sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Cidade sem lei: o show acontece, mas a luta continua!


O filósofo Enrique Dussel tem uma definição de “comunidade” que é sempre bom a gente lembrar. Ele entende que quando se fala essa palavra não se está querendo dizer todas as pessoas de um determinado espaço geográfico, mas sim aquelas que num espaço geográfico participam ativamente da vida deste lugar. É por isso que - neste episódio envolvendo o show do Ben Harper/prefeitura/ Skol - quando se fala em comunidades do sul da ilha há que se ter bem claro que estamos falando das gentes que, vivendo no sul, se encontram, se mobilizam e atuam propositivamente dentro destes espaços, seja nas lutas pela infra-estrutura ou nas lutas macro-políticas como as da construção do Plano Diretor.

Assim, durante toda a última semana a comunidade organizada do sul da ilha esteve envolvida com a discussão da realização do mega-show do Ben Harper na praia do Campeche. Entendiam as entidades que toda a questão havia sido mal conduzida. A Skol realizou uma campanha via internet, sem consultar qualquer órgão público da cidade. Não houve articulação com a comunidade e muito menos foram seguidos os trâmites legais para a realização de um evento desta natureza. E aí é bom que se diga. O lugar onde agora será realizado o show é particular sim, mas este não era o local original do evento. Era a praia e a área de preservação permanente, espaços públicos e de proteção. Foi a luta da comunidade que acabou forçando a Skol e o proprietário do bar onde será feito o show a buscarem a legalização do evento.

Durante a queda de braço entre os grandes empreendimentos e a comunidade organizada do sul da ilha muita coisa foi dita. Nem vou falar das barbaridades da imprensa – principalmente o grupo RBS – porque todos sabem quais são os interesses desta gente. Seu negócio é o lucro. Não importa que para isso seja preciso destruir o modo de vida de toda uma comunidade. Mas, dentre as declarações, a que mais causou estupor foi a do proprietário do “Point do Riozinho”, o bar onde será realizado o show. Ele disse, num programa de rádio da CBN, que estava fazendo um bem para o Campeche e que as pessoas que estavam contra o show apenas defendiam interesses particulares. Ou seja, ele inverteu o assunto. A comunidade que desde há anos luta para manter seu modo de vida diante dos ataques do capitalismo e do progresso a qualquer preço foi acusada de defender “interesses pessoais”. E ele, um empresário que só visa o próprio lucro foi saudado como o benfeitor do bairro. Inversão total de valores.

Dois pesos e duas medidas

O presidente da Amocam, Ataíde Silva, lembra que o bar “Point do Riozinho” legalmente está na mesma situação que estava o Bar do Chico, recentemente derrubado pela prefeitura com o aval do “verde” Gerson Basso. Ou seja, o bar está localizado nos 33 metros da área de marinha, exatamente como estava o Bar do Chico. E só funciona porque a associação comunitária conseguiu garantir um ajustamento de conduta para que o empreendimento pudesse continuar por ali, exatamente como iria ser feito com o bar do Chico. Mas, o bar do Chico significava a preservação de um Campeche diferente, de vida simples, de natureza preservada, de eventos populares, de preservação da cultura local, de política, de luta comunitária. Por isso foi ao chão. Já o Point do Riozinho é a representação de um outro modo de vida, do consumo, do mega-show, da mercantilização da praia, da natureza tornada objeto de consumo, da festa privatista. É por isso que a comunidade se levantou em luta. Porque as gentes organizadas não querem isso para o Campeche nem para o sul da ilha.

Mas, a prefeitura mostrou muito bem qual é o seu plano para o sul. Desde o ano passado que pipocam por todas as comunidades os grandes empreendimentos imobiliários. Esgotados os recursos do norte da ilha, os abutres agora voejam pela região do sul da ilha. Como uma nuvem de gafanhotos as empreiteiras estão devastando as áreas e fincando prédios, sem qualquer preocupação com o ambiente ou com a sustentabilidade. O comportamento da municipalidade diante da investida da Skol mostra bem o quanto as comunidades estão desprotegidas. Sem qualquer respeito pela decisão da gente organizada do sul da ilha, a prefeitura, na pessoa do vice-prefeito João Batista Nunes, passou por cima de todas as regras para garantir que a Skol realizasse o show na praia do Campeche.

Para se ter uma idéia, se a comunidade desejasse fazer uma quermesse numa rua qualquer, ela teria de encaminhar uma série de ofícios, para uma série de órgãos, respeitando rigorosamente os prazos de antecipação, em torno de 20 dias. Sem isso, não há quermesse. Pois a Skol decidiu fazer um show na praia do Campeche, não consultou ninguém, não mandou ofício nenhum e, quando a comunidade foi para a rua questionar esse fato, eles então procuraram a prefeitura, com medo de que seu evento gorasse. E a prefeitura, numa atitude servil, desconsiderou qualquer prazo, qualquer trâmite legal e liberou todas as licenças. Por quê? Porque a Skol é uma grande empresa e tem muito dinheiro para dar.

A surpresa da noite

Nesta quinta-feira, dia 3, depois de receber o aviso de que a Câmara de Vereadores havia suspendido a sessão ordinária - onde as lideranças do sul da ilha iriam manifestar sua indignação e cobrar uma posição dos vereadores diante do absurdo praticado - a comunidade decidiu realizar uma reunião no Clube Catalina, Campeche. A idéia era fazer uma avaliação de todo o movimento e discutir novas ações para forçar o governo municipal a dar sequência ao processo do plano diretor, parado depois de um golpe efetuado pela municipalidade.

Durante mais de duas horas as pessoas falaram e avaliaram a luta. No geral todos entenderam como muito positiva a retomada do debate e da ação para a consolidação do Plano Diretor construído coletivamente que enfatiza e defende uma vocação para o sul da ilha. Durante quatro anos, as comunidades, em representativas reuniões, discutiram e deliberaram: a vocação do sul não é a do mega-turismo predador como o que destruiu o norte da ilha. Este é um espaço de moradia, de vida e também de turismo, mas um turismo que respeita o modo de vida das gentes que aqui decidiram fazer sua morada. Alguns jornalistas de boca alugada insistem em ridicularizar este jeito de viver, mas isso nada mais é do que a boa e velha pregação ideológica. Tal como dizia Marx, ideologia é o encobrimento da verdade. Assim, estes sacerdotes do capital jogam para a cidade a idéia de quem que está em luta são apenas “gatos pingados”, “bolivarianos”, “hippies”, “desocupados”, ou seja, gente inútil que não quer o progresso. Eles não, são os gerentes do progresso, os vassalos do capital, os que querem o “desenvolvimento”. Ora, a única coisa que se desenvolve nesta lógica predadora é o bolso de alguns.

Pois a surpresa da noite foi a chegada do vice-prefeito João Batista Nunes quando soaram as dez badaladas. Dando uma de bom moço ele disse que foi à comunidade para informar que tudo o que havia sido reivindicado estava providenciado. Todas as licenças haviam sido dadas e o evento iria acontecer sem qualquer problema de segurança, de transtorno ou de depredação ambiental. Ainda teve o desplante de dizer que, graças ao movimento feito, a prefeitura tinha tomado conhecimento do evento e, com isso, estava podendo oferecer toda a estrutura. Algumas pessoas presentes à reunião se indignaram e perguntaram: como a Skol havia conseguido as licenças num prazo recorde de quatro dias? Ele não respondeu. Mas disse que a cidade não poderia dizer não a um evento como esse. Ou seja, declarou em alto e bom tom que a prefeitura é refém desta gente. Depois, ainda não satisfeito com todas as críticas colocadas pela comunidade ele informou que a prefeitura iria liberar a realização do mesmo show também no domingo “para atender aos que ficaram de fora”, mas que este seria realizado no norte da ilha. “Houve muita expectativa”, afirmou. De novo, o absurdo. A Skol criou a expectativa de um show para milhares e agora estava em apuros. Aí, a prefeitura de Florianópolis vem e a salva.

“Estou aqui para dialogar”, disse Nunes. No que foi rebatido veementemente pelas pessoas presentes na reunião. Não era um diálogo. Tudo estava cumprido. A Skol comandou a ação da prefeitura, a Skol deu as cartas. A comunidade não foi ouvida nem respeitada. O interesse que prevaleceu foi o da empresa de cerveja. Ela burlou todas as normas, todas as regras, todas as leis. E ainda foi “ajudada”. Que mais pode ser dito sobre esta questão? Cada um que tire suas conclusões.

O fato é que a comunidade do sul da ilha vai seguir lutando. Segunda-feira, dia 07, estará outra vez na Câmara de Vereadores cobrando dos nobres edis o cumprimento das leis. Afinal, não estamos no velho oeste, onde a força estava na quantidade das balas das armas dos bandidos. Ou estamos?


quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Comunicação Popular tem novidades em Santa Catarina



O ano de 2011 começa com novidades para a Rede Popular Catarinense de Comunicação, uma articulação de entidades de comunicação popular que busca divulgar aquilo que a mídia comercial não dá importância, como por exemplo, as lutas populares, a cultura nativa e as experiências exitosas do povo organizado. A Agência de Notícias do Contestado (www.agecon.org.br), com sede na cidade de Fraiburgo, já retomou as atividades e está com seu sítio cheio de novidades, inclusive um Rádio Web, que agora também toca notícias. É a concretização de um antigo desejo, fruto de muita luta do pessoal do meio-oeste.


O portal Desacato (www.desacato.info) , que conta com artigos de toda a América Latina, discutindo os temas mais importantes do momento, também já está a todo o vapor e apresenta uma novidade muito importante para o grupo da Pobres e Nojentas(www.pobresenojentas.blogspot.com) . A partir de um trabalho dedicado feito por Rosângela Bion e Wilmi Frantz, finalmente a revista, que nasceu em maio de 2006, agora está disponível em todas as suas antigas edições na rede mundial de computadores.


Assim, quem nunca conseguiu comprar uma “pobrecita”, agora pode vê-la em todo seu esplendor, em PDF, desde o primeiro número (http://desacato.info/pobres-e-nojentas) . Esse era um desejo antigo das Pobres, mas que, por insuficiência tecnológica só pode se fazer realidade com a perseverante insistência do companheiro Raul Fitipaldi, editor do Desacato.


Essas novidades e trabalhos coletivos que vão se tecendo na solidariedade são os nós, seguros e ternos, que constroem a proposta de rede nascida lá na acolhedora Fraiburgo. Todos os dias, companheiros e companheiras, separados geograficamente, mas unidos no desejo de bem informar, preparam esse mosaico de histórias que apresentam ao mundo, certos de que só a cooperação e a unidade podem produzir os frutos suculentos da sociedade que sonhamos.


Convidamos então, a toda gente, para que acessem o sítio da Rede (www.redepopularcatarinensedecomunicacao.blogspot.com) e lá conheçam cada uma destas bonitas experiências de soberania comunicacional. O Estado de Santa Catarina vai se mostrando assim, na comunhão destas propostas que decidiram andar pelo caminho da solidariedade concreta.


quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Sul da ilha se manifesta na Câmara de Vereadores


















Fotos: Rubens Lopes

Primeiro dia de trabalho na Câmara de Vereadores da cidade de Florianópolis e os representantes de diversas entidades do sul da ilha de Santa Catarina (Florianópolis) fizeram ouvir sua palavra. Munidos de faixas e cartazes eles ocuparam a galeria e entregaram um documento a cada um dos vereadores. Neste documento estão colocados todos os problemas que o sul enfrenta com o crescimento desmedido, construções irregulares, desperdício de água potável, mega empreendimentos e eventos grandiosos que não encontram estrutura, uma vez que o bairro é eminentemente residencial.

O ponto que detonou mais uma jornada de luta no sul foi a realização de um mega show patrocinado, promovido e organizado pela empresa Skol, sem qualquer contato com a comunidade do Campeche ou com a prefeitura municipal. Mas, a despeito disso, todo o sul da ilha vem lutando desde há mais de quatro anos quando iniciou mais um processo de construção do Plano Diretor, chamado de participativo, que terminou abruptamente porque a prefeitura decidiu contratar uma empresa de fora de Florianópolis para esboçar um plano para a cidade.

No documento entregue para os vereadores, as entidades do sul da ilha exigem que a Câmara estabeleça uma moratória na liberação de licenças para construções na cidade até que seja definido de uma vez por todas o Plano Diretor. É também uma maneira de retomar a luta por este plano que foi cuidadosamente construído por toda a cidade e que acabou preterido pelo governo de Dário Berger.

O show do Ben Harper é, na visão das lideranças comunitárias, apenas mais um braço da ocupação irregular e desordenada que está sendo promovida no sul por mega empreendedores que, pela força do dinheiro, conseguem quebrar leis e definir alteração de zoneamento. As comunidades que constituem todo o sul da ilha estão na defesa do seu modo de vida que é a vida simples e com qualidade. Ninguém por ali quer se transformar num balneário aos moldes de Canasvieiras ou outros espaços do norte da ilha que hoje sofrem com empreendimentos mal planejados e invasivos. A idéia da realização de eventos grandiosos é uma tentativa de apresentar para a comunidade uma realidade de turismo que aparentemente pode gerar um lucro aqui e ali, mas que no futuro mostrará sua verdadeira cara destrutiva e predadora.

As entidades que foram se manifestar na Câmara de Vereadores, que vão desde o Mosal, movimento do sul da ilha que defende um saneamento descentralizado, até associações de moradores, dos pescadores, surfistas, rádio comunitária, biblioteca livre e outras, além de muitos moradores decididos a lutar pela manutenção da comunidade como um lugar para morar e viver. Todos os manifestantes acreditam que com a moratória, a Câmara de Vereadores abrirá espaço para a discussão do Plano Diretor e aí será hora de outra luta, a que definirá o projeto de organização da cidade. Para quem está na luta desde há anos, como é o caso da comunidade do Campeche – que inclusive foi a primeira a desenhar um plano diretor há mais de 20 anos - é hora de cada morador de Florianópolis se mobilizar e lutar para que o Plano Diretor seja aquele que foi discutido de forma coletiva pelas comunidades e não um , imposto e alienígena.

A luta dos moradores do sul deve continuar. Nesta semana eles voltam a Câmara de Vereadores para cobrar dos vereadores uma resposta ao documento e esperam ainda que a prefeitura não permita a realização do mega show previsto para sábado. “Não há estrutura viária, não há segurança, nem para a comunidade nem para quem vem assistir ao show. Nós vamos cobrar responsabilidades” diz Ataíde Silva, presidente da Associação de Moradores do Campeche. “Cuidar da cidade é também discutir ética. A população tem de estar ciente disso. Quem vem de fora se diverte, mas a comunidade sofre ” , diz Gert Shinke, do Mosal.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Protesto do sul da ilha


Moradores e entidades populares do Campeche e do sul da ilha realizam hoje, às 19h, ato de protesto na Câmara de Vereadores. Entregam documento aos vereadores exigindo a moratória na liberação de licenças para construções enquanto não houver um Plano Diretor deliberado pela cidade organizada. Também querem uma posição da instituição quanto ao mega-show programado para a praia do Campeche, no ponto onde deságuam os rios Noca e Rafael.

Segundo o presidente da Associação dos Moradores do Campeche (Amocam), Ataíde Silva, até ontem (dia 31 de janeiro) não havia alvará de licença de vários órgãos ambientais e municipais. Tampouco há qualquer organização da segurança e de saneamento. O mega show pretende trazer para a comunidade – que é eminentemente residencial – milhares de pessoas. Os moradores entendem que não há estrutura para suportar um evento desta grandeza e temem, tanto pelos que devem participar do evento, quanto pela própria comunidade.

Em reunião realizada ontem à noite, as entidades decidiram encaminhar um documento aos vereadores que iniciam hoje seu trabalho e pretendem sensibilizá-los para os mais variados problemas que a comunidade enfrenta atualmente. Entre eles estão a invasão das dunas, as construções irregulares, a destruição da área de preservação permanente e do lençol freático.

Os manifestantes também deverão encontrar-se com o Secretário de Turismo, Márcio de Souza. A mobilização de moradores e entidades populares se concentra nas escadarias da Catedral a partir das 18h.


sábado, 29 de janeiro de 2011

Essa América Central...

Quem já caminhou pelas veredas de nuestra América Central sabe bem o que é La Guagua (ônibus colorido e animado, cheio de música) e quais os desafios políticos das gentes... Juan Luis Guerra traz o sabor, a beleza e as dores da linda República Dominicana.


A vida em La Boca


Manhã de janeiro em Buenos Aires. Hora de visitar “La Boca”, conhecido bairro do sul da capital, famoso pelo seu time de futebol, o Boca Junior, por suas ruelas coloridas e o tango, triste e sensual, tocado e dançado na rua. Mas, ao chegar ao pequeno e espartano terminal de ônibus o que chama a atenção é um modesto complexo de prédios que abriga a escola, um museu e um teatro. Apesar do vibrante murmúrio que vem do “caminito” a placa que indica o museu de Belas Artes é mais forte e lá vou eu descobrir o mistério das cores e da comunidade.

O minúsculo saguão de entrada do museu está cheio de crianças que protagonizam uma deliciosa algaravia. Dezenas delas, acompanhadas de seus “maestros” – num projeto da escola que busca levar cultura aos alunos em tempos de férias - se preparam para viajar no mundo da pintura de um dos mais importantes filhos de La Boca: o pintor Benito Quinquela. Ali, naquele museu, doado por ele à comunidade (assim como a escola e o museu), estão expostas algumas das suas mais famosas obras, além de outras de conhecidos artistas nacionais. Mas, as crianças estão atraídas mesmo é pela figura de Benito, a quem a comunidade reverencia com amor extremo. É nas salas onde estão os seus móveis pessoais e objetos de pintura que a gurizada se demora, sonhando talvez em seguir os passos do filho ilustre daquele lugar.

Benito Quinquela é um dos grandes da arte argentina. E cresceu bem ali, na boca do rio da Prata, espaço do porto e da vida atribulada dos homens do mar. Sua pintura conta desta realidade local e se mostra com toda a força operária daqueles que cotidianamente viviam as agruras do trabalho marítimo. Seu tema sempre foi o trabalho, o bairro e a gente. Por toda a vida ele imortalizou La Boca, o seu ninho, seu lugar de arribação, mesmo depois de ter experimentado a glória nos salões de Paris e Nova Iorque. Era para a boca do rio que sempre voltava, carregado de cores e memórias únicas. “Dizem que os barcos que eu pinto existem em todos os lugares do mundo – é um erro – quando eles chegam à Boca, eles se transformam...”

A história do pintor é revestida de poesia. Chegou ao porto num 20 de março do ano de 1890. Fora abandonado num orfanato local e nunca soube quem era sua mãe. Ali viveu, junto às irmãs de caridade, por seis anos. Contam que nunca foi um garoto triste, pelo contrário, era alegre e prestativo. Quando estava para completar sete anos foi adotado por uma família simples, moradora do bairro. O pai, Manuel, era um italiano forte, trabalhador do porto e a mãe, Justina, era mulher de sangue indígena, oriunda de Gualeguaychu. Donos de uma carvoaria, os dois procuravam uma criança que lhes enchesse a vida de alegria e ajudasse no trabalho.

E assim o pequeno Benito iniciou sua vida pelas ruelas do bairro portuário. Conhecia como ninguém a vida frenética do estaleiro, dos trabalhadores do mar, das mulheres. Seu trabalho era andar de barco em barco, com uma bolsa vazia, enchendo-a de carvão. Manejava a funda com maestria e era conhecido por sua velocidade nas correrias do porto. Magricelo e serelepe era chamado de “mosquito” pelos trabalhadores que o viam passar voando com a bolsa cheia e pesada. Também ainda menino, morando na rua onde se concentravam os sindicalistas e socialistas, começou sua militância política, no início do século XX, sempre ao lado das lutas dos trabalhadores.

Considerando o trabalho que fazia, não foi por acaso que o carvão acabou sendo seu primeiro “pincel”. Entre uma correria e outra ele descansava desenhando as cenas que via no porto em pedaços de papelão e quando já contava com 14 anos iniciou um curso de pintura numa escolinha do bairro que oferecia este tipo de curso aos filhos dos trabalhadores. Desde aí, as cores começaram a se sobrepor ao carvão e o pintor nunca mais parou de crescer. Marcou-lhe a vida um texto de Rodin que leu enquanto estudava arte, o qual dizia: “pinta a tua aldeia e pintarás o mundo”. E assim foi. Com 20 anos apresentou sua primeira exposição e anos mais tarde ajudou a organizar o Salão dos Recusados, espaço de mostra daqueles artistas que não encontravam espaço nas “panelinhas” da arte nacional. Desde aí, a pintura do garotinho do porto de La Boca percorreria o mundo. Dez anos depois, tendo já visitado e exposto em vários países Quinquela voltou para La Boca, onde comprou uma casa para os pais e ali seguiu vivendo, prometendo-lhes que agora eles estariam a seu cargo.

La Boca havia acolhido Benito quando ele ali chegara, abandonado. Por isso, o pintor fez questão de retribuir todo o amor que a comunidade lhe deu. Tão logo ganhou dinheiro com a sua pintura preocupou-se em dar ao bairro espaços onde as crianças pudessem crescer na cultura e na beleza. Foi assim que ele comprou os prédios onde hoje estão a escola, o teatro e agora, o museu. Dali nunca saiu, a não ser para sua exposições e compromissos internacionais. La Boca era o seu lar.

Débora Seitter, cuidadora do museu, conta que foi Benito quem começou essa mania por cores na região de La Boca. “Quando ele trabalhava na carvoaria, ele levava carvão de graça para os navios e pedia em troca latas de tinta coloridas, as quais entregava aos vizinhos para que pintassem as casas, que eram simples e humildes”. Hoje, o “caminito”, principal rua do bairro é, ela mesma, um museu a céu aberto, com as casas repletas das cores vibrantes que também enchem as telas de Benito.

Uma obra de força

Por sobre a gritaria da criançada que visita o museu se impõe o som poderoso do piano. Diante de uma das telas mais belas do pintor – Crepúsculo - uma mulher faz ecoar uma música que é ao mesmo tempo terna e dura. Impossível não se deixar ficar ali, tomada pela emoção. É algo assim como a representação musical daqueles quadros que parecem adquirir vida na parede. As telas imensas reproduzem a vertiginosa existência do bairro portuário e popular. Há barcos onde crescem flores, onde trabalham homens, há barcos que dormem, barcos quebrados, há homens construindo barcos, há barcos sendo descarregados, há poderosos temporais, há homens trabalhando na fundição do aço, barcos incendiados, crepúsculos com barcos ao fundo. Tudo é imenso na obra, a cor, a intensidade, o tema. O traço de Quinquela indica toda a violência exigida para a construção dos barcos e ao mesmo tempo expressa a humanização da máquina e das grandes forças que a produzem. É arrebatador!

O museu tem três andares de obras de arte. Num deles está também coleção de máscaras de proa de barcos, recolhidas por Benito ao longo da vida. Estas ponteiras eram representações de deuses ou mitos, metade homens, metade bicho, figuras de mulheres ou mesmo santos que eram usadas pelos barqueiros para proteção. Estas máscaras eram as que davam identidade às naves e muitas podiam ser identificadas ao longe só pelas ponteiras. Amealhá-las foi a maneira que Benito encontrou para sentir de forma concreta a presença daquele mundo que ele amava e que imortalizou na tela. Nos pátios do terceiro andar estão as esculturas, de vários artistas locais. E, de um mirante, bem em cima do prédio, se pode vislumbrar toda a “Boca”, e seu farfalhar de vida. Faltam os barcos e o porto, mas o colorido das casas e das gentes cimenta o louco desejo de beleza que aquele “mosquito”, gurizinho serepele, vislumbrou para o seu lugar. Hoje, nas vielas do bairro, o som do tango, do chamamé, as imagens do Che, do Maradona, da Evita e o deslumbrante mundo de cores, imortalizam a “República da Boca”, que, conforme dizia Benito, era um lugar de fronteiras pouco claras, com geografia móvel e repleta de abençoados lunáticos.

Elétrico como nos tempos de menino, ele nunca parou de inventar coisas e uma das mais belas que criou, além da sua obra, foi a conhecida “Ordem do Tornillo”, espaço de reunião dos artistas, intelectuais e loucos de toda ordem que tivessem por princípio o uso desenfreado da imaginação e da rebeldia e aos quais devia, por obrigação, faltar moderação. A estes “loucos”, ele entregava um parafuso, o que lhes faltava, para garantir que sempre lhes faltasse e eles não se tornassem gente acomodada ou sem imaginação. “A todo homem que sonha, lhe falta um parafuso. Este que lhes dou não vos tornará moderados ou cordiais. Pelo contrário, vos preservará contra a perda desta loucura luminosa, da qual se sentem orgulhosos”.

Hoje, Benito reina sobre La Boca, com sua estátua altaneira bem na entrada de onde um dia foi o porto que tanto amou. E as gentes de todo mundo se sentam nas mesas coloridas, tomando um bom vinho e ouvindo o tango. Das casinhas espiam os locais que sabem que muito daquilo tem a ver com o pintor, criado na beira daquele rio. Tudo ali é prodigioso, como a obra de Benito.

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Campeche se mobiliza contra mega-exploração


Ato de protesto contra os mega-projetos e mega-show acontece neste sábado, dia29, 10h, na Pequeno Príncipe, esquina com a rua da Capela.

O Campeche, até os anos 70 do século XX foi um pacato reduto de famílias descendentes de açorianos, dadas à pesca, à agricultura de subsistência e à criação de gado. Nos anos 20, por ser rota de passagem da iniciante aviação transcontinental, entrou para a história como lugar de pouso dos aviões que seguiam para a Argentina, tendo sido criado ali um campo de aviação. Dentro de um destes aviões vinha, amiúde, o conhecido Saint-Exupéry, autor do imortal livro “O Pequeno Príncipe”. Por conta deste visitante ilustre, que acabou criando laços com uma das famílias locais, do patriarca Deca Rafael, o bairro é cheio de alusões à vida e à obra do escritor.

Nos anos 80, com o impulso das migrações de famílias vindas do interior de SC e de outros estados, o bairro cresceu, mas ainda mantendo a vida simples e pacata, com boa parte de suas ruas de areia e praia de beleza exuberante. Sempre foi um contraponto ao norte urbanizado, reduto de turistas. Essa peculiaridade fez florescer no Campeche e arredores um forte movimento comunitário que passou a exigir da municipalidade demandas que dessem conta da manutenção deste estilo de vida na região. Foi ali que teve vez a proposta do primeiro Plano Diretor pensado diretamente pelos moradores, que definia esta região do sul como um espaço de moradia e de vivência comunitária, sem o exagero dos espigões, dos grandes empreendimentos turísticos, da exploração imobiliária e da destruição da natureza. Essa movimentação garantiu que a comunidade crescesse de forma mais lenta, vigiada de perto pelas gentes e pelos movimentos populares, alertas às tentativas de destruição. Mas, agora, na primeira década do século XXI, novas ondas de migrações, acompanhadas das ações de empreiteiros, começaram a mudar a paisagem e a vida do lugar. Empreendimentos de grande porte pipocam por todo lugar. Manipulando as leis ou mudando-as para seu benefício, nas famosas alterações de zoneamento patrocinadas por vereadores mal-havidos, são construídos grandes prédios que impactam de forma brutal a vida do bairro, desde a caótica mobilidade urbana até a falta de água. Estas questões já apareceram no novo processo de discussão do Plano Diretor vivido pela cidade há quatro anos e que acabou, abruptamente, virando em nada, com a prefeitura preterindo a proposta popular por outra formulada por um instituto privado.

Em 2010, a mídia florianopolitana, também ao sabor de gordos patrocínios, criou a fantasia de um recanto de paraíso, o chamado “riozinho”, que é um espaço na praia do Campeche onde deságua um pequeno rio local. Ali virou o ponto da temporada, com a presença de artistas globais e outros “ilustres” endinheirados. Este ano, o empreendimento que se criou ao lado do rio Rafael alugou parte das dunas – que tem sob seu poder - para a poderosa Skol, que anuncia shows de grande porte para o local. Com isso, a comunidade, retomando a luta travada desde os anos 80, tem denunciado as irregularidades e procura conscientizar os moradores para que mantenham a vigilância sobre a forma de vida que desde tempos muito remotos se decidiu empreender naquele lugar.

Desde o ano passado a comunidade observa um crescimento exacerbado que deverá provocar grandes impactos e, por conta disso, decidiu empreender novas mobilizações em defesa do seu modo de vida. Na última quarta-feira, representantes do movimento popular, que é bastante forte no Campeche, se reuniram e listaram os seguintes problemas a serem enfrentados:

1 - O processo do Plano Diretor participativo iniciado pelo prefeito Dário Berger colocou a comunidade, durante quatro anos, a pensar e organizar a vida local. Encerrado autoritariamente, abriu espaço para que os grandes empreendimentos começassem a conseguir licenças para construções de grande porte colocando em risco a sustentabilidade da região que tem um ecossistema frágil de dunas e restinga, não oferece saneamento básico, tem pouca reserva de água e sofrível mobilidade urbana, com ônibus em intervalos muito longos, além de poucas linhas em circulação. Também no que diz respeito aos caminhos que levam ao centro da cidade, a situação é muito ruim uma vez que há apenas uma saída, ocasionando infindáveis engarrafamentos.

2 – Um exemplo desta ocupação irracional é o projeto Essence, da empresa RODOBENS, que se anuncia na cidade como um lugar de sonhos. O condomínio está sendo erguido praticamente em cima das dunas. São 14 prédios de quatro pavimentos cada um, com garagem subterrânea e ático, o que configura, na verdade, seis andares. No total são 500 novos apartamentos que devem adensar a região com mais mil pessoas. A garagem do prédio, feita no subsolo, é uma armadilha perpétua, uma vez que a área onde está construída é inundável e certamente sofrerá com as chuvas torrenciais que costumam cair no verão.

3 - Dezenas de outros mega projetos estão aparecendo a cada dia, causando sérios transtornos. Um deles, próximo à praia, está há meses sugando o lençol freático, jogando água pura na rua, para conseguir secar o terreno que foi cavado para a construção de garagens subterrâneas. Nada disso parece constituir ilegalidade, mas a comunidade já não suporta mais ver o desperdício de água pura, elemento que é tão importante para a vida.

4 – A Casan iniciou no ano passado um projeto de construção da rede de esgoto, mas desde então a comunidade tem se manifestado contrária a proposta de uma rede que desemboque numa única estação de tratamento que some todo o esgoto da ilha para ser jogado, via emissário submarino, no mar do Campeche. Várias manifestações já foram realizadas e o plano diretor construído pela comunidade definiu por pequenas estações de tratamento em que parcelas da comunidade assumam a responsabilidade pelo seu esgoto, sem que seja necessário jogá-lo no mar. Essa tecnologia existe, é acessível e nada impede a municipalidade de usá-la. Mas, a prefeitura, assim como a Casan não são sensíveis aos desejos da população e seguem com seu projeto original. Esse ideia, ultrapassada e poluidora trará também graves impactos ambientais á comunidade.
5 – Não bastasse ficar surda à comunidade a Casan tem sistematicamente desrespeitado a lei ambiental construindo rede coletora sobre as dunas, onde se aglomeram algumas casas de gente rica, construídas de forma ilegal. Os canos estão desembocando na praia, também em flagrante ilegalidade.

6 – Ao mesmo tempo em que a Casan premia os endinheirados invasores das dunas, a Justiça utiliza de sua conhecida predileção pelos ricos e coloca abaixo um espaço comunitário que existia na praia desde a década de 80, reconhecido como espaço cultural e patrimônio do Campeche. O histórico Bar do Chico foi derrubado, às seis horas da manhã de um dia chuvoso, sem que a comunidade tivesse tempo para se organizar, uma vez que todas as outras tentativas haviam sido barradas pelo povo. Poucos meses depois, o empreendimento Essence, que se localiza no rumo do bar construiu um deck de madeira, ocupando o espaço do antigo bar, para seus “privilegiados” moradores. Por ação popular o deck foi derrubado, mas pode voltar.

7 – Também o direito de ir e vir e de ocupar a praia pública está cada dia mais limitado aos locais. É o caso da faixa de praia que tem início na Comunidade das Areias até o Bar Tropical, no Morro das Pedras. Em função de alterações de zoneamentos, feitas há décadas no Governo do Bulcão Vianna, os Condomínios que foram construídos ao longo de quase 2 kms de praia não respeitam a lei, a qual determina que a cada 200 metros deve haver saída para a praia. Assim, espaços públicos ganham caráter de propriedade privada, impedindo o acesso aos moradores. A rua Manoel Pedro Vieira está totalmente tomada por Condomínios, incluindo-se aí a mansão de praia do tenista Guga Kurten e o Hotel Morro das Pedras, erguidos sobre as dunas, assim como os condomínios. Isso afronta o direito de ir e vir, mas nada é feito contra esses que praticam apartheid social. A rua citada, onde está a casa do tenista, hoje conta com apenas duas saídas para a praia.

8 – As mudanças climáticas e a ação desordenada do homem, que levaram à destruição da praia da Armação, também no sul da ilha, se faz presente também no Campeche. Com as construções de luxo sobre as dunas, a paisagem muda e transforma o ritmo da natureza. Nos últimos anos, as ressacas no Campeche têm sido vorazes e várias casas, construídas irregularmente sobre as dunas, são atingidas. Alguns destes proprietários realizaram obras de enrrocamento (colocação de pedras ou cimento) na praia, visivelmente ilegais. Algumas delas, barradas posteriormente, oferecem sérios riscos aos banhistas, com pontas de ferro assomando pela areia e outras escondidas sob o mar. E para completar este cenário de completo desrespeito pela vegetação nativa, os invasores de dunas estão cobrindo-as com lonas de plástico. Estas atitudes isoladas e egoístas têm causado mudanças, inclusive com a diminuição da faixa de areia.

9 – O desrespeito ao terreno natural e aos olhos de água que abundam no Campeche leva a grandes tragédias como o alagamento sistemático de áreas com a conseqüente destruição de casas e bens. As soluções, em vez de melhorar, são cada vez mais atrapalhadas, como por exemplo a idéia de tubular o Rio Rafael, com a proposta de construir um prédio sobre ele, o que poderá ocasionar ainda mais alagamentos na região, com a água não tendo para onde escoar.

10 – Para fechar com “chave de ouro” o processo de destruição sistemática do modo de vida do Campeche, agora, com o conluio de empresários da área, sem ligação emocional ou cultural com o bairro, está sendo organizado um mega-show na praia, onde desemboca o rio Rafael, patrocinado pela Skol. Estes eventos, além de serem portas de entrada para o tráfico de drogas pesadas, mexem de forma visceral com a estrutura do bairro. O Campeche, da forma como está organizado hoje, com ruas estreitas e apenas uma avenida, não comporta um fluxo excessivo de carros. Tampouco tem condições de acomodar um estacionamento para todos os visitantes que virão para o show, além de não apresentar estrutura sanitária. Como a comunidade é tradicionalmente residencial, estes mega-eventos tendem a perturbar todo o modus vivendi do povo da região.

Por conta de todos estes pontos elencados aqui, a comunidade decidiu iniciar um processo de luta pela manutenção da qualidade de vida no bairro, fortalecendo os seguintes pontos:

1 – Exigir fiscalização rigorosa para todos estes empreendimentos que estão em andamento.2 – Realização de estudo do impacto que esse adensamento populacional pode causar para o sistema de água, esgoto e transporte.
3 – Exigir imediata aplicação da Lei Municipal buscando a abertura de acesso à Praia do Morro das Pedras em toda a Rua Manoel Pedro Vieira.
4 – Moratória imediata para a construção de novos empreendimentos até que seja definido o Plano Diretor.
5 - Suspensão do mega-show promovido pela Skol por completa incapacidade estrutural do bairro em atender a uma demanda gigante de pessoas.

Visando esclarecer a comunidade e garantir mais apoio para estas lutas, acontece neste sábado, dia 29 de janeiro, às 10h, uma manifestação e panfletagem no cruzamento entre a Pequeno Príncipe e a rua da Capela. Todos os lutadores sociais da cidade estão convidados a para participar. A luta contra os mega-investimentos não é só do Campeche. Todo sul da ilha está ameaçado. A cidade como um todo está ameaçada. “Já basta de destruição”.