terça-feira, 17 de novembro de 2020

Eleição x Revolução



Como sempre, depois das eleições, a gente acorda meio atordoada. É de lei. A gente entra no processo sem esperança, a gente sabe que as eleições são definidas pelo poder econômico, que há pouca consciência crítica e tal, mas, no andar da carruagem dá aquela animadinha. Quem sabe, dessa vez? Quem sabe, um milagre? Então, a derrota das pautas da esquerda nos traz de volta ao mundo real. 

No campo institucional praticamente não há espaço para as propostas de mudança estrutural. É uma completa ilusão. O conservadorismo é a regra, o sistema se mantém intacto. Algumas pequenas vitórias aqui e ali levantam a moral, mas é só uma musculação da esperança, porque, de fato, mudam muito pouco o estado das coisas. Ser um vereador de esquerda, por exemplo, numa Câmara qualquer, ajuda a denunciar, a inspirar a consciência de classe, a alfabetizar politicamente, mas tem pouca interferência na vida das cidades. Os projetos da direita, que definem as cidades, passam, e ponto final. Há, óbvio, avanços, na medida em que colocam temas que não seriam colocados, mas é tudo. No que é estrutural, os inimigos vencem.

Isso nos leva ao ponto: só uma revolução pode efetivamente colocar o mundo “patas arriba”. Não há outra escapatória. As tentativas institucionais, como na Bolívia, na Venezuela, mostram que as conquistas são poucas e que as reformas estruturais caminham com exasperante lentidão, além de serem sistematicamente atacadas. Já Cuba, que botou a elite reinante pra correr, avançou muito e só não avançou mais porque está bloqueada e isolada no mar do capitalismo. Só que lá houve mudanças na estrutura. E como disse um otário aí, lá eles “só” têm educação, saúde e segurança de qualidade e universal.  Isso não é bolinho. Foi conquistado no braço, revolucionário.

Assim que a ressaca da eleição, esse véu de maya, só aponta um caminho. Esse caminho pode parecer inexistente, nebuloso, inalcançável. Mas, uma olhadinha na história e a gente já percebe que ele pode aparecer assim, do nada, no meio da bruma, nos mostrando que ainda que não tivéssemos percebido, ele estava lá. Daí a necessidade de formar as colunas de combatentes. Preparar e preparar, pois quando o vento dissipar a cortina, temos de estar prontos para caminhar, combater e vencer.

Acordei triste, mas já me animei e tal qual Morgana, a bruxa celta, já estou de pé, na beira do lago, esperando a barca.



domingo, 15 de novembro de 2020

O sistema é bruto



No mundo capitalista o espaço reservado ao pobre é o da servidão. Quem aceita isso vai arrastando a miséria. Quem não aceita, toma porrada. Não há concessões. Passeatas, protestos, manifestações, tudo o que envolver reivindicação, trabalhador, gente pobre, é enfrentado na bala. A polícia não arrega. E nós, no Brasil, tivemos provas bem concretas nos últimos anos, quando as passeatas dos apoiadores do atraso – os riquinhos e a classe média - eram protegidas pela força bruta, e até fotos eram sacadas com os soldados, “amigos da paz”.  

Quando a noite cai, tudo o que acontece nas comunidades de periferia, nas favelas, nos bairros empobrecidos é bandidagem. E a polícia se compraz em entrar atirando. Aqui em Florianópolis, dia desses, mataram um menino de 12 anos. “O que um guri desses estava fazendo na rua a essa hora?”. Meia noite de uma noite quente. Deveria estar no teatro?  Ah, mas era uma comunidade pobre e nela, para a força, tudo que se move, de noite ou de dia, é bandido. E há que combater o tráfico. E quando a comunidade em luto se rebela em protesto, mais balas, mais porrada. Para que o medo siga grande e imobilize. 

Nos beach clubes de Jurerê, praia da elite, a droga rola solta. Mas, lá, não chega a força matando tudo que se move. Não. Lá estão os jovens brancos, sarados, criados a toddy, embriagando-se com champanhe, dando lucro aos bares da moda. Ali tudo é permitido: cocaína, heroína, boa-noite cinderela, estupro, o que for. Nada está fora da lei. Não há pé na porta, não há tiroteio, não há combate ao tráfico. Não. Traficante? Bandido? Esse tem cor e tem endereço certo. Não vou nem falar nos donos reais das drogas, né? Que certamente não são os gurizinhos da favela. Esses não têm aviões, nem salvo condutos presidenciais. Eles são apenas vendedores, um elo fraco da corrente.  

O sistema é bruto e existe para foder com a maioria. Uma pequena parcela dessa gente, luta. Outra parcela, bem grande, aceita a servidão, seja por medo, por desconhecimento, por puro cansaço. Parece que se mantiver a cabeça baixa e aceitar a migalha, poderá viver em paz. Mas, não. Isso é ilusão. Mesmo o que se ajoelha vai ser pego, mais hoje, mais amanhã. Pode estar na rua numa “hora imprópria”, pode ser confundido com alguém, pode ter a cor errada, no lugar errado. Pode estar com a roupa errada ou segurando um guarda-chuva. O sistema não poupa ninguém, se for da classe trabalhadora.  

Então, a única saída é enfrentar o bicho. Na porrada mesmo. No protesto, na manifestação, na batalha nas ruas. Porque quando muitos se juntam contra a minoria, acontecem coisas fabulosas, como a revolução russa ou a revolução cubana. O sistema tem um poderoso braço de propaganda, que engana, que mente, que esconde. Então, a parada é dura, dura mesmo. Mas, há que quebrar esse espelho de mentiras. E mudar as coisas. O sistema é bruto, mas podemos ser mais. O que ocorre é que não há escolhas. Quem luta pode morrer, mas quem não luta também. Então, qual vai ser? Que sejamos capazes do grito dos zapatistas. Já basta!  

Que viva o povo em luta! 

Que nossas noites tragam a primavera.

terça-feira, 10 de novembro de 2020

O Brasil e as eleições municipais


As eleições municipais acontecem agora em novembro e, salvo algum evento cósmico, os candidatos ligados ao atraso e à morte podem levar as prefeituras em grande parte dos mais de cinco mil municípios do país. Também pode ser que as Câmaras de Vereadores fiquem recheadas de moralistas e negacionistas. Uma vertiginosa queda ao fundo do poço. Isso porque, passados quase dois anos de governo de Jair Bolsonaro, a população ainda não conseguiu avaliar de maneira clara o tamanho do buraco no qual estamos metidos. Desde o primeiro dia, a lógica foi a da destruição. Não se tratava do “mudar tudo isso que taí”, mas sim “destruir tudo o que há". E foi por isso que cada nome para os ministérios foi seguindo a bizarra lógica do seu antagonista. Ou seja, para o ministério da Agricultura, alguém que apoia o agronegócio. Para o meio ambiente, quem quer destruí-lo, para a fazenda, um Chicago boy privatista e entreguista, para a Saúde, um militar sem formação e assim por diante.  

Quando a pandemia se abateu sobre o país, a partir de março, o que se viu foi um festival de absurdos, com o completo abandono da população. O governo federal não apresentou um plano nacional de combate ao vírus e de proteção das gentes. Pelo contrário. Minimizou a doença e atuou através de mentiras e opiniões sem base científica, receitando cloroquina e ivermectina, como prevenção. Um completo fracasso que já nos cobrou quase 200 mil vidas. A saída política foi jogar a culpa das mortes sobre os governadores e prefeitos e é justamente por isso que agora, nas eleições, estamos vendo nas propagandas dos chamados “bolsonaristas” a “denúncia” de que prefeitos e governadores “comunistas” foram os responsáveis pelo desastre econômico e pela perda das vidas. Ou seja, quem procurou proteger a população é atacado como responsável pelas perdas econômicas e humanas. Uma inversão completa dos fatos, mas muito bem amarrado via o gabinete do ódio e a máquina de mentiras dos aliados do presidente. O marquetim tem sido eficaz.  

A eleição nos Estados Unidos unificou de maneira organizada esse grupo que compõe a base de apoio de Bolsonaro. As pessoas passaram o último mês em intensa campanha, trazendo para a realidade local os temas que comandaram as eleições no país do norte. Segundo eles, o próprio deus estava atuando no sentido de eleger Donald Trump, homem eleito pelo divino para salvar o planeta dos pedófilos, comunistas e ladrões de crianças. Como eles colocam nessa turma os adversários políticos de Bolsonaro, a campanha nos EUA serviu para alavancar o debate na campanha eleitoral local. Vencer os candidatos “comunistas” é ponto de honra para esse grupo.   

A derrota de Trump nos Estados Unidos deixou a militância bolsonarista perplexa. Mas foi por pouco tempo. No mesmo dia em que se anunciou Biden como o novo presidente começaram a circular as informações de que tudo isso faz parte do “plano” de Trump para retornar com ainda mais poder. Então, a mensagem da semana é: reforçar as campanhas dos candidatos do presidente para fortalecer o cinturão de proteção em torno de Trump, pois ele vai virar o jogo. E toda hora circulam fotos de novas cédulas de votação encontradas ali e aqui que darão a vitória ao amado do senhor: Donald.  

Não bastasse isso, o presidente do Brasil continua atuando no sentido de desacreditar qualquer vacina contra o coronavírus que venha do “eixo do mal”: Rússia, China ou Cuba. Entre seus apoiadores as informações que circulam é de que essas vacinas transformarão as pessoas em autômatos comunistas, portanto, ninguém deve tomar. Hoje, depois que a Anvisa suspendeu a pesquisa que vinha sendo tocada pelo Instituto Butantan, com base em informações falsas de que uma pessoa voluntária do teste havia morrido por conta da vacina, os grupos estão em polvorosa. “Estamos salvos dos comunistas”, “Graças ao bom deus não haverá vacina chinesa”, “nos livramos da vacina do Dória”. E mesmo que a informação correta já tenha sido anunciada, de que o homem morto se suicidou e que não há ligação com o teste em si, nada muda. A mentira já pegou. Afinal, se a mais importante agência de vigilância sanitária do país veio à público suspender a vacina, é porque alguma coisa há. Navegar nesses grupos é verdadeiramente desafiar a sanidade.  

E assim vamos seguindo para as eleições, em meio a toda essa ideologização da morte. Bolsonaro politizou o trabalho de combate ao coronavírus e agora segue politizando a busca pela vacina. Se ela não vier dos Estados Unidos, ele não vai comprar. Dane-se a população. Chegou ao ápice da estupidez ao comemorar a morte do voluntário da vacina, divulgando nas redes sociais que “Bolsonaro ganhou mais uma”. Sim, ele tem essa estranha mania de se referenciar na terceira pessoa, como se fosse o avatar de si mesmo. O “ganhar”, no caso, é desacreditar a ciência, o Instituto Butantan e, por tabela, seu agora adversário, João Dória, que por descolar-se da sua política durante a pandemia virou milagrosamente “comunista”.  

A vertiginosa queda do país nas mãos desses tipos segue, aparentemente sem freio. Ao que parece, os brasileiros precisarão de mais tempo para perceber toda a perversidade que se esconde por trás das políticas negacionistas do governo federal. E enquanto o grupo de apoio do presidente se movimenta alucinadamente à base das teorias conspiratórias e com a espada de Javé nas mãos, a corrupção familiar segue a todo vapor, o judiciário faz vistas grossas, os deputados se enrolam em alianças fisiológicas e a classe dominante vai acumulando sem se sujar. O sistema, que Bolsonaro dizia que ia destruir, segue azeitado e forte, alicerçado por ele e seus seguidores. 

Por fim, ainda que possa uma que outra prefeitura ser conquistada pelos partidos de centro-esquerda, provavelmente o nosso “day after”, o pós-eleição, se converterá em um festival de horrores.  

Há uma longa jornada ainda para se cumprir.  

sábado, 7 de novembro de 2020

O pai, o Steve e o Hegel

 


Meus dois velhinhos cara-a-cara

Os dias pandêmicos são longos e lentos. O pai acorda cedo e o dia passa devagar. Nos momentos em que ele dorme procuro fazer meu trabalho do Iela, as leituras dos jornais latino-americanos, o acompanhamento das notícias nos sítios, redigir os textos, fazer as artes do instagram, realizar as postagens nas redes e plataformas, fazer entrevistas gravadas, participar de alguns debates. É uma correria porque ele dorme pouco. E quando está acordado fica difícil eu me concentrar. A atenção tem de ser para ele. Anda por todo canto, mexe em tudo, intisica os cachorros, os gatos, caça bastante confusão. Há que ficar atenta, e ainda assim, vez em quando ele cai ou se machuca, porque basta um segundo de distração e pimba.  

Na última semana comecei a fazer o curso do Hegel. Leitura sistemática da Fenomenologia do espírito. É bem engraçado. Porque durante o dia eu tento abrir algumas brechas para a leitura, mas a cada parágrafo há que parar para limpar um xixi, um cocô, ou tirar o pai de alguma trampa. Imagina estudar filosofia assim? Desgasta. Nossa senhora da vaca emburrada, valei-me.  

Não bastasse isso agora o cachorro que mora aqui em casa, que eu resgatei da rua há 12 anos, também está velhinho. Então, ele tenta pular o muro ou subir na mesa, mas não está mais conseguindo dar o impulso. O resultado é que ele se estabaca todo no chão. E claro, tal e qual o pai, não adianta falar nada, porque não há compreensão. Aí preciso ficar encontrando formas de criar barreira para ele não tentar os pulos. É um baita estresse, porque eu não dou conta. Tem hora que é o pai tentando abrir o portão de um lado, e o Steve querendo saltar o muro do outro, e eu tendo de correr de um lado pra outro para evitar problemas. O Hegel só me olha de revesgueio, apontando minhas certezas sensíveis. O meu ser-aí se desvanece.  

Quando a noite chega e o pai já está deitadinho, eu olho para o Hegel, ele me olha. Mas, então, decido. Porfa, preciso de uma alienaçãozinha. Aí vou ver Discovery, audaciosamente indo onde ninguém jamais esteve. A terceira temporada, um arraso. Entschuldigung, Hegel, mas o Saru vence.  

Quando a barra do dia desponta, lá pelas cinco horas, enquanto o pai já começa com seu deambuleio no quarto, eu retomo o Hegel, só um pouquinho, até que tenha de sair para as tarefas. Não é fácil, mas, quem disse que seria? 

terça-feira, 3 de novembro de 2020

Eleições nos Eua



Então hoje se encerra mais um show, que é com o que se parecem as eleições estadunidenses. Comícios espetaculosos, muita produção, muita grana. A forma se sobrepondo ao conteúdo. Dois partidos que são como dois irmãos siameses, duas cabeças no mesmo corpo. Pelo menos no que diz respeito à política para Nuestra América. O país tem uma política de estado para nossos países que praticamente não muda, seja quem for o presidente, desde 1823, quando uma mensagem do presidente James Monroe lapidou o que seria a “doutrina Monroe”: a América para os americanos. Com essa consigna os Estados Unidos garantiram a balcanização da América Latina, impedindo o avanço do colonialismo europeu, mas também travando a proposta generosa de Bolívar de uma Pátria Grande.  

Na frase de Monroe, o substantivo “americanos” não engloba as gentes de todas as Américas, mas apenas os estadunidenses. Coisa que mais na frente, em 1831, já morto Bolívar, vai se concretizar no chamado “destino manifesto”, que é a doutrina que atribui aos Estados Unidos um destino, outorgado pelo próprio deus, de expandir seu território e seu poder por todo o globo. É assim que usando o nome de deus, o governo se apropria de mais de um milhão de quilômetros quadrados do México. Foi o destino manifesto que também serviu de escudo do avanço para o Oeste exterminando populações inteiras de grupos originários e é o que ainda bramem os governantes quando fazem suas guerras: em nome de deus, da democracia e da liberdade (do grupo de elite, claro), agarrados num deus onipotente, e que lhes transferiu poder na terra, os governos avançam sobre a América Latina, o oriente médio e qualquer outro espaço que desejem tomar.  

Quanto às ideia de Monroe e do destino manifesto não se diferenciam os democratas e os republicanos. 

A gente nota nas redes sociais que uma boa parcela das pessoas mais à esquerda tende a torcer para que o vencedor seja Baiden, já que Trump é o “best friend” do Bolsonaro e uma segunda vitória do milionário pode fortalecer ainda mais as políticas ultraliberais do governante brasileiro. Mas, é bom lembrar que Baiden foi vice de Obama e que os dois juntos lideraram inúmeros conflitos fora de seu país. Nos oito anos de Obama na casa branca, não houve um só dia sem que os Estados Unidos não estivesse bombardeando algum lugar.  Não bastasse a guerra “quente” também há que se contabilizar as intervenções disfarçadas - como o apoio à queda de Kadafi – e as ações econômicas contra dezenas de países não alinhados. Portanto, mesmo que pareça simpático, Baiden tem um largo histórico belicista.

Para os estadunidenses o que conta são as questões internas e é por isso que artistas e intelectuais progressistas estão na aba de Baiden. A crise sanitária com o coronavírus, que já cobrou mais de 200 mil vidas, colocou ainda mais à nu um sistema de saúde que se guia pelo dinheiro. Quem tem seguro, pode ter uma chance de viver, dependendo de qual seguro pode pagar. Mas, quem não tem, morre. E ponto. Os democratas tem uma proposta de saúde pública, que nem chega aos pés do nosso SUS, mas já é algo. Também há toda uma expectativa com relação a política do estado com os negros e com as mulheres. Algo que pode ser uma ilusão, visto que mesmo quando um presidente negro, democrata, esteve o governo, o sistema prisional seguiu encarcerando muito mais negros do que em outros tempos. De qualquer forma, Biden aparece como mais moderado que Trump. E é nisso que esses grupos estão apostando. Pelo menos, tirar Trump. 

Já para nós, na América Latina, qualquer um dos que vencer vai ser problema. Biden inclusive já tem se manifestado dizendo que quer controlar nossa Amazônia. E isso não significa que vai nos defender de Bolsonaro. Não se enganem. Se Trump perder, o presidente brasileiro vai chorar, mas se Biden estender a mão ele logo, logo, muda de “best friend”, afinal, seu fascínio é pelo império. É o nosso Darth Vader.

Assim que fiquemos de olhos no resultado. As eleições nos EUA não são diretas. Quem vota e decide a questão é um colégio eleitoral de 500 e poucas pessoas, delegados dos estados. A eleição é feita em cada estado e cada um tem suas próprias regras. Se houvesse uma comissão para acompanhar as eleições verificando se não há fraude, ela certamente teria muita dificuldade. Lá, os eleitores podem votar por correio e de maneira antecipada. Não há coordenação nacional. Portanto, a segurança do processo é muito precária. A coisa é tão doida que mesmo se um candidato tiver mais votos no geral ele pode não levar, como já aconteceu. Portanto, talvez fosse hora de os Estados Unidos invadirem os Estados Unidos para levar democracia e liberdade ao povo de lá.  

Por aqui só nos resta acompanhar. Quem vencer terá seu próprio pacote de maldades para as nações latino-americanas. Nosso papel não é torcer por um ou outro, mas nos prepararmos para enfrentar quem quer que seja. 



domingo, 1 de novembro de 2020

A luta pelo território



Foi o peruano José Carlos Mariátegui o primeiro teórico latino-americano a entender que  o racismo estrutural contra os indígenas no seu país estava totalmente vinculado ao fato de que esses eram os donos da terra. Nos anos 1930, ao escrever os seus sete ensaios sobre a realidade peruana, ele coloca claramente que o que estava em jogo era o controle do território. Com a invasão da América em 1492, os europeus se posicionaram como conquistadores e usurparam os territórios, desde aí a luta pela retomada por parte dos povos autóctones tem sido sistemática. Em alguns países é mais evidente por conta do alto índice de população autóctone, como é caso do Peru. É percebendo a centralidade da luta pela terra que Mariátegui vai dizer que não existe uma “questão indígena” propriamente dita, mas sim uma batalha pelo território, e, consequentemente, pelas riquezas que ele esconde ou mostra.  

Essa percepção não vale apenas para o Peru. Ela pode ser observada em toda Abya Yala já que cada espaço desse território passou por violentos processos de colonização. Mesmo os países que se colocam no campo dos países centrais – como os Estados Unidos e Canadá - foram cenários de sangrentas batalhas e recorrente tentativa de extermínios das etnias originárias do território. E até hoje, confinadas em reservas, as etnias sobreviventes ainda precisam travar sistemáticos embates para garantirem autonomia e autodeterminação. E justamente porque se recusam a abandonar seus territórios e sua cultura original, são tratados como atrasados, encrenqueiros, entraves ao progresso, o que reforça ainda mais o racismo e a discriminação.  

A lógica é semelhante tanto no norte como no sul. Se as comunidades indígenas aceitam os espaços de reserva destinados – ainda que não sejam os originários - e se mantém quietos, podem até ser tolerados. Mas se ousarem se levantar em reivindicações, tanto de território como em direitos, passam a ser demonizadas e sofrem toda a sorte de campanhas desmoralizadoras. Um exemplo nos Estados Unidos é a comunidade Dakota, que luta contra um oleoduto que lhes destrói a água e as terras em Standing Rock. Apesar do apoio de comunidades de toda Abya Yala, essa comunidade Sioux ainda não logrou garantir o direito de decidir sobre seu território. O oleoduto é de interesse nacional, dizem os governantes e os “índios” são um atrapalho. E lá estão os canos, arrasando e destruindo o modo de vida de quem ainda vive no território tradicional.  

No Brasil, apesar do número de almas indígenas ser pequeno em relação à totalidade da população - cerca de 900 mil indígenas declarados – o fato de as mais de 300 comunidades ocuparem perto de 12% do território nacional ainda é visto como um excesso: “muita terra pra pouco índio”, dizem. E, da mesma forma, se a comunidade indígena se integra ao modo de produção capitalista, usando o território para culturas de exportação por exemplo, como o soja, aí são aplaudidas e visitadas pelos ministros bolsonaristas, apontadas como exemplo de “índios modernos”. Já as que reivindicam os territórios originais para viverem outra forma de organização são apontadas como anacrônicas, fora da realidade. E contra elas se movimentam todos os meios de comunicação de massa reforçando assim o racismo que foi introduzido com a colonização.   

Em Santa Catarina temos três etnias que ainda resistem na luta pelo seu espaço tradicional: os Kaingang, os Laklãnõ Xokleng e os Guarani. Cada uma delas com seus avanços e tropeços vem lutando para manter seu espaço e sua cultura. Não é coisa fácil. Sem a possibilidade de viver plenamente sua cosmovivência eles precisam sair dos territórios para tentar garantir a sobrevivência. É assim que chegam à capital, Florianópolis, em todos os verões, com seus artesanatos. Ao exigirem uma casa de passagem, um espaço digno onde possam descansar, logo são demonizados pela mídia comercial. E se multiplicam as reportagens mostrando os lugares onde eles ficam como espaços de sujeira e degradação, como se fosse da natureza deles e não do lugar inadequado. De novo, o racismo estrutural se manifestando contra aqueles que apenas querem seu espaço legítimo nesse mundo que foi construído sob os cadáveres de seus ancestrais. Outra vez a luta pelo território delimita o peso do ataque. Os indígenas que decidem se transformar em mão de obra do capital são saudados pelos governantes como inteligentes e moderno. Já os que permanecem nos territórios são os entraves ao progresso. De novo, a terra, a propriedade,  como questão central.  

Se passarmos para a cidade o tema terra volta a dividir as pessoas. Aqueles que conseguem ter a sua casinha ou mesmo pagar em dia o seu aluguel são saudados como cidadãos de bem. Já os que, sem saída, precisam ocupar terras públicas ou vazias, são apresentados como invasores, ladrões, criminosos e tudo de ruim que se pode dizer. O território, no capitalismo, é só para quem tem dinheiro para comprar. Quem não tem, que morra. Essa é lógica.  

Só que nesse mundo do capital, o número de pessoas que não têm propriedade é muito maior do que os que têm.  Então, o combate está dado.  

Nessa terça-feira, em Florianópolis, essa gente desprovida de terra e de direitos estará em luta. Povo que ocupa, povo que resiste, povo que luta, povo que intisica, povo que se nega a aceitar a imposição do capital, povo que se movimenta, povo que clama, povo que também quer morar, que também quer bem-viver. Por que a cidade tem de ser só para quem tem dinheiro ou propriedade? Toda essa gente ameaçada de despejo em plena pandemia por um projeto do prefeito local, que quer aprovar uma lei que permita o despejo sumário, sem necessidade de mandado judicial, estará em marcha. A Marcha pela Vida da Periferia. Virão as famílias que hoje ocupam terra urbana, virão os indígenas que lutam por uma casa de passagem, os que apoiam essas lutas, os que sabem que mesmo diante do perigo do vírus, há que se mover, porque sem isso, a morte vem igual.  

Os caminhantes, que se reunirão em frente à Catedral a partir das 14h, são aqueles que sabem muito bem que a tal democracia do “proprietário”, não os inclui e contra isso lutam. Porque a terra  não pode ser espaço de especulação. Ela tem de ser espaço de vida e de produção coletiva.  

É uma batalha pelas consciências. É uma batalha para destruir a ideologia do capital que normaliza a exclusão, a fome, a miséria, como se não houvesse outro mundo possível.  

Há.  

E são essas pessoas que estão na construção.   


segunda-feira, 26 de outubro de 2020

Sobre o estranho caso do governador que caiu sem um ai


O Estado de Santa Catarina sempre se caracterizou por ser um espaço onde a oligarquia ainda domina, sem qualquer chance para a esquerda e tanto que os partidos desse campo nunca conseguiram chegar perto de uma vitória eleitoral. O máximo que se conseguiu foi garantir a presença do PMDB que, é claro, passa bem longe das pautas de esquerda. Na primeira vez, com Pedro Ivo, ainda tinha rasgos do velho MDB, depois, com Paulo Afonso e Luiz Henrique perdeu todo o resquício de oposição, entregando-se ao credo neoliberal se qualquer pejo. Luiz Henrique mesmo foi nefasto.  

Por isso quando vieram as eleições para governador em 2018 já se tinha como pão comido que a velha política seguiria seu curso. Mas, eis que surge o fenômeno Bolsonaro e um desconhecido, saído das fileiras da Polícia Militar (bombeiros), por carregar a sigla (PSL) do então candidato à presidente, simplesmente abocanhou quase 30% dos votos catarinenses no primeiro turno. A disputa então foi entre ele, Carlos Moisés, e Gelson Merise, representante da direita tradicional (PSD). Uma eleição deveras intragável. O resultado no segundo turno foi a vitória acachapante do desconhecido Moisés com 70% dos votos válidos. Santa Catarina se juntava às hostes bolsonaristas com furor.  

Veio a posse e o governador eleito foi tomando pé da situação. Deixava para trás uma elite governante perplexa, mas não vencida. Durante o primeiro ano governou sem arroubos, mas também parecia estar se descolando das propostas grotescas advindas do bolsonarismo. No final de 2019 ele simplesmente rompe com Bolsonaro e imediatamente passa a ser tratado como inimigo pelos bolsonaristas raiz que o haviam colocado na cadeira de governador. Fazia uma aposta. Tinha maioria no parlamento e acreditava que poderia governar em paz.  

Veio a pandemia e ele imediatamente se colocou à frente do processo, dialogando diariamente com a população e tomando medidas opostas as que eram orientadas pelo presidente Bolsonaro. Mais uma onda de acusações de traição até que em junho a vice-governadora, ainda aliada de Bolsonaro, rompe com o colega de governo. Aí começa a queda. Disputas na Assembleia por conta da taxação dos agrotóxicos e depois o escândalo dos respiradores comprados à vista e sem condições de uso no combate à pandemia foram palmilhando o caminho da derrota. Sem os bolsonaristas o governador enfraquecia e a velha direita arreganhava os dentes.  

A ponta do estopim para derrubar Moisés veio de um ato administrativo prosaico: o aumento salarial aos procuradores do estado, sem passar pela aprovação dos deputados. Com essa carta na manga começou o ataque e a busca pela saída do governador do cargo. A intenção era responsabilizar Moisés e sua vice, Daniela, tirando os dois da parada. Com isso assumiria o governo o presidente da Assembleia, deputado Júlio Garcia, das fileiras do PSD, tradicional partido do poder catarinense. Tudo parecia caminhar para esse desfecho. Votações realizadas, o governador foi levado ao tribunal para que seu impedimento fosse garantido. Então, no meio do caminho, um deputado do PSL decidiu dar seu voto contrário à implicação da vice. Com isso, o castelo de cartas da velha direita ruiu.  

Com o processo de impedimento aprovado, o governador Carlos Moisés foi afastado do cargo, e a vice, Daniela Reinehr, que havia se retirado do governo, retorna como governadora. Assim, o bolsonarismo raiz volta a comandar Santa Catarina. Daniela é advogada, ex-policial militar e produtora rural. Totalmente desconhecida dos catarinenses tem na sua biografia o que chama de “militância” pela deposição de Dilma Roussef. Filiou-se ao partido de Bolsonaro pouco antes das eleições.  

O estranho em todo esse processo é que ele se deu em completa solidão. Apesar de ter levado 70% dos votos dos catarinenses, o governador Moisés não conseguiu mobilizar praticamente ninguém em sua defesa. Tirando a postura sempre puxa-saquista da rede de televisão NSC – a maior do estado – nada mais sobrou ao governador. Não teve passeata, não teve protesto, nada. As votações aconteceram sem qualquer rugosidade, o que mostra o completo descolamento da figura do governador com a população. A própria oposição mais à esquerda, acreditando que iria se livrar de dois coelhos – governador e vice – com uma cajadada só, se deu mal. Afastado do bolsonarismo o governador Moisés certamente seria um mal menor diante do que se apresenta.  

Essa virada nos planos da oligarquia pode agora fazer com que as coisas mudem no processo. Conforme a governadora em exercício vá mostrando sua plataforma e suas prioridades, o julgamento final do governador afastado pode se alterar. O tabuleiro do xadrez catarinense deu xeque, mas ainda não desfechou o mate. Nos próximos 180 dias muita coisa pode acontecer.  

Enquanto isso o Estado segue vivenciando alta na contaminação do coronavírus, sem direção no governo e sem qualquer paixão popular diante da briga nos altos escalões, tanto de um lado quanto de outro. A fria ação da política sem alma. A pandemia comendo e a indiferença comandando. Parece que nada está acontecendo. É um tempo de completo vazio já quem nem mesmo no uatizapi ou nas redes sociais o assunto tem importância.  

Mas, pode ser que tudo isso mude conforme a nova governadora for governando. Ou não, como diria o poeta baiano.