, as contas estarão equilibradas e os lucros possivelmente crescendo. Para os capitalistas não existe crise. Existe rearranjo. A crise estoura é na vida do trabalhador. Ele perde o emprego, tem o valor da tarifa do ônibus aumentada, fica sem posto de saúde, sem educação. Vai perdendo vida. Mas, ninguém se importa. A mercadoria estará ali, pronta para a venda, sem que quase ninguém saiba o sacrifício daqueles que a produziram.

Na lógica da alienação, nem mesmo o próprio jornalista que produz a notícia se dá conta de todo o processo de exploração que está ali embutido naquela notícia. Um processo que não começa com ele, mas que envolve uma cadeia de outros milhares de trabalhadores e trabalhadoras que plantaram árvores, que as colheram, que produziram o papel, que extraíram os minerais que compõe os computadores e assim, sucessivamente. Numa simples notícia de jornal está condensada uma massa tão grande de valor que só é possível por conta do sacrifício de milhares de pessoas, exploradas até o talo.

Diante disso, que fazer? A primeira coisa é entender o processo de produção. Não perder de vista que o produto do nosso trabalho é fruto dessa cadeia de outros trabalhos, que se faz num processo de superexploração, que nos mata lentamente para que outros possam viver à larga, na abundância. A segunda coisa é se organizar, nos sindicatos, nos movimentos de luta, nos coletivos. Afinal, diante da força do capital – que detém não apenas os meios de produção, mas o Estado e as forças de repressão – as saídas só podem ser coletivas.

No caso dos jornalistas de Santa Catarina, sem poder de fogo o sindicato precisou apelar para o dissídio, que significa deixar na mão da justiça a decisão sobre o reajuste de salário. Mas, se a justiça é parte do estado e mancomunada com a classe dominante, que se pode esperar dela? No máximo, dará uma sentença de reposição da inflação, seguindo a regra da PEC 241 que para os trabalhadores praticamente sempre existiu. Nada mais se pode esperar desse espaço de gente ultra bem remunerada justamente para servir aos interesses dos  que dominam.

Então, estamos de volta ao começo. Só a luta coletiva muda a vida. Sair do torpor que a superexploração imprime, conhecer o processos de produção, des/alienar e lutar coletivamente. O sindicato sozinho não tem força para dobrar o patrão. Ele precisa da presença do trabalhador e da força de luta de cada um e cada uma.

Riscos? Sim, todos! Mas, como diria José Martí, antes morrer de pé do que viver ajoelhado.


quarta-feira, 19 de outubro de 2016

"Fuditruqui", ou o fim da convivialidade



























O velho bar Assim-Assado sendo demolido

O bar era um lugar de encontros



No espaço de convivência havia espaço para os Centros Acadêmicos - aqui, uma hora feliz no CALE


Na universidade a gente não deixa de surpreender. Há quatro anos o Centro Sócio-Econômico destruiu um espaço de convivência no qual ficavam o bar e os centros acadêmicos. Ali, a vida fervilhava. Primeiro porque abrigava os espaços de luta dos estudantes e eles circulavam sem parar, conspirando, debatendo, tramando. E, em segundo lugar, porque era o espaço do encontro de todas as gentes: estudantes, técnicos, professores e visitantes.

As mesinhas vermelhas enchiam-se na hora do intervalo. As pessoas conversavam, comiam, traçavam plano, se conheciam. Lugar para se estar e ficar. Lugar para se demorar, no cara-a-cara com a vida e com as pessoas. Convivência real.

Quando o prédio caiu, ficou a expectativa de que no lugar dele – onde surgiria o prédio da pós-graduação – também renasceria o velho espaço da convivência, porém mais bonito e mais acolhedor. Engano. O prédio se ergueu sem planejamento nenhum para o encontro das gentes. Só as salas frias de aula e administrativas. Gente tem de trabalhar e estudar. Que coisa é essa de se encontrar? Perigoso, talvez!

Eu esperei a revolução. Como podia os estudantes ficarem sem lugar para sua organização? Sem salas do Centro Acadêmico, sem espaço de convivência, a única reação possível era a rebeldia. Pois não veio. Passaram-se os anos e eu segui sozinha numa cruzada por um centro de convivência. Nada.
O tempo passou e os estudantes foram se adequando ao cenário de comer rapidamente, na porta do centro, os lanches que alguns vendedores decidiram trazer. Os poucos minutos em que se engole a comida não servem para o encontro. É só a manutenção da vida.

Agora, poucos dias antes da eleição para diretor de centro anuncia-se a colocação de um carrinho de comida, desses do tipo estadunidense, os chamados “fuditruqui”, que já contém no nome a natureza da sua qualidade.

Quem conhece um pouco das terras do norte sabe que, lá, é bastante comum os trabalhadores não almoçarem. Eles comem um lanche rápido, um cachorro-quente, um hambúrguer, coisa assim. E o fazem na beira do carrinho, em pé, sem muita mastigação, porque, afinal “time is money”  e a roda da fortuna não pode parar. Pois é isso que os dirigentes da universidade parecem querer para todos nós. Nada de encontros, nada de junção de gente, nada de ficar conversando, fruindo a beleza da vida. Rápido, rápido, comer rápido e voltar. Não é sem razão que os lugares de convivência estão morrendo em toda UFSC. Até mesmo o velho e pungente Centro de Convivência hoje é um lugar vazio de vida. Time is money, aqui também....

Alguém vai dizer que a gente é sempre do contra, que um carrinho de “fuditruqui” é bem legal, que isso não impede a convivialidade, e tudo mais. E eu então digo, leiam Milton Santos. O espaço interfere radicalmente no modo de vida. A organização do espaço organiza as gentes. Tudo está ligado.

Dito isso, insisto: quero de volta o lugar do encontro.  Que dizem os candidatos??? Que fazem os estudantes? Qual a atitude dos professores e técnicos?


A minha é clara: espaço de fruição e de luta é necessário e urgente. Vamos lutar por isso, companheirada. 

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Minuano e Tormenta

























Vivi até os 16 anos em São Borja, fronteira com a Argentina, na pampa, região de descampado. Espaço de muitos conflitos, ora de espanhóis, ora de portugueses, sempre de guaranis, charruas, minuanos e tapes. Banda oriental, terra de Manuel Artigas, el caciquillo, grande guerreiro charrua.

Além da geografia – campo aberto, sem morros ou montanhas – dois recorrentes fenômenos naturais forjam as gentes do lugar: o vento minuano e as tormentas. Quem passa por isso pode enfrentar o que mais vier nessa vida. Assim dizem os mais velhos.

O minuano é um vento forte e gelado que vem das zonas polares. É cortante, enregela ossos e alma. Quando ele sopra poucos se encorajam sair de casa. Eu não. Ainda menina, gostava de colocar o brinco de argola, sem qualquer proteção na cabeça, e andar pelas ruas vazias, afrontando sua força. O vendo assoviava, passando pelo brinco, fazendo um som de choro, um lamento, alguma coisa muito triste. Mas, ao mesmo tempo, aquele zunido me aparecia como um desafio. Avançar pelos caminhos, de cara para o vento, sozinha, era meu jeito de festejar a chegada do frio.

A “tormenta” é outro fenômeno que também forja nosso espírito. Chuva forte, vento louco, raios e trovões assustadores. Quando ela vinha todos se abrigavam nas casas, acendendo ramos bentos, fazendo ladainhas para Santa Bárbara. Minha mãe cobria todos os espelhos da casa, desligava os eletrodomésticos e fechava as cortinas. Mas, eu, não me abatia pelo medo e gostava de apreciar o espetáculo. Corria para a janela e espiava o tropel da natureza, passando em desenfreada carreira, arrastando coisas e gentes. A força incomum da Pachamama, mostrando que nada pode detê-la, muito menos a arrogância humana. Tempo de aprender que o planeta tem de ser espaço de convivência e não de destruição.

Quando tudo parava, as gentes saiam pelas ruas, olhos postos na destruição, ajudando os vizinhos que tinham tido as casas destelhadas ou derrubadas. Um mutirão de solidariedade em meio à devastação.

Essas eram cenas que se repetiam, ano a ano. O minuano no inverno, as tormentas no verão. Duas estações de embates, quando enfrentávamos o destino de viver na pampa, nos construindo como fortalezas. E, no meio disso, a alegria de viver, de resistir, de renascer. Força e sensibilidade.

Talvez por isso o Campeche me tome assim, por inteira. Aqui voeja o vento sul, esse malino, que arranca as roupas do varal, descabela e destelha. E chega de chofre, em qualquer estação. Para mim, filha do minuano, ele é só uma brisa. E me enredo na sua dança louca, tal qual fazia nos caminhos de São Borja, com o vento assoviando nas orelhas.

Agora, por tantas alterações que fazemos com a natureza, já chegam por aqui também as tempestades, como ontem. Raios, trovões e ventania. Mas nada que se compare ao tropel da tormenta fronteiriça. Por isso, espio da janela, sem nem acender ramos bentos. Enquanto a chuva bate com força, eu chimarreio e penso que a tormenta, a tormenta mesmo, aquela, da pampa, vive é em mim. E, tal como na fronteira, aparece assim, sazonal, poderosa e arrebatadora.

É bom que se tema. É bom que se tema! E para essas há que clamar à Santa Bárbara. 


sexta-feira, 14 de outubro de 2016

Da amizade...



























Outro dia ouvia de uma amiga sobre as dores dos amores que passam. Dizia ela: “De repente aquela pessoa que era unha e carne, vai sumindo. Encontrou outro trabalho, outras pessoas, outros sonhos. Então, um dia, desaparece. Nunca mais a vimos, nem sequer recebemos uma mensagem na caixa do face. Sumiu. E fica aquele vazio, a sensação de que a amizade não foi forte o suficiente para se manter”.

Vi a dor naquele olhar, e não redargui. Só havia que abraçar bem apertadinho e aquecer o coração que doía por um esquecimento, uma amizade perdida.

Mas, cá com meus botões, me ponho a pensar. Não sei. Penso que amor não é coisa que some. Se sumiu, não era. Então, não há mesmo porque chorar ou ficar triste. Toca para frente. A vida é mais.

Eu mesmo tenho duas amigas que passeiam pela minha vida há 30 anos. As conheço desde o tempo de faculdade. Uma, encontrei na sala de aula, bem na porta, no primeiro dia. Cabelo enroladinho, óculos de fundo de garrafa, roupa de hippie. Era quase eu. E a outra chegou meses depois, pela mão de um colega de apartamento. O namoro com ele não vingou, mas a amizade comigo, sim.

Nessas três décadas já vivenciamos muitas coisas, inclusive longas distâncias. Cada uma criou seu mundo, outro círculo de amizade. E o que fomos nunca se perdeu. Já brigamos muito, ficamos sem nos falar, acumulamos mágoas e outras coisas ruins. Mas, o amor sempre prevaleceu. É verdadeiro. Vai superando...

Uma delas tem a incrível mania de me ligar toda vez que está feliz. O que é coisa rara. Compartilha cada pequena alegria e gosta de saber das coisas boas que vivo. Algo único. Coisa que me revigora.

Com elas aprendi que a amizade é, como amor, um compromisso. Não tem nada a ver com sentimento. É aquela certeza de que a vida que escolhemos para andar conosco é como um cristal. Tem de ser cuidada, para que não se quebre e não se perca. É estar por perto, mesmo longe. É compreender o silêncio, vibrar com a alegria, sentir a mesma dor. E, caso quebre, juntar os caquinho e colar, com dedicada atenção. Não voltará a ser fulgurante, mas não deixará de ser o que é.

Amizade mesmo não some por se misturar a outras vidas. Pelo contrário, se fortalece. Porque na relação com seres diferentes de nós vamos crescendo, mudando, ficando melhores, e esse processo só tem sentido se compartilhado com aqueles e aquelas as quais escolhemos amar.

Por isso, quando alguém se perde, há que deixar ir. Não houve liga, não houve amor. A estrada humana é cheia de belezas. Não há o que temer.