O governo federal, em meio ao crescimento dos casos de coronavírus no país decidiu editar uma medida provisória com a qual permite aos patrões que suspendam o contrato de trabalho e o salários dos trabalhadores por quatro meses. Justamente os próximos quatro meses que serão os de maior curva do contágio da doença. A medida, perversa e cruel, é uma afronta a toda a população que nesse momento vive um momento de puro terror, com muitas famílias não tendo como garantir o isolamento. Ele disse no seu twiter que o governo - nesse período - dará uma "ajuda" ao trabalhador. Mas essa "ajuda" não será o mesmo valor do salário. A maioria dos países europeus, que atualmente estão vivendo o pico da doença suspendeu o pagamento das contas de luz, água, telefone e internet e ainda está concedendo bônus aos trabalhadores para que se mantenham em casa. Outros países da América Latina, como a Venezuela, que está desde 2015 sob ataque dos Estados Unidos, igualmente está definindo políticas de proteção dos salários para os trabalhadores fiquem em casa e permitam o melhor controle do coronavírus. Também decidiu que o governo pagará os alugueis de quem é inquilino. Aqui no Brasil, além do presidente da nação incentivar as pessoas a descumprirem os avisos das autoridades médicas, agora baixa essa medida que é na prática, uma atitude autoritária para fazer com que os patrões – que sãos os mais ricos - não percam seus lucros nem num momento como esse. O presidente vai na contramão da história, colocando a população brasileira em risco, seja pelo vírus, seja pelo desespero de não ter dinheiro para comprar comida. O resultado desse absurdo será a violência. É muito importante que a comunidade atenda as medidas de prevenção da doença divulgadas pelos profissionais da saúde. Eles é que estão realmente tentando proteger a população. Esperamos que a ação de movimentos, sindicatos e políticos sérios possam derrubar essa medida do governo e garantir aos trabalhadores as condições para atravessar esse momento difícil. Sabe-se que no Brasil existem 206 bilionários que, juntos acumulam uma fortuna de mais de um trilhão de reais , e que se o governo tirassem deles apenas 1% dos seus lucros, cerca de 116 bilhões de reais, já seria suficiente para o governo enfrentar esse crise. Mas, Jair Bolsonaro prefere salvar os lucros dos ricos em vez da vida dos trabalhadores. Por enquanto, fiquemos em casa. É hora de protegermos nossa família, nossa comunidade e também àqueles que não têm como ficar na quarentena e estão na rua mantendo o país funcionando. É tempo de solidariedade real.
O ambiente na casa é como um acampamento de guerra. Desde há pouco mais de um mês, quando o pai sofreu duas quedas seguidas no quarto onde ainda dormia sozinho, o cenário mudou. Entendi que já não era mais possível dar a ele a autonomia do sono. Era preciso vigiar de perto. Então, como o quarto é pequeno, tive de improvisar uma cama de campanha para ficar do seu lado. Foram dias confusos. Ele sem dormir, rodando pelo quarto a noite toda, agitado, violento. Quando me via ali, do seu lado, ficava brabo. Um caos. Pouco depois rearranjei o quarto, tirei a cama de casal, botei duas de solteiro. Agora ele dorme numa e eu na outra. Mas, aí, como estava acostumado a se espalhar, ficava a noite toda quase caindo da cama. Então, mesmo quando ele dormia eu tinha de ficar vigiando para ele não cair. A solução foi juntar as camas e deixar que ele ocupe a minha quando se espalha. Ainda assim, se ele acorda e me vê do lado, é um deus nos acuda.
Tive então que desenvolver a técnica de me acordar quando ele se mexe. É só ele levantar a cabeça e eu já salto da cama para que ele não me veja ao seu lado. Por isso já me deito de roupa e tudo e sem sequer tirar o chinelo. Então, ele se levanta e sai em busca do banheiro. Mas, como acorda confuso, não sabe bem em que direção está, então vai pra qualquer lado e já tira o bilau pra fora, jorrando o líquido, bem à vontade. De vez em quando consigo guiá-lo até o vaso, mas não é sempre. Aí, desenvolvi outra técnica. Levo um baldinho e quando ele mira em outro lugar que não o vaso eu surjo, feito um fantasma, com o balde, bem onde está indo a urina. No geral consigo aparar tudo, mas sempre cai alguma coisa no chão. Então, é hora de limpar, para que não fique com mau odor. Esse acordar na madrugada é sempre uma incógnita. Além de toda a aventura do xixi tem a volta para a cama. Por vezes ele não quer voltar e aí começa todo o bailado da madrugada. Ele fica mexendo na cama, revira os lençóis, tira a fronha do travesseiro, faz uma maçaroca e fica rodeando a cama por horas. Eu tenho de ficar bem quietinha, pois se falo algo a violência explode. Agarro-me ao celular e fico vendo filme na Netflix. Ô, glória. Mas, se ele resolve sair porta afora aí o bicho pega. Ele abre a porta num átimo e se lança pelo quintal. Deus me livre se tento impedir. O que faço é seguir atrás dele, como uma sombra. Ele caminha, vai até o portão, mexe aqui e ali, roda, roda, até que volta. Nessa hora os cachorros despertam e entram pelo quarto adentro. É um furdunço danado, pois o pai fica tentando enxotá-los e eles não saem de jeito nenhum. Tenho que ir até a geladeira e pegar mortadela, para acenar para os bichos, aí eles vêm correndo e saem do quarto. É pior do que novela mexicana. Agora, com essa do isolamento, estou em casa desde sábado, sem sair. Valham-me todos os deuses do Tahuantinsuyo. Temos uma rotina que é a de sair todos os dias, quando ele começa com o mantra de “eu quero ir embora”. Nessa hora ele fica muito nervoso e precisa sair a todo custo sob pena de quebrar o portão. Aí eu abro e vou com ele até o mercado, ou dou uma volta na rua. Ele se acalma e a gente volta. Só que agora não posso fazer isso. Calculem o tamanho do problema. Vivo em estado permanente de estresse, que se amplia ainda mais por conta da falta de sono. Fora isso tem o medo do vírus, pois se ele chegar pode ser fatal para o meu velhinho. A vida na casa gira em torno dele. Há que manter a casa limpa e garantir as refeições em horários certinhos. Nos intervalos – poucos - quando ele sossega, posso ler um livro, escrever um texto, mas a concentração é bem difícil. Ainda teremos mais dias pela frente na quarentena. Cuidar do gajo em dias normais já não é bolinho, agora então, complicou. E assim vamos vivendo, enredados na atmosfera da demência e do amor. Sobreviveremos?
Quem está acostumado a ver filmes de tragédias biológicas de roliúde sabe qual é a fórmula da desgraça: governos corruptos, um maluco que fez a merda, milhões de pessoas morrendo, um pequeno grupo de heróis tentando salvar o mundo. Ao final, os heróis revertem a coisa, salvam seus ente queridos, salvam os governantes, mas os milhões que pereceram parecem não ter qualquer importância e a vida segue normal com os que sobraram. Agora, estamos vivendo como num desses filmes com o surto no novo vírus. E nada escapa do roteiro. É exatamente como na arte. Há uma parcela da população que simplesmente não importa pra ninguém. Ouvindo as orientações para a população logo se percebe que os médicos e governantes estão falando para um grupo bem específico de pessoas, excluindo A maioria. Simón Rodríguez, o educador venezuelano já anunciava lá no começo do 1800 que aos latino-americanos era preciso inventar ou morrer. Pois é disso que se trata agora. O que essa parcela gigantesca de gente, que não tem qualquer possibilidade de proteção contra o vírus, precisa fazer para sobreviver? Há que inventar. Eu gostaria de ver algum médico ou cientista dizendo a essas pessoas como reduzir os danos para não morrer na epidemia. Há milhões de pessoas que seguirão tendo de ir ao trabalho nos ônibus e trens lotados? O que fazer? Há milhares que precisarão trabalhar em espaços lotados de outros trabalhadores, sem a possibilidade de ficarem dois metros de distância. Que fazer? Milhares de pessoas ficarão infectadas em casas pequenas, apartamentos ou barracos sem condições de manter a regras de isolamento. Que fazer? Há centenas de moradores de rua, sem qualquer possibilidade de prevenção. Que fazer? E se a pessoa cuida de um velho ou de uma criança e pega o vírus, não tendo com quem deixar a pessoa cuidada, que fazer? Ou seja, é necessário que os médicos, governantes e cientistas encontrem respostas para essa gente que não se enquadra na lógica burguesa/classe média de lavar as mãozinhas, passar álcool gel e fazer isolamento social. Por que não o fazem? Porque não importam. Esse é o ponto. Sendo assim, é mais do que necessário que nós mesmos comecemos a testar formas de proteção nessas condições adversas das quais não sairemos. E aí, talvez as redes nos ajudem, com um ajudando o outro nas suas invenções. Nos espaços da produção capitalista alguns trabalhadores já estão dando o tom. Fábricas e empresas estão parando por decisão dos trabalhadores, que organizam paralisações e greves. Mas, e os serviços essenciais, que precisam ser feitos: o tratamento de água, a manutenção da energia, os trabalhadores da saúde e outros. Esses precisam se deslocar e estão à descoberto. Para eles temos de ter estratégias. Não creio que elas venham do governo ou dos cientistas que se limitam a regras genéricas. Vejam que no Brasil o presidente da nação foi o primeiro a quebrar as regras da proteção, incentivando atos públicos e compartilhando secreções com centenas de pessoas na porta do palácio, numa irresponsabilidade que pode ser considerada crime de lesa-pátria. Por isso que a proteção da massa abandonada tem de vir dela mesma. Que a gente possa compartilhar e se proteger. Porque não há ninguém por nós a não ser nós mesmos. Isso em tempos de epidemia como em qualquer tempo. Esses momentos dramáticos servem para nos fazer lembrar. A mudança do mundo está na nossa capacidade de inventar e caminhar juntos. Só a solidariedade entre os esquecidos pode nos salvar.
Desde que em 1985 um grupo de agricultores sem-terra decidiu ocupar terras da união ou improdutivas para forçar a reforma agrária que o Brasil passou a conhecer o Movimentos dos Trabalhadores Sem-Terra: o MST. Naqueles anos de fim do regime militar e de recomeço da frágil democracia brasileira, os sem-terra eram demonizados: bandidos, baderneiros, subversivos. Para a mídia comercial nada mais eram do vagabundos roubando terra alheia. E, para eles, o que estava reservado era a polícia, a prisão, a violência, a difamação. Mesmo assim, milhares de famílias que já não tinham nada a perder decidiram engrossar as fileiras do movimento e as ocupações de terra foram crescendo em todo o país. A primeira grande ocupação, a Fazenda Annoni, no interior do Rio Grande do Sul, chegou a abrigar mais de seis mil pessoas numa imensa cidade de lona, em luta e em resistência. A partir daí o Movimento só cresceu e hoje está organizado em 24 estados do país. Nesses 35 anos mais de 350 mil famílias saíram da condição de acampados sem-terra e conquistaram a terra produzindo coletivamente nos assentamentos do MST. Esse tem sido o desafio dos agricultores: produzir, apesar de todas as dificuldades que são colocadas para eles. Como é sabido o Brasil tem cantado loas para o agronegócio - que é a monocultura do grão ou o latifúndio da pecuária - mas muito pouco investe na agricultura que realmente produz comida para a mesa dos brasileiros. Cada avanço nas políticas para os pequenos produtores tem de ser conquistado na luta renhida, coisa que nunca faltou ao movimento sem-terra. E muitos dos programas que existem hoje para o pequeno produtor são fruto dessa luta. É assim que, na batalha cotidiana, o MST vai fortalecendo sua produção e suas cooperativas. Tem profunda ligação com a agroecologia e procura produzir sem o uso do agrotóxico, acabando assim com o mito de que é impossível uma agricultura em escala sem o uso de veneno. A vitória da agricultura sadia é possível de ser notada no fato de o MST ser, por exemplo, o maior produtor de arroz orgânico da América Latina. Isso não é pouca coisa. É fruto do modo de produção sustentável e solidário construído pelo movimento. Desde o ano passado que o novo governo que ocupa o executivo federal vem desmontando as políticas para a pequena e média agricultura. Isso passa pelo fim de programas de crédito e pelo investimento massivo apenas no agronegócio. A agricultura familiar está cada dia mais perdendo os poucos benefícios que conquistou. Além disso, a destruição do Incra, órgão responsável pela condução das políticas de reforma agrária, acaba por também inviabilizar a continuidade de programas que garantem novas terras para novos assentamentos. A reforma agrária, que não aconteceu em sua inteireza, segue sendo um sonho. São mais de quatro milhões de famílias sem terra querendo produzir sem ter como fazê-lo porque as terras estão concentradas nas mãos de pouco mais de dois mil grandes proprietários. E é justamente para mostrar como a reforma agrária pode dar certo que o MST realiza sistematicamente suas Feiras Estaduais visando dialogar com os trabalhadores urbanos sobre a importância da produção de comida saudável. Assim, quando chega o tempo da feira, o movimento vem para a cidade e finca suas bandeiras no espaço urbano para vender os alimentos e para discutir em profundidade com parceiros e sociedade em geral temas como agroecologia, reforma agrária e soberania alimentar. Nesse ano de 2020 a Feira Estadual acontece nos dias 16, 17 e 18 de abril, no largo da Alfândega da capital. O lançamento da proposta foi feito na Assembleia Legislativa, em Florianópolis, nesta quarta-feira, dia 11 de março, e contou com a presença de autoridades, sindicalistas, movimentos social urbano e apoiadores. Foi tempo de discutir a nova conjuntura que se apresenta e mostrar os frutos colhidos pelas lutas e pela organização dos trabalhadores sem-terra. O processo de destruição das conquistas sociais está em curso e é mais do que hora da união do campo e da cidade. O MST sempre esteve nessa batalha, compreendendo que muitos dos sem-teto urbanos são companheiros que tiveram de deixar o campo, as cidades do interior, para buscar uma forma de sobreviver nos grandes centros. Por isso, cada dia mais, a aliança operário/camponês se faz necessária. Os trabalhadores, juntos, construindo o mundo novo, que não é o do capitalismo reformado, mas o do socialismo.
O Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra esteve nessa quarta-feira (11 de março) na Ocupação Marielle Franco, onde famílias sem-teto lutam por moradia. Os trabalhadores do campo foram prestar solidariedade concreta aos moradores auxiliando na construção de caminhos e também plantando árvores frutíferas e ornamentais. Eles ainda fizeram um recorrido por outras ocupações e comunidades de periferia da capital conhecendo a realidade e dialogando com os moradores. Assim como os moradores das ocupações urbanas, os trabalhadores rurais, a maioria acampados, também lutam pelo direito à terra, seja para plantar ou morar. Por isso, o MST decidiu realizar esse encontro visando a troca de experiências para que cada grupo - urbano e rural - possa melhor compreender a situação de cada luta. No sábado, os trabalhadores do campo juntam-se novamente aos trabalhadores urbanos e às comunidades de ocupação para a realização da Caminhada de Justiça por Marielle Franco, a vereadora carioca cujo assassinato ainda não foi devidamente desvendado. A caminhada sai da ocupação Marielle, no alto da Caieira do Saco dos Limões, passa pela comunidade do Mont Serrat e segue pelo centro até a Catedral. Ela também lembra os 30 anos da primeira Romaria da Terra realizada em conjunto pelos Sem-Terra e os Sem-Teto na capital catarinense realizada em 1990, justamente num período no qual as ocupações urbanas estavam em ascensão. Morar com dignidade e ter o espaço para produzir comida parece algo cada vez mais distante dentro do processo de produção capitalista. Mas, ainda assim, as gentes se movem, lutam e avançam. Sabem que não haverá transformação dentro do capitalismo, por isso discutem e constroem a possibilidade de uma outra sociedade na qual nem a casa nem a terra sejam objetos de especulação. É uma batalha dura e demorada, mas cada passo do caminho vai palmilhando a estrada para o mundo novo.
O Movimento dos Trabalhadores Sem Terra está realizando uma série de atividades na capital, Florianópolis. E a principal delas é a articulação com o Movimento pela Moradia, com a visita às ocupações, as rodas de conversa e a participação da caminhada que acontece no sábado, lembrando os 30 anos da primeira grande Romaria realizada entre o MST e o o Movimento pela Moradia. Um trabalho sistemático que vem sendo feito e que volta a se aprofundar em função da nova leva de ocupações urbanas e o desmonte das políticas para os assentamentos que tem produzido novos sem-terra. A aliança campo e cidade se fortalece.
A caminhada de sábado sai da Ocupação Marielle às 9h e 30min, atravessa o Mont Serrat e se concentra na frente da Catedral. Será mais um momento histórico importantíssimo de união das lutas rurais e urbanas. Há 30 anos, com a presença de Dom José Gomes, o MST e as ocupações iniciavam esse caminho. Passadas três décadas, a uião segue sendo a receita para enfrentar o capital.
O jornalismo é um fazer que, segundo o teórico Adelmo Genro Filho, deveria ser uma forma de conhecimento capaz de transitar entre o singular, o particular e o universal. Ou seja, aquilo que é único no acontecimento, sendo mostrado na relação com o todo. Só assim o leitor, espectador ou ouvinte poderá compreender o que realmente aconteceu, porque terá à sua disposição toda atmosfera do fato. A universalidade. Fazer jornalismo assim não é para qualquer um. Precisa estofo. Isso significa que a pessoa que escreve, narra e descreve, tem de carregar dentro de si uma boa bagagem intelectual. Há que ter lido muita literatura, muitos livros de história, há que conhecer em profundidade os grandes dramas do seu espaço geográfico, há que ter capacidade de descrição profunda da realidade. Podemos pensar que atualmente os cursos de jornalismo não oferecem essa bagagem. A formação intelectual desapareceu. Muitos deles se tornaram meros repassadores de técnicas e tecnologias. Assim, podemos encontrar entre os recém-formados gente que sabe tudo sobre os novos softwares comunicacionais, mas é incapaz de fazer uma boa pergunta. E repórteres, senhores, já diria Acácio Ramos, são seres que perguntam. O que temos, na verdade, são os carregadores de voz. O jornalismo dos grandes meios comerciais já não se preocupa em narrar e descrever a realidade. E vamos ser honestos, entre os veículos alternativos a coisa anda por aí também. Basta dizer o que o outro disse. Segundo fulano, segundo beltrano. E nada de investigação, e nada de análise. Não importa. A informação é só uma sensação. Tampouco importa se o que o fulano disse é verdade. Se o fulano é autoridade, então, falou tá falado. Foi-se o tempo em que o jornalista escarafunchava arquivos em busca da verdade. Hoje não há tempo. A informação é pássaro fugaz. E a verdade é igualmente fluida. Não é sem razão que o presidente do Brasil ataca os jornalistas. Ele grita em alto e bom som que o jornalismo mente. E ao fazer isso está apenas expressando uma opinião que já está consolidada nos brasileiros. Por isso os seus seguidores aplaudem as patacoadas que ele faz com o grupo que está em frente ao palácio para mostrar – sem crítica ou análise – as suas atitudes. O jornalismo palaciano é uma farsa. E o presidente sabe disso. Por isso brinca e tripudia. Sabe que dali não sairá qualquer reportagem digna de nota. Sabe que os que ali estão apenas repercutirão seus gestos, ou uma frase infeliz. Não haverá consistência nem narrativa crítica sobre o governo em si, sobre os dramas da nação ou sobre as entranhas podres do poder. É um jornalismo do tipo “Caras”, voltado ao exótico, ao engraçado. É um jornalismo conivente, amigo, ajoelhado diante do poder. Quem não se lembra das corridas do presidente Collor, com os jornalistas correndo junto, ofegantes, alegres por mostrarem a nova frase que o presidente ostentava na camiseta? Tudo segue como dantes no quartel de Abrantes. Houvesse realmente jornalismo correndo nas veias dos que fazem a cobertura presidencial, eles haveriam que sair da frente do palácio e entrar. Vasculhar as gavetas, sob o tapete, manipular os papéis, os decretos, os projetos, contar ao povo o que se está armando contra ele. E se fossem impedidos, teriam de encontrar formas de encontrar a verdade que se esconde sob a lógica das piadas, das grosserias, da estupidez. O show diário da presidência é um esconderijo de verdades. E os jornalistas palacianos ficam ali, observando o que não existe, enquanto que o que existe, de fato, continua invisível para a maioria. O jornalismo precisa deixar a opinião pública informada sobre a essência das coisas, não sobre a aparência. O jornalismo é espaço de fatos concretos, não de sensações. O jornalismo é a análise apurada do dia. Ou isso, ou nada. É só uma algaravia sem sentido que muito bem serve a quem quer embotar os sentidos. Há quem defenda os profissionais que seguem se submetendo aos vexames diários em frente ao palácio. Eu não. Existem sapos que temos de engolir para poder sobreviver num mundo no qual só temos nossa força de trabalho para vender. Sim, é verdade. Mas, momentos há que os limites se impõe. É bem conhecida a lenda de que no mundo das trabalhadoras do sexo há uma regra a ser seguida: se aceita tudo, menos beijo na boca. Porque o beijo é algo íntimo demais, só oferecido ao amor. Assim no jornalismo. Podem-se engolir sapos ao longo da vida para se garantir um emprego, mas coisas há que não são admissíveis. É o beijo na boca. E aí, há que dizer não, ainda que se nos custe a vida. Mas, essa decisão de honra não é fácil de ser tomada. Ainda assim, há que recusar o jornalismo de sensações e recolocar essa profissão nos trilhos, ou ela perecerá como vaticina o presidente. Destapar a verdade que os poderosos querem ver escondida. Informar ao público sobre o que lhe cabe. Produzir conhecimento. É tempo de desalambrar, colegas, romper as cercas, desalambrar...
Elaine Tavares. Jornalista. Humana, demasiado humana. Filha de Abya Yala, domadora de palavras, construtora de mundos, irmã do vento, da lua, do sol, das flores. Educadora, aprendiz, maga. Esperando o dia em que o condor e a águia voarão juntos,inaugurando o esperado pachakuti. Contato: eteia@gmx.net / tel: (48) 99078877
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Este é o pressuposto teórico básico do jornalismo praticado pela autora deste blog. Seguindo a senda da Filosofia de Libertação, que busca olhar o mundo a partir do olhar da comunidade das vítimas do sistema capitalista, o jornalismo de libertação se compromete em narrar a vida que vive nas estradas secundárias, nas vias marginais. O jornalismo de libertação não é neutro nem imparcial. Ele se compromete com o outro oprimido e trata de, na singularidade do fato, chegar ao universal, oferecendo ao leitor toda a atmosfera que envolve o assunto tratado. (Jornalismo nas Margens. Elaine Tavares. 2004)
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