domingo, 1 de maio de 2022

Os "democratas" da UFSC


Toda eleição para a reitoria é a mesma coisa. Se o resultado não interessa aos “democratas” de plantão, há uma tentativa de barrar a posse através da alegação de que o processo não respeitou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação, que exige um peso de 70% para professores e a divisão dos outros 30% entre técnicos-administrativos e estudantes. É justamente por isso que a consulta é informal. Ela acontece a partir de um acordo político e o candidato eleito é colocado numa lista que depois vai ao Conselho Universitário, onde a conformação é justamente de 70/30. Essa consulta não burla a lei e ela pode ser feito do jeito que as entidades quiserem. É a forma encontrada para garantir uma participação paritária já que não há qualquer argumento que respalde a ideia de que os professores são mais iguais que os outros. Mas, é preciso entender essa história e porque as coisas são assim. Explico.

Como nasceu a LDB

A Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) que hoje está em vigor foi aprovada em 1996, diante de um movimento social perplexo pela ação do então senador Darcy Ribeiro, que atropelando um debate democrático de anos, apresentou um substitutivo e conseguiu aprova-lo, apesar dos fortes protestos que aconteceram em todo o território nacional. Na nova lei, um dos pontos que configurou tremenda derrota para os trabalhadores foi justamente o que definiu a superioridade dos professores que diz respeito à administração das universidades. Apenas eles poderiam se candidatar à reitoria e a escolha deveria ser feita de forma indireta, pelo Conselho Universitário, respeitando uma porcentagem de 70/30. Ou seja, 70% do peso dos votos ficaria na mão dos professores, enquanto os 30% restantes seriam divididos entre técnicos e estudantes. Com essa proposta, Darcy reforçava a ideia de que os técnico-administrativos não tinham qualquer importância na vida universitária, muito menos os estudantes.

O processo de construção da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação começou logo depois da aprovação da nova Constituição, com a apresentação de um projeto que era fruto de grandes debates públicos. Durante muitos anos, com mais força em 1989, as entidades ligadas à educação haviam discutido a proposta de LDB nos seus fóruns e tinham logrado incluir muitos pontos considerados importantes e progressistas. Justamente por isso, e por não terem uma correlação de forças favorável dentro do Congresso Nacional, que essas entidades – unidas no Fórum Nacional em Defesa da Escola Pública - optaram por aceitar um consenso com os parlamentares, evitando assim confrontos que poderiam levar a perda dos avanços.

A Lei tramitou no Congresso Nacional desde 1990, passando pelas comissões e recebendo emendas. Apesar das muitas contribuições, o caráter progressista da lei foi mantido, graças ao esforço de parlamentares como Florestan Fernandes e Jorge Hage, seu primeiro relator. Quando afinal foi submetido à pauta do Congresso para votação, em 1991, o projeto tinha sido acrescentado de 1.263 emendas. A ofensiva conservadora protelou por mais tempo a votação, encaminhando o projeto de volta para as comissões. Aí aconteceram novas eleições e mudaram os deputados. Angela Amin passou a ser a relatora da Comissão de Educação no lugar de Jorge Hage. Naqueles dias chegou a surgir um projeto substitutivo proposto por um deputado que era dono de uma rede privada de escolas. Um verdadeiro retrocesso.

A reação do Fórum Nacional em Defesa Pública conseguiu reunir mais de 10 mil pessoas em Brasília e os protestos se multiplicaram por todo o país. A ação conseguiu paralisar o projeto por dois anos. Durante esse tempo novas emendas foram apresentadas e novos relatórios foram sendo produzidos, sempre pendendo para o lado conservador. Em 1992 o processo de negociação recomeçou com o debate sobre três substitutivos diferentes. O ponto central do debate era a batalha pelo fortalecimento do sistema público de educação, enquanto os conservadores buscavam privatizar. Davam-se batalhas gigantescas no interior do Congresso, com esse tema perpassando todo o processo.

Quando todas as forças atuavam no debate das propostas apresentadas, surge, de maneira completamente inusitada, um projeto substitutivo, de autoria do então senador Darcy Ribeiro. O atropelo do novo substitutivo complicou a luta que vinha sendo feita pelo Fórum Nacional de Defesa da Escola Pública, pois, como vinha do senado, teria prioridade na votação, deixando o antigo projeto – construído coletivamente à duras penas - em desvantagem. Começou então uma batalha regimental para ver qual o projeto seria colocado em votação primeiro.

A ação de Darcy Ribeiro dividiu as forças progressistas e acabou polarizando o debate em torno de dois projetos. Um que era o da Câmara – com todas as suas idas e vindas (e alguma excrecências), e outro que era o dele. A manobra realizada por Darcy Ribeiro colocou em polvorosa o movimento pela educação outra vez. Houve protestos e lutas. Mas, ainda assim, o projeto de Darcy seguiu sendo o que balizaria a discussão, e o que é pior, incorporando novas emendas feitas pelo governo, via MEC. Era a descaracterização total do trabalho coletivo e democrático que vinha sendo feito desde 1989. E assim, a LDB é aprovada em dezembro de 1996, considerando o projeto individual de Darcy Ribeiro. Foi uma grande derrota para o movimento social.

As eleições e o peso dos trabalhadores

Como havia o entendimento de que a lei aprovada era fruto de um golpe, no campo da educação a luta continuou, visando garantir mudanças que representassem novas correlações de forças que foram se formando no legislativo. De qualquer forma, os tempos neoliberais de FHC foram difíceis para a luta popular como um todo, pois havia muitas frentes para serem atacadas, entre elas a da privatização, o que levou para segundo plano algumas questões mais pontuais. Ainda assim, no âmbito dos trabalhadores das universidades esse ponto específico da LDB, que dá aos professores todos os poderes, sempre foi discutido e combatido. Tanto que em muitas instituições federais aconteceram protestos significativos contra essa ideia. Na UFSC, por exemplo, o movimento chegou a construir uma candidatura estudantil à reitoria, buscando dar visibilidade ao completo absurdo que era deixar de fora dos fóruns de decisão àqueles que são a razão de ser da universidade. No campo dos técnicos-administrativos essa tática nunca foi usada, mas o debate pelo direito de estar em igualdade de condições nos fóruns sempre se deu.

Com o processo de luta política, as universidades conseguiram criar mecanismos de consulta à comunidade – feita através de eleições diretas – organizada pelas entidades das três categorias, docentes, técnicos e estudantes. Havia o acordo de que o nome do candidato eleito de forma paritária, ou seja, com o peso do voto não configurado nos 70/30, mas dividido em igual medida entre as três categorias, seria o enviado ao MEC pelo Conselho Universitário, esse sim configurado dentro dos parâmetros do 70/30.

Essa maneira engenhosa de escapar do reacionarismo da lei acabou sendo acolhida por todas as universidades, com eventuais casos de não cumprimento do acordo. Mas, apesar desse acerto, a batalha pela mudança, na lei, dessa regra excludente e elitista seguiu seu curso. Para os trabalhadores e estudantes, não bastava garantir o direito paritário ao voto numa eleição para reitor. Havia que garantir essa paridade também nos fóruns de decisão. Espaços como o Conselho Universitário, Colegiados de Curso e Departamentos cumprem a lógica do 70/30. Ou seja, nas instâncias cotidianas de decisão da vida universitária, técnicos e estudantes seguem como seres de segunda categoria e sem qualquer possibilidade de garantir suas demandas. Mesmo em eventuais alianças entre os dois, não conseguem superar a avassaladora maioria docente.

Por conta disso, ao longo dos anos seguiram sendo apresentadas emendas à LDB visando mudar esse estado de coisa. Mas, dentro do Congresso Nacional esse tipo de demanda não caminha. Projetos mofam nas gavetas e os trabalhadores precisam garantir, na luta cotidiana, esses espaços de poder. O que não é fácil. 

Quando começou o governo do PT, em 2004, os trabalhadores acreditavam que haveria espaço e vontade política para mudar essa lei. Mas, passados 14 anos de governo as propostas apresentadas no Congresso para mudar a LDB não avançaram. Porque há, na chamada esquerda liberal, a mesma ideia que plasmou a proposta de Darcy, de que os técnico-administrativos são menos importantes na universidade, apesar de serem maioria entre os trabalhadores. Isso segue sendo uma enorme pedra na vida universitária. Mesmo que atualmente o perfil dos trabalhadores tenha mudado significativamente, boa parte dos docentes ainda acredita que devem ter mais peso nas decisões. Esse é um embate que parece não ter fim e está presente em todos os fóruns, conseguindo um acordo apenas para o processo eleitoral, já que esse é mais visível aos olhos da sociedade. 

Assim que a tentativa de golpe na decisão da comunidade universitária, agora com a eleição de Irineu Manoel de Souza e Joana dos Passos, não é nenhuma novidade. Basta que o eleito não faça parte de um determinado grupo que se acha dono da instituição, que esse argumento da ilegalidade da consulta venha à tona. Isso já foi tentado em 2015 e a justiça apontou que não há empecilhos para consultas acertadas entre as entidades. 

Assim que nesta segunda-feira, quando o Conselho se reunir, o que se espera é que os conselheiros sigam a tradição e garantam a eleição de Irineu e Joana, escolhidos por quase 60% dos votos da comunidade. Os golpistas que chorem. 

E os trabalhadores, que se movimentem e garantam de vez a mudança na lei para que isso não tenha de voltar a acontecer. A proposta de 70/30 é ultrapassada, reacionária e fora de sentido. E se vier novamente um governo do PT, que não defraude mais os trabalhadores.


terça-feira, 26 de abril de 2022

O banho


Quem cuida de velhinho com Alzheimer sabe, o banho é um momento difícil. Mas, a gente vai aprendendo. Demorei muito pra entender que o chuveiro jamais pode ser usado, eles sentem medo, um medo profundo. Então, tem de usar o chuveirinho e ir molhando devagar, desde o pezinho até chegar ao pescoço. Mas, até chegar ao box dá um eito. 

Na fase atual do pai ele está com muita dificuldade de andar, então já não consegue mais sair correndo. Eu procuro levar ele para o banheiro logo que acorda, quando ainda está meio atordoado, despertando. É só ver que ele sentou na cama, já chamo o Renato, ele o ergue e vamos levando para o box. Aí é só lavar. Ele briga um pouquinho, mas logo relaxa.

Mas, se ele desperta bem despertadinho, a coisa complica. Ele finca pé e o jeito é dar o famoso banho de gato. Eu desenvolvi uma boa técnica de limpeza, tem dado conta, mas, claro, nada substitui um bom banho bem demorado. Hoje, a parada não deu certo. Cheguei atrasada e ele já estava com toda a pilha.

- Então seu Tavares, vamos tomar um banho agora?

- Olha, no momento, não. Muito obrigado. 

Hahahahaha, depois dessa, nem pensar... Seu Tavares é homem de opinião!

quinta-feira, 14 de abril de 2022

Mestre Sérgio Weigert



Hoje eu tinha marcado gravação do programa Pensamento Crítico e armado toda a logística para o pai. Mas, chegou na hora, faltou luz. Como a cuidadora já estava a postos eu fui curtir um pouco a minha biblioteca, coisa que não tenho feito por pura falta de tempo. Fiquei entre as estantes a tarde toda, olhando meus livros, vendo o que poderia reler, quando achei meus velhos cadernos. Eu tenho mania de guardar minhas anotações de leitura em cadernos, bem como as anotações de aula. Tenho tudo do tempo da faculdade e até algumas coisas de antes. São notas as quais eu gosto de retornar, pois sempre encontro maravilhas. Além do que, os olhos não são mais os mesmos, eu não sou a mesma, então, sempre me surpreendo. 

Pois não é que dentre os cadernos achei um que eu organizei só com as notações de aula do Sérgio Weigert, meu mestre, meu amado, aquele que iluminou a minha vida com Adelmo Genro e com a filosofia. As aulas dele eram absolutamente fantásticas e a gente esperava por elas com sofreguidão. Quando ele chegava à sala a gente sabia que seria uma manhã inesquecível. O tanto que nos desafiava a ler, a conhecer, a questionar. Pois eu gostava tanto daquelas aulas que montei um caderno específico, só das aulas do Sérgio. Uma compilação das anotações esparsas que fazia nas aulas, com uma letrinha mais compreensível. 

Foi uma alegria imensa encontrar esse caderno, perdido numa das estantes. Apesar das folhas amareladas pelo tempo, as palavras ainda estão ali, e gritam, bem assim como se fosse o Sérgio a nos exortar ao desconhecido, ao abismo, a vertigem do conhecimento. Ah, aquelas aulas deslumbrantes, aqueles debates emocionantes, aquele homem singular e apaixonante, impossível esquecer. Agora estou aqui, revendo cada página, emocionada, feliz. O Rubens Alves dizia que o que a memória amou, fica eterno, não precisa anotar. Relendo as notas eu vejo que ele tem razão. Não há ali nada de extraordinário. São coisas que posso encontrar nos livros, na internet. 

Mas, o que ficou eterno foi a forma como tudo aquilo foi passado, aquela paixão pelo conhecimento que ele derramava em nós. Ainda assim vou agora começar a compilar as notas para um arquivo de computador, só para re/cordar, passar de novo pelo coração. Modernizando as lembranças do Sérgio, que é meu mestre, que segue presente em cada texto que escrevo. Porque ele abriu as veredas necessárias em mim, e por elas eu caminho, sem medo de errar. À bênção meu amado!... Obrigada por tanto…

quarta-feira, 13 de abril de 2022

Ouvir os velhos



É muito comum como as pessoas mais novas evitarem o convívio com os velhos. Como eles já não fazem mais parte do mundo produtivo, deixa de ser alvo de interesse. Não são úteis, não tem nada a dizer, já eram, estorvam. Mesmo aqueles que criaram coisas incríveis quando estavam na ativa, ou que protagonizaram lutas, ou que foram importantes em alguma medida para a história do seu lugar, sendo escanteados sistematicamente. Os mais jovens sempre acreditam que o mundo começou com eles.

Tive o sorte de, desde menina, ter convívio com velhos. Dos meus avós foram sempre a espremer histórias, queria saber tudo, do passado, da família. Depois comecei a me voluntariar para ajudar nos asilos de São Vicente de Paula, indo visitar, conversar, limpar os velhinhos. E sempre notei que uma boa prosa era o que mais alegrava cada um deles. Eles gostavam e eu também.

Adulta, passei um tempo morando com meu vó, e também era eu que todos os anos fez a longa travessia Rio Grande do Sul/ Minas Gerais com ela para que ela pudesse ficar um tempo com a filha, minha mãe. Assim que adquiriu esse hábito de sempre levar em consideração os velhos e lhes dar muita atenção. Longas conversas sempre estaram no menu, foram em casa ou nas intermináveis horas no ônibus.

Agora com o pai morando comigo, retomei essa prática. Nos primeiros anos do Alzheimer ele ainda se lembra de coisas, e eu ia puxando. Passados quase oito anos de que ele desenvolveu a doença já não consegue se lembrar de quase nada. Suas frases são desconexas e às vezes nem consegue pronunciar bem as palavras. Ainda assim temos longas prosas. Ele sentadinho na sua poltrona ou tomando sol no alpendre e eu a tagarelar fazendo circular o companheiro. Conversamos muito. Conto sobre tudo o que passa e explica como anda a política e tudo mais.

Eu digo que ele fala língua de cigano, porque às vezes parece incognoscível, mas, por sorte, sou versada nela. Então, manter o papo pela tarde afora e também na hora de dormir. Sempre que o observo meio apático lá vou eu puxar a charla. E ele sempre reage bem. Cruza a perninha, fica me olhando e respondendo a tudo, na língua dele é claro.

Como é que foi? Mas, como? Quem falou? E o senhor, o que acha? Viste aquilo? Vou te contar uma boa... Mas, oooolha... A partir daí vou desenrolar o novelo da comunicação. Observo que isso significa muito pra ele, porque demonstra que tem alguém atento, alguém ligado, alguém se importando de verdade, ouvindo de verdade. Essas experiências são sensacionais porque nos mostram que, no fim e ao cabo, isso vale para toda a vida, toda pessoa. Debruçar-se sobre ela, olhar nos olhos, estar atento e verdadeiramente em comunicação. Tenho sorte em ter aprendido isso...


sábado, 9 de abril de 2022

Homenagem aos vivos/ Ângela Dalri


Quando eu entrei na UFSC como trabalhadora, logo no primeiro mês já estava metida nas assembleias do sindicato. Imediatamente percebi que o grupo de esquerda ali era o Movimento Alternativa Independente (MAI), liderado por Helena Dalri, uma gigante, no tamanho e na força política. Passei a acompanhar as reuniões e discussões do grupo. Foi quando conheci a outra Dalri, uma pequenininha, mais preciosa que um diamante: Angela Dalri. Ela tinha aquele olhar de passarinho que bateu na janela que era arrasador. Impossível dizer não para a Ângela. Quando íamos fazer campanha para a eleição do sindicato, ela me ligava para acompanhar nas passagens de setor. Íamos de salinha em salinha, nos lugares mais recônditos da UFSC. Nunca vi alguém tão persistente. 

Depois, quando ganhamos as eleições, ela tinha por prática fazer essas visitas cotidianas e tirava sempre um tempinho do dia para andar pela UFSC, falando sobre as lutas, colhendo demandas. Aparecia lá na Agecom com aquele olharzinho de passarinho e lá ia eu atrás dela. Com Ângela aprendi que um sindicalista é como o artista, tem de estar onde estão os trabalhadores, não só no tempo da eleição, mas todo dia e sempre. Nas atividades do sindicato ela era a primeira a chegar, última a sair, e como uma formiguinha andava pra lá e pra cá colando cartazes, enchendo balões e passando nos setores. Imparável e incansável, sempre arranjando alguma coisa pra gente fazer. 

Ela também acreditava que conversando com o povo pessoalmente, a galera iria para a greve. E dava certo. Ela chegava, com aquele seu jeitinho, e falava, e falava e falava. E se encontrava alguém furando a greve lá ia convencer o vivente, numa paciência de Jó. Os furões fugiam dela como o diabo da cruz. Também se achegava nos pelegos e nos adversários que se obrigavam a ouvir a pequenina, mesmo a contragosto. Estando ou não estando na direção do sindicato a Ângela fazia esse trabalho de contato pessoal, cotidiano. E só parou quando uma dor tão grande a sufocou. Mas, se deixou o trabalho na UFSC, ela mesma não parou. Passou a se ocupar dos famintos, dos sem casa, dos da rua, levando sopa, pão, carinho. E a sua carinha de passarinho passou a ser esperança para os sem-nada. 

Até há pouco tempo ali estava ela acolhendo os haitianos, africanos e os venezuelanos migrantes, garantindo casa e alimentação. Está sempre fazendo algo por alguém. Acolher é o verbo que a identifica. Ângela foi sempre meu sul, minha direção segura. É minha “ídala”, meu amor.  Hoje, na celebração dos 30 anos do Sintufsc eu tive a alegria de vê-la de novo na UFSC, apesar de toda a dor que eu sei que significa estar ali. Foi porque é o nosso passarinho, porque suas pegadas estão cravadas nos caminhos da universidade, em cada salinha, em cada jardim. Foi porque sabe que é parte imensa dessa construção que é o sindicato dos trabalhadores. Foi porque ama cada um de nós. 

Nesse abraço registrado por Rubens Lopes, eu deixo registrada essa homenagem à mulher mais linda, mais querida, mais comprometida, mais persistente, mais tudo que eu já conheci. Te amo a perder de vista Angela Dalri, obrigada por tanto que me ensinou pequenininha, meu passarinho, minha amiga, meu amor....

quarta-feira, 6 de abril de 2022

Etarismo ou a merda de ser velho no capitalismo



Tenho observado muita gente falando nas redes sociais sobre o lance da velhice e sobre o direito de se parecer velho. Li textos e vi vídeos de mulheres discutindo a beleza de envelhecer e de seguir o rumo da vida, libertas de tintas e estereótipos estéticos. Embutido nesse discurso, claro, a crítica de um mundo no qual o velho é totalmente esquecido e dispensado de atuar como sujeito criador. Ao velho, dizem, é relegado o papel passivo de aposentar e abrir espaço para os jovens. E, diante disso, faz-se essa defesa do direito de envelhecer com dignidade, aceitando o processo.

Quero me permitir um pitaco.

Já faz sete anos que cuido do meu pai, que é velho e tem a doença de Alzheimer. Posso afirmar sem medo de errar que ser velho é foda. E ser um velho doente, mais foda ainda. Já ser velho, doente e empobrecido, aí é o inferno de Dante. Então, creio que há que se ter muito cuidado com esse elogio da velhice desvinculado da condição de classe. 

Ficar velho é condição natural da vida. Mas, a condição de classe da pessoa determina situações muito diferentes. Tiro isso por conta da experiência com o pai. Faço parte de grupos de familiares que têm Alzheimer e observo o drama das famílias de trabalhadores empobrecidos para dar um mínimo de qualidade de vida para seus velhos doentes. É uma batalha inglória tanto para quem cuida quanto para quem é cuidado. As famílias hoje são pequenas e não há gente suficiente para cuidar, já que o cuidado é de 24h. Daí é comum recorrer a remédios que dopam ou asilos. Isso não é falta de amor. É falta de condição. 

Hoje ficamos mais velhos que há décadas passadas. E com tanto de vida pela frente sentimos necessidade de ser criador, seguir contribuindo com a sociedade. Mas, nos pedem que saiamos, para dar lugar aos jovens. E, apesar de todo esse discurso sobre a “terceira-idade”, “melhor idade” e o escambau, o velho é jogado para o esquecimento. Se ele não se mantiver ligado nas redes sociais, fazendo dancinhas ou qualquer outro espetáculo, está fora, esquecido. Não importa se foi alguém que fez coisas importantes, na vida, no trabalho, na cultura da sua comunidade. Se ele saiu, pronto. Esquecido. 

Outro dia me surpreendi vendo um ator famoso, lindo e jovem, ser escalado para fazer um velho num filme. E todos os atores velhos que estão aí esperando um papel? Não importa. Estão velhos. Não dá mais. Então, caracteriza um novo para ficar velho. E se o ator velho, que já foi grande, faz um papel pequeno ou bobo num filme, lá vêm críticas... Não há paz para o velho. O velho que vá pra casa descansar. Bueno, há velhos que conseguiram juntar grana e podem curtir a aposentadoria, viajando, fazendo coisas legais. Mas a maioria dos velhos – que são da classe trabalhadora – não consegue juntar dinheiro para viagens ou curtição. As aposentadorias minguadas servem para comprar remédios que vão tratar doenças adquiridas nessa vida de sacrifício. O capital lhes tira tudo, a vida produtiva e depois a alegria da aposentadoria. Essa é a realidade. Assim as coisas são. 

Então, por isso que ao falar sobre a velhice a gente tem de pensar sobre o modo de vida que produz essa sociedade egoísta, produtivista, capitalista. O velho, nesse mundo, está fadado ao sofrimento. Porque ele já não produz mais para o capital, porque ele não é útil para mais ninguém, porque ele vira um incômodo. 

Não é de espantar então atitudes como a do nosso querido Flávio Migliaccio, ou Walmor Chagas, ou agora o lindo Alan Delon. O velho, doente e incapacitado, se vê e é visto como um estorvo. Se é rico ainda consegue decidir sobre sua vida/morte, se é pobre não tem chance alguma. Nem nesse momento. Nem nessa hora noa. 

Ainda há muita estrada para andar nesse tema da velhice. Mas se a gente não pensar primeiro sobre a necessidade urgente de se ter uma sociedade capaz de lidar com o velho, sem comiseração, mas com respeito a tudo que ele foi, continuará sendo um fardo pesado envelhecer. E quando digo envelhecer não tem nada a ver com a gente não pintar mais os cabelos, mas enfrentar toda a decrepitude que a idade traz, inclusive a intelectual, e o abandono que lhe segue. Saber que teremos cuidado quando essa hora chegar pode mudar muito nossa relação com a velhice. 

Mas, hoje, como o mundo é, é impossível ter alguma esperança. Só mesmo a angústia de saber que chegará a hora em que nos deixarão no meio do caminho, abandonados e sós. 

Com o meu pai, venho mudando minhas práticas e aprendendo muito sobre esse processo. Mas, cuidar de um velho não pode significar a morte do jovem. Há que existir espaço para os dois. Espaços de vida, de alegria e de fruição. E, no capitalismo, “my friend”,  isso não vai acontecer.


quarta-feira, 30 de março de 2022

O restaurante popular de Florianópolis


O prédio fica na Mauro Ramos, antigo Sine

A mídia comercial florianopolitana não surpreende e mantém invisível a luta social. Ontem, anunciou com pompa e circunstância o que chamam de “mais uma obra do prefeito Gean Loureiro”: o restaurante popular. E lá estava ele, sorridente, cortando fitas e entregando o restaurante que oferecerá mais de duas mil refeições a preço módico para a população empobrecida. Serão R$ 3 para quem tem renda per capita de até meio salário mínimo, R$ 6 para quem recebe acima de meio salário mínimo e isenção para renda zero. Mostraram as instalações, os balcões, as mesinhas, os trabalhadores que farão o cadastro e anunciaram que a “gestão” do restaurante ficará a cargo de empresa parceira, que no bom português significa mãos privadas. Terminada a inauguração, as pessoas terão de esperar o próximo semestre para ver a coisa realmente acontecer. 

Bom, o que os jornalistas não contaram foi a luta renhida travada por pessoas e movimentos sociais para que esse restaurante tivesse chegado à vida. O principal deles é o Movimento em Defesa do Restaurante Popular, com anos na batalha pelo direito humano à alimentação, reivindicando, discutindo, propondo, insistindo, porque entende que alimentação não é “benesse”, mas direito. Por isso, fazem a defesa intransigente de uma política pública permanente que garanta o funcionamento efetivo e sem interrupções do restaurante popular. O movimento ainda reivindica que o RP não seja só um lugar onde as pessoas possam “comer barato”, mas que faça parte de toda uma proposta global que garanta também:

1. Acesso a empregos, salário e renda capaz de viabilizar qualidade na alimentação

2. Sistema de produção de alimentos de qualidade para o consumo de toda a população

3. Condições para que as pessoas em vulnerabilidade social tenham acesso a comida e água

4. Educação, saúde, moradia e saneamento básico 

Nesse sentido não basta o prefeito inaugurar o restaurante popular e colocar ali uma ONG para administrar, colocando o feito na sua folha corrida de “obras”. É preciso que esse projeto faça parte do Sistema de Segurança Alimentar e Nutricional, ainda inexistente em Florianópolis. 

O movimento também reivindica que o Restaurante Popular esteja articulado à produção local com maricultores, pescadores, agricultores, indígenas e quilombolas, garantindo assim qualidade de vida para quem produz e para quem vai consumir o alimento. 

Em Carta Aberta o Movimento em Defesa do Restaurante Popular reconhece a importância de esta proposta ter saído do papel e encontrado concretude na vida da cidade, mas alerta para a insuficiência. Se a cidade realmente quer tratar a questão da fome e da segurança alimentar de sua população há que seguir batalhando para que a municipalidade integre o restaurante com as demais políticas sociais. 

É sempre bom lembrar que não existe pobreza, o que há é o empobrecimento das gentes em função da lógica do capital. Portanto, o que se reivindica não é comiseração ou pena e sim uma proposta articulada entre quem produz e quem consome para que todos possam viver com dignidade. 

O restaurante popular é uma vitória da luta! E a luta segue.